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quinta-feira, 9 de abril de 2026

"Deriva VIII" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Federico Cervelli (Italian painter, 1745–1827),
Orpheus
and Eurydice, n.d.


Deriva VIII


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

1982

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Navegações, 1983.

[Sophia atravessou o mar até Macau e o que viu a poetisa viajante está no livro "Navegações", do qual faz parte os versos de "Deriva VIII".] 

 

Christian Gottlieb Kratzenstein Stub (Danish painter, 1783–1816),
Orpheus and Eurydice
, 1806.

 

Ary Scheffer (Dutch-French Romantic painter, 1795–1858),
Orpheus Mourning the Death of Eurydice, 1814.


sábado, 5 de julho de 2025

"Surpresas" - Poema de Mário Quintana



Ary Scheffer (Dutch-French Romantic painter, 1795–1858), The Death of Géricault
(French painter and lithographer, 1791–1824), 1824,
Louvre Museum.


Surpresas


Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores,
Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas,
Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres.
Ou bravias como as pequenas rosas-silvestres.

As mãos da morte, as suas mãos não têm anéis,
Sua virgem nudez não comporta o peso de uma joia,
Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,
Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.

Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,
Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado! 


Mário Quintana, in Esconderijos do Tempo,
Porto Alegre, L&PM, 1980.
 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

"Morrer de Amor" - Poema de Maria Teresa Horta



Anselm Feuerbach
(German painter, 1829–1880), Francesca da Rimini
and Paolo Malatesta
, c. 1864, Schack Collection.
 


Morrer de Amor 


Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso 


Maria Teresa Horta
, in “Destino”, 1998
 Quetzal Editores
 
 

Ernst Klimt (Austrian history painter and decorative painter, 1864–1892),
Francesca da Rimini and Paolo
, c. 1890, Belvedere.


"Sempre existe no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um deserto, seja no meio das grandes cidades. E quando estas pessoas se cruzam, e seus olhos se encontram, todo o passado e todo o futuro perde qualquer importância, e só existe aquele momento, e aquela certeza incrível de que todas as coisas debaixo do sol foram escritas pela mesma Mão. A Mão que desperta o Amor, e que fez uma alma gémea para cada pessoa que trabalha, descansa e busca tesouros debaixo do sol. Porque sem isto não haveria qualquer sentido para os sonhos da raça humana." 

Paulo Coelho, Trecho do livro 'O Alquimista'


Jean-Auguste Dominique Ingres (French Neoclassical painter, 1780–1867), 
Gianciotto discovers Paolo and Francesca, 1819, Musée Bonnat-Helleu.
 
 
 Francisca de Rímini

Francesca da Rimini ou Francisca da Polenta (Ravena, 1255 – Gradara, 1285) foi uma nobre medieval italiana, filha de Guido da Polenta, governante de Ravena, fonte de inspiração de Dante Alighieri, que a retratou na Divina Comédia

Francesca da Rimini provavelmente nasceu na cidade de Ravena, sendo conhecida pela sua beleza. Seu pai, Guido da Polenta era o governante da cidade e estava em guerra com a família Malatesta, de Rimini. Quando as famílias negociaram um acordo de paz, por conveniência, Guido concedeu Francesca em casamento para Giovanni Malatesta (Gianciotto), o filho mais velho de Malatesta da Verucchio, lorde de Rimini. Giovanni era um homem culto, porém de péssima aparência e tinha o corpo deformado. Guido sabia que Francesca não concordaria com o casamento de modo que ele foi realizado por procuração através do irmão mais novo, Paolo Malatesta , que era jovem e bonito. Francesca e Paolo não demoraram a se apaixonar.
De acordo com Dante, Francesca e Paolo foram seduzidos pela leitura da história de Lancelote e Ginevra, e se tornaram amantes. Posteriormente foram surpreendidos e assassinados por Giovanni. Dante utilizou o romance de Lancelot, a fim de caber no âmbito do regime de amor poesia lírica, que emula Francesca no Canto V do Inferno.  O nome "Francesca" se tornou popular entre os aristocratas. (daqui)
 
 

Alexandre Cabanel (French painter, 1823–1889), The death of Francesca da Rimini 
and Paolo Malatesta, 1870, Musée d'Orsay.
 


Ary Scheffer (Dutch-French Romantic painter, 1795–1858), Francesca da Rimini and Paolo Malatesta