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quinta-feira, 7 de maio de 2026

"Ah, abram-me outra realidade!" - Poema de Álvaro de Campos



Paul Signac (French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Capo di Noli', 1898, oil on canvas, 93.5 × 75 cm,
Wallraf–Richartz Museum, Cologne.


Ah, abram-me outra realidade!


Ah, abram-me outra realidade! 
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos 
E ter visões por almoço. 
Quero encontrar as fadas na rua! 
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, 
Desta civilização feita com pregos. 
Quero viver como uma bandeira à brisa, 
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram. 
Meu coração verdadeiro continuará velando 
Pano brasonado a esfinges, 
No alto do mastro das visões 
Aos quatro ventos do Mistério. 
O Norte — o que todos querem 
O Sul — o que todos desejam 
O Este — de onde tudo vem 
O Oeste — aonde tudo finda 
— Os quatro ventos do místico ar da civilização 
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo.

04-04-1929

Álvaro de Campos, in 'Livro de Versos' - Fernando Pessoa.
(Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.)
Lisboa: Estampa, 1993. - 99.


Paul Signac
(French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Portrait of Félix Fénéon' (French art critic, gallery director, writer
and anarchist, 1861–1944), 1890, Museum of Modern Art.



Neoimpressionismo

O Neoimpressionismo foi um movimento artístico  do final do século XIX, iniciado pelo pintor francês Georges Seurat (18591891), que, retomando a atenção dada pelo impressionismo ao tratamento da luz e da cor, introduziu novas técnicas e conceitos, como o Pontilhismo ou o Divisionismo. (daqui)

Pós-impressionismo

O Pós-impressionismo  foi um movimento artístico que, entre o final do século XIX e o início do século XX, procurou superar o Impressionismo, contribuindo para o despontar de diferentes vanguardas como o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, etc. (daqui) 

O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat (18591891) foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac (1863–1935). 

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra 'Grande Jatte', realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent van Gogh (18531890) Paul Gauguin (1848–1903) contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.
Paul Cézanne (1839–1906) desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. 
(daqui)


Paul Signac, 'In the Time of Harmony: the Golden Age is not in the Past, it is in the Future'
('Au temps d'harmonie'), 
1893–95, oil on canvas, 310 x 410 cm.


sábado, 10 de setembro de 2022

"O Voo" - Poema de Menotti Del Picchia



Charles Angrand (French artist, 1854–1926), The Western Railway at its Exit from Paris, 1886 
 


O Voo


Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e
de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.

 
 "O Deus sem Rosto", de 1968.
 

Charles Angrand (French artist, 1854–1926), Couple in the street, 1887,
Musée d'Orsay, canvas, 38.5 x 33.0 cm.  
 

Neoimpressionismo é um termo criado pelo crítico de arte francês Félix Fénéon (1861-1944) em 1886 ao ver a obra Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Georges Seurat (1859-1891), considerado líder do período, em uma exposição da Société des Artistes Indépendants (Salon des Indépendants) em Paris. A França passava por um período de avanços tecnológicos e os pintores estavam buscando novos métodos. Os seguidores do neoimpressionismo, em particular, foram atraídos para cenas urbanas modernas, bem como paisagens e praias. A interpretação baseada na ciência de linhas e cores influenciou a caracterização de sua arte. As técnicas pontilhistas e divisionistas são muitas vezes mencionadas ao se falar neste movimento, pois eram as técnicas dominantes em seu início. (Daqui )    

 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Vírgula" - Poema de António Maria Lisboa


Georges Seurat, 1889-90, Le Chahut, óleo sobre tela, 170 x 141 cm, 


Vírgula 


Eu menino às onze horas e trinta minutos 
a procurar o dia em que não te fale 
feito de resistências e ameaças — Este mundo 
compreende tanto no meio em que vive 
tanto no que devemos pensar. 

A experiência o contrário da raiz originária aliás 
demasiado formal para que se possa acreditar 
no mais rigoroso sentido da palavra. 

Tanta metafísica eu e tu 
que já não acreditamos como antes 
diferentes daquilo que entendem os filósofos 
— constitui uma realidade 
que não consegue dominar (nem ele próprio) 
as forças primitivas 
quando já se tem pretendido ordens à vida humana 
em conflito com outras surge agora 
a necessidade dos oásis perdidos. 

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo 
e a custo na imensidão da desordem 
a que terão de ser constantemente arrancadas 
— são da máxima importância as velhas concepções pois 
a cada momento corremos grandes riscos 
desconcertantes e de sinistra estranheza. 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. 
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano 
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem 
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos. 


 in "Ossóptico e Outros Poemas"


terça-feira, 11 de junho de 2013

"Se as penas com que Amor tão mal me trata" - Soneto de Luís Vaz de Camões


Edmond Aman-Jean (French painter, 1858-1936), Young Girl with Peacock, 1895



Se as penas com que Amor tão mal me trata 


Se as penas com que Amor tão mal me trata 
Permitirem que eu tanto viva delas, 
Que veja escuro o lume das estrelas, 
Em cuja vista o meu se acende e mata; 

E se o tempo, que tudo desbarata, 
Secar as frescas rosas, sem colhê-las, 
Deixando a linda cor das tranças belas 
Mudada de ouro fino em fina prata; 

Também, Senhora, então vereis mudado 
O pensamento e a aspereza vossa, 
Quando não sirva já sua mudança. 

Ver-vos-eis suspirar por o passado, 
Em tempo quando executar-se possa 
No vosso arrepender minha vingança. 


Luís Vaz de Camões
, in "Sonetos"


Portrait of French painter Edmond Aman-Jean, c. 1918
 

Edmond François Aman-Jean (13 de janeiro de 1858 - 23 de janeiro, 1936) foi um pintor simbolista,  francês, que co-fundou o Salon des Tuileries, em 1923.
Ele nasceu em Chevry-Cossigny, uma pequena aldeia na junção dos rios Sena e Marne, a cerca de três quilómetros de Paris. Iniciou seus estudos de arte com Henri Lehmann na École des Beaux-Arts em 1880, e mais tarde estudou com Pierre Puvis de Chavannes
Edmond Aman-Jean tornou-se um importante professor. Foram seus alunos  Sydney Charles Hopkinson, Theodor Pallady, e Nicolae Tonitza. 
A boa reputação artística devia-se principalmente aos seus retratos do sexo feminino. Também era conhecido por seus murais em edifícios públicos e oficiais, incluindo Sorbonne.
Como muitos artistas franceses de sua geração, ele foi influenciado pelas novas perspetivas sobre a arte japonesa em Paris, e, mais raramente, estava interessado nos artistas pré-rafaelitas na Inglaterra. Aman-Jean era um amigo próximo de Georges Seurat e  os dois artistas compartilharam um estúdio de Paris em 1879. O retrato de Seurat foi descrito como "um dos grandes retratos do século XIX", após a exposição no Salão de Paris, em 1883.


Georges SeuratPortrait of Edmond Aman-Jean, shown at the 1883 Salon.
 
 
Self-portrait of French painter Edmond Aman-Jean, (date unknown)


Edmond Aman-Jean, Printemps, 1890


Portrait of a Woman, oil painting by Edmond François Aman-Jean, 1891, 
Cleveland Museum of Art


Edmond Aman-Jean, Hesiod Listening to the Inspiration of the Muse, France, c. 1890


Edmond Aman-Jean, The Mirror in the Vase, 1905


Edmond Aman-Jean, Portrait of a Japanese Woman (Mrs. Kuroki), 1922


Edmond Aman-Jean, Miss Ella Carmichaël, 1906


Edmond Aman-Jean, Portrait de Mademoiselle V. G., 1907, Salon de 1908


Edmond Aman-Jean, Intimacy, 1901


Edmond Aman-Jean, Confidence, 1903


Edmond Aman-Jean, Women Reading, 1922


Edmond Aman-Jean, Femme en robe rose, 1898, Musée des Beaux-Arts de Dijon


Edmond Aman-Jean, Rêverie,  Musée des Beaux-Arts de Dijon


Edmond Aman-Jean, Sous les Orangers, femme à Amalfi, Collection particulière


Edmond Aman-Jean, Woman with glove, circa 1900 - 1902

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Viver sempre também cansa" - Poema de José Gomes Ferreira


Georges Seurat, "A Sunday on La Grande Jatte", 1884-1886
 
 

Viver sempre também cansa


Viver sempre também cansa. 

O sol é sempre o mesmo e o céu azul 
ora é azul, nitidamente azul, 
ora é cinzento, negro, quase-verde... 
Mas nunca tem a cor inesperada. 

O mundo não se modifica. 
As árvores dão flores, 
folhas, frutos e pássaros 
como máquinas verdes. 

As paisagens também não se transformam. 
Não cai neve vermelha, 
não há flores que voem, 
a lua não tem olhos 
e ninguém vai pintar olhos à lua. 

Tudo é igual, mecânico e exato. 

Ainda por cima os homens são os homens. 
Soluçam, bebem, riem e digerem 
sem imaginação. 

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano morrer por um bocadinho,
de vez em quando, e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira, in 'Viver Sempre também Cansa'
Porto, 9 de Junho de 1900 - Lisboa, 8 de Fevereiro de 1985
Foi um escritor e poeta português