Mostrar mensagens com a etiqueta Federico Zandomeneghi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Federico Zandomeneghi. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de março de 2026

"As raparigas lá de casa" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

 

 
Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917), 
The Two Sisters, 1895. Oil on canvas.

As raparigas lá de casa


Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa. 


Emanuel Félix Borges da Silva,
in "Habitação das Chuvas", 1997.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"Perdi-me por amor" - Poema de José Agostinho Baptista


 
Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917),
The last chance, c. 1890.
 

Perdi-me por amor


Perdi-me por amor,
fui aquele que procurava a casa do coração e
a luz, mas agora,
prisioneiro da bruma, junto ao altar,
penso
nas manhãs em que voava para longe,
ao lado dos irmãos.

Penso em quase todas as flores que vi nos
canteiros do céu,
penso nas mãos que estendiam as formas do
centeio e do trigo
para a minha boca.

E os meus olhos que viram os deslumbrantes
cristais do mundo
baixaram as suas pálpebras sobre a noite da
terra,
sobre os sepulcros abertos.

Não sei onde sepultarão os meus ossos,
onde soltarão ao vento as minhas cinzas.
Sei apenas que perdurarei no murmúrio dos
teus lábios
e nas pedras onde me sentei e chorei.

Pouco tempo me resta para contar aos filhos
que não tive
o fulminante desejo das viagens.
E hoje,
entre estas quatro paredes de cal mutilada,
quando chove por dentro, para sempre,
só te posso dizer adeus.


José Agostinho Baptista, in 'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004.
 

domingo, 13 de janeiro de 2013

"A Demora" - Poema de Mia Couto



Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917),
Lady in a Meadow, 1893, Private collection.
 

A Demora 


O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero. 

Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias. 

Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues. 

Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede. 

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti. 

O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar.


in "idades cidades divindades" 


Pinturas de Federico Zandomeneghi
Federico Zandomeneghi, Ragazza che raccoglie fiori (Girl picking flowers)
 

Federico Zandomeneghi, Reverie
 

Federico Zandomeneghi, Reading by a Window
 

Federico Zandomeneghi, Matilde, 1910
 

Federico Zandomeneghi, Portrait of a Young Beauty, Private Collection
 

Federico Zandomeneghi, Allo specchio
 

Federico Zandomeneghi, Hommage à Toulouse-Lautrec, 1917
 

Federico Zandomeneghi, The Reader, 1897
 

Federico Zandomeneghi, La lettrice (Teresa Martelli a Castiglioncello), 1865
 

Federico Zandomeneghi, The Reader, c. 1885, Private Collection
 

Federico Zandomeneghi, Languor, c. 1890
 

Federico Zandomeneghi, Mother and Daughter, 1879
 

 Federico Zandomeneghi, Tête de femme, 1892
 

  Federico Zandomeneghi, L'Amico Fedele, 1874

"Ausência" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917),
Il violoncellista, 1879


Ausência 


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'
 

Pinturas de Federico Zandomeneghi
Federico Zandomeneghi, Il risveglio (Femme qui s'étire), 1895


Federico Zandomeneghi, In Bed, 1878


Federico Zandomeneghi, Reflection, c. 1895


Federico Zandomeneghi, Woman leaning on a chair


Federico Zandomeneghi, Promenade, c. 1890


Federico Zandomeneghi, Young Girl Reading


Federico Zandomeneghi, Young Girl Reading


Federico Zandomeneghi,  Le tub


Federico Zandomeneghi, Le tub


Federico  Zandomeneghi, Studio de nuca


Federico Zandomeneghi, Visita in camerino, 1886



Federico Zandomeneghi, Il ricciolo (La toilette), c. 1894/1905

"Humano peso" - Poema de Carlos Nejar



Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917), The Red Roof, 1897


Humano peso

 
Os sonhos não os têm só quem navega
ou tenta navegar no vento aceso,
mas quem por  entre abismos fica ileso
como se flutuasse numa verga

e as âncoras baixassem na tristeza
ou tristes conduzíssemos o peso,
mais a desolução da carne, a intensa
gravidade das coisas, homem preso

ao mínimo das águas, desatento
aos astros, aos planetas e se alterna
mas é somente febre disparada.

O sonho, o frágil corpo, os elementos
navegam as mudanças subalternas
e os nadas de espuma, em puro nada.


Carlos Nejar
, in “Amar, a mais alta constelação”.
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1991.


Pinturas de Federico Zandomeneghi
Federico Zandomeneghi 

Federico Zandomeneghi (Veneza, 2 de junho de 1841 — Paris, 31 de dezembro de 1917) é um dos poucos pintores italianos que aderiram às ideias e técnicas do impressionismo. Nascido em Veneza, começou a pintar na oficina do pai, que era escultor. Depois juntou-se ao grupo dos Macchiaioli. Resolveu então trabalhar sozinho e ficou durante oito anos em sua cidade natal, mudando-se depois para Paris. Lá conheceu Edgar Degas, que influenciou profundamente sua pintura. Seu estilo transformou-se definitivamente, ao adotar as formas impressionistas.
Os temas mais frequentes de seus quadros são as cenas ao ar livre e os retratos femininos, num estilo muito semelhante ao de seu amigo Degas.


Federico Zandomeneghi, Casetta a Montmartre, 1879 


Federico Zandomeneghi, Le Moulin de la Galette, 1878 


 Federico Zandomeneghi, Place du Tertre a Parigi, 1880


Federico Zandomeneghi, La Strada.


Federico Zandomeneghi, Palazzo Pretorio, 1865


Federico Zandomeneghi, Moulin de la Galette, 1878


Federico Zandomeneghi, I poveri sui gradini dell'Aracoeli in Roma 
(Impressionni di Roma), 1872


Federico Zandomeneghi, Place d'Anvers, Paris, 1880


Federico Zandomeneghi, Parc Monceau


Federico Zandomeneghi, Terrazzasul Boulevard, c. 1880


Federico Zandomeneghi, Il Café de la Nouvelle Athènes, 1885


Federico Zandomeneghi, At the Theater, c. 1890


Federico Zandomeneghi, Il tè, c. 1892


Federico Zandomeneghi, Nature morte, pommes, 1917


Os Portugueses

“Que o português médio conhece mal a sua terra – inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio – é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la.”

“Citar um autor nacional, um contemporâneo, um amigo ou inimigo, porque nele se aprendeu ou nos revimos com entusiasmo, é, entre nós, uma raridade ou uma excentricidade como usar capote alentejano. A referência nobre é a estrangeira por mais banal que seja, e quem se poderá considerar isento de um reflexo que é, por assim dizer, nacional?”

“Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou coletivo.”

“Mas seja qual for a interpretação ideológica de Camões, não é possível, para ninguém, separar o seu canto épico da apologia histórica de um povo enquanto vanguarda de uma fé ameaçada na Europa do tempo e de um império igualmente guarda-avançada da expressão comercial e guerreira do Ocidente. É essa a «matéria» textual e moral do Poema.”

“Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.”

Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Gradiva, 2005.