Mostrar mensagens com a etiqueta Romantismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romantismo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de junho de 2015

"A Lua de Londres" - Poema de João de Lemos


John Atkinson Grimshaw (British, 1836-1893), Reflections on the Thames, Westminster, London, 1880.



A Lua de Londres


É noite. O astro saudoso 
rompe a custo um plúmbeo céu, 
tolda-lhe o rosto formoso 
alvacento, húmido véu, 
traz perdida a cor de prata, 
nas águas não se retrata, 
não beija no campo a flor, 
não traz cortejo de estrelas, 
não fala de amor às belas, 
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos 
onde os deixaste ficar? 
Deixaste-os nos arvoredos 
das praias de além do mar? 
Foi na terra tua amada, 
nessa terra tão banhada 
por teu límpido clarão? 
Foi na terra dos verdores, 
na pátria dos meus amores, 
pátria do meu coração!

Oh! que foi!... Deixaste o brilho 
nos montes de Portugal, 
lá onde nasce o tomilho, 
onde há fontes de cristal; 
lá onde viceja a rosa, 
onde a leve mariposa 
se espaneja à luz do Sol; 
lá onde Deus concedera 
que em noite de Primavera 
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas 
talvez há pouco o país 
onde do bosque as madeixas 
já têm um flóreo matiz; 
amaste do ar a doçura, 
do azul e formosura, 
das águas o suspirar. 
Como hás-de agora entre gelos 
dardejar teus raios belos, 
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima, 
do Mondego os salgueirais; 
quem andou por Tejo acima, 
por cima dos seus cristais; 
quem foi ao meu pátrio Douro 
sobre fina areia de ouro 
raios de prata esparzir 
não pode amar outra terra 
nem sob o céu de Inglaterra 
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa 
tens aqui; mas Deus igual 
não quis dar-lhe essa lindeza 
do teu e meu Portugal. 
Aqui, a indústria e as artes; 
além, de todas as partes, 
a natureza sem véu; 
aqui, ouro e pedrarias, 
ruas mil, mil arcarias; 
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo, 
estátuas, praças sem fim 
retalham, cobrem o solo, 
mas não me encantam a mim. 
Na minha pátria, uma aldeia, 
por noites de lua cheia, 
é tão bela e tão feliz!... 
Amo as casinhas da serra 
com a Lua da minha terra, 
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade, 
padecemos igual dor; 
temos a mesma saudade, 
sentimos o mesmo amor. 
Em Portugal, o teu rosto 
de riso e luz é composto; 
aqui, triste e sem clarão. 
Eu, lá, sinto-me contente; 
aqui, lembrança pungente 
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo, 
voltemos aos puros céus. 
Leva-me, ó Lua, contigo, 
preso num raio dos teus. 
Voltemos ambos, voltemos, 
que nem eu nem tu podemos 
aqui ser quais Deus nos fez; 
terás brilho, eu terei vida, 
eu já livre e tu despida 
das nuvens do céu inglês. 


em 'Impressões e Recordações " 


John Atkinson Grimshaw, The Pool and London Bridge at Night, 1884


“O que seriam os desertos da vida sem as brilhantes miragens dos nossos pensamentos!”

quinta-feira, 25 de junho de 2015

"Carta a Meus Filhos: Os Fuzilamentos de Goya" - de Jorge de Sena


Francisco de Goya, "O  3 de Maio de 1808", 1814Óleo sobre tela, Museu do Prado, em Madrid



Carta a Meus Filhos

Sobre os Fuzilamentos de Goya



Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena



Francisco de Goya"O 2 de Maio de 1808", 1814, em Madrid (La Carga de los Mamelucos)
Museu do Prado, em Madrid



"Os fuzilamentos do 3 de Maio", de Francisco Goya
Análise da Obra

O quadro "O  3 de Maio de 1808" foi pintado por Francisco de Goya em 1814, seis anos depois da dramática situação que narra, um dos momentos mais simbólicos da resistência espanhola à invasão das tropas de Napoleão Bonaparte. A obra é também conhecida como, "Os fuzilamentos da montanha do Príncipe Pio" ou "Os fuzilamentos de três de Maio", nome pelo qual é habitualmente conhecido.
A este quadro liga-se um outro, "O 2 de Maio de 1808" (pintado igualmente em 1814), que relata o primeiro episódio deste acontecimento, ocorrido na véspera, e presumivelmente presenciado pelo pintor. Na manhã de 2 de maio, o tenente de Napoleão, o general Murat, seguido por uma coluna de cavalaria, foi atacado por um grupo de populares armados, enquanto atravessava a Porta do Sol em Madrid. Tendo rapidamente controlado a situação, os franceses, como represália pelo levantamento popular, ordenaram o fuzilamento de inúmeros civis. Estes massacres tiveram lugar durante do dia seguinte, em vários pontos da cidade, junto ao Convento de Jesus, no Bom Retiro, na Casa de Campo, em Santa Bárbara, na Porta de Segóvia e na montanha do Príncipe Pio, entre outros locais.
Anteriormente à ocupação francesa Goya mantinha alguma simpatia pelas ideias liberais, embora fosse pintor da corte. Para este artista a chegada do exército de Napoleão e a consequente queda da monarquia pareceu representar, num primeiro momento, a possibilidade de introdução do liberalismo no seu país. No entanto, o carácter destruidor que esta ocupação assumiu, associada a sangrentos massacres, frustraram qualquer esperança de libertação.
Os horrores e sofrimentos provocados pelos confrontos entre espanhóis e franceses durante a guerra, aos quais Goya teve oportunidade de assistir de forma direta, foram temas que o atormentaram e contribuíram para que, próximo do final da sua carreira, se tornasse pessimista e cínico relativamente à capacidade de destruição e ao ódio que a espécie humana era capaz de alimentar.
Antecedendo estas duas pinturas, a série de gravuras "Desastres de la Guerra" (desastres da guerra), realizada sem 1810, condensa uma abordagem ainda mais acutilante e emotiva relativamente a este momento de loucura da humanidade.
Após a expulsão dos invasores franceses e restaurada a monarquia, Goya conseguiu que o novo governo regente lhe atribuísse um subsídio financeiro para a realização das duas telas comemorativas dos brutais massacres.
O quadro "O 3 de Maio de 1808" apresenta dimensões (266 por 406 centímetros), temática e estilo que lhe imprimem um impacto impressionante. A técnica utilizada, de caráter marcadamente expressionista, caracteriza-se por pinceladas rápidas e espontâneas, pela liberdade e violência do cromatismo e pelos barroquizantes e dramáticos contrastes de luz e sombra. Anunciada por alguns quadros anteriores, esta linguagem expressiva marcaria o derradeiro período criativo do pintor, aquele que mais profundamente o liga ao movimento romântico, do qual constituiu um dos mais brilhantes representantes.
Representando uma cena noturna, a composição apresenta dois setores, a coluna de soldados franceses, imersos numa sombra acentuada pela frieza das cores, que contrasta com o grupo de condenados, inundados por uma intensa luz definidora de flamejantes amarelos e vermelhos. O ponto focal do quadro é precisamente a camisa branca de um dos condenados.
Os quadros "O 2 de Maio de 1808"O 3 de Maio de 1808", executados a óleo, sobre tela, encontram-se expostos no Museu do Prado, em Madrid.

O 3 de maio de 1808. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

"O Horror de ser Pobre" - Poema de Bertolt Brecht



Marià Fortuny i Marsal (Pintor e gravador catalão, 1838-1874),
 Viejo desnudo al sol, 1871, Museu do Prado.



O Horror de ser Pobre


Risco c'um traço
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes não me verão
Nunca mais
Olhar com azedume.

O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do público
Arruína o espinhaço.

O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe para o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe para onde há de ir.
O céu é o seu teto, e chove-lhe lá para dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.
in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela


Marià Fortuny i Marsal, Autorretrato, 1858.


Marià Fortuny i Marsal, nome completo Mariano José Maria Bernardo Fortuny y Marsal (Reus, Espanha, 11 de junho de 1838 – Roma, 21 de novembro de 1874), foi um pintor e gravador catalão, considerado com Eduardo Rosales, como um dos pintores espanhóis mais importantes do século XIX depois de Goya.
Seu incentivador foi o avô e seu mestre, o pintor Domènec Soberano.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Esta Palavra Saudade" - Poema de Gonçalves Crespo


Francesco Hayez (Pintor italiano, 1791–1881), The Kiss, 1859,
 Pinacoteca di Brera, Milan. (Exemplar de Pintura romântica)

 

Esta Palavra Saudade


Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso...

Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio...
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado...


Gonçalves Crespo, in 'Nocturnos'




Galeria de Francesco Hayez


Francesco Hayez, Autorretrato, 1862


Francesco Hayez (Veneza, 10 de Fevereiro de 1791 — Milão, 21 de Dezembro de 1882) foi um pintor italiano, considerado o máximo expoente do romanticismo histórico. Originário de uma família humilde, o pai Giovanni, era de origem francesa, embora sua mãe, Chiara Torcella, ser natural de Murano.
O pequeno Francesco, último de cinco filhos, foi afilhado por uma tia materna que havia casado com Giovanni Binasco, armador e comerciante de arte, proprietário de uma discreta coleção de pintura. Já de pequeno mostrou predisposição pelo desenho, por isso seu tio confiou a um restaurador para que lhe ensinasse o ofício. Posteriormente foi discípulo do pintor Francisco Magiotto, com quem permaneceu durante três anos. Fez o seu primeiro curso do nu em 1803 e em 1806 foi admitido nos cursos de pintura da Nova Academia de Belas Artes, onde foi discípulo de Theodore Matteini.
En 1809 ganhou um concurso da Academia de Veneza para ser aluno da Academia de San Luca próxima de Roma. Por isso, mudou-se para a capital italiana onde passou a ser discípulo de Canova que foi seu guia e protetor durante os anos que passou em Roma.
Ele permaneceu em Roma até 1814, quando mudou-se para Nápoles onde foi encarregado por Joachim Murat de pintar "Ulisses no tribunal de Alcinous".
Em 1850 foi designado para diretor da Academia di Brera.


Significado de Romanticismo

s.m. Italianismo utilizado por Stendhal (1823) para designar o movimento romântico, antes de consagrar-se o termo romantismo.
Romantismo exagerado.



Francesco Hayez, María Magdalena, 1825.


Francesco Hayez, Reclining Odalisque, 1839.


Francesco Hayez, Odalisque, 1867.


Francesco Hayez, Jarro de flores sobre a Janela de um harém, 1881.


Francesco Hayez, As Tardes sicilianas, 1846, Roma, Gall.Naz.d'Arte Moderna.


Francesco Hayez, Destruição do Templo de Jerusalém, 1867.


Francesco Hayez, The Refugees of Parga, 1831.


 
Francesco Hayez, Conselho dos Dez assistindo à decapitação de Marino Faliero, 1867.


"Os homens só se compreendem uns aos outros na medida em que os animam as mesmas paixões."

quarta-feira, 12 de março de 2014

"Romance sonâmbulo" - Poema de Federico Garcia Lorca



Albert Bierstadt (German American painter, 1830 –1902), White Horse and Sunset, c. 1863.
Romance sonâmbulo


Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha na varanda
verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Debaixo da lua cigana,
as coisas a estão olhando
e ela não pode olhá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
vêm com o peixe de sombra
que abre o caminho da alba.
A figueira arranha o vento
com a lixa de seus ramos
e o monte, gato matreiro,
eriça suas fibras acres.
Mas quem virá? e por onde?
Ela continua na varanda,
verde carne, cabelo verde,
sonhando no mar amargo.

- Compadre, quero trocar
meu cavalo por sua casa,
meu arreio pelo espelho,
minha faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde os portos de Cabra.
- Se eu pudesse, seu moço,
este trato se fechava.
Mas eu já não sou eu
nem já é minha a minha casa.
- Compadre, quero morrer
decentemente em minha cama.
De arma branca, pode ser,
com os lençóis de cambraia.
Não vês a ferida que tenho
do peito até a garganta?
- Trezentas rosas morenas
leva teu peitilho branco.
Teu sangue respinga e cheira
ao redor de tua faixa.
Mas eu já não sou eu.
Nem já é minha a minha casa.
- Deixai-me subir ao menos
até as altas varandas:
deixai-me subir!, deixai-me
até as verdes varandas!
Avarandados da lua
por onde estronda a água

Já sobem os dois compadres
até as altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde.
Vento verde. Verdes ramos.
Os dois compadres subiram.
O longo vento deixava
na boca um gosto raro
de fel, de menta e alfavaca.
- Compadre! Onde está, dize-me?
Onde está tua menina amarga?
- Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
de cara alegre, negras tranças,
nesta verde varanda!

Sobre a boca da cisterna
a cigana tremia.
Verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
O gelo da lua, em pedaços,
ampara-a sobre a água.
A noite se tornou íntima
como uma pequena praça.
Guardas civis bêbados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.


Federico García Lorca
Tradução de Salomão Sousa


Albert Bierstadt, Mountain Resort, 1859


Albert Bierstadt, Indian Camp, 1859


terça-feira, 16 de julho de 2013

"Os Teus Pés" - Poema de Pablo Neruda


  [Amantine (also "Amandine") Lucile Aurore Dupin, later Baroness Dudevant (1 July 1804 – 8 June 1876),
 best known by her pseudonym George Sand, was a French novelist and memoirist.]
 


Os Teus Pés

 
Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada púrpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.
Eugène Delacroix, La liberté guidant le peuple


"O mais belo triunfo do escritor é fazer pensar os que podem pensar."
 
(Eugène Delacroix)
 
 
Eugène Delacroix, Salon du Roi, Palais Bourbon, Paris, 1833–37
 
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Da Natureza do Mistério" - Texto de François René de Chateaubriand


Albert Bierstadt, Sierra Nevada, 1873



Da Natureza do Mistério 


«As coisas misteriosas são o que há de mais belo, grandioso, e doce na existência. Os mais maravilhosos sentimentos são os que nos agitam com certa confusão: pudor, amor casto, amizade virtuosa, rescendem misterioso perfume. Dirieis que os corações amantes com meias palavras se compreendem e se franqueiam. A inocência, santa ignorância, não é por si o mais inefável dos mistérios? Exulta a infância porque tudo ignora; amisera-se a velhice porque tudo sabe: felizmente para ela, principiam os mistérios da morte onde fenecem os da vida. Dá-se nos afetos o que se dá nas virtudes: as mais angélicas são as que, derivadas imediatamente de Deus, à maneira da caridade, folgam de esconder-se à vista, como a origem delas.» 


François-René de Chateaubriand, in 'O Génio do Cristianismo'


Albert Bierstadt, Yosemite Valley Sunset


 Albert Bierstadt, Valley of the Yosemite


Albert Bierstadt, Sea Lions Farallon Islands, ca 1878 


Albert Bierstadt, Seal Rocks San Francisco, 1872


Albert Bierstadt, Seal Rock California


Albert Bierstadt, Seal Rocks on Pacific Coast California


Albert Bierstadt, Seals


Albert Bierstadt, Lake Scene


Albert Bierstadt, Salmon Fishing on the Cascapediac River



Albert Bierstadt, Fishing Boats at Capri, 1857



Albert Bierstadt, A view in the Bahamas


"Ondas de Solidão" - Texto de Eça de Queirós


Albert Bierstadt, The Shore of the Turquoise Sea, 1878


Ondas de Solidão


«Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão.» 
 

Eça de Queirós, in 'Correspondência'


 [Albert Bierstadt (1830-1902) was a German - American painter best known for his lavish, 
sweeping landscapes of the American West.]


Albert Bierstadt, Beach at Nassau


Albert Bierstadt, Storm in the Mountains, c. 1870


Albert Bierstadt, Yosemite Valley, Yosemite Park, c.1868


Albert Bierstadt, Mount Corcoran, 1876-77


Albert Bierstadt, Staubbach Falls, Near Lauterbrunnen, Switzerland, 1865


Albert Bierstadt, Yosemite Valley, Yosemite Park, c.1868


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Que de Mim? - Poema de António Gedeão


Louis Janmot (French painter and poet, 1814-1892) - Poème de l'âme 16 - Le Vol de l’âme


Louis Janmot - Poème de l'âme 17 - L’Idéal



Que de Mim? 


Em quê de mim, as diferentes
coisas que vejo, me tocam?
Em quê de ser eu provocam
excitações tão frementes?

Que coisa de mim se enleia,
que permanência me afirma,
que sentido faz sentir-ma
no espaço que me rodeia?

Que linhas de força estranha
me prolongam na paisagem,
me tornam, à sua imagem,
mar ou céu, vale ou montanha?

Que fluidez dissolvente
os meus olhos humedece
quando o Sol desaparece
nas angústias do poente?

Que de mim também se afoga
nesse horizonte distante,
murmúrio de agonizante
que em tons roxos se interroga?

Que de mim chove na chuva,
e se abre nos tons da aurora?
Que de mim nas flores se inflora
e nas tardes se enviúva?

Ó estrelas do céu sem fim!
Ó vagas do mar sem fundo!
Será tudo mesmo assim?
Eu e vós, partes do mundo?
Ou o mundo, parte de mim?


António Gedeão
,
Poesias Completas (1956-1967)
Portugália Editora 


Galeria de Louis Janmot
Louis Janmot, Autorretrato, 1832 


Anne-François-Louis Janmot (21 de Maio de 1814 - 1 junho 1892) foi um pintor e poeta francês. Foi também professor na École des Beaux-Arts. 
Ele nasceu em Lyon, filho de pais católicos que eram profundamente religiosos.
Janmot tem sido visto como uma figura de transição entre o Romantismo e o Simbolismo, prefigurando a parte francesa da Irmandade Pré-Rafaelita. Seu trabalho era admirado por Puvis de Chavannes, Odilon Redon, e Maurice Denis. Como Jean-Hippolyte Flandrin, outro pintor de Lyon e aluno de Ingres, Janmot realizou muitas encomendas para a decoração de igrejas. Em suas pinturas o acabamento impecável foi combinado com uma mística que tem paralelos na obra de seus contemporâneos, os nazarenos e os pré-rafaelitas.


Louis Janmot - Poème de l'âme 1 - Génération divine


Louis Janmot - Poème de l'âme 5 - Souvenir du ciel


Louis Janmot - Poème de l'âme 3 - L’Ange et la mère


Louis Janmot - Poème de l'âme 12 - L’Échelle d’or


Louis Janmot - Poème de l'âme 10 - Première Communion 


Louis Janmot - Poème de l'âme 13 - Rayons de soleil