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sexta-feira, 14 de abril de 2017

"A Despedida da Morte" - Poema de Alberto da Costa e Silva


Frederick McCubbin, Bush Sawyers, 1910


A Despedida da Morte


Falo de mim porque bem sei que a vida 
lava o meu rosto com o suor dos outros, 
que também sou, pois sou tudo o que posto 

ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água, 
cicia apenas — O teu tempo é a trava 
que te impede de ter a calma clara 

do chão de lajes que o sol recobre, 
este esperar por tudo que não corre, 
nem pára e nem se apressa, e é só estado, 

e nem sequer murmura: — O que te trazem 
é o riso e o lamento, o ser amado 
e o roçar cada dia a tua morte, 

que não repõe em ti o, sem passado, 
ficar no teu escuro, pois herdaste 
e legas um sussurro, um som de passos, 

uma sombra, um olhar sobre a paisagem, 
memória, cálcio, húmus, eis que o mundo 
nada rejeita, sendo pobre e triste 
no esplendor que nos dá. A madrugada. 


in 'Antologia Poética'


Frederick McCubbin, Lost, 1907


"A presença do perigo confere génio ao homem sensato." 


segunda-feira, 28 de julho de 2014

"O Relógio" - Poema de Gonçalves Crespo


Giuseppe De Nittis, In the Lamplight, 1880
 


O Relógio


Ebúrneo é o mostrador: as horas são de prata
Lê-se a firma Bruguet por baixo do gracioso
Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
Nela o esmalte produz um quadro delicioso.

Repara: eis um salão: casquilho malicioso
Das festas cortesãs o mimo, a flor, a nata,
Junto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
Uma fidalga o escuta ébria de amor e gozo.

Rasga-se ampla a janela; ao longe o olhar descobre
O correto jardim e o parque extenso e nobre.
As nuvens no alto céu flutuam como espumas,

Da paisagem no fundo, em lago transparente,
Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
Um cisne à luz do sol estende as níveas plumas. 


Gonçalves Crespo, in 'Nocturnos'
 
 

Giuseppe De Nittis, Return from the Races, 1875
 

"O homem que não amou apaixonadamente, ignora a metade mais formosa da existência."

(Stendhal) 
 

Giuseppe De Nittis, The Races at Longchamps from the Grandstand,1883
 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Esta Palavra Saudade" - Poema de Gonçalves Crespo


Francesco Hayez (Pintor italiano, 1791–1881), The Kiss, 1859,
 Pinacoteca di Brera, Milan. (Exemplar de Pintura romântica)

 

Esta Palavra Saudade


Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso...

Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio...
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado...


Gonçalves Crespo, in 'Nocturnos'




Galeria de Francesco Hayez


Francesco Hayez, Autorretrato, 1862


Francesco Hayez (Veneza, 10 de Fevereiro de 1791 — Milão, 21 de Dezembro de 1882) foi um pintor italiano, considerado o máximo expoente do romanticismo histórico. Originário de uma família humilde, o pai Giovanni, era de origem francesa, embora sua mãe, Chiara Torcella, ser natural de Murano.
O pequeno Francesco, último de cinco filhos, foi afilhado por uma tia materna que havia casado com Giovanni Binasco, armador e comerciante de arte, proprietário de uma discreta coleção de pintura. Já de pequeno mostrou predisposição pelo desenho, por isso seu tio confiou a um restaurador para que lhe ensinasse o ofício. Posteriormente foi discípulo do pintor Francisco Magiotto, com quem permaneceu durante três anos. Fez o seu primeiro curso do nu em 1803 e em 1806 foi admitido nos cursos de pintura da Nova Academia de Belas Artes, onde foi discípulo de Theodore Matteini.
En 1809 ganhou um concurso da Academia de Veneza para ser aluno da Academia de San Luca próxima de Roma. Por isso, mudou-se para a capital italiana onde passou a ser discípulo de Canova que foi seu guia e protetor durante os anos que passou em Roma.
Ele permaneceu em Roma até 1814, quando mudou-se para Nápoles onde foi encarregado por Joachim Murat de pintar "Ulisses no tribunal de Alcinous".
Em 1850 foi designado para diretor da Academia di Brera.


Significado de Romanticismo

s.m. Italianismo utilizado por Stendhal (1823) para designar o movimento romântico, antes de consagrar-se o termo romantismo.
Romantismo exagerado.



Francesco Hayez, María Magdalena, 1825.


Francesco Hayez, Reclining Odalisque, 1839.


Francesco Hayez, Odalisque, 1867.


Francesco Hayez, Jarro de flores sobre a Janela de um harém, 1881.


Francesco Hayez, As Tardes sicilianas, 1846, Roma, Gall.Naz.d'Arte Moderna.


Francesco Hayez, Destruição do Templo de Jerusalém, 1867.


Francesco Hayez, The Refugees of Parga, 1831.


 
Francesco Hayez, Conselho dos Dez assistindo à decapitação de Marino Faliero, 1867.


"Os homens só se compreendem uns aos outros na medida em que os animam as mesmas paixões."

domingo, 30 de junho de 2013

"A formiga no carreiro" - Poema de Zeca Afonso




A formiga no carreiro 


A formiga no carreiro
Vinha em sentido contrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário. 

Lerpou, trepou às tábuas
Que flutuavam nas águas
E de cima duma delas
Virou-se para o formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro.

A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente. 

Buliu, abriu as gâmbeas
Para trepar às varandas
E de cima duma delas
Virou-se para o formigueiro
Mudem de rumo 
Já lá vem outro carreiro. 

A formiga no carreiro 
Andava à roda da vida
Caiu em cima
Duma espinhela caída. 

Furou, furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima duma delas
Virou-se para o formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro. 


José Afonso (Zeca Afonso),
  Álbum «Venham mais cinco», 1973




"A política é uma pedra atada ao pescoço da literatura, e que em menos de seis meses a submerge. A política, no meio dos interesses da imaginação, é um tiro no meio de um concerto." - Stendhal
 

 

Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.


Zeca Afonso - "A formiga no carreiro"
José Afonso, Álbum: Venham Mais Cinco
(Gravado em Paris de 10 a 20 de Outubro de 1973)


Música de Intervenção
(Português europeu) ou música de protesto (Português brasileiro) é uma categoria que engloba canções de música popular compostas com o intuito de chamar a atenção do ouvinte a um determinado problema da atualidade, seja ele de origem social, política ou económica.
Era um tipo de música muito comum nos anos 60 e 70 do século XX, durante a ditadura militar brasileira ou nos últimos anos do Estado Novo português. As suas músicas e atuações eram proibidas, de modo que a sua voz fazia-se ouvir sorrateiramente. Os músicos e cantores de intervenção sofreram a perseguição do regime do Estado Novo. Muitos deles sofreram a prisão e exílio.
Nomes como os de  Adriano Correia de Oliveira,  Brigada Victor Jara,  ChullageFausto Bordalo DiasFernando TordoFrancisco Fanhais (ou Padre Fanhais),  Janita SaloméGACJosé Afonso (ou Zeca Afonso), José Mário Branco,  Luís Cília,  Manuel FreirePaulo de CarvalhoSérgio GodinhoValete (rapper), Vitorino Salomé, entre outros, foram sinónimo de contestação, oposição, luta pela liberdade.
A canção «A formiga no carreiro» de Zeca Afonso foi editada porque a fábula expressa nessa composição parece não ter sido interpretada pelos serviços de censura.
Procedendo à sua decifração, tendo em conta que é uma obra artística, verifica-se um forte empenhamento sociopolítico na sua letra.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"Sonhos" - Poema de Florbela Espanca



Charles Auguste Emile Carolus-Duran, 'Le Baiser', 1868.
[Autoportrait de l'artiste avec sa femme en nouveaux mariés.] 
Palais des beaux-arts de Lille


Sonhos 

 
Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento... 

Ser p'ra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte 

Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!


Florbela Espanca
in 'Trocando Olhares', 1985
 


Charles Auguste Emile Carolus-Duran, Les Pommiers, 1900


"Todas as religiões baseiam-se no medo de muitos e na esperteza de poucos."

(Stendhal) 
 

"Teus Olhos" - Poema de Florbela Espanca



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966), 'Kisses in the Rain'


Teus Olhos


Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...
 

Florbela Espanca,
in 'Charneca em Flor', 1931,
Coimbra: Livraria Gonçalves.



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966), 'Smitten'



"Quanto mais forte é um caráter, menos sujeito está à inconstância."

(Stendhal)

[Marie Henri Beyle, (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 - Paris, 23 de março de 1842), mais conhecido como Stendhal, foi um novelista e escritor francês. Seu estilo, ao contrário do excesso de ornamentos, valorizava o perfil psicológico dos personagens, a interpretação de seus atos, sentimentos e paixões.]