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quinta-feira, 26 de março de 2026

"Canção do Caminho" - Poema de Cecília Meireles


 
Albert Lynch (French painter of German and Peruvian ancestry, 1860–1950),
Portrait of a Young Woman, 1890.


Canção do Caminho


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)


Cecília Meireles
, in "Vaga música", 1942.


 
"Vaga Música" de Cecília Meireles.
 Editora Global

 
SINOPSE

Em Vaga música, traços que se tornariam emblemáticos da obra poética de Cecília Meireles atingem um importante ponto de amadurecimento. Aqui, a fugacidade do tempo e a precariedade da existência são tenazmente perseguidas. Cecília trilha um profundo percurso pelas inquietações humanas mais triviais, abalando em muitos momentos as nossas mais sólidas certezas. A profusão de interrogações em boa parte dos poemas insinua o caminho escolhido pela autora para tocar a complexa sinfonia da vida: é preciso indagar para se encontrar no mundo. Para tal exercício, a modinha, a canção e a cantiga são algumas das formas poéticas aqui magistralmente orquestradas. Com efeito, a musicalidade latente é um dos elementos deste livro que, publicado em 1942, é considerado um dos momentos mais altos da lírica brasileira.
Como se estivesse em vigília no espírito humano, a autora parece posicionar-se à espreita de qualquer vestígio de perenidade para desnudá-lo, a fim de revelar sua essência mutável. (daqui)
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

"Primeira tarde" - Poema de Arthur Rimbaud


Albert Lynch (Parisian painter of German-Peruvian ancestry, 1860–1950),  
"A young beauty", oil on panel.


Primeira tarde


Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.

Quase desnuda, na cadeira,
Cruzavas as mãos, e os pequeninos
Pés esfregava na madeira
Do chão, libertos finos, finos.

— Eu via pálido, indeciso,
Um raiozinho em seu gazeio
Borboletear em seu sorriso
— Mosca na rosa — e no seu seio.

— Beijei-lhe então os tornozelos.
Deu ela um riso inatural
Que se esfolhou em ritornelos,
Um belo riso de cristal.

Depressa, os pés na camisola
Logo escondeu: "Queres parar!"
Primeira audácia que se implora
E o riso finge castigar!

Sinto-lhe os olhos palpitantes
Sob os meus lábios. Sem demora,
Num de seus gestos petulantes,
Volta a cabeça: "Ora, esta agora!..."

"Escuta aqui que vou dizer-te..."
Mas eu lhe aplico junto ao seio
Um beijo enorme, que a diverte
Fazendo-a rir agora em cheio...

— Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.


Arthur Rimbaud

Trad. Ivo Barroso
 
 
Retrato de Arthur Rimbaud por Étienne Carjat (1871/2)

 
Poeta francês, de nome completo Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud, nasceu a 20 de outubro de 1854 em Charleville, nas Ardenas. O pai, soldado tarimbeiro, abandonou a família quando Arthur contava seis anos de idade, pelo que foi educado apenas pela mãe, uma criatura autoritária e profundamente religiosa.
Frequentando a escola de província até aos quinze anos de idade, Rimbaud mostrou-se um aluno de capacidades excecionais mas indomáveis. Partindo da sua Paris natal, conseguiu atingir a Bélgica aos dezasseis, o que lhe valeu escolta policial até casa.
Publicou nesse ano de 1870 o seu primeiro poema e, no seguinte, conhecendo Verlaine, desencaminhou-o da sua condição de homem de família, frustrado no absinto, e juntos chegaram a Londres, para dar início a uma vida de álcool e drogas. Publicou o seu primeiro livro, Le Bâteau Ivre em 1871.
Os hábitos pouco higiénicos de Verlaine desencantaram Rimbaud, especialmente quando o seu amante explodiu numa crise de ciúmes, e o alvejou num pulso. O episódio acabou com uma estadia de Verlaine na prisão belga e o regresso de Rimbaud ao abrigo da quinta familiar. Em 1873 apareceu um dos seus livros mais famosos, a coletânea de poemas intitulada Une Saison En Enfer, em que o autor descia aos infernos quase ao estilo de Dante. Em Adeus, o último trecho do livro, resume a tragédia de alguém que quisera descobrir uma poesia nova ao cultivar as sensações, e apenas obtivera um caos de imagens.
Em 1874 partiu de novo para Londres, e na Biblioteca Nacional Britânica foi-lhe interdita a leitura das obras de Sade, por não ter atingido a maioridade de vinte e um anos.
A partir de 1875 recomeçou a sua vida deambulante, aprendendo uma série de idiomas, como o Alemão, o Italiano, o Grego e o Árabe, entre muitos outros. Trabalhou como professor na Alemanha, estivador no porto de Marselha e, alistando-se no exército holandês, acabou por desertar no arquipélago indonésio.
Passou depois a agente comercial de importações-exportações ao serviço de diversas empresas francesas, dedicando-se a negócios obscuros de honestidade duvidosa que o levaram a destinos tão variados como Java, Chipre, Etiópia e o Egito.
Em 1886 surgiu Illuminations, numa edição realizada por Verlaine. A obra restabeleceu a reputação de Rimbaud como poeta, graças à sua profundidade espiritual, em que o autor demonstrava a sua preferência pelo humano em detrimento do divino.
Em fevereiro de 1891, Rimbaud viu a sua alma de caminhante mutilada, quando em Marselha começou a sentir fortes dores no joelho esquerdo. Foi-lhe diagnosticado um cancro e a perna teve que ser amputada. Após um período de alucinações e transes, Rimbaud acabou por falecer em Marselha a 10 de novembro de 1891. O seu último escrito, Lettre au Directeur des Messageries Maritimes, conta-se entre o melhor que a lucidez do poeta nos soube dar. (Daqui)
 

terça-feira, 18 de junho de 2013

"Ser Poeta" - Poema de Florbela Espanca


Albert Lynch, Portrait d'une femme, 1895


Ser Poeta


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


(1894-1930)


Ser Poeta de Florbela Espanca - Cantado por Luís Represas 


"A canção, expressão da melancolia, do amor, do entusiasmo, só morrerá se estes sentimentos morrerem; ela é, como o suspiro, como o grito, um dos movimentos naturais da alma." - Eça de Queirós 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Rosas e Cantigas" - Poema de Afonso Duarte



Albert Lynch (French painter, 1851-1912), Fresh from the garden, n.d. 
Private collection


Rosas e Cantigas


Eu hei de despedir-me desta lida,
rosas? – Árvores, hei de abrir-vos covas
e deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de Deus é a mais sentida
deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! Eu tenho provas
que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico e limonete,
oh, que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
flores que eu trato, rosas e cantigas,
cá, do outro mundo, me fareis voltar.


Afonso Duarte


Albert Lynch, Gathering flowers, n.d.


“Uma coletânea de pensamentos é como uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.”

(Voltaire)

Maria Bethânia - "Salve as folhas"