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sábado, 13 de dezembro de 2025

"Solidão" - Poema de Fernanda de Castro

 

 
José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
 Desalento, 1918, Casa-Museu Fernando de Castro.


Solidão


Solidão: 
Ouvir passos, sabendo de antemão
que ninguém vai passar,
bater à porta. 
Abrir, ansiosa, a caixa do correio,
duas vezes por dia,
sabendo muito bem
que está vazia.

Olhar o telefone horas a fio,
ano após ano,
tocar a campainha
e ouvir dizer: ”Desculpe, foi engano.” 
Ouvir ranger a porta do ascensor,
senti-lo estremecer,
arrancar com uma espécie de estertor,
e, enfim, parar,
mas sempre noutro andar. 
Pôr na mesa um talher
para alguém que vier,
sabendo muito bem
que ninguém vem.

Pôr um vestido novo,
um anel, um colar,
sabendo que ninguém vai reparar. 
Ver o cabelo embranquecer aos poucos,
a pele envelhecer, perder o viço,
e ninguém dar por isso. 

Morrer. E alguém ler num jornal:
Morreu Fulana. O funeral… 


Fernanda de Castro, in Urgente, 1989,
 Lisboa, Guimarães Editores (1.ª Edição). 
 

sábado, 15 de novembro de 2025

"A senhora de Idade" - Poema de Fernanda de Castro

 


José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
A Mulher do Gato, s.d., Museu de José Malhoa.


A senhora de Idade

A Senhora de idade,
de tão bons sentimentos,
tão bonitas maneiras,
vive dos rendimentos. 
Vive, não, sobrevive.
A roupa está no fio,
tem, porém, o seu brio,
não se queixa a ninguém. 
Vive triste, sozinha,
e pouco sai de casa
porque o barulho a arrasa.
Depois, sair com quem? 
Não tem filhos, é viúva
e teme a solidão,
receia o vento, a chuva.

Apetece-lhe, às vezes,
ver os barcos no rio,
os pombos no Rossio,
mas não, custa-lhe a andar,
o calçado está caro
e cada mês que passa
o dinheiro é mais raro. 
Mas de que vive então?
De alguns copos de leite,
de chá e de tisanas,
de pão e duma sopa,
a mesma, quase a mesma,
semanas e semanas.

Vai à missa, ao domingo,
e às vezes, quando há sol
ou cheira a maresia,
compra um fruto, uma flor,
para ter companhia. 
Que lhe resta, coitada,
à Senhora de idade?
Resta-lhe pouco ou nada,
porém resta-lhe tudo: 
Uma grande saudade,
um sofrimento mudo
que é reserva e pudor,
às vezes uma flor,
e a sua dignidade. 


Fernanda de Castro, in Urgente, 1989,
Lisboa, Guimarães Editores, 1ª Edição. 
 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

"Quem pudera, Cecília!" - Poema de Fernanda de Castro


 
Alfredo de Morais  (Ilustrador português, 1872–1971), "Uma Desfolhada no Minho", s.d.


Quem pudera, Cecília!


Tenho fome de campo e de verdura,
De terra bem lavrada,
E sede, muita sede de água pura.

Quero pegar no cabo de uma enxada,
Quero cheirar os troncos e as raízes,
Pisar, descalça, a terra ainda molhada,
Ver, nas noites, o rasto das perdizes.

Já Cecília Meireles o dizia,
Com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”
E ria, ria,
Rasgando as mãos nas silvas,
Comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.

Tinhas razão, Cecília.
Em Portugal, as estações são festas,
São festas de família,
Enfiadas, colares de alegrias;
Na Primavera as flores;
Os frutos no Verão, e as romarias;
No Outono o vinho novo e o ritual
Profano das vindimas;
No Inverno,
A mística alegria do Natal,
As portas bem fechadas,
A lenha a crepitar
E as rabanadas.

Quem pudera, Cecília, quem pudera,
Mandar-te para lá, para onde estás,
Um raminho da nossa Primavera.


Fernanda de Castro, in Colóquio Letras, 1987,
p. 94. - N.º 100. Lisboa : F.C.G. 

["Quem pudera, Cecília!" é um poema de Fernanda de Castro (1900–1994) que homenageia a poetisa brasileira Cecília Meireles (1901–1964), expressando um desejo de enviar-lhe um presente simbólico de Portugal e elogiando sua conexão com as tradições e a simplicidade do campo português. A obra surge após a morte de Cecília Meireles, demonstrando a forte ligação entre as duas poetisas e a admiração da poeta portuguesa pela brasileira.] 
 
 

Alfredo de Morais, "Dança minhota - o Vira", s.d.
 

"Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. 
Não sou alegre nem triste: sou poeta."


Cecília Meireles
, do poema "Motivo"
 

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

"Solidão" - Poema de Fernanda de Castro

  

 
James Francis Day (American artist, 1863-1942), Afternoon Tea, 1931.



Solidão


Eu tinha medo à solidão. Temia
encontrar-me comigo, frente a frente,
e resignar-me a viver contente
já que viver feliz eu não podia.

Queria à minha volta muita gente,
repartia em minutos o meu dia
procurando a ilusão duma alegria
que tanto desejara inutilmente.

Mas breve compreendi que a solidão
era não ter ninguém no coração,
e buscando outro fim para os meus passos,

eu fiz da vida um canto mais profundo
e, pouco a pouco, limitei o mundo
à reduzida curva dos meus braços.


Fernanda de Castro, in "39 Poemas", 1942


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

"Poema da Maternidade" - Fernanda de Castro


Adolphe Jourdan (Pintor francês, 1825-1889), Tendresse Maternelle, c. 1889


Poema da Maternidade


Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh´alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,

Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura...

Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfémia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Já não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!


Fernanda de Castro, de Trinta e Nove Poemas (1941),
in Líricas Portuguesas – 2.ª série, org. Cabral do Nascimento,
Portugália Editora, 3.ª edição, Setembro de 1967.




Cabral do Nascimento: Líricas Portuguesas – Segunda série
Portugália Editora



Descrição

Seleção, prefácio e notas de Cabral do Nascimento. «Antologias Universais – Poesia III». A primeira série foi organizada por José Régio e a terceira por Jorge de Sena. Esta segunda série abrange aproximadamente o período da primeira metade do século XX e inclui poemas de: «António Feijó; Queiroz Ribeiro; Manuel da Silva Gaio; António Fogaça; João Saraiva; Alberto Osório de Castro; Júlio Brandão; Fausto Guedes Teixeira; Cândido Guerreiro; Ângelo de Lima; Augusto Gil; Bernardo de Passos; Júlio Dantas; Manuel Laranjeira; António Patrício; Afonso Lopes Vieira; António Correia de Oliveira; João Lúcio; João de Barros; Afonso Duarte; António Sardinha; Augusto Casimiro; Luiz de Montalvor; Alfredo Guisado; Armando Cortês Rodrigues; Mário Beirão; Américo Durão; Florbela Espanca; Américo Cortês Pinto; António de Sousa; João de Castro Osório; Edmundo de Bettencourt; Campos de Figueiredo; Fernanda de Castro; José Régio; Vitorino Nemésio; António Boto; António de Navarro; Fausto José; Pedro Homem de Mello; Armindo Rodrigues; Francisco Bugalho; Branquinho da Fonseca; Alberto de Serpa; Anrique Paço d’Arcos; Moreira das Neves; Miguel Torga; Guilherme de Faria; Carlos Queiroz; Adolfo Casais Monteiro» (daqui

 

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

"Asa no Espaço" - Poema de Fernanda de Castro



 


Asa no Espaço


Asa no espaço, vai pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar no braços do vento,
quero vogar nos barcos da Lua!

Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta.
Por oceanos de nevoeiro,
corre o impossível, de ponta a ponta.

Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.

Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
asa, mais alto, mais alto, mais!
 
 ★ ★ ★

Imagens de Abdullah Evindar 
[Abdullah Evindar é um artista digital turco autodidata que manipula imagens para criar arte, combinando silhuetas com elementos da natureza, uma opção estética que confere uma sensação de surrealismo hipnótico ao seu trabalho.]
 

 
 
 
 
 
 
 


 
"O mundo da realidade tem seus limites. O mundo da imaginação não tem fronteiras." 

Jean-Jacques Rousseau
, "Émile, ou De l’éducation" - Volume 1, Página 152.
 

sábado, 14 de dezembro de 2024

"Fim de Outono" - Poema de Fernanda de Castro


Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Casa de Campo, 1965.


Fim de Outono 
 
 
Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Tudo seco pelas hortas,
Grandes lágrimas no chão
Nem uma flor pelos montes,
Tudo numa quietação
Soluça numa oração
O triste cantar das fontes.

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

A terra fechou as portas
Aos beijos do sol ardente,
E agora está na agonia...
Valha à terra agonizante
A Santa Virgem Maria!

Fim de Outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

"Três poemas da solidão" - Fernanda de Castro


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864 –1937), Interior,
 Morning sun in the garden room, c. 1930, oil on canvas



Três poemas da solidão
 
 I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.

Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
Já nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira não dá flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II

Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.

III

Solidão.
A multidão em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.
E as ideias dispersas, em tropel,
como folhas ao vento
pétalas do Pensamento.

Solidão.
A angústia da Cidade,
a impossível procura da Unidade,
o clamor
do silêncio interior,
mais pungente, estridente,
que os bárbaros ruídos
que ferem, dilaceram
os nervos e os sentidos. 


Fernanda de Castro,
in "E Eu, Saudosa, Saudosa"


 
Harald Slott-Møller, A View of Lake Garda at Desenzano, Italy, 1910
 
 
"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."

Eugénio de Andrade, Rosto Precário, 1979

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

"Casa Velha" - Poema de Fernanda de Castro



 Moreira Aguiar (Pintor português, n. 1947), Óbidos, 70x50cm.
 


Casa Velha


Deixem a casa velha! Que os pedreiros
não lhe tirem as rugas nem as gelhas.
Que não limpem de urtigas os canteiros,
que lhe deixem ficar as velhas telhas.

Deixem a casa velha! Que a não sujem
com óleos e com tintas os pintores.
Que lhe deixem as nódoas de ferrugem,
os velhos musgos, as cansadas flores.

Que não fiquem debaixo do cimento
mais de cem anos de alegria e dor.
Não lhe pintem a chuva, o sol, o vento,
que a cor do tempo é assim: vaga e incolor.

Que tudo fique assim, parado e absorto,
no tempo sem limites, sempre igual.
Ah, não, por Deus! Como se faz a um morto,
não a sepultem sob terra e cal!

Não fechem as janelas mal fechadas,
ouçam da brisa o tímido lamento,
deixem que a vida e a morte, de mãos dadas,
vão com seu passo refletido e lento.

Não endireitem as paredes tortas
nem desatem, da aranha, os finos laços.
Abram ao vento as desmanchadas portas,
ouçam do tempo os invisíveis passos.

Deixem que durma, quieta, ao sol do Outono,
velada pela flor, o vento, a asa.
Será talvez o derradeiro sono…
Que importa? Morra em paz a velha casa.


Fernanda de Castro
, in "Asa no Espaço", 1955
 
 
 

"Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la."



quarta-feira, 26 de abril de 2023

"Pássaro Azul" - Poema de Fernanda de Castro

 

Ker-Xavier Roussel (French painter associated with Les Nabis, 1867–1944), Women in a Landscape
in the Île de France
, c. 1932–1935, Musée départemental Maurice Denis "The Priory" 


Pássaro Azul

 
(Ai, o Pássaro Azul da minha pena,
da minha pena, pena, pena…)

Eu tinha um Pássaro Azul,
Azul como o azul do arco-íris.
Não vivia numa floresta,
não morava numa gaiola.
Não era um pássaro de penas e de sangue.
Também não era um pássaro pintado.
Nem escrito. Nem pensado.
Era um pássaro sentido.
Sentido como os cegos veem as cores,
como os surdos ouvem os sons.
Era demasiado pequeno para os dedos
mas podia encher uma alma.
O Pássaro Azul cantava,
mas a sua música
era uma grande alegria sem risos,
uma grande luz sem noite.
Em quase todas as casas havia silêncio
e o Pássaro Azul cantava.
Porque não havia em todas as casas
uma flor, uma estrela, um pássaro a cantar?
Não abri a porta da gaiola
porque não havia gaiola,
mas com mãos trémulas de esperança
fui buscar o Pássaro Azul
ao fundo da alma,
e abri as mãos
para que houvesse em todas as casas
uma flor, uma estrela, um pássaro a cantar.
Murcharam, porém, todas as flores,
apagaram-se todas as estrelas,
e o Pássaro Azul,
azul como o azul do arco-íris,
ficou frio e cinzento,
um Pássaro Cinzento
como um pássaro de lua.
Então as mãos,
aquelas mãos trémulas de esperança,
tomaram a forma de tépidas conchas,
de pequenos ninhos de calor,
e o verde,
o verde indeciso das marés,
cobriu de esperança as suas penas.
Era agora um Pássaro Verde,
verde e triste.
Então lágrimas lentas o envolveram,
pesada chuva de alma,
e o pássaro ficou branco.
Era agora um Pássaro Branco,
silencioso e triste.
Como um vento furioso,
a Ira sacudiu as raízes da alma,
da alma onde outrora
morava o Pássaro Azul,
mas o Pássaro Branco
era agora vermelho,
um Pássaro Vermelho e assustado,
pesado de solidão.
Então o desespero murchou-lhe as asas,
e ficou roxo como um lírio magoado,
um lírio de paixão,
negro como um céu sem astros,
um Pássaro Negro
tocado de morte.
E de nada serviram as mãos
que se fizeram conchas para o abrigar,
de nada serviu a Esperança,
de nada serviram as lágrimas,
de nada serviu o vendaval da Ira,
nem o Desespero, nem a Dor.
Ferido de silêncio e de morte,
o Pássaro Azul
fechou para sempre as asas
e nunca mais foi azul.

Não, na Ilha do Tesoiro
e do Pássaro Azul
não estão as minhas asas,
não estão nenhumas asas,
ficaram só as penas…

As penas e um tesoiro
que escondi, não sei onde,
quando parti
para a minha viagem sem partida
e sem regresso.

Oh! A minha viagem,
esses longos caminhos da Aventura
que imaginei, imóvel,
no quarto, a horas mortas.
Era tudo miragem,
silêncio, noite escura:
um mar de ondas paradas,
um chão de pedras soltas,
de plantas calcinadas…
Constelações de nuvens,
jardins de campas rasas,
florestas de silêncio,
sem frutos e sem asas.
Então vieste com teu passo lento,
com tuas mãos de flor
e teu sorriso breve,
então vieste, branca e alada,
pura e alada,
numa noite de tédio e nostalgia.
Não perguntaste,
não disseste nada,
mas eras a Poesia,
mas eras tu, Poesia,
meu tesoiro perdido,
meu tesoiro encontrado,
reencontrado.

A Ilha do Tesoiro,
a minha Ilha…

Porque eu tinha uma Ilha,
num continente sem limites
que nenhum mar banhava.
Era a Ilha da Seta,
da metade ascendente
do meu signo de Fogo, o Sagitário,
que não era de terra nem de lava
mas dum estranho calcário,
imponderável, fluido,
inconsistente.
Era a Ilha do mar inexistente,
do céu imaginário,
que julguei povoar de Sonho, de Ilusão,
e afinal povoei
de bolas de sabão.
É a Ilha da grande Solidão…
 

Fernanda de Castro

in "A Ilha da Grande Solidão", 1962



Ker-Xavier Roussel, Les Saisons de la vie, 1892–1895, Paris, musée d'Orsay.



"Temos uma vida, uma só. Mas muitos julgam que há sempre muito tempo e, por isso, tantas vezes, decidimos adiar o importante para desperdiçar tempo com o que pouco vale."

José Luís Nunes Martins
, in Filosofias, 79 Reflexões
 
 

terça-feira, 18 de abril de 2023

"Canta. Busca na vida o que é perfeito" - Poema de Fernanda de Castro



Alfred Stevens (Belgian painter, 1823–1906), "Un Bleuet (Blue Ribbon)", 1894


Canta. Busca na vida o que é perfeito

Canta. Busca na vida o que é perfeito.
Olha o Sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia
tal uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faz o teu leito.
Respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faz de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do jardim,
todos os frutos do pomar e, enfim,
colhe todos os sonhos do Universo.

Procura eternizar cada momento,
fecha os olhos a todo o sofrimento
e terás feito a carne do teu verso.


Fernanda de Castro,
in «Daquém e Dalém Alma», 1935

 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"Urgente" - Poema de Fernanda de Castro

  
 
Dante Gabriel Rossetti (1828–1882), The Day Dream, 1880
(The sitter is Jane Morris), Victoria and Albert Museum



Urgente


Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a pedra, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.

É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.

Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.

Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.
in "Poesia II", 1969
 

Dante Gabriel Rossetti, Self-portrait, 1847
 
 
 Escritor e pintor inglês, nascido em 1828 e falecido em 1882, Dante Gabriel Rossetti foi educado numa atmosfera de ativismo cultural e político que muito influenciou o seu desenvolvimento artístico. Funda, juntamente com outros pintores, a irmandade dos Pré-rafaelitas.
Em 1850 foram publicados em The Germ alguns dos seus poemas, tais como: "The Blessed Damozel" e "My Sister's Sleep". Dezasseis sonetos, incluindo a sequência "The Willow wood", surgiram em 1869, no periódico The Fortnightly Review. Em 1872 escreveu o ensaio "The Stealthy School of Criticism; Poems", uma reorganização dos trabalhos iniciais, e "Ballads and Sonnets" surgiram em 1881. (Daqui)
 
 
Rossetti's eighth and final version of Proserpine, 1882,
 now in the Birmingham Museum and Art Gallery 


Dante Gabriel Rossetti começou a trabalhar nesta obra em 1871 e pintou pelo menos oito versões diferentes. A última versão (muito semelhante à da Tate, encomendada por Frederick Richards Leyland), concluída em 1882, apenas alguns dias antes da sua morte, encontra-se no Birmingham Museum and Art Gallery.
Leyland encomendou a Rossetti dezoito pinturas, sem contar com as encomendas não satisfeitas. Logo após a entrega da pintura, Leyland e Rossetti pensaram na hipótese de um tríptico de Rossetti, que acabou por ser formado com Mnemosine, The Blessed Damozel e Proserpina. 
 

domingo, 11 de outubro de 2020

"Difícil alquimia" - Poema de Fernanda de Castro


Balthasar Denner (German painter, 1685-1749), Portrait of an Old Lady,  


Difícil alquimia

 
Oitenta anos daqui a poucos dias.
Parece muito. É imenso, não é nada.
Ínfimo grão de pó no pó da estrada.
Raminho de tristezas, de alegrias.

Crepusculares, doces alegrias.
Por vezes, dolorosa a caminhada,
mas sempre, após a noite, a madrugada.
Cantos de rouxinóis, de cotovias.

De tudo um pouco, assim é que é a vida
se a queremos inteira, bem vivida,
às vezes vendaval, outras bonança.

Bem e mal, noite e dia, riso e dor.
Difícil alquimia: espinho e flor,
mas sempre aberta a porta da esperança.
in «Poesia II»

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

"Um grande amor" - Poema de Fernanda de Castro

 
 
Julia Margaret Cameron (British photographer) by George Frederic Watts, 1850–1852
 

Um grande amor

 
Um grande amor não cabe em nenhum verso,
como a vida não cabe num jardim,
como não cabe Deus no Universo
nem o meu coração dentro de mim.

A noite é mais pequena do que o luar,
e é mais vasto o perfume do que a flor.
É a onda mais alta do que o mar.
Não cabe em nenhum verso um grande amor.

Dizer em verso aquilo que se pensa,
ideia de poeta, ideia louca.
Não é bastante a frase mais extensa,
diz mais o beijo do que diz a boca.

Ninguém deve contar o seu segredo.
Versos de amor, só se os fizer assim:
como os pássaros cantam no arvoredo,
como as flores se beijam no jardim.

Que verso incomparável, infinito,
feito de sol, de misterioso brilho,
poderia dizer o que, num grito,
diz a mulher quando lhe nasce um filho?

E quando sobre nós desce a tristeza,
como desce a penumbra sobre o dia,
uma lágrima triste e sem beleza,
diz mais do que a palavra nua e fria.

Redondilha de amor... Para fazê-la,
desse-me Deus a tinta do luar,
a candeia suspensa de uma estrela
e o tinteiro vastíssimo do mar."
 
in "Jardim", 1928
 

Julia Margaret Cameron, 1870, portrait by her son,
Henry Herschel Hay Cameron


Fotógrafa inglesa, Julia Margaret Cameron nasceu a 11 de junho de 1815, em Calcutá, Índia, no seio de uma família aristocrata. Por influência da avó foi educada em França e Inglaterra. Regressou à Índia em 1834, com apenas 19 anos de idade, e em 1838 casou com um diplomata inglês, Charles Hays Cameron. Dez anos mais tarde regressou a Inglaterra, onde em 1863 começou a dedicar-se à fotografia, consagrando o seu trabalho ao retrato. 

Contrariamente aos seus contemporâneos, Cameron nunca se dedicou à fotografia comercial. Este facto libertou-a das exigências de uma clientela preocupada com o apuro técnico da fotografia, permitindo-lhe assim investigar uma série de outros métodos: grandes aproximações, desfocagens resultantes de lentes mal corrigidas e, sobretudo, um método de impressão no qual era colocado um vidro entre o negativo de colódio e o papel emulsionado. Deste modo, obtinham-se retratos que adquiriam uma aura pelo efeito de flou. 

Os pictorialistas, interessados na obra inovadora de J. M. Cameron, apresentaram as suas imagens no Camera Club de Londres (1890) e no Photo Club de Paris (1894).
A maior parte da obra de Cameron encontra-se preservada e arquivada na Royal Photo Society de Inglaterra.
A fotógrafa regressou à Índia em 1875 e faleceu em 1879 no Sri Lanka. (daqui)

quinta-feira, 25 de junho de 2020

"Não fora o mar!" - Poema de Fernanda de Castro



Virginie Demont-Breton, L’homme est en mer (The Man is at Sea), 1889


Não fora o mar!


Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.


Fernanda de Castro
,
 in "Trinta e Nove Poemas"


 
Vincent van Gogh, "L'homme est en mer" (The Man is at Sea, 
after Virginie Demont-Breton), 1889


Espera 


Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça. 


Eugénio de Andrade
, em “Corpo de Amor”. 
Sintra: Colares Editora, 1992
 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Esta dor que me faz bem" - Poema de Fernanda de Castro



William J. Whittemore (American painter, 1860–1955),
'Portrait of a Woman in Pearls', oil on canvas.



Esta dor que me faz bem


As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha mãe? 

Este cheiro de além-vida
e de indizível tristeza,
do tempo morto, esquecido...
Tão desbotada e puída
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.

Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega à cama onde me estendo
num perfume de violeta.

Vejo as tuas joias falsas
que usavas todos os dias,
do princípio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha mãe, e as melodias
que cantavas ao piano.

Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.

Quantas voltas deu na vida
este álbum de retratos,
de veludo cor de tília?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?
Serão todos da família?

Ai, vou fechar na gaveta
a lembrança dolorosa
dos teus laços de cetim,
dos teus ramos de violeta,
do leque de seda rosa
com varetas de marfim.

As coisas falam comigo
numa linguagem secreta,
que é minha, de mais ninguém.
Quero esquecer, não consigo.
Vou guardar na mala preta
esta dor que me faz bem.


Fernanda de Castro,
in "E Eu, Saudosa, Saudosa" 
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Já não vivo, só penso" - Poema de Fernanda de Castro


Pablo Picasso, 1917-18, Portrait d'Olga Khokhlova dans un fauteuil (Olga in an Armchair), 
oil on canvas, 130 x 88.8 cm, Musée Picasso, Paris, France



Já não vivo, só penso


Já não vivo, só penso. E o pensamento 
é uma teia confusa, complicada, 
uma renda subtil feita de nada: 
de nuvens, de crepúsculos, de vento. 

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento, 
e eu cada vez mais vaga, mais alheada. 
Percorro o céu e a terra aqui sentada, 
sem uma voz, um olhar, um movimento. 

Terei morrido já sem o saber? 
Seria bom mas não, não pode ser, 
ainda me sinto presa por mil laços, 

ainda sinto na pele o sol e a lua, 
ouço a chuva cair na minha rua, 
e a vida ainda me aperta nos seus braços. 


 in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Onde o Homem não chega tudo é puro" - Poema de Fernanda de Castro


Ilustração de Arthur Sarnoff
 

Onde o Homem não chega tudo é puro


Onde o Homem não chega tudo é puro, 
dessa pureza da primeira infância. 
Tudo é medida, ritmo, concordância, 
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro. 

E nem o vendaval é dissonância 
mas promessa de sol e de futuro. 
Quem levantou esse primeiro Muro 
que do perto fez longe, ergueu distância? 

Foi o Homem, com suas mãos de barro, 
com suas mãos perjuras, fel e sarro 
de inútil sofrimento e vil prazer. 

Não é tarde, porém: sacode a lama, 
ergue o facho, levanta a Deus a chama 
e recomeça: acabas de nascer. 


in "Ronda das Horas Lentas"


Ilustração de Arthur Sarnoff


"A primeira adoração dos ídolos foi sem dúvida o medo das coisas, mas também, relacionado com este, o medo da necessidade das coisas e, relacionado com isso, o medo da responsabilidade por elas. Essa responsabilidade parecia tão gigantesca, que nem mesmo se ousou impô-la a um único ser humano, pois, pela mera mediação de um ser, a responsabilidade humana não teria sido aliviada o suficiente, o convívio com um ser apenas teria sido contaminado de uma maneira mais profunda ainda pela responsabilidade; por isso, deu-se a cada coisa a responsabilidade por si mesma, mais: deu-se a essas coisas, também, uma medida da responsabilidade para o ser humano."

Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade' 


Ilustração de Arthur Sarnoff


"Crueldade é algo que está presente em famílias humanas por incontáveis eras. É quase impossível alguém que é cruel com os animais ser generoso com as crianças. Se se permite às crianças a crueldade contra seus animais de estimação ou outros que cruzem seus caminhos, elas aprenderão facilmente a ter o mesmo prazer com a miséria de seus semelhantes. Essas tendências podem facilmente levá-las ao crime."
 
Frederic McGrand, in "The extended circle: a dictionary of humane thought"


Ilustração de Arthur Sarnoff


"Os animais selvagens nunca matam por diversão. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte de seus semelhantes são divertidas." - James Froude