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domingo, 26 de julho de 2026

"Inicial" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), "Sommeridyl" 
('Young girls in a boat, summer'), c. 1903.


Inicial 


O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida
 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

"Nictofagia" - Poema de Natália Correia




Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937),
 An evening by the beach, 1925.


Nictofagia


Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho!


Natália Correia
, in Passaporte, 1958 

 


"Passaporte" (Poemas) de Natália Correia, 1.ª Edição,
Editora Gráfica Portuguesa, Lda. Lisboa, 1958.
 

SINOPSE 

"Passaporte" é um dos primeiros livros de Natália Correia (1923–1993) ligado à "tendência surrealista da poesia portuguesa" que contém os poemas: Passaporte, Boletim Meteorológico, Discurso Directo, Biografia Encomendada pela Insónia, Êxodo, O Poema, Metamorfoses necessárias para a Reconquista do Mundo, A Demiurgia do Riso, Ricochete, Homenagem a Titus Lucretius Carus, Poema destinado a haver Domingo, Nictofagia, Projecto de Bodas, Elegia dos Amantes Lúcidos, Ultrabiográfico, Mar Uterino.
Em "Passaporte", Natália Correia explora temas como a identidade, a viagem e a busca por um lugar no mundo, utilizando uma linguagem que transita entre o surrealismo e o realismo, com um toque de irreverência e paixão. A obra reflete a personalidade da autora, que, segundo críticos da Universidade do Porto, era alguém que "chega adiantada no tempo" e que não se encaixa em normas ou ideologias. 


sexta-feira, 6 de junho de 2025

"O arco-íris" - Poema de Christina Rossetti

 


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), "Under the rainbow".



O arco-íris


Navegam botes nos rios,
navios andam no mar,
mas que é mais belo que as nuvens
que se transformam no ar?

Vejo pontes sobre os rios,
belas esteiras de aço;
mas que ponte mais bonita
você conhece, no espaço?

Sete cores reunidas
formando bonito véu,
um arco misterioso
que serve de ponte ao céu.

É uma estrada colorida
que aparece, de repente,
levando, da terra ao céu,
tudo que nossa alma sente!...


Christina Rossetti

Tradução e adaptação de Helena Pinto Vieira, 
em "O mundo da crianças: poemas e rimas", 
vol. 1,
RJ, Editora Delta, 1975.




Retrato de Christina Rossetti, 1866, por seu irmão, 
 Dante Gabriel Rossetti (1828–1882).
 

Poetisa inglesa, Christina Georgina Rossetti nasceu a 5 de dezembro de 1830, na cidade de Londres.

O pai, Gabriele Rossetti, um refugiado político italiano que se mudou para Inglaterra para trabalhar como professor de Língua e Cultura Italianas no King's College, dedicava-se também à poesia. Por seu lado, a mãe era uma ex-governanta de fortes convicções de religião anglicana, que tomou a seu cargo a educação dos seus filhos em casa.

Em 1842 Christina foi presenteada com a publicação dos seus primeiros versos pelo avô, proprietário de uma tipografia.
Utilizando o pseudónimo Ellen Alleyne, contribuiu também com alguns dos seus poemas para uma revista pertencente ao movimento artístico designado como Pré-Rafaelita, e que o seu irmão William Michael ajudara a fundar.

O movimento Pré-Rafaelita era essencialmente estético e protestava contra o uso exagerado da técnica se não fosse acompanhado de inspiração, prescrevendo a arte medieval antes de Rafael como modelo. Um outro dos seus quatro irmãos, o célebre pintor e também poeta Dante Gabriel Rossetti fez-lhe em 1849 um retrato a óleo a que chamou The Girlhood of Mary Virgin, 'A Meninice da Virgem Maria'.

A família atravessou um período económico difícil quando o pai de Christina Rossetti teve que abandonar o seu cargo docente, por motivo de cegueira. A mãe decidiu então manter uma escola em Somerset, contando com o auxílio da jovem poetisa mas, revelando-se a empresa mal-sucedida, regressaram a Londres com a morte do pai, em 1854.

Em 1862 publicou a sua obra mais conhecida, Goblin Market and Other Poems, coletânea bem ilustrativa do seu estilo melódico mas com arritmia, e cujo poema titular descreve o modo como duas irmãs interagem na descoberta da tentação. Seguiram-se Prince´s Progress and Other Poems (1866) e um livro de contos, Commonpalce and Other Short Stories (1870), entre outras obras, algumas de inspiração religiosa.

Em meados da década de 80 tornou-se praticamente inválida, devido a complicações na glândula tiroide, o que a impediu de seguir o ofício da sua mãe e vir a ser governanta. Recolhida em casa, continuou a escrever, publicando coletâneas de poesia como The Face of The Deep (1892) e Verses (1893).

Tida como a mais provável sucessora de Lord Alfred Tennyson como Poeta da Corte Real Britânica, não chegou a poder ser honrada com o cargo por falecimento, vítima de cancro, a 29 de dezembro de 1894. (daqui)


sábado, 15 de março de 2025

"A flor e a fonte" - Poema de Vicente de Carvalho

 

 
Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937),
 Two Italian women at a fountain.


A flor e a fonte 
 

"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte..."
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr-do-sol;

"Carícia das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!..."

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...


Vicente de Carvalho
in "Rosa, rosa de amor", 1902.
 

domingo, 8 de dezembro de 2024

"Volver às rimas suaves" - Poema de Reinaldo Ferreira


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), The Woodland Picnic, 1919.
 
 

Volver às rimas suaves 
 
 
Volver às rimas suaves,
Aos metros embaladores,
Cantar o canto das aves,
A aurora, a brisa e as flores...

Vibrar na deposta lira
Dos trovadores sepulcrais
Delidas queixas d'Elvira,
Zelos de bardo, fatais...

Para que nessa ficção,
De outras apenas diferente,
Ao fogo do coração
Arda a razão descontente.


Reinaldo Ferreira
, Poemas, 2.ª edição.
Prefácio de José Régio. Portugália Editora,
Lisboa, 1962.


 
 
"O casamento é como uma longa viagem num pequeno barco a remo: se um passageiro começar a balançar o barco, o outro terá que estabilizá-lo; caso contrário, os dois afundarão juntos."
 
David Reuben
- citado em Quotations for the New Age‎ - Página 104, 
de Meir S. Rosenberg - Citadel Press, 1978 - 179 páginas.
 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

"Diz-me tudo" - Poema de Nuno Júdice


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864 –1937), Summer Day, 1888.
Models: Danish painters Agnes Slott-Møller (1862–1937) and Marie Krøyer (1867–1940).
 


Diz-me tudo 
 

Há uma regra inflexível no amor: o seu horizonte
tem a vastidão do mar, para lá do qual outros
horizontes se abrem se o muro, ao longo da
praia, não impuser os seus limites a quem
deseja a viagem. O espírito, porém, seguindo
um rumo platónico, voa sobre as ondas,
afastando-se da apressada respiração das marés;
e é no alto, onde se confundem nuvens e
gaivotas, que o olhar descobre a imensidão
do oceano para que o sentimento o empurra,
se não houver pela sua frente um porto,
ou uma ilha, que ponham fim à navegação.

Mas estas são apenas as convenções que
obrigam a imaginação; porque se o amor se
libertar das palavras que o oprimem, dando
ao corpo a mesma plenitude que se encontra
neste mar, está aberto o caminho para o abismo
em que o ser se dilui no puro espaço, onde
só o azul existe. Então, os dedos tocam
o teclado do infinito, e ouvir-se-á a música
dos murmúrios que nenhum ouvido recebe
se os sons da terra o magoam. E é como
se o dia durasse, para além do tempo e
das coisas da vida, até ao fim do mundo.


Nuno Júdice
, "A Pura Inscrição do Amor", 2018

 
Nuno Júdice, "A Pura Inscrição do Amor"
Ano de Edição / Impressão: 2018 
Publicações Dom Quixote 
 
 
SINOPSE


"A Pura Inscrição do Amor" reúne poemas que Nuno Júdice escreveu ao longo dos anos e que são dedicados a este tema.
Nele se incluem, a abrir, os conjuntos de poemas "Pedro, Lembrando Inês" e "Carta de Orfeu a Eurídice", ambos publicados em simultâneo em Abril de 2001 sob o título "Pedro, Lembrando Inês", que se encontrava esgotado há muito tempo.
Os poemas reunidos em "Novo Tratado de Pintura" são inéditos em Portugal embora alguns deles tenham sido publicados na Colômbia, em 2014, sob o título, "Breve Tratado de Pintura" (Frailejón Editores).
Por sua vez, "Cântico" teve uma edição em livro de artista em Espanha, em 2015, sob o título "Cântico dos Cânticos" (versão livre), com ilustrações do pintor Pedro Castrortega (Segundo Santos Ediciones).
Em ambos os casos, esta é a sua primeira edição em Portugal.
O poema "A Mulher Deitada", que fecha o livro, é inédito.
Um belíssimo livro para ler, oferecer e guardar. (daqui)
 


Harald Slott-Møller, Georg Brandes at the University in Copenhagen, 1889.
 
 
 Georg Brandes
 
 
Crítico e estudioso dinamarquês, Georg Morris Cohen Brandes nasceu a 4 de fevereiro de 1842, em Copenhaga. Oriundo de uma família da classe média judaica, não foi contudo educado no ambiente religioso que é característico deste grupo étnico. Estudou na Universidade de Copenhaga, resolvendo nesse período da sua vida uma crise de valores com que se havia deparado ao tomar conhecimento com a obra de Kierkegaard. Recebeu o seu diploma em Estética em 1964, tornando-se depois leitor e crítico de teatro.
Publicou os seus primeiros escritos em Æsthetiske Studier (1868, Estudos Estéticos) e Kritiker Og Portraiter (1870). Em 1870 apresentou a sua tese de doutoramento, dedicada ao tema da Estética francesa, com especial incidência no pensamento de Taine, que o havia deslocado da Filosofia hegeliana, mas mantendo a opinião de que o génio não era uma manifestação do Zeitgeist, o espírito dos tempos.
A 3 de novembro de 1871 começou a apresentar um ciclo de conferências que marcaram profundamente os meios culturais dinamarqueses e escandinavos. Neste ciclo, intitulado Høvedstrømminger I Det 19De Aarhundredes Litteratur, e publicado posteriormente em seis volumes entre 1872 e 1887, Brandes afirmava que a Dinamarca estava cerca de quarenta anos atrasada em relação ao resto da Europa, defendendo portanto uma orientação para o modernismo na reforma da sociedade. Mal acolhidas nos círculos conservadores, trouxeram a Brandes uma reação hostil, que se manifestou na destituição da cadeira de Estética na Universidade de Estocolmo, que lhe havia sido prometida. Entre 1870 e 1871 Brandes havia viajado pela Europa, tendo visitado a Inglaterra, a Itália e a França, deixando-se impressionar pelo clima mediterrânico e pela arte renascentista.
De 1874 a 1877 publicou a revista Det Nittende Aahundrede, em parceria com o seu irmão Edvard Brandes e, com o fracasso desta publicação, abandonou a Dinamarca para ir viver para Berlim, onde esteve durante cinco anos. Aí preparou a gestação do pensamento a que os filósofos iriam chamar de Brandesianismo. Publicou, durante este período, monografias, de que se destacam Benjamin Disraëli (1879) e Ferdinand Lassalle (1881).
Tornando-se a figura de vanguarda do movimento naturalista da literatura escandinava, e estabelecendo contacto com nomes com August Strindberg, Henrik Ibsen e Bjørnstjerne Bjørnson, teve discípulos significativos, como Jens Peter Jacobsen.
Em 1888, num outro ciclo de conferências, apresentou a sua interpretação do pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que o desprezou. Brandes considerava os génios como os melhores produtos de uma civilização avançada. Publicou biografias de grandes figuras históricas, como William Shakespeare, Goethe, Voltaire, Júlio César e Michelangelo.
Na fase final da sua vida viajou extensivamente. Foi-lhe dada uma cadeira na Universidade de Copenhaga, em reconhecimento pelos seus trinta anos de serviço. Manteve-se, porém, uma figura controversa quando se opôs à Primeira Grande Guerra e professou o seu ceticismo religioso. Recebeu, portanto, protestos com a publicação de Sagnet Om Jesus (1925).
Faleceu a 19 de fevereiro de 1927. (daqui)
 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

"Canção da tarde no campo" - Poema de Cecília Meireles


 
Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864 –1937), Spring, 1896,
 


Canção da tarde no campo
 

Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.


Cecília Meireles
, Obra poética, 1958

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

"Três poemas da solidão" - Fernanda de Castro


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864 –1937), Interior,
 Morning sun in the garden room, c. 1930, oil on canvas



Três poemas da solidão
 
 I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.

Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
Já nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira não dá flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II

Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.

III

Solidão.
A multidão em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.
E as ideias dispersas, em tropel,
como folhas ao vento
pétalas do Pensamento.

Solidão.
A angústia da Cidade,
a impossível procura da Unidade,
o clamor
do silêncio interior,
mais pungente, estridente,
que os bárbaros ruídos
que ferem, dilaceram
os nervos e os sentidos. 


Fernanda de Castro,
in "E Eu, Saudosa, Saudosa"


 
Harald Slott-Møller, A View of Lake Garda at Desenzano, Italy, 1910
 
 
"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."

Eugénio de Andrade, Rosto Precário, 1979

sábado, 13 de janeiro de 2024

"Das Mortes" - Poema de Dalila Teles Veras


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864 –1937), A Funeral, 1883
 National Gallery of Denmark 


Das Mortes 


da primeira vez que te vi morrer, 
a lembrança do horror:
teu corpo (ainda) morno e nu
na pedra fria
e
a marca da dor
num rosto que já não era o teu

da segunda vez que te vi morrer, 
o torpor das exéquias:
pesadelo da tarde sem ar
sensação de estrangulamento

da terceira vez que te vi morrer, 
o choque e o estranhamento:
teu nome citado no templo
na oração aos defuntos

da última vez que te vi morrer, 
a dor fina e lancinante:
o descarte dos teus pertences
a certeza do nunca mais
nunca…
(a morte também)


Dalila Teles Veras, in Vestígios

sábado, 25 de novembro de 2023

"O rio do tempo" - Poema de Lya Luft


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), Morning Coffee, c. 1910


O rio do tempo

O tempo não existe,
nem dentro nem fora.
Esses peixes de opala
são nomes que nadam na memória:
são rostos, são risos, são prantos,
são as horas felizes.

O tempo não existe,
pois tudo continua aqui, e cresce
como se arredonda uma árvore
pesada de frutos que são peixes,
que são nomes de nomes, são rostos
com máscaras.

O tempo não existe. Sou apenas
o aqui e o presente, e o atrás disso,
como um rio que corre mas não passa
— pois ele é sempre, em mim, agora.
 
 
 Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
 
 

domingo, 12 de março de 2023

"Aviso a cardíacos e outras pessoas atacadas de semelhantes males" - Poema de Jorge de Sena


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), The Poor: The Waiting Room of Death, 1888 
(Poor People in the Poor Doctor's Waiting Room)



Aviso a cardíacos e outras pessoas 
atacadas de semelhantes males


Se acaso um dia o raio que te parta
(enfim obedecendo às fervorosas preces
dos teus muitos amigos e inimigos),
baixa de repente gigantesco
e fulminante sobre ti, e mesmo se repete:
e não te quebra todo, e como desasado,
ou quem morto regressa à sobrevida,
tu sobrevives, resistes e persistes,
em estar vivo (ainda que à espera sempre
de novo raio que te parta em cacos) —
— tem cuidado, cuidado! Arma-te bem
não tanto contra o raio mas principalmente
contra tudo e todos. Sobretudo estes.
Ou sejam todos quantos pavoneiam
o consolo inocente de pensar que a morte
não os tocou nem tocará jamais.

Porque não há ninguém por mais que te ame,
ou por mais que seja teu amigo (e,
com o tempo, os amigos, mais que as criaturas
fiel ou infielmente bem-amadas, gastam-se),
que te perdoe que tu não tenhas estourado,
no momento em que se soube que estouravas.
É uma «partida» (ou um «regresso» sem piada nenhuma)
absolutamente e aterradoramente inaceitável,
humanamente e vitalmente imperdoável.
Pelo que, sobrevivente, pagarás, como se diz,
com língua de palmo. Se és um pobretana,
solitário, abandonado, entregue aos teus fantasmas
que são um palpitar, um estertor, uma opressão no peito
uma tontura, um como que silêncio negro,
podes estar certo e seguro que nem amigo nem amante
está livre de ocupações prementes para te acudir.
Uma que outra vez apenas, para alívio
dos borborigmas morais dos seus estômagos,
irão visitar-te carinhosos. Outros
tentarão acudir-te, ajudar-te, como podem,
e quando em desespero tu reclamas.

Não contes com mais nada senão morte.
Se tens família, amando-te sem dúvida,
inteiramente delicada a ti que seja ou é,
não penses que não és constante imagem
sem desculpa alguma de andar pela casa,
um pouco vacilante, às vezes suplicando
uma pílula, alguma companhia, ou mesmo atrevendo-te
a fazer referências tidas de mau gosto
à espada que para onde vás segue suspensa
sobre a tua cabeça. Porque ninguém, ninguém,
até contraditoriamente porque te amam,
suportam que não sejas quem tu eras,
mas só morte adiada, o que é diverso
do horror de um cancro que não se sabe
quando matará mas é criatura de respeito,
crescendo em ti como se estiveras grávido.
Assim, meu caro, com coração desfeito
sem metáfora alguma, és apenas uma
indecorosa e miserável chatice.

Portanto, irmãos humanos, se estourais,
estourai por uma vez aliviando
quem vos quer ou não quer por uma vez.

(19 de Março de 1978)

Jorge de Sena (1919-1978),
40 anos de servidão, Moraes, Lisboa, 1979 
 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

 "A uma amiga" - Poema de Maria Firmina dos Reis


 
Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), Moonlight, s.d. Private collection.
 
 
 
 A uma amiga 

 
Eu a vi - gentil mimosa,
Os lábios da cor da rosa,
A voz um hino de amor!
Eu a vi, lânguida, e bela:
E ele a rever-se nela:
Ele colibri - ela flor.

Tinha a face reclinada
Sobre a débil mão nevada;
Era a flor à beira-rio.
A voz meiga, a voz fluente,
Era um arrulo cadente,
Era um vago murmúrio.

No langor dos olhos dela
Havia expressão tão bela,
Tão maga, tão sedutora,
Que eu mesmo julguei-a anjo,
Eloá, fada, ou arcanjo,
Ou nuvem núncia d'aurora.

Eu vi - o seio lhe arfava:
E ela... ela cismava,
Cismava no que lhe ouvia;
Não sei que frase era aquela:
Só ele falava a ela,
Só ela a frase entendia.

Eu tive tantos ciúmes!...
Teria dos próprios numes,
Se lhe falassem de amor.
Porque, querê-la - só eu.
Mas ela! - a outro ela deu
meigo riso encantador...
Ela esqueceu-se de mim
Por ele... por ele, enfim. 


Maria Firmina dos Reis
, in "Cantos à beira-mar",
São Luís do Maranhão, 1871
 
 
 
"Cantos à beira-mar" de Maria Firmina dos Reis
Cartola Editora - Edição: Dezembro/2021 (daqui)
 

"Cantos à beira-mar", publicado originalmente em 1871, é dedicado à memória da mãe de Maria Firmina dos Reis e conta com cinquenta e seis poesias, das quais o próprio título da obra indica os caminhos percorridos em muitas delas, como não poderia ser diferente. Sendo Guimarães uma cidade litorânea, onde Maria Firmina dos Reis passou grande parte de sua vida, o mar e a praia são presenças marcantes nas poesias, esta última transformada em lugar de beleza, meditação ou melancolia, como pode ser verificado nos poemas “Uma Tarde no Cumã”, “Nas Praias do Cumã”. “Cismar”, “Itaculumim”, “Meditação”, “Melancolia”, entre outros, nos quais o ambiente da praia, por vezes, aparece como o lugar propício para a reflexão em torno dos próprios sentimentos e anseios.

A desesperança com a vida, o sofrimento, o desejo da morte, os amores não correspondidos, entre outros temas semelhantes, aparecem em outros poemas. Em parte, isso pode ser fruto do próprio movimento literário romântico em vigência no Brasil, o qual Maria Firmina dos Reis observou temáticas, regras de composição e estilo, presentes tanto em sua produção poética quanto em prosa. Assim, não se pode desvincular a obra da escritora do seu período de atuação, pois estão de tal forma entrelaçados que o fundamento central das poesias encontra eco expressivo nas características do movimento romântico, em especial na fase do ultrarromantismo, de forte teor sentimental e espiritual. Alguns dos poemas que trazem essa face são “Amor”, “Desilusão”, “A dor, que não tem cura”, “Súplica” e “Confissão”.

A exaltação da terra e nacionalismo, bem como homenagens a pessoas ilustres, são também temas recorrentes, comprovando o interesse em manter teias de relações que a mantivessem no meio letrado, além de ser prática recorrente entre escritores do período. Alguns exemplos são os poemas “Minha terra”, oferecido a Francisco Sotero dos Reis, “Te-Deum”, oferecida ao poeta Gentil Homem, “Por ocasião da passagem de Huimatá”, dedicada ao poeta maranhense João Clímaco Lobato, entre outros.

Nesses e outros poemas sobressai, ainda, a escrita de textos de cunho nacionalista, nos quais elogia a província maranhense e a capital São Luís, como os cenários naturais, o passado de luta, a terna ligação com a própria terra e o receio em deixá-la, como nos poemas “O proscrito” e “Minha terra”, além dos textos dedicados aos homens que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870): “Poesia”, “À recepção dos voluntários de Guimarães”, “Poesias” e “À partida dos voluntários da pátria do Maranhão”, “Poesia”, sobre os quais tece o elogio à resistência e almeja a preservação da memória dos que ali lutaram.

Em outros movimentos nessa mesma obra, Maria Firmina dos Reis usa da crítica velada contra a opressão patriarcal, denunciando o papel social destinado às mulheres no período, que as distanciava do ambiente público. A escritora maranhense subverte padrões estabelecidos, ao publicar seus textos em jornais e livros.

Neste período, como indica Constância Lima Duarte (2016), a participação na imprensa era pouco viável às mulheres, apesar da existência de jornais editados e destinados ao público feminino, alguns dedicados a reafirmar a cultura patriarcal, e outros permeados pela questão educacional e reflexões acerca do papel da mulher, afirmando um desejo de emancipação feminina em meio  a forças  contraditórias, ora intermediando  o  movimento  emancipatório,  ora  funcionando  como  obstáculos.

A ousadia de Maria Firmina dos Reis, ao tratar do tema da opressão feminina, demonstra a compreensão do contexto senhorial, bem como desnuda sua conceção sobre a sociedade do período em relação às mulheres, utilizando de uma “estratégia irónica”, por meio da qual se coloca em lugar subalterno para poder romper com o emudecimento imposto, lançando ao público seu livro de poesias e outras obras, como bem observa Juliano Carrupt do Nascimento (2007).

Alguns dos poemas que exprimem essa face crítica são “No álbum de uma amiga”, “À minha extremosa amiga D. Anna Francisca Cordeiro”, “Minha Alma”, “Confissão”, “Não quero amar mais ninguém”, este último tecendo significativa relação com poemas românticos que exaltavam o amor ideal, no entanto, subverte ao ser construído com um eu-lírico feminino afirmando não querer amores terrenos, que apenas trazem sofrimentos, assegurando sua satisfação com o amor idealizado.

Nessa obra sobressai, ainda, um poema com temática indianista, “Por ocasião da tomada de Villeta e ocupação de Assunção”, que confere à produção de Maria Firmina dos Reis mais um ponto de relação com as produções românticas nacionais, nesse poema é exaltado o caráter guerreiro e vitorioso dos indígenas. Essa produção tece diálogo com o conto Gupeva, publicado originalmente em 1861, no jornal Jardim das Maranhense, e republicado em 1863 e 1865, respetivamente nos jornais Porto Livre e Eco da Juventude. (Daqui)

Maria Firmina dos Reis, elaboração digital de Waniel Jorge Silva a partir das descrições
 colhidas por Nascimento Morais Filho (1975) (daqui)
 
 
Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís do Maranhão, em 11 de outubro de 1825, "filha natural" da escrava alforriada  Leonor Felippa dos Reis, tendo como avó a também escrava alforriada Engrácia Romana da Paixão e, como tio, o professor, gramático e filólogo Sotero dos Reis, pertencente ao ramo branco da família e com forte atuação nos círculos letrados da capital maranhense. 

Em 1847, é aprovada em concurso público para a Cadeira de Instrução Primária na vila de São José de Guimarães, no município de Viamão, situado no continente e separado da capital pela baía de São Marcos, conforme registam seus biógrafos Nascimento Morais Filho (1975) e Agenor Gomes (2022). 

Segundo Morais Filho, ao se aposentar, no início da década de 1880, a autora funda, na localidade de Maçaricó, a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país. O feito causou grande repercussão na época e por isso foi a professora obrigada a suspender as atividades depois de dois anos e meio.

A professora foi presença constante na imprensa local, publicando poesia, ficção, crónicas e até enigmas e charadas. Segundo Zahidé Muzart (2000, p. 264), “Maria Firmina dos Reis colaborou assiduamente com vários jornais literários, tais como A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista e outros”.

Além disso, teve participação relevante como cidadã e intelectual ao longo dos noventa e dois anos de uma vida dedicada a ler, escrever, pesquisar e ensinar. Atuou como folclorista, na recolha e preservação de textos da cultura e da literatura oral e também como compositora, sendo responsável, inclusive, pela composição de um hino em louvor à abolição da escravatura.

Firmina é autora de Úrsula, publicado em 1859, mas com circulação somente a partir do ano seguinte. Livro revolucionário para o seu tempo, figura como o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; e, possivelmente, o primeiro romance publicado por uma mulher negra em toda a América Latina. A narrativa aborda o problema do tráfico negreiro e do regime como um todo a partir do ponto de vista do sujeito escravizado e transformado em "mercadoria humana". A autora traz para a nascente ficção brasileira a África como espaço de civilização e de liberdade. E denuncia os traficantes europeus como "bárbaros", contrapondo-se desta forma ao pensamento hegeliano voltado para justificar a colonização escravista como empreendimento civilizatório. E bem antes do "Navio negreiro" de Castro Alves, denuncia os maus tratos a que eram submetidos os escravizados nos "tumbeiros", verdadeiros túmulos para muitos que não resistiam. 

Em 1861, a autora lança em formato de folhetim Gupeva, narrativa curta de temática indianista, publicada em capítulos na imprensa local, e com novas reedições ao longo da década de 1860. 

Já seu volume de poemas Cantos à beira-mar, cuja primeira edição é de 1871, traz textos marcados por forte inquietação e por uma subjetividade feminina por vezes melancólica diante da realidade oitocentista marcada pelos ditames do patriarcado escravocrata e também representada como problema perante a sensibilidade da autora.

Defensora da abolição, em 1887 publica na imprensa o conto "A escrava", texto abolicionista empenhado em se inserir como peça retórica no debate então vivido no país em torno da abolição do regime servil.

Maria Firmina dos Reis faleceu em 1917, pobre e cega, no município de Guimarães. Infelizmente, muitos dos documentos de seu arquivo pessoal se perderam e até o momento não se tem notícia de nenhuma foto sua daquela época. A propósito, circula na internet retrato da escritora gaúcha Maria Benedita Borman, pseudónimo "Délia", como se fosse da autora maranhense. A imagem digital reproduzida nesta página foi elaborada a partir de retrato falado colhido por Nascimento Morais Filho, biógrafo da autora.

A partir de 2017, por ocasião do centenário da morte de Firmina, seus livros vêm sendo relançados: Úrsula, já com cerca de trinta reedições, algumas trazendo em apêndice o conto "A Escrava"Gupeva, em sexta edição; além de Cantos à beira-mar, volume de poemas novamente disponível em publicação da Academia Ludovicence de Letras,  organizada pela pesquisadora Dilercy Aragão Adler. (Daqui)

 
Harald Slott-Møller, Two goldfinches on a terrace, 1914
[The terrace and the view was found near Vejle in Denmark, now the site of Hotel Munkebjerg.]
 

"Os homens são como os astros; alguns geram sua própria luz, enquanto outros apenas refletem o brilho que recebem."

 Obras completas: Crítica y arte - Volume 52 de Obras completas, Página 192, 
José Martí, ‎Gonzalo de Quesada y Miranda - Trópico, 1943


domingo, 7 de agosto de 2022

"Crepúsculo" - Poema de Martins Fontes


Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), Midsummer's Eve, 1904
 
 
 
Crepúsculo


Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um langor de mística esperança
E de doçura triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
O coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança
Entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando,
Da recôndita paz das horas esquecidas,
Vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando...

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
Melancolicamente, o coração pulsando,
Plange o réquiem de amor das ilusões perdidas.


Martins Fontes
(18841937), in Verão, 1917