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domingo, 29 de novembro de 2015

"Amanhecimento" - Poema de Elisa Lucinda


Jean-Honoré Fragonard, The Stole Kiss, 1780



Amanhecimento


De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada…
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.



sábado, 13 de junho de 2015

"Amo o silêncio" - Poema de João Cabral do Nascimento


Young Girl Reading (A leitora), 1770, óleo de Jean-Honoré Fragonard - Estilo Rococó



Amo o silêncio


Amo o silêncio e as vozes que insinuam, 
Meigas ciciam, musicais, veladas, 
Fracas, serenas, pálidas, cansadas, 
Doces palavras que no ar flutuam. 

Amo o silêncio e a luz difusa... E amo 
A tarde cor de cinza, a chuva calma, 
E o mar sem ondas, liso como a palma 
Da minha mão aberta... E em cada ramo 

Das árvores sem folhas, amo os verdes 
Musgos pendentes, flácidos, em tiras... 
Assim, minh'alma extática, suspiras, 
Meu coração tranquilo, assim te perdes! 

Rude fragor do mundo, sombra fria, 
Passa de largo! Não me acordes, não! 
Deixa correr a fonte da ilusão, 
Enche-me a vida de melancolia...


(1897-1978)


Fragonard, "A Inspiração" (1769), Autorretrato - Estilo Rococó


Jean-Honoré Fragonard (Grasse, 5 de abril de 1732 - Paris, 22 de agosto de 1806) foi um pintor francês, cujo estilo Rococó foi distinguido por sua notável facilidade, exuberância e hedonismo. Um dos mais prolíficos artistas ativos nas últimas décadas do Antigo Regime, Fragonard produziu mais de 550 pinturas (sem contar desenhos e águas-fortes), das quais apenas cinco são datadas. Entre suas obras mais populares estão as pinturas de género, que transmitem uma atmosfera de intimidade e erotismo.


Fragonard, O Balanço (L'Escarpolette; 1766) - Pintura do Rococó



Rococó 


O nome Rococó derivou do termo francês rocaille (que designava os motivos ornamentais, como a concha, francamente empregues por este estilo), um termo depreciativo inventado por críticos numa época que desvalorizou este período artístico.
Só muito recentemente se reavalia este movimento, diferenciando-o do Barroco que, em muitos países, se desenvolveu em simultâneo com o Rococó.
Procurando afastar-se da austeridade e monumentalidade que a cultura iluminada de Louis XIV exportou para toda a Europa, o rococó tentou recuperar uma cultura mais íntima e sensível, ligada à frívola vida da corte e elegeu como fundamento estético a supremacia da sensação, da forma caprichosa e do ornamento.

  • Arquitetura
Em França, as grandes transformações estilísticas e formais da arquitetura manifestaram-se essencialmente ao nível dos edifícios civis. Abandonando a solenidade e monumentalidade barroca, criaram-se novas tipologias residenciais aristocráticas, urbanas e rurais, que respondiam a necessidades de intimidade e de conforto que os grandes palácios não admitiam. A progressiva especialização funcional dos diferentes espaços determinaram a tendência para se pensar cada sala autonomamente, eliminando-se frequentemente as regras compositivas de sentido geral e dissociando-se o carácter dos espaços interiores da imagem exterior dos edifícios. As salas, ornamentadas por delicadas e densas molduras, painéis e medalhões que encerravam pinturas e espelhos, eram francamente iluminadas por vãos cada vez mais elegantes.
Se a Inglaterra e a Itália contribuíram muito pouco para o desenvolvimento deste estilo, as regiões alemãs e austríacas envolventes dos alpes destacaram-se na criação de uma arquitetura rococó de carácter religioso. As igrejas, apresentando geralmente um exterior simples, reservavam para o interior toda a complexidade espacial e exuberância decorativas próprias deste estilo. Fundindo o requintado carácter rocaille com a monumentalidade barroca, este estilo procurava integrar na arquitetura elementos escultóricos e pictóricos, numa síntese que se designou por Gesamtkunstwerk (obra de arte total). De entre os inúmeros templos construídos nesta altura destacam-se a abadia de Ottobeuren de Johann Fischer, as igrejas do arquiteto Dientzenhofer, em Praga, a pequena igreja de peregrinação In der Wies, na Alta Baviera, obra dos irmãos Zimmermann e a monumental igreja da abadia de Wierzehnheiligen na Baviera, de Balthasar Neumann.

Em Portugal a arquitetura Rococó  não atingiu um nível artístico comparável ao dos restantes países europeus. De entre os edifícios erguidos neste período destacam-se a ala poente do Palácio Real de Queluz, desenhada pelo francês Jean-Baptiste Robillon, um conjunto de igrejas construídas para Lisboa após o Terramoto  de 1755 e uma série de pequenos edifícios civis e religiosos projetados  pelo arquiteto André Soares para a região de Braga.

  • Artes plásticas e decorativas
A Escultura rococó, contrariamente à barroca que assumia geralmente uma escala pública e monumental, é de pequena escala (à exceção de poucas esculturas monumentais em bronze), surgindo geralmente no interior de igrejas e de palácios. Apresentava formas sofisticadas e galantes e as temáticas abordadas ligavam-se geralmente à vida cortesã, embora na Alemanha fosse frequente a estatuaria sacra. Um dos géneros mais difundidos neste período foi o retrato, normalmente realizado em mármore. 
Outros materiais, como a madeira e a porcelana eram muitas vezes utilizados para a execução de peças mais pequenas. Um dos exemplos notáveis deste tipo de escultura foi realizado pelo português Machado de Castro, sob a forma de presépios.
A produção da porcelana, cuja técnica foi importada da China nesta altura, conheceu um grande desenvolvimento, expandindo-se por toda a Europa. Em França foi criada a Real Manufatura de Sévres e em Espanha a Fábrica do Buen Retiro. Sem as limitações técnicas da escultura em pedra, as peças de porcelana assumiam formas ainda mais caprichosas e sinuosas, respondendo cada vez mais a objetivos decorativos e ornamentais.

A Pintura rococó apresentava tendência para a valorização da mancha colorida em detrimento da linha, para as composições baseadas em traçados ondulantes e para o predomínio dos elementos ornamentais. Os temas preferênciais deste período, foram as cenas cortesãs (género no qual se destacaram os pintores Watteau e Fragonard), a paisagem e o retrato. Este último, bastante difundido, teve como protagonistas os franceses Largillière, Nattier ou Chardin e os ingleses Hogarth, Joshua Reynolds e Thomas Gainsborough. Foram então realizados muitos retratos a pastel, técnica pictórica que admitia uma grande rapidez e liberdade de execução.
A pintura veneziana, que alcançou nesta época um grande reconhecimento, destacou-se pela produção original de paisagens urbanas, um campo temático em que se afirmaram Pietro Longhi, Canaletto  (famoso pela minúcia e rigor das representações) e Francesco Guardi (este mais veloz e impressionista). O mais conhecido e internacional dos pintores da escola veneziana foi, no entanto, Giovanni Battista Tiepolo que se especializou na pintura de grandes frescos. (daqui)