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terça-feira, 7 de março de 2017

"Quatro vezes sete versos para aquela rapariga" - Poema de Abel Neves



Alice Holcomb (American artist, 1906–1977), "Two Geraniums", n.d.


Quatro vezes sete versos para aquela rapariga 


Enquanto não vens nem tu sabes é assim
uma casa que só cheirasse a uvas de setembro
Este quarto esta sala onde o som contínuo é Out of
Nowhere soprado pelo Charlie Parker
Há calma com vento que vem quente enquanto não vens
e podes ter a certeza que o soalho vai ter aroma de estações
A que menos entenderes para melhor a desejares 

Entretenho-me com uma breve meditação
sobre o perfil de um velho índio apsaroke
e tenho-te rapariga na visão do vale dos bisontes
onde esperas o bafo morno do fim da tarde
ajeitando o lenço na cabeça e sorrindo
entre o voo de alguns insetos
e a recordação destes dedos que te escrevem 

Não me leves a mal se te falo de coisas tão domésticas
mas neste falar assim é que as plantas destes vasos
crescem para o teto e é lá que está o éden delas
ainda que o vá sendo sempre o ar e
a luz que tomam
cada dia perto muito perto das menores palavras
com que te aviso do paraíso tão à mão 

Hoje sinto-me lesma será isto lucidez?
e não tenho sexo nem para as horas
nem lei para esta coisa suave
que é dançar na metafísica como astronauta para lá da gravidade
Cá vou indo menina cá vou indo
e não me peças versos que os não dou
por os não saber fazer ou ler ou nada


Abel Neves
 
[Ator, poeta e autor dramático, Abel Neves (n. 1956) pertence desde 1979 ao coletivo da "comuna", grupo para o qual escreveu os textos Amadis e Touro. Para Carlos Porto (cf. contracapa de Anákis, Lisboa, 1986), é "na palavra, na plena, quase obsessiva presença da palavra que o seu discurso teatral se transforma em corpo e vida, hesitante ainda como uma forma que se procura".] (daqui)
 


Alice Holcomb (American artist, 1906–1977), "Self-Portrait", n.d.



"A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência."
 

sábado, 14 de janeiro de 2012

"Lamento" - Poema de Miguel Torga



Michael Ancher (Danish realist artist, 1849–1927), "The Lifeboat is Taken through the Dunes", 1883



Lamento


Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...


Miguel Torga, in Diário XII, 136. 



Michael Ancher, "Will He Round the Point?", 1879



“Nem todos podem tirar um curso superior. Mas todos podem ter respeito, alta escala de valores e as qualidades de espírito que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa.” 
 
Alfred Montapert



Michael Ancher, "Two Fishermen by a boat", 1889



"Temos de descobrir segurança dentro de nós próprios. Durante o curto espaço de tempo da nossa vida precisamos encontrar o nosso próprio critério de relações com a existência em que participamos tão transitoriamente." 
 
Boris Pasternak



Michael Ancher, "The red lifeboat on its way out to the sea", 1920



"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, 
para a maioria, é só um dia mais." 
 
José Saramago

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"A um amigo" - Poema de Almeida Garrett



Thomas Eakins (American realist painter, photographer, sculptor, 
and fine arts educator, 1844–1916), "The Swimming Hole", c. 1884–85,
 

A um amigo 


Fiel ao costume antigo, 
Trago ao meu jovem amigo 
Versos próprios deste dia. 
E que de os ver tão singelos, 
Tão simples como eu, não ria: 
Qualquer os fará mais belos, 
Ninguém tão d’alma os faria. 

Que sobre a flor de seus anos 
Soprem tarde os desenganos; 
Que em torno os bafeje amor, 
Amor da esposa querida, 
Prolongando a doce vida 
Fruto que suceda à flor. 

Recebe este voto, amigo, 
Que eu, fiel ao uso antigo, 
Quis trazer-te neste dia 
Em poucos versos singelos. 
Qualquer os fará mais belos, 
Ninguém tão d’alma os faria. 


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas' 



Thomas Pollock Anshutz, "Steamboat on the Ohio", 1896, Carnegie Museum of Art
 

"Não são as revoluções nem os motins que abrem a estrada para dias novos e melhores,
mas a alma de alguém inspirada e em chamas".

(Boris Pasternak)

Boris Leonidovitch Pasternak, romancista e poeta russo (10/2/1890 - 30/5/1960), mundialmente famoso pelo romance Doutor Jivago, em 1958, é agraciado com o Prémio Nobel de Literatura, mas as autoridades de seu país o impedem de recebê-lo. 
Boris Leonidovitch Pasternak nasce em Moscovo, numa família judia. Frequenta cursos de filosofia na Universidade de Moscovo e na Universidade de Marburg, na Alemanha. 
Em 1913 lança o primeiro livro de poesia. Com Sestra Moya Zhizn (Minha Irmã, a Vida, de 1922), alcança o reconhecimento. 
Impedido de publicar durante o governo de Josef Stalin, traduz textos de Shakespeare e Goethe. Em 1956 tem o romance Doutor Jivago, que conta a desilusão de um homem com o regime soviético, recusado pelos editores de Moscovo. Uma editora italiana compra os direitos autorais, recusa-se a devolver os manuscritos e publica a obra em 1957. No ano seguinte, está traduzida para 18 línguas.
Banido da União dos Escritores Soviéticos, Pasternak é obrigado a recusar o Prémio Nobel de Literatura em 1958. O cineasta David Lean leva Doutor Jivago à tela (1965). É reintegrado postumamente à União dos Escritores Soviéticos em 1987, o que possibilita o lançamento de Doutor Jivago no país.