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terça-feira, 20 de abril de 2021

"Motivo" - Poema de Aleilton Fonseca


 
Charles Laval, Self-Portrait, 1888, oil on canvas, 50 × 60 cm,  
Van Gogh Museum, Amsterdam


Motivo


calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça

o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto

por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor

sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo

sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
 
 
 
Charles Laval, Paysage de la Martinique, 1887

[Charles Laval (Paris, 17 de março de 1860 - Paris, 26 de abril de 1894) foi um pintor pós-impressionista francês. Foi amigo de Paul Gauguin e Vincent van Gogh.]
 

 Pós-impressionismo


O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do Pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac.

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra A Grande Jatte, realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent Van Gogh e Paul Gauguin contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.

Paul Cézanne desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. (daqui)

 

 
Charles Laval, Going to Market, Brittany, 1888, Indianapolis Museum of Art 

Sintetismo

Sintetismo é um estilo e técnica pictórica desenvolvida em França no final do século XIX com o propósito de representar as impressões primárias provocadas pelos objetos e pela natureza, nomeadamente através da redução dos volumes a duas dimensões e do uso de superfícies de cor delimitadas por contornos vigorosos. O termo é usado por artistas pós-impressionistas como Paul Gauguin, Émile Bernard e Louis Anquetin para distinguir seu trabalho do impressionismo. O Sintetismo é outra subcorrente do Simbolismo. Este tipo de arte também é chamado de Neotradicionalismo ou Cloisonnisme (Alveolismo).

 


Paul Gauguin, pintor francês pós-impressionista, nasceu a 7 de junho de 1848, em Paris, e morreu a 8 de maio de 1903, nas Ilhas Marquesas.
Depois de ter sido marinheiro e empregado bancário, decidiu enveredar pela pintura, ao conhecer Camille Pissarro e o trabalho dos impressionistas. Em constante revolta contra os artifícios e os convencionalismos da época, encetou um retorno às origens em Taiti. A Bretanha constitui contudo o primeiro passo no seu percurso artístico. 
Libertando-se do Impressionismo, em O Cristo Amarelo (1889) utiliza cores lisas delimitadas por contornos, processo que se assemelha à arte do vitral medieval, e que vai aperfeiçoar naquilo a que se chamou o "cloisonnisme". 
Em Manao Tupapau (1892), já no Taiti, as prioridades do espaço pictural prevalecem sobre a realidade, as proporções das figuras são deformadas, a perspetiva alterada, as cores são intensas e profundas, mas nunca agressivas. 
Em A Lua e a Terra (1893) expressa os seus sentimentos sobre a cultura maori. 
Com O Cavalo Branco (1898) o seu estilo conserva-se essencialmente o mesmo, mas torna-se mais poderoso. 
A sua obra-prima é a alegoria Donde Vimos? Que Somos? Para Onde Vamos? (1897) uma espécie de testamento mágico-religioso executado antes de uma tentativa de suicídio. 
A sua arte influenciou diretamente os Nabis, o Fauvismo, o Simbolismo e mesmo o Expressionismo de Edvard Munch. (daqui) 

terça-feira, 13 de abril de 2021

"A Catedral" - Poema de Alphonsus de Guimaraens



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),  
A Catedral

 
Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!" 
 
14 de julho de 1914

Alphonsus de Guimaraens, em “Obra completa”
Poema originalmente publicado no periódico 'Vida de Minas', 
Belo Horizonte, 30 set. 1915
 
 
Alphonsus de Guimaraens
  (1870–1921)
 
Poeta e jurista brasileiro, Alphonsus de Guimaraens, nome literário de Afonso Henriques da Costa Guimarães, nasceu a 24 de julho de 1870, em Ouro Preto, Minas Gerais (Brasil).

Concluiu os seus estudos em Ouro Preto e matriculou-se, em 1887, em Engenharia. Aos 18 anos, a sua prima e noiva Constança morreu, o que o marcou profundamente.

Em 1891, inscreveu-se no Curso de Direito da Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo. Colaborou com a imprensa paulista e contactou com jovens simbolistas. Em 1895, em viagem ao Rio de Janeiro, conheceu o grande simbolista Cruz e Sousa. Após a conclusão do curso em 1895, regressa a Minas Gerais, casa-se em 1897 com Zenaide de Oliveira, de quem teve 14 filhos e é nomeado juiz, na cidade de
Mariana, em 1906.

Quanto à sua obra literária, Alphonsus de Guimaraens escreveu os livros de poesia Sentenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Pauvre Lyre (1921), Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923) e o livro de prosa Mendigos (1920). 
 
A sua obra, influenciada por Verlaine e Mallarmé, é marcada por um lirismo místico, em que Constança, a amada perdida, está sempre presente. Para além do misticismo, a morte e o amor são temáticas essenciais na poesia de Guimaraens. Esta, constituída por uma linguagem simples, cheia de aliterações e sinestesias, apresenta maior sucesso quando é utilizada na forma de soneto.

A 15 de julho de 1921, Alphonsus de Guimaraens, uma das figuras principais do movimento simbolista brasileiro, morreu em
Mariana, Minas Gerais.

Numa iniciativa do Ministério da Educação, toda a obra poética de Alphonsus de Guimaraens foi publicada em 1938, numa edição revista e dirigida por Manuel Bandeira.
(daqui)
 
 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

"Ode à Cebola" - Poema de Pablo Neruda



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
'Still Life with Drawing Board and Onions' (Still Life: Drawing Board,
Pipe, Onions and Sealing-Wax)
, 1889, Kröller-Müller Museum.

Ode à Cebola


Cebola,
luminosa redoma,
pétala a pétala
formou-se a tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra sombria
arredondou-se o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
deu-se o milagre
e quando apareceu
teu rude caule verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas no horto
a terra acumulou seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar distante
duplicou a magnólia
levantando-lhe os seios,
a terra
fez-te assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
dos pobres.

Generosa
desfazes
teu globo de frescura
na consumação
fervente do cozido,
e o girão de cristal
ao calor inflamado do azeite
transforma-se em ondulada pluma de ouro.

Recordarei também como a tua influência
fecunda o amor da salada
e parece que contribui o céu
dando-te a fina forma do granizo
a celebrar a tua luz picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta
em delicado
papel, tu sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astros,
e ao cortar-te
a faca de cozinha
sobe a única lágrima
sem mágoa.
Fizeste-nos chorar mas sem sofrer.
Tudo o que existe celebrei, cebola,
mas para mim és
mais formosa que um pássaro
de plumas ofuscantes,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada

e a fragância da terra inteira vive
na tua natureza cristalina.


Pablo Neruda, 
in 'Antologia de Pablo Neruda',
editorial Inova, 1973.
Tradução de José Bento



Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
'Still Life with red Onions', 1896–1898, Paris, Musée d'Orsay

“Comer está na moda!
Com pedra e pau, faca e cimitarra, com fogo e tambor as pessoas avançam para a mesa. Os grandes continentes desnutridos explodem em mil bandeiras, em mil independências. E tudo vai para a mesa: o guerreiro e a guerreira. Sobre a mesa do mundo, com todo mundo à mesa, voarão as pombas.
Busquemos no mundo a mesa feliz.
Busquemos a mesa onde o mundo aprende a comer. Onde aprende a comer, beber, cantar!
A mesa feliz.” (daqui)

Pablo Neruda (1904–1973)

 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

"A morte não separa" - Texto de José Luís Nunes Martins



Samuel Peploe (Scottish Post-Impressionist painter, 1871–1935),
Jeffrey's Brewery, Edinburgh, 1900



A morte não separa

 
Ninguém pode viver a minha vida por mim. Ninguém pode dar os meus passos, ver o que vejo, sentir as mesmas emoções ou pensar ideias iguais às minhas... ser é fazer a diferença.

A minha existência pode servir de modelo a outros, assim como posso tomar alguém como exemplo a seguir, mas não devemos deixar que o eu se perca, porque quando me confundir com outros perderei o meu maior valor: ser único. Amar não é anular ninguém, antes protegê-lo e promovê-lo, tal qual quer ser. O bem que é.

Não sou o que tenho, não sou o que faço. Sou apenas a marca que deixo... o que decido querer, a cada passo.

Quando nos morre alguém, perde-se a sua referência palpável. É o fim de todas as possibilidades da relação, nos termos em que a conhecemos. Mas, mais do que os seus sapatos – que outro qualquer pode usar – ficam os seus passos, ao lado de quem precisava da sua força, todos os que deu por amor... porque só o que é nobre fica. Tudo o mais é nada.

Porque o amor é a negação da morte, eis que se levanta a mais importante de todas as guerras, o visível contra o invisível, a dúvida contra a fé, o tempo contra a eternidade... cabe a cada um de nós escolher o que quer.

Quando alguém que me ama morre, fica. Contudo, depende de mim aceitar a sua presença no meu íntimo. Assumir a missão de ser um, pelos dois... mais livre do que nunca... mas é isso mesmo que quer quem nos ama de verdade: que sejamos independentes, autónomos e felizes!

Amar é estar sempre a sós com a pessoa que se ama, mesmo quando há uma enorme distância... no espaço e no tempo.

A morte não separa os que se amam, apenas aproxima e une, ainda mais, os que decidem continuar a amar-se.
 

   

domingo, 29 de maio de 2016

"Ismália" - Poema de Alphonsus de Guimaraens



Émile Bernard (Peintre, graveur et écrivain français, 1868–1941),
'Les Bretonnes aux ombrelles', 1892, Musée d'Orsay, Paris. 



Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Alphonsus de Guimaraens,
do livro lírico "Pastoral aos crentes do amor e da morte", 1923.
Poema integrante da série "As Canções".

[Dentro das tendências simbolistas, com um ritmo envolvente e seu tom musical de canção popular, fez de 'Ismália' o poema mais famoso e popular do Simbolismo brasileiro]



Émile Bernard, 'Autoportrait au vase de fleurs', 1897,
Rijksmuseum Amsterdam.

Émile Bernard (1868–1941) foi um pintor pós-impressionista francês. Também foi escritor, mas obteve maior destaque no campo das artes plásticas. Foi amigo e teve relações artísticas com Vincent van Gogh e Paul Gauguin. Começou seu estilo artístico no pontilhismo, depois passou pelo impressionismo e, por último, pelo cloisonnisme (estilo de pintura pós-impressionista). Abordou, em grande parte de suas obras, temas populares, banhistas, temas religiosos, natureza morta, cenas quotidianas de Paris e o estilo de vida no interior da Bretanha. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Fiei-me nos Sorrisos da Ventura" - Soneto de Bocage



Henri de Toulouse-Lautrec (French painter, printmaker, draughtsman, caricaturist,
and illustrator, 1864–1901), 'La Goulue arrivant au Moulin Rouge', 1892. 



Fiei-me nos Sorrisos da Ventura


Fiei-me nos sorrisos da Ventura,
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura. 

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta! 

Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte. 
 

Bocage, in 'Rimas'

terça-feira, 21 de julho de 2015

"Poema para Iludir a Vida" - Fernando Namora


Suzanne Valadon, Nus, 1919
 

Poema para Iludir a Vida


Tudo na vida está em esquecer o dia que passa. 
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste, 
um cedro, areias, raízes, 
ou asa de anjo 
caída num paul. 
O navio que passou além da barra 
já não lembra a barra. 
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar 
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos 
e dos olhos arrancas limos e morcegos. 
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim 
e que há certezas, firmes e belas, 
que nem os olhos vesgos 
podem negar. 
Hoje é o dia de amanhã. 


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços (1940)"

sábado, 18 de julho de 2015

"Clara" - Poema de Casimiro de Abreu


 


Clara


Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra, 
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo! 

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!



Henri de Toulouse-Lautrec, La Toilette, 1896


"A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte."



terça-feira, 7 de julho de 2015

"Limites do Amor" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


Henri de Toulouse-Lautrec (French, 1864-1901), In bed, 1893, Musée d'Orsay, Paris



Limites do Amor


Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta. 



quarta-feira, 8 de abril de 2015

"Noite Vazia" - Poema de Edmundo Bettencourt



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
In the Bois de Boulogne, 1886


Noite Vazia


Crescimento do silêncio a devorar as nuvens. 
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro. 
Florida e ondulada suspensão da mágoa. 
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada. 
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço. 
E a morte espreitando a lentidão 
irradia baçamente a sua despedida. 

Noite vazia. 

As aves brancas do cérebro 
inutilmente abatem as suas asas! 


Edmundo Bettencourt, in 'Poemas Surdos'
 
 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Os amigos nunca são para as ocasiões" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso


Charles Ginner (1878‑1952), The Café Royal, 1911
 


Os amigos nunca são para as ocasiões


“Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso. 
A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre. 
Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter. 
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.” 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'




Galeria de Charles Ginner
Malcolm Drummond (1880–1945) - Portrait of Charles Ginner, 1911 


Edward Le Bas - Portrait of Charles Ginner, 1930


Charles Ginner - Piccadilly Circus, 1912


Charles Ginner - Victoria Station, London, the Sunlit Square, 1913 


Charles Ginner - River Aire, Leeds, 1914


Charles Ginner - Roberts 8, 1916


Charles Ginner -The Dressmaking Factory, c1917 


Charles Ginner - The Church of All Souls, Langham Place, London, 1924


Charles Ginner - Claverton Street, Snow in Pimlico, 1939


Charles Ginner - Café Scene, 1939


Charles Ginner - Roof-tops, Pimlico, 1945


"No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substitui-lo." 

António Lobo Antunes 
«Conversas com António Lobo Antunes», María Luisa Blanco (2002) 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"Não há vício que se não esconda atrás de boas razões" - Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Quinta versão: 1894-95, óleo sobre tela, 47.5 × 57 cm. Musée d'Orsay, Paris.


Não há vício que se não esconda atrás de boas razões


"Não há vício que se não esconda atrás de boas razões; a princípio, todos são aparentemente modestos e aceitáveis, só que a pouco e pouco vão-se expandindo. Não conseguirás pôr fim a um vício se deixares que ele se instale. Toda a paixão é ligeira de início; depois vai-se intensificando, e à medida que progride vai ganhando forças. É mais difícil libertarmo-nos de uma paixão do que impedir-lhe o acesso. Ninguém ignora que todas as paixões decorrem de uma tendência, por assim dizer, natural. A natureza confiou-nos a tarefa de cuidar de nós próprios, mas, se formos demasiado complacentes, o que era tendência torna-se vício. Aos atos necessários juntou a natureza o prazer, não para que fizéssemos deste a nossa finalidade mas apenas para nos tornar mais agradáveis aquelas coisas sem as quais é impossível a existência. Se o procuramos por si mesmo, caímos na libertinagem. Resistamos, portanto, às paixões quando elas se aproximam, já que, conforme disse, é mais fácil não as deixar entrar do que pô-las fora."


Séneca, in 'Cartas a Lucílio' 


Vida e Obra 

Paul Cézanne, Self-Portrait with Pink Background, 1875
(Portrait de l'artiste au fond rose), Coleção privada.


"A pintura deve nos dar o sabor da eternidade da natureza". 

(Paul Cézanne)


Paul Cézanne, Self-Portrait, c. 1898-1900,
  Museu de Belas Artes de Boston.


Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês, nasceu a 18 de janeiro de 1839, em Aix-en-Provence, no sul de França, e morreu a 22 de outubro de 1906, na sua cidade natal. Filho de pais abastados, estudou em Aix - onde conheceu e se tornou amigo de Émile Zola e em Paris, onde teve os primeiros contactos com artistas impressionistas como Camille Pissarro e Henri Matisse.
A maturidade artística de Cézanne foi lenta. Embora não recusasse os aperfeiçoamentos alcançados no domínio da pintura, e designadamente na cor, pelos impressionistas, não se sentia atraído, como Edgar Degas ou Claude Monet, por exemplo, pela captação de um momento fugaz. Procurou assim combinar as suas conceções sobre a cor com uma estrutura mais sólida do espaço pictórico. A composição da Natureza Morta com Cesto (1888-1890), nas suas numerosas versões, tomou alguns anos de estudo. Tentou sugerir o volume, não através de jogos de luz, como era de tradição desde Giotto, mas usando a própria cor. As diferentes tonalidades fazem avançar e recuar o espaço, o que permite estabelecer uma sucessão de planos que modelam as massas dos objetos. Nas versões de A Montanha de Santa Vitória, retirou da paisagem os elementos necessários de modo a formar uma "arquitetura", uma composição estruturada que propõe um todo coerente. 
Aplicou os mesmos princípios à figura humana em As Grandes Banhistas (1898-1905), constituindo uma composição geométrica - as árvores estabelecem um esquema triangular juntamente com o grupo de banhistas e os dois grupos de mulheres formam dois novos triângulos dentro do anterior. As próprias banhistas veem as suas formas estilizadas e geometrizadas, tal como um tronco de árvore na montanha de Santa Vitória ou uma maçã nas naturezas mortas. 
Cézanne baseou a sua busca num postulado: o de submeter os dados do real ao objetivo da pintura e não o contrário. Aqui começa toda a aventura da arte moderna, que passa pela integração da natureza fundamental do objeto e das virtualidades pictóricas que esse objeto encerra. O mesmo é dizer, vê-lo não na sua particularidade, mas na sua essência.

Paul Cézanne. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-05].


Paul Cézanne,  Portrait of Louis-Auguste Cézanne, father of the artist,
reading ‘L’Evénement’, 1886, National Gallery of Art, Washington.


"Como pintor, torno-me mais lúcido quando confrontado com a Natureza."

(Paul Cézanne)



Paul Cézanne, Madame Cézanne (Hortense Fiquet, 1850–1922)
in a Red Dress
(c. 1888-90), oil on canvas, 116.5 x 89.5 cm,
The Metropolitan Museum of Art, New York.



"A cor é o lugar onde nosso cérebro e o universo se encontram".

(Paul Cézanne)


 
Paul Cézanne, Paul Alexis reading to Émile Zola, 1869–1870,

Paul Cézanne, Portrait of Madame Cézanne with Loosened Hair, c. 1883-1887.


Paul Cézanne, Femme au Chapeau Vert
(Woman in a Green Hat - Madame Cézanne),
1894–1895.



Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses, 1898–1905.
(The triumph of Poussinesque stability and geometric balance)



Paul Cézanne, Lady in Blue, 1904.

List of paintings by Paul Cézanne
Paul Cezanne - The complete works
Wikipédia