quinta-feira, 18 de junho de 2026

"Essa tragédia tão vulgar" - Poema de Mário Dionísio



Carl Johann Spielter (Danish painter, 1851
1922),
'An Afternoon Game of Patience', 1913.


Essa tragédia tão vulgar 

Oh mulher das mãos gretadas

Como era brando o ar que te fechava os olhos e soprava
o teu cabelo e o teu vestido
Como o teu coração batia espavorido aos passos dele
ao fim da rua
E como os dedos dele eram ingénuos e tremiam
também
nesse ontem esfiapado na distância

E a casa e a casa e casar e a casa
como uma asa
levíssima roçando
a doce pele dos quinze anos

Mas agora
ele adormece à mesa tão cansado
todas as noites tão cansado e infeliz
e tu estás sempre séria com os ombros caídos
e tens as mãos gretadas


Mário Dionísio

in
'Solicitações e Emboscadas'

 
Carl Johann Spielter, 'The Letter', 1913



O maior poema


Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros 


Mário Dionísio

in
"Solicitações e Emboscadas"
 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Theo" - Poema de Manuel António Pina

 


Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Rapp and Johan", 1886.
Private collection
 

Theo


Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.


Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos",
Assírio & Alvim, 1994.




André Letria (Ilustrador português, n. 1973), 
"Incentivo à Leitura"


Aos Esses

Um dia, o Manuel António Pina disse-me: Se tivermos um gato deitado no tapete não temos uma história; mas se tivermos um gato deitado no tapete do cão, sim, temos uma história. O que varia é a tensão, e os livros dão-se bem com ela, é precisamente isso que lhes insufla vida. Os gatos brincam com as suas presas, vêm aos esses quando os chamamos, enfim, rodeiam as coisas antes de as sentenciarem, não correm para o destino, fazem durar a viagem, como num jogo. Isso é o miolo de qualquer história. Se temos uma personagem que tem um desejo e simplesmente o concretiza, não temos nada. Para contarmos uma história, temos de dar as voltas necessárias até chegarmos ao destino, não podemos chegar lá diretamente, sem tensão, dificuldades, gozo, embelezamentos, obstáculos. Temos de escrever como os gatos caminham quando os chamamos.

Não sei se os gatos gostam de escritores, mas são duas espécies claramente aparentadas: por trabalharem sós, pela contemplação e observação. Quando um escritor levanta a cabeça do teclado para meditar sobre uma personagem, quando para para tentar encontrar a palavra justa, quando olha pela janela para tentar desfazer um nó do enredo, tem um comportamento felino. Um gato poderá encontrar, nesse tipo de gestos, uma espécie de identificação. Sim, dirá o gato, também olho para o infinito, semicerro os olhos, paro, demoro-me numa quietude melancólica. É até estranho, dirá o gato, que este homem sentado na secretária não ronrone. 

Afonso Cruz (Artista multidisciplinar português, n. 1971) (daqui)
   

terça-feira, 16 de junho de 2026

"Ao rimar dor com pensamento" - Poema de Helga Moreira



Ethel Pennewill Brown Leach (American painter, printmaker, and illustrator, 1878–1959),
'A Student in Paris', 1913. Collection of Amelie A. Sloan. 



Ao rimar dor com pensamento 

 
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afeto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto. 

Um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina. 

Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige

em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo. 


Helga Moreira, in 'Tumulto', 2003
 
 

Ethel Pennewil Brown Leach, 'She leaned forward and gazed anxiously
 at the reflection which confronted her', 1911.
 

Um espelho 


Um espelho
não é
uma janela

Um espelho
não é
um quadro

Quem espreita
por meus olhos
no espelho
sou eu

E eu
sou eu
Não há enigmas.


Adília Lopes (1960−2024),

in 'Le Vitrail la Nuit'.
Lisboa: &etc, 2006.
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

"Dentro da Vida" - Poema de Gastão Cruz

 

Jeff Rowland (British contemporary painter, 1964–2018)


Dentro da Vida


Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer


Gastão Cruz

(Poeta, crítico literário, escritor, encenador e tradutor português, 1941–2022)

***
 
Vida e obra de Jeff Rowland

Jeff Rowland (Romantic painter of the rain, 1964–2018

Jeff Rowland was born in 1964 – he recalled being inspired to create art from a young age, as he watched his grandmother working with oil paints. He studied art at Newcastle Tyneside college, and made his first attempt at becoming a self-employed professional artist in 1984. After struggling to find success, he was determined to hone his focus and skills, and studied advertising and illustration at the Newcastle School of Design.
Following this, Rowland was able to create a collection that earned him great success, exhibiting in Northumberland and then in London. Increasing sales enabled him to continue working in his desired career as a full-time artist.
Rowland was known for the commitment he showed to his work, and to creating art that was truly authentic. He immersed himself in the scenes he created – for example, before painting a series of scenes featuring fishermen and trawlers, he went out on a north sea trawler to experience the work first hand.
In the latter years of his life, Rowland was based in the North East of England, where he was able to find inspiration for his ongoing works. He died in 2018 at the age of 55, following a battle with leukaemia. (daqui)
 
 

Jeff Rowland, 'A Perfect Moment'
 
 
  
Jeff Rowland 

 
 
Jeff Rowland, 'Reunited'
 
 
Jeff Rowland
 

 
Jeff Rowland, 'And Then You Kissed Me'
 
 
 
Jeff Rowland, 'You Kept Me Warm'
  


Jeff Rowland, 'Goodnight Sweetheart'


"A única linguagem verdadeira no mundo é o beijo."

 
Alfred de Musset
(Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857) 
 

domingo, 14 de junho de 2026

"A palavra o açoite" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

A palavra o açoite


Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filha
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
e distante e distante
uma légua de mágoa

E toda a santa mágoa este dia esta noite
o discurso o nevoeiro a palavra o açoite
a glória pátria
filho
um rugir absoluto um rugir obsoleto
um secreto
martelar de silêncio

E toda a santa guerra esta manhã de mágoa
de silêncio de névoa este loiro este espesso
instante de ternura filho camuflada
de rodas sulcos rasas
rosas de fogo e afago

Toda a santa manhã esta espera este amargo
absoluto obsoleto medo filho por vir
o loiro infante o instante
todo alcácer-quibir


Emanuel Félix Borges da Silva,
in 'A palavra, o açoite: poemas', 1977.

[Emanuel Félix Borges da Silva (Angra do Heroísmo, 24 de Outubro de 1936 — Angra do Heroísmo, 14 de Fevereiro de 2004), mais conhecido por Emanuel Félix, foi um poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico, que se afirmou como um dos mais notáveis poetas e escritores da segunda metade do século XX. Foi o primeiro introdutor em Portugal do concretismo poético, inspirado pelos brasileiros Augusto e Haroldo de Campos, porém cedo passou a uma experiência surrealista.] (daqui)

 
Angra do Heroísmo: uma das principais cidades açorianas e sede da Diocese de Angra, 
na ilha Terceira; ao fundo, o Monte Brasil.
 (daqui)


Angra do Heroísmo, resistência insular

Angra tem Heroísmo no nome e na história. Defendeu-se de piratas, resistiu a aceitar o domínio dos Filipes, foi palco das lutas liberais, reergueu-se após um violento terramoto. Cidade da ilha Terceira, nos Açores, é Património da Humanidade desde 1983. 

Protegida dos ventos dominantes e com localização atlântica privilegiada, Angra foi escolhida pelos navegadores portugueses para ser porto de abrigo nas grandes viagens dos Descobrimentos. As naus de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, por exemplo, fizeram escala nas suas baías naturais.

Ouro, prata, especiarias, todas as riquezas das Índias Orientais e Ocidentais eram cobiça de piratas. Duas grandes fortalezas, São Sebastião e São Filipe, foram construídas para defender a cidade que, desde a Idade Média, vinha crescendo à volta do Castelo. Durante três séculos, Angra está no centro das rotas comerciais e faz a ligação entre quatro continentes: Europa, Ásia, África e América. Ali foi estabelecida a Provedoria das Armadas e Naus da Índia.

No século XV, Angra prospera, a malha urbana cresce, adaptando-se às colinas e às condições climatéricas. No século XVI, em 1534, é elevada a cidade por D. João III e, no mesmo ano, fica sede do Arcebispado dos Açores. São desta fase algumas das suas mais importantes construções: a Catedral do Santíssimo Salvador, num gótico tardio com traços do maneirismo; o Convento e a Igreja de S. Francisco, com as suas fachadas sóbrias e os interiores enriquecidos em azulejaria, talha dourada e pintura; as Igrejas da Misericórdia e do Santo Espírito, o Palácio dos Capitães-Generais. A lista é grande e monumental.

O terramoto de 1980 destruiu oitenta por cento deste património, mas o trabalho de reconstrução foi exemplar e, apenas três anos depois, o comité da UNESCO reconheceu a importância do centro de Angra do Heroísmo para a Humanidade. (daqui)

 

"Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"

Fernando Pessoa (1888–1935),
Trecho do poema "Mar Português", que integra a sua obra "Mensagem", 1934.




"Mensagem" de Fernando Pessoa.
Editor: 11 X 17; Edição: 05-2010.


"Mensagem", a profecia de Fernando Pessoa

A visão pessoana de um Quinto Império nasce nos versos desta obra, épica, metafórica e profética. A "Mensagem" é como se fosse um sonho de Portugal por realizar. «Sou um nacionalista místico, um sebastianista racional», escreveu o poeta sobre o único livro de poemas em português que conseguiu publicar em vida. A 1 de dezembro de 1934, um ano antes de morrer.

Nos 44 poemas da "Mensagem" contam-se séculos de história, das glórias e não glórias que Portugal viveu. Fernando Pessoa contempla o passado dos heróis e dos mitos, de Ulisses, de Viriato, do Infante D. Henrique, de Nuno Álvares Pereira e do desejado D. Sebastião. 

O poeta encontra no «pequeno povo» das Descobertas, «a grande Raça que partirá em busca de uma Índia nova», não para conquistar apenas um Império terreno mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, o Quinto Império.

Tal como Camões fizera quatrocentos anos antes, o poeta olha para a grandeza das viagens marítimas como um incitamento para o sonho: "É a Hora!", escreve no último verso. 

Coletânea de poesias escritas em épocas diferentes, a "Mensagem" de Pessoa divide-se em três partes: "Brasão", "Mar português" e "O encoberto".

A primeira parte, "Brasão", divide-se em "Os campos", "Os castelos", "As quinas", "A coroa" e "O timbre". Cada uma dessas partes está ligada ao brasão do país.
"Brasão" aborda o período histórico inicial português, desde os processos de formação da nação portuguesa até o momento da expansão marítima, representado sua dificuldade e esperança. 

"Mar português" fala sobre a época de ouro portuguesa, a da expansão marítima, reveladora da coragem e do heroísmo português.

"O encoberto" concentra-se no mito do Sebastianismo e do Quinto Império, que retirariam Portugal da decadência experimentada a partir do século XVIIII até o momento da enunciação, o século XX.
(daqui)

 

sábado, 13 de junho de 2026

"Canção do vento e da minha vida" - Poema de Manuel Bandeira

 


Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed founder
of Cubism and an influence on the School of Paris, 1881–1953), Paysage cubiste,
Arbre et fleuve (Cubist Landscape)
, 1914, oil on canvas, 97 x 130 cm,
published in Der Sturm, 5 October 1920.
 
 
Canção do vento e da minha vida


O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


Manuel Bandeira (1886–1968),
in "Lira dos Cinquent’anos", 1940.
 
 
 

"Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples."

Manuel Bandeira, Trecho do poema "Belo Belo",
in "Estrela da Vida Inteira", Ed. Nova Fronteira.
 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Árvore" - Poema de Carlos de Oliveira

 

 
William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916), 
'The Olive Grove', c. 1910.
 

Árvore

I

As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente,
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,

II

talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando o papel,

III

seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:

como podem
crescer
de tal modo

IV

no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro

V

e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:

procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração

VI

quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai e deixa
atrás de si
silêncio:

VII

é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitetura
duvidosa
de símbolos

VIII

que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.


Carlos de Oliveira (1921–1981),
in 'Micropaisagem', 1968,
Dom Quixote


 
 
'Micropaisagem' de Carlos de Oliveira;
Coleção: Cadernos de Poesia nº 1;
Editora: Dom Quixote, 1ª ed. 1968.
 
 
Micropaisagem

Incluído numa segunda fase da obra poética de Carlos de Oliveira, marcada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira (estudo e antologia), Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 68), tendência que se reflete no rigor de construção, no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna", em Micropaisagem agudiza-se, se comparado com volumes anteriores, o carácter autorreferencial da poesia, ao mesmo tempo que a captação das imagens do mundo mineral tende a conduzir a um ocultamento do sujeito poético sob uma paisagem estagnada embora em milenar movimento: "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ("Estalactite", in Micropaisagem).

Equacionando a dinâmica lenta de sedimentação da realidade e a construção do poema, avulta neste volume a consciência de um trabalho de despojamento, de filtragem, imperioso para que, na sua forma final, o poema condense, com brevidade, um ritmo íntimo, um subterrâneo entrelaçar de sentidos, a sua nudez e essencialidade. (daqui)