
Guilherme Parente (Pintor português, 1940–2025 ), 'Vem por aqui', s.d.
Não há mistério
Não há mistério
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos
não há não há mistério
e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber
há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida
por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
mas não falo já de mim nem para ti
porque não és o corpo
que reflito
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
sossega meu amor
não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.
Hélder Macedo,
in 'O Lago Bloqueado', 1977
Empenhado na sua vida académica, fez uma pausa na escrita que só retomou anos mais tarde. Jovem de convicções anti-fascistas, foi perseguido pela PIDE (Polícia de Intervenção e Defesa do Estado). Aquando da campanha de Humberto Delgado, que recebeu o seu empenhamento entusiasta, não conseguiu iludir a vigilância da ditadura e foi preso.
Exilou-se em Londres em 1960, vindo a formar-se em Literatura e História. Docente do King's College, aí realizou os seus estudos de doutoramento.
Coorganizador de Folhas de Poesia, Hélder Macedo colaborou em várias publicações, como Graal, Hidra I ou Colóquio/Letras. No domínio do ensaio, Hélder Macedo distinguiu-se com estudos de crítica literária que apresentavam perspetivas inovadoras sobre a conexão do texto literário com o horizonte mental e cultural em que foi produzido. Dessa bibliografia ensaística merecem especial destaque os conhecidos estudos Do Significado Oculto da "Menina e Moça" (prémio da Academia de Ciências de Lisboa) e Camões e a Viagem Iniciática, onde o privilégio de uma interpretação esotérica permitiu a explanação de um sentido novo para textos clássicos da literatura portuguesa.
No domínio da poesia, Hélder Macedo, tendendo a estabelecer nexos de intertextualidade a nível de temas e formas com alguns dos seus autores de eleição, nomeadamente com Camões e Cesário Verde, ocupa pelo equilíbrio que mantém entre discursividade e formas rítmicas, entre metaforização e expressão pessoal, um lugar singular na atual poesia portuguesa.
Publicou Vícios e Virtudes (2000) e o livro Viagem de Inverno e Outros Poemas, uma coletânea da sua poesia, editada pela Editora Record, do Brasil.
Tendo vivido em Portugal entre 1975 e 1980, onde exerceu, durante um curto período, funções públicas e políticas, Hélder Macedo tornou-se professor de Literatura Portuguesa no King's College de Londres, onde se encontra a viver há anos, embora nunca abdicando da sua condição de português livre. (daqui)



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