sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Ofélia" - Poema de Arthur Rimbaud (2 traduções)



Ernest Hébert (Peintre français, 1817-1908), "Ophélie aux liserons", 1876,
Huile sur toile, Paris, Musée d'Orsay.


Ofélia 

(Tradução de Maria Gabriela Llansol)

I

Sobre a onda serena e negra onde dormem as estrelas
A branca Ofélia flutua como um lírio imenso, flutua
Quase impercetível, recostada nos seus grandes véus...
— Ouvem-se nos bosques distantes clamores de rendição.

Eis que há mais de mil anos a triste Ofélia
Passa, espectro branco, vogante sobre o negro rio,
Há mais de mil anos, eis o seu doce desvario
Sussurrando à brisa do entardecer seu novelo de amor.

O vento beija-lhe os seios e desdobra em corola
Seus grandes véus molemente afagados pelas águas;
Os salgueiros frementes choram sobre seu ombro,
Sobre a sua imensa fronte de sonho inclinam-se os juncos.

Os nenúfares pisados suspiram à volta de Ofélia;
Por vezes, ela acorda, num amieiro que dorme,
Um ou outro ninho, donde se escapa, breve, uma asa trémula:
— Um cântico misterioso cai dos astros d'ouro.

II

Ó pálida Ofélia!, bela como a neve bela!
Sim, tu morreste, infanta, levada por um rio!
— É porque os ventos que descem dos grandes montes da Noruega
Te haviam falado ao ouvido da áspera liberdade!

É porque um sopro-brisa, emaranhado na tua imensa cabeleira,
Ao teu espírito sonhante levava estranhos rumores;
O teu coração escutava o cântico da Natura
Na árvore das dores e nos suspiros das noites;

É porque a voz dos loucos mares, imenso estertor-ruído,
Quebrava teu peito de infanta, humano de mais, demasiado doce.
É porque, numa manhã de Abril, um belo cavaleiro pálido,
Um pobre louco, nos teus joelhos se sentou mudo!

Céu!, amor!, liberdade! Que sonho, ó pobre louca!
Tu te fundavas nele, neve no fogo fundida:
Tuas grandes visões estrangulavam-te a palavra
— E o Infinito implacável assombrou teu olhar azul!

III

— E o Poeta diz que os raios estelares
Vens tu buscar, de noite, as flores que hás colhido;
E que viu sobre as águas, reclinada nos seus longos véus,
A branca Ofélia a flutuar — tal um lírio imenso.

15 de Maio de 1870

Arthur Rimbaud
,
in O Rapaz Raro — Iluminações e Poemas.
Tradução de Maria Gabriela Llansol,
Relógio D'Água, 1998, pp. 139-141.



 
O Rapaz Raro - Iluminações e Poemas de Arthur Rimbaud,
Tradução de Maria Gabriela Llansol, Relógio D'Água, 1998.



"Um homem deve ler segundo o que as suas inclinações o conduzem; 
porque o que ler como tarefa pouco bem lhe fará."


Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791.



Jules Lefebvre
(Peintre français, 1836-1911), "Ophélie", 1890.


Ofélia

(Tradução de Jorge Wanderley)

I

Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça…

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um voo incerto…
– De astros dourados desce um canto misterioso…

II

Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
– É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

– É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
– E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: – que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III

– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.


Arthur Rimbaud
Tradução de Jorge Wanderley


Paul Steck (Peintre, compositeur, librettiste et fonctionnaire français,
1866-1924), "Ophélie", 1894-1895, Paris, Petit Palais.



Ophélie

I

Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir;
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir.

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
– Un chant mystérieux tombe des astres d’or.

II

Ô pâle Ophélia! belle comme la neige!
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!
– C’est que les vents tombant des grands monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
A ton esprit rêveur portait d’étranges bruits;
Que ton cœur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux!

Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre folle!
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
– Et l’infini terrible effara ton oeil bleu!

III

– Et le poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis,
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys. 


Arthur Rimbaud, in "Cahier de Douai"

"Saudade da prosa" - Poema de Manuel António Pina

 
 
François Flameng (French painter, 1856–1923),"Grolier in the House of Aldus", 1889.
 Oil on canvas, 73 x 81 in. Collection of The Grolier Club.
 

Saudade da prosa


Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava
senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


Manuel António Pina,
'Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança',
Assírio & Alvim, 1999.
 
 
 
Flameng’s study for Jean Grolier de Servières (c.1489/90–1565) in the House 
of Aldus Manutius (c.1449/1452 –1515), 1889, Collection of The Grolier Club.
 
 
"A literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem."

Louis de Bonald, in Oeuvres complètes; volume 3, ed. 1859.




Retrato de Louis de Bonald  por Louis Hersent
(Pintor francês, 1777-1860), 1823.


Filósofo e político tradicionalista, Louis Gabriel Ambroise de Bonald nasceu a 2 de outubro de 1754, em Le Monna, e morreu a 23 de novembro de 1840, em Lyon. O Visconde Louis de Bonald, filósofo e político, foi obrigado a abandonar França a seguir à revolução de 1789, por ser contrarrevolucionário.

Para Bonald, o homem só existe em função da sociedade e só nela se realiza. Todo o indivíduo que vá contra a sociedade, erra moralmente e vai contra aquilo que a sua própria natureza tem de melhor. Esta posição é fundamentada filosoficamente por Bonald, argumentando que o homem, não tendo ideias inatas, necessita do contacto com a sociedade para a aprendizagem das palavras que lhe permitirão pensar. Mas o homem é apenas o veículo que passa, por tradição, a palavra de geração em geração, pois, em última instância, é em Deus que a palavra se fundamenta: aqui se aplica o bem conhecido adágio que diz "a voz do povo, a voz de Deus". Ora, neste sentido, segundo Bonald, o homem tem um pacto natural com Deus que o obriga a manter em si o que de melhor tem: a presença divina, que se manifesta pelo pensamento e pelo amor, que se socorrem ambos da palavra.

Para que este pacto natural com Deus se cumpra deve haver um soberano único e destacado, à maneira monárquica. O Rei estaria para a sociedade civil, como o Papa para a religiosa.
Bonald examina a história do pensamento, dividindo-a em três sistemas gerais: o sistema da causa, difundido pelo judaísmo, que corresponde à doutrina de Deus; o sistema dos efeitos, difundido pelo paganismo, e que corresponde a uma doutrina meramente humana; finalmente, o sistema intermédio, difundido pelo cristianismo, correspondendo a uma doutrina de mediação entre Deus e o homem. Toda a estrutura do universo se manifesta por esta tríade, que deve tomar forma tanto na sociedade em geral (poder, ministro, súbdito), quanto no homem em particular (inteligência, órgãos, objeto). (daqui)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

"Noticia ao entardecer" - Poema de Gabino Alejandro Carriedo

 

 
Louise Catherine Breslau (German-born Swiss painter, 1856–1927),
"Portrait of Ernst Josephson(Swedish painter and poet, 1851–1906), 1886.


Noticia ao entardecer 


Devia ter-te escrito há tempos uma carta
dizendo entre outras coisas: “na província chove,
minha irmã foi para freira,
eu perdi o emprego”.
Possivelmente responderias com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Lamento isso da tua irmã
mas alegro-me com a chuva
que é boa para as colheitas”.
Há tempos, amigo, devia ter-te escrito
para te contar coisas de importância:
por exemplo que estou bastante só
depois daquele amor;
por exemplo que durmo muitas horas
para me esquecer de que existo;
por exemplo que estou bastante triste
mas que em algum país haverá eleições
antes do mês de Janeiro.
Terias respondido com a tua letra:
“Não me agrada o teu estado” ou “é preciso
que sacudas o tédio”.
Terias respondido com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Eu conheci um senhor que estava morto…”
Ter-me-ias dito que não importa nada,
não importa estar triste ou solitário
se na província chove,
se as colheitas foram boas este Verão
haverá por aí dinheiro em abundância.
Dir-me-ias: “Amigo, o que importa
é ter vontade; quem quer pode”.
(Eu conheci um senhor que estava morto…)
O tal senhor que estava morto, estava
somente um pouco ferido. Disseram-no
os jornais. Até recordo a data.
Ressuscitou, é certo, mas estava
somente um pouco ferido.
Em troca sinto-me destruído, descentrado;
não tenho remédio; passeio,
vou à taverna e escrevo
cartas que nunca saem de Madrid.
Não falo com ninguém, nunca pergunto
como acabou a festa.
Diz-me se ainda é possível escrever cartas.
Diz-me se ainda é possível estar mais morto.


Gabino-Alejandro Carriedo (1923-1981),
in Antologia: "Poesia Espanhola do Após-Guerra"
(Seleção e Tradução de Egito Gonçalves),
Portugália Editora - Lisboa.


"Deriva VIII" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Federico Cervelli (Italian painter, 1745–1827),
Orpheus
and Eurydice, n.d.


Deriva VIII


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

1982

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Navegações, 1983.

[Sophia atravessou o mar até Macau e o que viu a poetisa viajante está no livro "Navegações", do qual faz parte os versos de "Deriva VIII".] 

 

Christian Gottlieb Kratzenstein Stub (Danish painter, 1783–1816),
Orpheus and Eurydice
, 1806.

 

Ary Scheffer (Dutch-French Romantic painter, 1795–1858),
Orpheus Mourning the Death of Eurydice, 1814.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

"Gatos" - Poema de António Mota


 

Remedios Varo (Catalan-Mexican surrealist artist, 1908–1963),
"Paraíso de los gatos" (Cats paradise), 1955, Private Collection.


Gatos

Gatos novos
gatos velhos
gatos magros
gatos gordos
gatos brancos
gatos pretos
gatos mimalhos
gatos a pedir
gatos a roubar
gatos a fugir
gatos a ronronar
gatos no telhado
gatos na janela
gatos no sofá
gatos no berço
gatos na cama
gatos na sala
gatos na cozinha
gatos maltratados
gatos a miar
em noites de luar.

Gatos doentes
gatos a brincar
gatos a dormir
gatos a saltar
gatos a parir
gatos a mamar
gatos a nascer
gatos a arranhar
gatos a comer
gatos a pular
gatos a lamber
gatos lestos
gatos mancos
gatos siameses
gatos persas
gatos malteses.

Tantos gatos
de rabo alçado
e eu só tenho um
de pano coçado.


António Mota
,
in "Lá de Cima Cá de Baixo"



"Lá de Cima Cá de Baixo" de António Mota;
Ilustrações de Teresa Lima.

Edições Asa, 2017.


SINOPSE

Plano Nacional de Leitura 
Livro recomendado para o 2º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.

"Lá de Cima Cá de Baixo" é uma coletânea de poemas que António Mota deseja partilhar com os seus leitores, descrevendo a vida de todos os dias. Uma formiga que vai calada e ligeirinha. Um baloiço que serve de mirante. As noites solitárias. Os bichos. Os sonhos.

 

 
Marta Teives (Designer, animadora, urban sketcher, artista de storyboard
e ilustradora portuguesa, n. 1977), "Os Gatos da Casa Amarela", livro 
de António Mota, 2019.
 

O universo dos livros de António Mota pode situar-se numa zona de antítese sócio-geográfica dos livros de uma outra autora portuguesa de obras para a juventude, Alice Vieira. De facto, se Alice Vieira é a narradora por excelência da adolescência burguesa e citadina, com os seus problemas territoriais, afetivos e comunicacionais, António Mota constrói na sua obra uma espécie de contraponto a esse mundo citadino, ao descrever as vivências, as crises de crescimento e as lutas pela mudança de vida de uma infância e adolescência rurais, situadas num mundo em vias de extinção mas ainda existente um pouco por todo o território português: o mundo das pequenas aldeias onde o tempo corre segundo o ciclo das estações e o ritmo das histórias contadas pelos mais velhos e a ligação à terra e aos ofícios tradicionais impõe um estilo de vida muito próprio.

Nascido precisamente numa dessas pequenas aldeias da região do Douro, o autor transpõe para os seus livros memórias da sua própria infância, construindo no entanto histórias com problemas muito atuais. Temas como o do enfrentar da velhice e dos lares de terceira idade (A casa das bengalas) ou das opções profissionais e de futuro (Cortei as tranças), demonstram que, para além das diferentes condições de vida, muitas das questões e perplexidades que se põe aos jovens são basicamente as mesmas, no campo ou na cidade. – Centro de Documentação de Autores Portugueses, 04/2005 (daqui)
 
 
Marta Teives"Os Gatos da Casa Amarela", livro de António Mota, 2019.


Gatos

Não gosto de ter animais em casa. Mas, se gostasse de os ter, teria certamente um gato. 
Um gato é a independência (indiferença?) em estado puro, a dignidade que lhe vem dos tempos em que era tigre – e essas coisas não se perdem nunca. 
Um gato não se doma, não faz figuras tristes, não dá a patinha. 
Um gato é bicho solitário, desliza entre o silêncio dos móveis e o pó dos livros e se calhar é por isso que tantos escritores os adotam. Ou eles adotam os escritores – nunca cheguei a perceber. 
Lembro-me de quando morreu a gata do Carlos de Oliveira. À mesa do Monte Carlo, durante vários dias ele murmurava: 
“A falta que me faz o seu silêncio”. 
Gostava que um dia alguém dissesse isso de mim. 
Palavra. 

Alice Vieira (Escritora e jornalista profissional portuguesa, n. 1943) (daqui)

terça-feira, 7 de abril de 2026

"Aquário" - Poema de Alice Gomes


 
Young-Sung Kim (South Korean hyperrealist visual artist, b. 1973)
(daqui)


Aquário


Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.

Sabia os sítios seguros
onde os maiores e mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.
E continuava a viver.

Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.

A onda amiga ondulava
enquanto o acalentava
aquecia
arrefecia
e para longe o levava.
Tão longe
tão vasto o mundo…
o seu mundo!
Tão largo, alto e profundo!…

Que alegria de nadar!
Mas um dia aconteceu
que um fenómeno se deu:
foi pescado
foi levado
para fora do seu mar
para longe do seu lar
transportado
bem fechado
numa prisão de cristal.

E se não lhe fizeram mal
se o não comeram com sal
está muito descontente
nessa prisão transparente
à vista de toda a gente. 


Alice Gomes (1910-1983),
Bichinho Poeta: Poesia (também para crianças);
Lisboa, Gráfica Santelmo.
 
 

"Bichinho Poeta" de Alice Gomes;
Ilustração de Mário Neves.
Gráfica Santelmo, 1ª edição, 1970.


Alice Gomes, escritora portuguesa, nascida em 1910, em Tabuaço, foi casada com Adolfo Casais Monteiro.
Professora primária, dedicou-se ao ensino e à pedagogia. Como escritora dedicou o seu trabalho à literatura infantil.
Traduziu para português Le Petit Prince (O Principezinho) de Saint-Exupéry. Do seu espólio literário fazem parte obras como As Histórias de Coca-Bichinhos (1967), Giroflé-Giroflá (1970), Os Ratos e o Trovador (1973).
 Faleceu em 1983. (daqui)
 

"Pontinho de vista" - Poema de Pedro Bandeira



Thalia Flora-Karavia (Greek artist and member of the Munich School, 1871–1960)
 
 

Pontinho de vista


Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.

Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
- Minha nossa, que grandão!


Pedro Bandeira
em "Por enquanto eu sou pequeno"
 
 
 
"Por enquanto eu sou pequeno" de Pedro Bandeira
Ilustração: Attílio 
 
 
RESUMO
 
"É um livro que eu escrevi com imenso prazer. Criei cada um destes poeminhas pensando na minha própria infância, nos divertidos versinhos tipo "Batatinha quando nasce" que a gente tinha de decorar para exibir-se para as visitas. Mas, principalmente, escrevi cada verso lembrando dos sonhos da infância, quando a gente descobre que um dia virará "gente grande". Que tempo gostoso! E o mais gostoso de tudo é virar gente grande sem nunca esquecer como foi bom ter sido criança!" (daqui)