William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916),
'The Olive Grove', c. 1910.
Árvore
I
As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente,
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,
II
talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando o papel,
III
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
como podem
crescer
de tal modo
IV
no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro
V
e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:
procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração
VI
quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai e deixa
atrás de si
silêncio:
VII
é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitetura
duvidosa
de símbolos
VIII
que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.
I
As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente,
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,
II
talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando o papel,
III
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
como podem
crescer
de tal modo
IV
no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro
V
e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:
procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração
VI
quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai e deixa
atrás de si
silêncio:
VII
é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitetura
duvidosa
de símbolos
VIII
que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.
'Micropaisagem' de Carlos de Oliveira;
Coleção: Cadernos de Poesia nº 1;
Editora: Dom Quixote, 1ª ed. 1968.
Micropaisagem
Incluído numa segunda fase da obra poética de Carlos de Oliveira, marcada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira (estudo e antologia), Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 68), tendência que se reflete no rigor de construção, no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna", em Micropaisagem agudiza-se, se comparado com volumes anteriores, o carácter autorreferencial da poesia, ao mesmo tempo que a captação das imagens do mundo mineral tende a conduzir a um ocultamento do sujeito poético sob uma paisagem estagnada embora em milenar movimento: "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ("Estalactite", in Micropaisagem).
Equacionando a dinâmica lenta de sedimentação da realidade e a construção do poema, avulta neste volume a consciência de um trabalho de despojamento, de filtragem, imperioso para que, na sua forma final, o poema condense, com brevidade, um ritmo íntimo, um subterrâneo entrelaçar de sentidos, a sua nudez e essencialidade. (daqui)



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