domingo, 26 de abril de 2026

"Armas" - Poema de Fagundes Varela




Reproduction by Giuseppe Sacconi (Italian artist born in the 18th Century),
"Allegory of poetry", c. 1789 (After Carlo Dolci, Italian Baroque painter,
1616–1686), National Museum in Warsaw / Palace on the Water.



Armas


– Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?

– Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?…

A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: – A língua humana!


Poema de Fagundes Varella (1841–1875),
retirado do livro  "Revolta e protesto na poesia brasileira"
 (Nova Fronteira, 2021) - Antologia de André Seffrin.
 
 

'Revolta e protesto na poesia brasileira',
Antologia, vários autores; org. de André Seffrin
Nova Fronteira - 272 págs.

  
DESCRIÇÃO

Organizada pelo crítico e ensaísta André Seffrin, a antologia Revolta e protesto na poesia brasileira reúne 142 poemas sobre temas como corrupção, desmandos políticos e turbulências sociais no país ao longo de sua história. 

O recorte é grande, cobre cinco séculos de abusos políticos e sociais denunciados de maneira satírica e irónica, ou mesmo angustiada e desiludida, por nomes clássicos como Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Castro Alves, Luiz Gama, Cruz e Sousa e Machado de Assis. 

A eles, Seffrin juntou autores mais recentes, como Mário de Andrade, Rubem Braga, Sérgio Sant’Anna, Astrid Cabral, Myriam Fraga, Glauco Mattoso, Paulo Henriques Britto entre outros, mais novos ainda, com Angélica Freitas e Mariana Ianelli, cronista e editora de poesia do Rascunho.

Ao longo da antologia, temas como opressão, preconceito e injustiça ganham espaço até mesmo entre poetas que não se envolveram com as questões sociais. Alguns poemas seguem uma veia melancólica, como A lágrima de um caeté, de Nísia Floresta Brasileira Augusta — precursora no Brasil das lutas em defesa da mulher durante a República e o Abolicionismo. Outros, como O povo na cruz, de Leandro Gomes de Barros, são permeados de humor ou sarcasmo.

“Nesta antologia, a fragilidade da poesia confronta políticos corruptos, magistrados ineptos, agentes públicos relapsos, a burocracia e outras patacoadas provincianas que ainda e sempre nos assediam”, escreve Seffrin, que é ensaísta, organizador de antologias e pesquisador independente.

Desde os anos 1980, escreveu cerca de duas centenas de apresentações, prefácios e posfácios para edições de escritores brasileiros clássicos e contemporâneos. Autor de ensaios críticos e biográficos, alguns em edições de arte, foi também colaborador de jornais e revistas (Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Globo, Manchete, Gazeta Mercantil, EntreLivros etc.) e coordenou coleções de literatura para diversas editoras. (daqui)
 
 

Pedro Américo (Pintor brasileiro, 1843–1905),
"
Retrato do poeta Fagundes Varela", c. 1868/1869,
Museu Nacional de Belas Artes.

   
Poeta brasileiro, Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu a 18 de agosto de 1841, em Rio Claro, no Rio de Janeiro (Brasil).
Descendente de família fluminense de boa posição social, Fagundes Varela viveu a sua infância na fazenda onde nascera e na vila de S. João Marcos. Em 1859, terminou os seus estudos preparatórios em S. Paulo, onde se inscreveu na Faculdade de Direito, em 1862. Casou-se com uma artista de circo, Alice Guilhermina Luande, e com a morte do filho, que lhe inspirou um dos mais belos poemas - "Cântico do Calvário", abandonou o curso de Direito, retomando-o na Faculdade de Direito de Recife, em Pernambuco. Com a morte da mulher, regressou a S. Paulo, reinscrevendo-se, em 1867, na Faculdade de Direito, no 4.º ano, que perdeu por excesso de faltas. Nesse mesmo ano, desistiu de continuar os estudos e regressou à casa paterna, em Rio Claro. A partir de então, Fagundes Varela passou a viver num estilo de vida boémio, agravado pelo alcoolismo e por uma permanente tendência para a marginalidade. Casou-se ainda com a prima Maria Belisária de Brito Lambert, com quem teve duas filhas e um filho, que morreu prematuramente, e mudou-se com a família para Niterói, no Rio de Janeiro.
Fagundes Varela escreveu Noturnas (1861), O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1865), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Cantos Meridionais (1869), Anchieta ou Evangelho na Selva (1875) e os livros, editados postumamente, Cantos Religiosos (1878) e Diário de Lázaro (1880). A sua poesia marca a transição entre as 2.ª e 3.ª gerações do Romantismo brasileiro, a ultrarromântica e a geração condoreira (nome proveniente do pássaro condor e que traduz grande expressividade, grandeza e a ideia de infinito) e aborda várias temáticas desse movimento, tais como a depressão, a melancolia byroniana, a religião, a morte, a beleza da natureza e a exaltação à pátria.
A 17 de fevereiro de 1875, Fagundes Varela faleceu em Niterói, vítima de apoplexia. O poeta é patrono da cadeira n.º 11 da Academia Brasileira de Letras. (daqui)

sábado, 25 de abril de 2026

"Poemas das flores" - António Gedeão

 


Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
'Flowering Garden' (Arles, Bouches-du-Rhône), 1888.


Poemas das flores


Se com flores se fizeram revoluções
que linda revolução daria este canteiro!

Quando o clarim do Sol toca a matinas
ei-las que emergem do noturno sono
e as brandas, tenras hastes se perfilam.
Estão fardadas de verde clorofila,
botões vermelhos, faixas amarelas,
penachos brancos que se balanceiam
em mesuras que a aragem determina
É do regulamento ser viçoso
quando a seiva crepita nas nervuras
e frenética ascende aos altos vértices.

São flores e, como flores, abrem corolas
na memória dos homens.

Recorda o homem que no berço adormecia,
epiderme de flor num sorriso de flor,
e que entre flores correu quando era infante,
ébrio de cheiros,
abrindo os olhos grandes como flores.
Depois, a flor que ela prendeu entre os cabelos,
rede de borboletas, armadilha de unguentos,
o amor à flor dos lábios,
o amor dos lábios desdobrado em flor,
a flor na emboscada, comprometida e ingénua,
colaborante e alheia,
a flor no seu canteiro à espera que a exaltem,
que em respeito a violem
e em sagrado a venerem.

Flores estupefacientes, droga dos olhos, vício dos sentidos.
Ai flores, ai flores das verdes hastes!
A César o que é de César. Às flores o que é das flores.


António Gedeão (1906–1997), Poemas póstumos, 1983

 

Vincent van Gogh, 'Flowering Garden with Path' (Garden at Arles), 1888. 
Kunstmuseum Den Haag



Primavera


A Primavera vigora
com seus poderes de cores,
abrindo as sessões da aurora
numa assembleia de flores.


Augusto Astério de Campos


sexta-feira, 24 de abril de 2026

"Adivinhe quem eu sou!" - Poema de Pedro Bandeira

 


Albrecht Dürer (German painter, printmaker, and theorist
of the German Renaissance, 1471–1528), 'Praying Hands'
('Mãos que Oram')
, c. 1508, Albertina, Vienna.



Adivinhe quem eu sou!


Eu tenho cinco pontinhas,
cada uma de um tamanho.
Eu coço a cabeça,
mas não tenho cabeça.
Eu tenho costas,
mas não tenho peito.
Eu tenho uma irmãzinha,
que é igualzinha a mim.
Mas, se você gosta de festa
e de cantar "parabéns",
eu bato na minha irmã
e a minha irmã bate em mim!

Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna


♥♥♥

"Paraíso" - Poema de José Paulo Paes


 

Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847
1935), 'Three Friends', n.d.


Paraíso
 

Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.

Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?

Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.

Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.


José Paulo Paes
(1926
1998), 
em "Poemas para brincar", 1991.


Pinturas de Victor Gabriel Gilbert 
(Crianças)  


Victor Gabriel Gilbert, 'Afternoon Tea in the Public Garden'
 


Victor Gabriel Gilbert, 'Title unknown'


 
Victor Gabriel Gilbert, 'Make Believe'
 
 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'A Sudden Stop'
 


Victor Gabriel Gilbert, 'Picnic at the Tuileries, Paris',
Private collection, France.
 
 

Gabriel Gilbert, 'Feeding the Rabbits'
 
 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'The Reward' ('La récompense')
 

 
Victor Gabriel Gilbert, 'Playtime in the Summerhouse'
 

Victor Gabriel Gilbert, 'Young children in a poppy field', c. 1920.


"Educar a mente sem educar o coração, não é educar em absoluto."



Frase atribuída ao filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.)
 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A galinha cor-de-rosa" - Poema de Duda Machado


   
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Olivia's Coop", 2013.


A galinha cor-de-rosa


Era uma galinha cor-de-rosa, 
Metida a chique, toda orgulhosa, 
Que detestava pisar no chão 
Cheio de lama do galinheiro.

Ficava no alto do poleiro 
E quando saía do lugar, 
Batia as asas para voar. 
Mas seus pés acabavam na lama.

Aí armava o maior chilique, 
Cacarejava, bicava o galo, 
E depois, com ar de rainha, 
Lavava os pés numa pocinha. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.
 
 

'Histórias com poesia, alguns bichos & cia',
de Duda Machado; Ilustração de Guto Lacaz;
 ‎ Editora 34. 
 
Descrição

"Histórias com poesia, alguns bichos e cia." reúne 13 poemas altamente divertidos. Como o próprio título diz, são histórias com bichos, móveis, dias, noites, pontos e outros temas que viraram belos poemas para crianças pequenas. Com versos rimados, o leitor pode divertir-se com 'uma galinha cor-de-rosa que detestava pisar no chão', 'um elefante que andava de mansinho para não machucar o soalho', 'um macaco diferente que fica imitando gente e queria voar', ou com 'a vaca Quilate que dava leite sabor de chocolate'... 
Duda Machado e Guto Lacaz, artista de destaque na arte brasileira contemporânea, uniram-se para contar histórias engraçadas ao leitor infantil em forma de poema. Vale a pena conhecer seus personagens inusitados.

Sobre os Autores
 
Duda Machado (Carlos Eduardo Lima Machado), um dos poetas mais significativos de sua geração, nasceu em Salvador, em 1944. Formado em Ciências Sociais, interessou-se também por cinema e música popular, tendo sido parceiro de Gilberto Gil e Jards Macalé. Em 1977, morando no Rio de Janeiro, publicou seu primeiro livro de poemas, "Zil", ao qual se seguiriam "Crescente" (1990) e "Margem de uma onda" (1997). Nesse mesmo ano publicou, em parceria com Guto Lacaz, "Histórias com poesia, alguns bichos & cia.", um divertido livro de poemas para crianças. Publicou também "Tudo tem a sua história" (2005), "Adivinhação da leveza" (2011) e Coletânea "Poesia 1969-2021" (2024).
Combinando atividades de poeta, ensaísta e tradutor (entre eles, Gustave Flaubert e Mark Twain), foi professor de teoria literária na Universidade Federal de Ouro Preto. 

Guto Lacaz, arquiteto e artista plástico, nasceu em São Paulo, em 1948, e é hoje uma figura de destaque na arte brasileira contemporânea, tendo participado de várias exposições importantes, entre as quais a XVIII Bienal de São Paulo. Com seu traço sintético e bem-humorado, já ilustrou diversos livros, entre eles: "O retrato das figuras", de Anna Flora (1992); "Balé dos Skazkás", de Katia Canton (1997); "A vila e o vulcão", de sua própria autoria (2000); e o "Livro da primeira vez", de Otavio Frias Filho (2004). 
 

"Os Nomes" - Poema de Maria Alberta Menéres



Olaf Ulbricht (German artist, born 1951), "Spring", 2022.
Acrylic on Wood, 48 × 54 cm. Private Collection.


Os Nomes 
 
 
Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida. 


Maria Alberta Menéres
, em 'Conversas com Versos',
Lisboa, Edições Asa, 2005.
 

Pinturas de Olaf Ulbricht
 
Olaf Ulbricht, "Spring", 2017

 
Olaf Ulbricht, "Village in Spring"
 

Olaf Ulbricht, "News under the cherry tree", 2018
 
 

Olaf Ulbricht, Spring on the Edge of the Village, 2021
 
 

Olaf Ulbricht, "Spring on the Edge of the Village", 2021
 
 
Céu de primavera
no jardim dorme a menina.
Qual a flor do sonho?
 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Repelente" - Poema de Ricardo da Cunha Lima


 
Lucas Higashi (Artista multimeios, compositor, músico, produtor musical, designer
gráfico, ilustrador, editor audiovisual e diretor criativo nipo-brasileiro, n. 2002.),
Ilustração para capa de máteria do Conexão Ciência.
(daqui)
 
 
Repelente


Quando a família de insetos
chegou à cidade grande,
levou um susto completo.
O mosquito-pai falou:
— Quanta gente! Que terror!
Só queremos passear,
mas esse monte de gente
não nos deixa nunca em paz!
Que criaturas mais chatas!
Isso incomoda demais!
Então, falou pros filhinhos:
— Olho nos seres humanos!
Eles causam muitos danos!
Cuidado com as raquetes,
raquetinhas, mãos, toalhas,
agasalhos, blusas, malhas,
travesseiros, almofadas,
panos, sprays em geral.
Chinelos são um flagelo!
Jornal é sempre fatal!
Mas o que é o principal,
isto, sim, é muito urgente:
não se esqueçam de passar
o repelente… de gente!


Ricardo da Cunha Lima, em 'De volta', 
Companhias das Letrinhas, 2022.
 


'De volta' de Ricardo da Cunha Lima,
Ilustrações de Rodrigo Fischer,
Companhias das Letrinhas, 2022.


SOBRE O LIVRO 


Esta é uma obra lúdica e cativante que celebra a volta de Ricardo da Cunha Lima à poesia para as crianças com cenários fantásticos e repletos de rimas divertidas.
 
Nas páginas deste livro, os leitores vão visitar um castelo feito de chantili e dos doces mais deliciosos que existem, conhecer um veloz ventilador que também sente calor e presenciar uma chuva de gotas coloridas. Além disso, com o premiado poema "Um par de lições do lápis", todos vão se encantar com a magia que uma boa história traz.
Este festival de rimas ao lado de personagens surpreendentes, aventuras divertidas e ilustrações de Rodrigo Fischer que brincam com elementos surreais e nonsense marca a volta de Ricardo da Cunha Lima à poesia dedicada aos leitores mais jovens. Indicado para leitores a partir de 6 anos.
 (daqui)