quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Como 'tratar' os gatos" - Poema de T. S. Eliot

 


Nancy Spielman
, 'Dog and Cat'


Como “tratar” os gatos


De tudo quanto é gato aqui já leste;
Por isso agora o meu conselho é este:
Não precisas de intérprete, ninguém,
Que diga o caráter que eles têm.
Aprendeste bastante e sabes, pois,
Que eles são parecidos com nós dois
E quantos outros mais que vêm a fio
Cada qual com seu tipo e seu feitio.
Pois alguns são sensatos, outros, loucos;
Muitos são maus, são bons uns poucos;
E assim como há piedosos, há perversos –
Mas todos cabem por igual em versos.
Viste-os tanto a brincar quanto em quizília,
E aprendeste seus nomes de família,
Seus hábitos, seus habitats, seus atos:
Mas
Afinal como se “tratam” Gatos?

Dou-te já na memória um bom puxão,
Dizendo-te que UM GATO NÃO É CÃO.

Os Cães fingem que gostam de baderna,
Mas latem só, ameaçando a perna;
Pois um Cão, visto em sua conjuntura,
É o que pode chamar-se uma alma pura.
Não falo dos Pekins e as raças raras
Que são exemplos de caninas taras.
O Cão comum e citadino, ao passo,
Inclina-se a bancar sempre o palhaço,
E em vez de demonstrar sinais de orgulho,
De sua dignidade sofre o esbulho.
Cai, com facilidade, na esparrela:
Basta levar tapinhas na barbela,
Cafuné no pescoço, erguer de pata,
Que fará zigue-zague e zaragata.
Faz parte dos palermas que não mordem
E acatam qualquer grito, qualquer ordem.

Devo, outra vez, lembrar-te deste facto:
Um cão é um cão, porém UM GATO É UM GATO.

Com os Gatos, dizem, que é regra bastante
Só lhes falares se te falam antes.
Quanto a mim, o princípio desacato
E acredito que sei tratar um gato,
Embora tenha em mente, na verdade,
Que ele ressente a familiaridade.
Em geral, eu me inclino com recato,
E digo: Como passa, SENHOR GATO?
Porém se é um desses gatos, meu vizinho,
Que encontro a três por dois pelo caminho,
É claro então que reformulo o trato
E digo simplesmente: PASSA, GATO!
(Ouvi dizer que o nome dele é Gomes,
Mas não cheguei ainda a dizer nomes.)
Antes que qualquer gato condescenda
Em tratar-te de amigo, uma oferenda
É necessária, qual sinal de aceite.
Algo assim como um bom prato de leite.
Daí então podes partir e, às vezes,
Dar-lhe caviar e bifes hamburgueses,
Ora um naco de carne, ora peixe em jornal,
Que ele sempre tem seu gosto pessoal.
(Conheço um gato que, se está com febre,
Em vez de canja quer passar a lebre,
E quando acaba ainda lambe as dobras
Das unhas para aproveitar as sobras.)
Um gato é alguém que adquiriu direito
De esperar essas mostras de respeito.
E assim, embora um longo tempo tome,
Um dia poderás chamar-lhe um NOME.

É pão pão, queijo queijo (mas no prato):
Assim é que se deve “tratar” Gato.


T. S. Eliot (1888–1965), 'Os gatos'
Tradução de Ivo Barroso



Nancy Spielman, Down Under


"Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais."

Jean Cocteau 

[Jean Cocteau, escritor francês e personalidade multifacetada da vida cultural francesa, nascido em 1889 e falecido em 1963, abordou sucessivamente o futurismo, o surrealismo e o cubismo. Transpôs para o romance (Thomas l'imposteur, 1923) e para o teatro (Les Parents terribles, 1938) a sua arte poética, tendo ainda ilustrado algumas das suas obras. Enquanto músico, ator e cineasta, realizou La Belle et la Bête (A Bela e o Monstro, 1946), protagonizado pelo notável ator Jean Marais, Orphée (1950) e Le Testament d'Orphée (1960).] (daqui)
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

"A mão a tapar a boca" - Poema de José Jorge Letria



Maria Wunsch
(Austrian painter, 1862–1898), 'A Little Secret', 1894.


A mão a tapar a boca 


Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

Maria Wunsch, 'Little girl with a meadow flowers bouquet', n.d.


"Para nós, as crianças revelaram que disciplina é resultado somente de um desenvolvimento completo, 
do funcionamento mental auxiliado pela atividade manual."

Maria Montessori
 (1870–1952),  
"Para Desenvolver o Potencial Humano",
 Papirus Editora; 2003.
 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

"Vai já pra dentro, menino" - Poema de Pedro Bandeira



Ralph Hedley (British painter, woodcarver and illustrator, 1851–1913), 
'Kept in', 1908.


Vai já pra dentro, menino


Vai já pra dentro menino!
Vai já pra dentro estudar!
É sempre essa lengalenga
Quando o que eu quero é brincar...

Eu sei que aprendo nos livros,
Eu sei que aprendo no estudo,
Mas o mundo é variado
E eu preciso saber tudo!

Há tempo pra conhecer,
Há tempo pra explorar!
Basta os olhos abrir,
E com o ouvido escutar.

Aprende-se o tempo todo,
Dentro, fora, pelo avesso,
Começando pelo fim
Terminando no começo!

Se eu me fecho lá em casa,
Numa tarde de calor,
Como eu vou ver uma abelha
A catar pólen na flor?

Como eu vou saber da chuva
Se eu nunca me molhar?
Como eu vou sentir o sol,
e eu nunca me queimar?

Como eu vou saber da terra,
Se eu nunca me sujar?
Como eu vou saber das gentes,
Sem aprender a gostar?

Quero ver com os meus olhos,
Quero a vida até o fundo,
Quero ter barros nos pés,
Eu quero aprender o mundo!


Pedro Bandeira,
"Mais respeito, eu sou criança!"
Ed. Moderna
 
 

Ralph Hedley, 'Breezy Day', 1895.


"A maior dor do vento é não ser colorido."
 
Mário Quintana, Poesia Completa, RJ: Editora Aguilar, 2005.
Excerto de Leitura Dinâmica, in Porta Giratória, p.788

♥♥♥

domingo, 16 de agosto de 2026

"A lavadeira no tanque" - Poema de Fernando Pessoa

 

 
Frederick Arthur Bridgman
(American painter, 1847–1928),
'Mother’s little helper', 1874.



A lavadeira no tanque


A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?

15-9-1933 

Fernando Pessoa, 'Novas Poesias Inéditas',
Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
 
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

"O gato da ilha de Man" - Poema de Charles Bukowski



Jacobus van Looy
(Dutch painter and writer, 1855–1930),
"White Cat in an open window", 1895. Oil on canvas, 126.4 x 75 cm.
Frans Hals Museum
, Haarlem, Netherlands.
 
[This painting by Van Looy of his own cat is remarkably light, lending it a summery feel. The sunlight is reflected off the cat’s chest. Van Looy usually painted in quite dark colors, but here he uses light tones and wide, smooth brushstrokes. Van Looy never completed this piece. For this reason, the layout has remained sketchy and the painting lacks a coat of varnish. This impressionistic technique was common among many contemporaries, such as Isaac Israels and George Hendrik Breitner. Van Looy, however, preferred paintings which were somewhat more complete. The reason why he never completed this painting is unknown.] (daqui)


O gato da ilha de Man

Será que erramos de novo?
rimos menos e menos,
ficamos mais tristemente sãos.
Tudo o que queremos
a ausência dos outros.
Até mesmo a música clássica favorita
foi ouvida demais e
todos os bons livros foram
lidos...

Há uma porta de vidro
deslizante
e lá fora
um gato branco da ilha de Man
está sentado com um olho vesgo
sua língua saindo por um
canto para fora da boca.
Me inclino
e abro a porta
e ele vem correndo para dentro
as pernas da frente correndo
em uma direção,
e as traseiras
em outra.

Ele dá a volta no
quarto com um ângulo doentio
para onde estou sentado
sobe com as garras pelas minhas pernas
meu peito
põe as patas dianteiras
como se fossem braços
sobre meus ombros
enfia seu focinho
no meu nariz
e olha para mim
tão bem quanto pode.
também perplexo,
eu olho para ele.

Uma noite melhor agora,
meu velho,
um momento melhor,
um jeito melhor agora
presos juntos
desse jeito
aqui.

Sou capaz
de sorrir de novo
quando de repente
o gato da ilha de Man
salta longe
dispersando pela
saída acarpetada
caçando alguma coisa que agora
nenhum de nós
consegue ver.


Charles Bukowski
, "The pleasures of the damned";
in "Vida desalmada" - Florianópolis: Spectro, 2006.
Tradução Fabio Soares e Gerciana Espíndola. 


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

"Eclipse" - Poema de António Nobre



Antoine Caron (French master glassmaker, illustrator, Northern Mannerist painter,
1521–1599), "Dionysius the Areopagite Converting the Pagan Philosophers"
("Astronomers Studying an Eclipse"), c. 1575, J. Paul Getty Museum.


Eclipse


Naquela tarde eu contemplava, ansioso,
A lua das marés:
Ia ver um fenómeno curioso,
Pela primeira vez.

Desde as sete horas que eu me achava pronto,
Pois vinha no jornal
Que se daria, às sete e meia em ponto,
O eclipse total.

Na praia, Miss! Àquela hora havia
Enorme sensação:
Entusiasmada, a gente discutia
Com o óculo na mão.

E como, é certo, com a vista nua,
Tão fraca e tão subtil,
Tu não podias observar a lua,
Astrónomo gentil.

Um moço poeta, rouxinol das praias,
Um óculo ofereceu,
A ti, meu casto Ptolomeu de saias,
Geómetra do céu!

Assestaste-o, mas nada: uma imprevista
Mancha aos teus olhos sai,
Pois que estava graduado pela vista
Do teu velhinho pai...

Da praia, entanto, na deserta areia,
Caía o luar, a flux,
E nos céus fulgurava a lua cheia,
Cheia de tanta luz,

Que tu, imaginando ver da aurora
O lúcido arrebol,
Disseste: «Estou capaz de abrir, agora,
O meu chapéu de sol...»

Única frase que tombou, criança,
Do róseo lábio teu,
Porque, depois – que súbita mudança,
Tornou-se escuro o céu...

E a lua, a pouco e pouco desmaiando,
Sumia-se no ar,
Como se um monstro a fosse devorando,
Na sombra... devagar...

À luz da lua sucedeu a treva,
Treva de horror sem fim,
Cor dos teus olhos, deliciosa Eva,
Meu pálido jasmim!

E ao ver-me só nas trevas, de repente,
Clamei por ti, clamei...
Interrogando a multidão, a gente,
Em vão! Não te encontrei!

Ah, bem dizem as lendas, os adágios,
E as bruxas de Sabbat,
Que os eclipses da lua são preságios,
Sinais de coisa má!

Por isso o Mal com sua garra adunca
Me separou de ti,
Pois que tu nunca mais me viste, nunca!
E eu nunca mais te vi...

E, hoje, nas trevas sepulcrais e calmas,
Eu vivo, por meu mal:
É que também se deu em nossas almas
O eclipse total!
 

24 de Setembro de 1884

António Nobre
,
"Primeiros Versos e Cartas Inéditas",
Org., pref. e notas por Viale Moutinho
Lisboa, Editoral Notícias, s.d.


 
António Nobre
 
 
 António Nobre

«Quando ele nasceu, todos nós nascemos», disse Fernando Pessoa a propósito de António Nobre.

Poeta português do século XIX, António Pereira Nobre nasceu no Porto em 1867 e faleceu a 18 de março de 1900 na Foz do Douro, vítima de tuberculose.

De Verlaine António Nobre herdou o simbolismo francês e de Almeida Garrett o neogarretismo.

Em vida publicou apenas uma obra (1892). Numa linguagem poética, que assimila a vivência coloquial provinciana e emocional.  foi publicado pela primeira vez em 1892, em Paris, onde estudava António Nobre, pela Léon Vanier Editeur. é segundo o próprio autor «o livro mais triste que há em Portugal». Hoje é considerada como umas das obras mais emblemáticas do fim de século português.

Apesar de morrer jovem, com apenas 33 anos, António Nobre deixou uma marca indelével na poesia nacional e uma referência obrigatória de toda a Literatura Portuguesa. Quem não conhece, por exemplo, o seu poema «Lusitânia no Bairro Latino»?

Postumamente seriam publicados vários inéditos de António Nobre como: Despedidas (1985-1899), publicado em 1902, Primeiros Versos (1882-1889), publicado em 1921, e Cartas Inéditas de António Nobre, publicado em 1921, entre outras.

Em maio de 2001, a Imprensa Nacional dedicou-lhe um «Essencial Sobre», de autoria de José Carlos Seabra Pereira e no ano seguinte, em 2002, a editora pública publicou O Ritmo na Poesia de António Nobre, a tese de licenciatura em Filologia Românica que Luís Filipe Lindley Cintra apresentou à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1946.

Recordamos aqui o artigo de autoria de Luís Miguel Queirós, publicado no jornal Público, a 18 de março de 2000, aquando do centenário da morte de António Nobre.

António Nobre viveu como um enigma. Morreu faz hoje cem anos. Escreveu um dos livros maiores da literatura portuguesa, ‘‘Só’’. Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro.

Quantos livros produziu a poesia portuguesa do século XIX que coubessem sem hesitação numa escolha exigente da literatura universal? Não mais do que dois ou três.

O ‘‘Livro de Cesário Verde’’, sem dúvida, e talvez os ‘‘Sonetos’’ de Antero. Se arrumarmos a ‘‘Clepsidra’’ de Pessanha no século XX, resta apenas o ‘‘Só’’, de António Nobre.

Cem anos decorridos sobre a morte do poeta – a 18 de Março de 1900 –, já não serão muitos os que lhe recusem lugar ao lado dos maiores. Mas se o reconhecimento começa a ser consensual, nem todos o admiram pelas mesmas razões. Alguns glorificam-lhe o saudosismo nostálgico, outros apreciam a paleta impressionista dos seus retratos do Portugal provinciano, agrário e piscatório; uns sublinham a força inovadora do seu tom coloquial e dos seus versos recheados de nomes próprios, outros preferem ver nele o poeta maldito, ostentando o seu provocatório narcisismo na pátria parisiense do ‘‘mal de vivre’’ finissecular.

Mas talvez a prova mais segura da perenidade de Nobre seja, afinal, o modo como a sua lição foi sendo reinventada por poetas posteriores, numa linha nem sempre fácil de rastrear, mas que, passando certamente por Vitorino Nemésio e Pedro Homem de Mello, é ainda visível em autores só recentemente revelados, como Jorge Gomes Miranda. Todavia, há pouco mais de vinte anos, Alexandre Pinheiro Torres ainda podia escrever, a propósito de Nobre, estas linhas indignadas: ‘‘em 1892 publica o ‘Só’, um dos maiores livros da literatura portuguesa, que continua, porém, a ser largamente incompreendido ou desvalorizado pela infinita cretinice dos juízes das letras nacionais’’.

E Vergílio Ferreira abre com estas palavras um texto publicado, em 1992, na Colóquio Letras: ‘‘Coitado do Lusíada. Toda a diferença é um estigma e há que pagar por isso o devido preço. Toda a qualidade é ofensiva e há que esperar, se possível, que ela se perdoe pela própria qualidade. Depois de cem anos de muita injúria, a diferença de Nobre ainda não está paga e ainda se lha não perdoou.’’

Talvez haja um certo exagero neste diagnóstico. Por um lado, os leitores de Nobre nunca cessaram de engrossar, como o confirmam as sucessivas edições do ‘‘Só’’, que se contam já por dezenas. E se a publicação do livro originou, à data, paródias e escárnios, não foi preciso esperar muitos anos para que lhe prestassem a devida homenagem dois especialistas na arte de serem incompreendidos pelo seu próprio tempo: Pessoa e Sá-Carneiro. Sobretudo o segundo, que lha prestou indiretamente em muitos dos seus próprios versos, e expressamente no poema a que deu o título de ‘‘Anto’’.

Pessoa, esse, escreveu: ‘‘De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas’’. Mas neste elogio, como em tudo o resto que escreveu sobre o poeta, pressente-se a sua incompreensão dos mais profundos contributos de Nobre para a renovação da linguagem poética portuguesa. Nos seus breves 32 anos de vida, António Nobre escreveu o ‘‘Só’’ – ainda viu sair a segunda edição revista, em 1898 – e deixou inéditos um considerável número de poemas, postumamente publicados em ‘‘Despedidas’’ (1902), cuja edição original foi prefaciada por Sampaio Bruno, ‘‘Primeiros Versos’’ (1921) e ‘‘Alicerces’’ (1983).

Nobre começou a escrever muito novo. Os seus primeiros poemas datam, tanto quanto se sabe, dos 14 anos. E nada há, nessa produção juvenil, que traia uma especial disposição para a tristeza ou a melancolia. Em Fevereiro de 1885, com 17 anos, dirige mesmo a um amigo estas salutares recomendações: ‘‘aconselho-te a leitura das obras modernas, daquelas que não levam às idealizações metafísicas do romantismo; mas sim às que nos dominam por meio de sentimentos novos, que são a sinceridade, a alegria, a honestidade, enfim, todos aqueles que resultam duma alma bem formada, e dum organismo rijo, forte, sadio’’. A nós, que já fomos espreitar o fim da história, só pode comover-nos a confiança viril destas palavras. Sete anos mais tarde, em Abril de 1892, publica o ‘‘Só’’.

Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro. Mais do que um título, soa como uma divisa, equiparável, na sua poderosa brevidade, ao célebre ‘‘Désir’’ do malogrado D. Pedro. O jovem poeta, embora não suspeite da terrível doença que o destino lhe reserva, introduz o volume com este aviso à navegação, expresso nos versos finais de ‘‘Memória’’: ‘‘… tende cautela, não vos faça mal / Que é o livro mais triste que há em Portugal!’’ Os primeiros sintomas da tuberculose chegam nesse mesmo ano. Sentido-se ‘‘muito abatido’’, consulta um médico parisiense, que apenas lhe encontra uma forte anemia e lhe receita pílulas de ferro, vinho Delalonëe e pulverizações com ‘‘Eaux-bonnes’’.

Mas três anos mais tarde, Nobre está já a dar entrada no reputado sanatório suíço de Davos-Platz. É a primeira etapa de uma longa e penosa peregrinação, a que só a morte irá pôr termo. Mas voltemos ao início, a esse ‘‘menino António’’ que, segundo reza um bilhete manuscrito por seu pai, ‘‘nasceu em 16 de Agosto de 1867’’ num prédio do centro do Porto. Filho de um comerciante enriquecido no Brasil, Nobre frequenta bons colégios, alternando os estudos com temporadas nas propriedades rurais da família. E quando os pais se mudam para Leça, uma praia próxima do Porto frequentada pela colónia britânica, descobre o fascínio do mar – esse ‘‘Prof. Oceano’’ referido em ‘‘Carta a Manoel’’ – e, também, as loiras raparigas inglesas, com destaque para Miss Charlote, uma jovem preceptora com quem se corresponde durante dois anos.

É ela que lhe encurta o nome para ‘‘Anto’’, diminutivo que o poeta assumirá e que evoca nos ‘‘Males de Anto’’, título do poema que encerra o ‘‘Só’’. Conhecendo a vida de Nobre, é difícil não ler os ‘‘Males de Anto’’ como a pungente autobiografia de um poeta amaldiçoado. Mas quando escreveu o poema era ainda um jovem e saudável estudante da Universidade de Coimbra. E é consciente dessa perversa ironia que, pouco antes de morrer, faz notar em carta a um amigo: ‘‘Deus castigou-me. Quando era feliz e apenas tinha arranhaduras dos 19 anos, escrevia os Males de Anto, exagerando tudo. Agora é que eu os sinto, depois de os ter expresso em literatura.’’(daqui)

 

domingo, 9 de agosto de 2026

"Dia dos Pais" - Poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni



Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), "A Father's Return", n.d.

Dia dos Pais


Meu pai está tão velhinho, 
tem a mão branca e comprida, 
parecendo a sua vida, 
longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço 
de uma atlética altivez. 
Ah! Tinha força por três! 
Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer 
que você era um gigante. 
Eu ficava radiante 
e também me agigantava.

Porque toda madrugada, 
eu quentinho do agasalho, 
ao sair para o trabalho 
o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro 
parecia leve, leve 
naquela carícia breve 
que da memória não sai. 

Depois... um beijo em mamãe 
e o meu gigante partia. 
E a casa toda tremia 
com os passos de papai. 

Mas agora o seu retrato 
muito moço, muito antigo, 
se parece mais comigo 
do que mesmo com você.

Você já lembra vovô 
e, à medida que envelhece, 
papai, você se parece 
com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai? 
Quando mamãe, de repente, 
caiu de cama, doente, 
era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado 
a varrer... Quando eu o via 
de avental, papai, eu ria; 
eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio 
para ganhar ordenado, 
ajudar meu pai cansado, 
mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras: 
Sou um operário obscuro, 
mas você terá futuro, 
será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho 
a quem devo o pão e o estudo? 
Que é pobre porque deu tudo 
à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma, 
com toda a universidade, 
quisera eu ser a metade 
daquilo que você é.

E quero que você saiba 
que, entre amigos, conversando, 
meu assunto vai girando 
e no seu nome recai.

Da sua força, coragem, 
bondade eu conto uma história. 
Todos veem que a minha glória 
é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho 
no rio que estava cheio. 
Quando a correnteza veio, 
vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água 
nadando mais do que um peixe, 
salvou-me e disse:  Não deixe! 
Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte 
que respeitava a fraqueza. 
Nunca humilhou a pobreza, 
nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens 
e com Deus estava bem. 
Nunca fez mal a ninguém 
e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo 
Daquilo que não se esquece. 
E a minha voz estremece 
e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante 
e você é pequenino. 
Hoje sou eu que me inclino. 
Papai... a bênção, papai.

[Jornalista e poeta brasileiro, 19192008]
 
 ♥♥♥


Carl Larsson (Swedish painter, 1853–1919),
"Self-portrait with Brita", 1895 (watercolor)
 
O Dia do Pai (em Portugal e na Europa em geral) ou Dia dos Pais (no Brasil) é uma data comemorativa que homenageia anualmente os pais. A data varia de acordo com os países. Em Portugal e na Espanha é celebrada no dia 19 de março, enquanto no Brasil é celebrado no segundo domingo de agosto. Nos Estados Unidos e na Inglaterra é celebrado no terceiro domingo de junho.