domingo, 14 de junho de 2026

"A palavra o açoite" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

A palavra o açoite


Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filha
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
e distante e distante
uma légua de mágoa

E toda a santa mágoa este dia esta noite
o discurso o nevoeiro a palavra o açoite
a glória pátria
filho
um rugir absoluto um rugir obsoleto
um secreto
martelar de silêncio

E toda a santa guerra esta manhã de mágoa
de silêncio de névoa este loiro este espesso
instante de ternura filho camuflada
de rodas sulcos rasas
rosas de fogo e afago

Toda a santa manhã esta espera este amargo
absoluto obsoleto medo filho por vir
o loiro infante o instante
todo alcácer-quibir


Emanuel Félix Borges da Silva,
in 'A palavra, o açoite: poemas', 1977.

[Emanuel Félix Borges da Silva (Angra do Heroísmo, 24 de Outubro de 1936 — Angra do Heroísmo, 14 de Fevereiro de 2004), mais conhecido por Emanuel Félix, foi um poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico, que se afirmou como um dos mais notáveis poetas e escritores da segunda metade do século XX. Foi o primeiro introdutor em Portugal do concretismo poético, inspirado pelos brasileiros Augusto e Haroldo de Campos, porém cedo passou a uma experiência surrealista.] (daqui)

 
Angra do Heroísmo: uma das principais cidades açorianas e sede da Diocese de Angra, 
na ilha Terceira; ao fundo, o Monte Brasil.
 (daqui)


Angra do Heroísmo, resistência insular

Angra tem Heroísmo no nome e na história. Defendeu-se de piratas, resistiu a aceitar o domínio dos Filipes, foi palco das lutas liberais, reergueu-se após um violento terramoto. Cidade da ilha Terceira, nos Açores, é Património da Humanidade desde 1983. 

Protegida dos ventos dominantes e com localização atlântica privilegiada, Angra foi escolhida pelos navegadores portugueses para ser porto de abrigo nas grandes viagens dos Descobrimentos. As naus de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, por exemplo, fizeram escala nas suas baías naturais.

Ouro, prata, especiarias, todas as riquezas das Índias Orientais e Ocidentais eram cobiça de piratas. Duas grandes fortalezas, São Sebastião e São Filipe, foram construídas para defender a cidade que, desde a Idade Média, vinha crescendo à volta do Castelo. Durante três séculos, Angra está no centro das rotas comerciais e faz a ligação entre quatro continentes: Europa, Ásia, África e América. Ali foi estabelecida a Provedoria das Armadas e Naus da Índia.

No século XV, Angra prospera, a malha urbana cresce, adaptando-se às colinas e às condições climatéricas. No século XVI, em 1534, é elevada a cidade por D. João III e, no mesmo ano, fica sede do Arcebispado dos Açores. São desta fase algumas das suas mais importantes construções: a Catedral do Santíssimo Salvador, num gótico tardio com traços do maneirismo; o Convento e a Igreja de S. Francisco, com as suas fachadas sóbrias e os interiores enriquecidos em azulejaria, talha dourada e pintura; as Igrejas da Misericórdia e do Santo Espírito, o Palácio dos Capitães-Generais. A lista é grande e monumental.

O terramoto de 1980 destruiu oitenta por cento deste património, mas o trabalho de reconstrução foi exemplar e, apenas três anos depois, o comité da UNESCO reconheceu a importância do centro de Angra do Heroísmo para a Humanidade. (daqui)

 

"Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"

Fernando Pessoa (1888–1935),
Trecho do poema "Mar Português", que integra a sua obra "Mensagem", 1934.




"Mensagem" de Fernando Pessoa.
Editor: 11 X 17; Edição: 05-2010.


"Mensagem", a profecia de Fernando Pessoa

A visão pessoana de um Quinto Império nasce nos versos desta obra, épica, metafórica e profética. A "Mensagem" é como se fosse um sonho de Portugal por realizar. «Sou um nacionalista místico, um sebastianista racional», escreveu o poeta sobre o único livro de poemas em português que conseguiu publicar em vida. A 1 de dezembro de 1934, um ano antes de morrer.

Nos 44 poemas da "Mensagem" contam-se séculos de história, das glórias e não glórias que Portugal viveu. Fernando Pessoa contempla o passado dos heróis e dos mitos, de Ulisses, de Viriato, do Infante D. Henrique, de Nuno Álvares Pereira e do desejado D. Sebastião. 

O poeta encontra no «pequeno povo» das Descobertas, «a grande Raça que partirá em busca de uma Índia nova», não para conquistar apenas um Império terreno mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, o Quinto Império.

Tal como Camões fizera quatrocentos anos antes, o poeta olha para a grandeza das viagens marítimas como um incitamento para o sonho: "É a Hora!", escreve no último verso. 

Coletânea de poesias escritas em épocas diferentes, a "Mensagem" de Pessoa divide-se em três partes: "Brasão", "Mar português" e "O encoberto".

A primeira parte, "Brasão", divide-se em "Os campos", "Os castelos", "As quinas", "A coroa" e "O timbre". Cada uma dessas partes está ligada ao brasão do país.
"Brasão" aborda o período histórico inicial português, desde os processos de formação da nação portuguesa até o momento da expansão marítima, representado sua dificuldade e esperança. 

"Mar português" fala sobre a época de ouro portuguesa, a da expansão marítima, reveladora da coragem e do heroísmo português.

"O encoberto" concentra-se no mito do Sebastianismo e do Quinto Império, que retirariam Portugal da decadência experimentada a partir do século XVIIII até o momento da enunciação, o século XX.
(daqui)

 

sábado, 13 de junho de 2026

"Canção do vento e da minha vida" - Poema de Manuel Bandeira

 


Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed founder
of Cubism and an influence on the School of Paris, 1881–1953), Paysage cubiste,
Arbre et fleuve (Cubist Landscape)
, 1914, oil on canvas, 97 x 130 cm,
published in Der Sturm, 5 October 1920.
 
 
Canção do vento e da minha vida


O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


Manuel Bandeira (1886–1968),
in "Lira dos Cinquent’anos", 1940.
 
 
 

"Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples."

Manuel Bandeira, Trecho do poema "Belo Belo",
in "Estrela da Vida Inteira", Ed. Nova Fronteira.
 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Árvore" - Poema de Carlos de Oliveira

 

 
William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916), 
'The Olive Grove', c. 1910.
 

Árvore

I

As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente,
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,

II

talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando o papel,

III

seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:

como podem
crescer
de tal modo

IV

no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro

V

e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:

procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração

VI

quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai e deixa
atrás de si
silêncio:

VII

é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitetura
duvidosa
de símbolos

VIII

que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.


Carlos de Oliveira (1921–1981),
in 'Micropaisagem', 1968,
Dom Quixote


 
 
'Micropaisagem' de Carlos de Oliveira;
Coleção: Cadernos de Poesia nº 1;
Editora: Dom Quixote, 1ª ed. 1968.
 
 
Micropaisagem

Incluído numa segunda fase da obra poética de Carlos de Oliveira, marcada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira (estudo e antologia), Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 68), tendência que se reflete no rigor de construção, no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna", em Micropaisagem agudiza-se, se comparado com volumes anteriores, o carácter autorreferencial da poesia, ao mesmo tempo que a captação das imagens do mundo mineral tende a conduzir a um ocultamento do sujeito poético sob uma paisagem estagnada embora em milenar movimento: "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ("Estalactite", in Micropaisagem).

Equacionando a dinâmica lenta de sedimentação da realidade e a construção do poema, avulta neste volume a consciência de um trabalho de despojamento, de filtragem, imperioso para que, na sua forma final, o poema condense, com brevidade, um ritmo íntimo, um subterrâneo entrelaçar de sentidos, a sua nudez e essencialidade. (daqui)
 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

"John Brown's Body" - Poema de Stephen Vincent Benét



Horace Pippin (American painter, 1888–1946), 'John Brown going to his hanging', 1942,

[John Brown (Torrington, 9 de maio de 1800 – Charles Town, 2 de dezembro de 1859) foi um líder proeminente no movimento abolicionista dos Estados Unidos nas décadas anteriores à Guerra Civil. Ele ganhou proeminência nacional na década de 1850 por seu abolicionismo radical e sua participação no Bleeding Kansas. Em 1859, Brown foi capturado, julgado e executado pelo governo da Commonwealth da Virgínia por ter liderado e tentado incitar uma rebelião de escravos em Harpers Ferry.] (daqui)

***

John Brown's Body


John Brown's body lies a-mouldering in the grave.
Spread over it the bloodstained flag of his song,
For the sun to bleach, the wind and the birds to tear,
The snow to cover over with a pure fleece
And the New England cloud to work upon
With the grey absolution of its slow, most lilac-smelling rain,
Until there is nothing there
That ever knew a master or a slave
Or, brooding on the symbol of a wrong,
Threw down the irons in the field of peace.
John Brown is dead, he will not come again,
A stray ghost-walker with a ghostly gun.


Stephen Vincent Benét,
in "John Brown's Body", 1928



The first edition cover "John Brown's Body",
by Stephen Vincent Benét, 1928,
 published by Doubleday, Doran.
 
[John Brown's Body (1928) is an American epic poem written by Stephen Vincent Benét. The poem's title references the radical abolitionist John Brown, who raided the federal armory at Harpers Ferry, Virginia in October 1859. He was captured and hanged later that year. Benét's poem covers the history of the American Civil War. It won the Pulitzer Prize for Poetry in 1929. It was written while Benét was living in Paris after receiving a Guggenheim Fellowship in 1926.] (daqui)
 

 
Stephen Vincent Benét at Yale College in 1919

Stephen Vincent Benét, escritor norte-americano nasceu em 1898, em Bethlehem, Pensilvânia, e morreu a 13 de março de 1943, na cidade de Nova Iorque. 
Oriundo de uma família de militares e de escritoras, Benét terá tido acesso, desde muito cedo, à biblioteca do seu pai. Os tratados marciais tê-lo-iam inflamado de patriotismo e, seguindo a tradição familiar, terá sido enviado, com dez anos apenas, para a Academia Militar de Hitchcock. Desgostado da brutalidade da escola, lia a poesia que Shelley compusera nos recreios de Eton, e nela se inspirava. Publicou a sua primeira coletânea de poemas aos dezassete anos de idade, Five Men And Pompey (1915). 
Declarado inapto para a recruta, por motivo de deficiência de visão, foi, no entanto, aceite pelos serviços criptográficos militares, em Washington.
Para a sua licenciatura em Yale, em 1919, ao invés de apresentar uma tese, submeteu o seu terceiro volume de poemas à apreciação dos seus mestres. 
O primeiro romance de Benét, The Beginning Of Wisdom, de cariz autobiográfico, foi publicado em 1921. Continuou os seus estudos na Sorbonne, em Paris, onde conheceu a mulher que viria a ser a sua esposa, a escritora Rosemary Carr. Regressou aos Estados Unidos em 1923. 
Durante a década de 20, publicou três outros romances, Young People's Pride (1922), Jean Huguenot (1923) e Spanish Bayonet (1926), romance histórico sobre a Florida do século XVIII com particular destaque para os antepassados do próprio autor. 
Em 1926, Benét voltou a França, onde viveu durante quatro anos, trabalhando no seu poema sobre a Guerra da Secessão, John Brown's Body, que viria a ser recompensado com o Pulitzer Prize, em 1929. 
Na década de 30, Benét publicou, entre outras obras, A Book of Americans (1933), de coautoria com a sua esposa, The Burning City (1936), que incluía o poema "Litany for Dictatorships", The Headless Horseman (1937) e Thirteen O'Clock (1937), de que fazia parte o famoso conto "The Devil and Daniel Webster", que seria posteriormente convertido em peça de teatro, ópera, e mesmo um filme que viria a ser intitulado All That Money Can Buy. Durante esta época, Benét, pressionado por razões financeiras, escreveria também argumentos para a indústria de Hollywood e uma grande variedade de contos. 
No início dos anos 40, Benét foi um ferranho defensor da entrada dos Estados Unidos da América na Segunda Guerra Mundial. O presidente Roosevelt teria lido, na sede das Nações Unidas, uma oração especialmente composta por Benét para a ocasião. 
Foi galardoado postumamente com o prémio Pulitzer, pelo seu volume de poesia inacabado Western Star, publicado pouco após a morte do autor
. (daqui)
 


Horace Pippin, 'School Studies', 1944. National Gallery of Art, Washington.



"Coragem... pequeno soldado do imenso exército. Os teus livros são as tuas armas, a tua classe é a tua esquadra, o campo de batalha é a terra inteira, e a vitória é a civilização humana."

Edmondo De Amicis, em "Cuore" ("Coração"), 1886. 

[Edmundo De Amicis (1846–1908) foi um escritor e militar italiano. Sua obra de maior destaque é "Coração" (em italiano "Cuore"). Este livro tinha o objetivo de criar uma identidade nacional e cultural para a Itália recém-unificada. A história narra a vida de uma turma de alunos na escola pública e o professor conta um conto por mês, exaltando em cada conto atos de heroísmo de um menino de cada uma das províncias italianas. Foi adotado como livro de leitura em quase todas as escolas da Itália durante muitos anos.]
 


Horace Pippin, 'Domino Players', 1943, The Phillips Collection.


"O analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender."


Alvin Toffler
 
 
[Alvin Toffler (1928–2016) foi um escritor e futurista norte-americano, conhecido pelos seus escritos sobre a revolução digital, a revolução das comunicações e a singularidade tecnológica.]
 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

"Camões e a tença" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 


Francisco Augusto Metrass (Pintor romântico português, 1825–1861), 
'Camões na gruta de Macau', 1853, Museu do Chiado, Lisboa.


Camões e a tença


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este País te mata lentamente


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Dual' [VI – Em Memória], Lisboa: Moraes, 1972.
Reprod. em 'Obra Poética III'. Lisboa: Caminho, 1991, p. 162.
 
***
 

A Bandeira de Portugal, criada por Columbano Bordalo Pinheiro,
adotada pelo governo em 1 de novembro de 1910 e aprovada
pelo parlamento em 19 de junho de 1911. 
 

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra a data de 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões, sendo também este o dia dedicado ao Anjo Custódio de Portugal
Este é também o dia da Língua Portuguesa, dos cidadãos e das Forças Armadas. 
Durante o Estado Novo, de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, era celebrado como o Dia da Raça: a raça portuguesa ou dos portugueses. (daqui)
 
 ***
 
 


O artista plástico Francisco Augusto Metrass nasceu a 7 de fevereiro de 1825 e morreu a 14 de fevereiro de 1861.
Seguiu a carreira artística, contrariando a vontade do pai que preferia vê-lo prosseguir uma carreira no comércio. 
Em 1836 entrou para a Academia de Belas Artes de Lisboa, onde estudou com os mestres Joaquim Rafael e António Manuel da Fonseca. 
Em 1844 partiu para Roma onde teve como professores os pintores alemães Cornelius e Overbeck, que faziam parte do "Grupo dos Nazarenos", assim conhecidos porque se dedicavam especialmente à pintura religiosa. O primeiro quadro de Metrass com o título "Jesus acolhendo as crianças" foi realizado sob esta inspiração. 
Continuou a sua viagem por Itália, depois Paris, regressando a Lisboa onde realizou uma exposição nas salas da casa que ocupava no palácio dos condes de Lumiares a S. Roque. Não havendo qualquer reação do público ou da crítica, Metrass regressou a Paris e foi aí que, a partir de 1850, o seu talento começou a ser reconhecido, destacando se, então, não mais com temas religiosos, mas com a pintura histórica. 
O ano de 1856 trouxe-lhe a consagração com um dos seus quadros mais célebres: Só Deus retrata uma cena do dilúvio, onde uma mulher, tendo nos braços uma criança, é arrastada pelas águas. 
No apogeu do seu talento, e depois de ter pintado uma grande obra histórica intitulada "Camões lendo os Lusíadas", uma tuberculose não o deixou ir mas longe: em 1861, aos 36 anos, morreu na ilha da Madeira, deixando a sua obra incompleta. (daqui)
 


Francisco Augusto Metrass, 'Só Deus!', 1856, Museu do Chiado, Lisboa.


Descrição

Só Deus!  Numa composição de acentuado teor dramático, Metrass representa a figura de uma mulher com uma criança nos braços, deitada de costas sobre uns rochedos, inundados por uma forte torrente de água, segurando-se ela com a mão direita, ao alto, crispada, a um tronco partido. Salvas do naufrágio de que foram vítimas, a mãe olha para o céu, suplicante, agradecendo o milagre, estando a criança, nua e aterrorizada, agarrada a uma ponta dos cabelos da mãe, com uma expressão de pavor.
Destacam-se pormenores que contribuem para a expressão dinâmica e desesperada deste episódio, como o realismo dos rochedos musgosos e dos ramos de árvore empurrados pela torrente de água, em primeiro plano, reforçado pela posição em diagonal do corpo da mulher que cria instabilidade na cena, no branco lívido do seu rosto e do seu peito, sublinhados por uma iluminação eficaz. (daqui)

terça-feira, 9 de junho de 2026

"Poesia entediada entre o cão e o gato" - Poema de Millôr Fernandes


 
Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859–1923), 'Who Goes There?', n.d.
 

 Poesia entediada entre o cão e o gato 


O cão é o melhor amigo
Do homem.
Já o gato
É apenas
O pior inimigo do rato.
O cão ladra
(Ou não ladra).
Mas o gato
Esse jamais se enquadra;
Ronrona, ressona, mia,
Vadia,
Mas, no geral,
Apenas desconfia.
Parece cão por uns momentos
Mas em geral
Nada exprime de seus sentimentos.
Prefira o cão
– É mais irmão. Prefiro o gato
– É mais barato.

9/11/1955 
 
Millôr Fernandes (19232012)
in "Essa cara não me é estranha e outros poemas".
 1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

"Dorme, criança, dorme" - Poema de Fernando Pessoa



Josep de Togores i Llach (Pintor espanhol, 1893–1970), 'Niños durmiendo', 1927.



Dorme, criança, dorme


Dorme, criança, dorme,
Dorme que eu velarei;
A vida é vaga e informe,
O que não há é rei.
Dorme, criança, dorme,
Que também dormirei.

Bem sei que há grandes sombras
Sobre áleas de esquecer,
Que há passos sobre alfombras
De quem não quer viver;
Mas deixa tudo às sombras,
Vive de não querer.

16-3-1934

Fernando Pessoa 
Poesias Inéditas (1930-1935),
Nota prévia de Jorge Nemésio.
Lisboa: Ática, 1955.