Inicial
O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida
"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)
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Poeta no supermercado
1
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
2
Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz — como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
Fernando Assis Pacheco,
in 'Cuidar dos Vivos', 1963


Christian Skredsvig (Norwegian painter and writer, 1854–1924), "Idyll", 1888,
Lillehammer Art Museum.
Gato
Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.
Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move
A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.
Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
– e, de repente,
o pulo em cima.
A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.
Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.
Ivan Junqueira (1934–2014),
in "O Grifo", 1987.

Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.
Tove Jansson, 'The Moomins'
A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson.
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna. (daqui)

Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'
"Arte e vida se misturam.
Fantasia e realidade se acrescentam."
Affonso Romano de Sant'Anna
[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]

A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade...
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!
Teixeira de Pascoaes (1877–1952),
in 'Vida Etérea', 1906

Albert Bierstadt, 'Sundown at Yosemite', c. 1863, Thyssen-Bornemisza Museum
"Admiramos o mundo através do que amamos."
Alphonse de Lamartine
[Autor, poeta e estadista francês, 1790–1869]