domingo, 31 de maio de 2026

"Irmão" - Poema de Bráulio Bessa

 

Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "The Barbershop"


Irmão

 
Já que Deus me fez poeta,
um fazedor de poesia,
sigo a vida versejando
é essa minha alegria.
Ajuntando pensamentos,
misturando sentimentos,
falando com o coração!
Tô aqui mais uma vez,
hoje trago pra vocês
um cordel sobre o irmão.

Briguento e melhor amigo,
protegido e protetor.
Juntamos as alegrias,
dividimos cada dor
desde os tempos de criança,
guardamos cada lembrança
no fundo do coração.
Na vida tem muito ex
mas eu garanto a vocês
não existe ex-irmão.

Irmãos foi por que Deus quis,
amigos por que queremos.
Um dia nós ensinamos
os outros dias aprendemos
que o sangue é indiferente
quando a vida dá pra gente
um sentimento sagrado,
que nem é meu, nem é seu,
amor é coisa de Deus
a gente só pega emprestado.
 

Bráulio Bessa
"Poesia com Rapadura"
(Poeta, cordelista, declamador e palestrante brasileiro, n. 1985) 
 
 
Obras de Morgan Weistling
 
Morgan Weistling, "Sisters"
 

  
Morgan Weistling, "Sister Stories"


 
Morgan Weistling, "The Sleepover"
 

 
 Morgan Weistling, "The Country Doctor", 2013.
 

Morgan Weistling, "A Helping Hand"
 
 
 
Morgan Weistling, "Dressmaker's shop - 1886"
 

  
Morgan Weistling, "Family Traditions"
 
 
 
Morgan Weistling, "Indian Stories"
 

Dia dos Irmãos

O Dia dos Irmãos é uma data comemorativa em que se homenageia, agradece e festeja os irmãos. Tem vocação universal, sendo uma festa semelhante ao Dia do Pai, ao Dia da Mãe ou ao Dia dos Avós. Procura assinalar o espírito destacado na deliberação instituidora: «o que vivemos entre irmãos é único, irrepetível, molda a nossa vida para sempre.» 
 
É celebrado um pouco por todo o mundo em diferentes datas.
Na Europa, o Dia dos Irmãos celebra-se a 31 de maio, conforme foi instituído por deliberação da Assembleia Geral da Confederação Europeia das Famílias Numerosas (ELFAC) em 18 de setembro de 2014. 
A data de 31 de maio foi escolhida por anteceder o Dia das Crianças (1 de junho) e ser o último dia do mês de maio, associado a celebrações familiares como o Dia da Mãe (em Portugal, no primeiro domingo de maio.) 
 
No Brasil, a escolha do dia 5 de setembro surgiu por iniciativa da Igreja Católica, homenageando o aniversário da morte da missionária Madre Teresa de Calcutá (1910
1997), a partir de 2007 – data em que passaram 10 anos sobre a sua morte. No contexto religioso, o sentido da palavra "irmão" está ligada ao "próximo". (daqui)
 

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 18721931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (19011964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui) 
 

sábado, 30 de maio de 2026

"Minibiografia" - Poema de Luiza Neto Jorge

 

 
Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
 founder of Cubism, 1881–1953), 'Woman with animals' (La dame aux bêtes) 
Madame Raymond Duchamp-Villon, 1914, oil on canvas, 196.4 x 114.1 cm,
 Peggy Guggenheim Collection.


Minibiografia


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge (1939–1989),
in 'A Lume', 1989.
 

"Arte Poética V" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen



Auger Lucas (French painter, 1685
1765), 'An Allegory of Poetry', c. 1760.
 

Arte Poética V


Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado 'Nau Catrineta'. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.

Tempos depois, escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Ilhas", pág 70 - Texto Editora, 1989
(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988, por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères.)
 
 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Sempre a Razão vencida foi de Amor" - Poema de Luís de Camões



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915),
"Fair Rosamund" (Rosamund Clifford), 1854.
National Gallery of Victoria.


[Rosamund Clifford (c. 1140 – c. 1176), often called "The Fair Rosamund" or "Rose of the World", was a medieval English noblewoman and mistress of Henry II, King of England. She became famous in English folklore.] (daqui) 
 
 
Sempre a Razão vencida foi de Amor

 
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.


Luís de Camões (1524–1580), 'Sonetos',
in 'Obras completas'
 


John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),
"Fair Rosamund", 1917.


"Vi chorar uns claros olhos
Quando deles me partia.
Oh! Que mágoa! Oh! Que alegria!"
(Mote de um Vilancete)
 
*** 
 

Cesária Évora - 'Sodade'

'Sodade' é uma canção cabo-verdiana escrita por Armando Zeferino Soares na década de 1950, interpretada na década de 1970 por Bonga Kwenda, mais tarde popularizada por Cesária Évora no seu álbum 'Miss Perfumado' na década de 1990. O nome da canção, 'sodade', é uma variante crioula cabo-verdiana do termo português saudade.
 (daqui)
 
 

"Fim" - Poema de Murilo Mendes



John Martin (English Romanticist painter, engraver, and illustrator, 1789–1854), 
"The Great Day of His Wrath" or "The End of the World", c. 1851/3, Tate Britain.


Fim


Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
tudo o que acontece desde o princípio
é a sua preparação.

Eu preciso assistir ao fim do mundo
para saber o que Deus quer comigo e com todos
e para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
ouvir os coros imensos,
as lamentações e as queixas de todos,
desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
eu existo para a visão beatífica.


Murilo Mendes (1901–1975),
in 'As Metamorfoses', 1944.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

"De que valem a experiência e o conhecimento na velhice?" - Texto de Jean-Jacques Rousseau

 
 
Jan Steen (Dutch Golden Age painter, 1625/1626–1679),
'The way you hear it, is the way you sing it', c. 1665, Mauritshuis.
 

De que valem a experiência e o conhecimento na velhice? 


«Envelheço aprendendo sempre» - Sólon (c. 630 – c. 560 a.C.), na sua velhice, repetia muitas vezes este verso. O sentido que esse verso possui permitir-me-ia dizê-lo também na minha; mas é bem triste o conhecimento que, desde há vinte anos, a experiência me fez adquirir: a ignorância ainda é preferível. A adversidade é, sem dúvida, um grande mestre, mas faz pagar caro as suas lições e muitas vezes o proveito que delas se tira não vale o preço que custaram. Aliás, a oportunidade de nos servirmos desse saber tardio passa antes de o termos adquirido. 
A juventude é o tempo próprio para se aprender a sabedoria; a velhice é o tempo próprio para a praticar. A experiência instrui sempre, confesso, mas não é útil senão durante o espaço de tempo que temos à nossa frente. É no momento em que se vai morrer que se deve aprender como se deveria ter vivido?
De que me servem os conhecimentos que tão tarde e tão dolorosamente adquiri sobre o meu destino e sobre as paixões alheias de que ele é o fruto? Não aprendi a conhecer os homens senão para melhor sentir a desgraça em que me mergulharam e esse conhecimento, embora me revelasse todas as suas armadilhas, não me permitiu evitar nenhuma delas. Porque não permaneci nesse estado de confiança, insensata mas ditosa que durante tantos anos fez de mim a presa e o joguete dos meus ruidosos amigos, sem que tivesse a mínima suspeita de todas as tramas em que estava envolvido? Troçavam de mim e eu era vítima deles, é verdade, mas acreditava que me amavam, e o meu coração deliciava-se com a amizade que eles me tinham inspirado e pensava que sentiam por mim uma amizade igual. Essas doces ilusões estão destruídas. A triste verdade, que o tempo e a razão me revelaram, ao fazer-me sentir a minha infelicidade, permitiu-me ver que não havia remédio e que não me restava senão resignar-me. Por isso, para mim, na minha situação atual, todas as experiências da minha idade não têm utilidade presente nem proveito futuro. 
Ao nascermos, iniciamos uma luta que só termina com a morte. De que serve aprender a conduzir melhor o seu carro quando se está no fim da estrada? Então, já não resta senão pensar em como sair dele. O estudo de um velho, se é que ainda tem algo a estudar, consiste unicamente em aprender a morrer, e é precisamente o que menos se faz na minha idade, em que se pensa em tudo menos nisso. Os velhos estão mais agarrados à vida do que as crianças e saem dela com mais má vontade do que os jovens. É que, como todos os seus trabalhos se destinaram a essa mesma vida, ao chegarem ao fim, veem que os seus esforços foram inúteis. Todos os seus cuidados, todos os seus bens, todos os frutos das suas laboriosas vigílias, tudo abandonam quando partem. Em vida, não pensaram em adquirir algo que pudessem levar consigo quando morressem.

Jean-Jacques Rousseau (1712–1778), in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'
 


'Os Devaneios do Caminhante Solitário' de Jean-Jacques Rousseau.
Tradução de Miguel Serras Pereira. Lisboa: Antígona, 2024.

 
Derradeira obra de Jean-Jacques Rousseau, inacabada e publicada postumamente, Devaneios do Caminhante Solitário (1782) eram, segundo o autor, «um apêndice das Confissões» e encerram algumas das suas mais belas linhas. Este «registo fiel dos passeios solitários e dos devaneios que os preenchem», nas cercanias de Paris e no lago de Bienne, é, além de um duro balanço de vida, na sequência da proscrição de que Rousseau foi alvo, um eloquente conjunto de meditações que abarcam a velhice e a insatisfação com a mundanidade, o refrigério na natureza e a perseguição movida por uma sociedade hostil. Livro que antecipou a sensibilidade romântica, é uma reflexão maior sobre o exílio e as poderosas cadeias que sempre tolheram a liberdade individual. (daqui)
 


Jan Steen, 'The Card Players in an Interior', c. 1660,
Rose-Marie and Eijk van Otterloo Collection
 

"Só depois de me ter desprendido das paixões sociais e do seu triste cortejo, 
redescobri a natureza com todos os seus encantos."

Jean-Jacques Rousseau,
 in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'