António Nobre viveu como um enigma. Morreu faz hoje cem
anos. Escreveu um dos livros maiores da literatura portuguesa, ‘‘Só’’.
Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar,
isolada, toda a capa de um livro.
Quantos livros produziu a poesia portuguesa do século XIX que
coubessem sem hesitação numa escolha exigente da literatura universal?
Não mais do que dois ou três.
O ‘‘Livro de Cesário Verde’’, sem dúvida, e talvez os ‘‘Sonetos’’ de
Antero. Se arrumarmos a ‘‘Clepsidra’’ de Pessanha no século XX, resta
apenas o ‘‘Só’’, de António Nobre.
Cem anos decorridos sobre a morte do poeta – a 18 de Março de 1900 –,
já não serão muitos os que lhe recusem lugar ao lado dos maiores. Mas
se o reconhecimento começa a ser consensual, nem todos o admiram pelas
mesmas razões. Alguns glorificam-lhe o saudosismo nostálgico, outros
apreciam a paleta impressionista dos seus retratos do Portugal
provinciano, agrário e piscatório; uns sublinham a força inovadora do
seu tom coloquial e dos seus versos recheados de nomes próprios, outros
preferem ver nele o poeta maldito, ostentando o seu provocatório
narcisismo na pátria parisiense do ‘‘mal de vivre’’ finissecular.
Mas talvez a prova mais segura da perenidade de Nobre seja, afinal, o
modo como a sua lição foi sendo reinventada por poetas posteriores,
numa linha nem sempre fácil de rastrear, mas que, passando certamente
por Vitorino Nemésio e Pedro Homem de Mello, é ainda visível em autores
só recentemente revelados, como Jorge Gomes Miranda. Todavia, há pouco
mais de vinte anos, Alexandre Pinheiro Torres ainda podia escrever, a
propósito de Nobre, estas linhas indignadas: ‘‘em 1892 publica o ‘Só’,
um dos maiores livros da literatura portuguesa, que continua, porém, a
ser largamente incompreendido ou desvalorizado pela infinita cretinice
dos juízes das letras nacionais’’.
E Vergílio Ferreira abre com estas palavras um texto publicado, em
1992, na Colóquio Letras: ‘‘Coitado do Lusíada. Toda a diferença é um
estigma e há que pagar por isso o devido preço. Toda a qualidade é
ofensiva e há que esperar, se possível, que ela se perdoe pela própria
qualidade. Depois de cem anos de muita injúria, a diferença de Nobre
ainda não está paga e ainda se lha não perdoou.’’
Talvez haja um certo exagero neste diagnóstico. Por um lado, os
leitores de Nobre nunca cessaram de engrossar, como o confirmam as
sucessivas edições do ‘‘Só’’, que se contam já por dezenas. E se a
publicação do livro originou, à data, paródias e escárnios, não foi
preciso esperar muitos anos para que lhe prestassem a devida homenagem
dois especialistas na arte de serem incompreendidos pelo seu próprio
tempo: Pessoa e Sá-Carneiro. Sobretudo o segundo, que lha prestou
indiretamente em muitos dos seus próprios versos, e expressamente no
poema a que deu o título de ‘‘Anto’’.
Pessoa, esse, escreveu: ‘‘De António Nobre partem todas as palavras
com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas’’. Mas
neste elogio, como em tudo o resto que escreveu sobre o poeta,
pressente-se a sua incompreensão dos mais profundos contributos de Nobre
para a renovação da linguagem poética portuguesa. Nos seus breves 32
anos de vida, António Nobre escreveu o ‘‘Só’’ – ainda viu sair a segunda
edição revista, em 1898 – e deixou inéditos um considerável número de
poemas, postumamente publicados em ‘‘Despedidas’’ (1902), cuja edição
original foi prefaciada por Sampaio Bruno, ‘‘Primeiros Versos’’ (1921) e
‘‘Alicerces’’ (1983).
Nobre começou a escrever muito novo. Os seus primeiros poemas datam,
tanto quanto se sabe, dos 14 anos. E nada há, nessa produção juvenil,
que traia uma especial disposição para a tristeza ou a melancolia. Em
Fevereiro de 1885, com 17 anos, dirige mesmo a um amigo estas salutares
recomendações: ‘‘aconselho-te a leitura das obras modernas, daquelas que
não levam às idealizações metafísicas do romantismo; mas sim às que nos
dominam por meio de sentimentos novos, que são a sinceridade, a
alegria, a honestidade, enfim, todos aqueles que resultam duma alma bem
formada, e dum organismo rijo, forte, sadio’’. A nós, que já fomos
espreitar o fim da história, só pode comover-nos a confiança viril
destas palavras. Sete anos mais tarde, em Abril de 1892, publica o
‘‘Só’’.
Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar,
isolada, toda a capa de um livro. Mais do que um título, soa como uma
divisa, equiparável, na sua poderosa brevidade, ao célebre ‘‘Désir’’ do
malogrado D. Pedro. O jovem poeta, embora não suspeite da terrível
doença que o destino lhe reserva, introduz o volume com este aviso à
navegação, expresso nos versos finais de ‘‘Memória’’: ‘‘… tende cautela,
não vos faça mal / Que é o livro mais triste que há em Portugal!’’ Os
primeiros sintomas da tuberculose chegam nesse mesmo ano. Sentido-se
‘‘muito abatido’’, consulta um médico parisiense, que apenas lhe
encontra uma forte anemia e lhe receita pílulas de ferro, vinho
Delalonëe e pulverizações com ‘‘Eaux-bonnes’’.
Mas três anos mais tarde, Nobre está já a dar entrada no reputado
sanatório suíço de Davos-Platz. É a primeira etapa de uma longa e penosa
peregrinação, a que só a morte irá pôr termo. Mas voltemos ao início, a
esse ‘‘menino António’’ que, segundo reza um bilhete manuscrito por seu
pai, ‘‘nasceu em 16 de Agosto de 1867’’ num prédio do centro do Porto.
Filho de um comerciante enriquecido no Brasil, Nobre frequenta bons
colégios, alternando os estudos com temporadas nas propriedades rurais
da família. E quando os pais se mudam para Leça, uma praia próxima do
Porto frequentada pela colónia britânica, descobre o fascínio do mar –
esse ‘‘Prof. Oceano’’ referido em ‘‘Carta a Manoel’’ – e, também, as
loiras raparigas inglesas, com destaque para Miss Charlote, uma jovem
preceptora com quem se corresponde durante dois anos.
É ela que lhe encurta o nome para ‘‘Anto’’, diminutivo que o poeta
assumirá e que evoca nos ‘‘Males de Anto’’, título do poema que encerra o
‘‘Só’’. Conhecendo a vida de Nobre, é difícil não ler os ‘‘Males de
Anto’’ como a pungente autobiografia de um poeta amaldiçoado. Mas quando
escreveu o poema era ainda um jovem e saudável estudante da
Universidade de Coimbra. E é consciente dessa perversa ironia que, pouco
antes de morrer, faz notar em carta a um amigo: ‘‘Deus castigou-me.
Quando era feliz e apenas tinha arranhaduras dos 19 anos, escrevia os
Males de Anto, exagerando tudo. Agora é que eu os sinto, depois de os
ter expresso em literatura.’’(daqui)