quinta-feira, 30 de abril de 2026

"A tartaruga" - Poema de Czesław Miłosz



Osman Hamdi Bey (Ottoman Turkish administrator, intellectual, art expert
and also a prominent and pioneering painter, 1842–1910),
"The Tortoise Trainer", 1906, Pera Museum, Istanbul.



A tartaruga


O sol sai de trás da névoa como um animal dourado,
A juba vermelha, com os raios desgrenhados.
Mas ela não vê. Nunca olha para o céu.
Cobertos por pálpebras bojudas, seus olhos
Miram apenas a terra ou as placas do piso,
Como aqui, na casa de Janek e Nela, em Menton.
Somos uma espécie de um andar de cima,
Nosso olhar arranha o céu e permeia as nuvens.
Observamos compadecidos
Como ela marcha desengonçada sob as cadeiras
E como saboreia a folha verde da alface.
Que ideia do demiurgo! Enfiar entre
Dois escudos um corpo de lagarto, para lhe proteger
A vida dos ataques dos grandes dinossauros!
Mas falar com ela não dá certo.
Quando de repente começa a correr em uma afobação frenética,
Inútil explicar a ela que o sapato do Janek
Não é uma parceira digna de tanto ardor.
Com certo embaraço, espiamos
Seus movimentos de macho na cópula, semelhantes aos humanos,
E o líquido que se espalha lentamente
Enquanto ela se mantém imóvel.
A comunhão dos vivos, mas não completa:
Como podem se conciliar consciência e inconsciência?
Janek e Nela não compreendiam a tartaruga.
Os dois queriam ser pura inteligência.
Pouco depois morreram e, em suas cadeiras, ninguém.


Czesław Miłosz, in "Para isso fui chamado: poemas".
Trad. e org. de Marcelo Paiva de Souza.
Companhia das Letras, 2023.



Czesław Miłosz, "Para isso fui chamado: poemas"
Tradução e organização de Marcelo Paiva de Souza
Companhia das Letras, 2023. Páginas: 280.

  
SINOPSE

Edição bilingue da poesia de um dos principais observadores do século XX. 

Vencedor do prémio Nobel de literatura em 1980 por sua capacidade de "expressar com lucidez a condição humana em um mundo repleto de conflitos", Czesław Miłosz foi uma testemunha singular dos principais acontecimentos que moldaram a história mundial recente. Autor de poemas, ensaios, romances, memórias, cartas e traduções, o escritor esmiuçou um período dominado por implacáveis e turbulentas transformações: a Primeira Guerra Mundial, a ocupação nazista na Europa, o Holocausto, a ascensão do fascismo, a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a divisão geopolítica causada pela Guerra Fria, a derrocada da União Soviética e a virada para o século XXI.
Com tradução do polaco, apresentação e seleção de Marcelo Paiva de Souza — professor do departamento de polaco, alemão e letras clássicas da Universidade Federal do Paraná —, "Para isso fui chamado" percorre, de forma cronológica, toda a produção poética de Miłosz, desde seu livro de estreia, publicado em 1933, até seus últimos poemas, escritos no começo dos anos 2000.
 (daqui)


Osman Hamdi Bey, "The Tortoise Trainer" (Second version), 1907,
Private collection.



"O trabalho do pensamento humano deve resistir ao teste da realidade nua e brutal. Se não consegue, é inútil. Provavelmente apenas valem a pena as coisas que preservam a sua validade aos olhos de um homem ameaçado de morte instantânea."
 
 
 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

"Ofélia" - Poema de Maria da Saudade Cortesão


 
John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),"Ophelia", 1910.


Ofélia


Que perfil perdi no vento
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.

Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada 
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.

Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.

Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.


Maria da Saudade Cortesão Mendes
,
in "O dançado destino", 1955.
 
 

Friedrich Heyser (German portrait, landscape, and history painter, 1857–1921),
"Ophelia", c. 1900, Museum Wiesbaden, Wiesbaden.
 

terça-feira, 28 de abril de 2026

"Os velhos poderosos" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso



Louis Moeller (American genre painter, 1855–1930), Conversation, undated,
oil on canvas, New Britain Museum of American Art.



Os velhos poderosos


E se a maneira como olhamos para os velhos for o contrário do que faz sentido?
E se a velhice for um jogo em que todos os anos se arranjam para os concorrentes, cada vez mais velhos, novos impedimentos e novas sobrecargas, exortando-os: "Desiste! Desanima!" Começa para aí aos 50 anos. Apetece logo desanimar. Começam a morrer pessoas de quem gostamos muito. Com surpresas. Más. Começam as doenças. Começam as dores. Começam os preconceitos. Começam os cansaços.
Cada vez que aparece o monstro – o monstro da vida, o monstro da idade com novos encolhimentos da nossa alegria de viver, ele grita-nos "Desanima! Desiste! Ao menos, entristece..." Mas os velhos picam-se. Gostam do jogo. Não é como se houvesse outro para jogar. Sentem-se desafiados: "Ai é? Ai é? Então já vais ver!"
"Então já vais ver, vida madrasta de um raio – ou julgavas que eu me deixava ir abaixo com tão pouco?"
Os velhos engolem os pais mortos, os amigos mortos, as coisas que já não podem fazer, mais a cara que os fita no espelho, com a língua de fora, e as cidades que se tornaram irreconhecíveis, e as paisagens que nunca mais voltarão, e as análises que estão cada vez piores. Engolem, enchem o peito, secam os olhos e apalpam a alma para ver se desanimou. Não desanimou. Ainda lá está. E é assim que ganham força: ainda estou de pé, ainda me rio, ainda me apetece brincar, ainda sou um gatinho.
Os velhos que não desanimaram são muito mais fortes do que os jovens que nunca foram desafiados a desanimar.
Aliás, desanimar com pouco é próprio da juventude: é um luxo deitarmo-nos abaixo com tão pouco. O monstro dos jovens não é o monstro dos velhos. Não é a morte. É pior do que a morte: o monstro dos jovens é a ignorância. E uma ignorância invencível, por muito que se leia e se viva. Leva a grandes desperdícios. Entrega-se de corpo e alma a grandes desânimos, todos redundantes.
Já os velhos sabem. Sabem e mesmo assim não desanimam. Não são só sobreviventes. São vencedores.

Crónica de Miguel Esteves Cardoso, in Jornal 'Público', 9 de Janeiro de 2026 (daqui)
 
 

Louis Moeller, The Dubious Tale, Private collection.



"Embora a memória e o raciocínio sejam duas faculdades essencialmente diferentes,
uma só se desenvolve completamente com a outra."

Jean-Jacques Rousseau (Escritor e filósofo suíço, 1712–1778),
em 'Emílio, ou da Educação', 1762.
 

"Préstimo" - Poema de Inês Lourenço



Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832-1918), 
Kittens playing with jewels, n.d.



Préstimo


Ao Eugénio de Andrade


Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir. 


Inês Lourenço (n. 1942)
"Assinar a pele: antologia de poesia contemporânea sobre gatos."
Lisboa, PT: Assírio



Horatio Henry Couldery, Reluctant Playmate, n.d.


Horatio Henry Couldery, Two Kittens playing with a Frog, n.d. 


Por que os escritores gostam de gatos?
 

Nunca se saberá, mas arrisco o seguinte: a escrita exige o arco do ócio: leveza, lentidão, abstração, desprendimento, isto é, que se seja gato. Sim, é verdade: quando o tempo do escritor coincide com o do gato, esse tempo adquire mais duração e qualidade. Se um dos meus três gatos irrompe no escritório, a atmosfera ganha novas vibrações e a sua presença silenciosa (escrever também é “não falar”, escolher o silêncio), que me deixa só mas, ao mesmo tempo, me acompanha, incita-me a fechar os olhos e a olhar para dentro, onde toda a obra nasce. Mais: os gatos têm elegância e plasticidade narrativa, estilo, poder de síntese, fluência, subtileza, tudo qualidades literárias de que os escritores tentam apropriar-se. Criaturas naturais, são também os médiuns que nos ligam ao ser e à sua essência, de que estão muito mais próximos. Precisamos deles, é o que é. Às vezes, interpelam-me candidatos a escritores, que pedem conselhos, orientação, e eu fico-me quase sempre pelo «Trate de arranjar um gato. Depois, logo vê».


Álvaro Magalhães (Escritor português, n. 1951) (daqui) 
 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

"Pequenos Mosaicos" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


Jacques-Ferdinand Humbert  - ), 
Portrait de Colette, c. 1896.


Pequenos Mosaicos 

 
É agora - na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da janela.

O terror de pensar: o pesadelo
de me sentir duas pela primeira vez
falado. É de amor este poema
e de visões: ondulantes cortinas
noutra que me é igual.

Porque no pesadelo e de repente
o futuro rasgou-se, as cortinas
soltaram-se. Na profecia
só ficaste tu.

E a tua falta mais que a tua
ausência em pequeno mosaico
se fechou. Entendo agora como uma cadeira
pode ser só esta cadeira porque
é tua.


Ana Luísa Amaral
(1956–2022)


"Arte Poética I" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Falcão Trigoso
(Pintor português, 1879-1956), 'Amendoeiras em flor em Lagos', 1919.

Arte Poética I

Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.

A loja dos barros fica numa pequena rua do outro lado da praça. Fica depois da taberna fresca e da oficina escura do ferreiro.

Entro na loja dos barros. A mulher que os vende é pequena e velha, vestida de preto. Está em frente de mim rodeada de ânforas. À direita e à esquerda o chão e as prateleiras estão cobertos de louças alinhadas, empilhadas e amontoadas: pratos, bilhas, tigelas, ânforas. Há duas espécies de barro: barro cor-de-rosa pálido e barro vermelho-escuro. Barro que desde tempos imemoriais os homens aprenderam a modelar numa medida humana. Formas que através dos séculos vêm de mão em mão. A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor. Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar.

A beleza da ânfora de barro pálido é tão evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada. Não falo de uma beleza estética mas sim de uma beleza poética.

Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.

Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.

Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível.

Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem a lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.

O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece. Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante ao corpo de Orpheu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa. É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética I foi publicado pela primeira vez na revista Távola Redonda, Dezembro 1962.
Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em Geografia, 1967.
(daqui)

  

Pinturas de Falcão Trigoso

Falcão Trigoso, 'Laranjeiras à tarde' (Paisagem do Algarve), 1925.
Museu Nacional Grão Vasco
, Viseu, Portugal.

 

Falcão Trigoso, 'Poente Algarvio', 1913.
 
 
 
Falcão Trigoso, 'Mar do Levante' (Algarve), 1915,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC).

Descrição: Em primeiro plano uma praia e à direita rochedos, na esquerda e no centro o mar agitado, envolvendo rochedos distanciados uns dos outros. 
 


Falcão Trigoso, 'Couves e Laranjas' (Horta Algarvia),
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Descrição: Vista de um terreno agrícola com uma plantação de couves de forte cromatismo azulado, em primeiro plano, cortada por dois estreitos caminhos, vendo-se no centro um grupo de figuras no qual destaca uma camponesa de lenço e de enxada às costas, ladeada por duas laranjeiras. 
 


Falcão Trigoso, 'Azeite e Pão', Século XX,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Descrição: Paisagem com um campo de trigo em primeiro e no fundo um conjunto de oliveiras, à esquerda, e algum casario miúdo, à direita. Motivo tirado de um montado alentejano.



Falcão Trigoso, 'Crisântemos', 1913,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Descrição: Em primeiro plano um canto de um jardim repleto de coroas de crisântemos de variadas cores, em brancos, amarelos e carmins. Pintado com evidente gozo plástico pelas cores vivas e estridentes, naturalizadas por um pincel que nas primeiras décadas do século estava na 1ª linha dos que se empenhavam em mostrar a vitalidade e utilidade do Naturalismo no séc. XX. 
 
 
 
Falcão Trigoso, 'Paisagem', Óleo sobre madeira.
 
 
 
Falcão Trigoso, 'Paisagem', Óleo sobre tela.

 
Falcão Trigoso, 'Aldeia Rural', 1917, Óleo sobre madeira.



Falcão Trigoso (1879-1956)

Pintor português, João Maria de Jesus de Mello Falcão Trigoso nasceu a 4 de março de 1879, em Lisboa, Campo Grande.
A sua tendência artística mostrou a bem cedo quando aos 7 anos recebeu do seu avô a sua primeira paleta. Conservou a toda a sua vida, servindo se dela para iniciar cada trabalho como homenagem ao seu avô.
Em 1897 matriculou se no Curso de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa, licenciando se em 1902. Dois anos antes tinha formado, com António Saúde e Alves Cardoso, o grupo Sociedade Silva Porto. Em 1905, foi nomeado Diretor da Escola Técnica Vitorino Damásio em Lagos. Mas em 1924 voltou a Lisboa para trabalhar como Diretor da Escola de Arte Aplicada e dez anos depois passou a dirigir a Escola António Arroio cessando as suas funções aos 70 anos (1948).
Falcão Trigoso foi um pintor que privilegiou sempre a paisagem em detrimento da figura. Expôs pela primeira vez em 1921, no Porto e, novamente, em 1924 no Salão Silva Porto. Em fevereiro de 1927 realizou se a primeira exposição do Grupo Silva Porto na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Nunca parou de trabalhar, expondo durante toda a sua vida, mesmo quando já estava bastante enfraquecido, depois de ter sido submetido a uma operação, em 1955. Em outubro de 1956 sofreu uma trombose, acabando por falecer em 22 de dezembro desse mesmo ano.
 (daqui)

domingo, 26 de abril de 2026

"Quando penso sobre mim mesma" - Poema de Maya Angelou



Winslow Homer, 'Sunday Morning in Virginia', oil on canvas, 1877.
Cincinnati Art Museum  

Quando penso sobre mim mesma

 
 
Quando penso sobre mim mesma,
Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que anda,
Uma canção que fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo “Sim, senhora” por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.
 
 
Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020.