sexta-feira, 22 de maio de 2026

"Arte Poética IV" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen



William-Adolphe Bouguereau (Peintre français, 1825-1905),
"L'Art et la Littérature", 1867, Arnot Art Museum, New York.


Arte Poética IV


Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema.» A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e noto.

É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir.

Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador. É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.

Sei que o poema aparece, emerge e é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração. O meu esforço é para conseguir ouvir o «poema todo» e não apenas um fragmento. Para ouvir o «poema todo» é necessário que a atenção não se quebre ou atenue e que eu própria não intervenha. É preciso que eu deixe o poema dizer-se. Sei que quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho, a minha aplicação não conseguem continuá-lo.

Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece como já feito? A esse «como, onde e quem» os antigos chamavam Musa. É possível dar-lhe outros nomes e alguns lhe chamarão o subconsciente, um subconsciente acumulado, enrolado sobre si próprio como um filme que de repente, movido por qualquer estimulo, se projeta na consciência como num écran. Por mim, é-me difícil nomear aquilo que não distingo bem. É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível — como a película de um filme — ao ser e ao aparecer das coisas. E a partir de uma obstinada paixão por esse ser e esse aparecer.

Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado (que ora é mais nítido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.

Assim algumas vezes o poema aparece desarrumado, desordenado, numa sucessão incoerente de versos e imagens. Então faço uma espécie de montagem em que geralmente mudo não os versos mas a sua ordem. Mas esta intervenção não é propriamente «inter-vir» pois só toco no poema depois de ele se ter dito até ao fim. Se toco a meio o poema nas minhas mãos desagrega-se. O poema «Crepúsculo dos Deuses» (Geografia) é um exemplo desta maneira de escrever. É uma montagem feita com um texto caótico que arrumei: ordenei os versos e acrescentei no final uma citação de um texto histórico sobre Juliano, o Apóstata.

Algumas vezes surge não um poema mas um desejo de escrever, um «estado de escrita». Há uma aguda sensação de plasticidade e um vazio, como num palco antes de entrar a bailarina. E há uma espécie de jogo com o desconhecido, o «in-dito», a possibilidade. O branco do papel torna-se hipnótico. Exemplo dessa maneira de escrever, texto que diz esta maneira de escrever, é o poema de Coral:

Que poema, de entre todos os poemas,
Página em branco?

Outra ainda é a maneira que surgiu quando escrevi O Cristo Cigano: havia uma história, um tema, anterior ao poema. Sobre esse tema escrevi vários poemas soltos que depois organizei num só poema longo.

E por três vezes me aconteceu uma outra maneira de escrever: de textos que eu escrevera em prosa surgiram poemas. Assim o poema «Fernando Pessoa» apareceu repentinamente depois de eu ter acabado de escrever uma conferência sobre Fernando Pessoa. E o poema «Maria Helena Vieira da Silva ou O Itinerário Inelutável» emergiu de um artigo sobre a obra desta pintora. E enquanto escrevi este texto para a Crítica apareceu um poema que cito por ser a forma mais concreta de dar a resposta que me é pedida:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Durante vários dias disse a mim própria: «tenho de responder a Crítica». Sabia que ia escrever e sobre que tema ia escrever. Escrevi pouco a pouco, com muitas interrupções, metade escrito num caderno, metade num bloco, riscando e emendando para trás e para a frente, num artesanato muito laborioso, perdida em pausas e descontinuidades. E através das pausas o poema surgiu, passou através da prosa, apareceu na folha direita do caderno que estava vazia.

Ninguém me tinha pedido um poema, eu própria não o tinha pedido a mim própria e não sabia que o ia escrever. Direi que o poema falou quando eu me calei e se escreveu quando parei de escrever. Ao tentar escrever um texto em prosa sobre a minha maneira de escrever «invoquei» essa maneira de escrever para a «ver» e assim a poder descrever. Mas, quando «vi», aquilo que me apareceu foi um poema.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual", 1ª edição, 1972  (daqui) 

 

"Mar Bravo" - Poema de Manuel Bandeira



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
 'The Gulf Stream', 1899, Metropolitan Museum of Art.
 
 
Mar Bravo


Mar que ouvi sempre cantar murmúrios
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz de minhas melancolias:

Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!

Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondas que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amarugem!

As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!

Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.

Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfémias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
De corrompidas desesperanças!…

1913


Manuel Bandeira (1886–1968), in 'O Ritmo Dissoluto', 1924;
in 'Antologia Poética'
 (nova edição), Editora Nova Fronteira, 2001.
 

Pinturas de Winslow Homer

Winslow Homer, 'Breezing Up (A Fair Wind)', oil on canvas, 1873–76, oil on canvas,
National Gallery of Art, Washington, D.C., USA.



 

Winslow Homer, 'Shark Fishing', 1885, Private collection.



Winslow Homer, 'The Herring Net', 1885, Art Institute of Chicago.

[Long inspired by the sea, Winslow Homer spent time in 1881 in a fishing community in Tynemouth, England. The experience fundamentally changed his life and work. His paintings thereafter focused almost exclusively on humankind’s age-old contest with nature. In The Herring Net, executed in Prouts Neck, Maine, Homer depicted the heroic efforts of fishermen at their daily work. In a small dory, one figure hauls in glistening herring, while the other, possibly a boy, unloads the catch. Laboring far from the schooners on the horizon, the pair strives to steady the precarious boat as it rides the incoming swells.] (daqui)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Uma tarde que cai" - Poema Luci Collin



Horace Pippin (American painter, 1888–1946), The Park Bench
(Man on a bench)
, 1946.


Uma tarde que cai 


Quando o vemos está sentado no banco da praça
Ela está em casa presa à trama silenciosa

Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos

Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga

Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos

Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta

Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água

São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos

Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco

Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia

Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima

Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples

A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima

Ele se ofende
Ela se ofélia


Luci Collin (n. 1964), in "Querer falar",
7 Letras, 2014.
 
 

"Encantamento" - Poema de Teixeira de Pascoaes



Jean Metzinger (French painter, theorist, writer, critic and poet, 1883–1956),
'Femme au Chapeau' or 'Lucie au chapeau' (Woman with a Hat), c. 1906,
oil on canvas, 44.8 x 36.8 cm, Korban Art Foundation.



Encantamento


Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua doce e angélica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlevo perfeito e graça pura!

E à força de sorrir, de me encantar,
Diante de ti, mimosa Criatura,
Suavemente sentia-me apagar…
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocência! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

E até meu próprio espírito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!


Teixeira de Pascoaes (1877–1952),
 in 'Elegias', 1912.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Gato ao Crepúsculo" - Poema de Millôr Fernandes



Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), 'The Stroll', 1978,
Smithsonian American Art Museum.
 

Gato ao Crepúsculo
 
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão


Gato manso, branco,
Vadia pela casa,
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado,
Feroz se o irritam,
Suficiente na caça à alimentação. 

Gato preto, pressago,
Surgindo inesperado
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite,
Enquanto no céu os aviões
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde,
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos
Enquanto, junto ao muro do quintal,
Os gatos todos vão ficando pardos.

14/6/1959

Millôr Fernandes
 (1923
2012)
in "Essa cara não me é estranha e outros poemas".
 1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.
 

"Biografia" - Poema de Carlos Nejar

 


Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
1973), 'Distância', 1928.


Biografia

I

Não tive biografia
mas metáforas
Manga na praça
foi a infância

A alma dividida
de nascença
Com ela o mundo
arfava em cada coisa

O mar inchava
o Sol de maresia
Inchava na palavra
e as velas iam

Vivi sofri – eis tudo
e o vivido
arrasta o barco
pelo mar que é findo

II

A biografia
se instaurou
sem mim

Alguém a foi
vivendo
sem sabê-lo

Alguém deitou
no sono
em que acordei

Alguém
no meu lugar
foi biografado

III

Como se esperasse
de outra imagem

e música tornasse
ao bandolim

E nunca mais parasse
era voragem

alguém desvencilhava-se
de mim


Carlos Nejar (n. 1939)
in 'Um País o Coração', 1980.
 
 

Tarsila do Amaral, 'Cidade', 1929


“Sempre considerei as ações dos homens como as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”


John Locke (Filósofo inglês, conhecido como o "pai do liberalismo", 16321704)
 

terça-feira, 19 de maio de 2026

"A escada da vida" - Poema de Eugénio de Castro

 

Guillaume Seignac (French painter, 1870-1929), 'The red rose', 1924
 
 
A escada da vida
 
 
Encontrou-se a Caridade
Com o Orgulho, certo dia:
Subia o orgulho uma escada,
E a Caridade descia.

Ela humilde, ele arrogante,
No patamar dessa escada
Os dois, cruzando-se, viram
Uma rosinha pisada.

Emproado, o Orgulho, vendo-a,
Deu-lhe nova pisadela;
De joelhos, a Caridade
Deitou-se aos beijos a ela.

Mas nobres passos se ouviram
De som divino e tremendo:
O Orgulho seguiu subindo,
E a Caridade descendo...

E a voz de Deus, entretanto,
Disse, bramindo e sorrindo,
– «Tu, que sobes, vais descendo!»
– «Tu, que desces, vais subindo!»


Eugénio de Castro
in "Cravos de papel", 1922.