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Ernest Hébert (Peintre français, 1817-1908), "Ophélie aux liserons", 1876,
Huile sur toile, Paris, Musée d'Orsay.
Ofélia
(Tradução de Maria Gabriela Llansol)
I
Sobre a onda serena e negra onde dormem as estrelas
A branca Ofélia flutua como um lírio imenso, flutua
Quase impercetível, recostada nos seus grandes véus...
— Ouvem-se nos bosques distantes clamores de rendição.
Eis que há mais de mil anos a triste Ofélia
Passa, espectro branco, vogante sobre o negro rio,
Há mais de mil anos, eis o seu doce desvario
Sussurrando à brisa do entardecer seu novelo de amor.
O vento beija-lhe os seios e desdobra em corola
Seus grandes véus molemente afagados pelas águas;
Os salgueiros frementes choram sobre seu ombro,
Sobre a sua imensa fronte de sonho inclinam-se os juncos.
Os nenúfares pisados suspiram à volta de Ofélia;
Por vezes, ela acorda, num amieiro que dorme,
Um ou outro ninho, donde se escapa, breve, uma asa trémula:
— Um cântico misterioso cai dos astros d'ouro.
II
Ó pálida Ofélia!, bela como a neve bela!
Sim, tu morreste, infanta, levada por um rio!
— É porque os ventos que descem dos grandes montes da Noruega
Te haviam falado ao ouvido da áspera liberdade!
É porque um sopro-brisa, emaranhado na tua imensa cabeleira,
Ao teu espírito sonhante levava estranhos rumores;
O teu coração escutava o cântico da Natura
Na árvore das dores e nos suspiros das noites;
É porque a voz dos loucos mares, imenso estertor-ruído,
Quebrava teu peito de infanta, humano de mais, demasiado doce.
É porque, numa manhã de Abril, um belo cavaleiro pálido,
Um pobre louco, nos teus joelhos se sentou mudo!
Céu!, amor!, liberdade! Que sonho, ó pobre louca!
Tu te fundavas nele, neve no fogo fundida:
Tuas grandes visões estrangulavam-te a palavra
— E o Infinito implacável assombrou teu olhar azul!
III
— E o Poeta diz que os raios estelares
Vens tu buscar, de noite, as flores que hás colhido;
E que viu sobre as águas, reclinada nos seus longos véus,
A branca Ofélia a flutuar — tal um lírio imenso.
15 de Maio de 1870
Arthur Rimbaud,
in O Rapaz Raro — Iluminações e Poemas.
Tradução de Maria Gabriela Llansol,
Relógio D'Água, 1998, pp. 139-141.
O Rapaz Raro - Iluminações e Poemas de Arthur Rimbaud,
Tradução de Maria Gabriela Llansol, Relógio D'Água, 1998.
"Um homem deve ler segundo o que as suas inclinações o conduzem;
porque o que ler como tarefa pouco bem lhe fará."
Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791.
Ofélia
(Tradução de Jorge Wanderley)
I
Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça…
Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.
Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.
Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um voo incerto…
– De astros dourados desce um canto misterioso…
II
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
– É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;
– É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.
– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
– E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.
E aí o céu, o amor: – que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!
III
– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.
Arthur Rimbaud
Tradução de Jorge Wanderley

Paul Steck (Peintre, compositeur, librettiste et fonctionnaire français,
1866-1924), "Ophélie", 1894-1895, Paris, Petit Palais.
Ophélie
I
Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois lointains des hallalis.
Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir;
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir.
Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.
Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
– Un chant mystérieux tombe des astres d’or.
II
Ô pâle Ophélia! belle comme la neige!
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!
– C’est que les vents tombant des grands monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté;
C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
A ton esprit rêveur portait d’étranges bruits;
Que ton cœur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits;
C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux!
Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre folle!
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
– Et l’infini terrible effara ton oeil bleu!
III
– Et le poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis,
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys.
Arthur Rimbaud, in "Cahier de Douai"
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