quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Deves ser pontual" - Poema de José Jorge Letria


Charles West Cope (English painter, 1811–1890), 'Girl with Slate', n.d.


Deves ser pontual 


Não penses que o relógio
gosta de se atrasar
só porque tu de manhã
te enroscas a dormitar.

Os outros não faças esperar
pois é falta de respeito
e pela tua vida fora
há de tornar-se um defeito.

Com um esforço pequenino
horários hás de cumprir
e se fores tu a esperar
mais forte te hás de sentir.

Verás que não custa nada
tornares-te pontual;
se tens encontro marcado,
ser cumpridor é normal.

E bem podes acreditar,
com o passar da idade,
que se tornou uma virtude
essa pontualidade. 

 
José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

"A História da Menina do Capuchinho Vermelho" - Poema de Roald Dahl


 
Jessie Willcox Smith
(American illustrator, 1863–1935), 'Little Red Riding Hood
in 'A Child's Book of Stories' by Penrhyn Wingfield Coussens, 1911.


A Menina do Capuchinho Vermelho

 
«Como estou farto de fazer de bobo!»
Disse, cheio de fome, o senhor lobo.
«Há quatro dias que não trinco osso,
A avozinha vai ser o meu almoço.»
Quando a avozinha lhe abriu a porta
Com o susto tremeu e, meia morta,
Fitou aqueles dentes a brilhar.
 «Ai, que o malvado me quer devorar!»
A pobre senhora tinha razão
Porque ele a comeu com sofreguidão.
A avozinha era pequena e dura,
O almoço não foi uma fartura.
 «Ai, estou com uma fome aterradora,
Pronto para comer outra senhora.»

Foi procurar petiscos na cozinha
Mas nada para roer o bicho tinha.
«Vou-me sentar no colchão de folhelho
À espera do Capuchinho Vermelho.»
Disse o lobo enquanto se vestia
Com as roupas que por ali havia.
Saia de seda, botas de verniz,
Chapéu de veludo foi o que quis.
Escovou o pelo, as garras pintou,
Bem disfarçado assim se sentou.
Um pouco depois, em passo apressado,
A moça chegou, toda de encarnado.

«Ó minha avozinha, quero saber,
As tuas orelhas estão a crescer?»
«Sim, minha neta, para melhor te ouvir.»
«Que grandes olhos tens, querida avó»,
Disse a menina cheia de dó.
«São para melhor te ver», disse o lobo
E pôs-se a pensar: «Não sou nenhum bobo,
Esta bela menina vou papar,
Que bom petisco para o meu jantar.
Vai saber-me que nem um pão de ló,
Não é velha nem dura como a avó.»
«Mas avozinha», disse a menina,
Tens um casaco de pele tão fina.»
«Não», disse o lobo, «Deves perguntar
por que são meus dentes de espantar.
Bem, digas tu o que disseres
Como-te sem prato nem talheres.»
A menina sorriu. Da camisola
Sacou de imediato uma pistola
E com uma certeira pontaria
Pum, pum, pum, aquele lobo morria.

Passaram os dias, passou um mês,
Vi a menina no bosque outra vez,
Mas sem o capuz, sem capa encarnada,
Toda diferente, toda mudada.
Sorrindo me explicou: «Daquele bobo
Fiz este casaco de pele de lobo».


Roald Dahl (1916–1990),
in 'Histórias em verso para meninos perversos' 
Trad. de Luísa Ducla Soares
 
 

'Histórias em verso para meninos perversos'
de Roald Dahl; Ilustração de Quentin Blake;
Tradução de Luísa Ducla Soares.
Editor: Editorial Teorema, 2009.
 

SINOPSE

Seis histórias que toda a gente conhece, recriadas pelo irreverente e corrosivo humor de Roald Dahl e magnificamente ilustradas por Quentin Blake, numa ótima tradução de Luísa Ducla Soares. Contém as seguintes histórias contadas de forma "alternativa":

- Gata Borralheira
- João e o pé de feijão
- Branca de Neve
- Cabelinhos de Ouro
- Capuchinho Vermelho
- 3 Porquinhos

«Pensam vocês que sabem esta história?
Mas a que têm na vossa memória
É só uma versão falsificada,
Rosada, tonta e açucarada
Feita para as crianças inocentes
Não terem medo, Ficarem contentes.»

(daqui)


 
Roald Dahl em 1954

Escritor britânico, Roald Dahl nasceu a 13 de setembro de 1916, em Llandaff, no País de Gales. Oriundo de uma família de comerciantes noruegueses, o pai faleceu quando tinha apenas quatro anos. Para que tivesse uma boa educação, a mãe vendeu as suas joias a fim de o enviar para um colégio particular em Derbyshire, que o marcou pela brutalidade instituída.
Concluídos os seus estudos aos dezoito anos de idade, preferiu juntar-se a uma expedição pesqueira à Terra Nova em vez de prosseguir para a universidade. Regressando a Inglaterra, começou a trabalhar em 1933 nos escritórios de Londres de uma conceituada companhia petrolífera europeia, sendo destacado para a Tanzânia em 1937.
Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, alistou-se na Real Força Aérea, voando em missões sobre a Grécia, sobre a Síria (onde ficou ferido) e a Líbia (onde fraturou o crânio após a sua aeronave ter sido abatida). Em convalescença do seu traumatismo, terá tido sonhos estranhos cuja recordação procurou anotar. Assim, instigado por C. S. Forester, publicou o seu primeiro conto A Piece Of Cake, no Saturday Evening Post.
Em 1942 foi destacado para Washington como adido de aeronáutica para o Serviço de Segurança Britânico, sendo promovido a comandante de esquadrão no ano seguinte. Nesse mesmo ano de 1943 publicou o seu primeiro livro infantil, The Gremlins, destinado a servir de argumento a um filme para os estúdios de Walt Disney.
Em 1954 publicou Someone Like You (1953), uma compilação de contos que constituiu um sucesso de vendas considerável, repetido com o aparecimento de Kiss, Kiss (1959). Grande número de contos de ambas as obras foi adaptado para televisão, nomeadamente para a famosa série Alfred Hitchcock Presents.
Regressou à literatura infantil em 1961 com James And The Giant Peach, a que se seguiu Charlie And The Chocolat Factory (1964). Não obstante, revelou-se um escritor de cunho sólido mas bem-humorado com o aparecimento de My Uncle Oswald (1979), o seu primeiro romance, em que conta a história de um jovem aventureiro que descobre em terras de África um misterioso pó que lhe concede o dom infalível de seduzir o sexo oposto.
Galardoado com vários prémios literários de renome, Roald Dahl faleceu a 23 de novembro de 1990, em Oxford. (daqui)
 

terça-feira, 2 de junho de 2026

"A criança que pensa em fadas" - Poema de Alberto Caeiro



Lewis Jesse Bridgman (American engraver, illustrator and writer,
1857–1931), 'The Little People of the Garden', 1922.


A criança que pensa em fadas


A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

1-10-1917


Alberto Caeiro, "Poemas Inconjuntos",
Poemas Completos de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa.
(Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.)
Lisboa: Presença, 1994.
 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Esse pequeno mundo" - Poema de Pedro Bandeira



Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist, painter, illustrator and comic strip author,
 1914–2001), "Summer, spring, autumn" (Seasons), 1984 (detail). (daqui)
 
[In 1984, Tove Jansson painted her last monumental work for the kindergarten Taikurinhattu (“Hobgoblin’s Hat”) in Pori, Finland. In the three-part wall painting, the Moomins wander through spring, summer and autumn in Moominvalley.]

 
Esse pequeno mundo


Sei que o mundo é mais que a casa,
Mais que a rua, mais que a escola,
Mais que a mãe e mais que o pai.

Vai além do horizonte,
Que eu desenhei no caderno,
Como linha reta e preta,
Que separa azul de verde.

Sei que é muito, sei que é grande,
Sei que é cheio, sei que é vasto.

Me disseram que é uma bola,
Que flutua pelo espaço,
Atirada pelo espaço,
Atirada pelo chute
De um gigante poderoso;
Vai direto para um gol,
Que ninguém sabe onde é.

Mas para mim o que mais conta
É este mundo que eu conheço
E que cabe direitinho
Bem debaixo do meu pé.


Pedro Bandeira,
em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna, 1984.

 
Tove Jansson, "Summer, spring, autumn" (Seasons), 1984 (detail). (daqui)

[The central image of the three-part painting, in which Too-ticky is washing the bathing hut, tells, according to Jansson, of “a moment in spring when the darkness and coldness subside”.]
 
 
Meu desenho


Com meus lápis de cor,
desenhei um passarinho.
Ele ficou tão perfeito
que até voou pro ninho.


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna
 
 
Tove Jansson, "Summer, spring, autumn" (Seasons), 1984 (detail). (daqui)
 

Por enquanto eu sou pequeno


Por enquanto sou pequeno,
mas vou aprender a ler:
já sei ler palavra inteira,
leio pra cima, e pra baixo,
e plantando bananeira!

Por enquanto sou pequeno,
uma coisa vou dizer,
com certeza e alegria:
sei que nunca vou esquecer
da beleza da poesia!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna
 
 ♥♥♥ 
 
 
Ilustração - Getty Images (illMad
 

Dia da Criança 

Portugal celebra o Dia das Criança em 1 de junho. No Brasil é celebrado em 12 de outubro. Outros países celebram este dia em 20 de novembro, data escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) por ser o aniversário da aprovação da Declaração dos Direitos das Crianças (1959) e a Convenção dos Direitos das Crianças (1989).
As datas da comemoração podem variar, mas o objetivo é o mesmo: promover os direitos e o bem-estar de todas as crianças, onde quer que estejam.
 (daqui)
 

domingo, 31 de maio de 2026

"Irmão" - Poema de Bráulio Bessa

 

Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "The Barbershop"


Irmão

 
Já que Deus me fez poeta,
um fazedor de poesia,
sigo a vida versejando
é essa minha alegria.
Ajuntando pensamentos,
misturando sentimentos,
falando com o coração!
Tô aqui mais uma vez,
hoje trago pra vocês
um cordel sobre o irmão.

Briguento e melhor amigo,
protegido e protetor.
Juntamos as alegrias,
dividimos cada dor
desde os tempos de criança,
guardamos cada lembrança
no fundo do coração.
Na vida tem muito ex
mas eu garanto a vocês
não existe ex-irmão.

Irmãos foi por que Deus quis,
amigos por que queremos.
Um dia nós ensinamos
os outros dias aprendemos
que o sangue é indiferente
quando a vida dá pra gente
um sentimento sagrado,
que nem é meu, nem é seu,
amor é coisa de Deus
a gente só pega emprestado.
 

Bráulio Bessa
"Poesia com Rapadura"
(Poeta, cordelista, declamador e palestrante brasileiro, n. 1985) 
 
 
Obras de Morgan Weistling
 
Morgan Weistling, "Sisters"
 

  
Morgan Weistling, "Sister Stories"


 
Morgan Weistling, "The Sleepover"
 

 
 Morgan Weistling, "The Country Doctor", 2013.
 

Morgan Weistling, "A Helping Hand"
 
 
 
Morgan Weistling, "Dressmaker's shop - 1886"
 

  
Morgan Weistling, "Family Traditions"
 
 
 
Morgan Weistling, "Indian Stories"
 

Dia dos Irmãos

O Dia dos Irmãos é uma data comemorativa em que se homenageia, agradece e festeja os irmãos. Tem vocação universal, sendo uma festa semelhante ao Dia do Pai, ao Dia da Mãe ou ao Dia dos Avós. Procura assinalar o espírito destacado na deliberação instituidora: «o que vivemos entre irmãos é único, irrepetível, molda a nossa vida para sempre.» 
 
É celebrado um pouco por todo o mundo em diferentes datas.
Na Europa, o Dia dos Irmãos celebra-se a 31 de maio, conforme foi instituído por deliberação da Assembleia Geral da Confederação Europeia das Famílias Numerosas (ELFAC) em 18 de setembro de 2014. 
A data de 31 de maio foi escolhida por anteceder o Dia das Crianças (1 de junho) e ser o último dia do mês de maio, associado a celebrações familiares como o Dia da Mãe (em Portugal, no primeiro domingo de maio.) 
 
No Brasil, a escolha do dia 5 de setembro surgiu por iniciativa da Igreja Católica, homenageando o aniversário da morte da missionária Madre Teresa de Calcutá (1910
1997), a partir de 2007 – data em que passaram 10 anos sobre a sua morte. No contexto religioso, o sentido da palavra "irmão" está ligada ao "próximo". (daqui)
 

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 18721931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (19011964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui) 
 

sábado, 30 de maio de 2026

"Minibiografia" - Poema de Luiza Neto Jorge

 

 
Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
 founder of Cubism, 1881–1953), 'Woman with animals' (La dame aux bêtes) 
Madame Raymond Duchamp-Villon, 1914, oil on canvas, 196.4 x 114.1 cm,
 Peggy Guggenheim Collection.


Minibiografia


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge (1939–1989),
in 'A Lume', 1989.