sábado, 12 de setembro de 2026

"Desaparecido" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro

 


Ryan Mutter
 (Scottish artist, b. 1978), 'Crail', 2021.
Oil on Canvas, 50 × 40 cm, Private Collection.


Desaparecido


Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapareceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
— Livre o instinto, em vez de coagido,
"De casa de seus pais desapareceu..."
Eu, o feliz desaparecido! 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), 
in 'Desaparecido', 1935



Desaparecido: poemas de Carlos Queiroz, 1935.
Contém dedicatória autógrafa a Fernando Pessoa 
datado de 31-10-1935 oferecendo propositadamente
o exemplar com o nº 13.
 (daqui)


Sobre Desaparecido, de Carlos Queiroz
por Fernando Pessoa


A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora: os poemas são admiráveis.
Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: — que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização. Cumpriu, sem ter prometido, sem ter tido que prometer. 
Assim se deveria fazer sempre, ou quase sempre. Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte. Não escrevia Milton um soneto sem que o fizesse como se desse soneto dependesse toda a sua fama futura.
E que prazer o de se poder escrever isto sem que a amizade que tenho pelo poeta, que é muita, uma só palavra me dite; sem o que o gosto de incitar quem é jovem, e tenho esse gosto, me faça sublinhar uma só frase; de poder escrever isto sem mais entendimentos que com a justiça, sem mais combinações que com a verdade.

1935

Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980. 
1ª publ. in Revista de Portugal, nº 2. Coimbra: Jan. 1938
.

 


Ryan Mutter (Scottish artist, b. 1978), 'Dockland Life'.
Oil on Canvas, 
 60 × 60 cm, Private Collection.
 

"O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação."
 [Escritor, poeta e dramaturgo irlandês, 1854–1900]
 
 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Brincávamos a cair nos braços um do outro" - Poema de Valter Hugo Mãe



Félix Vallotton (Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),

"The Lie" ("Le Mensonge"), 1898. Baltimore Museum of Art 
(Cloisonnism)

brincávamos a cair nos braços um do outro


brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as atrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade


Valter Hugo Mãe, in 'contabilidade', 2010



Félix Vallotton
(Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),
"Intimacy" or "Interior with Couple and Screen", 1898 (Cloisonnism),
Private collection



Cloisonnisme

O Cloisonnisme é um estilo da pintura pós-impressionista caracterizado por cores lisas delimitadas por contornos escuros. O termo foi utilizado pelo crítico Édouard Dujardin por ocasião do Salão dos Independentes em Março de 1888. Os artistas Émile Bernard, Louis Anquetin, Paul Gauguin, Paul Sérusier, e outros, começaram a pintar com este estilo no final do século XIX. O nome remete para a técnica de cloisonné, onde arames (cloisons ou "compartimentos") são soldados ao corpo da peça, enchidos com pó de vidro e, em seguida, colocados no meio de chamas a altas temperaturas, numa técnica semelhante ao do vitral. Muitos daqueles pintores descrevem os seus trabalhos como sintetismo, um movimento com algumas semelhanças.

No O Cristo Amarelo (1889), muito citado como o melhor exemplo de cloisonnisme, Gauguin reduz a imagem a áreas de uma única cor separadas por linhas escuras muito carregadas. Nestes trabalhos, ele deixa de lado a perspetiva clássica, e elimina as transições de cores (as gradações cromáticas como o degradê ou as técnicas de sensação de volume como o sfumato) — duas das principais características da pintura pós-renascentista.

Uma forte influência na técnica de representação usada (não nos temas representados mas na forma de pintar) foram as estampas japonesas Ukiyo-e que cativaram a sociedade francesa daquela altura pela sua novidade, no chamado japonismo. Escreveu Paul Gauguin:

"Olhe para os excelentes artistas japoneses, e verá a vida retratada no ar livre e ao sol sem sombras, a cor a ser usada apenas como combinação de tons, diversas harmonias, dando a impressão de calor etc."

A separação das cores no cloisonnisme, reflete um desejo de descontinuidade que é uma característica do modernismo. (daqui)
 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Anatomia do gato" - Poema de Francisco Carvalho



Clement Burlison
(English painter, 1815–1899), 'White Cat', n.d.
Oil on canvas, 76.5 x 64 cm, private collection.


Anatomia do gato


À luz do recato
é o novelo de fios de lã de ovelha
com que Penélope teceu a túnica de Ulisses.
Seu fino olfato capta fragmentos
de aromas dos astros e orquídeas da insónia.
Parece uma brisa que veio dos campos de centeio.

O gato e sua pompa de arauto
cabem num sapato.
Os seus olhos de mercúrio enxergam
alfinetes no anonimato  
e a namorada que passeia no muro do sobressalto.
O gato tem sete vidas
sete maneiras de ser arguto.
Quando morre de velho, só lhe basta um minuto.


Francisco Carvalho (1927–2013),
'O Silêncio é uma Figura Geométrica', 2002. 
 
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Convite" - Poema de José Paulo Paes



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905),
A Little Coaxing (Câlinerie), 1890


Convite
 
 
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia? 
 

José Paulo Paes (1926–1998),
em "Poemas para Brincar", 1991,
Editora Ática
 


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
 
Le Livre De Prix, 1901, Private collection.


"Não há visão mais bela do que contemplar uma criança a ler."
 
Günter Grass
[Escritor, dramaturgo, poeta, intelectual e artista plástico alemão, 1927–2015]

 

domingo, 6 de setembro de 2026

"Luís, o poeta salva a nado o poema" - Poema de Almada Negreiros



Francisco José Resende
(Pintor romântico, escultor e professor de 
Belas Artes português, 1825–1893), Camões salvando "Os Lusíadas", 1867,
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa.


[Descrição: Pintura de História. Num cenário de tempestade, vê-se a figura magra a corpo inteiro do poeta Luís de Camões, tentando subir para um grande rochedo, de olhar no céu, agarrando-se com a mão esquerda numa esquina e pousando o pé esquerdo numa reentrância, tendo o outro pé esticado à frente, equilibrando-se num madeiro. Junto do peito, segura firmemente com a mão direita o manuscrito de "Os Lusíadas". No fundo, vê-se uma tábua boiando num mar revolto e o céu nublado. Composição romântica que encena um episódio mítico da vida do poeta: Camões terá salvo a sua obra-prima durante um violento naufrágio no delta do rio Mékong.] (daqui)
 
 
Luís, o poeta salva a nado o poema


Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar
muito importante
para estudar.
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d’estalar.
Mais do que a vida
há de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
– Mar ignorante
que queres roubar?
a minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há de ficar.
Estas palavras
hão de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar:
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão de gravar.
O livro é este
é este o cantar
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

Madrid, 1931

Almada Negreiros
(1893–1970)
in Obras Completas – Poesia


[Este poema "Luís, o Poeta Salva a Nado o Poema" de José de Almada Negreiros é uma homenagem intensa e simbólica a Luís de Camões, autor d’Os Lusíadas, e, mais amplamente, à ligação entre a identidade portuguesa e a sua literatura.] 

sábado, 5 de setembro de 2026

"Viver com os outros tem regras" - Poema de José Jorge Letria

 
 
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Daydreams"
 

Viver com os outros tem regras
 

Na casa em que vives
marca bem o teu lugar
e pensa que o dos outros
nunca deves ocupar.

Tens tarefas para cumprir
e delas deves dar conta;
uma coisa não se faz
só porque a queres ver pronta.

Divide bem as tarefas
que tens com os teus irmãos;
se a divisão estiver certa,
ainda vos sobram mãos.

Sobra tempo para brincar
depois do dever cumprido,
sobra tempo para sonhar
se o tempo for bem gerido.

E não deixes para amanhã
o que hoje podes fazer;
aquilo que agora adias
dar-te-á menos prazer.

Não sejas desarrumado
com roupas e com cadernos;
tarefas que tu desleixas
para outros são infernos.

Não deites pelas janelas
para depois se apanhar
o lixo que tu produzes
e que nem tentas limpar.

Viver com outros tem regras
que agora irás aprender;
se hoje sem querer as negas,
muito mal hás de crescer.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

"Os sete gatinhos" - Poema de Pedro Bandeira



Robert Braithwaite Martineau (English Victorian painter, 18261869),
'A Girl with a Cat', c. 1860



Os sete gatinhos


Bete tem sete gatinhos.
Um foi tomar leite, ficaram seis.
Bete tem seis gatinhos.
Um fugiu do cão, ficaram cinco.

Bete tem cinco gatinhos.
Um foi pegar o rato, ficaram quatro.
Bete tem quatro gatinhos.
Um foi comer mingau, ficaram três.

Bete tem três gatinhos.
Um foi ao cinema, ficaram dois.
Bete tem dois gatinhos.
Um foi tomar banho, ficou só um.

Bete tem um gatinho,
tem um gatinho só.
Bete vai dar carinho
pra ele o nome Filó.

Filó é fofo e dengoso,
gostoso de se agradar.
Nem adianta pedir,
esse ninguém vai levar!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna

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