segunda-feira, 20 de julho de 2026

"Deslumbramento" - Poema de Teixeira de Pascoaes



Albert Bierstadt (German-American painter, 1830–1902),
'Sunrise on the Matterhorn', between 1867 and 1897.
Metropolitan Museum of Art, New York City.


Deslumbramento


A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade...
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!


Teixeira de Pascoaes
(1877–1952), 
in 'Vida Etérea', 1906



Albert Bierstadt, 'Sundown at Yosemite', c. 1863, Thyssen-Bornemisza Museum


"Admiramos o mundo através do que amamos."

Alphonse de Lamartine
[Autor, poeta e estadista francês, 1790–1869]


domingo, 19 de julho de 2026

"Tempo de luta" - Poema de José Henrique dos Santos Barros

 


Jean Béraud (Peintre français, 1849–1935), 'La sortie du lycée Condorcet', 1903


Tempo de luta


No tempo em que lutámos
com espadas de pau e pistolas de dedos
nesse tempo em que sabíamos
que a mãe era o totem todo‑poderoso
que perseguia os índios e ganhava a guerra
e só nos exigia o sacrifício dos sapatos limpos
no tempo em que o mundo era uma bola alegre
igual à do futebol que o pai do João comprou
livres fomos caminhando nas ondas
até que chegámos a uma praia e ficámos
desarmados sem totem sem bola sem sacrifícios fáceis por fazer
desde então muita coisa aconteceu
por exemplo
o João foi à guerra e morreu.


J. H. Santos Barros 
(1946–1983),
in 'Alexandrina, como era – Todos os Poemas'


sábado, 18 de julho de 2026

"Havia um Menino" - Poema de Fernando Pessoa



Pál Balkay
(Hungarian painter and teacher, 1785–1846),
 'The Sister and Brother', n.d.


Havia um Menino


Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.


Fernando Pessoa (1888–1935),
in 'O Meu Tio Fernando Pessoa', de Manuela Nogueira.
Famalicão: Centro Atlântico, 2015. p. 87

[Poema dedicado ao sobrinho Luís Miguel – o Bebé –
que não queria pôr o chapéu “por causa do sol”.]


 
(daqui)



"Pedi tão pouco à vida e mesmo esse pouco a vida me negou." 


Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego' - Vol.II.
Org. e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha. Lisboa: Presença, 1990.
 
 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

"Diálogos do jardim" - Poema de Cecília Meireles



Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935), 'Her New Friend', n.d.



Diálogos do jardim


Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.

O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"

Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.

"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"

Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.

"Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"


Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...

E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"

E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.

"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"

E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce, a minha perpétua solidão.

E perguntei ao pássaro: "Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"


E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto." 
 

Cecília Meireles
(1901–1964)
in  'Dispersos'


quinta-feira, 16 de julho de 2026

"Saber dar o lugar" - Poema de José Jorge Letria


 
Real Bordalo (Artista plástico português, 19252017), O Elétrico, Lisboa.


Saber dar o lugar

 
No transporte em que viajas,
se logo encontras lugar,
é natural que te apresses
para nele te ires sentar.

É um direito que tens
e não deves recusar,
a não ser que alguém precise
ainda mais do lugar.

A grávida que está de pé
ou o senhor deficiente
precisam que te levantes
para que um deles se sente.

Podes perder o conforto
que repousa e sabe bem
mas ficas com a alegria
de ter ajudado alguém.

E é essa a recompensa
de uma boa educação;
afinal só estamos bem
se os outros também estão.

Se assim fores procedendo,
tendo sempre o outro em vista,
hás de ver que bem que sabe
não querer ser egoísta.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Não há mistério" - Poema de Hélder Macedo

 
 
Guilherme Parente (Pintor português, 1940–2025 ), 'Vem por aqui', s.d.



Não há mistério


Não há mistério
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos

não há não há mistério

e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber

há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida

por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
mas não falo já de mim nem para ti

porque não és o corpo
que reflito
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
sossega meu amor

não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.


Hélder Macedo,
in 'O Lago Bloqueado', 1977
 

 
Hélder Macedo (daqui)

Poeta, romancista e ensaísta português, Hélder Malta Macedo nasceu a 30 de novembro de 1935, em Krugersdorp, na África do Sul. Passou a infância em Moçambique e regressou a Lisboa com 12 anos, tendo mais tarde frequentado a Faculdade de Direito de Lisboa. Ainda na fase da juventude, deu os primeiros passos no domínio da ficção literária, escrevendo um romance e alguns contos que o regime ditatorial instaurado em Portugal censurou, impedindo a sua publicação - o livro foi, após a revolução de 1974, revisto pelo autor, que decidiu não o publicar. Contudo, conseguiu editar o seu primeiro livro de poemas com 21 anos de idade.
Empenhado na sua vida académica, fez uma pausa na escrita que só retomou anos mais tarde. Jovem de convicções anti-fascistas, foi perseguido pela PIDE (Polícia de Intervenção e Defesa do Estado). Aquando da campanha de Humberto Delgado, que recebeu o seu empenhamento entusiasta, não conseguiu iludir a vigilância da ditadura e foi preso.
Exilou-se em Londres em 1960, vindo a formar-se em Literatura e História. Docente do King's College, aí realizou os seus estudos de doutoramento.
Em 1991 e 1998 editou os romances Partes de África e Pedro e Paula, respetivamente, que considera serem reflexo da sua identidade, declarando que neles "há, salvo o erro, uma dicção, uma voz própria, minha?". Intelectual humanista, afirma que a sua obra narrativa, apesar de idealista, "não é de ilusões". Concretamente, Pedro e Paula, romance político e cívico, retrata o que é fundamental numa época, a época de 60, vivenciada pelo autor e caracterizada pela total ausência de liberdade e por uma guerra colonial que afetava milhares de famílias portuguesas. Por isso, afirma Hélder Macedo que esta obra "prende-se com a sua própria memória portuguesa dos anos de ditadura e guerra colonial". Reavaliando a história portuguesa de um passado muito recente, este romance constituiu um sucesso no meio editorial.
Coorganizador de Folhas de Poesia, Hélder Macedo colaborou em várias publicações, como Graal, Hidra I ou Colóquio/Letras. No domínio do ensaio, Hélder Macedo distinguiu-se com estudos de crítica literária que apresentavam perspetivas inovadoras sobre a conexão do texto literário com o horizonte mental e cultural em que foi produzido. Dessa bibliografia ensaística merecem especial destaque os conhecidos estudos Do Significado Oculto da "Menina e Moça" (prémio da Academia de Ciências de Lisboa) e Camões e a Viagem Iniciática, onde o privilégio de uma interpretação esotérica permitiu a explanação de um sentido novo para textos clássicos da literatura portuguesa.
No domínio da poesia, Hélder Macedo, tendendo a estabelecer nexos de intertextualidade a nível de temas e formas com alguns dos seus autores de eleição, nomeadamente com Camões e Cesário Verde, ocupa pelo equilíbrio que mantém entre discursividade e formas rítmicas, entre metaforização e expressão pessoal, um lugar singular na atual poesia portuguesa.
Publicou Vícios e Virtudes (2000) e o livro Viagem de Inverno e Outros Poemas, uma coletânea da sua poesia, editada pela Editora Record, do Brasil.
Tendo vivido em Portugal entre 1975 e 1980, onde exerceu, durante um curto período, funções públicas e políticas, Hélder Macedo tornou-se professor de Literatura Portuguesa no King's College de Londres, onde se encontra a viver há anos, embora nunca abdicando da sua condição de português livre. (daqui)

terça-feira, 14 de julho de 2026

"Amor sem fruto, amor sem esperança" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Gillis van Tilborgh (Flemish painter, c.1625–c.1678), 'Village Inn', c. 1657–1659,
Hermitage Museum


Amor sem fruto, amor sem esperança


Amor sem fruto, amor sem esperança
É mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas prisões seguro.

Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes,
Corações inconstantes,
De sórdidas paixões envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Razão não põe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilhões que arrasto;
Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.

Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
,
in 'Excerto de Flérida - Idílio Pastoral'



Obras de Gillis van Tilborgh

Gillis van Tilborgh (Flemish painter, c.1625–c.1678), 'A picture gallery', c.1660–1670
 


Gillis van Tilborgh, 'Elegant Company', c. 1655–1675
 


Gillis van Tilborgh, 'Family Portrait', c.1665, Mauritshuis.
 
 

Gillis van Tilborgh, 'A Noble Family at Meal' ('Family Portrait'), c. 1665–1670,
Museum of Fine Arts, Budapest
 
 
"A nossa vida não é espiritualmente senão uma vivência perene de valores. Viver é tomar posição perante valores e integrá-los em nosso mundo, aperfeiçoando nossa personalidade na medida em que damos valor às coisas, aos outros homens e a nós mesmos. Só o homem é capaz de valores, e somente em razão do homem a realidade axiológica é possível." 

Miguel Reale, 'Filosofia do Direito'
 
[Miguel Reale (São Bento do Sapucaí, 6 de novembro de 1910 – São Paulo, 14 de abril de 2006) foi um jurista, filósofo, ensaísta, advogado, poeta, memorialista, teórico integralista e professor universitário brasileiro.] 
 


Gillis van Tilborgh, 'The Interior of a School Room', 1660


"Mestre, depois de pai, é o nome mais nobre e mais doce que um homem pode dar a outro."

Edmondo De Amicis, em "Cuore" ("Coração"), 1886