domingo, 4 de outubro de 2026

"A Liberdade o que é?" - Poema de José Jorge Letria

 

 
Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894–1978),
Young Love: Swinging, 1949, Part of the "Four Seasons" series.



A Liberdade o que é?


A liberdade
é um pássaro sem medo
a cantar dentro da boca.

A liberdade
é uma árvore
capaz de abraçar as estrelas.

A liberdade
é uma palavra límpida
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um morango a dizer ao vermelho:
"Agora quero ser verde."

A liberdade
é um livro escrito com a tinta
de que são feitos os sonhos.

A liberdade
é a língua a soltar-se
para chamar a felicidade. 

A liberdade
é a rima esvoaçante
a beijar os namorados.

A liberdade
é a palavra nova
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um livro sempre aberto
na página ainda por escrever.

A liberdade
é um quadro onde as tintas
sabem a fruta e a mar.

A liberdade
é um homem a escrever o livro
que conta o que ainda ninguém sabe.

A liberdade
é um trocadilho
para fazer rir um filho.

A liberdade
é um circo que torna livres
todos os bichos.

A liberdade
é um voz feita coro
para que todos possam cantar.

A liberdade
é uma onda imensa
a inundar a praia de gaivotas.

A liberdade
é uma letra apaixonada
por um número iluminado.

A liberdade
é um avô a gatinhar,
sem parar, atrás do neto.

A liberdade
é a poesia a matar em nós
a fome que temos de música.

A liberdade é azul
e tem meninos dentro
a sonhar e a brincar.

A liberdade
é um pequeno gesto
onde cabe tudo o resto.

A liberdade
é um ponto final
em tudo o que nos faz mal.

A liberdade
é a metade que falta
à nossa felicidade.

A liberdade
é um corvo a pintar de luz
o escuro da noite.

A liberdade
é um capitão a beijar
a alegria de um cravo.

A liberdade
é uma rua a desaguar,
ao luar, no infinito.

A liberdade
é um rio loucamente
apaixonado por uma cidade.

A liberdade
é um lágrima de súbito
transformada em diamante.

A liberdade
é ter tempo para dar
mais tempo aos outros.

A liberdade
é um menino
de todas as cores.

A liberdade
é uma andorinha
a desenhar a primavera.

A liberdade
é às vezes um verso
tão belo como o Universo.

A liberdade
é um poeta a dar nomes
aos sentimentos do mundo.

A liberdade
é um caracol
a brincar com o sol.

A liberdade
é um navio
de fio a pavio.

A liberdade
é um computador
a chorar de saudade.

A liberdade
é o dia, com fantasia,
de dar luz à noite.

A liberdade
é um comboio
a atravessar as nuvens.

A liberdade
é a última coisa
que se pode perder.

A liberdade
é o rumo que tem
a sabedoria do vento.

A liberdade
é um barco a sair
de dentro de uma garrafa.

A liberdade
é um guarda-chuva
a apanhar sol.

A liberdade
é uma borboleta
pousada no vidro dos dias.

A liberdade
é ter asas e saber
voar com elas, através das janelas.

A liberdade
é um malmequer
a perfumar a própria sombra.

A liberdade
é um poema a nascer
no meio das rosas.

A liberdade
podemos ser todos nós
com uma flor na voz.

A liberdade
é uma baía
onde mora a poesia.

A liberdade
é um desejo que nunca
ninguém conseguiu domar.

A liberdade
é um velho
para sempre criança.

A liberdade
é um vagar
que nunca teve pressa.

A liberdade
é um país sem medo
a tentar ser feliz.

A liberdade
é o sonho de uma noite
a durar a vida inteira.

A liberdade
é um peixe
com o luar nas escamas.

A liberdade
é a poesia
como pão para a boca.

A liberdade
é uma caneta a escrever, sozinha,
a própria vida.

A liberdade é
o último dos nomes
que um homem pode esquecer.

A liberdade é
a respiração de um pássaro
a confundir-de com o perfume da brisa.

A liberdade é
um lugar que não vem no mapa
e onde o vento se enamora.

A liberdade é
o nome que nos apetece dar
ao sonho quando abre portas.

A liberdade
é o nome que falta dar
àquilo que nos faz falta.

A liberdade
é um gato
apaixonado pela lua.

A liberdade é
um menino a imaginar
que é um rio a correr para o mar.

A liberdade
é uma pérola
que se transforma em pão.

A liberdade
é o rosto mais belo que alguém vê
quando deixa a escuridão para trás.


José Jorge Letria,  
"A Liberdade o que é?" 
 
 

"A Liberdade o que é?" de José Jorge Letria.
Ilustrações de Catarina França.
1ª ed. - Porto: Ambar, 2007.



SINOPSE

Compilação de textos poéticos muito breves (tercetos) subordinados a um mote comum – a definição da liberdade –, o livro de José Jorge Letria conduz o leitor numa viagem pelas diferentes formas – muitas metafóricas – de olhar e experimentar a liberdade, aqui recriada como uma maiores conquistas da Humanidade.
 

 
Norman Rockwell, "On Top of the World", also known as "Boy on Weather Vane"
or "Boy on Weathercock", 1934. Oil on canvas, 27.94 × 22.86 cm.
Cover illustration for The Saturday Evening Post, October 20, 1934.
 
 
"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres."

"When we lose the right to be different we lose the right to be free." 

Charles Evans Hughes
, citado em "Friends' intelligencer".
[Advogado, político e jurista norte-americano, 1862–1948]

sábado, 3 de outubro de 2026

"Desejar Ser – 8" - Poema de Manoel de Barros

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886–1973), A Cuca, 1923


Desejar Ser – 8


Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.


Manoel de Barros, in "Livro Sobre Nada"
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996;
in Poesia Completa, São Paulo: Leya, 2011.

 

Tarsila do Amaral, O Sapo, 1928


"A arte desafia a derrota pela sua própria existência, representando a celebração da vida, 
apesar de todas as tentativas para degradá-la e destruí-la." 
 
 Nadine Gordimer
[Escritora sul-africana, 1923–2014. Nobel de Literatura em 1991.]
 
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Olavo Bilac

 

Andrea Johnson (American artist, born 1954), 
'Bluebirds and Persimmons', 2014.


O Outono

IV

Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos, 
De tantas formas e cores! 
Irmãs! Enquanto dançamos, 
Saíram frutos das flores! 

O outono:

Sou a sazão mais rica: 
A árvore frutifica 
Durante esta estação; 
No tempo da colheita, 
A gente satisfeita 
Saúda a Criação.

Concede a Natureza 
O prémio da riqueza 
Ao bom trabalhador, 
E enche, contente e ufana, 
De júbilo a choupana 
De cada lavrador.

Vede como do galho, 
Molhado inda de orvalho, 
Maduro o fruto cai… 
Interrompendo as danças, 
Aproveitai, crianças! 
Os frutos apanhai!

 Coro das quatro estações: 

Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!


Olavo Bilac,
Outono, da série Quatro Estações,
em Poesias Infantis, 1904.



Andrea Johnson
, "Mo on Windowsill", n.d.


"Há uma quietude de outono nas cores."

"Es gibt eine Stille des Herbstes bis in die Farben hinein."


Hugo von Hofmannsthal (Escritor austríaco, 1874
–1929),
'Buch der Freunde' (Livro dos Amigos) - p. 35,
Insel-Verlag, Leipzig, 1922.



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Raridade" - Poema de José Paulo Paes

 

 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete,
1881–1941), Macaw and Sunflowers, 86.0 x 76.0 cm.


Raridade


A arara
é uma ave rara
pois o homem não para
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode
voar pelo céu.

E se o homem não para
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara. 


José Paulo Paes (1926–1998),
do livro "Olha o bicho", 1989
 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

"Cabra-cega" - Poema de Roseana Murray


 
Albert Roosenboom (Belgian painter, 1845–1893), Playing blindfold on the beach
(Jogo da cabra-cega)
, oil on panel, 30 x 40 cm, private collection.



Cabra-cega 

 
Meninos e meninas correm 
pelo pátio, 
enquanto apenas um, 
ou uma, 
com um lenço amarrado nos olhos,
as mãos esticadas como se fossem 
aprisionar o vento,
busca um corpo em movimento, 
há que tocá-lo como um instrumento.
Sempre em fuga.
Um grito é a música. 


do livro "Brinquedos e Brincadeiras", 2014
 
 

Women playing blind man's buff (Jovens brincando de cabra-cega), 1803


Jogo da cabra-cega

Este jogo popular é já um clássico de gerações, e por muitas boas razões. Além de super divertido e estimular a atenção e os sentidos, permite ser jogado por vários amigos ao mesmo tempo, sendo ideal para dias de festa. O objetivo é que um jogador com os olhos vendados consiga agarrar e identificar um dos companheiros, através do toque e dentro de um espaço previamente definido. O jogador identificado passa a ser a “Cabra Cega”, e a dinâmica repete-se. 

Benefícios 

  • Cooperação/Oposição;
  • Desenvolvimento de habilidades motoras;
  • Capacidade de reação e de atenção;
  • Orientação espacial e perceção tátil e de olfato;
  • Desenvolvimento da perceção auditiva e eficiência cognitiva;
  • Tomada de decisão.
 
Descrição

  • Jogadores: no mínimo 4/5, de preferência com idade superior a 4/5 anos. Toda a família e amigos podem participar.
  • Material: um lenço ou venda para tapar os olhos.
  • Local: deve ser jogado em espaços interiores (casa/sala) ou exteriores (quintal, jardim, etc.).
  • Como se joga: depois de se escolher um lugar apropriado, em casa (sala) ou no exterior (quintal, jardim, etc.), os jogadores posicionam-se em círculo, seguram as mãos e escolhem por sorteio ou por outra forma de indicação a “cabra-cega” que ficará ao centro com os olhos vendados. Depois de dar três voltas sobre si mesma, a “cabra-cega” tentará agarrar algum dos outros jogadores que vão cantando “cabra-cega-cabra-cega”. O grupo poderá espalhar-se para impedir que a cabra agarre alguém. Quando conseguir identificar (adivinhar) algum jogador deve dizer o nome e trocar de lugar com ele. O importante é que a cabra-cega reconheça os seus amigos de jogo pelo tato (toque e contacto físico). 
Desenvolvido por Carlos Neto (daqui) 
  

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Vem de tudo" - Poema de Ricardo Azevedo



Florence Kate Upton
(American-born British cartoonist and author,
1873–1922), Little girl with a carrot man and tomato man, 1890s;
The Vege-men's revenge, children's book illustration.

[The Vege-Men's Revenge is a children's book, written by Bertha Upton (British writer, 1849–1912)
and illustrated by his daughter, Florence Kate Upton.]


Vem de tudo


Vem de uma voz lá de dentro
Brota feito luz no chão
É casa solta no vento
É verdade? Sim e não

Vem da infância tristonha
Vem da infância contente
Vem do jovem, vem do velho
Vem de toda e qualquer gente

Pode nascer da paisagem
Lá no campo ou na cidade
Das ruas, da natureza
Das flores, da sociedade

Ou brotar dentro de um quarto
Fechado com a luz acesa
Ou talvez sair da fruta
Morta num prato na mesa

Pode fazer feito o mar:
Molhar os olhos da gente
(Quero dizer que é capaz
De emocionar, de repente)

Vem de um dia de alegria
Vem do sangue, vem do corte
Vem de uma noite vazia
Vem do amor e vem da morte

Pode ser pura mentira
Pode ser mera verdade
Pode ser só fantasia
Pode ser realidade

Vem da raiva e da revolta
Do desejo de mudança
Vem de ver tanta injustiça
Vem da luta e da esperança

Vem de uma casa engraçada
De uma pedra no caminho
Vem do galo que não tece
Manhã nenhuma sozinho

Vem de um riso de criança
Vem do espanto sobretudo
Vem do sonho que não cansa
Vem de nada e vem de tudo

Vem porque a gente sente
Vem porque a gente tenta
Vem porque a gente sonha
Vem porque a gente inventa

É flor que não existia
Joia esculpida no nada
Estrela nova no céu
Fruta boa inesperada

Cresce no fundo da gente
Sai da vida noite e dia
Vem à toa ou do trabalho
De tudo nasce a poesia


Ricardo Azevedo,  
do livro "Aula de carnaval e outros poemas",
 Ática, 2006.


domingo, 27 de setembro de 2026

"O circo do contrário" - Poema de Pedro Bandeira

 


Ilustração de Regina Shadhan


O circo do contrário


Lá no circo do contrário,
o leão pega o chicote
e obriga o domador
a pular todo sem jeito
para cima do banquinho.

Lá no circo do contrário,
tem a bola colorida
que joga os malabaristas
para cima, para o alto,
sem deixar cair nenhum.

Lá no circo do contrário,
o espetáculo é maluco,
pois de dentro da cartola
o coelho tira o mágico!

Lá no circo do contrário,
os palhaços batem palmas
pois quem faz as palhaçadas
é um menino como eu!

Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna

♥♥♥

 
Ilustração de Regina Shadhan
 
 
"É divertido fazer o impossível." 

Walt Disney, citado em "Walt Disney's Disneyland",
Martin A. Sklar - Walt Disney Productions, 1965.


 
Ilustração de Regina Shadhan


"Eu prefiro entreter e esperar que as pessoas aprendam, 
do que ensinar e esperar que as pessoas se divirtam."

Walt Disney
 
 
 
Ilustração de Regina Shadhan
 

"O riso é atemporal. A imaginação não tem idade. E os sonhos são para sempre."

Walt Disney
 
 
 
 
"Eu tento construir um tipo de felicidade que se torne permanente."
 
Walt Disney

[Walt Disney (1901–1966) foi um cineasta norte-americano, que revolucionou o cinema de animação.
Utilizou novas técnicas e inventou novas personagens. Os primeiros desenhos animados do Rato Mickey apareceram em 1928. Mais tarde surgiram as longas metragens Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Pinóquio (1940), Dumbo (1941) e Peter Pan (1953).
A Disneylândia foi fundada por Walt Disney em 1955
.] (daqui)