quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Poema de Amor" - Ruy Cinatti

 

 
François Boucher
(French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Cupids - Allegory of Poetry', 1760s.

 Poema de Amor


Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...-
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de noturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti,
in "56 poemas", 1ª ed. - A Regra do Jogo, 1981.
Reeditado: Relógio de Água, 1992.

 
"56 poemas" de Ruy Cinatti,
Relógio D'água, 1992.
 

"56 Poemas", publicado originalmente em 1981 pela editora 'A Regra do Jogo' e, posteriormente, com reedições pela 'Relógio D'Água', é uma obra fundamental de Ruy Cinatti (19151986), marcando um ponto culminante na sua produção poética. A obra apresenta uma poesia de maturidade, marcada por um forte teor lírico e confessional, com destaque para "Poema de Amor" e a sua relação com o misticismo e a vivência em Timor.
 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

"Eu não existo sem você" - Poema de Vinicius de Moraes



Sherree Valentine Daines
(British impressionist painter, b. 1956),
'Romance on the River', n. d.



Eu não existo sem você


Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
levará você de mim

Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
E todo grande amor
Só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor,
Não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com o luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer

Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

Vinicius de Moraes,
em 'Livro de letras'‎ - Página 40,
Companhia das Letras, 1991.
 
 
Maria Bethânia - "Eu não existo sem você"

Do álbum de Maria Bethânia "
Que Falta Você Me Faz", 2005.
Um tema de Tom Jobim e Vinicius de Moraes



"Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido."


Vinicius de Moraes, in 'Para uma menina com uma flor'
 

"Hoje é o dia de todos os deuses" - Poema de Helga Moreira


 
François Flameng (French painter, 1856–1923), 'Allegory of Painting'
('Allégorie de la peinture')
, c. 1875, Private collection.


Hoje é o dia de todos os deuses


Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é o dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo. 

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho género ou identificação bastante

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco. 
 
in 'Agora que falamos de morrer', 2006.
 

terça-feira, 12 de maio de 2026

"O Gato e o Dicionário" - Poema de Cassiano Ricardo

 

 
Henri Rousseau
(French post-Impressionist painter in the Naïve
or Primitive manner, 1844-1910), 'Portrait of Pierre Loti', c. 1891.
Oil on canvas, 62 x 52 cm, Kunsthaus, Zurich.
 

O Gato e o Dicionário

... tigre em miniature.
(Maurice Rollinat)

Um gato se aproxima. Está com fome.
Abandonado ao deus-dará da rua.
Daqui a pouco, uma roda que significa o universo em seu eixo, o esmagará.
Sem que nenhuma estrela ou flor se mude do lugar onde está. 

Chamo-o para junto do meu corpo.
Aqueço-o com o meu sobretudo londrino.
Os seus olhos são verdes. São mais verdes
que os da mulher que o abandonou na rua
ao passar em seu carro, como uma sereia montada num peixe. 

E como (dada a minha condição pedestre)
jamais poderia eu possuir um tigre de Bengala,
farei, deste gato mosqueado,
o meu tigre, que se conservou criança,
para enfeite do mundo, só dos homens. 

Afinal, para a pequena floresta rotativa onde moro,
me basta este minúsculo tigre, ornamental. 

Não posso ter um quadro de Van Gogh,
tenho uma cópia.
Não posso ter dois pintarroxos no ar voando
tenho um, na mão.
(Que é a infância senão a alegria de ter uma coisa por outra?) 

Não tenho as coisas do bazar de Deus,
tenho um dicionário.
Não tenho a mulher que vi na última corrida do Jóquei,
tenho a sua fotografia. 

(O segredo da vida não está em a gente
se contentar com uma coisa por outra?)
Em meu dicionário de objetos achados,
o gato é o meu tigre.

(Ah, este gato me dará sempre a ilusão de eu ser menino,
aqui,
ou caçador de tigres, na África). 


Cassiano Ricardo
 (1895-1974), 
in 'A Difícil Manhã', 1960.
 

"Rabisco na areia" - Poema de Hermann Hesse



Hermann Hesse
(German-Swiss poet, novelist and painter, 1877–1962),
"Sunflowers in Montagnola", 1927. Watercolor over pencil on paper,
Herman Hesse Museum in Montagnola, Switzerland.



Rabisco na areia


Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
– fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
– rochas, mundo estelar, joias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efémeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia. 


Hermann Hesse,
in 'Andares - Antologia Poética'.
Tradução de Geir Campos.
Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1982. 
 
 
 
"Portrait of Hermann Hesse" (1877–1962), 1905,
by Ernst Würtenberger (German painter, 1868
1934).


Em que é que o poeta crê 

Na nossa época, o poeta, no qual se encarna o tipo mais puro da humanidade dotada de uma alma, encontra-se preso a meio do caminho entre o mundo das máquinas e o mundo da atividade intelectual organizada, como num espaço sem ar, onde está condenado a sufocar, já que o poeta é precisamente representante e paladino daquelas forças e daquelas exigências do homem às quais a nossa época declarou a mais fanática das guerras.
Acusar disso a nossa época seria um disparate. Esta não é nem melhor nem pior do que as outras. Para quem consegue partilhar os seus objetivos e os seus ideais, é um paraíso; para quem, pelo contrário, tem de lhe opor resistência, é um inferno. Para nós, poetas, é, portanto, um inferno. Se quiser manter-se fiel à própria origem e à própria vocação, o poeta não pode aderir ao mundo ébrio do sucesso que se apropria da vida por intermédio da indústria e da organização, nem sequer ao mundo da intelectualidade racionalizada que hoje predomina, por exemplo, nas nossas universidades. E posto que o único dever do poeta é o de ser servo, paladino e cavaleiro da alma, na atual fase do mundo ele vê-se condenado a uma solidão e a um sofrimento que não são para todos. A Europa tem hoje muito poucos poetas e nenhum deles é destituído de um tom de tragédia, para não falar de quixotismo. Pelo contrário, o continente formiga daquela espécie de «poetas», a predileta dos leitores burgueses, que empregam o seu talento e o seu gosto na exaltação daqueles ideais e daqueles valores que figuram precisamente na agenda do burguês: hoje a guerra, amanhã o pacifismo, etc.

Mas entre aqueles que podem verdadeiramente definir-se como «poetas» não são poucos os que perecem, reduzidos ao silêncio, no espaço sem ar deste inferno. Outros, pelo contrário, carregam o sofrimento, reconhecem-se nele, submetem-se ao destino e não se revoltam quando veem que a coroa de louros que, noutros tempos, os ornava hoje se transformou numa coroa de espinhos. Para estes poetas vai o meu amor, são eles que eu honro, que amo e dos quais quero ser irmão. Nós sofremos: mas não para protestar nem para imprecar. No ar, para nós, irrespirável do mundo das máquinas e na bárbara indigência que nos oprime nós sufocamos e, no entanto, não nos separamos do todo, aceitamos o sufoco e o sofrimento como a parte que nós devemos tomar nos destinos do mundo, como a nossa missão e a nossa provação. Não acreditamos em nenhum dos ideais desta época, não naquele dos generais, nem naquele dos bolcheviques, ou dos professores, ou dos industriais. Mas nós acreditamos que o homem é imortal, que a sua imagem poderá ressurgir, curada de qualquer deformação, purificada de qualquer inferno. Não tentamos explicar a nossa época, nem melhorá-la, nem amestrá-la, procuramos sempre abrir-lhe novamente, revelando a nossa dor e os nossos sonhos, o mundo da alma. Esses sonhos são, em parte, tristes sonhos de angústia, essas imagens são, em parte, visões terrificantes; mas não podemos embelezá-las, não podemos maquilhar a verdade. Isso fazem-no, à saciedade, os «poetas» que servem para entreter os burgueses. Nós não escondemos o perigo que a alma da humanidade corre, o abismo do qual essa alma está próxima. Mas também não conseguimos esconder que acreditamos na sua imortalidade. (1929) 

Hermann Hesse (Prémio Nobel de Literatura, 1946), in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'



Hermann Hesse – 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'
Cavalo de Ferro, 2010
 

Descrição

Plano Nacional de Leitura

Literatura – Ensaio – 15-18 anos

Os livros são fonte de satisfação, de alegrias e de conhecimento, enriquecendo a nossa vida e aumentando o valor da nossa existência. Mas quantos de nós já não nos sentimos perdidos nessa floresta densa e por vezes hostil que é o mundo dos livros e da literatura? O que ler? Como en­contrar o livro que secretamente procuramos?

Hermann Hesse, escritor amado por gerações de leitores, guia-nos neste conjunto de textos fundamentais pela floresta de papel da literatura, intro­duzindo-nos à «magia do livro». Explica e ilustra com clareza o que significa encontrar um livro, acontecimento que pode ser tão ou mais impor­tante do que o encontro com outra pessoa. Ajuda-nos de forma simples e precisa no passo mais delicado e fundamental: a criação da nossa própria biblioteca. Sugere-nos livros incontornáveis e explica-nos porque deve­mos travar conhecimento com eles. Reflete de forma atualíssima sobre o universo da leitura e da escrita. (daqui)
 
 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Fala a preguiça" - Poema de Álvaro Magalhães


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970), 'Montse', 1959.



Fala a preguiça

Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim.

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.


Álvaro Magalhães
(Escritor português de livros e contos para crianças, n. 1951)



Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970)



"A preguiça morreu de sede à beira do rio, com preguiça de beber."

(Ditado popular)

"Bom dia, por favor, perdão" - Poema de José Jorge Letria

 

Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894-1978),
'Veterinarian', 1952.


Bom dia, por favor, perdão 

 
Na escada ou no elevador
se te cruzas com um vizinho
vê que não é um estranho
que te salta ao caminho.

Sorri e dá-lhe os bons-dias,
que é ato de educação,
e se o empurras sem querer
pede-lhe logo perdão.

No balcão onde te atende
sempre o mesmo senhor
diz-lhe que bolo é que queres
sem esquecer o “por favor”.

Para entrares numa sala
deves dizer “com licença”
depois de bater à porta
para anunciar a presença.

Pede desculpa se desces
a escada a três e três,
sobretudo se a pressa
te faz pisar quem não vês. 
 

José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894-1978),
'Sick Puppy', 1923.