
Alfred Lambourne (English-born American artist and author, 1850–1926),
Moonlight - Silver Lake, Cottonwood Canyon, 1880
Da Influência da Lua
Outono. O sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes de água... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!
Ao longe, os rios de águas prateadas
Por entre os verdes canaviais, esguios
São como estradas líquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!
Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos
O xaile pedem a quem vai passando...
E os seus leitos nupciais, os ninhos
As lavandiscas noivas piando, piando!
O orvalho cai do céu como unguento.
Abrem as bocas, aparando-os, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.
E o orvalho cai...e a falta de água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu sermão de lágrimas à lua!
A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui
Sobre as sementes, sobre o oceano impera,
Sobre as mulheres grávidas influi...
Ai os meus nervos, quando a lua é cheia!
Da arte novas conceções descubro
Todo me aflijo, lá fazem ideia...
Ai a ascensão da Lua em Outubro!
Tardes de Outubro! Ó tardes de novena
Outono! Mês de Maio, na Lareira!
Tardes...
Lá vem a Lua, gratiae plena
Do convento dos céus, a eterna freira!
António Nobre (1867–1900), in 'Só'
Obras de Alfred Lambourne

Alfred Lambourne, Twilight near the mouth of the Jordan, Utah, 1872

Alfred Lambourne, Hill Cumorah, 1892

Alfred Lambourne,
Temples of the Virgin River, Southern Utah, 1876
Edgar Morin,
"O Paradigma Perdido: a Natureza Humana",
Editora: Publicações Europa-América.
NOTA DO AUTOR
"Em contraste com uma antropologia que separa o homem do animal, pretende-se aqui compreender a articulação entre o biológico e o antropológico.
Em contraste com um antropologia que opõe a natureza e cultura, mostra-se aqui que a chave da cultura se encontra na nossa natureza e que a chave da nossa natureza se encontra na cultura.
Em contraste com uma antropologia que se limita unicamente às sociedades arcaicas, procura-se aqui o homem através dos seus múltiplos "nascimentos", desde as suas origens (hominização) até ao seu devir contemporâneo.
Em contraste com uma antropologia que apenas encara o
homo dito
sapiens sob os traços unidimensionais de um técnico racional, enquanto os seus predecessores, e não ele, elaboraram o utensílio, a linguagem, a cultura, demonstra-se aqui que o homem fornece ao mundo o mito, a magia, a imoderação, a desordem, e que a sua
originalidade profunda consiste em ser um animal dotado de despropósito.
Em contraste com uma antropologia que oscila entre uma unidade sem diversidade e uma diversidade sem unidade, procura-se estabelecer aqui como o princípio de unidade contém o princípio de diversidade e de evolução.
Para além do biologismo, conceção estreita e hermética da vida, e do antropologismo, conceção insular e sobrenatural do homem, propõe-se aqui uma
teoria aberta da natureza humana, baseada na ideia de auto-organização e numa lógica da complexidade. Esta teoria abre-se não só para a "lógica do vivo", mas também para os problemas fundamentais de uma política do homem."
– Edgar Morin