segunda-feira, 19 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Nuno Júdice

 


Tom Shropshire (American artist, born 1943), "Foggy Afternoon", 2017.


Outono


Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.

Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.

As folhas juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.


Nuno Júdice, in "A Noção do Poema", 1972;
in "Obra Poética 1972–1985", pág. 30,
Quetzal Editores, 1991.

 
Tom Shropshire, "Autumn Rain", 2016, acrylic on canvas.


"Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiura, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente."

Citação atribuída ao 14º Dalai Lama (Tenzin Gyatso)
 

 
Tom Shropshire,"Madison Square Park, NYC", 2021.
Acrylic on Stretched Canvas, 40.6 × 50.8 cm.
Private Collection
 

"Eu encontro esperança nos dias mais sombrios, e foco nos mais brilhantes. Eu não julgo o universo."
 
Citação atribuída ao 14º Dalai Lama (Tenzin Gyatso)

sábado, 17 de outubro de 2026

"A coragem no gesto de viver" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez


 
Paula Rego (British-Portuguese visual artist, 1935–2022), The Betrothal: Lessons;
The Shipwreck, after ‘Marriage a la Mode’ by Hogarth
, 1999



A coragem no gesto de viver


O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.

O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.

O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem, mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.

A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.

E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intacto, regressar.


Reynaldo Valinho Alvarez (1931–2021),
in 'O Solitário Gesto de Viver', 1980




Paula Rego, Meadow, 1996. Pastel on paper laid down on aluminium.


"Viver é navegar num oceano de incertezas através de arquipélagos de certezas."

Edgar Morin
 
 
 
Edgar Morin (daqui)
 

Filósofo e sociólogo francês, Edgar Morin nasceu a 8 de julho de 1921, em Paris, no seio de uma família judia proveniente de Salónica (Grécia), e morreu a 29 de maio de 2026 na sua cidade natal. 
Foi membro, durante a Resistência e no pós-guerra, do Partido Comunista Francês, do qual foi expulso por discordar da orientação oficial.

Morin acreditava que era necessário efetuar uma "revolução", mas que esta deveria ter presente a ideia de totalidade e complexidade do real. Propôs, como alternativa, o conceito de "totalidade aberta" e de "um pensamento planetário", assentes na permanente revisão e crítica dos princípios orientadores, evitando os dogmas e o pensamento único.

Também no domínio da pesquisa epistemológica, a perspetiva de Morin traduzia uma inovação. A sua reflexão nesta área incidiu sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico" de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remetia para a necessidade de encontrar um novo método, que repensasse a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmitiu a ideia de "complexidade", que caracteriza todas as esferas da atividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas.

Estas realidades (física e social), foram pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não pode ser entendido, desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspetivados numa lógica de reciprocidade.

Em síntese, Morin tinha como objetivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.

Morin publicou mais de 30 livros, ao longo da sua carreira, incluindo “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), uma obra onde se discute os desafios da educação neste novo milénio. Na esfera da comunicação, tornou-se uma referência com o livro "Cultura e Massa no Século XX: O Espírito do Tempo" (1962), em que analisa a relação entre a arte, os media e o consumo de massas. (daqui)
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

"Chão de Outono" - Poema de Ana Margarida Borges




Andrea Johnson (American artist, b. 1954), "Sienna and Mo", n.d.



Chão de Outono


Da janela
Meço o Outono
Pela cor das folhas cobrindo meu chão
E há cheiro a castanhas
E a fruta madura
Outubro é lagar
Da tua doçura.

Que mãos preciosas tecem iguarias?
Tigelas douradas perfumam as casas
Sabem a marmelo e à minha infância
Que assim vai entrando
Com as suas asas

Macio é o Outono assim temperado
De açúcar e de pau de canela
Trazendo sabores e saberes ancestrais
E as vespas à volta pousando gulosas
Como o meu olhar atrás da janela
Bebendo o milagre das cores outonais

Cedo cai a noite e a nostalgia.
Instantes tão breves. Breve a ilusão
De um cabaz de Outono
Com travo a passado
Trazendo de novo
Uma velha canção

Quando dou por mim
Os frutos do estio
São gostosas geleias
Barradas no pão

No frio do inverno
Só mesmo o calor
Da tua mão


Ana Margarida Borges


Andrea Johnson,'Morning Cloaks and Grapevines', n.d.
 

Outono 

folha seca
sobre o travesseiro
acorda borboleta
 

Alice Ruiz
, Haikai,
 do livro 'Desorientais'
 
 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

"Dicionário" - Poema de José Paulo Paes

 


Jim Daly (American painter, born 1940), 'Bedtime Story'


Dicionário

 
A
Aulas: período de interrupção das férias.

B
Berro: o som produzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.

C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.

D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.

E
Excelente: lente muito boa.

F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.

G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.

H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.

I
Isca: cavalo de Troia para peixe.

J
Janela: porta de ladrão.

L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.

M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.

N
Nuvem: algodão que chove.

O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.

P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.

Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.

R

Rei: cara que ganhou coroa.

S

Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.

T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.

U

Urgente: gente com pressa

V
Vagalume: besouro guarda-noturno.

X
Xará: um outro que sou eu.

Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.


José Paulo Paes (1926–1998),
em 'Poesias para Brincar',
Editora Ática, 1990

[De acordo com o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990),
 as letras K, W e Y passam a pertencer ao alfabeto da língua portuguesa.]
 
 

Jim Daly, 'Favorite Reader', 1987



"Creio que uma forma de felicidade é a leitura."

Jorge Luis Borges
[Escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, 1899–1986]


terça-feira, 13 de outubro de 2026

"Nos olhos" - Poema de Roseana Murray



Samuel S. Carr (American pastoral and landscape painter, 1837–1908),
Children Playing on the Beach, 1879, oil on canvas, Clark Art Institute.



Nos olhos


Tanta coisa para guardar nos olhos,
Bicho-gente-paisagem,
tanto mar e montanha
e jardim, tanto amor,
tantas cores e o mundo
que passa como da janela
de um trem,
tanta coisa para guardar
nos olhos,
que às vezes transbordam
e com suas lágrimas
de riso, alegria ou dor,
se transformam em rio.


Roseana Murray, in "Vira Virou",
Ilustrações de Mariana Massarani,
ed. Nova Fronteira


 
Samuel S. Carr, Beach scene, c. 1879, Private collection.
 

"A arte é o lugar da liberdade perfeita." 


André Suarès

[Poeta e escritor francês, 1868–1948]
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

"Ninguém sabe o que é um poema" - Poema de Ricardo Azevedo



Regina Ohlweiler
(Artista brasileira, n. 1954), O primeiro voo do pássaro azul,
óleo sobre tela, 1990.

Ninguém sabe o que é um poema


Ninguém sabe o que é um poema
Se é solução ou problema
Se pretende ser um lema
Se imita o canto da ema

Ninguém sabe o que é um poema
Se vira e mexe é esquema
Se finge ou tem um dilema
Se às vezes vai ao cinema

Ninguém sabe o que é um poema
Se morde, xinga e blasfema
Se é perfume de alfazema
Se gosta de teorema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é a seca em Borborema
Se é a praia em Ipanema
Se é a fome em Diadema

Ninguém sabe o que é um poema
Se mata como enfisema
Se prende feito uma algema
Ou se é medida extrema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é só palavra sem tema
Se é uma arte suprema
Ou se é mero estratagema.


Ricardo Azevedo,
do livro "Ninguém sabe o que é um poema",
Ática, 2005.



"Ninguém sabe o que é um poema", escrito e ilustrado
por Ricardo Azevedo. 
Ática, 2005.
 
 
SINOPSE

O livro "Ninguém sabe o que é um poema" é uma antologia de poemas. Poemas são textos inventados por poetas. Poetas são sujeitinhos inconvenientes, cheios de vontades, que adoram fazer bagunça e mudar tudo de lugar. Mal eles chegam, já vão logo enfiando o dinheiro no aquário, o peixe na carteira, pianos na planície e capim na lapela.

A fim de bagunçar de verdade, aproveitam-se da inocência das palavras: vão bolinando as mais sonsas e as obrigam a dizer coisas estranhas e imprevistas. Para tanto, valem-se não apenas do significado imediato de cada termo, mas também de seu som, seu peso, sua cor e do ritmo que muitas vezes se insinua entre duas sílabas, duas respirações. Contrariando dessa forma os hábitos e convenções, parece que eles acordam a linguagem de uma espécie de sono, enriquecendo-a com novas possibilidades de sentido.

Ricardo Azevedo
, autor deste livro, pertence a essa classe de bagunceiros que não vieram para explicar coisa alguma, mas antes para partilhar suas inquietações. Inquietações sobre a natureza e a vida na cidade, sobre o amor e a violência, o amadurecimento pessoal, o mistério que são os outros e a própria poesia.

Seus temas podem variar, assim como as formas por ele escolhidas (versos em redondilha, decassílabos, alexandrinos, versos livres, quadrinhas populares, estrofes com rima, sem rima etc.), mas em toda a parte você pode testemunhar a disposição para tratar concretamente de coisas abstratas e vagas, como ideias, sentimentos e sensações. É isso que o leva, por exemplo, a se perguntar sobre “a largura do tédio, o peso da tristeza, o limite do sonho” (“Problemas de cálculo”, p. 58), a falar da violência em termos botânicos (“Pézim de violência”, p. 43) ou a mobilizar noções da física para transfigurar uma declaração de amor (“Confissão com fissura”, p. 19).

Em suma, são mais de trinta poemas repletos de humor, lirismo e reflexão o que se oferece nas próximas páginas para deleite e espanto do leitor. E se no final “ninguém sabe o que é um poema” é porque esse é um conhecimento pessoal e intransferível, uma aventura que ninguém pode viver em nosso nome. (daqui)
 

domingo, 11 de outubro de 2026

"Meu aniversário" - Poema de Pedro Bandeira

 


Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935),
 'The Birthday Cake', c. 1891.


Meu aniversário


Hoje é meu aniversário,
é um dia sem igual!
Eu queria que hoje fosse
feriado nacional!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna


 
Victor Gabriel Gilbert, 'Birthday party preparations', n.d.


São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.


Carlos Drummond de Andrade
,
Trecho do poema "O Tempo Passa? Não Passa"
in "Amar se Aprende Amando", 1985



Victor Gabriel Gilbert, 'Precaution', n.d.


Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

15-10-1929


Álvaro de Campos
, Trecho do poema "Aniversário", 
in "Poesias de Álvaro de Campos" - Fernando Pessoa.
Lisboa: Ática, 1944

 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'Le panier des cerises', n.d.
 
 
Aniversário é uma festa
Pra te lembrar
Do que resta.


Millôr Fernandes, in "Hai-kais",
 Porto Alegre: L&PM Pocket, 2005
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