sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Não vale fazer batota" - Poema de José Jorge Letria

 


Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Country Schoolhouse - 1879", 2015.


Não vale fazer batota 


Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.
 
 
 José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 
 
Morgan Weistling"Ethan's Lantern", 2008. 


"O homem sem paciência é como uma lamparina sem óleo."

Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

"Nana mamãe" - Poema de Pedro Bandeira

 

Paul Hermann Wagner (German painter, 1852–1937),
'Consolation in Suffering', 1895. Oil on canvas.



Nana mamãe


A mamãe
não me bota mais no colo,
não bota mais,
não me embala mais o sono,
não embala mais,
não canta pra eu dormir...
não canta mais...
não bota mais,
não embala mais,
não canta mais...

Eu bem sei que já faz tempo
que ela ainda me embalava,
mas me lembro muito bem,
era assim que ela cantava:

"Dorme, dorme, filhinho,
meu anjinho inocente,
dorme, meu queridinho,
que a mamãe está contente..."

Mas o tempo passou,
passou, passou,
e a cantiga calou,
calou, calou...
e o menino foi crescendo,
crescendo, cresceu, cresceu,
mas aquela voz ficou.
ficou, ficou...

Eu agora já sou grande,
tenho quase a altura dela.
Vai chegar a minha vez
de poder cantar para ela...


Pedro Bandeira, em 'Cavalgando o Arco-íris', 
São Paulo, Moderna, 1985.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

"Gatos noturnos" - Poema de Pablo Neruda

 


Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832
1918),
'A Silver Tabby on a chair'. Oil on canvas, 54.6 x 43.8 cm.



Gatos noturnos


Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
nos olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.


Pablo Neruda (1904–1973),
 in 'O coração amarelo'.
Trad. de Olga Savary


terça-feira, 28 de julho de 2026

"Humidade" - Poema de José Henrique dos Santos Barros


 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942), 'Catinou Knitting'
(aka 'Solitude'), 1887, Brenau University Permanent Art Collection.


Humidade 


O melhor é abrir a porta minha mãe
respirar o cansaço por fora enquanto bordas
borda a borda o barco se parte todo
um mau fogo o abrasa.

Nós estamos silenciosos e húmidos.
Escuta a pulsação como doem os pulsos
pulos da infância o respirar da arca
entrar o sol ao fechá-lo dentro.


J. H. Santos Barros
, in 'A Humidade'
Lisboa, Cooperativa Semente, 1979.



 

Anna Elizabeth Klumpke
 
Anna Elizabeth Klumpke (1856–1942) foi uma pintora de retratos e cenas quotidianas americana. Ela é talvez mais conhecida por seus retratos de mulheres famosas, incluindo Rosa Bonheur (1822–1899) em 1898 e Elizabeth Cady Stanton (1815–1902) em 1889. O pai de Anna, John Gerald Klumpke, nascido na Alemanha, foi um rico e bem sucedido agente imobiliário em São Francisco. Sua mãe era Dorothea Mattilda Tolle. Anna era a mais velha de oito filhos. Entre seus irmãos estavam a astrónoma Dorothea Klumpke-Roberts, a violinista Julia Klumpke e a neurologista Augusta Déjerine-Klumpke

Quando Anna tinha três anos de idade, caiu e sofreu uma fratura de seu fémur. Ela caiu novamente aos cinco anos. Isso causou uma infeção óssea grave em seu joelho (osteomielite com artrite purulenta). Esses problemas de saúde dificultaram a sua locomoção. Sua mãe esforçou-se muito para encontrar uma cura. Ela levou Anna e três de seus irmãos para Berlim, na Alemanha, para tratamento pelo Dr. Bernhard von Langenbeck. O tratamento durou 18 meses e incluiu banhos termais em Kreuznach. Infelizmente não foi bem sucedido, e Anna permaneceu com dificuldade em andar toda a sua vida.
 
Enquanto  estavam na Europa, sua mãe garantiu que seus filhos recebessem excelente educação. O tempo na Europa tensionou a relação dos Klumpkes. Quando Anna tinha quinze anos, seus pais se divorciaram. Ela  e seus irmãos  mudaram-se com sua mãe para Gottingen, na Alemanha, onde viveram por um tempo com a irmã da mãe, que era casada com um cidadão alemão. 
 
Anna e sua irmã Augusta foram enviadas para a escola em Cannstatt, perto de Estugarda. Quando ela tinha dezassete anos, a família mudou-se para Clarens, perto do Lago de Genebra, na Suíça, onde passou dois anos num internato. Anna estudou arte em casa durante os anos seguintes. Em outubro de 1877, a sua família mudou-se novamente para Paris, França. Mais tarde, ingressou na Académie Julian (18831884), onde teve aulas com professores como Tony Robert-Fleury e Jules Lefebvre. Anna passou muitas horas a copiar pinturas no Museu do Luxemburgo. Uma das suas pinturas favoritas para copiar era "Arando no Nivernais", de Rosa Bonheur. Ela também estudou com Vuillefroy

Em 1884, ainda na Academia, Anna expôs a sua primeira pintura no Salão de Paris. Era uma grande exposição de arte, na qual ganhou o prémio máximo de melhor aluna do ano. Continuou a expor os seus trabalhos no Salão durante mais alguns anos. Após concluir os estudos, regressou aos Estados Unidos, onde lecionou arte em Boston durante alguns anos. Mas, em 1889, já estava de volta a Paris.

Quando a Anna era pequena, tinha uma boneca chamada "Rosa". Esta boneca foi feita para se parecer com a famosa pintora francesa de animais Rosa Bonheur. Rosa Bonheur era tão conhecida que foram feitas bonecas em sua homenagem. Desde pequena que Anna se interessou muito por esta artista e inspirou-se nela. Em 1895, Anna e Rosa Bonheur conheceram-se finalmente. Bonheur tinha 73 anos e Klumpke, 39. Klumpke tinha muita vontade de pintar o retrato de Bonheur. A 11 de agosto de 1898, as duas mulheres já viviam juntas. Assinaram um acordo especial: Bonheur construiu um novo estúdio de arte para Klumpke. Em troca, Klumpke pintaria três retratos de Bonheur e escreveria a sua biografia. A estreita amizade entre elas durou até à morte de Bonheur, em maio de 1899.
 
Rosa Bonheur nomeou Anna Klumpke como a única pessoa a receber os seus bens após a sua morte, contrariando os desejos da família. Em 1899, Anna fundou a Rosa Bonheur Memorial Art School que auxiliava as mulheres a aprender arte. Geriu também a venda de todas as obras de arte de Bonheur em 1900. Anna criou o Prémio Rosa Bonheur na Sociedade dos Artistas Franceses e fundou o Museu do Ateliê Rosa Bonheur, localizado no Château de By, junto ao Palácio de Fontainebleau.

Anna Klumpke mantinha diários detalhados. Em 1908, publicou um livro sobre Bonheur chamado Sa Vie Son Oeuvre, que significa "A Sua Vida, a Sua Obra". Este livro foi baseado nas notas do diário da própria Anna. Utilizou também cartas, desenhos e outros escritos de Bonheur. O livro só foi publicado em inglês em 1998. Nele, Klumpke contou a história de vida de Bonheur. Partilhou como se conheceram e como se tornou a retratista oficial e amiga íntima de Bonheur. 
Anna Klumpke expôs as suas obras de arte no Palácio de Belas Artes e no Pavilhão da Mulher. Isto ocorreu durante a Exposição Mundial Colombiana de 1893 em Chicago, Illinois. 

Após a morte de Rosa Bonheur, Anna Klumpke passou algum tempo em França, em Boston e em São Francisco. Acabou por se estabelecer em São Francisco na década de 1930. 
Durante a Primeira Guerra Mundial, ela e a mãe montaram um hospital para soldados em recuperação de ferimentos. Esse hospital ficava na sua casa em Thomery, França. 
 
Em 1940, com 84 anos, Anna Klumpke publicou a sua autobiografia, intitulada "Memórias de uma Artista". Faleceu a 9 de fevereiro de 1942, aos 86 anos, na sua cidade natal, São Francisco.
Existe um memorial em sua homenagem no Columbário da Sociedade Neptuno, em São Francisco. Está sepultada ao lado de Rosa Bonheur e Nathalie Micas no Cemitério Père Lachaise, em Paris. A lápide partilhada tem a inscrição: "A amizade é um afeto divino".
A obra de Klumpke esteve também exposta na exposição de arte "Mulheres em Paris 1850–1900", realizada em 2018. (daqui)
 
 
 Obras de Anna Elizabeth Klumpke 
 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942),
'Spring sowing flowers on the path of our life', 1925.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of a Lady in Pink', 1886. 



Anna Elizabeth Klumpke, 'Old Reflections', 1904.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the artist's father', 1912.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Miss Mary Sophia Walker', 1895,
oil on canvas, 66.3 x 56.3cm, Bowdoin College Museum of Art.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the French artist Rosa Bonheur, 1898
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur', 1898, oil on canvas,
117.2 x 98.1 cm, Metropolitan Museum of Art.



Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur with her dog Charly', 1889,
oil on canvas, 147 x 114 cm, Château de Fontainebleau.
 

Rosa Bonheur

Rosa Bonheur, nascida Marie-Rosalie Bonheur (Bordeaux, 16 de março de 1822 – Thomery, 25 de maio de 1899) foi uma pintora e escultora francesa, conhecida por suas obras realistas. Uma de suas obras mais conhecidas é Ploughing in the Nivernais, primeiramente exibida no Salão de Paris, de 1849 e hoje pertencente ao acervo do Musée d’Orsay, em Paris. Rosa Bonheur é considerada uma das maiores pintoras do século XIX.

Rosa nasceu em Bordeaux, em 1822, a filha mais velha de uma família composta por artistas. Sua mãe era Sophie Marquis Bonheur, uma professora de piano que morreu quando Rosa tinha 11 anos. Seu pai era o pintor e retratista Oscar-Raymond Bonheur. A família adotou o credo cristão-socialista, baseado no Simonianismo, que promovia a educação de mulheres como era a dos homens. Assim, as crianças Bonheur tiveram acesso a educação, não importando o género.

Entre os irmãos de Rosa estavam os pintores Auguste Bonheur e Juliette Bonheur e o escultor Isidore Jules Bonheur. Em 1828, Rosa, então com seis anos, sua mãe e irmãos mudaram-se para Paris a fim de se juntar ao pai, que tinha ido na frente para conseguir casa e um emprego. Segundo registos da família, Rosa era indisciplinada e demorou para aprender a ler, mas antes mesmo de andar ficava horas fazendo desenhos com tinta e papel. 
Sua mãe a ensinou a ler e a escrever pedindo que ela escolhesse um animal para cada letra do alfabeto e o desenhasse. Seu comportamento na escola, porém, era inquieto, indisciplinado, resultando em diversas expulsões e suspensões, o que levou seu pai a tomar a filha como aprendiz para ensiná-la a pintar.
 
Seguindo o currículo tradicional da época, Rosa começou a fazer cópias de imagens em livros e a fazer rascunhos de modelos. Com o tempo, ela passou a desenhar animais vivos, como cavalos, ovelhas, cabras, coelhos e outros animais dos arredores de Paris. Aos 14 anos, começou a copiar pinturas expostas no Museu do Louvre. Entre seus pintores favoritos estavam Nicholas Poussin e Peter Paul Rubens, mas não se limitou apenas a eles, tendo copiado e estudado obras de Paulus Potter, Frans Pourbus o Jovem, Louis Léopold Robert, Salvator Rosa e Karel Dujardin.
Rosa estudou anatomia animal nos matadouros de Paris e os dissecou no Instituto Nacional de Veterinária. Estes estudos posteriormente foram úteis referências para suas esculturas e quadros.

Mulheres, na época da Rosa, eram relutantemente educadas nas artes e pelo facto de Rosa se tornar uma artista de sucesso, muitas portas se abriram para outras mulheres seguirem seus passos, depois de diversas encomendas bem pagas e celebradas pela comunidade artística. Rosa também era conhecida por se vestir de homem e perambular pelas ruas de Paris sem ser incomodada. Mas a própria artista atribuía isso ao facto de calças serem mais práticas para usar no dia a dia do estúdio do que vestidos, especialmente ao se tratar de modelos com animais.
Rosa faleceu em 25 de maio de 1899, aos 77 anos, em sua casa em Thomery, tendo sido enterrada junto de Nathalie Micas (1824–1889) no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris. (daqui)
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Elizabeth Cady Stanton', 1889,
oil on canvas, 101 x 81.9 cm, Smithsonian Institution.
 
 
 Elizabeth Cady Stanton

Ativista norte-americana, Elizabeth Cady Stanton nasceu a 12 de novembro de 1815, em Johnstown, Nova Iorque, filha de um juiz, e morreu a 26 de outubro de 1902.
Os seus estudos foram feitos na Academia de Johnstown, onde se dedicou ao Grego e à Matemática. Ao mesmo tempo, aprendeu a montar a cavalo.
Aos 15 anos, entrou no Seminário Feminino Troy, em Nova Iorque, uma das primeiras academias para mulheres a proporcionar uma educação avançada, semelhante à então dada aos homens.
A partir dos 18 anos, quando saiu da academia, passou a estudar Direito em casa, aproveitando os livros e os conhecimentos do pai, a quem acompanhava na resolução dos casos. Apercebendo-se da discriminação que afetava as mulheres na época, decidiu lutar pela alteração das leis. Na mesma altura, envolveu-se com o movimento abolicionista da escravatura e com os reformistas progressistas. Em casa de um primo travou conhecimento com alguns negros que fugiam da situação de escravatura.

Casou com um dos reformistas, o jornalista Henry Stanton, em 1840. Nesse mesmo ano, em junho, acompanhou o marido numa viagem a Londres para participar na Convenção Mundial Anti-Escravatura. Nesta ocasião conheceu Lucretia Moot, que se tornou uma grande amiga e fonte de inspiração intelectual. Quando a convenção negou reconhecer as mulheres como delegadas legítimas, estas sentiram-se humilhadas e revoltadas. Na hora do regresso aos Estados Unidos da América, resolveram organizar uma convenção feminina, que só levaram a cabo oito anos depois. A 19 de julho de 1848, em Seneca Falls, Nova Iorque, reuniram-se cinco mulheres para discutir os direitos e condições sociais, religiosas e civis das mulheres. Stanton, a líder, escreveu um manifesto, a Declaração de Sentimentos de Seneca Falls, que incluía uma carta de direitos e requerimentos de igualdade social para as mulheres, nomeadamente o direito ao voto. Apesar da opinião pública não ter aceite bem esta declaração, rapidamente outras mulheres se juntaram ao movimento e começaram a pedir o direito ao voto.

Em 1851 Elizabeth Stanton travou conhecimento com Susan B. Anthony, uma mulher com grande capacidade de organização que serviu de perfeito complemento às suas teorias filosóficas. Nesta altura, o grupo de Stanton estava inserido no movimento abolicionista, mas quando a escravatura acabou este último retirou o seu apoio às feministas. Desiludidas com esta traição, Stanton e Anthony criaram, em 1868, a Associação Nacional pelo Direito ao Voto Feminino, presidida pela primeira. Elizabeth iniciou também nessa altura a publicação de um jornal chamado "Revolução", que defendia os direitos das mulheres, incluindo também o direito ao voto, inseridos num programas de reformas sociais, económicas e políticas. A ideia de Elizabeth era mudar as leis e o modo como a sociedade encarava o papel da mulher. Em 1876 apresentaram a Declaração dos Direitos das Mulheres dos Estados Unidos na celebração do centenário da nação, mesmo sem terem sido convidadas.

Em 1881, Elizabeth Stanton e Susan Anthony publicaram o primeiro de três volumes da História do Voto das Mulheres, uma coleção de escritos sobre as lutas do movimento. Entretanto, surgiram vários movimentos feministas nos Estados Unidos da América, que a duas conseguiram unir em torno de uma única associação em 1890 chamada Associação Nacional Americana pelo Direito ao Voto Feminino, da qual Elizabeth Stanton foi a primeira presidente. No entanto, as suas ideias antirreligiosas ameaçaram a estabilidade da associação. O descontentamento de algumas feministas atingiu o limite em 1895, quando Stanton publicou A Bíblia das Mulheres, um estudo sobre discriminação sexual no Velho Testamento.
Stanton, para além de defender o direito ao voto, pugnou por leis do divórcio mais liberais, roupas menos restritivas e pelo direito das mulheres casadas controlarem as suas propriedades.
Quando morreu, Elizabeth já não era presidente da associação. Dezoito anos depois, o congresso norte-americano aprovou o direito ao voto feminino. (daqui)
 
 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Abat-jour" - Poema de Fernando Pessoa


 
Manuel Amado (Arquiteto e pintor português, 1938–2019),
'O quarto de Fernando Pessoa I', 1993. Óleo sobre tela, 116x89cm,
Coleção Câmara Municipal de Lisboa.
 
 
 
Manuel Amado, 'O quarto de Fernando Pessoa II', 1993.
Óleo sobre tela, 116x89cm, Coleção Câmara Municipal de Lisboa. 



Manuel Amado, "O Quarto de Fernando Pessoa III", 1993.
Óleo sobre tela, 116x89cm, Coleção Câmara Municipal de Lisboa. 


Abat-jour


A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu

No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!

E no quarto silente
Com a Luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...

28-2-1929

Fernando Pessoa, in 'Poesias',
Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995)

domingo, 26 de julho de 2026

"Inicial" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), "Sommeridyl" 
('Young girls in a boat, summer'), c. 1903.


Inicial 


O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida
 

sábado, 25 de julho de 2026

"Branco de neve" - Poema de Mário Dionísio

 


Akseli Gallen-Kallela (Finnish painter, printmaker, illustrator, architect and
designer, 1865–1931), 'Cloud Towers', 1904, Didrichsen Art Museum.


Branco de neve


Branco de neve
branco de leite

branco de cal
branco de lua

Contra branco outro branco
Um outro branco ainda sobre um novo branco
de espuma
com areia quase branca

Toda a ternura a fadiga a mágoa imensa
do branco contra branco sobre branco
na brancura mergulha branca flui

Branco entre limos
Branco entre mastros

Por túneis brancos ruas brancas sombras brancas
maciamente o branco longamente inventa branco
na crua branca amargura dos anos cegos Brancos


Mário Dionísio (1916–1993),
in "Memória dum pintor desconhecido",
Lisboa, Portugália, 1965.
 


Akseli Gallen-Kallela, 'Taos Mountains Shrouded in Clouds', 1924,
Finnish National Gallery.



"Solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem a si mesmo."


Hermann Hesse

[Romancista, poeta e pintor alemão que se naturalizou suíço, 1877–1962]