quinta-feira, 9 de julho de 2026

"Quem sempre foi, sempre será" - Poema de Pedro Bandeira


Ralph Hedley
(English realist painter, woodcarver and illustrator, 1848–1913),
'Barred Out', 1896, Laing Art Gallery.


Quem sempre foi, sempre será


No passado e no futuro,
preste muita atenção,
para os dois não misturar,
pois só vai dar confusão!

Os políticos prometem,
se ganharem a eleição.
Se mentiram no passado,
no futuro mentirão!

Os ladrões não tem jeito,
pois em tudo põem a mão.
Se roubaram no passado,
no futuro roubarão!

Os cantores e as cantoras
vão cantar sua canção.
Se cantaram no passado,
no futuro cantarão!

As velhinhas tão doentes
tomam mel com agrião.
Se tossiram no passado,
no futuro tossirão!

Quem disser que estou errado,
que não tenho razão,
saiba que eu estou muito certo,
nisso eu sou um campeão!

Pois quem hoje é um boboca
não vai ter conserto não.
Quem foi bobo no passado,
no futuro é paspalhão.


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna


♥♥♥

Obras de Ralph Hedley


Ralph Hedley, 'The New Scholar', c. 1900/1906.
 
 

Ralph Hedley, 'The Monitor', 1898.
 
 
 
Ralph Hedley, 'The truant's log', 1899, Private collection.
 

 
Ralph Hedley, 'The Village School', 1912.
 
 
 
Ralph Hedley, 'Home Lessons', 1887.



"A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida."

 
 
[Frase atribuída ao filósofo e escritor romano Séneca (c. 4 a.C. – 65 d.C.)]

quarta-feira, 8 de julho de 2026

"O Menino Azul" - Poema de Cecília Meireles



Herbert William Weekes (British painter, 1841–1914), 'Fowl Talk', n.d.


O Menino Azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles
,
 em 'Ou Isto ou Aquilo', 1964.

♥♥♥ 

Obras de Herbert William Weekes
 
Herbert William Weekes,'The Odd One Out', n.d.
 
 
 
Herbert William Weekes, 'The congregation', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Old Friends', n.d.
 

 
Herbert William Weekes, 'The Unlikely Connoisseurs', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Meadow Matters', n.d.


Burro

O burro é um mamífero da família dos Equídeos. Os burros selvagens vivem em algumas das regiões mais desertas da terra e resistem bastante bem à escassez de água e de alimentos.
O burro selvagem (Eques africanus) vive no nordeste da África distinguindo-se duas subespécies, uma na 
Somália e outra no deserto da Núbia. Semelhantes no aspeto, ainda que um pouco maiores que o burro doméstico, estão em vias de extinção. Alimentam-se de ervas e bebem água salobra, tolerando bem quer as altas quer as baixas temperaturas. O burro selvagem da Núbia distingue-se do da Somália pelas riscas pretas que mostra nas patas. (daqui)

terça-feira, 7 de julho de 2026

"Mentir é muito feio" - Poema de José Jorge Letria

 


Paul Hermann Wagner
(German painter, 1852–1937), Title unknown, n.d.


Mentir é muito feio


Mentir é muito feio
porque faz mal à verdade,
deixa a verdade a meio
e instaura a falsidade.

Neste inundo de mentira
dela não faças a regra;
nem sempre nos absolvem
por aquilo que se nega.

E se a mentira é um vício, pode
tornar-se doença
que custa para se curar
muito mais do que se pensa.

O mentiroso altera
aquilo que vê e escuta;
a verdade e a mentira
nele estão sempre em luta.

E no fundo o mentiroso
a si mesmo se desmente
pois falseando a verdade
tudo à mentira consente.

José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

"Lá vêm as férias" - Poema de Ruth Rocha


Jim Daly (American painter, born 1940), 'To All a Good Night', 1993


Lá vêm as férias


Chegam as férias, 
que bom que vai ser!
Eu vou passear,
pular e correr!

Eu vou dormir tarde,
vou brincar lá fora...
Ver televisão
até fora de hora.

Vou ler o que eu quero,
de noite e de dia...
Brincar com o cachorro,
ou fazer folia!

Com todos os amigos
vou ficar de bem. 
Só volto pra escola
no ano que vem!


Ruth Rocha
,
in 'Almanaque de Ruth Rocha'
São Paulo: Ática, 2005

 

Jim Daly (American painter, born 1940), 'All Aboard', 1994


"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."
 

Carlos Drummond de Andrade

(Poeta, contista e cronista brasileiro, 1902–1987)
 
 
Obras de Jim Daly

Jim Daly, 'Just Before The Bell', 1996



Jim Daly, 'A Golden Moment'
 
 

Jim Daly, 'Follow The Rainbow'



Jim Daly, 'Left Out'
 
 
 
Jim Daly, 'Can't Miss'
 
 

Jim Daly, 'High Fly'



Jim Daly, 'Just Out Of Reach'
 
 
 
Jim Daly, 'Eye To Eye', 1994



Jim Daly, 'Just Hanging Around'



Jim Daly, 'Flying Free'
 

domingo, 5 de julho de 2026

"O sapato perfumado" - Poema de Ricardo da Cunha Lima



Donald Zolan (American painter, 1937–2009), 'New Shoes'



O sapato perfumado


Era uma vez um sapato
totalmente amalucado.
Seu esquisito costume
era usar um bom perfume.
Ele nunca passeava
sem estar bem asseado;
pra isso, sempre passava
perfume por todo lado,
bastando o seu couro inteiro
com fragrâncias do estrangeiro,
e na sola e no cadarço
espalhava água-de-cheiro.
Que eu me lembre se casou
(e que lindo par formou!)
com a meia do garçom,
a qual tinha, por seu lado,
o costume amalucado
de pintar-se com batom.


Ricardo da Cunha Lima
em "De cabeça para baixo",
São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2000.


"De cabeça para baixo" de Ricardo da Cunha Lima, 
Ilustração de Gian Calvi. Companhia das Letrinhas, 2000.


SOBRE O LIVRO

Este livro de poemas é também um manual para aprender a ler e escrever poesia. Ricardo Cunha Lima lida com a linguagem de uma maneira extremamente lúdica, brincando com as palavras e com o modo de ver o mundo.

Um livro de poemas que ensina o que é poesia e que estimula o leitor a escrever seus próprios poemas. Esta é, em linhas gerais, a proposta que Ricardo Cunha Lima desenvolve em "De cabeça para baixo". O autor lida com a linguagem de uma maneira extremamente lúdica: brinca com as palavras e com o modo de ver o mundo. Um de seus poemas nos fala, por exemplo, de um aspirador de pó... alérgico a pó: "Toda vez que era ligado,/ Já ficava todo inchado,/ Inteirinho empelotado". E Ricardo, que quer levar o leitor aos "bastidores" do mundo poético, ensina que esse poema é um "vilancico", uma forma típica da poesia espanhola da Idade Média. Rima, métrica, aliteração, soneto e antítese são outros conceitos explicados pelo autor, neste livro de poemas que é também um manual para aprender a ler poesia. Prémio Jabuti 2001 de melhor livro infantojuvenil. Título altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ 2000, categoria poesia.
 (daqui)

 ***
 
Obras de Donald Zolan
 
Donald Zolan (American painter, 1937–2009)
 
 


Donald Zolan, 'Dozens Of Daisies'
 


Donald Zolan, 'Country Walk'
 


Donald Zolan, 'The Big Catch'
 

 
Donald Zolan, 'Summer Lake'
 
 
 
Donald Zolan, 'Morning Discovery'



Donald Zolan, 'Sabina in the Grass'
 


Donald Zolan, 'Summer Thunder'

sábado, 4 de julho de 2026

"O Porquinho" - Poema de Dolores Fender

 

Morgan Weistling (American painter, b. 1964), 'Pig Tales'



O Porquinho


Conheço um porquinho que tem uma verruga no focinho.
Ele não queria sair de casa de jeito nenhum
Achava que seu focinho parecia um jerimum.

Todos os dias a mãe do porquinho lhe dizia:
Saia filho, ficar em casa é uma porcaria!
O porquinho escutava, grunhia e depois dormia.

Num belo dia o porquinho
Que já era um porco bem grandinho
Acordou tão diferente
Tomou banho e de repente
Disse à mãe: Vou passear!

A mãe ficou animada
Torceu a própria cauda
Até ficar enrolada
Em sinal de aprovação.

Mas quando ele chegou à porta
Quase, quase que ele volta
À antiga posição.

Só não voltou porque não deu tempo,
Lá fora, ao portão
Uma porquinha charmosa
O chamou de bonitão.

Depois o puxou pelo braço e começou a girar.
Foram tomar sorvete
Comer milho de pipoca
E bolo de mandioca.

De focinho cor-de-rosa
Ela parecia uma flor
Nem percebeu seu nariz de jerimum
E nem ele, que a todo instante
Ela soltava um pum.

E foi assim que o porquinho Jerimum
E a porquinha Flor
Conheceram o Amor.


 Dolores Fender



Morgan Weistling (American painter, b. 1964), 'Rebecca's Farm', 2019



"Em muitas coisas somos superiores aos animais; mas no animal não há nada 
que também não possa estar em nós." 

Ludwig Börne
(Escritor alemão, 1786–1837)
 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Tem tudo a ver" e "Cuidado com a Língua" - Poemas de Elias José

 


Caetano Cury (Jornalista, podcaster, autor de banda desenhada, locutor
de rádio e cartunista brasileiro, n. 1985), 'Téo & O Mini Mundo'.



Tem tudo a ver


A poesia
tem tudo a ver
com tua dor e alegrias,
com as cores, formas, os cheiros,
os sabores e a música
do mundo.

A poesia
tem tudo a ver
com o sorriso da criança,
o dialogo dos namorados,
as lágrimas diante da morte,
os olhos pedindo pão.

A poesia tem tudo a ver
com a plumagem, o voo,
e o canto dos pássaros,
a veloz acrobacia dos peixes,
as cores todas do arco-íris,
o ritmo dos rios e cachoeiras,
o brilho da lua, do sol e das estrelas,
a explosão em verde, em flores e frutos.

A poesia
– é só abrir os olhos e ver –
tem tudo a ver com tudo.

 in 'Segredinhos de Amor', 1991 



Elias José (Escritor, poeta e professor brasileiro,
 1936–2008) por Caetano Cury 


Cuidado com a Língua

 
Você me chamou de feio,
e mais feio me enrusti.

Você me chamou de careca,
com frio na cuca me escondi.

Você me chamou de baixinho,
muito melhor me escolhi.

Você me chamou de barrigudo,
tentei, tentei, mas não diminuí.

Você falou que mesmo assim me ama,
foi assim, assim foi que me explodi. 
in 'Cantigas de Amor', 2006 
 
***
 
 

Caetano Cury é jornalista, aguarelista e quadrinista, autor das tirinhas 'Téo & O Mini Mundo', série bicampeã do prémio Angelo Agostini e sete vezes indicada ao troféu HQMix.
Caetano foi apresentador e repórter da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Trabalhou também nas rádios BandNews FM e CBN de Ribeirão Preto-SP. Como repórter de rádio, ganhou o prémio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos.
Caetano mora hoje em Guaxupé-MG e se dedica em tempo integral à criação e divulgação de seus quadrinhos.
'Téo & O Mini Mundo' são tirinhas de amor, humor e autoconhecimento. As histórias já foram publicadas em três livros. A primeira tira foi criada em 2012 e até hoje o autor mantém uma produção regular que conquista milhares de pessoas diariamente.
Hoje mais de 390 mil pessoas seguem o @teoeominimundo no Instagram. Os personagens principais são o menino Téo e a borboleta Eulália. Os dois caminham por belos cenários rurais enquanto conversam sobre os mistérios da vida.
Além dos livros da coleção 'Téo & O Mini Mundo', Caetano tem outras obras publicadas, como 'Jorge', um compilado de tirinhas de humor, e 'Click Plock' um livro imagem que faz pensar sobre o uso excessivo de celular.
 (daqui)
 


Téo & O Mini Mundo – Vol. 1 – O livro 
[O primeiro livro da série reúne as tirinhas criadas entre 2012 e 2019.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 2 – O lugar do outro
[O segundo livro da coleção, lançado no auge da pandemia, traz as tirinhas de 2019 e 2020.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 3 – Quentinho no Coração
[As tirinhas produzidas entre 2020 e 2022 estão no terceiro livro da série.]
 
 
SINOPSE
 
Um menino, uma borboleta filosófica e um microscópio para ver a vida
 
Na companhia de sua amiga, a borboleta Eulália, o menino Téo observa atento nosso Mini Mundo através de um microscópio e dispara reflexões filosóficas sobre o quotidiano, sobre as pessoas e sobre o seu próprio eu. Juntos, eles protagonizam diálogos profundos, carregados de sensibilidade, traduzidos em palavras simples, mas que tocam corações e mentes de jovens e adultos. 
 
A coleção de livros Téo & O Mini Mundo (que nasceu como webcomic em 2012, reunindo milhares de fãs ao longo de sete anos), surge como um abraço acolhedor que, ao mesmo tempo, entretém, encanta e provoca reflexões, expressas em tirinhas com textos simples, ritmo tranquilo e belíssimas aguarelas. 
São três volumes com 271 tirinhas para ler, reler e se emocionar. Horas de leitura garantida para levar por onde você for e também para presentear pessoas queridas com afeto em forma de livro.
 (daqui)