quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"Artista" - Poema de Alice Neto de Sousa


 
Nancy Bea Miller (Contemporary artist, born in New York City),
"Priss", 2022. Watercolor on Arches paper.
 
 
Artista


Se eu fosse artista
de papel e caneta na mão,
Sem nunca me ter dado isso nos testes de vocação
Seria artista ainda turista a part-time
Na arte de equilibrar copos,
poemas,
estratagemas de como sair mais cedo do trabalho,
de como continuar a ser uma carta dentro do baralho.

Mesmo com o Ás
no hype do melhor naipe,
Ser artista ainda é apanhar um joker
num jogo de poker.

Mas se eu fosse eu
e fosse artista,
Perguntaria eu à Clarice
Estaria assim tão preocupada
com visualizações,
condecorações
O que é que o público vai gostar?
O silêncio do outro lado
A direção que vai o gado
O microfone que de repente nos
Fica tão largo.

E mesmo conquistado - questiono:
Este lugar é meu?
É que essa pessoa sou eu.

E se eu fosse eu
E fosse artista,
Seria provavelmente equilibrista
Na arte do entretenimento
A dar noventa e nove
com menos de um por cento
E para isso teria sido preciso talento.

Nunca teria falhado a um soundcheck,
A um egocheck
É preciso manter o ego em cheque.
É preciso abafar a voz
O subconsciente
Que questiona se sou boa o suficiente
Quando se entra diretamente pela porta da frente
Afinal, o poeta é aquele que mente
E pior que uma fake news,
é mesmo um poeta fake.

Mas o poeta não sente,
Anda de bicos de pés sem partir o salto
Alguém já viu um artista, fora do palco?

Na correria dos metros e engarrafamentos,
Estranho,
Não me parecia tão alto
e não tirou uma selfie
dos dias cinzentos.

Carrega um olhar solitário
Inscrito num papel secundário
Fica mais uma linha para o diário,
Um desgosto para virar canção.

E lá vai o artista
Parado na estação da desinformação.
A tentar apanhar o barco
Antes que passe,
sem ter um impasse
Uma rima desarticulada
Cuidado com o que dizes
Hoje em dia toda a gente é cancelada.

E enquanto os media debatem
O que era verdade ou mentira,
Já o artista adiantou uma semana de terapia
Porque olhem - magia - o artista sentia.

Quem sabe um dia,
Me torne a tal artista
E faça disso profissão,
Até lá, equilibro copos.
Poemas (e tudo isto),
Com uma só mão."


Alice Neto de Sousa

[Poeta, escritora e letrista nascida em Portugal (1993), com raízes em Angola.]

 
 
Nancy Bea Miller, "Amber Dreaming", 2009. Oil on canvas.


"Para realizar um grande sonho, o primeiro requisito é uma grande capacidade de sonhar;
o segundo é persistência - uma fé no sonho."

Hans Selye,
citado in The Saturday Evening Post - Volume 231 - Página 80,
 Curtis Publishing Company, 1959.
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

"Poema do mar e da serra" - Poema de Branquinho da Fonseca


 
Henri-Edmond Cross (French painter and printmaker, 1856–1910),
"Hafenszene", by 1910. 


Poema do mar e da serra



Ó mar de que não sei nada
Nem vejo que desvendar,
És só a mais larga estrada
Para ir e voltar!

Eu sou lá dos montes
Que medem o céu,
Sou das frias serras onde primeiro o Sol nasceu
E onde os rios ainda são apenas fontes.

Sou de onde as árvores falam
A língua que eu conheço,
Onde de mim sei tudo
E do resto me esqueço.

Lá, tenho olhar de estrelas a luzir
E tenho voz de guardador de rebanhos,
Passos de quem só desce pra subir,
Mãos sem perdas nem ganhos.

Contigo falo, ó mar,
Se a Lua vem do céu passear no mundo,
Tornando-te a planície do luar
Sem ecos nem mistérios de profundo.

Mas só lá sou da terra e a terra é minha,
Só lá eu sou do céu e o céu é para mim,
Ó serra aonde há tal serenidade
Que nada tem começo
Nem fim.


Branquinho da Fonseca
,
in "Litoral", n.º 3, Ag.-Set. 1944;
in "Obras Completas: Vol. 1",
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2010.


 
Henri-Edmond Cross, Landscape, c. 1896–1899.


As Viagens 


Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou.
A posse é um declínio.
Antes um pássaro a voar que dois na mão.
Dois pássaros na mão são o que já não falta.
Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele;
ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares;
dar a volta ao mundo e continuar;
é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.


Branquinho da Fonseca
 
 
 
Branquinho da Fonseca (daqui)

Branquinho da Fonseca (1905–1974) foi um poeta, tradutor (Georges Duhamel, Stendhal, entre outros), autor dramático e ficcionista, filho de Tomás da Fonseca (1877–1968).
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu a profissão de conservador de registo civil e dirigiu, desde a sua criação, o Serviço de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com Afonso Duarte, Vitorino Nemésio, António de Sousa e João Gaspar Simões, dirigiu a revista coimbrã Tríptico (1924); com José Régio e João Gaspar Simões, fundou, em 1927, a "Folha de Arte e Crítica" Presença, e, após uma dissidência com o grupo presencista, fundou com Adolfo Rocha (Miguel Torga) a efémera revista Sinal (1930). Além destas publicações, colaborou em O Diabo, Manifesto e Litoral. É nas páginas da Presença que publica os textos dramáticos A Posição de Guerra e Os Dois (posteriormente recolhidos com Curva do Céu, A Grande Estrela, Rãs e Quatro Vidas, no volume único de Teatro, publicado, em 1939, com o pseudónimo de António Madeira), numa dramaturgia que, segundo Luiz Francisco Rebello (100 Anos de Teatro Português, Porto, 1984, p. 75), combina "elementos de progénie simbolista com certas experiências surrealistas", e que, na opinião do mesmo estudioso, prolongam, "na geração presencista, o vanguardismo de Orpheu, de que no setor dramatúrgico Almada Negreiros foi o mais lídimo representante".

Revelou-se, em 1926, com Poemas, coletânea que estabelece a continuidade com o modernismo "tanto pela aguda desconfiança a alternar com a crença desmedida nos poderes da palavra, como pelo reiterado pendor para a visão alucinatória do concreto e para a expressão aparentemente cândida do insólito." (MOURÃO-FERREIRA, David - posfácio a O Barão, Lisboa, 1969, p. 119). 

Mas é sobretudo na ficção que o escritor atinge a sua maturidade, através de uma escrita espessa, que se presta a interpretações psicológicas, sociais, simbólicas, numa hábil capacidade de misturar o real e o imaginário, o fantástico e o concreto, e de que a famosa novela O Barão - amplamente traduzida - constitui um dos exemplos mais significativos. (daqui) 

 
Tomás da Fonseca com Clotilde Madeira e os filhos Branquinho da Fonseca
e Tomás Branquinho (Coimbra, cerca de 1923).
 (daqui)

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"Presente vivo" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna



Louise Catherine Breslau (German-born Swiss painter, 1856–1927),
 "Fleur d'hiver" (Jeune femme et jeune fille devant une fenêtre), 1892.


Presente vivo


Viver
é conjugação diária
do presente.

Viver
é presentear.
Mais do que um jeito de doer
é um modo de doar.

E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.

Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.


Affonso Romano de Sant'Anna,
Poesia reunida: 1965-1999.
 
 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

"Canto místico" - Poema de Helena Kolody

 


Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), 
Conversation in the Jardin du Luxembourg, Paris, 1892.
 
 
Canto místico

 
Aqui estou, Senhor, no meio desta nave
Para cantar em teu louvor.
Minha voz é prisioneira da garganta:
Conhece a gama dos sons e não pode cantar.

Há vibrações sonoras em meus nervos.
Mas a voz ausentou-se de meu ser.

Teu mundo é uma ciclópica poesia
Que brilha no céu e brota no chão
E ruge e ri, e canta e chora.
Não encontro, porém, as palavras exatas
Dessa canção.

Se eu pudesse, ao menos,
Cantar a plenitude singela
De um momento feliz.
Dizer a inocência de uns olhos de criança,
Olhando serenos nos olhos da mãe...

A música das esferas
Sinto fremir, ouço vibrar
E não posso cantar.

Aqui estou, prisioneira de minha mudez,
Aflita em pranto, no silêncio grave
Da iluminada imensidão de tua nave.


Helena Kolody
in "Paisagem interior", 1949.
 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Espera" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 


Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
"Pondering the Scriptures", 1900's.
 
 
Espera 

 
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene
  
 
 in Geografia, 1967.
 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

"Neurónios Poéticos" - Poema de Ana Luísa Amaral


 

Charles-Amable Lenoir (French painter, 1860-1926), To the Return of Times Lost
(A la Recherche du Temps Perdu)
, Unknown date. Oil on canvas. Private collection.



Neurónios Poéticos


Algum neurónio que fugiu à mãe
e se refugiou no canto esquerdo,
sob o meu ouvido.

Aí, fez ninho,
redondo e tão preciso
como centro do alvo
mais premente.

O coração desbaratando forças,
uma saudade sempre
consistente:
a mãe nunca deixando
de o chorar.

De vez em quando, o seu suspiro
ecoa, no canto esquerdo
sob o meu ouvido
- que o eco mo devolve
do avesso.

E uma lágrima cai na
folha em frente. Redonda,
independente.

Inundando (depende) ora centro,
ora canto, ora margem de texto.
O ninho devagar:
desequilíbrio manso.
 
Charles-Amable Lenoir, The Flute Player, Unknown date. Oil on canvas.


"A vocação do artista é lançar luz sobre a alma humana."


(George Sand)




Eugène Delacroix (French Romantic artist, 1798-1863),
"George Sand", 1838, Ordrupgaard-Museum.



George Sand, escritora francesa, de seu verdadeiro nome Amantine Lucile Aurore Dupin de Francueil, baronesa Dudevant, nascida em 1804 e falecida em 1876, inicia a publicação dos romances passionais Indiana e Valentine (1832) sob o pseudónimo masculino George Sand. 
Figura controversa da sociedade parisiense, tem uma longa ligação com Chopin e expressa as suas ideias políticas, caracterizadas por um socialismo idealista, em revistas e jornais. 
Uma nova fase da sua vida, passada no campo, repercute-se nos temas de François le Champi (1847-48) e La Petite Fadette (1849). 
Em Elle et Lui (1859), romance de cariz autobiográfico, aborda a sua ligação com Musset e inaugura uma fase memorialista (que viria a incluir Rêveries e Souvenirs, 1871-72). A sua Correspondência figura como um documento incontornável para o conhecimento do século XIX e de uma mulher de exceção. (daqui)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Mar absoluto" - Poema de Cecília Meireles


 
Thomas Buttersworth (English seaman of the Napoleonic Wars period who became a
marine painter, 1768–1842), H.M.S. 'Victory' in full sail and in a squall, Unknown date.


Mar absoluto

 
Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.

"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"

Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heroico do mar tem seu polo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anémona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, 
mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.




"Mar absoluto e outros poemas" de Cecília Meireles
 

SINOPSE 
 
A história de Cecília começa antes de seu nascimento. Inicia-se nos Açores, onde nasceram seus antepassados. E essa memória intrínseca à sua alma fora inspiradora para quase toda a sua obra. A beleza e o silêncio do mar foram enriquecidos com os mistérios e o lado obscuro da morte - revelando uma poesia mística, lírica e serena. 
Mar absoluto e outros poemas é um dos principais livros da poeta, que o escreveu entre as décadas de 1930 e 1940, e certamente um dos mais importantes momentos da poesia brasileira de hoje e de sempre.
 
 

Thomas Buttersworth, H.M.S. 'Victory' in full sail and in a squall, Unknown date.
 

"O homem é um aprendiz, a dor é a sua mestra, e ninguém se conhece enquanto não sofreu."

Alfred de Musset, in "La nuit d'octobre", 1837.