sexta-feira, 17 de abril de 2026

"Five O'clock Tear" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

  
 
Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883-1963),
Daphne (Daphne a Pavarolo), 1934, olio su compensato, 121 x 151 cm.
Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea, Torino.




Five O'clock Tear


Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
pra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada.

Emanuel Félix Borges da Silva,
in A palavra, o açoite: poemas, 1977.


Pinturas de Felice Casorati

Felice Casorati, L'attesa (The Waiting), c. 1918-1919.



Felice Casorati, Bambina, c. 1919, 
Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea, Torino.



Felice Casorati, Ragazza in collina (Ragazza di Pavarolo), 1937,
Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea, Torino.
 


Felice Casorati, Marilena, 1936, Private Collection.
 
 

Felice Casorati, Portrait of Silvana Cenni, 1922, Private Collection.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

"A mesa" - Poema de Bandeira Tribuzi



Edmund C. Tarbell (American Impressionist painter, 1862–1938),
"The Breakfast Room"
, ca. 1903, Pennsylvania Academy of the Fine Arts.


A mesa


A mesa tem somente o que precisa
para estar, circundada de cadeiras,
fazendo parte da vida familiar
entre alimentos, flores e conversa.

Escura mesa gravemente muda
que, parecendo alheia a quanto a cerca,
encerra no silêncio toda a ciência
da idade desdobrando gerações.

Olho de cerne, comovido e frio!
indiferente coração parado
entre o grito infantil e o olhar cansado.

Mistério de madeira rodeado
por cadeiras, lembranças, utensílios,
e um leve odor de tempo alimentício.


Bandeira Tribuzi
 (1927–1977),
in "Rosa de Esperança", 1950.
 
 
Pinturas de Edmund C. Tarbell

Edmund C. TarbellGirl Mending, 1910.
 
 

Edmund C. Tarbell, Three girls reading, 1907.

 
 
Edmund C. Tarbell, Mother and Mary, 1922, National Gallery of Art.


 
Edmund C. Tarbell, Mother, Mercie and Mary, 1918.

"Primavera" - Poema de Armindo Trevisan



Edgar Maxence
(French Symbolist painter, 1871-1954),
"Vers l'Idéal" (Towards the Ideal), 1904.
 

Primavera


Por que será que penso nos teus lábios
quando avisto, em quintais, limões maduros?

Serão eles, dobrados sobre os muros,
Livreiros que esquadrinham alfarrábios?

Ou hão de perecer polidos cabos
Rumorejando sobre os ares puros?

Eu sempre penso nos limões: dourados,
Guardam-se incorruptíveis, e fechados. 


Armindo Trevisan, in 'A Dança do Fogo'.
Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001.



quarta-feira, 15 de abril de 2026

"Eu aprendi a dizer sim" - Poema de Antero Coelho Neto



Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886-1973), Bandeira do Divino, 1939-1968.



Eu aprendi a dizer sim


Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.

Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.

Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.

Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.

Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.

E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931 - 2016)

"O Gato" - Poema de Afonso Lopes Vieira



Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859-1923),
A Cat at the Window, n.d.


O Gato

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– Pelas noites de invernia,
quando o vento, num lamento,
muito lento, muito longo,
muito fundo, de agonia,
ruge e muge,
e a chuva bate à janela,
nos vidros, fina, a tinir...
ai como é bom,
ai como é bom dormir
ao serão, todo enroscado
ao pé do lume doirado,
fazendo ron-ron-ron-ron...

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– Não tenho inveja a ninguém:
nem aos pássaros do ar,
a voar;
nem aos cavalos saltando,
galopando;
nem aos peixinhos do mar,
a nadar;
Não tenho inveja a ninguém
aqui na minha janela,
onde me sinto tão bem...

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”


Afonso Lopes Vieira (1878-1946),
em "Animais Nossos Amigos", 1911.
Ilustrações de Raul Lino


  
"Animais nossos Amigos": Versos de Afonso Lopes Vieira;
Ilustrações de Raul Lino. 1.ª edição da Livraria Ferreira, 1911.
 

Eles

Sempre dei pousada a gatos, vagabundos quase todos, ora salvos de uma jaula, de uma sarjeta, ou de um contentor do lixo. Com nomes cristãos, e mais do que isso, artísticos e literários, os batizei, Gelsomina e Leonardo, Félix e Henriqueta, favor que jamais me agradeceriam.
Não cessa de me intrigar o desprezo a que eles votam os cães da casa, esses sim, profundamente comovidos com a graça que lhes pus, Puck e Robin e Jasão, e mais recentemente Argos, aptos a proclamá-la com orgulho e alegria. E olham estes os gatos que os rodeiam com a tolerância, e não raro com a estima, de os saberem também da família do dono.
O que verdadeiramente me dói ao fim de contas é essa incapacidade de levarem os gatos ao plano do mimetismo, não apenas das maneiras, mas da própria figura, o reconhecimento que não sentem. Com os cães me pareço, comigo os cães se identificam, e transforma-se o amador na coisa amada. Não constituirá isto a mais tocante e a mais original prova de afeto?

Mário Cláudio (Escritor português, n. 1941) (daqui)







terça-feira, 14 de abril de 2026

"Leva o cão a passear" - Poema de José Jorge Letria



Olaf Ulbricht (German artist, born 1951), "Walk with the Dog", n.d.
Acrylic on Canvas, 50 × 40 cm. Private Collection.


Leva o cão a passear 


Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um ato sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão? 


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

"Porta-te bem!" de José Jorge Letria;
Ilustração de Joana Quental.
 Porto, Ambar, 2003.
 

SINOPSE 

Um livro que reúne as atitudes, cuidados e atenções que as crianças devem ter para serem bem educadas. Este livro ajuda os pais, avós e outros educadores a ensinar as boas maneiras às crianças· 
Há algumas escolas do 1º ciclo do ensino básico que adotaram este livro nas aulas. José Jorge Letria é um autor de referência na literatura infantil.
Joana Quental contribui, através das sua excelentes ilustrações, para que seja fácil ensinar as regras do bom comportamento às crianças.
A primeira edição deste título, publicada pela Ambar em 2003, foi um grande sucesso. (daqui)
 

"À boca do cântaro" - Poema de Eugénio de Andrade



Rudolf Epp
(German painter, 1834–1910), A Cool Sip, n. d.
 

À boca do cântaro


Caminha sílaba a sílaba
como a fonte
que só para à boca do cântaro.
Aí consente partilhar a água.
À audácia dos jovens, à timidez
dos que já o não são, mata a sede.
Aos que tropeçam na falta
de amor, aos que mordem as lágrimas
em segredo, dá a beber.
Leva aos lábios febris
a frescura da pedra. Não deixes
o medo multiplicar as garras.
Sílaba a sílaba
caminha até ao cântaro
vazio. – Tão cheio agora!


Eugénio de Andrade (1923–2005),
in "Os Sulcos da Sede"