segunda-feira, 13 de julho de 2026

"Éclogas pequenas em que fala um só pastor" - Poema de José Dantas Motta

 

 
Paulus Potter (Dutch painter, 1625–1654), 'The Young Bull', 1647,
Mauritshuis, The Hague, Netherlands.



Éclogas pequenas em que fala um só pastor

 
No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.

E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,

esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,

hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que

todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,

porque, em verdade, o dia me envelhece.
De facto eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
 
 
José Dantas Motta
(Escritor e poeta brasileiro, 1913–1974)



Eugène Lepoittevin
(French painter, lithographer, illustrator and cartoonist, 1806–1870),
'Paul Potter painting the Young Bull', 1843.


"O Homem é o único animal que pode permanecer, em termos amigáveis, ao lado das vítimas que pretende comer antes de comê-las."
 
"Man is the only animal that can remain on friendly terms with the victims he intends to eat until he eats them." 
 
  Samuel Butler (English novelist and critic, 1835–1902), in 'The Note-Books of Samuel Butler';
Selections arranged and edited by Henry Festing Jones, 1912. 
 

domingo, 12 de julho de 2026

"Gata Angorá" - Poema de J. G. de Araújo Jorge



Arthur Heyer
(German-Hungarian painter, 1872
1931),
 "Angora Cat on Chair",  n.d.
 
 
Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira o seu corpo de pelúcia, – e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
– sempre esse ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, e ela vem... lânguida, preguiçosa,
roçar pelos meus pés a pelúcia, de prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
– que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher! 


J. G. de Araújo Jorge
(1914
1987),
in "Amo!", 1938.
 
 
Arthur Heyer, "In Joyful Anticipation", n.d.
 
 

Arthur Heyer, "Angora cat and kitten with a beetle", n.d.
 


Arthur Heyer"Young Angora Cat",
n.d., oil on canvas, 40 × 50 cm.


Elegia

Não é exclusivo do escritor o entendimento e o amor pelos gatos. Recordo, por exemplo, quanto Chopin amava o gato que acorria à sua companhia, mal o pressentia a dedilhar o piano. Adoçando-lhe as horas convulsivas com a companheira George Sand, o gato não era apenas para o compositor o lenitivo mas também uma compensação e alguma vez, quem sabe, o colaborador de algum som que o gato oferecia ao compositor, ao passar ao longo do piano.

Por mim, que até então não conhecera o convívio com qualquer gato, posso dizer que o meu amor e respeito mantidos pelo Jeremias não me inspiraram apenas o livrinho “Memórias do Senhor Jeremias o Gato das Botas Brancas” mas um amor e uma saudade que as lágrimas não extinguem. Dizem-me que os gatos têm uma alma e eu acredito, tão grande e sensível era o meu diálogo com o Jeremias que aspiro a encontrá-lo um dia, junto de quantos mais amei e já partiram, enlutando a minha solidão de desespero e dor. Sonho com ele e acordo com a sensação de que está a meu lado e me abraça, tocando-me o rosto com o focinhito frio e húmido, como que a querer minorar a minha dor e a minha solidão, em vão varridas pelas muitas lágrimas solitárias de saudade que me ficou quando a sua ausência levou o pouco que me restara da longa vida vivida.

Manuela Azevedo (Jornalista e escritora portuguesa, 1911–2017) (daqui)
 
 

sábado, 11 de julho de 2026

"A Fantasia da Natureza" - Poema de Antero Coelho Neto


 
Reynaldo Manzke (Pintor brasileiro, 1906–1980), 'Vilarejo', 1943.
Aguarela sobre papel, 19 x 28 cm.


A Fantasia da Natureza


Natureza alegre
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.

Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.

Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.

Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931–2016)
 
 

Reynaldo Manzke, 'Uma carroça na estrada', s.d. Aguarela sobre papel.
 

"Acho que o mundo vai acabar em preto e branco, igual a um filme antigo.
Talvez, enquanto haja cores, consigamos sobreviver."
 

Neil Gaiman

(Autor britânico de contos, romances, banda desenhada e roteiros, n. 1960)
 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"O testamento do gato" - Poema de Luísa Ducla Soares



Regina Shadhan, 'Cat on laptop computer', n.d.


O testamento do gato 


Ai, se um dia eu morrer
não quero ser enterrado,
hei de ficar ao solinho,
em cima do meu telhado.

Levem-me três carapaus
e um pratito de leite.
Comer sempre bons petiscos
é o meu grande deleite.

Convidem três gatas pretas
com unhas bem afiadas,
Pois mesmo depois de morto
preciso de namoradas.

Ai, se eu um dia morrer
não me façam despedidas,
eu volto sempre de novo
que um gato tem sete vidas.


Luísa Ducla Soares,
in 'A Cavalo no Tempo', 2003




'A cavalo no tempo' de Luísa Ducla Soares;
Ilustração de Abigail Ascenso. Porto Editora -
Edição/reimpressão: 01-2015.


SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 5.° ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas.
A coleção Educação Literária reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura. (daqui)
 

  
Regina Shadhan, 'Three black cats playing with a mouse', n.d.
Acrylic on canvas, 20X20cm.
 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

"Quem sempre foi, sempre será" - Poema de Pedro Bandeira


Ralph Hedley
(English realist painter, woodcarver and illustrator, 1848–1913),
'Barred Out', 1896, Laing Art Gallery.


Quem sempre foi, sempre será


No passado e no futuro,
preste muita atenção,
para os dois não misturar,
pois só vai dar confusão!

Os políticos prometem,
se ganharem a eleição.
Se mentiram no passado,
no futuro mentirão!

Os ladrões não tem jeito,
pois em tudo põem a mão.
Se roubaram no passado,
no futuro roubarão!

Os cantores e as cantoras
vão cantar sua canção.
Se cantaram no passado,
no futuro cantarão!

As velhinhas tão doentes
tomam mel com agrião.
Se tossiram no passado,
no futuro tossirão!

Quem disser que estou errado,
que não tenho razão,
saiba que eu estou muito certo,
nisso eu sou um campeão!

Pois quem hoje é um boboca
não vai ter conserto não.
Quem foi bobo no passado,
no futuro é paspalhão.


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna


♥♥♥

Obras de Ralph Hedley


Ralph Hedley, 'The New Scholar', c. 1900/1906.
 
 

Ralph Hedley, 'The Monitor', 1898.
 
 
 
Ralph Hedley, 'The truant's log', 1899, Private collection.
 

 
Ralph Hedley, 'The Village School', 1912.
 
 
 
Ralph Hedley, 'Home Lessons', 1887.



"A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida."

 
 
[Frase atribuída ao filósofo e escritor romano Séneca (c. 4 a.C. – 65 d.C.)]

quarta-feira, 8 de julho de 2026

"O Menino Azul" - Poema de Cecília Meireles



Herbert William Weekes (British painter, 1841–1914), 'Fowl Talk', n.d.


O Menino Azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles
,
 em 'Ou Isto ou Aquilo', 1964.

♥♥♥ 

Obras de Herbert William Weekes
 
Herbert William Weekes,'The Odd One Out', n.d.
 
 
 
Herbert William Weekes, 'The congregation', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Old Friends', n.d.
 

 
Herbert William Weekes, 'The Unlikely Connoisseurs', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Meadow Matters', n.d.


Burro

O burro é um mamífero da família dos Equídeos. Os burros selvagens vivem em algumas das regiões mais desertas da terra e resistem bastante bem à escassez de água e de alimentos.
O burro selvagem (Eques africanus) vive no nordeste da África distinguindo-se duas subespécies, uma na 
Somália e outra no deserto da Núbia. Semelhantes no aspeto, ainda que um pouco maiores que o burro doméstico, estão em vias de extinção. Alimentam-se de ervas e bebem água salobra, tolerando bem quer as altas quer as baixas temperaturas. O burro selvagem da Núbia distingue-se do da Somália pelas riscas pretas que mostra nas patas. (daqui)

terça-feira, 7 de julho de 2026

"Mentir é muito feio" - Poema de José Jorge Letria

 


Paul Hermann Wagner
(German painter, 1852–1937), Title unknown, n.d.


Mentir é muito feio


Mentir é muito feio
porque faz mal à verdade,
deixa a verdade a meio
e instaura a falsidade.

Neste inundo de mentira
dela não faças a regra;
nem sempre nos absolvem
por aquilo que se nega.

E se a mentira é um vício, pode
tornar-se doença
que custa para se curar
muito mais do que se pensa.

O mentiroso altera
aquilo que vê e escuta;
a verdade e a mentira
nele estão sempre em luta.

E no fundo o mentiroso
a si mesmo se desmente
pois falseando a verdade
tudo à mentira consente.

José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.