quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"O macaco que queria voar" - Poema de Duda Machado

 
 
Gabriel von Max (Prague-born Austrian-German painter, and professor
of history painting, 1840–1915), Going to Sleepǃ, c. 1900


O macaco que queria voar


Quinho era um macaco diferente.
Não gostava de comer banana
Nem de ficar imitando gente.

Mas não podia ver passarinho
Que tinha vontade de voar.
Parecia até um maluquinho,

Se deitava, rolava no chão,
Saltava entre os galhos e guinchava.
Voar que é bom, não voava não.

Desistia, ficava calado,
A mão no queixo, um jeito sério
E o ar de quem está concentrado.

Aí é que parecia gente.
Nem se coçava, cruzava os braços,
Querendo pensar logicamente. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

"O Tigre" - Poema de William Blake

 


Eugène Delacroix (French Romantic artist, 1798–1863),
A Young Tiger Playing with Its Mother, 1830–1831,
Louvre Museum, Paris


O Tigre


Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria?

Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos?
Sobre que asas se atreveu a ascender?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração?

E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui?
Que martelo te forjou? Que cadeia?
Que bigorna te bateu? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores ?

Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou?

Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria?


William Blake
(1757–1827)
Tradução de Ângelo Monteiro



The Tyger
(also spelt The Tiger) by William Blake.
Copy A of Blake's original printing of The Tiger, 1794.
Copy A is held by the British Museum.



The Tiger


Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
When thy heart began to beat,
What dread hand forged thy dread feet?

What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dared its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry? 


William Blake
in Songs of Experience, 1794




Portrait of William Blake, 1807, by Thomas Phillips
(English painter, 1770–1845)



William Blake

 Poeta, pintor e gravador britânico, nasceu a 28 de novembro de 1757, em Londres, e aí veio a morrer em 1827. Foi praticamente ignorado pelos seus contemporâneos, exprimindo as suas visões místicas e encarnando o espírito romântico do artista profético, pessimista e revoltado. Em 1767 ingressou numa escola de desenho e aos 14 anos começou a aprender gravura. Casou-se aos 25 com Catherine Boucher e, juntos, trabalhariam na edição das obras de Blake. Utilizavam a técnica da gravura para a impressão dos poemas e das ilustrações e eles próprios encadernavam os livros. Em Canções da Inocência (1789), Blake revelava uma visão ingénua do Cristianismo, enquanto em Canções da Experiência (1794) assumia uma faceta de natureza mais profética e sombria. De 1804 a 1818 editou o poema Jerusalém, com cem gravuras. Recebeu depois uma encomenda de ilustrações para O livro de Job e iniciou uma outra série, em 1824, para A Divina Comédia, de Dante. Nos últimos anos da sua vida conquistou a admiração pelo seu trabalho, vindo a ser reconhecido como uma das mais importantes personalidades do Romantismo inglês. (daqui)

domingo, 30 de agosto de 2026

"Libera Me" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
Cupids - Allegory of Painting, 1760s, Hermitage Museum.



Libera Me


Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação. 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), in 'O Instituto'
[Revista científica e literária, entre 1852 e 1981];
in 'Poesia de Carlos Queirós' de Jorge de Sampaio,
Edições Panorama, Lisboa, 1966.




Carlos Queirós
 
 
Poeta, ensaísta e crítico literário português, José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu a 5 de abril de 1907, em Lisboa, e morreu a 27 de outubro de 1949, em Paris.
Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde conviveu com um grupo de escritores presencistas. Para o Secretariado Nacional de Propaganda editou algumas obras sobre o turismo português e organizou, na Emissora Nacional, onde era funcionário, vários programas de carácter nacionalista e de divulgação cultural e turística.
Dirigiu Panorama (1941) e Litoral (1944), tendo ainda colaborado em publicações como Contemporânea, Momento, Sudoeste, Cadernos de Poesia, Aventura e Revista de Portugal.
Organizou, em 1942, com António Pedro e Jorge de Sena, uma "Homenagem a Arthur Rimbaud". Para além de amigo e o responsável pelo conhecimento travado entre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós, sua tia, que resultou numa relação amorosa, foi também um acérrimo exaltador da memória daquele poeta (cf. "Carta à memória de Fernando Pessoa" e "Homenagem a Fernando Pessoa", ambas publicadas na Presença, em 1936), sendo um dos herdeiros da estética pessoana, constituindo, para David Mourão-Ferreira, um "privilegiadíssimo elo na cadeia que estabelece a ligação entre os poetas de Orpheu (em particular Fernando Pessoa, e nomeadamente o Pessoa ortónimo) e algumas das camadas que só na segunda metade do século principiaram a manifestar-se." (MOURÃO-FERREIRA, David - preâmbulo a Epístola aos Vindouros, Lisboa, Ática, 1989).
Poeta que transcende a etiqueta de presencista e cujo papel basilar na estética do segundo modernismo ainda não foi suficientemente avaliado, a sua obra compõe, também segundo o mesmo crítico, "uma das mais fascinantes cúpulas da poesia da primeira metade de século".
Publicou, entre outros, os livros de poemas Desaparecido (1935) e Breve Tratado de Não-Versificação (1948). (daqui)
 
 

domingo, 23 de agosto de 2026

"A Voz" - Poema de Maria Teresa Horta



Paula Rego (British-Portuguese visual artist, 1935–2022), Self-portrait in red, 1966.
Óleo, lápis de cera e colagem de papel sobre tela, 152 × 152 cm,
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



A Voz


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei

para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.


Maria Teresa Horta (1937–2025), in "As Palavras do Corpo"
(Antologia de poesia erótica), 2012
 
 
 
Paula Rego, The Artist in Her Studio, 1993, acrylic paint on canvas.



“Não é agradável viver sob uma crueldade tão grande. Interesso-me por muitas coisas, mas sou uma mulher por isso vejo as injustiças que as mulheres têm de suportar e tento destacá-las, de forma a ajudar. Não me vejo como uma pintora feminista.”
 

Paula Rego, 26 de janeiro de 2021, ao "Observador"(daqui)
 
 
Paula Rego em 1967, com 32 anos  (daqui)
 

Pintora portuguesa radicada em Inglaterra, Paula Figueiroa Rego nasceu a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa e morreu a 8 de junho de 2022, em Londres.

Paula Rego formou-se na Slade School of Art e, nos inícios dos anos 60 do século XX, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

A sua primeira aparição perante o público lisboeta deu-se em 1961, na II Exposição da Gulbenkian, tendo o seu trabalho sido bem acolhido pela crítica. O surrealismo e o expressionismo influenciaram estes primeiros desenhos e colagens. Passou pelo movimento da pop art inglesa, conservando, contudo, uma temática muito pessoal. A leitura dos romances de Henry Miller marcou igualmente o seu percurso, ao abordar temas do imaginário erótico feminino.

Em 1965 produziu vários trabalhos relacionados com acontecimentos chocantes da vida política ibérica - Cães de Barcelona, Gorgon, Retrato de Grimau, Manifesto (por uma causa perdida), temática já anunciada em 1961 com Salazar a vomitar a Pátria. Faz uma leitura pessoal de outras obras de arte e das suas memórias, integradas em processos narrativos em que o mundo da infância aparece como um lugar lúdico de perversidade e algum humorismo. Esta "narratividade" acentua-se nos anos 80. Nos anos 90, assume a orientação figurativa de raiz temática portuguesa ou atinge ainda uma dimensão universal abordando a condição feminina (Série de mulher-cão, Marborough Gallery, 1992).

Paula Rego nunca se desligou da vida artística portuguesa, expondo regularmente entre nós, mas também noutros países, como aconteceu, por exemplo, nas cidades de Amesterdão, Paris, Lima e Bruxelas. Também já representou o Reino Unido em certames como a Bienal de S. Paulo. Em maio de 1997, no Centro Cultural de Belém, foi inaugurada uma importante exposição retrospetiva da sua obra, com 136 trabalhos, cobrindo trinta e seis anos de carreira, e, em outubro de 2004, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, acolheu uma seleção da obra de Paula Rego, produzida desde 1997. Nesta mostra, de cerca de 150 obras, a artista apresentou, pela primeira vez, os desenhos preparatórios de algumas das suas pinturas, destacando a importância do desenho no seu trabalho. Em 2001, foi publicado, numa edição limitada, numerada e assinada, o livro As Meninas, uma obra conjunta da artista e de Agustina Bessa-Luís.

Ao longo da sua carreira foi distinguida com vários prémios, como: Prémio Soquil (1971); TWSA Touring Exhibition, Newlyn Arts Centre, Penzance (1984); Prémio Benetton/Amadeo de Souza-Cardoso, Casa de Serralves, Porto (1987); Prémio Turner 89, Londres (1989); Prémio Bordalo da Casa da Imprensa 1997, Lisboa (1998); Prémio AICA'97, Lisboa (1998); Prémio de Consagração Celpa/Vieira da Silva (2001). (daqui)

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Como 'tratar' os gatos" - Poema de T. S. Eliot

 


Nancy Spielman
, 'Dog and Cat'


Como “tratar” os gatos


De tudo quanto é gato aqui já leste;
Por isso agora o meu conselho é este:
Não precisas de intérprete, ninguém,
Que diga o caráter que eles têm.
Aprendeste bastante e sabes, pois,
Que eles são parecidos com nós dois
E quantos outros mais que vêm a fio
Cada qual com seu tipo e seu feitio.
Pois alguns são sensatos, outros, loucos;
Muitos são maus, são bons uns poucos;
E assim como há piedosos, há perversos –
Mas todos cabem por igual em versos.
Viste-os tanto a brincar quanto em quizília,
E aprendeste seus nomes de família,
Seus hábitos, seus habitats, seus atos:
Mas
Afinal como se “tratam” Gatos?

Dou-te já na memória um bom puxão,
Dizendo-te que UM GATO NÃO É CÃO.

Os Cães fingem que gostam de baderna,
Mas latem só, ameaçando a perna;
Pois um Cão, visto em sua conjuntura,
É o que pode chamar-se uma alma pura.
Não falo dos Pekins e as raças raras
Que são exemplos de caninas taras.
O Cão comum e citadino, ao passo,
Inclina-se a bancar sempre o palhaço,
E em vez de demonstrar sinais de orgulho,
De sua dignidade sofre o esbulho.
Cai, com facilidade, na esparrela:
Basta levar tapinhas na barbela,
Cafuné no pescoço, erguer de pata,
Que fará zigue-zague e zaragata.
Faz parte dos palermas que não mordem
E acatam qualquer grito, qualquer ordem.

Devo, outra vez, lembrar-te deste facto:
Um cão é um cão, porém UM GATO É UM GATO.

Com os Gatos, dizem, que é regra bastante
Só lhes falares se te falam antes.
Quanto a mim, o princípio desacato
E acredito que sei tratar um gato,
Embora tenha em mente, na verdade,
Que ele ressente a familiaridade.
Em geral, eu me inclino com recato,
E digo: Como passa, SENHOR GATO?
Porém se é um desses gatos, meu vizinho,
Que encontro a três por dois pelo caminho,
É claro então que reformulo o trato
E digo simplesmente: PASSA, GATO!
(Ouvi dizer que o nome dele é Gomes,
Mas não cheguei ainda a dizer nomes.)
Antes que qualquer gato condescenda
Em tratar-te de amigo, uma oferenda
É necessária, qual sinal de aceite.
Algo assim como um bom prato de leite.
Daí então podes partir e, às vezes,
Dar-lhe caviar e bifes hamburgueses,
Ora um naco de carne, ora peixe em jornal,
Que ele sempre tem seu gosto pessoal.
(Conheço um gato que, se está com febre,
Em vez de canja quer passar a lebre,
E quando acaba ainda lambe as dobras
Das unhas para aproveitar as sobras.)
Um gato é alguém que adquiriu direito
De esperar essas mostras de respeito.
E assim, embora um longo tempo tome,
Um dia poderás chamar-lhe um NOME.

É pão pão, queijo queijo (mas no prato):
Assim é que se deve “tratar” Gato.


T. S. Eliot (1888–1965), 'Os gatos'
Tradução de Ivo Barroso



Nancy Spielman, Down Under


"Se eu prefiro os gatos aos cães é porque não existem gatos policiais."

Jean Cocteau 

[Jean Cocteau, escritor francês e personalidade multifacetada da vida cultural francesa, nascido em 1889 e falecido em 1963, abordou sucessivamente o futurismo, o surrealismo e o cubismo. Transpôs para o romance (Thomas l'imposteur, 1923) e para o teatro (Les Parents terribles, 1938) a sua arte poética, tendo ainda ilustrado algumas das suas obras. Enquanto músico, ator e cineasta, realizou La Belle et la Bête (A Bela e o Monstro, 1946), protagonizado pelo notável ator Jean Marais, Orphée (1950) e Le Testament d'Orphée (1960).] (daqui)
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

"A mão a tapar a boca" - Poema de José Jorge Letria



Maria Wunsch
(Austrian painter, 1862–1898), 'A Little Secret', 1894.


A mão a tapar a boca 


Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

Maria Wunsch, 'Little girl with a meadow flowers bouquet', n.d.


"Para nós, as crianças revelaram que disciplina é resultado somente de um desenvolvimento completo, 
do funcionamento mental auxiliado pela atividade manual."

Maria Montessori
 (1870–1952),  
"Para Desenvolver o Potencial Humano",
 Papirus Editora; 2003.
 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

"Vai já pra dentro, menino" - Poema de Pedro Bandeira



Ralph Hedley (British painter, woodcarver and illustrator, 1851–1913), 
'Kept in', 1908.


Vai já pra dentro, menino


Vai já pra dentro menino!
Vai já pra dentro estudar!
É sempre essa lengalenga
Quando o que eu quero é brincar...

Eu sei que aprendo nos livros,
Eu sei que aprendo no estudo,
Mas o mundo é variado
E eu preciso saber tudo!

Há tempo pra conhecer,
Há tempo pra explorar!
Basta os olhos abrir,
E com o ouvido escutar.

Aprende-se o tempo todo,
Dentro, fora, pelo avesso,
Começando pelo fim
Terminando no começo!

Se eu me fecho lá em casa,
Numa tarde de calor,
Como eu vou ver uma abelha
A catar pólen na flor?

Como eu vou saber da chuva
Se eu nunca me molhar?
Como eu vou sentir o sol,
e eu nunca me queimar?

Como eu vou saber da terra,
Se eu nunca me sujar?
Como eu vou saber das gentes,
Sem aprender a gostar?

Quero ver com os meus olhos,
Quero a vida até o fundo,
Quero ter barros nos pés,
Eu quero aprender o mundo!


Pedro Bandeira,
"Mais respeito, eu sou criança!"
Ed. Moderna
 
 

Ralph Hedley, 'Breezy Day', 1895.


"A maior dor do vento é não ser colorido."
 
Mário Quintana, Poesia Completa, RJ: Editora Aguilar, 2005.
Excerto de Leitura Dinâmica, in Porta Giratória, p.788

♥♥♥