I
Quantas tardes, eu vou, sozinho, passear
Ao longo do brumoso e soluçante mar...
E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas.
Entre as rochas que estão de espuma coroadas,
Tristes habitações de pobres pescadores...
Telhados pra abrigar soluços, ais e dores.
São choupanas onde há postigos e janelas,
Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas,
Navios onde vai ao leme a Saudade...
Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade…
II
Sente-se palpitar o coração do Oceano
Que pela lua tem um grande amor humano.
Tremem as ondas num ataque de histerismo.
E nas gaivotas há a tentação do abismo,
Tão altas elas vão, num voo misterioso...
Assopra, desgrenhado, um vento lacrimoso...
E nas correntes d'ar que as ondas arrefecem
Vibram as sensações que uns nervos estremecem…
Sensações que vão ser inéditas imagens
No cérebro do mar, feito para as sondagens.
Como uma asa negra, a triste cerração
Desce do céu, cheia de horror e de aflição!
E um medo sobressalta as ondas que se atiram
D'encontro à erma praia, onde, chorando, expiram.
Os promontórios nimba uma auréola d'espuma.
Relâmpagos de dor incendeiam a bruma,
E, num clarão de incêndio, ela se transfigura...
Depois, a noite fica ainda mais escura,
E as águas vão pequenos barcos devorando.
Rasgam o ar terríveis ais de quando em quando!
Beijos de despedida e últimos abraços,
A caminho da Paz, percorrem os espaços.
Furam a espuma mãos crispadas de terror,
E há corpos a boiar, donde fugiu a Dor...
E, qual fantasma sobre as tenebrosas ondas.
Lívido e amortalhado em trevas hediondas,
Vê-se um navio enorme e negro a naufragar.
Onde entra, num rugido amargo, o vasto mar!...
III
Um vulto esguio de mulher, todo de preto,
Abraça, sobre a praia, um trágico esqueleto
Que uma onda, com amor, nos seus braços lançou,
Num gesto d'alva espuma onde o luar cintilou...
E a noite vaga sobre as águas repousada,
Sentiu a Palidez torná-la desmaiada...
E um frémito de dor, no ar, resplandeceu.
E depois, todo o mar antigo escureceu.
E a treva adquiriu tão grande intensidade.
Que me dava a impressão de estranha claridade
Que, em vez de deixar ver, meus olhos deslumbrava.
E o mar tinha uma voz profundamente cava...
E a bruma, num suor gélido d'agonia.
Aos cavernosos céus, fantástica, subia...
Enquanto o mar beijava os íngremes rochedos,
No desejo que prende o vento aos arvoredos.
E os negros temporais, no horizonte, passavam
E as destemidas naus, com cólera, insultavam!
E aquele vulto se escondeu nas trevas densas
Que abrigam, com amor, as aflições imensas...
E a noite trespassou a crua luz dum grito
Que ampliou até Deus a sombra do Infinito!...
IV
Velhos homens do mar, ó rudes marinheiros,
Filhos dos temporais, irmãos dos nevoeiros.
Confidentes do amor que as ondas ilumina.
Tradutores da língua estranha da neblina...
Ó leitores do livro azul do Firmamento.
Intérpretes do luar, das nuvens e do vento!...
Almas rudes que têm a energia do mar.
Cabelos brancos numa chuva de luar...
Ó frontes ideais batidas do nordeste!
Vagos olhos a olhar toda a amplidão celeste...
Ó perfis onde morre o clarão do sol-pôr
Que dentre as ondas sai numa explosão de dor!
Marinheiros da Grécia antiga que assististes
Do alto das vossas naus, ansiosos e tristes,
Ao suicídio de Safo e ao canto das Frinés
E às grandes comoções que agitam as marés!...
E que vistes nascer, num dia excecional,
Vénus — esse sorriso eterno e universal —
Duma onda que os clarões da aurora fecundaram.
Quando as águas e a luz, famintas, se beijaram.
Num desejo d 'amor que sempre se traduz
Numa árvore que dá flor bem antes de ser cruz.
Num desejo ideal, quimérico, imprevisto
Que foi o pai de Pã e foi o avô de Cristo!...
Velhos homens do mar de todos os países,
Ó rudes corações cheios de cicatrizes,
Abertas pela mão cruel da Nostalgia...
Almas feitas de treva e de melancolia.
Inquietas, sempre a olhar o fundo dum abismo
Que estremece num grande e eterno paroxismo,
Por sobre o qual vagueia a sombra de Virgínia,
Leve como o perfume etéreo da glicínia.
Branca como, no inverno, a gélida camélia,
Levando ao lado a sombra pálida de Ofélia;
Cabelos soltos, alma feita de amargura.
Olhos fenomenais onde canta a Loucura!...
E as duas sombras vão a chorar e a cantar.
Como outrora Jesus, sobre as águas do mar...
Homens que adormeceis no seio das tempestades!
(Misteriosas paixões, ignotas ansiedades...)
Aos meus ouvidos vem a voz da Natureza
Cheia da vossa amarga e trágica tristeza...
E sinto na minh'alma a grande solidão
Que, no meio do mar, vos toma o coração!...
Eu vivo, como vós, no infinito e no vago
Que há num dorido olhar e num' nevoento lago;
Numa onda a mudar-se em névoa transcendente,
Nos ermos animais que sofrem como a gente...
Eu vivo, como vós, a vida extraordinária
Duma vela, ao luar, longínqua e solitária...
A existência subtil da vaporosa espuma,
Em cujos olhos brilha a tua alma, ó bruma!
E sinto, como vós, o desespero insano
Que eleva até à lua as ondas do Oceano!
E a revolta sagrada, a cólera bendita
Que sobre a terra, em água, as nuvens precipita...
Que faz gritar, no espaço, o vento desgrenhado.
Um réprobo talvez, um doido, um condenado...
E sou filho também da grande tempestade
Onde há relâmpagos d'amor e de verdade!
Teixeira de Pascoaes, in "Para a Luz", 1904.
"Tenho esperança de que um maior conhecimento do mar, que há milénios dá sabedoria ao homem,
Oceanógrafo e ativista do ambiente nascido a 11 de junho de 1910, em França.
O comandante Jacques-Yves Cousteau notabilizou-se pelas suas
investigações subaquáticas e pelos seus livros e documentários
televisivos, largamente difundidos.
Em 1950 tornou-se comandante do Calypso,
um draga-minas convertido em navio oceanográfico que se tornaria
conhecido mundialmente, e em 1957 foi nomeado diretor do museu
oceanográfico do Mónaco. Foi eleito membro da Academia Francesa em 1988. Faleceu em 1997.
O seu empenho no estudo dos oceanos produziria resultados científicos
de vulto, e levá-lo-ia também a desenvolver experiências e técnicas
revolucionárias. Em 1943 inventou, com Émile Gagnan, o aqualung
ou escafandro autónomo, isto é, um escafandro que não dependia do
fornecimento de ar a partir da superfície, assim proporcionando aos
mergulhadores possibilidades completamente novas de exploração do mundo
subaquático.
Cousteau foi também o inventor de um processo para
o uso da televisão debaixo de água. Promoveu ainda, a partir de 1962,
várias experiências de permanência prolongada debaixo de água, nas quais
os mergulhadores chegaram a estar submersos durante um mês.
Cousteau foi desde sempre um apaixonado pelas filmagens da vida
subaquática. Ao longo da sua vida, fez mais de uma centena de
documentários. Le Monde du Silence (1955), a sua primeira longa-metragem, que realizou com Louis Malle como assistente, valeu-lhe a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1956.
Produziu ainda outros filmes, entre os quais Histoire d'un poisson rouge, galardoado com o prémio para a melhor curta-metragem no Festival de Cannes em 1958. (daqui)
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