terça-feira, 5 de maio de 2026

"Rio abaixo" - Poema de Olavo Bilac



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
"The Blue Boat', 1892, Museum of Fine Arts Boston.

["The Blue Boat" is a work by Winslow Homer done in his favorite medium of watercolor, measuring about 15.1 by 21.5 inches. It is an outdoor scene depicting 2 men fishing from a small blue canoe. It is a work that is alive with color and motion, and the artist's perspective of a viewer some distance away allows for the addition of rich detail for the sky, the water, and the land.
The watercolor work was completed in 1892. It is thus a later product of his long career in naturalism, done after he had earned a reputation as one of the great American painters.
As an independent and successful artist, Homer painted the subjects of his choice. He lived near the sea for most of the latter half of his life, and many of his major works reflect his lifelong interest in related topics such as the sea, beaches, boats, and bathers.]
 (daqui)
 

Rio Abaixo


Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.


Olavo Bilac
, in "Poesias, 1884/1887", 1ª. ed. 1888
(Inclui Panóplias - Via-Láctea - Sarças de fogo),
Poema integrante da série Sarças de Fogo.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Arte Poética II" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter, 1848–1901),
'Lecture au jardin' ('Dos damas conversando en una terraza'), 1883.


Arte Poética II

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia a qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exatamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exatamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.

E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.


Arte Poética II foi publicado pela primeira vez em 21 de Janeiro de 1963. 
Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em Geografia, 1967. (daqui)
 

"Lagoa" - Poema de Carlito Azevedo



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), 'Young Girl with a Cat', 1892,
oil on canvas 55 x 46 cm, Private Collection.
 

Lagoa


Tendo às costas 
(como asas pensas que a tarde 
abre e fecha) o dorso cobreado da 
montanha e os reflexos de cobre da lagoa, 
a menina com o gato traduz, à mais que perfeição, 
os veios profundos, invisíveis e subterrâneos, 
a nos unir a quem amamos, e quando ele lhe 
estira sobre o colo as patas ponteadas, 
ela, para não acordá-lo, até seu 
olhar põe na ponta dos pés.
 

Carlito Azevedo
 (n. 1961),
 in 'Sob a noite física: poemas'.
Rio de Janeiro, Sette Letras, 1997. 
 

domingo, 3 de maio de 2026

"O Dia das Mães" - Poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni



Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894–1978),
'Home for Thanksgiving - Mother and Son Peeling Potatoes', 1945.
Norman Rockwell Museum

[About this work: Norman Rockwell's milkman, Richard Hagelberg, was back on his dairy farm in Arlington, VT for the first time in five years after serving in the 9th Army Air Corps during WWII. Rockwell requested that he and his mother, Sara, pose for his latest Thanksgiving painting. Initially, the returned soldier declined but later came around and it resulted in this iconic illustration. (daqui)
This painting appeared on the cover of The Saturday Evening Post published November 24, 1945.]


O Dia das Mães


Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois… perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la…

Assim parti, e me abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar: 'Sou eu!'

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelos braços dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz: 'Meu filho!', e chora.

E treme e chora e como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez do último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que beijas como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um ser mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!
 (Jornalista e poeta brasileiro, 19192008) 
 

"Obrigado, mamãe!" - Poema de Pedro Bandeira



William J. Glackens (American realist painter, 1870-1938),
'The Artist's Wife and Son', 1911, oil on canvas, 91.4 x 121.9 cm,
Snite Museum of Art.


Obrigado, mamãe!


Hoje é o melhor dia do ano,
É um dia especial.
É mais que aniversário!
Hoje é o Dia das Mães!
É tão bom quanto o Natal!

Vou muito bem na escola
E não fiz nada de errado
Pra ter que bajular.
Então deve ser verdade
Isso que eu quero falar:

Obrigado, mamãe,
Pelas noites mal dormidas,
Pelas horas tão sofridas
Que você me dedicou.

Obrigado, mamãe,
Por esse amor tão profundo,
Por me ter posto no mundo,
Por fazer tudo o que eu sou.

Muito obrigado, mamãe!
Obrigado por seu carinho,
Por todo esse amor, todinho,
Que você deu para mim...
Obrigado, mamãe...


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna


♥♥♥

[O Dia das Mães também designado de Dia da Mãe é uma data comemorativa em que se homenageia a mãe e a maternidade. Em alguns países é comemorado no segundo domingo do mês de maio (como no Brasil). Em Portugal é comemorado no primeiro domingo do mês de maio.]
 

sábado, 2 de maio de 2026

"Minha Mãe" - Poema de Vinicius de Moraes


 

Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935)
 "Little Brother", c. 1905.


Minha Mãe


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
 

Vinicius de Moraes
(1913–1980),
in "O Caminho para a Distância",
Schmidt Editora, 1933. 

"A triste história do zero poeta" - Poema de Manuel António Pina



John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
"What's your name?", 1876.
 

A triste história do zero poeta 


Numa certa conta havia
um zero dado à poesia
que tinha um sonho secreto:
fugir para o alfabeto.

Sonhava tornar-se um O
nem que fosse um dia só,
ou ainda menos: só
o tempo de dizer: «Oh!»

(Nos livros e nas seletas
o que mais o comovia
eram os «Ohs!» que os poetas
metiam nas poesias!)

Um «Oh!» lírico & profundo,
um só «Oh!» lhe bastaria
para ele dizer ao mundo
o que na alma lhe ia!

E o que na alma lhe ia!
Sonhos de glórias, esperanças,
ânsias, melancolia,
recordações de criança;

além de um grande vazio
de tipo existencial
e de uma caixa que o tio
lhe pedira para guardar;

e ainda as chaves do carro
e uma máscara de entrudo...
Não tinha bolsos, coitado,
guardava na alma tudo!

A alma! Como queria
gritá-la num «Oh!» sincero!
Mas não passava de um zero
que, oh!, não se pronuncia...

Daí que andasse doente
de grave doença poética
e em estado permanente
de ansiedade alfabética.

E se indignasse & etc.
contra o destino severo
que fizera dele um zero
com uma alma de letra!

Tanta ambição desmedida,
tanto sonho feito pó!
E aquele zero dava a vida
para poder dizer «Oh!»...


Manuel António Pina,
in "Pequeno Livro de Desmatemática",
Assírio & Alvim




"Pequeno Livro de Desmatemática" de Manuel António Pina,
com desenhos de Pedro Proença. Assírio & Alvim;
 edição/reimpressão: 03-2009
 

SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Com versos do poeta Manuel António Pina e desenhos do pintor Pedro Proença, este "Pequeno Livro de Desmatemática" pode tornar-se um clássico da literatura infantil em português. A curiosidade e a imaginação de Pina (e de Proença) dão-nos a ler a matemática de forma divertida. Os problemas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, histórias de números (reais ou imaginários), do p, etc., são resumidos pelo próprio autor na introdução, da qual se transcreve:

"Este pequeno livro está cheio de jogos com palavras e com alguns conceitos simples da matemática (por pouco ia a escrever a palavra com letra maiúscula!). Eu gosto de palavras. E de matemática também. Por isso brinco com elas. Brincar é uma coisa muito séria: quem quereria brincar com gente ou coisas de que não gosta? Este livro é um livro de "desmatemática" porque, aqui, os personagens da matemática, os números, os sinais, as contas, são tratados como gente, têm sentimentos, sonhos. Até fraquezas e defeitos. Como tu e como eu. É um jogo que eu gosto muito de jogar: imaginar como as coisas seriam se fossem ao contrário. Nem imaginas como o "Reino do Des" é às vezes divertido! Mas, e apesar de este não ser nem, valha-me Deus, querer ser um compêndio de Matemática (agora já se justifica, se calhar, a letra maiúscula), e ser apenas um pequeno livro de versos (alguns com teoremas escondidos), imaginei que, se tu conhecesses melhor dois ou três dos personagens deste livro, talvez a leitura dele pudesse ser um pouco mais interessante. Por isso te venho apresentar o amimigo zero (uma verdadeira nulidade, pensam alguns; o que eles se enganam!), os números negativos, os números imaginários, os números irracionais (raio de nome!), o misteriosíssimo e famosíssimo p. Talvez, quem sabe?, depois de teres conhecido estes, tu queiras conhecer outros. A maior parte das pessoas não calcula (a palavra calcular vem a propósito) a gente curiosa que vive na matemática!" (daqui)