quinta-feira, 13 de agosto de 2026

"O gato da ilha de Man" - Poema de Charles Bukowski



Jacobus van Looy
(Dutch painter and writer, 1855–1930),
"White Cat in an open window", 1895. Oil on canvas, 126.4 x 75 cm.
Frans Hals Museum
, Haarlem, Netherlands.
 
[This painting by Van Looy of his own cat is remarkably light, lending it a summery feel. The sunlight is reflected off the cat’s chest. Van Looy usually painted in quite dark colors, but here he uses light tones and wide, smooth brushstrokes. Van Looy never completed this piece. For this reason, the layout has remained sketchy and the painting lacks a coat of varnish. This impressionistic technique was common among many contemporaries, such as Isaac Israels and George Hendrik Breitner. Van Looy, however, preferred paintings which were somewhat more complete. The reason why he never completed this painting is unknown.] (daqui)


O gato da ilha de Man

Será que erramos de novo?
rimos menos e menos,
ficamos mais tristemente sãos.
Tudo o que queremos
a ausência dos outros.
Até mesmo a música clássica favorita
foi ouvida demais e
todos os bons livros foram
lidos...

Há uma porta de vidro
deslizante
e lá fora
um gato branco da ilha de Man
está sentado com um olho vesgo
sua língua saindo por um
canto para fora da boca.
Me inclino
e abro a porta
e ele vem correndo para dentro
as pernas da frente correndo
em uma direção,
e as traseiras
em outra.

Ele dá a volta no
quarto com um ângulo doentio
para onde estou sentado
sobe com as garras pelas minhas pernas
meu peito
põe as patas dianteiras
como se fossem braços
sobre meus ombros
enfia seu focinho
no meu nariz
e olha para mim
tão bem quanto pode.
também perplexo,
eu olho para ele.

Uma noite melhor agora,
meu velho,
um momento melhor,
um jeito melhor agora
presos juntos
desse jeito
aqui.

Sou capaz
de sorrir de novo
quando de repente
o gato da ilha de Man
salta longe
dispersando pela
saída acarpetada
caçando alguma coisa que agora
nenhum de nós
consegue ver.


Charles Bukowski
, "The pleasures of the damned";
in "Vida desalmada" - Florianópolis: Spectro, 2006.
Tradução Fabio Soares e Gerciana Espíndola. 


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

"Eclipse" - Poema de António Nobre



Antoine Caron (French master glassmaker, illustrator, Northern Mannerist painter,
1521–1599), "Dionysius the Areopagite Converting the Pagan Philosophers"
("Astronomers Studying an Eclipse"), c. 1575, J. Paul Getty Museum.


Eclipse


Naquela tarde eu contemplava, ansioso,
A lua das marés:
Ia ver um fenómeno curioso,
Pela primeira vez.

Desde as sete horas que eu me achava pronto,
Pois vinha no jornal
Que se daria, às sete e meia em ponto,
O eclipse total.

Na praia, Miss! Àquela hora havia
Enorme sensação:
Entusiasmada, a gente discutia
Com o óculo na mão.

E como, é certo, com a vista nua,
Tão fraca e tão subtil,
Tu não podias observar a lua,
Astrónomo gentil.

Um moço poeta, rouxinol das praias,
Um óculo ofereceu,
A ti, meu casto Ptolomeu de saias,
Geómetra do céu!

Assestaste-o, mas nada: uma imprevista
Mancha aos teus olhos sai,
Pois que estava graduado pela vista
Do teu velhinho pai...

Da praia, entanto, na deserta areia,
Caía o luar, a flux,
E nos céus fulgurava a lua cheia,
Cheia de tanta luz,

Que tu, imaginando ver da aurora
O lúcido arrebol,
Disseste: «Estou capaz de abrir, agora,
O meu chapéu de sol...»

Única frase que tombou, criança,
Do róseo lábio teu,
Porque, depois – que súbita mudança,
Tornou-se escuro o céu...

E a lua, a pouco e pouco desmaiando,
Sumia-se no ar,
Como se um monstro a fosse devorando,
Na sombra... devagar...

À luz da lua sucedeu a treva,
Treva de horror sem fim,
Cor dos teus olhos, deliciosa Eva,
Meu pálido jasmim!

E ao ver-me só nas trevas, de repente,
Clamei por ti, clamei...
Interrogando a multidão, a gente,
Em vão! Não te encontrei!

Ah, bem dizem as lendas, os adágios,
E as bruxas de Sabbat,
Que os eclipses da lua são preságios,
Sinais de coisa má!

Por isso o Mal com sua garra adunca
Me separou de ti,
Pois que tu nunca mais me viste, nunca!
E eu nunca mais te vi...

E, hoje, nas trevas sepulcrais e calmas,
Eu vivo, por meu mal:
É que também se deu em nossas almas
O eclipse total!
 

24 de Setembro de 1884

António Nobre
,
"Primeiros Versos e Cartas Inéditas",
Org., pref. e notas por Viale Moutinho
Lisboa, Editoral Notícias, s.d.


 
António Nobre
 
 
 António Nobre

«Quando ele nasceu, todos nós nascemos», disse Fernando Pessoa a propósito de António Nobre.

Poeta português do século XIX, António Pereira Nobre nasceu no Porto em 1867 e faleceu a 18 de março de 1900 na Foz do Douro, vítima de tuberculose.

De Verlaine António Nobre herdou o simbolismo francês e de Almeida Garrett o neogarretismo.

Em vida publicou apenas uma obra (1892). Numa linguagem poética, que assimila a vivência coloquial provinciana e emocional.  foi publicado pela primeira vez em 1892, em Paris, onde estudava António Nobre, pela Léon Vanier Editeur. é segundo o próprio autor «o livro mais triste que há em Portugal». Hoje é considerada como umas das obras mais emblemáticas do fim de século português.

Apesar de morrer jovem, com apenas 33 anos, António Nobre deixou uma marca indelével na poesia nacional e uma referência obrigatória de toda a Literatura Portuguesa. Quem não conhece, por exemplo, o seu poema «Lusitânia no Bairro Latino»?

Postumamente seriam publicados vários inéditos de António Nobre como: Despedidas (1985-1899), publicado em 1902, Primeiros Versos (1882-1889), publicado em 1921, e Cartas Inéditas de António Nobre, publicado em 1921, entre outras.

Em maio de 2001, a Imprensa Nacional dedicou-lhe um «Essencial Sobre», de autoria de José Carlos Seabra Pereira e no ano seguinte, em 2002, a editora pública publicou O Ritmo na Poesia de António Nobre, a tese de licenciatura em Filologia Românica que Luís Filipe Lindley Cintra apresentou à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1946.

Recordamos aqui o artigo de autoria de Luís Miguel Queirós, publicado no jornal Público, a 18 de março de 2000, aquando do centenário da morte de António Nobre.

António Nobre viveu como um enigma. Morreu faz hoje cem anos. Escreveu um dos livros maiores da literatura portuguesa, ‘‘Só’’. Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro.

Quantos livros produziu a poesia portuguesa do século XIX que coubessem sem hesitação numa escolha exigente da literatura universal? Não mais do que dois ou três.

O ‘‘Livro de Cesário Verde’’, sem dúvida, e talvez os ‘‘Sonetos’’ de Antero. Se arrumarmos a ‘‘Clepsidra’’ de Pessanha no século XX, resta apenas o ‘‘Só’’, de António Nobre.

Cem anos decorridos sobre a morte do poeta – a 18 de Março de 1900 –, já não serão muitos os que lhe recusem lugar ao lado dos maiores. Mas se o reconhecimento começa a ser consensual, nem todos o admiram pelas mesmas razões. Alguns glorificam-lhe o saudosismo nostálgico, outros apreciam a paleta impressionista dos seus retratos do Portugal provinciano, agrário e piscatório; uns sublinham a força inovadora do seu tom coloquial e dos seus versos recheados de nomes próprios, outros preferem ver nele o poeta maldito, ostentando o seu provocatório narcisismo na pátria parisiense do ‘‘mal de vivre’’ finissecular.

Mas talvez a prova mais segura da perenidade de Nobre seja, afinal, o modo como a sua lição foi sendo reinventada por poetas posteriores, numa linha nem sempre fácil de rastrear, mas que, passando certamente por Vitorino Nemésio e Pedro Homem de Mello, é ainda visível em autores só recentemente revelados, como Jorge Gomes Miranda. Todavia, há pouco mais de vinte anos, Alexandre Pinheiro Torres ainda podia escrever, a propósito de Nobre, estas linhas indignadas: ‘‘em 1892 publica o ‘Só’, um dos maiores livros da literatura portuguesa, que continua, porém, a ser largamente incompreendido ou desvalorizado pela infinita cretinice dos juízes das letras nacionais’’.

E Vergílio Ferreira abre com estas palavras um texto publicado, em 1992, na Colóquio Letras: ‘‘Coitado do Lusíada. Toda a diferença é um estigma e há que pagar por isso o devido preço. Toda a qualidade é ofensiva e há que esperar, se possível, que ela se perdoe pela própria qualidade. Depois de cem anos de muita injúria, a diferença de Nobre ainda não está paga e ainda se lha não perdoou.’’

Talvez haja um certo exagero neste diagnóstico. Por um lado, os leitores de Nobre nunca cessaram de engrossar, como o confirmam as sucessivas edições do ‘‘Só’’, que se contam já por dezenas. E se a publicação do livro originou, à data, paródias e escárnios, não foi preciso esperar muitos anos para que lhe prestassem a devida homenagem dois especialistas na arte de serem incompreendidos pelo seu próprio tempo: Pessoa e Sá-Carneiro. Sobretudo o segundo, que lha prestou indiretamente em muitos dos seus próprios versos, e expressamente no poema a que deu o título de ‘‘Anto’’.

Pessoa, esse, escreveu: ‘‘De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas’’. Mas neste elogio, como em tudo o resto que escreveu sobre o poeta, pressente-se a sua incompreensão dos mais profundos contributos de Nobre para a renovação da linguagem poética portuguesa. Nos seus breves 32 anos de vida, António Nobre escreveu o ‘‘Só’’ – ainda viu sair a segunda edição revista, em 1898 – e deixou inéditos um considerável número de poemas, postumamente publicados em ‘‘Despedidas’’ (1902), cuja edição original foi prefaciada por Sampaio Bruno, ‘‘Primeiros Versos’’ (1921) e ‘‘Alicerces’’ (1983).

Nobre começou a escrever muito novo. Os seus primeiros poemas datam, tanto quanto se sabe, dos 14 anos. E nada há, nessa produção juvenil, que traia uma especial disposição para a tristeza ou a melancolia. Em Fevereiro de 1885, com 17 anos, dirige mesmo a um amigo estas salutares recomendações: ‘‘aconselho-te a leitura das obras modernas, daquelas que não levam às idealizações metafísicas do romantismo; mas sim às que nos dominam por meio de sentimentos novos, que são a sinceridade, a alegria, a honestidade, enfim, todos aqueles que resultam duma alma bem formada, e dum organismo rijo, forte, sadio’’. A nós, que já fomos espreitar o fim da história, só pode comover-nos a confiança viril destas palavras. Sete anos mais tarde, em Abril de 1892, publica o ‘‘Só’’.

Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro. Mais do que um título, soa como uma divisa, equiparável, na sua poderosa brevidade, ao célebre ‘‘Désir’’ do malogrado D. Pedro. O jovem poeta, embora não suspeite da terrível doença que o destino lhe reserva, introduz o volume com este aviso à navegação, expresso nos versos finais de ‘‘Memória’’: ‘‘… tende cautela, não vos faça mal / Que é o livro mais triste que há em Portugal!’’ Os primeiros sintomas da tuberculose chegam nesse mesmo ano. Sentido-se ‘‘muito abatido’’, consulta um médico parisiense, que apenas lhe encontra uma forte anemia e lhe receita pílulas de ferro, vinho Delalonëe e pulverizações com ‘‘Eaux-bonnes’’.

Mas três anos mais tarde, Nobre está já a dar entrada no reputado sanatório suíço de Davos-Platz. É a primeira etapa de uma longa e penosa peregrinação, a que só a morte irá pôr termo. Mas voltemos ao início, a esse ‘‘menino António’’ que, segundo reza um bilhete manuscrito por seu pai, ‘‘nasceu em 16 de Agosto de 1867’’ num prédio do centro do Porto. Filho de um comerciante enriquecido no Brasil, Nobre frequenta bons colégios, alternando os estudos com temporadas nas propriedades rurais da família. E quando os pais se mudam para Leça, uma praia próxima do Porto frequentada pela colónia britânica, descobre o fascínio do mar – esse ‘‘Prof. Oceano’’ referido em ‘‘Carta a Manoel’’ – e, também, as loiras raparigas inglesas, com destaque para Miss Charlote, uma jovem preceptora com quem se corresponde durante dois anos.

É ela que lhe encurta o nome para ‘‘Anto’’, diminutivo que o poeta assumirá e que evoca nos ‘‘Males de Anto’’, título do poema que encerra o ‘‘Só’’. Conhecendo a vida de Nobre, é difícil não ler os ‘‘Males de Anto’’ como a pungente autobiografia de um poeta amaldiçoado. Mas quando escreveu o poema era ainda um jovem e saudável estudante da Universidade de Coimbra. E é consciente dessa perversa ironia que, pouco antes de morrer, faz notar em carta a um amigo: ‘‘Deus castigou-me. Quando era feliz e apenas tinha arranhaduras dos 19 anos, escrevia os Males de Anto, exagerando tudo. Agora é que eu os sinto, depois de os ter expresso em literatura.’’(daqui)

 

domingo, 9 de agosto de 2026

"Dia dos Pais" - Poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni



Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), "A Father's Return", n.d.

Dia dos Pais


Meu pai está tão velhinho, 
tem a mão branca e comprida, 
parecendo a sua vida, 
longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço 
de uma atlética altivez. 
Ah! Tinha força por três! 
Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer 
que você era um gigante. 
Eu ficava radiante 
e também me agigantava.

Porque toda madrugada, 
eu quentinho do agasalho, 
ao sair para o trabalho 
o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro 
parecia leve, leve 
naquela carícia breve 
que da memória não sai. 

Depois... um beijo em mamãe 
e o meu gigante partia. 
E a casa toda tremia 
com os passos de papai. 

Mas agora o seu retrato 
muito moço, muito antigo, 
se parece mais comigo 
do que mesmo com você.

Você já lembra vovô 
e, à medida que envelhece, 
papai, você se parece 
com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai? 
Quando mamãe, de repente, 
caiu de cama, doente, 
era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado 
a varrer... Quando eu o via 
de avental, papai, eu ria; 
eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio 
para ganhar ordenado, 
ajudar meu pai cansado, 
mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras: 
Sou um operário obscuro, 
mas você terá futuro, 
será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho 
a quem devo o pão e o estudo? 
Que é pobre porque deu tudo 
à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma, 
com toda a universidade, 
quisera eu ser a metade 
daquilo que você é.

E quero que você saiba 
que, entre amigos, conversando, 
meu assunto vai girando 
e no seu nome recai.

Da sua força, coragem, 
bondade eu conto uma história. 
Todos veem que a minha glória 
é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho 
no rio que estava cheio. 
Quando a correnteza veio, 
vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água 
nadando mais do que um peixe, 
salvou-me e disse:  Não deixe! 
Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte 
que respeitava a fraqueza. 
Nunca humilhou a pobreza, 
nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens 
e com Deus estava bem. 
Nunca fez mal a ninguém 
e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo 
Daquilo que não se esquece. 
E a minha voz estremece 
e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante 
e você é pequenino. 
Hoje sou eu que me inclino. 
Papai... a bênção, papai.

[Jornalista e poeta brasileiro, 19192008]
 
 ♥♥♥


Carl Larsson (Swedish painter, 1853–1919),
"Self-portrait with Brita", 1895 (watercolor)
 
O Dia do Pai (em Portugal e na Europa em geral) ou Dia dos Pais (no Brasil) é uma data comemorativa que homenageia anualmente os pais. A data varia de acordo com os países. Em Portugal e na Espanha é celebrada no dia 19 de março, enquanto no Brasil é celebrado no segundo domingo de agosto. Nos Estados Unidos e na Inglaterra é celebrado no terceiro domingo de junho.

sábado, 8 de agosto de 2026

"Tu és parte da minha existência" - Texto de Charles Dickens



William Powell Frith (English painter, 1819–1909), "Charles Dickens in his study"
(English writer and journalist, 1812–1870), 1859, Victoria and Albert Museum.



Tu és parte da minha existência

 
Tu és parte da minha existência, uma parte de mim mesmo. Tu tens estado presente em cada linha que eu li, desde que aqui cheguei, o rapaz grosseirão cujo pobre coração tu magoaste até nessa altura. Tu tens estado em tudo para onde eu olhava desde aí - no rio, nas velas dos navios, nos pântanos, nas nuvens, na luz, na escuridão, no vento, na floresta, no mar, nas ruas. Tens sido a personificação de cada fantasia graciosa com que a minha mente alguma vez se tornou familiarizada. As pedras com que as mais fortes construções de Londres são feitas, não são mais reais, ou mais impossíveis de deslocar com as mãos, do que a tua presença e influência têm sido para mim, por toda a parte, e continuará a ser. Estella, até à última hora da minha vida, farás sempre parte da minha personalidade, parte do pouco de bom que há em mim, e parte do mal. Mas nesta separação eu associo-te apenas com o bom, e irei fielmente manter-te associada a isso para sempre, pois tu fizeste-me muito mais bem do que mal, deixa-me ficar agora com o meu sofrimento acentuado. Oh Deus te abençoe, Deus te perdoe! 
Primeira página da primeira edição do livro, de 1861
 

SINOPSE 
de
«Grandes Esperanças»
 
O jovem órfão Philip Pirrip, de todos conhecido por Pip foi criado pela sua irmã que vive com o ferreiro Joe numa pequena povoação perto de Kent em meados do século XIX. Um dia Pip é convidado pela misteriosa Miss Havisham, uma velha senhora proprietária da mais rica mas decrépita mansão de todo o condado. A sua missão é ser o companheiro de Estella, a jovem protegida de Miss Havisham mas a realidade é bem diferente do que aparenta: Pip é a mera cobaia para uma Estella que está a ser treinada por Miss Havisham como a derradeira vingança contra todos os homens cujo objetivo é "partir corações".

«Grandes Esperanças» foi o maior sucesso editorial de Dickens e marcou o imaginário de gerações de leitores. Romance de formação que acompanha o protagonista Pip dos últimos anos da sua infância à idade adulta é também uma obra portentosa sobre as relações entre homens e mulheres e o ódio e o amor que as atravessam; um retrato de uma época e de uma moral que é ainda a nossa; ao mesmo tempo romance de aventuras, história romântica, meditação filosófica sobre os valores que nos regem e, acima de tudo, sobre as esperanças que temos e que de nós têm para o futuro. (daqui)



William Powell Frith, "The Signal", 1858



"A fé – um sexto sentido – transcende o intelecto sem contradizê-lo."

Mahatma Gandhi
i (1869–1948)
 
 

Mahatma Gandhi, 1931, by Elliott & Fry


Mohandas Karamchand Gandhi (Mahatma Gandhi), apóstolo da não violência e líder da causa independentista indiana, nasceu a 2 de outubro de 1869. O seu pai desempenhava funções de magistrado local e, com o objetivo último de seguir idêntica carreira, Gandhi foi para Londres cursar Direito, aí permanecendo de 1888 a 1891.
De volta à Índia, teve um ensaio pouco auspicioso na advocacia, o que o levou, em 1893, a assinar um contrato válido por um ano com uma empresa indiana sediada no Natal, uma província da África do Sul. Aí teve Gandhi consciência plena, pela primeira vez, de como os preconceitos raciais cerceavam a liberdade e corrompiam a justiça.
Começou então a sua atividade política, em defesa da minoria indiana naquele país. Acabaria por ficar na África do Sul muito mais tempo do que previra, só regressando definitivamente à Índia em 1914.
Por essa altura a vivência sul-africana levara-o a amadurecer o seu posicionamento político-ideológico. No regresso ao país natal, Gandhi era já um homem seguro das suas opiniões, dos seus valores e objetivos. Ao mesmo tempo, tivera oportunidade de aprofundar a sua opção de fé (afinal de contas, a verdadeira matriz do seu pensamento), tendo evoluído para uma forma de Hinduísmo que propunha um ideal de vida austera, levada com desprendimento dos bens terrenos, com humildade e equanimidade.
Foi, de facto, na religião que colheu os princípios inspiradores de toda a sua ação política. De abnegação e sacrifício, aliás, daria largas provas ao longo dos anos. Entretanto, Gandhi ia manifestando o seu desacordo perante os excessos que o governo colonial inglês, do seu ponto de vista, cometia.
A partir de 1920, nomeadamente, ocupou o lugar cimeiro no Congresso Nacional Indiano, e pôde então pôr em prática a sua estratégia de ação política através de um programa de oposição pacífica à potência colonizadora. Esse programa previa um boicote às manufaturas inglesas e uma atitude de desobediência civil por parte dos indianos nas mais variadas instituições do país, tendo gerado uma onda de adesão massiva no país.
Mais tarde o projeto nacional de Gandhi incluiria ainda objetivos educacionais e o desenvolvimento da produção artesanal, realizada por cada um, autonomamente e em autossuficiência, no seu lar (ele próprio se encarregava da produção das vestes que usava).
O longo caminho a percorrer não deixaria de ser atribulado: enquanto apresentava a resistência passiva como uma estratégia política e uma força moral, Gandhi teve que enfrentar, em certos momentos, a violência no país (da parte dos ingleses, mas também da parte de indianos e muçulmanos) e conheceu até o cárcere; por mais de uma vez, ainda, teve que recorrer a jejuns como meio de pressão para acabar com tumultos entre a população.
Em 1934 afastou-se do partido, mas nessa altura as suas linhas de ação haviam já deixado uma marca indelével na consciência nacional indiana.
Em 1947 deu-se a independência, obtida contudo em moldes inesperados: o território do país era dividido, surgindo o Paquistão como Estado muçulmano separado. Apenas alguns meses mais tarde, em janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado a tiro por um fanático hindu.
A admiração dos seus compatriotas valera-lhe já o epíteto "Mahatma", a grande alma. A admiração de muitos outros homens asseguraria a sobrevivência dos seus valores e métodos de ação, sobrevivência que bem se revela, por exemplo, no percurso de Martin Luther King, o conhecido ativista norte-americano dos direitos cívicos dos negros. (daqui)
 
 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Não vale fazer batota" - Poema de José Jorge Letria

 


Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Country Schoolhouse - 1879", 2015.


Não vale fazer batota 


Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.
 
 
 José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 
 
Morgan Weistling"Ethan's Lantern", 2008. 


"O homem sem paciência é como uma lamparina sem óleo."

Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

"Nana mamãe" - Poema de Pedro Bandeira

 

Paul Hermann Wagner (German painter, 1852–1937),
'Consolation in Suffering', 1895. Oil on canvas.



Nana mamãe


A mamãe
não me bota mais no colo,
não bota mais,
não me embala mais o sono,
não embala mais,
não canta pra eu dormir...
não canta mais...
não bota mais,
não embala mais,
não canta mais...

Eu bem sei que já faz tempo
que ela ainda me embalava,
mas me lembro muito bem,
era assim que ela cantava:

"Dorme, dorme, filhinho,
meu anjinho inocente,
dorme, meu queridinho,
que a mamãe está contente..."

Mas o tempo passou,
passou, passou,
e a cantiga calou,
calou, calou...
e o menino foi crescendo,
crescendo, cresceu, cresceu,
mas aquela voz ficou.
ficou, ficou...

Eu agora já sou grande,
tenho quase a altura dela.
Vai chegar a minha vez
de poder cantar para ela...


Pedro Bandeira, em 'Cavalgando o Arco-íris', 
São Paulo, Moderna, 1985.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

"Gatos noturnos" - Poema de Pablo Neruda

 


Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832
1918),
'A Silver Tabby on a chair'. Oil on canvas, 54.6 x 43.8 cm.



Gatos noturnos


Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
nos olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.


Pablo Neruda (1904–1973),
 in 'O coração amarelo'.
Trad. de Olga Savary