A palavra o açoite
Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filha
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo
Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar
E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança
Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
e distante e distante
uma légua de mágoa
E toda a santa mágoa este dia esta noite
o discurso o nevoeiro a palavra o açoite
a glória pátria
filho
um rugir absoluto um rugir obsoleto
um secreto
martelar de silêncio
E toda a santa guerra esta manhã de mágoa
de silêncio de névoa este loiro este espesso
instante de ternura filho camuflada
de rodas sulcos rasas
rosas de fogo e afago
Toda a santa manhã esta espera este amargo
absoluto obsoleto medo filho por vir
o loiro infante o instante
todo alcácer-quibir
Emanuel Félix Borges da Silva,
in 'A palavra, o açoite: poemas', 1977.
[Emanuel Félix Borges da Silva (Angra do Heroísmo, 24 de Outubro de 1936 — Angra do Heroísmo, 14 de Fevereiro de 2004), mais conhecido por Emanuel Félix, foi um poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico, que se afirmou como um dos mais notáveis poetas e escritores da segunda metade do século XX. Foi o primeiro introdutor em Portugal do concretismo poético, inspirado pelos brasileiros Augusto e Haroldo de Campos, porém cedo passou a uma experiência surrealista.] (daqui)

Angra do Heroísmo: uma das principais cidades açorianas e sede da Diocese de Angra,
na ilha Terceira; ao fundo, o Monte Brasil. (daqui)
Angra do Heroísmo, resistência insular
Angra tem Heroísmo no nome e na história. Defendeu-se de piratas, resistiu a aceitar o domínio dos Filipes, foi palco das lutas liberais, reergueu-se após um violento terramoto. Cidade da ilha Terceira, nos Açores, é Património da Humanidade desde 1983.
Protegida dos ventos dominantes e com localização atlântica privilegiada, Angra foi escolhida pelos navegadores portugueses para ser porto de abrigo nas grandes viagens dos Descobrimentos. As naus de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, por exemplo, fizeram escala nas suas baías naturais.
Ouro, prata, especiarias, todas as riquezas das Índias Orientais e Ocidentais eram cobiça de piratas. Duas grandes fortalezas, São Sebastião e São Filipe, foram construídas para defender a cidade que, desde a Idade Média, vinha crescendo à volta do Castelo. Durante três séculos, Angra está no centro das rotas comerciais e faz a ligação entre quatro continentes: Europa, Ásia, África e América. Ali foi estabelecida a Provedoria das Armadas e Naus da Índia.
No século XV, Angra prospera, a malha urbana cresce, adaptando-se às colinas e às condições climatéricas. No século XVI, em 1534, é elevada a cidade por D. João III e, no mesmo ano, fica sede do Arcebispado dos Açores. São desta fase algumas das suas mais importantes construções: a Catedral do Santíssimo Salvador, num gótico tardio com traços do maneirismo; o Convento e a Igreja de S. Francisco, com as suas fachadas sóbrias e os interiores enriquecidos em azulejaria, talha dourada e pintura; as Igrejas da Misericórdia e do Santo Espírito, o Palácio dos Capitães-Generais. A lista é grande e monumental.
O terramoto de 1980 destruiu oitenta por cento deste património, mas o trabalho de reconstrução foi exemplar e, apenas três anos depois, o comité da UNESCO reconheceu a importância do centro de Angra do Heroísmo para a Humanidade. (daqui)
"Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"
Fernando Pessoa (1888–1935),
Trecho do poema "Mar Português", que integra a sua obra "Mensagem", 1934.
"Mensagem" de Fernando Pessoa.
Editor: 11 X 17; Edição: 05-2010.
"Mensagem", a profecia de Fernando Pessoa
A visão pessoana de um Quinto Império nasce nos versos desta obra, épica, metafórica e profética. A "Mensagem" é como se fosse um sonho de Portugal por realizar. «Sou um nacionalista místico, um sebastianista racional», escreveu o poeta sobre o único livro de poemas em português que conseguiu publicar em vida. A 1 de dezembro de 1934, um ano antes de morrer.
Nos 44 poemas da "Mensagem" contam-se séculos de história, das glórias e não glórias que Portugal viveu. Fernando Pessoa contempla o passado dos heróis e dos mitos, de Ulisses, de Viriato, do Infante D. Henrique, de Nuno Álvares Pereira e do desejado D. Sebastião.
O poeta encontra no «pequeno povo» das Descobertas, «a grande Raça que partirá em busca de uma Índia nova», não para conquistar apenas um Império terreno mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, o Quinto Império.
Tal como Camões fizera quatrocentos anos antes, o poeta olha para a grandeza das viagens marítimas como um incitamento para o sonho: "É a Hora!", escreve no último verso.
Coletânea de poesias escritas em épocas diferentes, a "Mensagem" de Pessoa divide-se em três partes: "Brasão", "Mar português" e "O encoberto".
A primeira parte, "Brasão", divide-se em "Os campos", "Os castelos", "As quinas", "A coroa" e "O timbre". Cada uma dessas partes está ligada ao brasão do país.
"Brasão" aborda o período histórico inicial português, desde os processos de formação da nação portuguesa até o momento da expansão marítima, representado sua dificuldade e esperança.
"Mar português" fala sobre a época de ouro portuguesa, a da expansão marítima, reveladora da coragem e do heroísmo português.
"O encoberto" concentra-se no mito do Sebastianismo e do Quinto Império, que retirariam Portugal da decadência experimentada a partir do século XVIIII até o momento da enunciação, o século XX. (daqui)


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