terça-feira, 12 de maio de 2026

"Rabisco na areia" - Poema de Hermann Hesse



Hermann Hesse
(German-Swiss poet, novelist and painter, 1877–1962),
"Sunflowers in Montagnola", 1927. Watercolor over pencil on paper,
Herman Hesse Museum in Montagnola, Switzerland.



Rabisco na areia


Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
– fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
– rochas, mundo estelar, joias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efémeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia. 


Hermann Hesse,
in 'Andares - Antologia Poética'.
Tradução de Geir Campos.
Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1982. 
 
 
 
"Portrait of Hermann Hesse" (1877–1962), 1905,
by Ernst Würtenberger (German painter, 1868
1934).


Em que é que o poeta crê 

Na nossa época, o poeta, no qual se encarna o tipo mais puro da humanidade dotada de uma alma, encontra-se preso a meio do caminho entre o mundo das máquinas e o mundo da atividade intelectual organizada, como num espaço sem ar, onde está condenado a sufocar, já que o poeta é precisamente representante e paladino daquelas forças e daquelas exigências do homem às quais a nossa época declarou a mais fanática das guerras.
Acusar disso a nossa época seria um disparate. Esta não é nem melhor nem pior do que as outras. Para quem consegue partilhar os seus objetivos e os seus ideais, é um paraíso; para quem, pelo contrário, tem de lhe opor resistência, é um inferno. Para nós, poetas, é, portanto, um inferno. Se quiser manter-se fiel à própria origem e à própria vocação, o poeta não pode aderir ao mundo ébrio do sucesso que se apropria da vida por intermédio da indústria e da organização, nem sequer ao mundo da intelectualidade racionalizada que hoje predomina, por exemplo, nas nossas universidades. E posto que o único dever do poeta é o de ser servo, paladino e cavaleiro da alma, na atual fase do mundo ele vê-se condenado a uma solidão e a um sofrimento que não são para todos. A Europa tem hoje muito poucos poetas e nenhum deles é destituído de um tom de tragédia, para não falar de quixotismo. Pelo contrário, o continente formiga daquela espécie de «poetas», a predileta dos leitores burgueses, que empregam o seu talento e o seu gosto na exaltação daqueles ideais e daqueles valores que figuram precisamente na agenda do burguês: hoje a guerra, amanhã o pacifismo, etc.

Mas entre aqueles que podem verdadeiramente definir-se como «poetas» não são poucos os que perecem, reduzidos ao silêncio, no espaço sem ar deste inferno. Outros, pelo contrário, carregam o sofrimento, reconhecem-se nele, submetem-se ao destino e não se revoltam quando veem que a coroa de louros que, noutros tempos, os ornava hoje se transformou numa coroa de espinhos. Para estes poetas vai o meu amor, são eles que eu honro, que amo e dos quais quero ser irmão. Nós sofremos: mas não para protestar nem para imprecar. No ar, para nós, irrespirável do mundo das máquinas e na bárbara indigência que nos oprime nós sufocamos e, no entanto, não nos separamos do todo, aceitamos o sufoco e o sofrimento como a parte que nós devemos tomar nos destinos do mundo, como a nossa missão e a nossa provação. Não acreditamos em nenhum dos ideais desta época, não naquele dos generais, nem naquele dos bolcheviques, ou dos professores, ou dos industriais. Mas nós acreditamos que o homem é imortal, que a sua imagem poderá ressurgir, curada de qualquer deformação, purificada de qualquer inferno. Não tentamos explicar a nossa época, nem melhorá-la, nem amestrá-la, procuramos sempre abrir-lhe novamente, revelando a nossa dor e os nossos sonhos, o mundo da alma. Esses sonhos são, em parte, tristes sonhos de angústia, essas imagens são, em parte, visões terrificantes; mas não podemos embelezá-las, não podemos maquilhar a verdade. Isso fazem-no, à saciedade, os «poetas» que servem para entreter os burgueses. Nós não escondemos o perigo que a alma da humanidade corre, o abismo do qual essa alma está próxima. Mas também não conseguimos esconder que acreditamos na sua imortalidade. (1929) 

Hermann Hesse (Prémio Nobel de Literatura, 1946), in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'



Hermann Hesse – 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'
Cavalo de Ferro, 2010
 

Descrição

Plano Nacional de Leitura

Literatura – Ensaio – 15-18 anos

Os livros são fonte de satisfação, de alegrias e de conhecimento, enriquecendo a nossa vida e aumentando o valor da nossa existência. Mas quantos de nós já não nos sentimos perdidos nessa floresta densa e por vezes hostil que é o mundo dos livros e da literatura? O que ler? Como en­contrar o livro que secretamente procuramos?

Hermann Hesse, escritor amado por gerações de leitores, guia-nos neste conjunto de textos fundamentais pela floresta de papel da literatura, intro­duzindo-nos à «magia do livro». Explica e ilustra com clareza o que significa encontrar um livro, acontecimento que pode ser tão ou mais impor­tante do que o encontro com outra pessoa. Ajuda-nos de forma simples e precisa no passo mais delicado e fundamental: a criação da nossa própria biblioteca. Sugere-nos livros incontornáveis e explica-nos porque deve­mos travar conhecimento com eles. Reflete de forma atualíssima sobre o universo da leitura e da escrita. (daqui)
 
 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Fala a preguiça" - Poema de Álvaro Magalhães


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970), 'Montse', 1959.



Fala a preguiça

Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim.

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.


Álvaro Magalhães
(Escritor português de livros e contos para crianças, n. 1951)



Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970)



"A preguiça morreu de sede à beira do rio, com preguiça de beber."

(Ditado popular)

"Bom dia, por favor, perdão" - Poema de José Jorge Letria

 

Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894-1978),
'Veterinarian', 1952.


Bom dia, por favor, perdão 

 
Na escada ou no elevador
se te cruzas com um vizinho
vê que não é um estranho
que te salta ao caminho.

Sorri e dá-lhe os bons-dias,
que é ato de educação,
e se o empurras sem querer
pede-lhe logo perdão.

No balcão onde te atende
sempre o mesmo senhor
diz-lhe que bolo é que queres
sem esquecer o “por favor”.

Para entrares numa sala
deves dizer “com licença”
depois de bater à porta
para anunciar a presença.

Pede desculpa se desces
a escada a três e três,
sobretudo se a pressa
te faz pisar quem não vês. 
 

José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894-1978),
'Sick Puppy', 1923.
 

domingo, 10 de maio de 2026

"Mãe" - Poema de Luísa Ducla Soares



Soosh Chouanard also known as Snezhana Soosh (Ukrainian artist and illustrator,
b. 1979), 'Mother's Day Surprise'.


Mãe


A mãe
é uma árvore
e eu sou uma flor.

A mãe
tem olhos altos como estrelas.
Os seus cabelos brilham
como o sol.

A mãe
faz coisas mágicas:
transforma farinha e ovos
em bolos,
linhas em camisolas,
trabalho em dinheiro.

A mãe
tem mais força do que o vento:
carrega sacos e sacos do supermercado
e ainda me carrega a mim.

A mãe
quando canta
tem um pássaro na garganta.

A mãe
conhece o bem e o mal.
Diz que é bem partir pinhões
e partir copos é mal.
Eu acho tudo igual.

A mãe
sabe para onde vão
todos os autocarros,
descobre as histórias que contam
as letras dos livros.

A mãe
tem na barriga um ninho.
É lá que guarda
o meu irmãozinho.

A mãe
podia ser só minha.
Mas tenho de a emprestar
a tanta gente...

A mãe
à noite descasca batatas.
Eu desenho caras nelas
e a cara mais linda
é da minha mãe.


Luísa Ducla Soares,
em "Poemas da mentira e da verdade",
Editora: Livros Horizonte.
 
 
Ilustrações de Soosh Chouanard
(Mãe) 

Soosh Chouanard, 'Carry on'

 
Soosh Chouanard, 'Big brother's love' 
 
 
 
Soosh Chouanard, 'When eyes meet eyes'



Soosh Chouanard, 'Taking care of Mom'
 


Soosh Chouanard, 'I love you, Mom'



Soosh Chouanard, 'Bedtime story for Mama'
 

Dia das Mães (português brasileiro) ou Dia da Mãe (português europeu) é uma data comemorativa que homenageia anualmente a figura familiar materna (mãe) e a maternidade. A data de comemoração varia de acordo com o país. Em Portugal e nos PALOP, é comemorado maioritariamente no primeiro domingo do mês de maio, embora muitas igrejas protestantes, em Portugal, o façam no segundo domingo do mesmo mês, seguindo a data inicialmente estabelecida nos EUA. Já no Brasil, como também na Itália, por exemplo, é no segundo domingo do mês de maio que o dia é celebrado. (daqui)
 

"Ser Mãe" - Poema de Coelho Neto



Cecrope Barilli (Italian painter, 1839–1911), 'Young Mother with Child', 1870.


Ser Mãe


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!


Coelho Neto
 

 
Retrato de Coelho Neto, c. 1900.
 

Escritor, professor e político brasileiro, Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu a 20 de fevereiro de 1864, em Caxias, Maranhão.
Muito novo, partiu com a família para o Rio de Janeiro, onde estudou no Externato do Colégio Pedro II. Inscreveu-se no curso de Medicina e, mais tarde, no de Direito, sem nunca concluir nenhum deles.
 
Em São Paulo, defendeu as ideias abolicionistas e republicanas. Durante a campanha abolicionista, conheceu José Patrício que o introduziu na Gazeta da Tarde. Fez parte do grupo de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney.

Em 1890, casou-se com Maria Gabriela Brandão, com quem teve 14 filhos. Nesse ano, exerceu o cargo de secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro e, um ano depois, o de Diretor dos Negócios do Estado. Em 1882, foi nomeado professor de História da Arte da Escola Nacional de Belas Artes e, posteriormente, professor de Literatura do Ginásio Pedro II. Foi, ainda, professor de História do Teatro e Literatura Dramática da Escola de Arte Dramática, em 1910, sendo posteriormente Diretor desse estabelecimento de ensino.
Como político, foi eleito, em 1909, deputado federal pelo Maranhão e, em 1917, reeleito para esse mesmo cargo. Esteve em Buenos Aires como Ministro Plenipotenciário, em missão especial, foi secretário-geral da Liga de Defesa Nacional e Membro do Conselho Consultivo do Teatro Municipal.

Eleito "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", em 1928, Coelho Neto escreveu várias peças de teatro, mais de 100 livros e perto de 650 contos. Dessa vasta obra, salienta-se Rapsódias (1891), A Capital Federal (1893), Fruto Proibido (1895), A Descoberta da Índia (1898), Turbilhão (1906), Rei Negro (1914), A Cidade Maravilhosa (1928), Fogo Fátuo (1929). 
Os seus trabalhos, que se situam na época literária do Realismo/Naturalismo, estão assinados, para além do seu próprio nome, por vários pseudónimos: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés. O escritor foi ainda um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
A 28 de novembro de 1934, Coelho Neto faleceu no Rio de Janeiro. (daqui)


sábado, 9 de maio de 2026

“Vigília das Mães” - Poema de Cecília Meireles



Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
'Mrs Weguelin and her son', 1889.


Vigília das Mães


Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

1960

Cecília Meireles

in 'Antologia Poética', 1963

"Complicação" - Poema de Mário Dionísio



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with
Henri Matisse of Fauvism, 1880–1954), 'Le phare de Collioure', 1905,
Musée d'Art moderne de Paris.


Complicação


As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície. 
 

Mário Dionísio, in "Poemas", 1941.

 
 
André Derain, 'Bateaux au port de Collioure', 1905.
 


André Derain, 'Bateaux dans le port de Collioure
('Boats in the Harbor of Collioure'), 1905.