terça-feira, 26 de maio de 2026

"Esplêndida" - Poema de Cesário Verde


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter, 1848–1901),
'The Picnic' ('El Pícnic'), c. 1901.


Esplêndida 


Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol!
Aumenta-os com retoques sedutores,
É como o refulgir dum arrebol
Em sedas multicolores.

Deita-se com langor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E esses negros corcéis, que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
Velozes como a peste.

É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon,
Se a vissem ficariam ofuscadas.
Tem a altivez magnética e o bom-tom
Das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala
E as mãos, que o Jock Clube embalsamou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
Um amante, em Bengala.

É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar,
Atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com roseta, e nas librés
De forma aprimorada.

E eu vou acompanhando-a, corcovado.
No trottoir, como um doido, em convulsões
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejando o lugar dos seus truões,
Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
Formosa aristocrata!

Lisboa, 1874
 


Francisco Miralles y Galup, 'Before the Races at Longchamp', c. 1901.


"Depois do rosto, as mãos são a parte do corpo humano que mais obviamente expressa a emoção."

"Hands, after the face, are the most obvious part of the human body for expressing emotion."

Henry Moore (1898–1986), in 'Writings and Conversations'‎,
by Alan Wilkinson (Editor), 2002 - 320 páginas. 


 
Francisco Miralles y Galup, 'At the Races' ('En las carreras'), c. 1901.


"A verdadeira base da vida está nas relações humanas."

"The real basis of life is human relationships."

Henry Moore (1898–1986), in 'Writings and Conversations'‎,
by Alan Wilkinson (Editor), 2002 - 320 páginas.
 

"Gato" - Poema de Antonio Fernando de Franceschi


 
Tsuguharu Foujita
(Japanese-French painter, 1886–1968),
'Chat roux assis' (Sitting ginger cat), oil on canvas, 1930.
 

 Gato


rasante zoom à risca:
decifro um gato
sob as unhas do menino
prévio ao meu temor:
movo-me entre as raias
com cuidado
evito o negro
onde me perco:
não toco o tigrado dorso
nem o riso convexo
olho:
desdobro um tanto a memória
que rumina: mão infante
o pintou zebrino
em véspera de pulo:
angulo o quadro dos bigodes
que sobram sobre as tetas
pois é fêmea
e trívio
como qualquer gato
mas esse exato
moveu geleiras


Antonio Fernando de Franceschi

(Poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, 1942–2021)



Tsugouharu Foujita, 'Autoportrait dans l'atelier', s.d.
 
Léonard Tsuguharu Foujita (Tóquio, 27 de novembro de 1886 — Zurique, 29 de janeiro de 1968) foi um pintor modernista japonês que se naturalizou francês e converteu-se ao catolicismo. Nascido em Tóquio, ficou conhecido por aplicar técnicas japonesas em pinturas de estilo ocidental. Ele foi considerado "o mais importante artista japonês atuando no Ocidente durante o século 20".
Seu 'Livro dos Gatos' ('A Book of Cats'), publicado em Nova York por Covici Friede, 1930, com 20 desenhos gravados em chapa de Foujita, é um dos 500 livros raros mais vendidos no mercado e é classificado por negociantes de livros raros como "o livro sobre gatos mais popular e desejável já publicado."
 (daqui)
 

Musée des Beaux-Arts de Lyon.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Sempre acontece sempre" - Poema de Helga Moreira


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Renée et le chat', 1920.


Sempre acontece sempre


Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema
que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte
apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor
alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


Helga Moreira



 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Reading in bed' ('Lectura en la cama'), 1935.
Museum of Montserrat


"A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados
 que se podem cometer contra o espírito."

Hermann Hesse (1877–1962), in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'

"Atrás não torna, nem, como Orfeu" - Poema de Ricardo Reis



Elsie Russell
(French painter, b. 1956), The Loss of Eurydice - Orpheus looks
back at Eurydice during her rescue from Hades, losing her forever
, c. 1994. 


Atrás não torna, nem, como Orfeu


Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento. 

31-5-1927

Ricardo Reis, in "Odes" Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994) - 105.
 

domingo, 24 de maio de 2026

"Paris, postal do céu" - Poema de Jaime Gil de Biedma


 
Albert Marquet
(Peintre et dessinateur français, 1875–1947), Pont Saint-Michel, 1908,
Salle 27 du Musée de Grenoble.



Paris, postal do céu


Agora, vou contar-vos
como também estive em Paris, e fui ditoso.

Era nos bons tempos da minha juventude,
nos anos de abundância
do coração, quando deixar para trás os pais e a pátria
é sentir-se mais livre para sempre, e fui
no Verão, naquele Verão
da greve e das primeiras canções de Brassens,
e da formosa história
de quase amor.

Ainda vive na minha memória aquela noite,
recém-chegado. Contemplo ainda,
sob a Pont Saint Michel, pela mão, em silêncio,
a grande lua de Agosto suspensa entre as torres
de Notre Dame, e azul
de um impossível o rio tantas vezes sonhado
It’s too romantic, como tu me disseste
ao afastar os lábios.

Em que sítio perdido
do teu país, em que recanto da América do Norte
e no quarto de quem, às horas mais soturnas,
quando sonhes morrer não importa em que braços,
e chegará, tal como
agora a mim me chega, esse calor de gentes
e a luz daquele céu tão rumoroso
tranquilo, sobre o Sena?

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,
a confundir os dias e suas noites,
os momentos felizes,
as censuras

e aquela viagem — a caminho da cama —
num vagão do Metro Étoile-Nation.


Jaime Gil de Biedma
(1929–1990), in 'Moralidades', 1966
Tradução de José Bento


sábado, 23 de maio de 2026

"Amanhecer" - Poema de Lúcio Cardoso



Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
founder of Cubism, 1881–1953), L'Homme au Balcon, Man on a Balcony
(Portrait of Dr. Théo Morinaud)
, 1912, oil on canvas, 195.6 x 114.9 cm,
Philadelphia Museum of Art.



Amanhecer


A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trémulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sobre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.

E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a música das flores que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.

Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo cor-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.


Lúcio Cardoso
(1912
1968),
in "Poesias", 1941.
 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

"Arte Poética IV" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen



William-Adolphe Bouguereau (Peintre français, 1825-1905),
"L'Art et la Littérature", 1867, Arnot Art Museum, New York.


Arte Poética IV


Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema.» A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e noto.

É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir.

Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador. É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.

Sei que o poema aparece, emerge e é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração. O meu esforço é para conseguir ouvir o «poema todo» e não apenas um fragmento. Para ouvir o «poema todo» é necessário que a atenção não se quebre ou atenue e que eu própria não intervenha. É preciso que eu deixe o poema dizer-se. Sei que quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho, a minha aplicação não conseguem continuá-lo.

Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece como já feito? A esse «como, onde e quem» os antigos chamavam Musa. É possível dar-lhe outros nomes e alguns lhe chamarão o subconsciente, um subconsciente acumulado, enrolado sobre si próprio como um filme que de repente, movido por qualquer estimulo, se projeta na consciência como num écran. Por mim, é-me difícil nomear aquilo que não distingo bem. É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível — como a película de um filme — ao ser e ao aparecer das coisas. E a partir de uma obstinada paixão por esse ser e esse aparecer.

Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado (que ora é mais nítido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.

Assim algumas vezes o poema aparece desarrumado, desordenado, numa sucessão incoerente de versos e imagens. Então faço uma espécie de montagem em que geralmente mudo não os versos mas a sua ordem. Mas esta intervenção não é propriamente «inter-vir» pois só toco no poema depois de ele se ter dito até ao fim. Se toco a meio o poema nas minhas mãos desagrega-se. O poema «Crepúsculo dos Deuses» (Geografia) é um exemplo desta maneira de escrever. É uma montagem feita com um texto caótico que arrumei: ordenei os versos e acrescentei no final uma citação de um texto histórico sobre Juliano, o Apóstata.

Algumas vezes surge não um poema mas um desejo de escrever, um «estado de escrita». Há uma aguda sensação de plasticidade e um vazio, como num palco antes de entrar a bailarina. E há uma espécie de jogo com o desconhecido, o «in-dito», a possibilidade. O branco do papel torna-se hipnótico. Exemplo dessa maneira de escrever, texto que diz esta maneira de escrever, é o poema de Coral:

Que poema, de entre todos os poemas,
Página em branco?

Outra ainda é a maneira que surgiu quando escrevi O Cristo Cigano: havia uma história, um tema, anterior ao poema. Sobre esse tema escrevi vários poemas soltos que depois organizei num só poema longo.

E por três vezes me aconteceu uma outra maneira de escrever: de textos que eu escrevera em prosa surgiram poemas. Assim o poema «Fernando Pessoa» apareceu repentinamente depois de eu ter acabado de escrever uma conferência sobre Fernando Pessoa. E o poema «Maria Helena Vieira da Silva ou O Itinerário Inelutável» emergiu de um artigo sobre a obra desta pintora. E enquanto escrevi este texto para a Crítica apareceu um poema que cito por ser a forma mais concreta de dar a resposta que me é pedida:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Durante vários dias disse a mim própria: «tenho de responder a Crítica». Sabia que ia escrever e sobre que tema ia escrever. Escrevi pouco a pouco, com muitas interrupções, metade escrito num caderno, metade num bloco, riscando e emendando para trás e para a frente, num artesanato muito laborioso, perdida em pausas e descontinuidades. E através das pausas o poema surgiu, passou através da prosa, apareceu na folha direita do caderno que estava vazia.

Ninguém me tinha pedido um poema, eu própria não o tinha pedido a mim própria e não sabia que o ia escrever. Direi que o poema falou quando eu me calei e se escreveu quando parei de escrever. Ao tentar escrever um texto em prosa sobre a minha maneira de escrever «invoquei» essa maneira de escrever para a «ver» e assim a poder descrever. Mas, quando «vi», aquilo que me apareceu foi um poema.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual", 1ª edição, 1972  (daqui)