domingo, 19 de abril de 2026

"Amor Perfeito" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Frieda Blell (German landscape painter, 1874–1951), 
"Stillleben mit Stiefmütterchen", c. 1913. 
Gouache auf Papier 


Amor Perfeito

 
Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.
 
 
 
Viola tricolor
(amor-perfeito) 


Viola tricolor, popularmente conhecida como amor-perfeito e erva-trindade, é uma flor bienal selvagem eurasiática. É uma pequena planta rasteira que atinge no máximo 15 cm de altura, com flores de cerca de 1,5 cm de diâmetro. Cresce nos prados e nas fazendas abandonadas, principalmente em solos ácidos ou neutros. É geralmente encontrada onde há sombra parcial. Floresce de Abril a Setembro. As flores da viola tricolor ou amores perfeitos podem ser roxas, azuis, amarelas ou brancas. É hermafrodita e autofértil, polinizada pelas abelhas(daqui)
 
 

Leo Putz (Tyrolean painter, 1869–1940), Frieda Blell, 1908.

(Portrait by her future husband, Leo Putz)



"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir." 
 

"Rios sem discurso" - Poema de João Cabral de Melo Neto



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The RiverGeorges Pompidou Center, Paris.


Rios sem discurso  
 
                                                              A Gabino-Alejandro Carriedo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria. 

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
in "A Educação pela Pedra", 1966.

 

André Derain, Le Port de Collioure, 1905. Musée d'Art moderne de Troyes.



"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."

(Frase atribuída ao filósofo e matemático Platão)
 
 
 
 André Derain, Fishing Boats, Collioure, 1905.
 

"A sabedoria consiste em ordenar bem a nossa própria alma." 

Platão, in "A República"
 
 
 
Walter Crane (English artist and book illustrator, 1845–1915), 
 "Plato meditating  on immortality before the grave of his teacher,
 Socrates, the butterfly, skull and poppy", 1884.

["Platão Meditando sobre a Imortalidade da Alma", ante uma caveira, borboleta e papoila na tumba de Sócrates (c. 470 a.C. – Atenas, 399 a.C.). Gravura do século XIX, alegadamente baseada em um intaglio em gema mais antigo.]

Platão

Um dos pensadores mais influentes de toda a história da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 427 a. C.

Dando continuidade às preocupações de Sócrates, seu mestre, tentou ultrapassar o relativismo que resultava das doutrinas dos sofistas, incapazes de superar a antinomia entre ser e devir, tal como haviam sido enunciados por Parménides de Élea e Heraclito.

É o primeiro filósofo de cujas obras foi preservada uma parte significativa, o que permite reconstituir com grande fidedignidade as traves mestras do seu pensamento.

No núcleo do sistema platónico encontra-se a distinção radical entre o mundo sensível e o mundo inteligível, cada um deles com existência autónoma.

O primeiro corresponde ao mundo da corporeidade, contingente e corruptível, domínio da mudança, da diversidade e das aparências; o segundo é o mundo das essências ideais, imutáveis, necessárias e eternas, em suma, da permanência, da unidade e da Verdade universal.

Dotadas de uma existência objetiva independentemente de qualquer sujeito cognoscente, as essências ideais, ou Ideias, são para Platão os arquétipos (modelos) a partir dos quais foram formados - por «imitação», ou mimésis - todos os entes do mundo sensível. O agente dessa intervenção teria sido uma divindade (o demiurgo) que, dessa forma, fez transitar a physis (o mundo físico, a natureza) de um estado primordial de desordem (o caos) à ordem.

No âmbito gnosiológico, o dualismo idealista de Platão tem como consequência, do ponto de vista formal, a inoperância de todo o conhecimento empírico.
Este, de ordem indutiva e tomando por base as representações sensíveis, reporta-se apenas a uma realidade contingente e mutável, não podendo elevar o sujeito além da mera doxa (opinião).
 
Do ponto de vista material, por maioria de razão, o conhecimento que tem por objeto a physis é relegado para um plano subalterno em favor de todo o saber baseado na contemplação inteletiva dos puros conceitos, com especial incidência na matemática e na ética. Associando a unidade, a harmonia, a virtude e a sabedoria, tal como Sócrates, Platão coloca no topo da hierarquia das Ideias do mundo inteligível, enquanto elementos unificadores, as ideias de Uno, de Bem e de Belo.

Subsidiária da mesma arquitetónica dualista, a antropologia platónica considera a alma como essência do homem, vendo o corpo apenas como uma prisão que lhe limita todas as potencialidades. Participando dos atributos do inteligível, a alma é considerada imortal e originária do mundo das Ideias, pelo que a sua existência no mundo físico deve ser orientada para libertação de todas as solicitações materiais e sensuais através do uso da razão e da prática da virtude, visando atingir o saber da Verdade, num processo de ascese que lhe permita regressar ao mundo de plenitude a que genuinamente pertence.

Esse processo de ascese baseia-se no método que Platão designa como dialéctica e caracteriza-se pelo recurso ao diálogo e à discussão dos conceitos tendo em vista a respetiva consciencialização e esclarecimento, com a finalidade de facilitar a reminiscência (ou anamnese) - isto é, o relembrar - das Ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência no mundo inteligível.

No que respeita ao pensamento político, Platão foi em grande parte influenciado pela sua ascendência e formação aristocráticas, atribuindo ao regime democrático, geralmente defendido pelos sofistas, a responsabilidade pela decadência de Atenas. Assim, a organização da cidade modelo que sugeriu deixa transparecer uma visão elitista ao gravitar em torno de uma triagem apertada dos cidadãos em que o lugar do indivíduo se esvai, cedendo perante a força do interesse comum ditado pelos «mais aptos».

O objetivo da seleção dos cidadãos seria a distribuição destes em três ordens, de acordo com o carácter que demonstrassem: à ordem dos governantes pertenceriam os sábios, que se deixam conduzir pela justiça, cabendo ao melhor dos quais, após um longo período de formação, o cargo de Filósofo-Rei, autoridade última da cidade; aqueles que se distinguissem pela coragem deveriam integrar a ordem dos guardiões, com a tarefa de zelar pela segurança interna e externa da cidade; os restantes, que se deixam dominar pelas coisas dos sentidos, fariam parte da ordem dos produtores, com a função de prover às necessidades materiais da cidade, cuidando da agricultura, da indústria e do comércio.

Para evitar qualquer elemento de conflitualidade e discórdia na cidade, Platão defende também quer a comunidade dos bens, quer a comunidade das mulheres e dos filhos. Além disso, propõe que todas as crianças deveriam ter uma educação comum para que o processo de seleção dos melhores pudesse decorrer com eficácia e sem desvios.

Platão morreu em 347 a. C. já com idade avançada, deixando, no entanto, um grande número de discípulos que reconheciam a fecundidade das suas teses.
A Academia que fundara em 385 a. C. para proporcionar formação a todos quantos o quisessem seguir sobreviveu quase mil anos até ter sido mandada encerrar por Justiniano I em 529 d. C. Porém, a perenidade do seu pensamento foi muito além dessa data, sendo ainda hoje reconhecido o seu legado como um dos mais marcantes para a génese da atual cultura ocidental.

Obras de Platão:
 
Classificação clássica em tetralogias, segundo Trasílio, da Corte de Tibério.

1.a tetralogia: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon.
2.a tetralogia: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político.
3.a tetralogia: Parménides, Filebo, Banquete (ou Simpósio), Fedro.
4.a tetralogia: I* e II* Alcibíades, Hiparco*, Rivais* (ou Anterastai).
5.a tetralogia: [Teágenes], Cármides, Laques, Lísias.
6.a tetralogia: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Ménon.
7.a tetralogia: Hípias Menor, Hípias Maior*, Íon*, Menexeno.
8.a tetralogia: [Clitofonte], República, Timeu, Crítias.
9.a tetralogia: [Minos], Leis, [Definições], [Cartas ].

Todas as obras, com exceção da Apologia de Sócrates e das Cartas, foram redigidas em forma de diálogo.*
- Diálogos cuja autenticidade merece algumas dúvidas.
 
Entre [] - Obras quase unanimemente consideradas apócrifas (com exceção da Carta VII). (daqui)
 


André Derain, Le séchage des voiles (The Drying Sails), 1905, oil on canvas, 82×101 cm,
Pushkin Museum, Moscow. Exhibited at the 1905 Salon d'Automne.
 

sábado, 18 de abril de 2026

"A Senhora de Shalott" ("The Lady of Shalott") - Poema de Alfred Tennyson


 
John William Waterhouse (English painter, 1849–1917), 
"I Am Half-Sick of Shadows, Said the Lady of Shalott", 1915,
Art Gallery of Ontario, Toronto.



A Senhora de Shalott

Parte I

Em cada margem do rio estendem-se
Longos campos de cevada e de centeio
Que vestem o mundo e confrontam o céu
E pelos campos corre uma estrada
Até às muitas torres de Camelot;
E as pessoas passam a subir e descer
Apreciando os lírios a florescer
Em torno de uma ilha ali em baixo
A Ilha de Shalott.

Os salgueiros alvejam, os álamos ondulam
Suaves brisas turvam e tremem
Por sobre a torrente que corre para sempre
Junto à ilha no meio do rio
Fluindo até Camelot.
Quatro muros pardos e quatro torres pardas
Debruçam-se sobre um espaço de flores
E a ilha silenciosa alberga sob as árvores
A Senhora de Shalott

Junto à margem, velada de salgueiros
Deslizam as pesadas barcaças puxadas
Por cavalos lentos, e sozinha
Desliza a escuna com velas de seda
Sem escuma até Camelot
Mas quem a viu acenar com a mão?
Ou ao parapeito a viu arvorar?
Será ela conhecida por toda a terra
A Senhora de Shalott?

Só os segadores ceifando cedo
Por entre as espigas da cevada
Ouvem uma canção que ecoa alegre
Claramente soprada do rio
Até às torres de Camelot
E sob a lua o ceifeiro cansado
Empilhando feixes em regos arejados
Escutando, murmura: «É a fada
A Senhora de Shalott.»

Parte II

Ali ela tece de noite e de dia
Uma teia mágica com cores alegres.
Ela ouviu um murmúrio dizer
Que uma maldição sobre si cairá
Se olhar para Camelot
Não sabe bem o que a maldição possa ser
E por isso vai tecendo constante
E nenhuns outros cuidados tem
A Senhora de Shalott.

E movendo-se por um espelho claro
Dependurado diante de si o ano todo
Sombras do mundo lhe aparecem.
Ali ela vê a estrada perto
Serpenteando até Camelot:
Ali o redemoinho do ribeiro rodopia
E ali os rústicos aldeãos de caracóis
E as capas vermelhas das vendedeiras
Passam além de Shalott.

Às vezes um bando de donzelas alegres
Um abade caminhando lento
Às vezes um pastorinho de caracóis
Ou um pajem carmesim de longos cabelos
Passam até às torres de Camelot
E às vezes pelo espelho azul
Vêm os cavaleiros, a dois e dois:
Não tem cavaleiro leal e verdadeiro
A Senhora de Shalott.

Mas na sua tapeçaria ainda se delicia
A tecer as visões mágicas do espelho
Pois muitas vezes nas noites caladas
Um funeral, com plumas e luzes
E música, entrou em Camelot
Ou quando a lua se ergueu a pique
Vieram dois jovens amantes recém casados
«Estou meio farta das sombras» disse
A Senhora de Shalott.

Parte III

A um lance de seta do átrio da alcova,
Cavalgou ele entre os feixes de cevada,
O sol saiu brilhante por entre as folhas
E flamejou sobre as luzentes grevas
Do audaz Senhor Lancelot
Um paladino de cruz vermelha ajoelhado
Diante de uma dama para sempre no escudo
Que reluzia no campo amarelo
No flanco da remota Shalott.

A rédea com joias cintilava livre,
Como algum ramo de estrelas que vemos
Dependurado da galáxia dourada.
As sinetas da rédea cantavam alegremente
Com ele a cavalgar até Camelot:
E do cinto da espada brasonado
Pendia uma poderosa corneta de prata
E com o cavalgar o arnês tilintava
No flanco da remota Shalott.

Todo, sob o tempo azul sem nuvens
Brilhava denso de joias o couro da sela.
A viseira, e a pena do elmo
Ardiam juntos como uma única chama,
Com ele a cavalgar até Camelot.
Como tantas vezes na noite púrpura
Sob os cachos de estrelas brilhantes,
Algum meteoro de cauda, rasteando luz
Move-se sobre a calma Shalott.

A testa larga e clara brilhava-lhe à luz do sol.
Com cascos polidos trotava o corcel de guerra.
De sob o seu elmo flutuavam-lhe
Os caracóis de azeviche, com ele a cavalgar,
A cavalgar até Camelot.
Da margem e do ribeiro
Ele faiscou no espelho de cristal
«Tira lira», junto ao rio,
Cantava o Senhor Lancelote.

Ela abandonou a teia, abandonou o tear:
Deu três passos a cruzar a sala
E viu os rebentos dos nenúfares:
Ela viu o elmo e a pluma
Ela olhou para Camelot.
Para longe voou a teia, e flutuou esparsa;
O espelho partiu-se de lado a lado
«A maldição caiu sobre mim» gritou
A Senhora de Shalott.

Parte IV

Lutando contra o tempestuoso vento leste
Os bosques amarelo-pálido desvaneciam-se
O largo ribeiro a lamentar-se nas margens,
Pesadamente o céu baixo começou a chover
Sobre as torres de Camelot;
Ela desceu e descobriu um barco
Abandonado a flutuar sob um salgueiro
E em torno da proa escreveu
A Senhora de Shalott.

E pela extensão baça do ribeiro
Como algum ousado vidente num transe
Vendo toda a sua própria desgraça –
Com compostura de vidro
Olhou ela para Camelot
E chegando o fim do dia
Soltou a amarra e deitou-se nele
O ribeiro largo levou-a para muito longe
A Senhora de Shalott.

Deitada, um vestido branco de neve
Ondeava solto para a direita e a esquerda
Sobre si caindo leves as folhas
Por entre os ruídos da noite
Flutuou ela até Camelot
E a proa do barco ao cortar ao longo
Dos montes de salgueiros e por entre os campos
Ouviram-na cantar a sua última canção
A Senhora de Shalott.

Ouviram um cântico, funesto, sagrado
Cantado alto, cantado lentamente
Até que o sangue se lhe gelou lentamente
E os olhos de todo se lhe escureciam
Se viraram para as torres de Camelot
Pois até alcançar com a maré
A primeira casa junto à margem
Cantando a sua canção, ela morreu
A Senhora de Shalott.

Sob as torres e as sacadas
Junto aos muros dos jardins e galerias
Uma forma brilhante, ela flutuava,
Pálida de morte, entre as casa no alto
Em silêncio até Camelot.
Até ao embarcadouro eles vieram
Cavaleiros e burgueses, senhores e damas,
E em volta da proa o nome lhe leram
A Senhora de Shalott.

Quem aqui vai? O que está aqui?
E no palácio iluminado ali perto
Morreu o som dos clamores reais
E benzeram-se com medo
Todos os cavaleiros em Camelot:
Mas Lancelote ficou a pensar um pouco
E disse: «Tem uma cara formosa
Deus na sua misericórdia deu-lhe graça
À Senhora de Shalott.»


Alfred Tennyson, in "Poems, 1842"
Tradução de
 Helena Barbas
 
 

John William Waterhouse, The Lady of Shalott Looking at Lancelot, 1894.

[This is the second of three major paintings by Waterhouse that depicts scenes from the 1832 Alfred, Lord Tennyson poem, "The Lady of Shalott", between the first – The Lady of Shalott – in 1888 and the third – I Am Half-Sick of Shadows, Said the Lady of Shalott – in 1915].
 
 

John William Waterhouse, The Lady of Shalott, 1888.


The Lady of Shalott
(Original)

Part I

On either side the river lie
Long fields of barley and of rye,
That clothe the wold and meet the sky;
And through the field the road runs by
To many-towered Camelot;
And up and down the people go,
Gazing where the lilies blow
Round an island there below,
The island of Shalott.

Willows whiten, aspens quiver,
Little breezes dusk and shiver
Through the wave that runs for ever
By the island in the river
Flowing down to Camelot.
Four grey walls, and four grey towers,
Overlook a space of flowers,
And the silent isle imbowers
The Lady of Shalott.

By the margin, willow-veiled,
Slide the heavy barges trailed
By slow horses; and unhailed
The shallop flitteth silken-sailed
Skimming down to Camelot:
But who hath seen her wave her hand?
Or at the casement seen her stand?
Or is she known in all the land,
The Lady of Shalott?

Only reapers, reaping early
In among the bearded barley,
Hear a song that echoes cheerly
From the river winding clearly,
Down to towered Camelot:
And by the moon the reaper weary,
Piling sheaves in uplands airy,
Listening, whispers “‘Tis the fairy
Lady of Shalott.”

Part II

There she weaves by night and day
A magic web with colours gay.
She has heard a whisper say,
A curse is on her if she stay
To look down to Camelot.
She knows not what the curse may be,
And so she weaveth steadily,
And little other care hath she,
The Lady of Shalott.

And moving through a mirror clear
That hangs before her all the year,
Shadows of the world appear.
There she sees the highway near
Winding down to Camelot:
There the river eddy whirls,
And there the surly village-churls,
And the red cloaks of market girls,
Pass onward from Shalott.

Sometimes a troop of damsels glad,
An abbot on an ambling pad,
Sometimes a curly shepherd-lad,
Or long-haired page in crimson clad,
Goes by to towered Camelot;
And sometimes through the mirror blue
The knights come riding two and two:
She hath no loyal knight and true,
The Lady of Shalott.

But in her web she still delights
To weave the mirror’s magic sights,
For often through the silent nights
A funeral, with plumes and lights
And music, went to Camelot:
Or when the moon was overhead,
Came two young lovers lately wed;
“I am half sick of shadows,” said
The Lady of Shalott.

Part III

A bow-shot from her bower-eaves,
He rode between the barley-sheaves,
The sun came dazzling through the leaves,
And flamed upon the brazen greaves
Of bold Sir Lancelot.
A red-cross knight for ever kneeled
To a lady in his shield,
That sparkled on the yellow field,
Beside remote Shalott.

The gemmy bridle glittered free,
Like to some branch of stars we see
Hung in the golden Galaxy.
The bridle bells rang merrily
As he rode down to Camelot:
And from his blazoned baldric slung
A mighty silver bugle hung,
And as he rode his armour rung,
Beside remote Shalott.

All in the blue unclouded weather
Thick-jewelled shone the saddle-leather,
The helmet and the helmet-feather
Burned like one burning flame together,
As he rode down to Camelot.
As often through the purple night,
Below the starry clusters bright,
Some bearded meteor, trailing light,
Moves over still Shalott.

His broad clear brow in sunlight glowed;
On burnished hooves his war-horse trode;
From underneath his helmet flowed
His coal-black curls as on he rode,
As he rode down to Camelot.
From the bank and from the river
He flashed into the crystal mirror,
“Tirra lirra,” by the river
Sang Sir Lancelot.

She left the web, she left the loom,
She made three paces through the room,
She saw the water-lily bloom,
She saw the helmet and the plume,
She looked down to Camelot.
Out flew the web and floated wide;
The mirror cracked from side to side;
“The curse is come upon me,” cried
The Lady of Shalott.

Part IV

In the stormy east-wind straining,
The pale yellow woods were waning,
The broad stream in his banks complaining,
Heavily the low sky raining
Over towered Camelot;
Down she came and found a boat
Beneath a willow left afloat,
And round about the prow she wrote
The Lady of Shalott.

And down the river’s dim expanse,
Like some bold seër in a trance
Seeing all his own mischance–
With a glassy countenance
Did she look to Camelot.
And at the closing of the day
She loosed the chain, and down she lay;
The broad stream bore her far away,
The Lady of Shalott.

Lying, robed in snowy white
That loosely flew to left and right–
The leaves upon her falling light–
Through the noises of the night
She floated down to Camelot:
And as the boat-head wound along
The willowy hills and fields among,
They heard her singing her last song,
The Lady of Shalott.

Heard a carol, mournful, holy,
Chanted loudly, chanted lowly,
Till her blood was frozen slowly,
And her eyes were darkened wholly,
Turned to towered Camelot.
For ere she reached upon the tide
The first house by the water-side,
Singing in her song she died,
The Lady of Shalott.

Under tower and balcony,
By garden-wall and gallery,
A gleaming shape she floated by,
Dead-pale between the houses high,
Silent into Camelot.
Out upon the wharfs they came,
Knight and burgher, lord and dame,
And round the prow they read her name,
The Lady of Shalott.

Who is this? and what is here?
And in the lighted palace near
Died the sound of royal cheer;
And they crossed themselves for fear,
All the knights at Camelot:
But Lancelot mused a little space;
He said, “She has a lovely face;
God in his mercy lend her grace,
The Lady of Shalott.”


Alfred Tennyson, in "Poems, 1842"




George Edward Robertson
 (British artist, 1864
1964), "The Lady of Shalott", 1900.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

"A si próprio" - Poema de Giacomo Leopardi (2 traduções)



Laurits Andersen Ring (Danish painter, 1854–1933), "Sønnen Ole kigger ud af vinduet"
(Ole Looking out of the Window)
, 1930, Randers Kunstmuseum.



A si próprio


Repousarás agora para sempre,
Ó meu cansado coração. Está morta a suprema
Ilusão, que julguei eterna. Morta. Bem sinto
Que das minhas caras ilusões
Não a esperança, mas o desejo é extinto.
Repousa para sempre. Demasiado
Palpitaste. De nada valem
Teus movimentos, nem de suspiros é digna
A terra. Amargor e tédio
A vida, nada mais; o mundo é lama.
Sossega, enfim. Desespera
Pela última vez. À nossa espécie o destino
Mais não deu que o morrer. Despreza-te, a partir de agora,
A ti, à natureza, ao mau
Poder, que, oculto, para nosso comum dano governa,
E à infinita vaidade de tudo.


Giacomo Leopardi, in "Cantos".
Apresentação, seleção, tradução e notas de Albano Martins,
Vega, Gabinete de Edições, Lisboa, s/d.



Laurits Andersen Ring, "Ved det Gamle Hus" (At the Old House), 1919-22.



A si mesmo


Repousa para sempre,
exausto coração. Morto é o engano extremo
que eu supusera eterno. É morto. E sinto
que em nós de enganos caros
a mais da esperança, o desejar é extinto.
Repousa. Já bastante
hás palpitado. Coisa alguma vale
o teu bater, nem de saudade é digna
a terra. Tédio amargo
a vida, e nada mais; e lama é o mundo.
Quieto, pois. Desperta
por uma última vez. À raça humana o fado
não deu mais que o morrer. Ora despreza
a natureza, o triste
brutal poder que contra nós impera,
e o infinito vácuo do que existe.


Giacomo Leopardi
(1798-1837),
in Antologia: "Poesia de 26 Séculos",
Tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena,
Fora do Texto, Coimbra, 1993.



Laurits Andersen Ring, "Den syge mand" (The sick man), 1902,
Den Hirschsprungske Samling



A Se Stesso
(Original)


Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, né di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.

1835

Giacomo Leopardi, Canti, con uno scritto di Giuseppe Ungaretti,
Arnaldo Mondadori Editore S.p.A., Milão, 1987.
 


Laurits Andersen Ring, "På kirkegården i Fløng" (Churchyard at Fløng, Zealand), 1904,
Statens Museum for Kunst.


"Ter fé é ser mais humano, no sentido mais verdadeiro."

"To have faith is to be human, in the highest, truest, sense."


Wilfred Cantwell Smith,
in "Faith and belief: the difference between them",  pág. 138,
Oneworld Publications, 1998 (347 páginas).
 
 

"Five O'clock Tear" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

  
 
Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883-1963),
Daphne (Daphne a Pavarolo), 1934, olio su compensato, 121 x 151 cm.
Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea, Torino.




Five O'clock Tear


Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
pra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada.

Emanuel Félix Borges da Silva,
in A palavra, o açoite: poemas, 1977.


Pinturas de Felice Casorati

Felice Casorati, L'attesa (The Waiting), c. 1918-1919.



Felice Casorati, Bambina, c. 1919, 
Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea, Torino.



Felice Casorati, Ragazza in collina (Ragazza di Pavarolo), 1937,
Galleria Civica d'Arte Moderna e Contemporanea, Torino.
 


Felice Casorati, Marilena, 1936, Private Collection.
 
 

Felice Casorati, Portrait of Silvana Cenni, 1922, Private Collection.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

"A mesa" - Poema de Bandeira Tribuzi



Edmund C. Tarbell (American Impressionist painter, 1862–1938),
"The Breakfast Room"
, ca. 1903, Pennsylvania Academy of the Fine Arts.


A mesa


A mesa tem somente o que precisa
para estar, circundada de cadeiras,
fazendo parte da vida familiar
entre alimentos, flores e conversa.

Escura mesa gravemente muda
que, parecendo alheia a quanto a cerca,
encerra no silêncio toda a ciência
da idade desdobrando gerações.

Olho de cerne, comovido e frio!
indiferente coração parado
entre o grito infantil e o olhar cansado.

Mistério de madeira rodeado
por cadeiras, lembranças, utensílios,
e um leve odor de tempo alimentício.


Bandeira Tribuzi
 (1927–1977),
in "Rosa de Esperança", 1950.
 
 
Pinturas de Edmund C. Tarbell

Edmund C. TarbellGirl Mending, 1910.
 
 

Edmund C. Tarbell, Three girls reading, 1907.

 
 
Edmund C. Tarbell, Mother and Mary, 1922, National Gallery of Art.


 
Edmund C. Tarbell, Mother, Mercie and Mary, 1918.

"Primavera" - Poema de Armindo Trevisan



Edgar Maxence
(French Symbolist painter, 1871-1954),
"Vers l'Idéal" (Towards the Ideal), 1904.
 

Primavera


Por que será que penso nos teus lábios
quando avisto, em quintais, limões maduros?

Serão eles, dobrados sobre os muros,
Livreiros que esquadrinham alfarrábios?

Ou hão de perecer polidos cabos
Rumorejando sobre os ares puros?

Eu sempre penso nos limões: dourados,
Guardam-se incorruptíveis, e fechados. 


Armindo Trevisan, in 'A Dança do Fogo'.
Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001.