terça-feira, 7 de abril de 2026

"Aquário" - Poema de Alice Gomes


 
Young-Sung Kim (South Korean hyperrealist visual artist, b. 1973)
(daqui)


Aquário


Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.

Sabia os sítios seguros
onde os maiores e mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.
E continuava a viver.

Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.

A onda amiga ondulava
enquanto o acalentava
aquecia
arrefecia
e para longe o levava.
Tão longe
tão vasto o mundo…
o seu mundo!
Tão largo, alto e profundo!…

Que alegria de nadar!
Mas um dia aconteceu
que um fenómeno se deu:
foi pescado
foi levado
para fora do seu mar
para longe do seu lar
transportado
bem fechado
numa prisão de cristal.

E se não lhe fizeram mal
se o não comeram com sal
está muito descontente
nessa prisão transparente
à vista de toda a gente. 


Alice Gomes (1910-1983),
Bichinho Poeta: Poesia (também para crianças);
Lisboa, Gráfica Santelmo.
 
 

"Bichinho Poeta" de Alice Gomes;
Ilustração de Mário Neves.
Gráfica Santelmo, 1ª edição, 1970.


Alice Gomes, escritora portuguesa, nascida em 1910, em Tabuaço, foi casada com Adolfo Casais Monteiro.
Professora primária, dedicou-se ao ensino e à pedagogia. Como escritora dedicou o seu trabalho à literatura infantil.
Traduziu para português Le Petit Prince (O Principezinho) de Saint-Exupéry. Do seu espólio literário fazem parte obras como As Histórias de Coca-Bichinhos (1967), Giroflé-Giroflá (1970), Os Ratos e o Trovador (1973).
 Faleceu em 1983. (daqui)
 

"Pontinho de vista" - Poema de Pedro Bandeira



Thalia Flora-Karavia (Greek artist and member of the Munich School, 1871–1960)
 
 

Pontinho de vista


Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.

Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
- Minha nossa, que grandão!


Pedro Bandeira
em "Por enquanto eu sou pequeno"
 
 
 
"Por enquanto eu sou pequeno" de Pedro Bandeira
Ilustração: Attílio 
 
 
RESUMO
 
"É um livro que eu escrevi com imenso prazer. Criei cada um destes poeminhas pensando na minha própria infância, nos divertidos versinhos tipo "Batatinha quando nasce" que a gente tinha de decorar para exibir-se para as visitas. Mas, principalmente, escrevi cada verso lembrando dos sonhos da infância, quando a gente descobre que um dia virará "gente grande". Que tempo gostoso! E o mais gostoso de tudo é virar gente grande sem nunca esquecer como foi bom ter sido criança!" (daqui)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"A beleza paradisíaca" - Texto de Rubem Alves


 
Auguste-Émile Pinchart
(French painter and designer, 1842–1920),
Gathering flowers, Unknown date.



A beleza paradisíaca


Conhece-se a beleza dádiva dos deuses por aquilo que ela produz na alma dos homens. Quem é possuído por ela entra em êxtase: cessa o riso, cessa o choro, o pensamento para, a fala emudece. É mística. A alma está tomada pela felicidade da tranquilidade absoluta. Era assim que se sentia o Criador ao contemplar, ao final de cada dia de trabalho, o resultado da sua obra:
“Está muito bom! Do jeito que deveria ser! Nada há de ser modificado! Amém!”


Rubem Alves (1933–2014), in "Um céu numa flor silvestre: A beleza em todas as coisas"


 
"Um céu numa flor silvestre" de Rubem Alves.
Verus Editora, 12/12/2011 - 260 páginas.
 
 
SINOPSE 

Tendo como inspiração a poesia de William Blake, Rubem Alves nos surpreende mais uma vez com esta coletânea de crónicas inéditas.
Esta obra leva o leitor a uma viagem pelas mais diversas formas de beleza presentes no dia a dia, as quais, muitas vezes, passam despercebidas ao observador menos atento – a beleza que pode ser revelada pelo divino, exaltada pelas artes, enaltecida pela natureza, ou criada, descoberta e compartilhada pelos homens. O autor também nos mostra como o belo pode ser visto de forma diferente, dependendo do olhar que o contempla e do momento especial em que é visto. 
"Um céu numa flor silvestre" vai transportar o leitor para o reino da beleza, enchendo sua alma de poesia, de esperança, de sonhos. E, para embarcar nessa viagem, só uma coisa é necessária: ter o olhar transformado. (daqui)
 
 
Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora. 



William Blake
(Poeta, pintor e tipógrafo inglês, 1757–1827)

 
Auguste-Émile Pinchart, Collecting Wildflowers, ca. 1890.


"A mulher é a mais bela das aves que existe na terra."


Alfred de Musset
(Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857) 
 

domingo, 5 de abril de 2026

"Fé" - Poema de Czesław Miłosz



William Brymner (Canadian painter and educator, 1855–1925) & Horatio Walker
(Canadian painter, 1858–1938), "À l'ombre du pommier" (In the shade of the apple tree), 1903,
Musée national des beaux-arts du Québec.





Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.
Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.
in "Alguns gostam de poesia" - Antologia 
 (Poemas de Czesław Miłosz e Wisława Szymborska),
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neve, 
Editora Cavalo de Ferro, 2004.
 
 

Czesław Miłosz em 1999
 
Czeslaw Milosz foi um escritor polaco nascido a 30 de junho de 1911, em Seteiniai, na Lituânia. Filho de um engenheiro civil, acompanhou a família na sua mudança para o território polaco, em consequência da assinatura do Armistício, fixando-se em Vilna. Aí estudou, licenciando-se em Direito pela Universidade de Vilna em 1934.
Enquanto estudante, publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poemas intitulada Poemat O Czasie Zastyglym (1933). Empreendeu depois uma viagem que o levou até Paris, onde teve oportunidade de estreitar os laços que o uniam a um tio afastado, diplomata e poeta reconhecido em língua francesa. Em 1936 regressou a Vilna, onde não só publicou o seu segundo livro, Trzy Zimy, como passou a trabalhar na emissora de rádio da cidade. Foi despedido no ano seguinte por razões políticas, que o colocavam em simpatia com a esquerda, e mudou-se para Varsóvia, cofundando o movimento literário Zagary. 
Em 1939 a Polónia foi invadida por tropas alemãs, acontecimento que despoletou a Segunda Guerra Mundial. Milosz juntou-se à Resistência, escrevendo artigos em que condenava a ideologia Nacional-Socialista. Em 1945, terminada já a guerra, publicou Ocalenia, obra que lhe valeu a admissão no Corpo Diplomático do regime comunista. A partir de 1946 cumpriu uma missão na representação polaca da cidade de Washington, até que, em 1951, ao ser transferido para Paris, pediu asilo político a França, onde viveu até 1960. Durante esse período publicou Zniewolony Umysl (1953), trabalho que foi traduzido para a língua inglesa com o título The Captive Mind, e em que revela os problemas que afetavam os intelectuais tentando sobreviver sob a alçada de Estaline. Traktat Poetycki (1957), obra em que defende a validade da poesia nas comunidades, foi considerada como uma das suas melhores obras. 
Em 1960 partiu para os Estados Unidos da América, onde se tornou professor catedrático de Línguas Eslavas na Universidade de Berkeley. Tomou a cidadania norte-americana em 1970. No início da década de 80 regressou à Polónia, onde foi acolhido com grandes honrarias, e fixou-se na cidade de Cracóvia. Czeslaw Milosz foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Nobel da Literatura em 1980.
Czeslaw Milosz faleceu a 15 de agosto de 2004. (daqui)

sábado, 4 de abril de 2026

"Horizonte" - Poema de Fernando Pessoa

 


Jaume Morera i Galícia (Pintor paisatgista català, 1854-1927), Esperando la marea,
Playa de Arrigunaga
, 1904. Museu d'Art Jaume Morera.
 
 

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

s.d.

Fernando Pessoa, Mensagem
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 
(Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58.


 
Jaume Morera i Galícia, Playa con sol poniente, s.d.
Óleo sobre lienzo, 86 x 102 cm. Colección particular.
 

"Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota."


Adélia Prado
, Trecho do poema "Desenredo"
do livro "O Coração Disparado."

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"Os Galos de Lurçat" - Poema de Mário Dionísio



Jean Lurçat
(Peintre, céramiste et créateur de tapisserie français, 1892-1966), 
 

Os Galos de Lurçat


Num turbilhão de folhas e de sóis
entre nuvens peixes pedras luas estrelas
cantam os galos de Lurçat

Bom dia corações de girassol e astros com cabelos
Bom dia homens com raízes

Pairam na lã os ares
do Loire e do Garona
meiga luz de velhíssimos teares
cheiro a cachos do Beaune
meiga luz dos mil matizes do aroma
da doce terra de França

Entre troncos caídos em clareiras virgens
graves galos garbosos
de esporões floridos
com a manhã nas cristas

Que outras horas são estas
Que outros sítios e olhos? Que mendigos em festa?
Que serenidades imprevistas?

Galos negros e azuis
entre o presente e o futuro
traçam nos túneis absurdos
esguias figuras mudas

Galos verdes e castanhos
rasgam na alma os lanhos
da poeira dos anos

Galos vermelhos brancos amarelos
no ponto robusto de ásperas lãs
soltam clarins nas ruínas ermas dos castelos
de que se erguem amanhãs

Oh universos suspensos de Lurçat nos nevoeiros densos
da doce terra de França
Oh fanfarras desgrenhadas nas auroras dúbias e ousadas
na doce terra de França

Teus galos cantam fúria e eu oiço amor
teus galos cantam dor e luto e noite e eu oiço
esperança

(1950) 

Mário Dionísio, in 'Poesia Completa', 
Imprensa Nacional, 2016.
 
'Poesia Completa', de Mário Dionísio, é uma compilação da poesia produzida ao longo de quase cinquenta anos, de 1936 a 1982, e que se encontra materializada em cerca de 420 poemas.

Jorge Silva Melo
 em «Memórias de Um Leitor que Começou pelo Meio», que prefacia a presente edição, considera que a produção poética de Mário Dionísio «É uma poesia, descubro então, sem o luxo altaneiro das letras, sem exclamações, nem reticências, sem ópios nem gladíolos, sem desmaios nem declamações, poesia certa, poesia sem nobreza poética, feita de repetições cantáveis (…)».
 (daqui)
 
 
 

À questão: 'O que é a arte?' somos levados a responder: 
'Aquilo por meio do qual as formas se tornam estilo'.
 


André Malraux (1901-1976) em 1974;
Fotografia de Roger Pic (1920-2001).



André Malraux foi um escritor, intelectual, governante e aventureiro francês nascido a 3 de novembro de 1901, em Paris, e falecido a 23 de novembro de 1976, em Créteil, também em França.

Aos 25 anos, foi viver para o Camboja, na companhia da mulher, a escritora Clara Goldsmit. Passou depois pelo Vietname e pela China, de onde regressou novamente a território vietnamita. Em 1926, havia publicado o seu primeiro livro, La Tentation de l'Occident (A Tentação do Ocidente), editado em Portugal em 2005, composto pela troca de correspondência entre um chinês em viagem pela Europa e um francês no Extremo-Oriente.

Dois anos mais tarde, a experiência chinesa inspirou Malraux a escrever Les Conquérants (Os Conquistadores). O escritor francês lançou de seguida, em 1930, La Voie Royale (A Estrada Real), um romance passado na Indochina. Em 1933, ganhou o prestigiado prémio literário francês Goncourt graças a La Condition Humaine (A Condição Humana). Já de regresso à Europa, Malraux continuou a sua forte militância política, o que o levou a tornar-se combatente republicano durante a Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 1939. Manteve a atividade de escritor e, em 1937, lançou L'Espoir (A Esperança).

Entretanto, em 1939, com o advento da Segunda Guerra Mundial, Malraux alistou-se na Resistência, tornando-se partidário do general Charles de Gaulle. Paralelamente, deixou o Partido Comunista Francês, descontente com o facto dos soviéticos terem assinado um pacto com os alemães. Com o terminar da guerra, Malraux dedicou-se ainda mais à política e, em 1945 e 1946, foi ministro da Informação do governo provisório liderado por De Gaulle. Contudo, continuou a escrever e, entre a Segunda Guerra Mundial e meados da década de 50, publicou vários trabalhos sobre arte e estética. Entre estas obras destacam-se Voix du Silence (As Vozes do Silêncio) e Le Musée Imaginaire de la Sculpture Mondiale (O Museu Imaginário da Escultura Mundial). Regressou de forma efetiva à política, em 1958, para assumir de novo a chefia do Ministério da Informação, num governo liderado por Charles de Gaulle. Logo no ano seguinte, assumiu a pasta da Cultura e foi ministro desta área até 1969. Ano em que abandonou o cargo após a contestação surgida por ocasião das manifestações estudantis do maio de 68.

Até morrer, em 1976, André Malraux dedicou-se em exclusivo à escrita tendo lançado, sucessivamente, Les Chênes qu'on abat (1970, Quando os Robles se Abatem), Oraisons funébres (1971), Le miroir des limbes (1972), La corde et les souris (1976), este último a sua derradeira obra. (daqui)
 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Lindinha" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


Salvador Dalí (Spanish surrealist artist, 1904–1989),
Untitled (Landscape with Butterflies), c. 1956.



Lindinha 


É linda, é vida, é mulher
essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.

É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora
na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?

Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.

Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.

Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.


Affonso Romano de Sant'Anna
,
Textamentos, 1999.