Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894–1978),
Young Love: Swinging, 1949, Part of the "Four Seasons" series.
A Liberdade o que é?
A liberdade
é um pássaro sem medo
a cantar dentro da boca.
A liberdade
é uma árvore
capaz de abraçar as estrelas.
A liberdade
é uma palavra límpida
no ramo mais alto da fala.
A liberdade
é um morango a dizer ao vermelho:
"Agora quero ser verde."
A liberdade
é um livro escrito com a tinta
de que são feitos os sonhos.
A liberdade
é a língua a soltar-se
para chamar a felicidade.
A liberdade
é a rima esvoaçante
a beijar os namorados.
A liberdade
é a palavra nova
no ramo mais alto da fala.
A liberdade
é um livro sempre aberto
na página ainda por escrever.
A liberdade
é um quadro onde as tintas
sabem a fruta e a mar.
A liberdade
é um homem a escrever o livro
que conta o que ainda ninguém sabe.
A liberdade
é um trocadilho
para fazer rir um filho.
A liberdade
é um circo que torna livres
todos os bichos.
A liberdade
é um voz feita coro
para que todos possam cantar.
A liberdade
é uma onda imensa
a inundar a praia de gaivotas.
A liberdade
é uma letra apaixonada
por um número iluminado.
A liberdade
é um avô a gatinhar,
sem parar, atrás do neto.
A liberdade
é a poesia a matar em nós
a fome que temos de música.
A liberdade é azul
e tem meninos dentro
a sonhar e a brincar.
A liberdade
é um pequeno gesto
onde cabe tudo o resto.
A liberdade
é um ponto final
em tudo o que nos faz mal.
A liberdade
é a metade que falta
à nossa felicidade.
A liberdade
é um corvo a pintar de luz
o escuro da noite.
A liberdade
é um capitão a beijar
a alegria de um cravo.
A liberdade
é uma rua a desaguar,
ao luar, no infinito.
A liberdade
é um rio loucamente
apaixonado por uma cidade.
A liberdade
é um lágrima de súbito
transformada em diamante.
A liberdade
é ter tempo para dar
mais tempo aos outros.
A liberdade
é um menino
de todas as cores.
A liberdade
é uma andorinha
a desenhar a primavera.
A liberdade
é às vezes um verso
tão belo como o Universo.
A liberdade
é um poeta a dar nomes
aos sentimentos do mundo.
A liberdade
é um caracol
a brincar com o sol.
A liberdade
é um navio
de fio a pavio.
A liberdade
é um computador
a chorar de saudade.
A liberdade
é o dia, com fantasia,
de dar luz à noite.
A liberdade
é um comboio
a atravessar as nuvens.
A liberdade
é a última coisa
que se pode perder.
A liberdade
é o rumo que tem
a sabedoria do vento.
A liberdade
é um barco a sair
de dentro de uma garrafa.
A liberdade
é um guarda-chuva
a apanhar sol.
A liberdade
é uma borboleta
pousada no vidro dos dias.
A liberdade
é ter asas e saber
voar com elas, através das janelas.
A liberdade
é um malmequer
a perfumar a própria sombra.
A liberdade
é um poema a nascer
no meio das rosas.
A liberdade
podemos ser todos nós
com uma flor na voz.
A liberdade
é uma baía
onde mora a poesia.
A liberdade
é um desejo que nunca
ninguém conseguiu domar.
A liberdade
é um velho
para sempre criança.
A liberdade
é um vagar
que nunca teve pressa.
A liberdade
é um país sem medo
a tentar ser feliz.
A liberdade
é o sonho de uma noite
a durar a vida inteira.
A liberdade
é um peixe
com o luar nas escamas.
A liberdade
é a poesia
como pão para a boca.
A liberdade
é uma caneta a escrever, sozinha,
a própria vida.
A liberdade é
o último dos nomes
que um homem pode esquecer.
A liberdade é
a respiração de um pássaro
a confundir-de com o perfume da brisa.
A liberdade é
um lugar que não vem no mapa
e onde o vento se enamora.
A liberdade é
o nome que nos apetece dar
ao sonho quando abre portas.
A liberdade
é o nome que falta dar
àquilo que nos faz falta.
A liberdade
é um gato
apaixonado pela lua.
A liberdade é
um menino a imaginar
que é um rio a correr para o mar.
A liberdade
é uma pérola
que se transforma em pão.
A liberdade
é o rosto mais belo que alguém vê
quando deixa a escuridão para trás.
José Jorge Letria,

"A Liberdade o que é?" de José Jorge Letria.
Ilustrações de Catarina França.
1ª ed. - Porto: Ambar, 2007.
SINOPSE
Compilação de textos poéticos muito breves (tercetos) subordinados a um mote comum – a definição da liberdade –, o livro de José Jorge Letria conduz o leitor numa viagem pelas diferentes formas – muitas metafóricas – de olhar e experimentar a liberdade, aqui recriada como uma maiores conquistas da Humanidade.
Norman Rockwell, "On Top of the World", also known as "Boy on Weather Vane"
or "Boy on Weathercock", 1934. Oil on canvas, 27.94 × 22.86 cm.
Cover illustration for The Saturday Evening Post, October 20, 1934.
"When we lose the right to be different we lose the right to be free."
Charles Evans Hughes, citado em "Friends' intelligencer".
[Advogado, político e jurista norte-americano, 1862–1948]


,%20Bluebirds%20and%20Persimmons,%202014..jpg)
.jpg)

,%20Playing%20blindfold%20on%20the%20beach.jpg)





