quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Chegou o Outono" - Poema de Alice Gomes

 


Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831–1910),
 "Under the Umbrella"
("Enfants allant à l'école sous un parapluie"), 1884.


Chegou o Outono


Chega o Outono!
As andorinhas
despedem-se das outras avezinhas
e vão pelos ares fora
vão-se embora
embora?
Não!
Que voltam, voltarão…
Quando a bela estação
da Primavera
que antecede ao Verão
oferecer melhor vida.
Não têm agasalhos nem comida,
vão para terras quentes
à procura do sol que as consola
Mas nós, crianças, 
nós, 
todos contentes
partimos para a escola.


Alice Gomes, in 'Bichinho Poeta', 1970;
in 'Poesia portuguesa para crianças - Antologia'

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"Mistérios da Escrita" - Poema de Álvaro Magalhães



Georgia O'Keeffe (American modernist painter and draftswoman,
1887–1986), "Sunflower", 1921

 

Mistérios da Escrita


Escrevi a palavra flor.
Um girassol nasceu,
No deserto de papel.
Era um girassol
como é um girassol.
Endireitou o caule,
sacudiu as pétalas
e perfumou o ar.
Voltou a cabeça
à procura do Sol.
E deixou cair dois grãos de pólen
sobre a mesa.
Depois cresceu até ficar
com a ponta de uma pétala
fora da Natureza.


Álvaro Magalhães
in "O Limpa-Palavras e outros poemas", 
Porto, Edições Asa, 2000.



Georgia O'Keeffe, "Sunflower", 1940–1942. Oil on canvas, 
 Private Collection.


Sol no girassol.
Sombra desenha outra flor
no corpo dourado.


Aníbal Beça (1946–2009) 
 
 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

"Fim de Verão" - Poema de Paulo Henriques Britto



Jim Daly (American painter, born 1940), Summer’s End



Fim de Verão

XIV

A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.

É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco

porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza

com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,

proporcionando às retinas
já habituadas à rotina

de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória

uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.

Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.


Paulo Henriques Britto
,
Fim de Verão, 2022
 
 

Jim Daly, The Immigrant Spirit, 1992 

At the 1904 St. Louis World's Fair, a concessionaire who was selling ice cream ran out of cups. The concessionaire next to him was selling crisp, wafer-like pastry baked on a flat waffle iron. It was his idea to roll one of his wafers into a cornucopia, let it cool, and put a scoop of ice cream into it. 
The idea was an immediate hit and the "World's Fair Cornucopia", or ice cream cone, was born. Both the concessionaires were immigrants, and in my painting, The Immigrant Spirit, I wanted to show that spirit of enterprise and innovation. 
The same spirit brought the immigrants through Ellis Island and carried them through the new land. Thy were truly "pillars of a nation." 
 Jim Daly
 
 
 
Jim Daly, Her Secret Place, 1991


⁠"Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças."

Manoel de Barros,
Trecho do poema Exercícios de ser criança.
in Poesia completa, São Paulo: LeYa, 2010.
 

sábado, 12 de setembro de 2026

"Desaparecido" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro

 


Ryan Mutter
 (Scottish artist, b. 1978), 'Crail', 2021.
Oil on Canvas, 50 × 40 cm, Private Collection.


Desaparecido


Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapareceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
— Livre o instinto, em vez de coagido,
"De casa de seus pais desapareceu..."
Eu, o feliz desaparecido! 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), 
in 'Desaparecido', 1935



Desaparecido: poemas de Carlos Queiroz, 1935.
Contém dedicatória autógrafa a Fernando Pessoa 
datado de 31-10-1935 oferecendo propositadamente
o exemplar com o nº 13.
 (daqui)


Sobre Desaparecido, de Carlos Queiroz
por Fernando Pessoa


A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora: os poemas são admiráveis.
Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: — que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização. Cumpriu, sem ter prometido, sem ter tido que prometer. 
Assim se deveria fazer sempre, ou quase sempre. Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte. Não escrevia Milton um soneto sem que o fizesse como se desse soneto dependesse toda a sua fama futura.
E que prazer o de se poder escrever isto sem que a amizade que tenho pelo poeta, que é muita, uma só palavra me dite; sem o que o gosto de incitar quem é jovem, e tenho esse gosto, me faça sublinhar uma só frase; de poder escrever isto sem mais entendimentos que com a justiça, sem mais combinações que com a verdade.

1935

Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980. 
1ª publ. in Revista de Portugal, nº 2. Coimbra: Jan. 1938
.

 


Ryan Mutter (Scottish artist, b. 1978), 'Dockland Life'.
Oil on Canvas, 
 60 × 60 cm, Private Collection.
 

"O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação."
 [Escritor, poeta e dramaturgo irlandês, 1854–1900]
 
 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Brincávamos a cair nos braços um do outro" - Poema de Valter Hugo Mãe



Félix Vallotton (Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),

"The Lie" ("Le Mensonge"), 1898. Baltimore Museum of Art 
(Cloisonnism)

brincávamos a cair nos braços um do outro


brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as atrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade


Valter Hugo Mãe, in 'contabilidade', 2010



Félix Vallotton
(Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),
"Intimacy" or "Interior with Couple and Screen", 1898 (Cloisonnism),
Private collection



Cloisonnisme

O Cloisonnisme é um estilo da pintura pós-impressionista caracterizado por cores lisas delimitadas por contornos escuros. O termo foi utilizado pelo crítico Édouard Dujardin por ocasião do Salão dos Independentes em Março de 1888. Os artistas Émile Bernard, Louis Anquetin, Paul Gauguin, Paul Sérusier, e outros, começaram a pintar com este estilo no final do século XIX. O nome remete para a técnica de cloisonné, onde arames (cloisons ou "compartimentos") são soldados ao corpo da peça, enchidos com pó de vidro e, em seguida, colocados no meio de chamas a altas temperaturas, numa técnica semelhante ao do vitral. Muitos daqueles pintores descrevem os seus trabalhos como sintetismo, um movimento com algumas semelhanças.

No O Cristo Amarelo (1889), muito citado como o melhor exemplo de cloisonnisme, Gauguin reduz a imagem a áreas de uma única cor separadas por linhas escuras muito carregadas. Nestes trabalhos, ele deixa de lado a perspetiva clássica, e elimina as transições de cores (as gradações cromáticas como o degradê ou as técnicas de sensação de volume como o sfumato) — duas das principais características da pintura pós-renascentista.

Uma forte influência na técnica de representação usada (não nos temas representados mas na forma de pintar) foram as estampas japonesas Ukiyo-e que cativaram a sociedade francesa daquela altura pela sua novidade, no chamado japonismo. Escreveu Paul Gauguin:

"Olhe para os excelentes artistas japoneses, e verá a vida retratada no ar livre e ao sol sem sombras, a cor a ser usada apenas como combinação de tons, diversas harmonias, dando a impressão de calor etc."

A separação das cores no cloisonnisme, reflete um desejo de descontinuidade que é uma característica do modernismo. (daqui)
 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Anatomia do gato" - Poema de Francisco Carvalho



Clement Burlison
(English painter, 1815–1899), 'White Cat', n.d.
Oil on canvas, 76.5 x 64 cm, private collection.


Anatomia do gato


À luz do recato
é o novelo de fios de lã de ovelha
com que Penélope teceu a túnica de Ulisses.
Seu fino olfato capta fragmentos
de aromas dos astros e orquídeas da insónia.
Parece uma brisa que veio dos campos de centeio.

O gato e sua pompa de arauto
cabem num sapato.
Os seus olhos de mercúrio enxergam
alfinetes no anonimato  
e a namorada que passeia no muro do sobressalto.
O gato tem sete vidas
sete maneiras de ser arguto.
Quando morre de velho, só lhe basta um minuto.


Francisco Carvalho (1927–2013),
'O Silêncio é uma Figura Geométrica', 2002. 
 
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Convite" - Poema de José Paulo Paes



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905),
A Little Coaxing (Câlinerie), 1890


Convite
 
 
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia? 
 

José Paulo Paes (1926–1998),
em "Poemas para Brincar", 1991,
Editora Ática
 


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
 
Le Livre De Prix, 1901, Private collection.


"Não há visão mais bela do que contemplar uma criança a ler."
 
Günter Grass
[Escritor, dramaturgo, poeta, intelectual e artista plástico alemão, 1927–2015]