terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"Lugar" - Poema de W. S. Merwin



John Frederick Kensett
(American landscape painter and engraver born in Cheshire,
Connecticut, 1816–1872), "The Old Pine", Darien, Connecticut, c. 1872.
Metropolitan Museum of Art, New York City.


Lugar

 
No último dia do mundo
gostaria de plantar uma árvore
não para que
dê frutos
a árvore que carrega os frutos
não é a mesma que foi plantada
Quero a árvore que fica de pé
na terra pela primeira vez
com o sol
a desaparecer
e a água
tocando as suas raízes
na terra cheia de mortos
e as nuvens que passam
uma a uma
sobre as suas folhas 
 
 
 

W. S. Merwin, c. 1972. Photograph by Douglas Kent Hall 
(daqui)
 
William Stanley Merwin foi um autor norte-americano nascido a 20 de setembro de 1927, em Nova Iorque. Um dos mais importantes poetas de língua inglesa do nosso tempo, Merwin foi também um exímio tradutor, ecologista e antibelicista.
Duas vezes poeta laureado dos EUA, ganhou os prémios National Book Award e duas vezes o Pulitzer.
Em 1976, mudou-se para o Havai, onde combateu pela preservação da floresta tropical. Aí morreu, a 15 de março de 2019. (daqui)
 
 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

"Os trabalhos e os dias" - Poema de Jorge de Sena

 


Frédéric Bazille (French Impressionist painter, 1841 – 1870),
"Portrait of Edmond Maître" (French writer, musician,
and art collector, 1840 – 1898), 1869.



Os trabalhos e os dias


Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena, in "Coroa da Terra", 1946.
In "Não leiam delicados este livro – 100 poemas de Jorge de Sena",
Editora Bazar do Tempo, 2019.
 


"Não leiam delicados este livro: 100 poemas de Jorge de Sena",
(Organizado por Gilda Santos, contribuição de Eduardo Lourenço)
Editora Bazar do Tempo, 2019.
 
 
RESUMO

Poeta aclamado e um dos mais importantes intelectuais portugueses do século XX, Jorge de Sena ganha esta alentada antologia poética no ano de celebração de seu centenário de nascimento. Autor de uma obra vastíssima, incluindo ainda ficção, teatro ensaios, Jorge de Sena teve na poesia seu campo de experimentação, provocação e renovação. “Sena promove, na sinuosidade erógena dos versos, a fertilização de uma linguagem sempre à beira do desgaste e sempre pronta a incessante renovação.”, aponta Gilda Santos, professora de literatura portuguesa da UFRJ e organizadora da antologia.

A edição reúne, além de 100 poemas do autor, uma série de notas explicativas e imagens que fazem parte do rico universo de Jorge de Sena. Um ensaio do filósofo, crítico e ensaísta português Eduardo Lourenço oferece uma análise aprofundada de sua produção poética. Para Lourenço, que destaca o papel fundamental de Jorge de Sena como um dos primeiros e mais lúcidos comentadores e críticos do Modernismo em geral, há na obra do poeta uma “desconfiança em relação ao poético enquanto lírico, canto por demais encantador e, por isso mesmo esquecido de sua função, tão mais necessária, de arma contra a mentira da imagem aceitável e aceita da condição humana.”

Essa suspeita em relação à própria poesia é possivelmente o traço mais original da obra de Jorge de Sena, e toma proporções cada vez maiores à medida que sua aventura pessoal se torna mais complexa e mais dolorosa, confrontada não somente com o mundo confinado de Portugal em um regime ditatorial, assim como com os vastos horizontes de sua errância voluntária pelo Brasil e pelos Estados Unidos. (daqui)
  

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Ainda assim eu me levanto (Still I Rise)" - Poema de Maya Angelou

 


Jan Boeckhorst (German-born Flemish Baroque painter, c. 1604–1668),
"Allegory of Africa" (from the Continents Cycle), Liechtenstein Museum.
 

Ainda assim eu me levanto


Você pode me marcar na história
Com suas mentiras amargas e distorcidas
Você pode me esmagar na própria terra
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Meu atrevimento te perturba?
O que é que te entristece?
É que eu ando como se tivesse poços de petróleo
Bombeando na minha sala de estar.

Assim como as luas e como os sóis,
Com a certeza das marés,
Assim como a esperança brotando,
Ainda assim, eu vou me levantar.

Você queria me ver destroçada?
Com a cabeça curvada e os olhos baixos?
Ombros caindo como lágrimas,
Enfraquecidos pelos meus gritos de comoção?

Minha altivez te ofende?
Não leve tão a sério
Só porque rio como se tivesse minas de ouro
Cavadas no meu quintal.

Você pode me fuzilar com suas palavras,
Você pode me cortar com seus olhos,
Você pode me matar com seu ódio,
Mas ainda, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade te perturba?
Te surpreende
Que eu dance como se tivesse diamantes
Entre as minhas coxas?

Saindo das cabanas da vergonha da história
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e pulsante,
Crescendo e jorrando eu carrego a maré.

Abandonando as noites de terror e medo
Eu me levanto
Para um amanhecer maravilhosamente claro
Eu me levanto
Trazendo as dádivas que meus ancestrais me deram,
Eu sou o sonho e a esperança dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.


Maya Angelou (1928-2014), in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates
 
 

"And Still I Rise: A Book of Poems"
by Maya Angelou, 1978.
(first edition)


Still I Rise


You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard
’Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin’ in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.


Maya Angelou, from "And Still I Rise: A Book of Poems", 1978.
"The Complete Collected Poems of Maya Angelou", 1994.
 (daqui)
 
 

sábado, 31 de janeiro de 2026

"Uma lágrima no mar" - Poema de Mário Avelar



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
The Fog Warning, 1885; Museum of Fine Arts, Boston, U.S.


Uma lágrima no mar

 
Falou-me da nostalgia
que nos roubaram quando
levaram deus e no seu
lugar apenas restou
uma ténue luz, um vulto
ou… uma sombra, talvez.
Desde então, dizia, resta-nos
perseguir essa quimera,
julgá-la dentro de nós.
Conhece-te a ti mesmo
está bem… Mas instantes há
em que nos falta um nexo,
e então é deus que nos
falta. Orgulhosamente
sós, pois bem. Nem sequer
um beijo da nostalgia. 


Mário Avelar
,
in "Coreografando Melodias no Rumor das Imagens", 2018. 
 

 
Winslow Homer, Moonlight, Wood Island Light, 1894;
Metropolitan Museum of Art, New York City.


"O coração do homem é muito parecido com o mar, ele tem suas tempestades,
suas marés e suas profundezas; ele tem suas pérolas também."


Vincent van Gogh
(Trecho de uma carta para seu irmão mais novo, Theo van Gogh, em 1882.)
 
 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"O livro dos mortos" - Poema de Regina Guimarães

 

Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
Woman sewing in an interior, 1891.

O livro dos mortos


Entra sim mas não repares
no estado em que a casa está.
Não repares no que vês por mim
já não vale a pena
o estado, a casa é pequena,
e os olhos sempre cruéis.
Se entrares fica então sabendo
que o corpo só de si fala
se de pés e mãos atadas
e se paisagem correndo
tapar todas as entradas.
Não passes além da porta
e escolhe um ponto de vista
que te dê razão de sobra
para não seguires em frente
- quem irá adivinhar que não mandas, 
obedeces,
que escutas e não te ouvem?
Não entres, nem que quisesses
não poderias galgar o estorvo
que significa chegar
sem ser convidado.
Existe um pacto do corpo
com o espaço e com o tempo
no primeiro o corpo para
no segundo julga andar.
Em vez de quereres entrar
onde nem porta nem fecho
repara no que há lá dentro
e não esqueças que a nudez
vestida como castigo
e usada no pensamento
por desgosto delirante
viria a ser castigada.
Ou seja: se não entrares
darás a subentender
que só de livre vontade
que só por vontade tua
ficas no olho da rua.
Quem sai da mira dos deuses
passa a ser presa dos homens.
Ou alvo em movimento. 


Regina Guimarães,
in "Antes de mais e depois de tudo."
 

 
"Antes de mais e depois de tudo" de Regina Guimarães
Editora Exclamação, 2020


SINOPSE

Regina Guimarães
(Porto, 1957) é autora de uma obra poética colossal, iniciada em 1974, e que se estende por várias dezenas de livros.
Esta é a primeira antologia com textos escolhidos a partir de vários dos seus livros.
É uma seleção breve e pensada para oferecer, tanto quanto possível, uma visão panorâmica da extensa e singularíssima obra de Regina Guimarães. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Partida" e "Regresso" - Poemas de José Agostinho Baptista



Max Pechstein (German expressionist painter and printmaker and a member
of the Die Brücke group, 1881–1955), Meadow at Moritzburg, 1910.


Partida


Partirei.
E ao partir, ninguém saberá quem fui,
quantas horas passei, à beira das lápides,
sem pensar em nada.
Cairá o sol sobre o meu peito.
Cairá a escuridão.

Nas planícies do pai,
há um filho que escreve o livro dos órfãos.
O vento move as espigas.
No centeio e no trigo ouve-se um lamento.
Agora sim, direi adeus. 


José Agostinho Baptista, in "Quatro Luas"
Assírio & Alvim, 2006.
 

 
Max Pechstein
, The Red House, 1911, Israel Museum, Jerusalem.


Regresso


Há muito que parti.
Abandonei as searas onde nunca vi os
desígnios de deus.
Abandonei a fé.
Caminhei sem destino,
procurei a árvores secreta dos irmãos,
e, com saudade e desvario, abandonei as casas.

Escondi-me.
Escondi o último verso numa noite sem fim.
E hoje escrevo para ti que às vezes me escreves,
do outro lado das terras.
Conhecerei um dia as falésias onde o garajau
paira,
quando chegar, pelas madrugada,
às portas do teu sonho?

De pé, sobre o promontório,
olhas para longe, para os meus barcos que
naufragaram.


José Agostinho Baptista, in "Quatro Luas"
Assírio & Alvim, 2006.
 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Os amigos que morrem" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
"Vue de Vétheuil", 1880, Alte Nationalgalerie.

Os amigos que morrem 


Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.


Fiama Hasse Pais Brandão



Claude Monet, "The Church at Varengeville, Grey Weather", 1882, Speed Art Museum.

 
"Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado."


Gabriel García Márquez
, em O Amor nos tempos de cólera, 1985.