quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

"Prefiro rosas, meu amor, à pátria" - Poema de Ricardo Reis


Ernest De Nagy (Hungarian-American, 1881-1952), Roses, 1927 



Prefiro rosas, meu amor, à pátria


Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva. 

1-6-1916


Odes de Ricardo Reis
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

"Névoa" - Poema de Fernando Pessoa


Mar de nuvens visto da Montanha Jhushan em Taiwan. (Daqui)



Névoa


A névoa envolve a montanha,
Húmido, um frio desceu.
O que é esta mágoa estranha
Que o coração me prendeu?

Parece ser a tristeza
De alguém de quem sou ator,
Com fantasiada viveza
Tornada já minha dor.

Mas, não sei porquê, me dói
Qual se fora eu a ilusão;
E há névoa em tudo o que foi
E frio em meu coração.


Fernando Pessoa
 


 


Desce a névoa da montanha


Desce a névoa da montanha,
Desce ou nasce ou não sei quê...
Minha alma é a tudo estranha,
Quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida...
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
Ter a emoção por vivida,
E, sem querer, estou triste.

2-9-1935

Fernando Pessoa



 
 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Espelho" - Poema de Sylvia Plath


Olga Della-Vos-Kardovskaya Little Woman, 1910, portrait of the artist's daughter



Espelho


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça ·


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

"O Mundo, o Demónio e a Carne" - Poema de Armindo Trevisan


Fernando Botero, Picnic, 1989, Private collection



O Mundo, o Demónio e a Carne


Relâmpago adormecido
entre a malva e o estalo
tua penúria, ó Mundo
é a minha penúria.
Somos a mesma falta
de olhos a perseguir
a visão que negou
o barro de meu rosto.

Demónio entre o retinir
das esporas e o redondo
dia,
que fizeste da luz
a arder em minha alma?
Sou teu cúmplice na mão
que apertou o pensamento
em sua nudez.

Carne de minha carne
entre uma pedra e outra
abre-se o trigo
da maldição.
Nossos corpos são nossos
mas o abraço rói
o hálito que foi um
antes de existirmos.


Armindo Trevisan,
in 'Abajur de Píndaro e a Fabricação do Real'


domingo, 12 de janeiro de 2020

"Confissão" - Poema de Charles Bukowski


Joseph Caraud (French painter, 1821-1905), Ball of Yarn, 1863



Confissão


Esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo. 


(Tradução: Jorge Wanderley, 1938-1999) 



Joseph Caraud, La réussité, 1896



EPITÁFIO


Chegar já foi a partida.
De onde estive até nascer.
Viver só custou a vida.
Não custa nada morrer.


Jorge Wanderley
(1938-1999)


Jorge Wanderley nasceu no Recife, Pernambuco, em 1938. Médico, poeta e tradutor, começou a escrever aos 16 anos de idade, publicando seu primeiro livro Gesta e outros poemas, em 1960. Ainda em sua cidade natal, formou-se em Medicina, com especialização em Neurocirurgia, carreira que abandonaria alguns anos após sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1976. Na capital carioca, concluiu mestrado e doutorado em Letras, pela PUC. Nesta universidade e na UFF foi professor de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura nos anos 1980.

Conhecido sobretudo como tradutor e crítico literário, não menor foi sua obra própria, que se estendeu ao longo de quatro décadas, resultando em um fazer poético que permaneceu sempre em constante contrução, grande parte reunido hoje em sua Antologia Poética, livro publicado postumamente em 2001. Jorge Wanderley  publicou inúmeras crônicas e ensaios literários em revistas e jornais, além de uma dezena de traduções, tanto de clássicos da literatura, de Dante (de quem traduziu todos os poemas esparsos e também os poemas de Vita nuova) a Shakespeare, como de autores contemporâneos, entre os quais Bukowski, com quem muito se identificava, por ver no bardo americano uma reprodução de si mesmo.

Em 1998, finalizou a primeira parte de seu projeto que compreendia a tradução integral d' A Divina Comédia — com a tradução anotada do Inferno, de Dante. Também escreveu ensaios e prólogos acerca de suas traduções, sendo laureado postumamente com o Prêmio Jabuti de Tradução Literária, em 2004, pela sua tradução do Inferno.

Jorge Wanderley faleceu no Rio de Janeiro, em 11 dezembro de 1999. (Daqui)


domingo, 5 de janeiro de 2020

"O Relógio" - Poema de Vinicius de Moraes


Morgan Weistling, Pocket Watch Girl with Grandfather



O Relógio


Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu ti-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
   Tic-tac...

Rio de Janeiro, 1970 

Vinicius de Moraes 




Morgan Weistling, In Her World



Livros


"Não viajo sem livros, nem na paz, nem na guerra… pois não se pode dizer o quanto eu me repouso e demoro nessa consideração de que eles estão ao meu lado para me darem prazer quando preciso e em reconhecer quanta ajuda eles me trazem à vida. É a melhor provisão que tenho encontrado para esta viagem humana e sinto uma pena extrema das pessoas inteligentes que deles se privam."


Michel de Montaigne, in ‘Dos Três Comércios’



A portrait of Michel de Montaigne (1533–1592).
 Photo: Stefano Bianchetti/Corbis via Getty Images. 


Cortesão e ensaísta francês, Michel Eyquem de Montaigne nasceu a 28 de fevereiro de 1533, no Château de Montaigne, pertença da sua família por aquisição, perto de Bordéus. O pai era um advogado de ideias progressistas e que havia combatido em Itália, e a mãe uma judia espanhola convertida ao protestantismo. Em conformidade com as conceções que o pai mantinha acerca da educação, foi enviado enquanto recém-nascido para casa de gente humilde, para que se pudesse recordar para toda a vida dessa qualidade.

Estudou no Colégio de Guyenne de Bordéus, fazendo estudos superiores de Direito também em Bordéus e em Toulouse, tornando-se depois conselheiro na Court des Aides de Périgueaux. Em 1557 foi nomeado conselheiro do Parlamento de Bordéus, e em 1561 seria cortesão junto de Carlos IX. A morte de um amigo, Etienne de la Boëtie, com apenas trinta e dois anos de idade, causou-lhe tamanho desgosto que se viu forçado a afastar da corte, em 1563.

Casando em 1565, viu morrerem-lhe quatro filhos quase à nascença, restando-lhe apenas uma filha. Retirou-se com a sua família para o castelo senhorial da família em 1570, ano da morte da sua mãe, apenas dois anos depois da do próprio pai. Aí completou os primeiros dois volumes dos seus Essais (Ensaios), que publicou em 1580. O termo 'Ensaios' seria cunhado pelo autor para designar o estilo literário a que se dedicou, ao anotar pensamentos, memórias, opiniões e incidentes da sua vida quotidiana.

 Com a deflagração da Guerra Civil de França, recusou-se a tomar medidas para a defesa da sua propriedade, dando licença aos seus soldados e escancarando as portas do seu castelo. Montaigne pensava que nada encorajava tanto o uso das armas com a sua presença.

Sofrendo de pedra nos rins, aproveitou a ocasião para viajar em busca de águas termais, percorrendo a Lorena, a Alsácia e a Baviera, e chegando a Itália através de Veneza. Encontrava-se há algum tempo em Roma quando recebeu a notícia de que havia sido nomeado governador de Bordéus, em 1581.

Montaigne desempenhava o seu segundo mandato como governador, um surto de peste bubónica irrompeu em Bordéus, numa altura em que se encontrava fora da cidade. Pouco se importando com a população, ou com o facto de lhe poderem chamar de cobarde, recusou-se a entrar na cidade, deixando aos seus subalternos a tarefa de a dirigir nesses momentos de crise.

Em 1588 foi feito prisioneiro pelos membros da Liga Protestante, mas libertado da Bastilha ao fim de algumas horas. Católico moderado, manteve-se fiel a Henrique III durante algum tempo, até se aperceber da inevitabilidade da vitória do primo, o futuro Henrique IV.

Retirando-se nesse mesmo ano para o Castelo de Montaigne, publicaria uma edição aumentada dos seus Ensaios (Essais). Aí faleceu, vítima de uma infeção na garganta, a 13 de setembro de 1592. (Daqui)


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