domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Sumário Lírico" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

 
Henri Lebasque (French Post-Impressionist painter, 1865–1937),
 "In Front of the Window, Ile d'Yeu", 1919.
 
 
 Sumário Lírico 


Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes consubstancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspetiva, ponto.


Fiama Hasse Pais Brandão
 
 
 
Henri Lebasque, "The Quay at St Pierre in Cannes" 
(
also known as "Open Window in Antibes"), Unknown date.



"Uma boa recordação talvez seja cá na Terra mais autêntica do que a felicidade."

(Alfred de Musset)


sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Lê, são estes os nomes das coisas que deixaste" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Georg Schrimpf
(German painter and graphic artist, 1889–1938),
"Martha", 1925, Pinakothek der Moderne, Munique.



Lê, são estes os nomes das coisas


Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira,
in "Nenhum Nome Depois", Gótica, 2004;

in "Poesia Reunida", Quetzal, 2012.
 


Georg Schrimpf, Girl with mirror, 1930. Watercolor, 29 x 25 cm,
Private collection.
 

"O rosto é o espelho da alma." 

Cícero
(106 – 43 a.C.), in "De Oratore"

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"A França!" - Poema de António Nobre

 

Fitz Henry Lane
(American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.

 

A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!… 

Oceano Atlântico, 1890.



António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.




Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.



"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."

 António Vieira, in "Sermões"

 

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.

"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."


António Vieira, in "Sermões"


"Citações e Pensamentos de Padre António Vieira"
de Paulo Neves da Silva e Padre António Vieira
Editor: Casa das Letras, 2010
 

SINOPSE

 "Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."

António Vieira (1608-1697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver.
 (daqui)

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

"A Graça" - Poema de Alexandre Herculano

 

Marcantonio Franceschini (Italian painter of the Baroque period, 1648–1729),
"The Guardian Angel", 1716.


A Graça


Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e púrpura descendo
C’oas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...


Alexandre Herculano
(1810–1877),

in "Poesias", 1850.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

"Até ao sabugo" - Poema de José Saramago


 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626–1679),
"Festoon, masks and rosettes made of shells"
(Festons, masques et rosettes de coquillages),

17th century, Fondation Custodia.



Até ao sabugo 


Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.


José Saramago, Os poemas possíveis, 1966.


 

Jan van Kessel, the Elder, 'Garden and house spiders with grass snakes
and caterpillars contorted and entwined to spell the artist's name'
, 1657.


"A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."


José Saramago, in Deste Mundo e do Outro (Crónicas), 1971.




Hubertus Quellinus (Flemish printmaker, drawing artist and painter, 1619–1687), 
and
 Johannes Meyssens (Flemish Baroque painter, engraver, and print publisher, 1612–1670)
'Portrait of Jan van Kessel in the book Het Gulden Cabinet', by Cornelis de Bie.
 

Nascido em Antuérpia, Jan van Kessel, o Velho (1626–1679) pertencia a uma dinastia de pintores famosos. O seu avô era Jan Brueghel, o Velho (1568–1625), e David Teniers, o Jovem (1610–1690), era seu tio. 
Foi aluno do pintor Simon de Vos (1603–1676) e também recebeu instruções do seu tio Jan Brueghel, o Jovem (1601–1678). 
Jan van Kessel, o Velho ingressou na Guilda de São Lucas, em Antuérpia, em 1645, e especializou-se em naturezas-mortas de flores, estudos meticulosos de insetos e séries alegóricas representando os quatro elementos, os sentidos ou as partes do mundo. Tornou-se notório pelos fins didáticos e científicos de suas obras sobre a natureza.
Apesar de van Kessel ter sido capitão da Guarda Cívica em Antuérpia e de ter tido uma carreira produtiva, tinha inúmeras dívidas quando morreu, em 1679.
Jan van Kessel, o Velho foi pai dos pintores Jan van Kessel, o Jovem (1654–1708) e Ferdinand van Kessel (1648–1696).
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"Pesa o decreto atroz do fim certeiro" - Poema de Ricardo Reis


 
Charles Jalabert
(French painter, 1818
1901), Souvenir de Carnaval, 1861,
Oil on panel, 29 x 18,5 cm, Private collection.



Pesa o decreto atroz do fim certeiro


Pesa o decreto atroz do fim certeiro. 
Pesa a sentença igual do juiz ignoto 
Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem. 
Felizes, porque neles pensa e sente 
A vida, que não eles!

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. 
Quão pouca diferença a mente interna 
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai 
Brincar os moribundos!

De rosas, inda que de falsas teçam 
Capelas veras. Breve e vão é o tempo 
Que lhes é dado, e por misericórdia 
Breve nem vão sentido. 

20-2-1928

Ricardo Reis, in "Odes"Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 111.
 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

"Numa época" - Poema de Maya Angelou

 
Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
Dressing for the Carnival, 1877, Metropolitan Museum of Art, New York.



Numa época


Numa época de namoro escondido
O hoje prepara a ruína o amanhã
A mão esquerda não sabe o que a direita faz
Meu coração se rasga em dois.

Numa época de suspiros furtivos
Chegadas alegres e despedidas tristes
Meias verdades e mentiras inteiras
Um trovão ecoa na minha cabeça.

Numa época em que os reinos vêm até nós
A alegria é breve como brincadeira de verão
A felicidade concluiu sua corrida
Então, a dor se aproxima para o saque.


Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020.