sábado, 4 de julho de 2026

"O Porquinho" - Poema de Dolores Fender

 

Morgan Weistling (American painter, b. 1964), 'Pig Tales'



O Porquinho


Conheço um porquinho que tem uma verruga no focinho.
Ele não queria sair de casa de jeito nenhum
Achava que seu focinho parecia um jerimum.

Todos os dias a mãe do porquinho lhe dizia:
Saia filho, ficar em casa é uma porcaria!
O porquinho escutava, grunhia e depois dormia.

Num belo dia o porquinho
Que já era um porco bem grandinho
Acordou tão diferente
Tomou banho e de repente
Disse à mãe: Vou passear!

A mãe ficou animada
Torceu a própria cauda
Até ficar enrolada
Em sinal de aprovação.

Mas quando ele chegou à porta
Quase, quase que ele volta
À antiga posição.

Só não voltou porque não deu tempo,
Lá fora, ao portão
Uma porquinha charmosa
O chamou de bonitão.

Depois o puxou pelo braço e começou a girar.
Foram tomar sorvete
Comer milho de pipoca
E bolo de mandioca.

De focinho cor-de-rosa
Ela parecia uma flor
Nem percebeu seu nariz de jerimum
E nem ele, que a todo instante
Ela soltava um pum.

E foi assim que o porquinho Jerimum
E a porquinha Flor
Conheceram o Amor.


 Dolores Fender



Morgan Weistling (American painter, b. 1964), 'Rebecca's Farm', 2019



"Em muitas coisas somos superiores aos animais; mas no animal não há nada 
que também não possa estar em nós." 

Ludwig Börne
(Escritor alemão, 1786–1837)
 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Tem tudo a ver" e "Cuidado com a Língua" - Poemas de Elias José

 


Caetano Cury (Jornalista, podcaster, autor de banda desenhada, locutor
de rádio e cartunista brasileiro, n. 1985), 'Téo & O Mini Mundo'.



Tem tudo a ver


A poesia
tem tudo a ver
com tua dor e alegrias,
com as cores, formas, os cheiros,
os sabores e a música
do mundo.

A poesia
tem tudo a ver
com o sorriso da criança,
o dialogo dos namorados,
as lágrimas diante da morte,
os olhos pedindo pão.

A poesia tem tudo a ver
com a plumagem, o voo,
e o canto dos pássaros,
a veloz acrobacia dos peixes,
as cores todas do arco-íris,
o ritmo dos rios e cachoeiras,
o brilho da lua, do sol e das estrelas,
a explosão em verde, em flores e frutos.

A poesia
– é só abrir os olhos e ver –
tem tudo a ver com tudo.

 in 'Segredinhos de Amor', 1991 



Elias José (Escritor, poeta e professor brasileiro,
 1936–2008) por Caetano Cury 


Cuidado com a Língua

 
Você me chamou de feio,
e mais feio me enrusti.

Você me chamou de careca,
com frio na cuca me escondi.

Você me chamou de baixinho,
muito melhor me escolhi.

Você me chamou de barrigudo,
tentei, tentei, mas não diminuí.

Você falou que mesmo assim me ama,
foi assim, assim foi que me explodi. 
in 'Cantigas de Amor', 2006 
 
***
 
 

Caetano Cury é jornalista, aguarelista e quadrinista, autor das tirinhas 'Téo & O Mini Mundo', série bicampeã do prémio Angelo Agostini e sete vezes indicada ao troféu HQMix.
Caetano foi apresentador e repórter da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Trabalhou também nas rádios BandNews FM e CBN de Ribeirão Preto-SP. Como repórter de rádio, ganhou o prémio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos.
Caetano mora hoje em Guaxupé-MG e se dedica em tempo integral à criação e divulgação de seus quadrinhos.
'Téo & O Mini Mundo' são tirinhas de amor, humor e autoconhecimento. As histórias já foram publicadas em três livros. A primeira tira foi criada em 2012 e até hoje o autor mantém uma produção regular que conquista milhares de pessoas diariamente.
Hoje mais de 390 mil pessoas seguem o @teoeominimundo no Instagram. Os personagens principais são o menino Téo e a borboleta Eulália. Os dois caminham por belos cenários rurais enquanto conversam sobre os mistérios da vida.
Além dos livros da coleção 'Téo & O Mini Mundo', Caetano tem outras obras publicadas, como 'Jorge', um compilado de tirinhas de humor, e 'Click Plock' um livro imagem que faz pensar sobre o uso excessivo de celular.
 (daqui)
 


Téo & O Mini Mundo – Vol. 1 – O livro 
[O primeiro livro da série reúne as tirinhas criadas entre 2012 e 2019.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 2 – O lugar do outro
[O segundo livro da coleção, lançado no auge da pandemia, traz as tirinhas de 2019 e 2020.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 3 – Quentinho no Coração
[As tirinhas produzidas entre 2020 e 2022 estão no terceiro livro da série.]
 
 
SINOPSE
 
Um menino, uma borboleta filosófica e um microscópio para ver a vida
 
Na companhia de sua amiga, a borboleta Eulália, o menino Téo observa atento nosso Mini Mundo através de um microscópio e dispara reflexões filosóficas sobre o quotidiano, sobre as pessoas e sobre o seu próprio eu. Juntos, eles protagonizam diálogos profundos, carregados de sensibilidade, traduzidos em palavras simples, mas que tocam corações e mentes de jovens e adultos. 
 
A coleção de livros Téo & O Mini Mundo (que nasceu como webcomic em 2012, reunindo milhares de fãs ao longo de sete anos), surge como um abraço acolhedor que, ao mesmo tempo, entretém, encanta e provoca reflexões, expressas em tirinhas com textos simples, ritmo tranquilo e belíssimas aguarelas. 
São três volumes com 271 tirinhas para ler, reler e se emocionar. Horas de leitura garantida para levar por onde você for e também para presentear pessoas queridas com afeto em forma de livro.
 (daqui)


 
 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Irmão menor" - Poema de Pedro Bandeira

 


Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970), 'Three boys'
('Tres niños'), 1933, Museu Nacional d'Art de Catalunya.

[Josep de Togores i Llach was son of Josep de Togores y Muntades (Spanish sportsman, film director, art collector, and amateur painter, 1868–1926), the second president of the Catalan Football Federation (1904–05) and co-founder of Mundo Deportivo (1906).]



Irmão menor


Irmão menor
é pior
que catapora.
Irmãozinho
é pior do que carniça,
é pior que injeção.

Mexe no que é meu,
rabisca meu caderno,
perde meu carrinho,
e eu fico de castigo
se lhe dou um safanão.

É praga, é prega,
é sarampo, é varicela!

E não venha
achar estranho,
só porque dei uma surra
no danado do moleque
que xingou o meu irmão.

Eu posso xingar.
Os outros não.


Pedro Bandeira,
em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna, 3ª edição, 2002.




Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
"Portrait of the Mestre Family", 1927. Meadows Museum

[Togores’ Portrait of the Mestre Family (1927), is a masterful example of modern Spanish portraiture depicting wealthy Catalan industrialist Josep Mestre Mitjans; his wife, Berta Lantz Beinquet; and their three children, José, Jorge, and Blanca.]
 
A minha família


Eu gosto da
minha mãe,
do meu pai,
do meu irmão.
Nem sei como
tanta gente
cabe no
meu coração!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna

♥♥♥

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Algumas reflexões sobre a mulher" - Poema de Eugénio de Andrade


 
William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916),
'I am Going to See Grandma' (aka 'Mrs. Chase and Child'), 1889,
San Antonio Museum of Art.



Algumas reflexões sobre a mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.


Eugénio de Andrade
(1923–2005),
 in "Coração do Dia", 1958.


 
William Merritt Chase
, 'Portrait Group (Dorothy, Helen, and Bob)', c. 1904.
Oil on canvas. North Carolina Museum of Art.

[By all accounts William Merritt Chase was a doting father. Though he painted many members of wealthy white society of his time, the artist took special delight in portraying his wife, their eight children, and the boisterous life of the Chase household. However, in this formal ensemble, all is decorous and well mannered. The children are clearly experienced models. Four-year-old Bob grips his father’s cane with authority.] (daqui)
 

 
William Merritt Chase, 'Afternoon by the Sea' (aka 'Gravesend Bay'), 1888,
  Private Collection.
 

E tu, sozinho e pensativo na tua dor,
procurarás a tua mãe, e nestes braços
esconderás o teu rosto;
no seio que nunca muda terás repouso. 


Giuseppe Giusti
(1809–1850),
trecho do poema 'Affetti d'una Madre'.
 

terça-feira, 30 de junho de 2026

"Os amigos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


  
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter, 1848–1901),
'An Afternoon on the Beach' ('Tarde en la Playa'), 1890.


Os Amigos


Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão

1993

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Musa', 1994



Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup, 'Boating' ('Paseo en barca'),
c. 1888
1890. Museo Carmen Thyssen Málaga.

 
"A amizade é como dinheiro: mais fácil de conseguir do que de manter."

"Friendship is like money, easier made than kept."

Samuel Butler (English novelist and critic, 1835–1902), in 'The Note-Books of Samuel Butler';
Selections arranged and edited by Henry Festing Jones, 1912.


segunda-feira, 29 de junho de 2026

"Se respeitares os outros" - Poema de José Jorge Letria



Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894
1978),
What Makes It Tick? (The Watchmaker), 1948.



Se respeitares os outros


Podes correr contra o tempo
sonhando ser campeão,
mas por favor não transformes
a vida em competição. 

Mesmo que tenhas o sonho
de em tudo seres o melhor,
percebe que é na diferença
que está o valor maior.

A diferença é que distingue
e distinguindo aproxima
evitando esse fosso
que humilha e desanima.

Com o tempo descobrirás
que a ambição é que cega,
não havendo prazer maior
do que ajudar um colega.

E por favor tem cuidado
quando vais a atravessar;
espera o verde dos peões
para poderes avançar.

Espera da vida os sinais
que não te hão de enganar
e hás de chegar a tempo,
mesmo a tempo de chegar.

Por favor, porta-te bem,
que a vida espera de ti
apenas algumas coisas
daquelas que aqui escrevi.

Se respeitares os outros,
a ti te respeitarás,
sendo essa a maneira
de poderes viver em paz.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.


domingo, 28 de junho de 2026

"Retrato" - Poema de Millôr Fernandes



Edward Thomson Davis
(British painter, 1833–1867),
'Sunday Afternoon', 1853.


Retrato


Comendo em cantos
Desconfiado
Quente e lustroso
Curvo e sedoso
Esgar de boca
Rasgado grito
Quando assustado
Bigode hirto
Andar felino
E feminino
Olhar que acende
A luz que apaga
A ronroneira
Quando ressona
O encolhimento
Antes do salto
Filosofia
Do dia a dia
Falso abandono
Ante seu dono
Um ódio eterno
A seu inimigo
Expressão mística
De um Egito antigo
Olhos de outrora
Se entramos tarde
Da madrugada
Se é dia claro
Ou é luz morna
Quando entardece
Tem infantil
Uma pata esquerda
Que rola a bola
Que rola o rolo
Que furta o bolo.
Esse o retrato
De um bicho esquivo
Chamado gato.

27-07-1962

Millôr Fernandes (1923–2012),
in 'Essa cara não me é estranha e outros poemas'.
1. ed. São Paulo: Boa Companhia, 2014.