
Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455), "Saint Lawrence
distributing alms", 1447–1450 (fresco), Chapel of Nicholas V, Vatican City.
Só gosto das pessoas boas
Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam
Adília Lopes, in “Estar em Casa“,
Assírio & Alvim, 2018;
in “Dobra”, Poesia Reunida de 1983−2023,
Assirio & Alvim, 2024.
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Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455),
"Annunciation", c. 1426, Museo del Prado, Madrid.

Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455),
"Annunciation" (Gabriel and Mary, c. 1440–1445 (fresco),
Convent of San Marco, Florence.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão “renúncia às coisas inúteis e partilha” (“renonce aux choses inutiles et partage”, in “Famille chrétienne”, Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar – mas será involuntariamente? – bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
“A poesia de Adília Lopes é uma estação fundamental e singular no percurso da poesia portuguesa desde os anos 80. O seu grande triunfo consistiu em renunciar completamente ao lirismo e às suas tonalidades afetivas, mantendo uma densidade que advém da exploração linguística, em todos os níveis”, sublinhou em tempos António Guerreiro, quanto à singularidade desta obra que há muito ultrapassou fronteiras e se encontra traduzida para várias línguas. (daqui)






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