sábado, 31 de outubro de 2026

"O Gato" - Poema de Aníbal Beça

 

 
Tom Shropshire
(American artist, b. 1943), "City Cats"



O Gato

(Ária para tenorino e flautim)
Para Carô Murgel


O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas

O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido 

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato:
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.


Aníbal Beça 
(1946
–2009), 
"Suíte para os habitantes da noite" 
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.


 Pinturas de Tom Shropshire

Tom Shropshire, "Cobblestone Cat" 


Tom Shropshire, "The Pumpkin Tree"
 
 
  
Tom Shropshire, "Moon Witch"
 
 
  
Tom Shropshire, "Incantations of the Witch"


Halloween
 

O Halloween ou Dia das Bruxas, festeja-se de 31 de outubro para 1 de novembro.

Halloween é um termo inglês, abreviado, que deriva de Hallow evening, "noite sagrada", sendo esta a designação da festa nos países anglo-saxónicos.

Foi desde sempre combatida pela Igreja Católica, por estar na véspera do Dia de Todos os Santos (1 de novembro), em particular pela Inquisição, perseguidora de todos os que mantivessem antigos rituais pagãos (rituais célticos, por exemplo) ou práticas de curandeiro.

Ora, o Halloween radica na perpetuação de uma tradição pagã céltica, muito antiga, que colocava o ano novo no dia 1 de novembro, durante as festas do Samain, de 30 de outubro a 2 de novembro, comemorativas do fim do verão celta.

Este festejo continuou a ser comemorado paralelamente às práticas cristãs, em particular na Irlanda católica, mas também na Escócia, Gales, Cornualha e noutras regiões de cultura céltica das Ilhas Britânicas.

Foi "exportado" para os EUA e Canadá com a emigração irlandesa, principalmente depois da Grande Fome da Batata na Irlanda, entre 1845 e 1849.

Naqueles países "novos" a tolerância religiosa era maior e a continuidade dos festejos pagãos, como o Halloween, não tinha barreiras culturais ou constrangimentos de outra espécie.

No mundo católico, entretanto, o dia 1 de novembro foi sempre o dia de Fiéis Defuntos, a celebração de todos os que morreram, reforçada no dia de Todos os Santos, no dia seguinte, 2 de novembro - um modo de fazer esquecer as formas de culto pagão.

Estas celebrações litúrgicas remontam ao século V, quando se começaram a definir as festividades católicas e o santoral romano (santos da Igreja), de forma a mitigar ou fazer esquecer os resquícios pagãos. Todos os que subsistissem nestas práticas não toleradas eram condenados pela Igreja, considerados culpados de bruxaria.

Daí que naquele dia 31 de outubro, muitos ainda acendiam fogueiras, comiam e dançavam, vestindo-se de maneira diferente, de forma escondida da Igreja ou das autoridades, incorrendo em risco de condenação e mesmo de execução em auto de fé.

Como memória de uma noite em que os espíritos e as bruxas andavam à solta, antes do dia dos Fiéis Defuntos, criou-se a tradição do dia das Bruxas, substanciado pelas razões históricas e culturais antes apresentadas.

Muitos festejos do género do Halloween subsistem ou têm mesmo sido implantados em países onde nunca existiram, como em Portugal, Brasil e no mundo latino em geral. A Igreja e os setores mais tradicionalistas têm criticado estas novas tradições, que classificam como modas americanas ou desrespeito pela sacralidade do dia 1 de novembro.

Na forma mais popular de festejo da noite de Halloween, a que se implantou na América do Norte e tem sido imitada um pouco por todo o mundo, as crianças vestem-se de formas bizarras (bruxas, vampiros, múmias, esqueletos, etc.) e andam de casa em casa, à noite, a bater à porta e a pedir doces, frutas ou prendas, gritando o célebre trick or treat!, "susto" ("travessura") ou "doce".

Colocam-se nas janelas e nas casas abóboras sem polpa com velas acesas, jack o´lanterns (nabos com velas, numa alusão à antiga lenda irlandesa de Stingy Jack, um velho que enganou o diabo e depois este vingou-se), organizam-se festas "macabras" ou veem-se filmes de terror, enfim, as festas de Halloween reportam a uma noite de bruxas, vampiros, espíritos, feiticeiros e sustos, espantalhos, múmias, decorações de trevas e de medo fora e dentro das casas.

As cores dominantes são o negro (morte, noite, trevas, vampiros, múmias…) e o cor de laranja (outono, abóboras, jack-o'lanterns, fogo…). Depois, acaba-se a comer os doces e alimentos obtidos, a beber ou dançar, ou… a ir dormir no caso das crianças que fazem o trick-or-treating (os trick-or-treaters).

Hoje a festa do Halloween, universalizada, é já mais encarada como um fenómeno de consumismo "à americana", ultrapassando fronteiras e sendo já calendarizável nas atividades de muitas escolas europeias.

Em Portugal, é precisamente nas escolas e em festas privadas que se festeja o Halloween, com muito poucos trick-or-treaters. (daqui)

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

"Águia" - Poema de José Jorge Letria

 


John James Audubon
(French-American artist, naturalist, explorer, 
and ornithologist, 1785–1851), Washington Sea Eagle, c. 1836–1839.
 

Águia 


Com um porte soberano
é rainha das alturas,
voa alto todo o ano
sem nunca sentir tonturas,
e a imagem que deixa
é sempre de grandeza,
até se vier da rapina
o que enche a sua mesa.


José Jorge Letria,
em
"O Alfabeto dos Bichos"

terça-feira, 27 de outubro de 2026

"Da Influência da Lua" - Poema de António Nobre



Alfred Lambourne
(English-born American artist and author, 1850–1926),
Moonlight - Silver Lake, Cottonwood Canyon, 1880
 

Da Influência da Lua


Outono. O sol, qual brigue em chamas, morre
Nos longes de água... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poesia escorre
E os bardos, a cismar, molham a pena!

Ao longe, os rios de águas prateadas
Por entre os verdes canaviais, esguios
São como estradas líquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos
O xaile pedem a quem vai passando...
E os seus leitos nupciais, os ninhos
As lavandiscas noivas piando, piando!

O orvalho cai do céu como unguento.
Abrem as bocas, aparando-os, os goivos;
E a laranjeira, aos repelões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cai...e a falta de água, rega
O vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu sermão de lágrimas à lua!

A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui
Sobre as sementes, sobre o oceano impera,
Sobre as mulheres grávidas influi...

Ai os meus nervos, quando a lua é cheia!
Da arte novas conceções descubro
Todo me aflijo, lá fazem ideia...
Ai a ascensão da Lua em Outubro!

Tardes de Outubro! Ó tardes de novena
Outono! Mês de Maio, na Lareira!
Tardes...

Lá vem a Lua, gratiae plena
Do convento dos céus, a eterna freira!


António Nobre
(1867–1900), in 'Só'



Obras de Alfred Lambourne

Alfred Lambourne, Twilight near the mouth of the Jordan, Utah, 1872

 
Alfred Lambourne, View of the Great Salt Lake
 
 

Alfred Lambourne, Hill Cumorah, 1892



Alfred Lambourne, Temples of the Virgin River, Southern Utah, 1876

 
 
Alfred Lambourne, Gunnison Island on the Inland sea, Great Salt Lake, 1903


"Para o sol e para a morte não conseguimos olhar de frente."

Edgar Morin (1921–2026), in "O Paradigma Perdido", 1973
 


Edgar Morin, "O Paradigma Perdido: a Natureza Humana", 
Editora: Publicações Europa-América.


NOTA DO AUTOR


"Em contraste com uma antropologia que separa o homem do animal, pretende-se aqui compreender a articulação entre o biológico e o antropológico.
Em contraste com um antropologia que opõe a natureza e cultura, mostra-se aqui que a chave da cultura se encontra na nossa natureza e que a chave da nossa natureza se encontra na cultura.
Em contraste com uma antropologia que se limita unicamente às sociedades arcaicas, procura-se aqui o homem através dos seus múltiplos "nascimentos", desde as suas origens (hominização) até ao seu devir contemporâneo.
Em contraste com uma antropologia que apenas encara o homo dito sapiens sob os traços unidimensionais de um técnico racional, enquanto os seus predecessores, e não ele, elaboraram o utensílio, a linguagem, a cultura, demonstra-se aqui que o homem fornece ao mundo o mito, a magia, a imoderação, a desordem, e que a sua originalidade profunda consiste em ser um animal dotado de despropósito.
Em contraste com uma antropologia que oscila entre uma unidade sem diversidade e uma diversidade sem unidade, procura-se estabelecer aqui como o princípio de unidade contém o princípio de diversidade e de evolução.
Para além do biologismo, conceção estreita e hermética da vida, e do antropologismo, conceção insular e sobrenatural do homem, propõe-se aqui uma teoria aberta da natureza humana, baseada na ideia de auto-organização e numa lógica da complexidade. Esta teoria abre-se não só para a "lógica do vivo", mas também para os problemas fundamentais de uma política do homem." – Edgar Morin 
 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

"Meio da Vida" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935), 'Laying the table', n.d.


Meio da Vida


Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Livro Sexto', 1962
 
 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'Le Dejeuner du chat',
('The Cat's Lunch'), 1879
 

“Se há um ponto de sol derramando no chão, um gato irá encontrá-lo e absorvê-lo.”

Frase atribuída a J.A. McIntosh 
 

domingo, 25 de outubro de 2026

"Às vezes" - Poema de Ricardo Azevedo

 

André Letria
(Ilustrador e editor português, n. 1973), "Pensamento"



Às vezes


Às vezes sou pensamento
Às vezes sou emoção
Às vezes misturo os dois
Às vezes não

Às vezes eu tenho pressa
Às vezes vou de mansinho
Não sei se sou avião
Ou passarinho

Às vezes eu vivo aqui
Às vezes vivo na lua
Às vezes abro o portão
E vou pra rua

Às vezes olho pra fora
Às vezes olho pra dentro
E quando não sei a hora
Eu pego e invento

Às vezes faço o que devo
Às vezes faço o que quero
Às vezes não sei se quero
Ou se não quero

Às vezes sinto tristeza
Às vezes sinto alegria
Às vezes eu viro noite
Às vezes, dia

Às vezes ouço que é sim
Às vezes ouço que é não
Às vezes só ouço
Meu coração

Às vezes tenho o problema
Às vezes tenho a resposta
Às vezes tem solução
Às vezes não

Às vezes eu sou menino
Às vezes me sinto velho
Às vezes acho que o tempo
É um mistério

Às vezes sinto esperança
Às vezes quase desisto
Às vezes nem sei por que
Eu existo

Às vezes venho pra junto
Às vezes ando sozinho
E fico lá na distância
Pertinho


Ricardo Azevedo
,
do livro "Ninguém sabe o que é um poema",
Ática, 2004.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

"Borboletas" - Poema de Manoel de Barros



Fujishima Takeji
 (Japanese painter, 1867–1943), 'Butterflies', 1904.


Borboletas


Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza,
um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista
de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.


Manoel de Barros (1916–2014),
in 'Ensaios fotográficos', 2000;
in 'Poesia Completa', 2010.
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

"O Girassol" - Poema de Vinicius de Moraes



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
'Allotment with Sunflower', Paris, July, 1887, Van Gogh Museum.



O Girassol


Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

— Vamos brincar de carrossel, pessoal?

— “Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor.”

— Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
— Besouro é muito pesado!
— Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!
— Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

— “Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol.”

E o girassol vai girando dia afora...

O girassol é o carrossel das abelhas.


Vinicius de Moraes (1913–1980), do livro "Arca de Noé",
Rio de Janeiro, Sabiá, 1970.