domingo, 10 de maio de 2026

"Ser Mãe" - Poema de Coelho Neto



Cecrope Barilli (Italian painter, 1839–1911), 'Young Mother with Child', 1870.


Ser Mãe


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!


Coelho Neto
 

 
Retrato de Coelho Neto, c. 1900.
 

Escritor, professor e político brasileiro, Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu a 20 de fevereiro de 1864, em Caxias, Maranhão.
Muito novo, partiu com a família para o Rio de Janeiro, onde estudou no Externato do Colégio Pedro II. Inscreveu-se no curso de Medicina e, mais tarde, no de Direito, sem nunca concluir nenhum deles.
 
Em São Paulo, defendeu as ideias abolicionistas e republicanas. Durante a campanha abolicionista, conheceu José Patrício que o introduziu na Gazeta da Tarde. Fez parte do grupo de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney.

Em 1890, casou-se com Maria Gabriela Brandão, com quem teve 14 filhos. Nesse ano, exerceu o cargo de secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro e, um ano depois, o de Diretor dos Negócios do Estado. Em 1882, foi nomeado professor de História da Arte da Escola Nacional de Belas Artes e, posteriormente, professor de Literatura do Ginásio Pedro II. Foi, ainda, professor de História do Teatro e Literatura Dramática da Escola de Arte Dramática, em 1910, sendo posteriormente Diretor desse estabelecimento de ensino.
Como político, foi eleito, em 1909, deputado federal pelo Maranhão e, em 1917, reeleito para esse mesmo cargo. Esteve em Buenos Aires como Ministro Plenipotenciário, em missão especial, foi secretário-geral da Liga de Defesa Nacional e Membro do Conselho Consultivo do Teatro Municipal.

Eleito "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", em 1928, Coelho Neto escreveu várias peças de teatro, mais de 100 livros e perto de 650 contos. Dessa vasta obra, salienta-se Rapsódias (1891), A Capital Federal (1893), Fruto Proibido (1895), A Descoberta da Índia (1898), Turbilhão (1906), Rei Negro (1914), A Cidade Maravilhosa (1928), Fogo Fátuo (1929). 
Os seus trabalhos, que se situam na época literária do Realismo/Naturalismo, estão assinados, para além do seu próprio nome, por vários pseudónimos: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés. O escritor foi ainda um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
A 28 de novembro de 1934, Coelho Neto faleceu no Rio de Janeiro. (daqui)


sábado, 9 de maio de 2026

“Vigília das Mães” - Poema de Cecília Meireles



Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
'Mrs Weguelin and her son', 1889.


Vigília das Mães


Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

1960

Cecília Meireles

in 'Antologia Poética', 1963

"Complicação" - Poema de Mário Dionísio



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with
Henri Matisse of Fauvism, 1880–1954), 'Le phare de Collioure', 1905,
Musée d'Art moderne de Paris.


Complicação


As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície. 
 

Mário Dionísio, in "Poemas", 1941.

 
 
André Derain, 'Bateaux au port de Collioure', 1905.
 


André Derain, 'Bateaux dans le port de Collioure
('Boats in the Harbor of Collioure'), 1905.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

"Amor sem tréguas" - Poema de António Gedeão


 
José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
'Igreja de Figueiró' (Figueiró dos Vinhos, Portugal)
, 1921.


Amor sem tréguas


É necessário amar,
qualquer coisa ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem,
não importa de quê;
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma coisa qualquer,
seja lá o que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

Amar como um homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até à morte,
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor.


António Gedeão (1906–1997),
in 'Máquina de Fogo'


 
José Malhoa, 'Pereira em flor' (Figueiró dos Vinhos, Portugal), 1910.



Pereira em flor
 
De grinalda branca,
Toda vestida de luar,
A pereira sonha. 

 
Helena Kolody (1912–2004),
in 'Luz Infinita', 1997.

"Gato" - Poema de Francisco Carvalho


 
Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Jeppe" (Portrait of his cat), 1884.

Gato 
 
I

As retinas do gato 
dardejam no escuro 
da pele do rato

arauto das noites 
o gato passeia 
no dorso do muro

tenso como um arco 
o gato desenha 
os moldes do salto

crivado de fúrias 
salto que o liga 
à ponte do olfato.

II

Onde se esconde 
este sósia de conde?

Por onde passeia 
o dorso que se alteia?

Seu dorso de vaga 
que se acende e se apaga?

Quantas rotinas 
têm as suas retinas?

Quantos sóis de cobalto 
nas arcadas do salto?

Quando o seu faro pulsa 
sente o odor da Ursa?

Ou apenas preserva 
seu contorno na treva?

O gato não esconde 
o seu fulgor de conde.


Francisco Carvalho (1927-2013),
in "Raízes da Voz", 1996.



Bruno Liljefors, "Cat with European Green Woodpecker", 1890.
 

 
Bruno Liljefors"A Cat (Jeppe) and a Chaffinch", 1885.
 
 
Escritores e gatos

Os escritores, tal como os gatos, são criaturas solitárias, ciosas do seu espaço e da sua liberdade, que gostam de silêncio, de concentração e de companhia quanto baste. Os gatos não exigem demais de quem vive com eles nem reclamam atenção a toda a hora, e os escritores aceitam de bom grado essa situação, que os deixa à vontade e não lhes cria sentimentos de culpa quando estão ausentes.

Os gatos parecem pacíficos e domésticos, mas nunca cortaram realmente o elo com o mundo selvagem. Basta ver um gato assanhado para perceber de onde vêm as suas unhas em garra, as orelhas pontiagudas, os dentes afiados, a boca aberta bufando. Basta vê-los caçar para os descobrir como felinos, da estirpe do gato bravo, do tigre ou da pantera.

Os escritores também têm esse lado nunca domesticado nem domesticável. Por muito que se tente convertê-los às convenções, ao que se considera correto (politicamente ou não), eles encontram saídas e saltam para fora.Também eles são da estirpe dos felinos.

Tal como os gatos, também eles são sensuais, com todos os sentidos despertos para o mundo à sua volta. Dotados de olhos multifacetados, que veem longe e perto, na luz e na sombra. Ou no escuro.

Se for esse o caso, também eles sabem ser ternos, partilhar com o outro a sua pele macia, o calor do seu corpo.

E, tal como os gatos, também os escritores têm sete vidas. Quando enfrentam perigos e são atacados, empurrados para quedas de grande altura, usam todos os seus recursos de defesa (que são muitos) e sabem cair de pé.

(A quem se interessar por este tema e quiser saber mais, sugiro que leia o capítulo II do meu romance A Cidade de Ulisses).

Teolinda Gersão (Professora universitária e premiada escritora portuguesa, n. 1940) (daqui) 
 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

"Em Creta, com o dinossauro" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
Delphin Enjolras (French painter, 1857
1945), 'On the Terrace', s.d.


Em Creta, com o dinossauro  

 
Nunca lá estive,
mas gostava.

Também de me sentar a mesa de café
descontraída (mesa e eu)
e ter à minha frente
o dinossauro.

Pata traçada sobre a rocha,
aquela onde Teseu
não descobrira entrada de caverna.
Conversaríamos os dois, eu
na cadeira, ele
altamente herbívoro e escamoso,
olho macio e muito social.

Depois, o fio!

Que Ariadne traria, pouco solene
e debaixo do braço.
Um fio de seda ou prumo ou aço.
E o dinossauro,
de pouco habituado (ainda assim)
a um tempo tão nosso,
perguntaria para que era aquilo.

"Para guiar Teseu", era
a resposta de Ariadne. E depois,
piscando o olho, ainda mais macio
que o do monstro escamado,
"Ou para o confundir"

Convirá referir neste momento
que Teseu: entretido no palácio
a estudar labirintos com o rei,
ignorante de tudo.

Na rocha, cheia de algas macias
de veludo,
abriria o dinossauro em gesto largo
as patas dianteiras, aprovando
a ideia.

Estávamos bem, os três,
beberricando calmos o café
servido por meteco – bem cheiroso.
Enquanto no palácio, o labirinto inchava
e Teseu, ansioso por agradar ao Rei,
queimava, de frenético, nobres pestanas
gregas.

No ar minóico, rescendia
o perfume a laranjas,
e, entre vários cafés e golos de retsina,
o dinossauro mastigava calmo
quatro quilos (à vez) de
ameixas secas e doces
tangerinas,

narrando a nobre paz
que se seguira ao caos:
não sabia se estrelas em cósmica viagem
de chuva de brilhantes,
se glaciar medonho
reconcertando o ritmo da Terra,
se só o seu tamanho – imenso

e desumano –
a dar lugar ao mito.

Em labirinto
de muitos milhões de anos,
tinha chegado ali. Sem saber como.
"É como o fio que eu trago
aqui, para Teseu", Ariadne
diria, "O de aço, seda, ou prumo,
que conduz ou confunde, conforme
ocasião."

– A traição!

Derivaria Ariadne, então,
falando de Teseu: da traição que,
julgava ela,
o levaria a abandoná-la em Naxos
e do compasso incerto do que fora
anterior à traição.

Poseidon pelas águas reluzia,
o destino de Minos e de Cnossos
ainda por marcar;
só o monstro sabia como deuses e homens:
comuns a odiar.

Sabia, mas calava. Que silêncio:
a virtude maior
de sáurio que se preza.
E a conversa seria tão calma, tão amena,
que esquecia Ariadne derivações
de mito,
juntando-se à retsina.

"Um brinde", proporia o dinossauro,
em gesto social.
"Um brinde", repetiríamos nós (princesa
e eu).

E o fio de renda fina voaria
qual pássaro pré-histórico,
até ao mar Egeu.

Pata a tapar a boca de franjas
inocentes,
palitaria então o Dinossauro os dentes...

(E do palácio já saiu Teseu.
Mapa e espada na mão.
Mas sem o fio.)


Ana Luísa Amaral (1956–2022)
 
 

Delphin Enjolras, 'Young Woman on the Terrace', s.d.



"O poeta é como o príncipe das nuvens. [...] As suas asas de gigante não o deixam caminhar."

"Le Poete est semblable au prince des nuées [...] Ses ailes de géant l’empêchent de marcher."


Charles Baudelaire (18211867), in 'L’Albatros 'Les Fleurs du mal', 1861.
 

"Ah, abram-me outra realidade!" - Poema de Álvaro de Campos



Paul Signac (French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Capo di Noli', 1898, oil on canvas, 93.5 × 75 cm,
Wallraf–Richartz Museum, Cologne.


Ah, abram-me outra realidade!


Ah, abram-me outra realidade! 
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos 
E ter visões por almoço. 
Quero encontrar as fadas na rua! 
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, 
Desta civilização feita com pregos. 
Quero viver como uma bandeira à brisa, 
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram. 
Meu coração verdadeiro continuará velando 
Pano brasonado a esfinges, 
No alto do mastro das visões 
Aos quatro ventos do Mistério. 
O Norte — o que todos querem 
O Sul — o que todos desejam 
O Este — de onde tudo vem 
O Oeste — aonde tudo finda 
— Os quatro ventos do místico ar da civilização 
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo.

04-04-1929

Álvaro de Campos, in 'Livro de Versos' - Fernando Pessoa.
(Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.)
Lisboa: Estampa, 1993. - 99.


Paul Signac
(French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Portrait of Félix Fénéon' (French art critic, gallery director, writer
and anarchist, 1861–1944), 1890, Museum of Modern Art.



Neoimpressionismo

O Neoimpressionismo foi um movimento artístico  do final do século XIX, iniciado pelo pintor francês Georges Seurat (18591891), que, retomando a atenção dada pelo impressionismo ao tratamento da luz e da cor, introduziu novas técnicas e conceitos, como o Pontilhismo ou o Divisionismo. (daqui)

Pós-impressionismo

O Pós-impressionismo  foi um movimento artístico que, entre o final do século XIX e o início do século XX, procurou superar o Impressionismo, contribuindo para o despontar de diferentes vanguardas como o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, etc. (daqui) 

O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat (18591891) foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac (1863–1935). 

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra 'Grande Jatte', realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent van Gogh (18531890) Paul Gauguin (1848–1903) contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.
Paul Cézanne (1839–1906) desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. 
(daqui)


Paul Signac, 'In the Time of Harmony: the Golden Age is not in the Past, it is in the Future'
('Au temps d'harmonie'), 
1893–95, oil on canvas, 310 x 410 cm.