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Rembrandt (Dutch Golden Age painter, printmaker, and draughtsman, 1606–1669),
The Shipbuilder and his Wife, 1633. Royal Collection.
Farewell Happy Fields
I
Entre a minha vida e a minha morte mete-se subitamente
A Atlética Funerária, Armadores, Casa Fundada em 1888.
A esse sítio acorrem então, aflitíssimos, o teu vago sorriso
e a vaga maneira como dizes os esses;
vêm de muito longe e chegam incompletamente
ao pequeno vulnerável sítio entre
toda a minha vida e toda a minha morte,
quando a minha última recordação atirou já com a porta
e tudo está acabado até a tua respiração
na cama ao meu lado,
e também tu estás morta,
duma forma que já não me importa.
Vamos então os dois outra vez
ao longo de certas ruas sombrias e de certos dias
e sorris e falas alto; está calor mas tens as mãos frias,
compramos coisas, visitamos
talvez algum último amigo
sem sabermos que eu já não estou vivo.
Poderia ter sido de outro modo?
Poderiam ter sido outras duas pessoas
vivendo a minha e a tua vida, morrendo a minha e a tua morte?
(Mesmo o armador, poderia ter sido outro?)
Aparentemente foi por pouco
se fosse um pouco mais tarde ou um pouco mais cedo,
se eu não tivesse chegado a casa cansado,
se a louça não estivesse por lavar
e a janela da sala de jantar
não estivesse fechada, se o mundo não tivesse acabado,
nem tu tivesses ido ao supermercado,
e se eu não estivesse cheio de medo.
Agora estou voltado para cima,
para onde cantas ainda há muito tempo.
Se calhar isto (alguma coisa) vai demorar mas já não me impaciento.
Voltamos, tu e eu, ao mesmo jardim desflorido
onde eu morro sozinho
e conversamos comigo
como com um desconhecido.
Que diremos agora um ao outro?
É tarde. Ainda há um momento
me apetecia conversar, agora estou outra vez tão cansado!
Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?
II
Estou morto, deitado de lado.
Morte, Vida, Medo, Esperança:
já não estou para aí virado.
Onde vos guardarei agora, lembranças?
Talvez também eu seja uma lembrança diante
da lembrança de uma casa também morta,
e talvez ela me abra finalmente a porta
e as escadas brilhem e o corredor cante.
Dos meus olhos vê-se um jardim
ardendo em rosas espetado
(os teus olhos ardiam assim em mim:
como um palácio iluminado),
um jardim lento (tem muito tempo)
onde eu outra vez entro.
Se me voltasse para trás o que veria?
Ainda os teus olhos, ainda a alegria?
Agora que partiste para sempre
segurando-me inutilmente a cabeça
talvez tudo te pareça
excessivamente evidente
e excessivamente irrisório:
a morte, a vida, os dias sem lugar,
a louça do almoço por lavar,
as meias a escorrer no lavatório.
Mas não nos julgues com severidade,
estava a fazer-se tarde
e já ninguém vinha, o melhor
era irmo-nos deitar.
Agora, se o telefone tocar,
diz que não estou.
(Sem ironia, o meu coração teme a ironia
quase tanto quanto a perfeição;
e sem melancolia:
estávamos a precisar de solidão,
de silêncio, de geometria,
e as nossas lágrimas de uma grande razão).
Agora que não estou
(nem tu sabes quanto)
tudo o que passou
sou eu regressando.
Os meus passos, não
os ouves nas escadas,
subindo as escadas
como os de um ladrão?
III
Se eu não morresse
como morreria,
e como responderia
pelo nome que tivesse?
E quem me chamaria?
Tu não (nem ninguém antes de mim,
nem depois de mim,
nem a meu lado);
ter-te-ias demorado,
as filhas teriam crescido,
os amigos partido,
e quando voltasses estaria tudo acabado.
A verdade é que eu já não tinha idade
(nem palavras) para esperar-te,
começava a fazer-se muito tarde
e morria sozinho sem ninguém com quem falar de
mim. Os sonhos da infância
vagueavam inúteis pelos cantos
e eu transformava-me entretanto
em algo parecido com eles, da mesma substância.
A própria casa era um erro
grosseiro: não tinha paredes.
O jardim onde tantas vezes
florira o meu desespero
não era real,
era uma coisa passada;
real era o meu medo, tão real
que mesmo abrindo os olhos não passava.
Agora já não tenho medo, estou deitado
em palavras sem artifício e sem esplendor
onde fala passando
uma voz anterior.
(Assim morreria
talvez, se não morresse,
mas como o saberia?
E não o sabendo como o ignoraria?)
Manuel António Pina, in "Todas as Palavras",
SINOPSE
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.
Corria o ano de 2001 quando a Assírio & Alvim publicou a primeira edição da Poesia Reunida de Manuel António Pina. Pouco depois escrevia Eduardo Prado Coelho no Público:
«Talvez agora, no momento em que a Assírio & Alvim
publica a Poesia Reunida de Manuel António Pina, estejamos em condições
de poder afirmar que nos encontramos perante um dos grandes nomes da
poesia portuguesa atual. Uma extrema delicadeza pessoal, uma discrição
obsessiva, uma cultura ziguezagueante e desconcertante, mas sempre
subtil e envolvente, um sentido profundo da complexidade da literatura, e
também, sobretudo, da complexidade da vida, têm talvez impedido a
descoberta plena e mediática deste jornalista e homem de letras também
voltado para os jogos mais leves e embaladores da literatura infantil.
Contudo, torna-se imperioso dizê-lo agora: este tom deliberadamente
menor sustenta uma obra maior da literatura portuguesa».
A edição que
agora se apresenta, numa belíssima edição encadernada e substancialmente
ampliada, inclui todo o trabalho poético do autor de 1974 a 2011. (daqui)





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