domingo, 25 de outubro de 2026

"Às vezes" - Poema de Ricardo Azevedo

 

André Letria
(Ilustrador e editor português, n. 1973), "Pensamento"



Às vezes


Às vezes sou pensamento
Às vezes sou emoção
Às vezes misturo os dois
Às vezes não

Às vezes eu tenho pressa
Às vezes vou de mansinho
Não sei se sou avião
Ou passarinho

Às vezes eu vivo aqui
Às vezes vivo na lua
Às vezes abro o portão
E vou pra rua

Às vezes olho pra fora
Às vezes olho pra dentro
E quando não sei a hora
Eu pego e invento

Às vezes faço o que devo
Às vezes faço o que quero
Às vezes não sei se quero
Ou se não quero

Às vezes sinto tristeza
Às vezes sinto alegria
Às vezes eu viro noite
Às vezes, dia

Às vezes ouço que é sim
Às vezes ouço que é não
Às vezes só ouço
Meu coração

Às vezes tenho o problema
Às vezes tenho a resposta
Às vezes tem solução
Às vezes não

Às vezes eu sou menino
Às vezes me sinto velho
Às vezes acho que o tempo
É um mistério

Às vezes sinto esperança
Às vezes quase desisto
Às vezes nem sei por que
Eu existo

Às vezes venho pra junto
Às vezes ando sozinho
E fico lá na distância
Pertinho


Ricardo Azevedo
,
do livro "Ninguém sabe o que é um poema",
Ática, 2004.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

"Borboletas" - Poema de Manoel de Barros



Fujishima Takeji
 (Japanese painter, 1867–1943), 'Butterflies', 1904.


Borboletas


Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza,
um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista
de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.


Manoel de Barros (1916–2014),
in 'Ensaios fotográficos', 2000;
in 'Poesia Completa', 2010.
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

"O Girassol" - Poema de Vinicius de Moraes



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
'Allotment with Sunflower', Paris, July, 1887, Van Gogh Museum.



O Girassol


Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

— Vamos brincar de carrossel, pessoal?

— “Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor.”

— Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
— Besouro é muito pesado!
— Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!
— Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

— “Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol.”

E o girassol vai girando dia afora...

O girassol é o carrossel das abelhas.


Vinicius de Moraes (1913–1980), do livro "Arca de Noé",
Rio de Janeiro, Sabiá, 1970.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

"O Leopardo" - Poema de José Jorge Letria

 


William Huggins
(English artist, 1820–1884), A pair of leopards, 1845


Leopardo 


Podia chamar-se Leonardo
este felino elegante
que na copa de uma árvore
parece um bicho distante,
nem esculpido em madeira
teria maior perfeição,
arco de corda esticada
correndo ao sol do Verão. 
A pelagem pintalgada
lembra doença infantil,
não é sarampo ou varicela
nem um vírus feio e hostil. 


José Jorge Letria,
em
"O Alfabeto dos Bichos"

 
William Huggins (English artist, 1820–1884), Two leopards, 1845



“O homem é o único animal que causa dor aos outros sem outro propósito senão o de fazê-lo.”

Arthur Schopenhauer
[Filósofo alemão, 1778–1860]

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Nuno Júdice

 


Tom Shropshire (American artist, born 1943), "Foggy Afternoon", 2017.


Outono


Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.

Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.

As folhas juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.


Nuno Júdice, in "A Noção do Poema", 1972;
in "Obra Poética 1972–1985", pág. 30,
Quetzal Editores, 1991.

 
Tom Shropshire, "Autumn Rain", 2016, acrylic on canvas.


"Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiura, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente."

Citação atribuída ao 14º Dalai Lama (Tenzin Gyatso)
 

 
Tom Shropshire,"Madison Square Park, NYC", 2021.
Acrylic on Stretched Canvas, 40.6 × 50.8 cm.
Private Collection
 

"Eu encontro esperança nos dias mais sombrios, e foco nos mais brilhantes. Eu não julgo o universo."
 
Citação atribuída ao 14º Dalai Lama (Tenzin Gyatso)

sábado, 17 de outubro de 2026

"A coragem no gesto de viver" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez


 
Paula Rego (British-Portuguese visual artist, 1935–2022), The Betrothal: Lessons;
The Shipwreck, after ‘Marriage a la Mode’ by Hogarth
, 1999



A coragem no gesto de viver


O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.

O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.

O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem, mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.

A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.

E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intacto, regressar.


Reynaldo Valinho Alvarez (1931–2021),
in 'O Solitário Gesto de Viver', 1980




Paula Rego, Meadow, 1996. Pastel on paper laid down on aluminium.


"Viver é navegar num oceano de incertezas através de arquipélagos de certezas."

Edgar Morin
 
 
 
Edgar Morin (daqui)
 

Filósofo e sociólogo francês, Edgar Morin nasceu a 8 de julho de 1921, em Paris, no seio de uma família judia proveniente de Salónica (Grécia), e morreu a 29 de maio de 2026 na sua cidade natal. 
Foi membro, durante a Resistência e no pós-guerra, do Partido Comunista Francês, do qual foi expulso por discordar da orientação oficial.

Morin acreditava que era necessário efetuar uma "revolução", mas que esta deveria ter presente a ideia de totalidade e complexidade do real. Propôs, como alternativa, o conceito de "totalidade aberta" e de "um pensamento planetário", assentes na permanente revisão e crítica dos princípios orientadores, evitando os dogmas e o pensamento único.

Também no domínio da pesquisa epistemológica, a perspetiva de Morin traduzia uma inovação. A sua reflexão nesta área incidiu sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico" de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remetia para a necessidade de encontrar um novo método, que repensasse a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmitiu a ideia de "complexidade", que caracteriza todas as esferas da atividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas.

Estas realidades (física e social), foram pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não pode ser entendido, desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspetivados numa lógica de reciprocidade.

Em síntese, Morin tinha como objetivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.

Morin publicou mais de 30 livros, ao longo da sua carreira, incluindo “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), uma obra onde se discute os desafios da educação neste novo milénio. Na esfera da comunicação, tornou-se uma referência com o livro "Cultura e Massa no Século XX: O Espírito do Tempo" (1962), em que analisa a relação entre a arte, os media e o consumo de massas. (daqui)
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

"Chão de Outono" - Poema de Ana Margarida Borges




Andrea Johnson (American artist, b. 1954), "Sienna and Mo", n.d.



Chão de Outono


Da janela
Meço o Outono
Pela cor das folhas cobrindo meu chão
E há cheiro a castanhas
E a fruta madura
Outubro é lagar
Da tua doçura.

Que mãos preciosas tecem iguarias?
Tigelas douradas perfumam as casas
Sabem a marmelo e à minha infância
Que assim vai entrando
Com as suas asas

Macio é o Outono assim temperado
De açúcar e de pau de canela
Trazendo sabores e saberes ancestrais
E as vespas à volta pousando gulosas
Como o meu olhar atrás da janela
Bebendo o milagre das cores outonais

Cedo cai a noite e a nostalgia.
Instantes tão breves. Breve a ilusão
De um cabaz de Outono
Com travo a passado
Trazendo de novo
Uma velha canção

Quando dou por mim
Os frutos do estio
São gostosas geleias
Barradas no pão

No frio do inverno
Só mesmo o calor
Da tua mão


Ana Margarida Borges


Andrea Johnson,'Morning Cloaks and Grapevines', n.d.
 

Outono 

folha seca
sobre o travesseiro
acorda borboleta
 

Alice Ruiz
, Haikai,
 do livro 'Desorientais'