sexta-feira, 15 de maio de 2026

"Mariana" - Poema de Alfred Tennyson



John Everett Millais (English painter and illustrator who was one of the founders of the
 
[The image depicts the solitary Mariana from William Shakespeare's Measure for Measure, as retold in Tennyson's 1830 poem "Mariana".] 


Mariana


With blackest moss the flower-plots
Were thickly crusted, one and all:
The rusted nails fell from the knots
That held the pear to the gable-wall.
The broken sheds look'd sad and strange:
Unlifted was the clinking latch;
Weeded and worn the ancient thatch
Upon the lonely moated grange.
She only said, "My life is dreary,
He cometh not," she said;
She said, "I am aweary, aweary,
I would that I were dead!"

Her tears fell with the dews at even;
Her tears fell ere the dews were dried;
She could not look on the sweet heaven,
Either at morn or eventide.
After the flitting of the bats,
When thickest dark did trance the sky,
She drew her casement-curtain by,
And glanced athwart the glooming flats.
She only said, "The night is dreary,
He cometh not," she said;
She said, "I am aweary, aweary,
I would that I were dead!"

Upon the middle of the night,
Waking she heard the night-fowl crow:
The cock sung out an hour ere light:
From the dark fen the oxen's low
Came to her: without hope of change,
In sleep she seem'd to walk forlorn,
Till cold winds woke the gray-eyed morn
About the lonely moated grange.
She only said, "The day is dreary,
He cometh not," she said;
She said, "I am aweary, aweary,
I would that I were dead!"

About a stone-cast from the wall
A sluice with blacken'd waters slept,
And o'er it many, round and small,
The cluster'd marish-mosses crept.
Hard by a poplar shook alway,
All silver-green with gnarled bark:
For leagues no other tree did mark
The level waste, the rounding gray.
She only said, "My life is dreary,
He cometh not, "she said;
She said "I am aweary, aweary
I would that I were dead!"

And ever when the moon was low,
And the shrill winds were up and away,
In the white curtain, to and fro,
She saw the gusty shadow sway.
But when the moon was very low
And wild winds bound within their cell,
The shadow of the poplar fell
Upon her bed, across her brow.
She only said, "The night is dreary,
He cometh not," she said;
She said "I am aweary, aweary,
I would that I were dead!"

All day within the dreamy house,
The doors upon their hinges creak'd;
The blue fly sung in the pane; the mouse
Behind the mouldering wainscot shriek'd,
Or from the crevice peer'd about.
Old faces glimmer'd thro' the doors
Old footsteps trod the upper floors,
Old voices called her from without.
She only said, "My life is dreary,
He cometh not, "she said;
She said, "I am aweary, aweary,
I would that I were dead!"

The sparrow's chirrup on the roof,
The slow clock ticking, and the sound
Which to the wooing wind aloof
The poplar made, did all confound
Her sense; but most she loathed the hour
When the thick-moted sunbeam lay
Athwart the chambers, and the day
Was sloping toward his western bower.
Then said she, "I am very dreary,
He will not come, "she said;
She wept, "I am aweary, aweary,
Oh God, that I were dead!" 
 
 

Marie Spartali Stillman (British painter, of Greek descent, 1844–1927),

"Mariana", c. 1867–1869. Private collection.


"Adeus!" - Poema de Almeida Garrett


 
William Arthur Breakspeare (British painter, 1856–1914),
 'An important letter', n.d.


Adeus!


Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque não te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu... tu nada perdeste;
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tão daninhos
Que o seu poder só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa víbora medonha
Que por seu fatal condão
Há de rasgá-lo ao nascer:
Há de sim, serás vingada,
E o meu castigo há de ser
Ciúme de ver-te amada,
Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar - Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incêndio fatal!
Mais negro e feio no inferno
Não chameia o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso? - Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou suportar
O cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?
Enganas-te: é morta, é finda,
Dissipada é a ilusão.
Do meigo azul de teus olhos
Tanta lágrima verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
Nesta seara de abrolhos,
Que a fonte secou. Agora
Amarás... sim, hás de amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh! mas noutro hás de sonhar
Os sonhos de oiro encantados
Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos encovados
Der a luz de teus ardores...
Se com ela cegarei?
Se o nada dessas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Também eu sonhar... Perdida,
Perdida serás - perdida.

Oh! vai-te, vai, longe embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai! não;
E que pude a sangue-frio,
Covarde, infame, vilão,
Gozar-te - mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Cometendo em cada beijo
Um crime... Ai! triste, não chores,
Não chores, anjo do céu,
Que o desonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.
A imundo cerdo voraz
Essas pérolas de preço
Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada, te há de admirar,
Despeitosa, respeitar,
Mas indulgente... Oh! o perdão
É perdido no vilão,
Que de ti há de zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
Demais, e demais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.

Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangrar às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra - e não cabe
Nele uma ideia dos céus...
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!


Almeida Garrett (1799–1854),
in "Folhas Caídas", 1853.
 
 


"A uma guerra justa preferimos uma paz injusta."


Samuel Butler (English poet and satirist, 1612-1680), citado em "Famous Sayings and Their Authors:
 A Collection of Historical Sayings in English, French, German, Greek, Italian, and Latin";
‎ Página 35, de Edward Latham - Publicado por Sonnenschein, 1906 - 318 páginas.
 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar" - Poema de Fernando Pessoa

 


Frederick Judd Waugh (American painter, primarily known as a marine artist,
1861-1940), 'Under the Trade Winds, Barbados', c. 1921.


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Deem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Deem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu. 

10-8-1929

Fernando Pessoa, 'Poesias'
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 118. 


 
Frederick Judd Waugh, 'The Next Wave', c. 1924, Indianapolis Museum of Art.

«O mar está levemente encrespado e pequenas ondas quebram na praia arenosa. O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação, nenhuma daquelas três condições todavia, se verifica para ele. Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso.» 

Italo Calvino (1923–1985), in "Palomar", 1983. 

  

 
'Palomar' de Italo Calvino
 Dom Quixote, 2020 – reedição

SINOPSE 

Um dos mais carismáticos livros de Calvino e o último que publicou em vida.

Será possível encontrarmos um sentido nas coisas, no mundo à nossa volta? E dentro de nós próprios? O senhor Palomar está muito longe de ter alguma certeza quanto a tudo isso. Todavia, continua à procura.

Homem excêntrico em busca de conhecimento, visionário num mundo sublime e ridículo, Palomar é um observador nato. «Só depois de ter conhecido a superfície das coisas», acredita ele, «nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo.» Seja contemplando um seio nu, uma loja de queijos em Paris, a barriga de uma osga ou os céus de Roma invadidos por estorninhos, o senhor Palomar oferece-nos uma visão do mundo familiar, mas fragmentada pela perceção individual.

Último livro publicado em vida por Italo Calvino, "Palomar" é uma narrativa fascinante sobre a vertigem do homem diante dos inexoráveis mistérios do universo. Um autêntico testamento literário de um dos maiores escritores do século XX, que conduz o leitor através de um inquérito de resultados surpreendentes: o senhor Palomar é sem dúvida o autor, mas não só. Somos todos nós, os leitores deste livro empolgante, um dos mais profundos da literatura de todos os tempos. (daqui)


Italo Calvino

Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.

Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.

Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas. A colaboração de Calvino com a imprensa havia começado em meados de 1945, no jornal comunista L'Unittá, prosseguindo em títulos como Il Garibaldino, voce della Democracia e La Republica.

Após a publicação de Il visconte dimezzato (1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga. Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa, pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que como romancista.

Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.

Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral. (daqui)

"Poema de Amor" - Ruy Cinatti

 

 
François Boucher
(French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Cupids - Allegory of Poetry', 1760s.

 Poema de Amor


Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...-
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de noturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti,
in "56 poemas", 1ª ed. - A Regra do Jogo, 1981.
Reeditado: Relógio de Água, 1992.

 
"56 poemas" de Ruy Cinatti,
Relógio D'água, 1992.
 

"56 Poemas", publicado originalmente em 1981 pela editora 'A Regra do Jogo' e, posteriormente, com reedições pela 'Relógio D'Água', é uma obra fundamental de Ruy Cinatti (19151986), marcando um ponto culminante na sua produção poética. A obra apresenta uma poesia de maturidade, marcada por um forte teor lírico e confessional, com destaque para "Poema de Amor" e a sua relação com o misticismo e a vivência em Timor.
 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

"Eu não existo sem você" - Poema de Vinicius de Moraes



Sherree Valentine Daines
(British impressionist painter, b. 1956),
'Romance on the River', n. d.



Eu não existo sem você


Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
levará você de mim

Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
E todo grande amor
Só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor,
Não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com o luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer

Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

Vinicius de Moraes,
em 'Livro de letras'‎ - Página 40,
Companhia das Letras, 1991.
 
 
Maria Bethânia - "Eu não existo sem você"

Do álbum de Maria Bethânia "
Que Falta Você Me Faz", 2005.
Um tema de Tom Jobim e Vinicius de Moraes



"Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido."


Vinicius de Moraes, in 'Para uma menina com uma flor'
 

"Hoje é o dia de todos os deuses" - Poema de Helga Moreira


 
François Flameng (French painter, 1856–1923), 'Allegory of Painting'
('Allégorie de la peinture')
, c. 1875, Private collection.


Hoje é o dia de todos os deuses


Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é o dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo. 

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho género ou identificação bastante

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco. 
 
in 'Agora que falamos de morrer', 2006.
 

terça-feira, 12 de maio de 2026

"O Gato e o Dicionário" - Poema de Cassiano Ricardo

 

 
Henri Rousseau
(French post-Impressionist painter in the Naïve
or Primitive manner, 1844-1910), 'Portrait of Pierre Loti', c. 1891.
Oil on canvas, 62 x 52 cm, Kunsthaus, Zurich.
 

O Gato e o Dicionário

... tigre em miniature.
(Maurice Rollinat)

Um gato se aproxima. Está com fome.
Abandonado ao deus-dará da rua.
Daqui a pouco, uma roda que significa o universo em seu eixo, o esmagará.
Sem que nenhuma estrela ou flor se mude do lugar onde está. 

Chamo-o para junto do meu corpo.
Aqueço-o com o meu sobretudo londrino.
Os seus olhos são verdes. São mais verdes
que os da mulher que o abandonou na rua
ao passar em seu carro, como uma sereia montada num peixe. 

E como (dada a minha condição pedestre)
jamais poderia eu possuir um tigre de Bengala,
farei, deste gato mosqueado,
o meu tigre, que se conservou criança,
para enfeite do mundo, só dos homens. 

Afinal, para a pequena floresta rotativa onde moro,
me basta este minúsculo tigre, ornamental. 

Não posso ter um quadro de Van Gogh,
tenho uma cópia.
Não posso ter dois pintarroxos no ar voando
tenho um, na mão.
(Que é a infância senão a alegria de ter uma coisa por outra?) 

Não tenho as coisas do bazar de Deus,
tenho um dicionário.
Não tenho a mulher que vi na última corrida do Jóquei,
tenho a sua fotografia. 

(O segredo da vida não está em a gente
se contentar com uma coisa por outra?)
Em meu dicionário de objetos achados,
o gato é o meu tigre.

(Ah, este gato me dará sempre a ilusão de eu ser menino,
aqui,
ou caçador de tigres, na África). 


Cassiano Ricardo
 (1895-1974), 
in 'A Difícil Manhã', 1960.