Paula Rego (British-Portuguese visual artist, 1935–2022), The Betrothal: Lessons;
The Shipwreck, after ‘Marriage a la Mode’ by Hogarth, 1999
A coragem no gesto de viver
O solitário gesto de viver
não demanda a coragem que há na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e está coberto
de razões, de certezas, de verdades.
O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.
O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem, mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.
A coragem no gesto de viver
está em coisas simples, por exemplo,
na diária decisão de levantar.
E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intacto, regressar.
Reynaldo Valinho Alvarez (1931–2021),
in 'O Solitário Gesto de Viver', 1980

Paula Rego, Meadow, 1996. Pastel on paper laid down on aluminium.
"Viver é navegar num oceano de incertezas através de arquipélagos de certezas."
Edgar Morin
Filósofo e sociólogo francês, Edgar Morin nasceu a 8 de julho de 1921, em Paris, no seio de uma família judia proveniente de Salónica (Grécia), e morreu a 29 de maio de 2026 na sua cidade natal.
Foi membro, durante a Resistência e no pós-guerra, do Partido Comunista Francês, do qual foi expulso por discordar da orientação oficial.
Morin acreditava que era necessário efetuar uma "revolução", mas que esta deveria ter presente a ideia de totalidade e complexidade do real. Propôs, como alternativa, o conceito de "totalidade aberta" e de "um pensamento planetário", assentes na permanente revisão e crítica dos princípios orientadores, evitando os dogmas e o pensamento único.
Também no domínio da pesquisa epistemológica, a perspetiva de Morin traduzia uma inovação. A sua reflexão nesta área incidiu sobre o panorama da ciência contemporânea que se apresenta como um "mosaico" de disciplinas isoladas e separadas entre si. Esta fragmentação remetia para a necessidade de encontrar um novo método, que repensasse a tradição científica ocidental. Partindo do desenvolvimento das diversas ciências, especialmente da física, da biologia, da cibernética e da ecologia, Morin transmitiu a ideia de "complexidade", que caracteriza todas as esferas da atividade humana, desde o mundo físico e natural até ao universo das sociedades humanas.
Estas realidades (física e social), foram pensadas de uma forma dinâmica e intercomunicativa: o natural não pode ser entendido, desligado do social e vice-versa, e o todo das partes que o compõem, também perspetivados numa lógica de reciprocidade.
Em síntese, Morin tinha como objetivo ultrapassar a visão reducionista e simplista do Homem e do Mundo, que domina o pensamento ocidental há trezentos anos.
Morin publicou mais de 30 livros, ao longo da sua carreira, incluindo “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), uma obra onde se discute os desafios da educação neste novo milénio. Na esfera da comunicação, tornou-se uma referência com o livro "Cultura e Massa no Século XX: O Espírito do Tempo" (1962), em que analisa a relação entre a arte, os media e o consumo de massas. (daqui)

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