terça-feira, 10 de março de 2026

"Ideia fortíssima" e "Os dois lados" - Poemas de Murilo Mendes


 
André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 1880-1954),
La Seine au Pecq, 1904, Centre national d'art et de culture Georges-Pompidou.



Ideia fortíssima


Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu cérebro noite e dia,
A ideia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma ideia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma ideia que verruma todos os poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de Deus.


Murilo Mendes
, in "As metamorfoses", 1944;
"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 


Os dois lados

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


Murilo Mendes"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 

Murilo Mendes –  Coleção: Melhores Poemas.
Direção: Edla van Steen. Seleção e Prefácio: Luciana Stegagno Picchio.
Editora GLOBAL, 4ª edição, 2020
 
 
 SINOPSE
 
Surrealista, barroco, visionário, Murilo Mendes foi uma das vozes poéticas mais pessoais e inovadoras do modernismo brasileiro. Desde a sua estreia, revelou-se um poeta original, qualidade que o seu longo processo de evolução iria acentuar, até a última fase de sua poesia, marcada pelo sentido de fraternidade e comunhão humana. (daqui)



Retrato de Murilo Mendes por Ismael Nery, 1922.
(Coleção particular)

Poeta e ensaísta brasileiro, Murilo Monteiro Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Fez os estudos primários e secundários na sua terra natal e em Niterói. Não chegou, no entanto, a concluir curso superior.
Em 1920 mudou-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte conheceu Ismael Nery, que veio a ter grande influência na sua formação estética e religiosa, pois revelou-lhe as novidades estéticas europeias e converteu-o ao Catolicismo.

Em 1947 casou-se com a poetisa Maria da Saudade Cortesão, filha do historiador e político português Jaime Cortesão, então exilado no Brasil.
Exerceu profissões diversas, como funcionário público, bancário e notário, sendo, a partir de 1957, professor de Estudos Brasileiros em Roma e Bolonha. Em 1971 recebeu o Prémio Internacional de Poesia Tena-Taormina. Faleceu a 14 de agosto de 1975, em Lisboa.

A sua obra poética é rica e variada. Ao aderir ao "essencialismo" de Ismael Nery, aceitou muitas ideias do Surrealismo, por isso na sua poesia confundem-se tempos, formas, planos e perspetivas. História do Brasil (1932), nomeadamente, é um livro que satiriza, através de poemas, factos ridículos da História do Brasil.

Em Tempo e Eternidade (1935) surge-nos uma poesia confessional de expressão solene e eloquente. Em Metarmofoses (1944) e Poesia e Liberdade (1947) há um tom de amargura suscitado pela guerra, pelos ditadores e pelas injustiças que assolavam o mundo e que, como se deixa perceber, só a poesia poderá salvar. Em Contemplação de Ouro Preto (1954), Murilo Mendes regressa a uma ordem poética aproximada da clássica, praticando o verso decassilábico, o alexandrino e outros metros. Em 1959 dá-se a publicação de Poesias, que reúne os livros anteriores, à exceção de História do Brasil e inclui ainda os inéditos Bumba-meu poeta (1930), Sonetos Brancos (1946 - 1948) Parábola (1946 - 1952). Siciliana (1954-1955) e Tempo Espanhol (1959) resultam de impressões poéticas de viagens realizadas pela Europa. 
Na prosa, merecem referência os títulos O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), Poliedro (1972), Retratos Relâmpago (1973) e Transístor (1980). (daqui)

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Entrega" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna



Jeanna Bauck (Swedish-German painter, 1840–1926), "The Danish Artist
Bertha Wegmann Painting a Portrait", Nationalmuseum.



Entrega


Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.

Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demónios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.

Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.


Affonso Romano de Sant'Anna,
in Textamentos, 1999.

 

domingo, 8 de março de 2026

"Para atravessar contigo o deserto do Mundo" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Francisco Miralles y Galup
 or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter,
1848–1910), A lady seated on the beach, c. 1880.


 
Para atravessar contigo o deserto do Mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento. 


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Livro Sexto", 1962.



 
Francisco Miralles y Galup
, An elegant lady on the beach, c. 1880.


“Há esta palavra sinónima de poesia, dizemos Sophia e não precisamos de dizer mais nada”.

(Alice Vieira)
 

sábado, 7 de março de 2026

"Deveras" - Poema de Luci Collin

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
1973), "Rio de Janeiro", 1923.
 

Deveras 


o poeta finge
e enquanto isso
cigarras estouram
pontes caem
azaleias claudicam
édipos ressonam
vacinas vencem
a bolsa quebra e
o poeta finge
e enquanto isso
vagalhões explodem
o pão adoece
astros desviam-se
manadas inteiras se perdem
a noite range
o vento derruba ninhos e
o poeta finge
e enquanto isso
vozes racham
veias entopem
galeões afundam
medeias abatem crias
turvam-se as corredeiras
o sapato aperta e
o poeta finge
que as mãos cheias de súbitos
não são as suas


Luci Collin, in "A palavra algo"
Iluminuras, 2016.
 
 
Tarsila do Amaral, "São Paulo", 1924.


"Sou poeta quando entendo a voz do vento,
E me vejo fantasma e sentimento."


Teixeira de Pascoaes, do poema Humildade,
em "Vida Etérea", 1906.
 

[A obra "São Paulo", de Tarsila do Amaral, é uma pintura que faz parte de uma série conhecida como "Pau-brasil", que incluía paisagens tipicamente brasileiras, tanto rurais quanto urbanas. No que se refere à forma, Tarsila desenvolveu uma abordagem ousada, estilizada para obter figuras que poderiam transmitir o dinamismo da rápida modernização do país. Neste quadro, a artista preenche a metrópole com ícones de progresso: bombas de gasolina e um poste de eletricidade se destacam em primeiro plano; no fundo, um bonde, uma ponte de ferro, um edifício em construção e um cartaz com números expressam a chegada da modernidade.] (daqui)
 


Tarsila do Amaral, A gare, 1925. 
 

sexta-feira, 6 de março de 2026

"Um rio te espera" - Poema de Eugénio de Andrade



Gregorio Prieto (Pintor espanhol, 1897-1992), Paisaje de Bermeo, 1920-1921.



Um rio te espera


Estás só, e é de noite,
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado.

Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros noturnos.

Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.

Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te da tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.

Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque;
sombra pura
nos grandes dias de verão.

Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.


Eugénio de Andrade,
in "Coração do dia", 1958.


quinta-feira, 5 de março de 2026

"A Visita" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


L. A. Ring
(Danish painter, 1854–1933), The Artist's Wife by Lamplight, 1898,
68 x 87 cm, Statens Museum for Kunst, Copenhagen.


A Visita


As três desavisadas toutinegras,
as que hoje me chegaram de visita,
de capas e antenas cor de rosa,
sapatos de pelica,
trouxeram como prendas: rima ou não?,
decassílabo coxo ou refletido?,
e num passo de dança de salão
optaram por zumbido

de leve, imitação de chilrear,
afago sobre as penas ilustradas,
lustrosas e macias como livros
com trovões nas lombadas.
Falavam todas juntas (ou zumbiam),
coro anti-ominoso e sossegado,
e ajeitando-se em capas e antenas,
sentaram-se a meu lado.

Uma espreitava a cor, a outra, o branco,
a terceira passava-me a borracha,
mas era tudo feito tão discreto,
modulação tão baixa,
que os braços de morfeu na casa toda:
braços inertes tão adormecidos,
ignorantes da mesa de onde em roda
cresciam os zumbidos.

Por fim, em jeito leve de tourada,
uma lançou a capa pelo ar,
outra roubou-me lápis e isqueiro
e fugiu a dançar
pela varanda, de onde descolou,
como avião, em rasto incandescente.
Só a terceira se deixou ficar
sentada lentamente.

E ficou por aqui, e não partiu,
vigiando-me noite e sobressalto,
segurando-me as pálpebras com mão
segura de mar alto,
mantendo cheia a ânfora do espanto
onde se habita o vento e a monção,
de quando em vez, lançando-me um ditongo
ou golpe de escansão.

Foi a pior, das três a mais perigosa,
a mais desavisada sem parecer,
cujos sapatos de pelica preta
deixavam antever
umas meias às riscas de luar,
com enfeites de sol e tempestades,
e uma malha caída e alguns raios
que me lembravam hades.

Foi ela a responsável pelo estado
em que ficámos mesa, folha, eu,
num desalinho azul, verso molhado
pela jarra tombada por Morfeu
que entretanto acordara, em fúria ampla,
em ânfora de sono destruído,
e que em brado solene emudeceu
o dela, e meu, zumbido.

E se eu tremia, ela como estátua
sem pestanar sequer, sem um tremor:
se ficara ofendida, se assustada.
E, para meu terror,
levantou brevemente a capa preta,
tirou da meia às riscas: não pistola:
um baralho de cartas e navalha
sem ponta, mas de mola.

Que comecem os jogos! Começaram,
mas éramos só três. E ela então
chamou pelas irmãs, que regressaram
em passo de salão.
E as três desavisadas toutinegras
sentaram-se outra vez, e eu e morfeu,
a braços e nos braços de uma crise:
é que ou morfeu, ou eu.

Que quatro é conta certa, cinco, não,
urgindo eliminar alguém presente.
E foi então que a mais desavisada
teve ideia brilhante:
um concurso de quadras com o tema
"as três desavisadas toutinegras",
e ganharia a que de pior rima
a dar com "toutinegras".

Perdeu morfeu, que escolheu a mais óbvia,
e logo ali lhe foram oferecidos
três destinos possíveis, todos eles
de fins enaltecidos.
Ou voltar a dormir, muito enrolado
nos seus braços compridos de embalar,
ou instalar-se à musa, encarregado
de baralhar e dar.

Ou então (foi a escolha sugerida
por mim, que ele aceitou, aliviado):
fazer o meu papel, pegar no lápis,
e sentar-se a meu lado.
E enquanto as três jogavam, entretidas,
em muito incerta conta de jogar,
morfeu e eu zumbíamos por quadras
e canções de embalar.

No livro de registos desta noite,
ficou assim rimada uma visita
de três desavisadas toutinegras,
sapatos de pelica,
e um morfeu a quem elas inspiraram
a comprar capa preta,
e que eu, quase a dormir, vi transformado
em órfico poeta.


Ana Luísa Amaral
,
in "Entre Dois Rios e Outras Noites",
Campo das Letras, 2008.
 


L. A. Ring, Johanne; Seated full figure, 1884.


"Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos do conhecido para o desconhecido, e aqui defrontar o real."


Paul Valéry
(Filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, 1871–1945) 
 

quarta-feira, 4 de março de 2026

"Alexandra" - Poema de Joaquim Pessoa



Horatio Walker (Canadian painter, 1858–1938),
"Portrait of a Woman with a Purple Scarf", n.d.



Alexandra


Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se veem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor. 


Joaquim Pessoa, in "Guardar o Fogo"



"Guardar o Fogo" de Joaquim Pessoa
Editor: Edições Esgotadas
Edição: junho de 2013

RESUMO

«Os cento e quatro poemas que compõem "Guardar o Fogo" constituem um conjunto coeso, organizado em torno do eixo da criação literária. Se, em obras anteriores de Joaquim Pessoa, esta temática nunca deixou de estar presente, aqui, o processo da criatividade poética é o cerne, a espinha dorsal, o corpo do corpus.
Complexa na sua aparente simplicidade, jogando com a vertente ora lírica ora prosaica da linguagem, a poesia de "Guardar o Fogo", com profundas raízes na “Mãe-terra”, é impetuosa, apaixonada, intimista, luminosa, impregnada de sensualidade. Mas, em concomitância, é uma poesia de pendor existencialista, subtil e afavelmente irónica, terna e doce, com laivos de sombra, inquietação e anticonformismo, um vislumbre e anelo do “azul”, como o azur de Baudelaire ou o um pouco mais de azul de Mário de Sá-Carneiro. A obra deixa transparecer um poeta amadurecido, mais sereno, cujo crescimento no ofício continua a surpreender e a encantar.» 
 

In Prefácio, Maria da Conceição Andrade & Maria Fernanda Navarro (daqui)