sexta-feira, 13 de março de 2026

"Ordem do dia" - Poema de Bandeira Tribuzi

 


Michele Desubleo (Flemish painter, 1601–1676), "Allegory of Poetry", n.d.



Ordem do dia 


Há que remover a neve desta folha de papel!

Breve escutaremos o motor dos sentimentos
enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se
movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo
os sulcos onde caem as sementes
da Emoção.

Na vasta planície
desvirginada
germina já o pólen da lírica.

Um vento de humana condição
(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos
esta lavoura mental.
Como bom descendente de um povo de camponeses
medes o rigor da semeadura,
sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão...
Pão sonoro!

De repente,
as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado,
rompem voo para o céu de tua inteligência
e desfecham seu canto maravilhoso
contra tua surpresa.

Teu coração é a corda do violino!
Eis a geração do poema:
sua mecânica, seu plantio,
sua colheita.
Estás diante de uma safra eterna!


Bandeira Tribuzi, in "Safra", 1961.
 

quinta-feira, 12 de março de 2026

"A pálida luz da manhã de Inverno" - Poema de Fernando Pessoa



Artur Franco (Artista plástico português, n. 1950), Leiria, 2012.
 

A pálida luz da manhã de Inverno


A pálida luz da manhã de Inverno, 
O cais e a razão 
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer, 
Ao meu coração. 
O que tem que ser 
Será, quer eu queira que seja ou que não.

No rumor do cais, no bulício do rio 
Na rua a acordar 
Não há mais sossego, nem um vazio sequer, 
Para o meu esperar. 
O que tem que não ser 
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar. 

28-12-1928


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1919-1930)

(Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.)
Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 106.


Artur Franco, 'Ao romper da aurora', Rio Lis, Leiria, 2007.
 
 
Artur Franco, 'Reflexos', Rio Lis, s.d. 
 
 
 
Artur Franco, 'Amanhecer', Rio Lis, s.d


Rio Lis

Nascido nas Fontes, freguesia das Cortes, e com foz na Praia da Vieira, o rio Lis assume papel principal na identidade leiriense, sendo um dos poucos, a nível nacional, que vê a sua corrente seguir o sentido sul-norte e, nos quilómetros finais, o sentido este-oeste.
Elemento preponderante no concelho, este curso de água, com cerca de 40 quilómetros de extensão, inspirou poetas e prosadores e até tema de uma lenda, de um amor entre o Lis e o seu afluente Lena.
A beleza natural da sua nascente permite ver a água brotar de uma forma surpreendente em alguns meses do ano.
O rio atravessa o centro da cidade de Leiria, sendo acompanhado por zonas verdes e pelo percurso Polis, espaços de grande atração para momentos de lazer e para a prática de desportos.
Já depois da malha urbana, o Lis segue por planícies aluvionares, chamadas de Campos do Lis, uma extensa zona agrícola irrigada por este curso de água.
Chegando a Monte Real, é possível apreciar uma paisagem fantástica, ao mesmo tempo que se pratica pesca desportiva.
No percurso final, o rio Lis passa junto ao Pinhal de Leiria, desaguando na Praia da Vieira, concelho da Marinha Grande.
(daqui)
 

quarta-feira, 11 de março de 2026

"A outra metade" - Poema de Camilo Castelo Branco




"Retrato de Camilo Castelo Branco(Escritor, romancista, cronista, crítico,
dramaturgo, historiador, poeta e tradutor português, 1825–1890), 1918,
por Alberto Aires de Gouveia (Pintor português, 1867–1941).



A outra metade

 
Quando este corpo meu esfacelado
Baixar à leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para esculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”



Camilo Castelo Branco
,
in ‘Nas Trevas - Sonetos Sentimentais e Humorísticos’ 
 
 

Camilo Castelo Branco, "Nas Trevas" 
 Sonetos Sentimentais e Humorísticos
Editor: Forgotten Books



RESUMO


«Trágico, épico, lírico, satírico – tudo isso foi Camilo», afirmou Jorge de Sena, falando da obra.

A vida de Camilo Castelo Branco (1825–1890), foi igualmente tumultuosa e dramática.
No meio de uma vida de boémia e paixões, conhece Ana Plácido (1831–1895), por quem se apaixona, seduz e rapta. Escândalo público. Andam a monte até serem presos, acabam por ser processados pelo crime de adultério. Hão de ser absolvidos. Passam a viver juntos e casam-se mais tarde. Na iminência de cegueira, Camilo suicida-se em 1 de Junho de 1890. 

Camilo Castelo Branco, um dos mais renomados escritores da literatura portuguesa, foi um dos primeiros autores portugueses a viver exclusivamente da atividade literária. Foi também um dos mais populares e prolíficos, com mais de uma centena de obras, entre as quais se destacam as novelas passionais a que terão servido de inspiração as suas próprias desventuras amorosas. Amor de Perdição, a sua obra mais famosa, publicada em 1862, é uma referência do Romantismo em Portugal

A poesia esteve sempre presente na vida de Camilo, nela expressando os seus sentimentos mais profundos, as suas reflexões existenciais, os seus desabafos confessionais, e bem assim, a sua opinião política. Escreveu poemas desde 1845, quando iniciava a sua carreira literária profissional, até ao ano da sua morte, em que foi publicada a sua última obra: Nas Trevas: Sonetos Sentimentais e Humorísticos.
Este livro é uma viagem poética que mergulha nas profundezas da alma humana, revelando sentimentos intensos e momentos de humor inesperado. Camilo convida o leitor a explorar a dualidade da vida através de sonetos que oscilam entre o sentimental e o humorístico.
Os temas desta obra incluem o amor, a melancolia, a ironia e a crítica social, todos entrelaçados com a maestria de um autor que sabe como tocar o coração e a mente do leitor. A originalidade de Camilo reside na sua capacidade de transformar o quotidiano em poesia, oferecendo uma nova perspetiva sobre as complexidades da existência.
Os pontos fortes deste livro são o estilo inconfundível de Camilo, que combina lirismo e sagacidade, e o reconhecimento que a obra recebeu ao longo dos anos como um marco na poesia portuguesa. A linguagem rica e a profundidade emocional dos sonetos fazem deste livro uma leitura obrigatória para os amantes da literatura. 
Destinado a um público que aprecia a beleza da poesia clássica e a inteligência do humor refinado, "Nas trevas: Sonetos sentimentais e humoristicos" é ideal para aqueles que buscam uma leitura que desafia e encanta.
 

terça-feira, 10 de março de 2026

"Ideia fortíssima" e "Os dois lados" - Poemas de Murilo Mendes


 
André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 1880-1954),
La Seine au Pecq, 1904, Centre national d'art et de culture Georges-Pompidou.



Ideia fortíssima


Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu cérebro noite e dia,
A ideia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma ideia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma ideia que verruma todos os poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de Deus.


Murilo Mendes
, in "As metamorfoses", 1944;
"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 


Os dois lados

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


Murilo Mendes"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 

Murilo Mendes –  Coleção: Melhores Poemas.
Direção: Edla van Steen. Seleção e Prefácio: Luciana Stegagno Picchio.
Editora GLOBAL, 4ª edição, 2020
 
 
 SINOPSE
 
Surrealista, barroco, visionário, Murilo Mendes foi uma das vozes poéticas mais pessoais e inovadoras do modernismo brasileiro. Desde a sua estreia, revelou-se um poeta original, qualidade que o seu longo processo de evolução iria acentuar, até a última fase de sua poesia, marcada pelo sentido de fraternidade e comunhão humana. (daqui)



Retrato de Murilo Mendes por Ismael Nery, 1922.
(Coleção particular)

Poeta e ensaísta brasileiro, Murilo Monteiro Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Fez os estudos primários e secundários na sua terra natal e em Niterói. Não chegou, no entanto, a concluir curso superior.
Em 1920 mudou-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte conheceu Ismael Nery, que veio a ter grande influência na sua formação estética e religiosa, pois revelou-lhe as novidades estéticas europeias e converteu-o ao Catolicismo.

Em 1947 casou-se com a poetisa Maria da Saudade Cortesão, filha do historiador e político português Jaime Cortesão, então exilado no Brasil.
Exerceu profissões diversas, como funcionário público, bancário e notário, sendo, a partir de 1957, professor de Estudos Brasileiros em Roma e Bolonha. Em 1971 recebeu o Prémio Internacional de Poesia Tena-Taormina. Faleceu a 14 de agosto de 1975, em Lisboa.

A sua obra poética é rica e variada. Ao aderir ao "essencialismo" de Ismael Nery, aceitou muitas ideias do Surrealismo, por isso na sua poesia confundem-se tempos, formas, planos e perspetivas. História do Brasil (1932), nomeadamente, é um livro que satiriza, através de poemas, factos ridículos da História do Brasil.

Em Tempo e Eternidade (1935) surge-nos uma poesia confessional de expressão solene e eloquente. Em Metarmofoses (1944) e Poesia e Liberdade (1947) há um tom de amargura suscitado pela guerra, pelos ditadores e pelas injustiças que assolavam o mundo e que, como se deixa perceber, só a poesia poderá salvar. Em Contemplação de Ouro Preto (1954), Murilo Mendes regressa a uma ordem poética aproximada da clássica, praticando o verso decassilábico, o alexandrino e outros metros. Em 1959 dá-se a publicação de Poesias, que reúne os livros anteriores, à exceção de História do Brasil e inclui ainda os inéditos Bumba-meu poeta (1930), Sonetos Brancos (1946 - 1948) Parábola (1946 - 1952). Siciliana (1954-1955) e Tempo Espanhol (1959) resultam de impressões poéticas de viagens realizadas pela Europa. 
Na prosa, merecem referência os títulos O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), Poliedro (1972), Retratos Relâmpago (1973) e Transístor (1980). (daqui)

segunda-feira, 9 de março de 2026

"Entrega" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna



Jeanna Bauck (Swedish-German painter, 1840–1926), "The Danish Artist
Bertha Wegmann Painting a Portrait", Nationalmuseum.



Entrega


Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.

Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demónios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.

Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.


Affonso Romano de Sant'Anna,
in Textamentos, 1999.

 

domingo, 8 de março de 2026

"Para atravessar contigo o deserto do Mundo" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Francisco Miralles y Galup
 or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter,
1848–1910), A lady seated on the beach, c. 1880.


 
Para atravessar contigo o deserto do Mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento. 


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Livro Sexto", 1962.



 
Francisco Miralles y Galup
, An elegant lady on the beach, c. 1880.


“Há esta palavra sinónima de poesia, dizemos Sophia e não precisamos de dizer mais nada”.

(Alice Vieira)
 

sábado, 7 de março de 2026

"Deveras" - Poema de Luci Collin

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
1973), "Rio de Janeiro", 1923.
 

Deveras 


o poeta finge
e enquanto isso
cigarras estouram
pontes caem
azaleias claudicam
édipos ressonam
vacinas vencem
a bolsa quebra e
o poeta finge
e enquanto isso
vagalhões explodem
o pão adoece
astros desviam-se
manadas inteiras se perdem
a noite range
o vento derruba ninhos e
o poeta finge
e enquanto isso
vozes racham
veias entopem
galeões afundam
medeias abatem crias
turvam-se as corredeiras
o sapato aperta e
o poeta finge
que as mãos cheias de súbitos
não são as suas


Luci Collin, in "A palavra algo"
Iluminuras, 2016.
 
 
Tarsila do Amaral, "São Paulo", 1924.


"Sou poeta quando entendo a voz do vento,
E me vejo fantasma e sentimento."


Teixeira de Pascoaes, do poema Humildade,
em "Vida Etérea", 1906.
 

[A obra "São Paulo", de Tarsila do Amaral, é uma pintura que faz parte de uma série conhecida como "Pau-brasil", que incluía paisagens tipicamente brasileiras, tanto rurais quanto urbanas. No que se refere à forma, Tarsila desenvolveu uma abordagem ousada, estilizada para obter figuras que poderiam transmitir o dinamismo da rápida modernização do país. Neste quadro, a artista preenche a metrópole com ícones de progresso: bombas de gasolina e um poste de eletricidade se destacam em primeiro plano; no fundo, um bonde, uma ponte de ferro, um edifício em construção e um cartaz com números expressam a chegada da modernidade.] (daqui)
 


Tarsila do Amaral, A gare, 1925.