terça-feira, 31 de março de 2026

"O Tango" - Poema de Jorge Luis Borges



Marthe Donas (Belgian abstract and cubist painter, 1885–1967),
"Le Tango", 1920.
 

O Tango


Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, pra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos
Edição bilingue. Seleção e Trad. de Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47.

segunda-feira, 30 de março de 2026

"Interiorano" - Poema de Armindo Trevisan



Lars Lerin (Swedish artist, author, painter, television personality
and presenter, b. 1954), "At Home", 2011. Watercolor on Paper,
Private Collection.



Interiorano


Chorei a primeira vez
quando meu gato morreu
atropelado na rua fronteira
à minha casa.

Foi a primeira vez que chorei
com liberdade – não
infringindo hábitos
sociais.

Chorei porque meu gato
morreu e compreendi,
naquele instante sem futuro,
que qualquer ser vivo valia
mais do que a sabedoria
dos homens que legislam
sobre a vida.

Hoje, sinto-me solitário
na vastidão do planeta!

Parece-me que os gatos
desapareceram, ou foram adotados
por homens, que se converteram
em seus algozes
e, mais frequentemente,
em nossos algozes. 


Armindo Trevisan
,
in "O Relincho do Cavalo Adormecido"
L&PM Editores. Porto Alegre, 2013.
 

domingo, 29 de março de 2026

"Os Espelhos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955), Reflections, 1915.



Os Espelhos 
 

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos refletem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo.


Sophia de Mello Breyner Andresen
 in Geografia, 1967.
 

"As raparigas lá de casa" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

 

 
Federico Zandomeneghi (Italian Impressionist painter, 1841-1917), 
The Two Sisters, 1895. Oil on canvas.

As raparigas lá de casa


Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa. 


Emanuel Félix Borges da Silva,
in "Habitação das Chuvas", 1997.


sábado, 28 de março de 2026

"Pax" - Poema de D. H. Lawrence

 


Ernest Biéler
(Swiss painter, draughtsman and printmaker, 1863–1948),
Portrait de l'ecrivain Édouard Rod (1857–1910), 1909.


Pax


Tudo o que importa é estar em paz com o Deus vivo,
ser uma criatura na morada do Deus da vida.

Como um gato dormindo na cadeira
em paz, tão em paz,
de bem com o dono da casa, com a dona,
em casa, à vontade, na casa dos vivos,
dormindo junto à lareira, bocejando ao pé do fogo.

Dormindo junto à lareira do mundo vivo,
bocejando no lar ao pé do fogo da vida,
sentindo a presença do Deus vivo
como uma imensa segurança,
profunda calma no coração,
uma presença,
como a do dono da casa, sentado à mesa
na plenitude de seu ser,
na morada da vida.


D. H. Lawrence (1885-1930), in "Last poems", 1932
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes


"Rumor de água" - Poema de Carlos de Oliveira



Túllio da Costa Victorino (Pintor naturalista português, 1896-1969),
Lavadeiras - Tomar, 1944.


 Rumor de água


Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refratada.

A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.


Carlos de Oliveira, in "Colheita Perdida",
Casa Minerva, 1948.
 
 
Pinturas de Túllio da Costa Victorino

Túllio da Costa Victorino, Lavadeiras no regato, 1963.
 
 

Túllio da Costa Victorino, Paisagem, 1941.


Túllio da Costa Victorino, Casa com figuras, s.d.
 
 
Túllio da Costa Victorino, Ribeira do Porto, 1943. 


Perguntou-se a José Saramago:
– Como podem homens sem Deus serem bons?
Sua resposta foi:
– Como podem homens com Deus serem tão maus?


José Saramago, em Entrevista, 2009.
 

sexta-feira, 27 de março de 2026

"C..." - Poema de Júlio Dinis


(Spanish painter, 1848–1910), Dama en el parque, 1894.


C...


Não meças o amor pelo tempo que dura;
Ontem amei-te mais nessa hora tão ligeira,
Senti maior prazer, gozei maior ventura,
Do que se ao pé de ti passasse a vida inteira.

Deixa que esta paixão termine com o dia,
Efémera recém-nascida à madrugada,
E que ao cair do sol, nessa hora de poesia,
Deixou pender no chão a fronte desfolhada.

Fiquemos sempre assim, um ao outro ignorados
Nestas vagas regiões duma paixão nascente.
Sigamos cada um caminhos separados;
Com uma hora de amor a alma é já contente.

Lisboa, 1869.

Júlio Dinis, Poesias, 6º volume das "Obras Completas",
Lisboa, Círculo de Leitores, 1992.

 
Lady with a Parasol, 1880/8. Fundación Banco Santander.


O teu amor era falso,
Teve pouca duração.
Mas deixou mágoas eternas
No meu pobre coração.


Júlio Dinis, 
in "Justiça da sua Majestade", 1858.