domingo, 21 de junho de 2026

"Verão" - Poema de Eugénio de Andrade



Carl Strathmann (German painter in the Art Nouveau and Symbolist 
styles, 1866–1939), 'Snail Mail', 1914.


Verão


Caracol, caracol,
onde vais com tanto sol?
Vou à loja do senhor Adão
comprar um girassol;
com tanto sol
ninguém aguenta o verão.
Adeus, adeus, caracol,
tens razão,
sem guarda-sol
ninguém aguenta este sol.


Eugénio de Andrade, in "Aquela nuvem e outras",
Ilustração de Júlio Resende,
Edições ASA, 1986. 
 

 
Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923–2005)
 por Júlio Resende (Pintor português, 1917– 2011) em 1993.


Eugénio de Andrade

Poeta português, Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, nasceu a 19 de janeiro de 1923 no Fundão, e faleceu a 13 de junho de 2005, no Porto.
Em 1947 ingressou na função pública, como funcionário dos Serviços Médico-Sociais, e em 1950 fixou residência no Porto. Manteve sempre uma postura de independência relativamente aos vários movimentos literários com que a sua obra coexistiu ao longo de mais de cinquenta anos de atividade poética.
Revelando-se em 1948, com As Mãos e os Frutos, a que se seguiria, em 1950, Os Amantes sem Dinheiro, o seu nome não se encontra vinculado a nenhuma das publicações que marcaram, enquanto lugar de reflexão sobre opções e tradições estéticas, a poesia contemporânea, embora tenha editado um dos seus volumes, As Palavras Interditas, na coleção "Cancioneiro Geral" e tenha colaborado em publicações como Árvore, Cadernos do Meio-Dia ou Cadernos de Poesia.
É, aliás, nesta última publicação, editada nos anos quarenta, que se firmam algumas das vozes independentes, como Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Jorge de Sena, que inaugurariam, no século XX, essa linhagem de lirismo depurado, exigente, atento ao poder da palavra no conhecimento ou na fundação de um real dificilmente dizível ou inteligível, em que Eugénio de Andrade se inscreve.
Foi um dos poetas portugueses mais lidos e traduzidos, mantendo ao longo de uma longa e fecunda carreira uma certa unidade de temas e de recursos formais.
A escolha dos inofensivos substantivos "pureza" e "leveza" para referir a sua obra derivará talvez da noção do impulso de purificação que a sua poética confere às palavras através da exploração de um léxico essencial até à exaltação. Quando Maria Alzira Seixo fala do caminho que esta poesia percorre "na senda do rigor da lápide" ("Every poem is an epitaph", já dizia Eliot) levanta o véu de um dos pontos fulcrais desta poesia que, nas palavras do próprio Eugénio de Andrade (Rosto Precário), se afirma como o "lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos".
Falar desta obra como morada da "leveza" e da "pureza" é encobrir o que nela há de ofício de paciência e de desesperada busca. Talvez seja preferível falar da força básica de um léxico de tal maneira investido da radicação do corpo do objeto amado no mundo e na sua paisagem que é capaz de impor o desejo da luz no coração das trevas da mortalidade.
Eugénio de Andrade surgirá, assim, como o poeta da "correlação do corpo com a palavra" (Carlos Mendes de Sousa), da sexualidade trabalhada verbalmente até atingir uma "zona gramatical cega" (Joaquim Manuel Magalhães) onde o referido sexual não tem género gramatical referente porque o discurso em que vive pertence já a uma dimensão cuja musicalidade representa a recuperação de uma voz materna intemporal.
Eugénio de Andrade foi elemento da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da Academia Internacional "Mihail Eminescu" (Roménia). Para além de tradutor de vários autores, cujas obras recriou poeticamente (García Lorca, Safo, Borges), e organizador de várias antologias poéticas, é autor de obras como Os Afluentes do Silêncio (1968), Rosto Precário (1979), À Sombra da Memória (1993) (em prosa), As Mãos e os Frutos (1948), As Palavras Interditas (1951), Ostinato Rigore (1964), Limiar dos Pássaros (1976), Rente ao Dizer (1992), Ofício da Paciência (1994), O Sal da Língua (1995) e Os Lugares do Lume (1998).
Recebeu ao longo da sua vida vários prémios: Pen Clube (1986), Associação Internacional dos Críticos Literários (1986), Dom Dinis (1988), Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989), Jean Malrieu (França, 1989), APCA (Brasil,1991), Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996), Prémio Vida Literária atribuído pela APE (2000) e, em maio de 2001, o primeiro prémio de poesia "Celso Emilio Ferreiro" atribuído em Orense, na Galiza.
Em 2001, a 10 de maio, Eugénio de Andrade foi homenageado na Universidade de Bordéus por altura da realização do "Carrefour des Littératures", tendo sido considerado um dos mais importantes escritores do século XX.
Estiveram presentes várias ilustres personalidades, entre elas o então Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio. A 10 de julho foi distinguido com o Prémio Camões e, ainda no mesmo ano, foi lançado um CD com poemas recitados pelo próprio autor.
Em 2002, foram atribuídos os prémios PEN 2001 e Eugénio de Andrade recebeu o prémio da área da poesia pela sua obra Os Sulcos da Sede. No dia em que comemorou o seu octogésimo aniversário foi homenageado na Biblioteca Almeida Garrett do Porto.
Em 1991, foi criada na cidade do Porto a Fundação Eugénio de Andrade. Para além de ter servido de residência ao poeta, esta instituição tem como principais objetivos o estudo e a divulgação da obra do autor assim como a organização de diversos eventos como, por exemplo, lançamentos de livros, recitais e encontros de poesia.
A 22 de março de 2005 foi distinguido, juntamente com a escritora Agustina Bessa-Luís, com o doutoramento "Honoris Causa", atribuído pela Universidade do Porto durante a cerimónia do 94.º aniversário da sua fundação. (daqui)
 

sábado, 20 de junho de 2026

"Encomenda" - Poema de Cecília Meireles

 
 
Albert Lynch (French painter of German and Peruvian ancestry, 1860–1950),
'A Portrait of a Lady in Blue', n.d., Pencil and pastel on paper.
 
 
Encomenda


Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles, in "Vaga música", 1942.
 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

"Árvore, cujo pomo, belo e brando" - Poema de Luís de Camões

 

 
Henri Harpignies
(Peintre paysagiste, aquarelliste et graveur français
 de l'École de Barbizon, 18191916), 'Clair de lune', 1889.


Árvore, cujo pomo, belo e brando

 
Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.


Luís de Camões (1524–1580), 'Sonetos',
in 'Obras completas'





"Já matei bastantes árvores no mundo."


Stephen Edwin King (Escritor norte-americano de terror e suspense, n. 1947)
[Stephen King anunciando que não escreverá mais e com isso economizará papel, poupando as árvores;
citado em Revista Veja, Edição 1737, 06-02-2002.]
 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

"Essa tragédia tão vulgar" - Poema de Mário Dionísio



Carl Johann Spielter (Danish painter, 1851
1922),
'An Afternoon Game of Patience', 1913.


Essa tragédia tão vulgar 

Oh mulher das mãos gretadas

Como era brando o ar que te fechava os olhos e soprava
o teu cabelo e o teu vestido
Como o teu coração batia espavorido aos passos dele
ao fim da rua
E como os dedos dele eram ingénuos e tremiam
também
nesse ontem esfiapado na distância

E a casa e a casa e casar e a casa
como uma asa
levíssima roçando
a doce pele dos quinze anos

Mas agora
ele adormece à mesa tão cansado
todas as noites tão cansado e infeliz
e tu estás sempre séria com os ombros caídos
e tens as mãos gretadas


Mário Dionísio

in
'Solicitações e Emboscadas'

 
Carl Johann Spielter, 'The Letter', 1913



O maior poema


Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros 


Mário Dionísio

in
"Solicitações e Emboscadas"
 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Theo" - Poema de Manuel António Pina

 


Bruno Liljefors (Swedish artist, 1860–1939), "Rapp and Johan", 1886.
Private collection
 

Theo


Às vezes o gato fitava
com estranheza
o que de nós (um excesso)
se interpunha entre nós e o gato,
a nossa presença.


Manuel António Pina, in "Cuidados Intensivos",
Assírio & Alvim, 1994.




André Letria (Ilustrador português, n. 1973), 
"Incentivo à Leitura"


Aos Esses

Um dia, o Manuel António Pina disse-me: Se tivermos um gato deitado no tapete não temos uma história; mas se tivermos um gato deitado no tapete do cão, sim, temos uma história. O que varia é a tensão, e os livros dão-se bem com ela, é precisamente isso que lhes insufla vida. Os gatos brincam com as suas presas, vêm aos esses quando os chamamos, enfim, rodeiam as coisas antes de as sentenciarem, não correm para o destino, fazem durar a viagem, como num jogo. Isso é o miolo de qualquer história. Se temos uma personagem que tem um desejo e simplesmente o concretiza, não temos nada. Para contarmos uma história, temos de dar as voltas necessárias até chegarmos ao destino, não podemos chegar lá diretamente, sem tensão, dificuldades, gozo, embelezamentos, obstáculos. Temos de escrever como os gatos caminham quando os chamamos.

Não sei se os gatos gostam de escritores, mas são duas espécies claramente aparentadas: por trabalharem sós, pela contemplação e observação. Quando um escritor levanta a cabeça do teclado para meditar sobre uma personagem, quando para para tentar encontrar a palavra justa, quando olha pela janela para tentar desfazer um nó do enredo, tem um comportamento felino. Um gato poderá encontrar, nesse tipo de gestos, uma espécie de identificação. Sim, dirá o gato, também olho para o infinito, semicerro os olhos, paro, demoro-me numa quietude melancólica. É até estranho, dirá o gato, que este homem sentado na secretária não ronrone. 

Afonso Cruz (Artista multidisciplinar português, n. 1971) (daqui)
   

terça-feira, 16 de junho de 2026

"Ao rimar dor com pensamento" - Poema de Helga Moreira



Ethel Pennewill Brown Leach (American painter, printmaker, and illustrator, 1878–1959),
'A Student in Paris', 1913. Collection of Amelie A. Sloan. 



Ao rimar dor com pensamento 

 
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afeto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto. 

Um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina. 

Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige

em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo. 


Helga Moreira, in 'Tumulto', 2003
 
 

Ethel Pennewil Brown Leach, 'She leaned forward and gazed anxiously
 at the reflection which confronted her', 1911.
 

Um espelho 


Um espelho
não é
uma janela

Um espelho
não é
um quadro

Quem espreita
por meus olhos
no espelho
sou eu

E eu
sou eu
Não há enigmas.


Adília Lopes (1960−2024),

in 'Le Vitrail la Nuit'.
Lisboa: &etc, 2006.
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

"Dentro da Vida" - Poema de Gastão Cruz

 

Jeff Rowland (British contemporary painter, 1964–2018)


Dentro da Vida


Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer


Gastão Cruz

(Poeta, crítico literário, escritor, encenador e tradutor português, 1941–2022)

***
 
Vida e obra de Jeff Rowland

Jeff Rowland (Romantic painter of the rain, 1964–2018

Jeff Rowland was born in 1964 – he recalled being inspired to create art from a young age, as he watched his grandmother working with oil paints. He studied art at Newcastle Tyneside college, and made his first attempt at becoming a self-employed professional artist in 1984. After struggling to find success, he was determined to hone his focus and skills, and studied advertising and illustration at the Newcastle School of Design.
Following this, Rowland was able to create a collection that earned him great success, exhibiting in Northumberland and then in London. Increasing sales enabled him to continue working in his desired career as a full-time artist.
Rowland was known for the commitment he showed to his work, and to creating art that was truly authentic. He immersed himself in the scenes he created – for example, before painting a series of scenes featuring fishermen and trawlers, he went out on a north sea trawler to experience the work first hand.
In the latter years of his life, Rowland was based in the North East of England, where he was able to find inspiration for his ongoing works. He died in 2018 at the age of 55, following a battle with leukaemia. (daqui)
 
 

Jeff Rowland, 'A Perfect Moment'
 
 
  
Jeff Rowland 

 
 
Jeff Rowland, 'Reunited'
 
 
Jeff Rowland
 

 
Jeff Rowland, 'And Then You Kissed Me'
 
 
 
Jeff Rowland, 'You Kept Me Warm'
  


Jeff Rowland, 'Goodnight Sweetheart'


"A única linguagem verdadeira no mundo é o beijo."

 
Alfred de Musset
(Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857)