segunda-feira, 6 de abril de 2026

"A beleza paradisíaca" - Texto de Rubem Alves


 
Auguste-Émile Pinchart
(French painter and designer, 1842–1920),
Gathering flowers, Unknown date.



A beleza paradisíaca


Conhece-se a beleza dádiva dos deuses por aquilo que ela produz na alma dos homens. Quem é possuído por ela entra em êxtase: cessa o riso, cessa o choro, o pensamento para, a fala emudece. É mística. A alma está tomada pela felicidade da tranquilidade absoluta. Era assim que se sentia o Criador ao contemplar, ao final de cada dia de trabalho, o resultado da sua obra:
“Está muito bom! Do jeito que deveria ser! Nada há de ser modificado! Amém!”


Rubem Alves (1933–2014), in "Um céu numa flor silvestre: A beleza em todas as coisas"


 
"Um céu numa flor silvestre" de Rubem Alves.
Verus Editora, 12/12/2011 - 260 páginas.
 
 
SINOPSE 

Tendo como inspiração a poesia de William Blake, Rubem Alves nos surpreende mais uma vez com esta coletânea de crónicas inéditas.
Esta obra leva o leitor a uma viagem pelas mais diversas formas de beleza presentes no dia a dia, as quais, muitas vezes, passam despercebidas ao observador menos atento – a beleza que pode ser revelada pelo divino, exaltada pelas artes, enaltecida pela natureza, ou criada, descoberta e compartilhada pelos homens. O autor também nos mostra como o belo pode ser visto de forma diferente, dependendo do olhar que o contempla e do momento especial em que é visto. 
"Um céu numa flor silvestre" vai transportar o leitor para o reino da beleza, enchendo sua alma de poesia, de esperança, de sonhos. E, para embarcar nessa viagem, só uma coisa é necessária: ter o olhar transformado. (daqui)
 
 
Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora. 



William Blake
(Poeta, pintor e tipógrafo inglês, 1757–1827)

 
Auguste-Émile Pinchart, Collecting Wildflowers, ca. 1890.


"A mulher é a mais bela das aves que existe na terra."


Alfred de Musset
(Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857) 
 

domingo, 5 de abril de 2026

"Fé" - Poema de Czesław Miłosz



William Brymner (Canadian painter and educator, 1855–1925) & Horatio Walker
(Canadian painter, 1858–1938), "À l'ombre du pommier" (In the shade of the apple tree), 1903,
Musée national des beaux-arts du Québec.





Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.
Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.
in "Alguns gostam de poesia" - Antologia 
 (Poemas de Czesław Miłosz e Wisława Szymborska),
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neve, 
Editora Cavalo de Ferro, 2004.
 
 

Czesław Miłosz em 1999
 
Czeslaw Milosz foi um escritor polaco nascido a 30 de junho de 1911, em Seteiniai, na Lituânia. Filho de um engenheiro civil, acompanhou a família na sua mudança para o território polaco, em consequência da assinatura do Armistício, fixando-se em Vilna. Aí estudou, licenciando-se em Direito pela Universidade de Vilna em 1934.
Enquanto estudante, publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poemas intitulada Poemat O Czasie Zastyglym (1933). Empreendeu depois uma viagem que o levou até Paris, onde teve oportunidade de estreitar os laços que o uniam a um tio afastado, diplomata e poeta reconhecido em língua francesa. Em 1936 regressou a Vilna, onde não só publicou o seu segundo livro, Trzy Zimy, como passou a trabalhar na emissora de rádio da cidade. Foi despedido no ano seguinte por razões políticas, que o colocavam em simpatia com a esquerda, e mudou-se para Varsóvia, cofundando o movimento literário Zagary. 
Em 1939 a Polónia foi invadida por tropas alemãs, acontecimento que despoletou a Segunda Guerra Mundial. Milosz juntou-se à Resistência, escrevendo artigos em que condenava a ideologia Nacional-Socialista. Em 1945, terminada já a guerra, publicou Ocalenia, obra que lhe valeu a admissão no Corpo Diplomático do regime comunista. A partir de 1946 cumpriu uma missão na representação polaca da cidade de Washington, até que, em 1951, ao ser transferido para Paris, pediu asilo político a França, onde viveu até 1960. Durante esse período publicou Zniewolony Umysl (1953), trabalho que foi traduzido para a língua inglesa com o título The Captive Mind, e em que revela os problemas que afetavam os intelectuais tentando sobreviver sob a alçada de Estaline. Traktat Poetycki (1957), obra em que defende a validade da poesia nas comunidades, foi considerada como uma das suas melhores obras. 
Em 1960 partiu para os Estados Unidos da América, onde se tornou professor catedrático de Línguas Eslavas na Universidade de Berkeley. Tomou a cidadania norte-americana em 1970. No início da década de 80 regressou à Polónia, onde foi acolhido com grandes honrarias, e fixou-se na cidade de Cracóvia. Czeslaw Milosz foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Nobel da Literatura em 1980.
Czeslaw Milosz faleceu a 15 de agosto de 2004. (daqui)

sábado, 4 de abril de 2026

"Horizonte" - Poema de Fernando Pessoa

 


Jaume Morera i Galícia (Pintor paisatgista català, 1854-1927), Esperando la marea,
Playa de Arrigunaga
, 1904. Museu d'Art Jaume Morera.
 
 

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

s.d.

Fernando Pessoa, Mensagem
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 
(Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58.


 
Jaume Morera i Galícia, Playa con sol poniente, s.d.
Óleo sobre lienzo, 86 x 102 cm. Colección particular.
 

"Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota."


Adélia Prado
, Trecho do poema "Desenredo"
do livro "O Coração Disparado."

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"Os Galos de Lurçat" - Poema de Mário Dionísio



Jean Lurçat
(Peintre, céramiste et créateur de tapisserie français, 1892-1966), 
 

Os Galos de Lurçat


Num turbilhão de folhas e de sóis
entre nuvens peixes pedras luas estrelas
cantam os galos de Lurçat

Bom dia corações de girassol e astros com cabelos
Bom dia homens com raízes

Pairam na lã os ares
do Loire e do Garona
meiga luz de velhíssimos teares
cheiro a cachos do Beaune
meiga luz dos mil matizes do aroma
da doce terra de França

Entre troncos caídos em clareiras virgens
graves galos garbosos
de esporões floridos
com a manhã nas cristas

Que outras horas são estas
Que outros sítios e olhos? Que mendigos em festa?
Que serenidades imprevistas?

Galos negros e azuis
entre o presente e o futuro
traçam nos túneis absurdos
esguias figuras mudas

Galos verdes e castanhos
rasgam na alma os lanhos
da poeira dos anos

Galos vermelhos brancos amarelos
no ponto robusto de ásperas lãs
soltam clarins nas ruínas ermas dos castelos
de que se erguem amanhãs

Oh universos suspensos de Lurçat nos nevoeiros densos
da doce terra de França
Oh fanfarras desgrenhadas nas auroras dúbias e ousadas
na doce terra de França

Teus galos cantam fúria e eu oiço amor
teus galos cantam dor e luto e noite e eu oiço
esperança

(1950) 

Mário Dionísio, in 'Poesia Completa', 
Imprensa Nacional, 2016.
 
'Poesia Completa', de Mário Dionísio, é uma compilação da poesia produzida ao longo de quase cinquenta anos, de 1936 a 1982, e que se encontra materializada em cerca de 420 poemas.

Jorge Silva Melo
 em «Memórias de Um Leitor que Começou pelo Meio», que prefacia a presente edição, considera que a produção poética de Mário Dionísio «É uma poesia, descubro então, sem o luxo altaneiro das letras, sem exclamações, nem reticências, sem ópios nem gladíolos, sem desmaios nem declamações, poesia certa, poesia sem nobreza poética, feita de repetições cantáveis (…)».
 (daqui)
 
 
 

À questão: 'O que é a arte?' somos levados a responder: 
'Aquilo por meio do qual as formas se tornam estilo'.
 


André Malraux (1901-1976) em 1974;
Fotografia de Roger Pic (1920-2001).



André Malraux foi um escritor, intelectual, governante e aventureiro francês nascido a 3 de novembro de 1901, em Paris, e falecido a 23 de novembro de 1976, em Créteil, também em França.

Aos 25 anos, foi viver para o Camboja, na companhia da mulher, a escritora Clara Goldsmit. Passou depois pelo Vietname e pela China, de onde regressou novamente a território vietnamita. Em 1926, havia publicado o seu primeiro livro, La Tentation de l'Occident (A Tentação do Ocidente), editado em Portugal em 2005, composto pela troca de correspondência entre um chinês em viagem pela Europa e um francês no Extremo-Oriente.

Dois anos mais tarde, a experiência chinesa inspirou Malraux a escrever Les Conquérants (Os Conquistadores). O escritor francês lançou de seguida, em 1930, La Voie Royale (A Estrada Real), um romance passado na Indochina. Em 1933, ganhou o prestigiado prémio literário francês Goncourt graças a La Condition Humaine (A Condição Humana). Já de regresso à Europa, Malraux continuou a sua forte militância política, o que o levou a tornar-se combatente republicano durante a Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 1939. Manteve a atividade de escritor e, em 1937, lançou L'Espoir (A Esperança).

Entretanto, em 1939, com o advento da Segunda Guerra Mundial, Malraux alistou-se na Resistência, tornando-se partidário do general Charles de Gaulle. Paralelamente, deixou o Partido Comunista Francês, descontente com o facto dos soviéticos terem assinado um pacto com os alemães. Com o terminar da guerra, Malraux dedicou-se ainda mais à política e, em 1945 e 1946, foi ministro da Informação do governo provisório liderado por De Gaulle. Contudo, continuou a escrever e, entre a Segunda Guerra Mundial e meados da década de 50, publicou vários trabalhos sobre arte e estética. Entre estas obras destacam-se Voix du Silence (As Vozes do Silêncio) e Le Musée Imaginaire de la Sculpture Mondiale (O Museu Imaginário da Escultura Mundial). Regressou de forma efetiva à política, em 1958, para assumir de novo a chefia do Ministério da Informação, num governo liderado por Charles de Gaulle. Logo no ano seguinte, assumiu a pasta da Cultura e foi ministro desta área até 1969. Ano em que abandonou o cargo após a contestação surgida por ocasião das manifestações estudantis do maio de 68.

Até morrer, em 1976, André Malraux dedicou-se em exclusivo à escrita tendo lançado, sucessivamente, Les Chênes qu'on abat (1970, Quando os Robles se Abatem), Oraisons funébres (1971), Le miroir des limbes (1972), La corde et les souris (1976), este último a sua derradeira obra. (daqui)
 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Lindinha" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


Salvador Dalí (Spanish surrealist artist, 1904–1989),
Untitled (Landscape with Butterflies), c. 1956.



Lindinha 


É linda, é vida, é mulher
essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.

É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora
na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?

Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.

Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.

Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.


Affonso Romano de Sant'Anna
,
Textamentos, 1999.

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

"Aqui termina o caminho" - Poema de Emílio Moura



Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886-1973),
 Lagoa Santa, 1925.

Aqui termina o caminho


Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo 
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave 
pensamento de exílio.

Porque ainda esperas? Aqui termina o caminho, 
aqui morre a voz, e não há mais eco, nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto 
nos perturbaram 
e que inutilmente nos conduziram 
para nos deixar de súbito na primeira esquina?

Essa voz que vem não sei de onde, 
esses olhos que olham não sei o quê, 
esses braços que se estendem não sei para onde...

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde 
os espaços que já não têm voz.

As almas já desertaram daqui. 
E nenhum milagre te espera, 
nenhum.


Emílio Moura
 (1902-1971), 
in "Canto da hora amarga", 1936.
 
 

Tarsila do Amaral, Palmeiras, 1925.


(Olhando os Babaçus em Alcântara)


A palmeira e sua palma
Ondulam o ideal
Da calma.


Millôr Fernandes, in "Hai-kais",
Porto Alegre: L&PM, 1997.
 

terça-feira, 31 de março de 2026

"O Tango" - Poema de Jorge Luis Borges



Marthe Donas (Belgian abstract and cubist painter, 1885–1967),
"Le Tango", 1920.
 

O Tango


Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, pra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos
Edição bilingue. Seleção e Trad. de Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47.