
Christian Skredsvig (Norwegian painter and writer, 1854–1924), "Idyll", 1888,
Lillehammer Art Museum.
Gato
Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.
Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move
A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.
Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
– e, de repente,
o pulo em cima.
A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.
Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.
Ivan Junqueira (1934–2014),
in "O Grifo", 1987.
quadrogiz
"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)
quarta-feira, 22 de julho de 2026
"Gato" - Poema de Ivan Junqueira
terça-feira, 21 de julho de 2026
"Harmonia" - Poema de Miguel Torga

Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist and comic strip author, painter
and illustrator, 1914–2001), 'Family', 1942, Private Collection.
Harmonia
Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.
E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.
Miguel Torga,
Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.
Tove Jansson, 'The Moomins'
A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson.
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna. (daqui)
Tove Jansson, 'A Famílias dos Mumins'
Tradução: Mafalda Eliseu
Relógio D'Água, 2015
Descrição
«Um tesouro perdido, agora redescoberto… Uma obra–prima.» – Neil Gaiman
«Jansson era um génio de um modo subtil. Estas histórias simples estão repletas de emoções únicas, profundas e complexas, como jamais se viram em literatura para crianças ou adultos.» – Philip Pullman
«Tove Jansson é, sem dúvida, uma das maiores escritoras de livros para crianças.» – Sir Terry Pratchett (daqui)
Sniff, Snufkin, Moominpappa, Moominmamma, Moomintroll (Moomin),
the Mymble's daughter, Groke, Snork Maiden and Hattifatteners.

Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'
"Arte e vida se misturam.
Fantasia e realidade se acrescentam."
Affonso Romano de Sant'Anna
[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]
segunda-feira, 20 de julho de 2026
"Deslumbramento" - Poema de Teixeira de Pascoaes

Albert Bierstadt (German-American painter, 1830–1902),
'Sunrise on the Matterhorn', between 1867 and 1897.
Metropolitan Museum of Art, New York City.
Deslumbramento
A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade...
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!
Teixeira de Pascoaes (1877–1952),
in 'Vida Etérea', 1906

Albert Bierstadt, 'Sundown at Yosemite', c. 1863, Thyssen-Bornemisza Museum
"Admiramos o mundo através do que amamos."
Alphonse de Lamartine
[Autor, poeta e estadista francês, 1790–1869]
domingo, 19 de julho de 2026
"Tempo de luta" - Poema de José Henrique dos Santos Barros

Jean Béraud (Peintre français, 1849–1935), 'La sortie du lycée Condorcet', 1903
Tempo de luta
No tempo em que lutámos
com espadas de pau e pistolas de dedos
nesse tempo em que sabíamos
que a mãe era o totem todo‑poderoso
que perseguia os índios e ganhava a guerra
e só nos exigia o sacrifício dos sapatos limpos
no tempo em que o mundo era uma bola alegre
igual à do futebol que o pai do João comprou
livres fomos caminhando nas ondas
até que chegámos a uma praia e ficámos
desarmados sem totem sem bola sem sacrifícios fáceis por fazer
desde então muita coisa aconteceu
por exemplo
o João foi à guerra e morreu.
J. H. Santos Barros (1946–1983),
in 'Alexandrina, como era – Todos os Poemas'
sábado, 18 de julho de 2026
"Havia um Menino" - Poema de Fernando Pessoa

Pál Balkay (Hungarian painter and teacher, 1785–1846),
Havia um Menino
Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.
Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.
Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.
Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.
Fernando Pessoa (1888–1935),
in 'O Meu Tio Fernando Pessoa', de Manuela Nogueira.
Famalicão: Centro Atlântico, 2015. p. 87
[Poema dedicado ao sobrinho Luís Miguel – o Bebé –
que não queria pôr o chapéu “por causa do sol”.]
(daqui)
"Pedi tão pouco à vida e mesmo esse pouco a vida me negou."
Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego' - Vol.II.
Org. e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha. Lisboa: Presença, 1990.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
"Diálogos do jardim" - Poema de Cecília Meireles
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Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935), 'Her New Friend', n.d.
Diálogos do jardim
Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.
O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"
Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.
"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"
Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.
"Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"
Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...
E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"
E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.
"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"
E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce, a minha perpétua solidão.
E perguntei ao pássaro: "Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"
E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto."
quinta-feira, 16 de julho de 2026
"Saber dar o lugar" - Poema de José Jorge Letria
Real Bordalo (Artista plástico português, 1925–2017), O Elétrico, Lisboa.
Saber dar o lugar
se logo encontras lugar,
é natural que te apresses
para nele te ires sentar.
É um direito que tens
e não deves recusar,
a não ser que alguém precise
ainda mais do lugar.
A grávida que está de pé
ou o senhor deficiente
precisam que te levantes
para que um deles se sente.
Podes perder o conforto
que repousa e sabe bem
mas ficas com a alegria
de ter ajudado alguém.
E é essa a recompensa
de uma boa educação;
afinal só estamos bem
se os outros também estão.
Se assim fores procedendo,
tendo sempre o outro em vista,
hás de ver que bem que sabe
não querer ser egoísta.
José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
