quarta-feira, 27 de maio de 2026

"O menor esforço" - Poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni

 

 
Charles Frederic Ulrich (American Realist painter who spent most of his career
 in Germany, 1858–1908), 'The Village Printing Shop, Haarlem, Holland', 1884.
 

O menor esforço


Ferreiro e filho de ferreiro,
um dia visitei meu vizinho carpinteiro.
E ao ver quanto a madeira era macia
em relação ao ferro que eu batia,
deixei de ser ferreiro.

Tornei-me carpinteiro e, vendo o oleiro
modelando o seu barro molemente,
cobicei seu oficio de indolente
e larguei meu formão de carpinteiro.

Mas fui depois a casa do barbeiro,
que alisava uns cabelos de menina.
E achando aquela profissão mais fina,
deixei de ser oleiro.

Um dia, em minha casa de barbeiro
entrou um poeta de cabelo ao vento.
E ao ver quanto era livre e sobranceiro,
troquei minha navalha e meu dinheiro
por sua profissão de encantamento…

Meu Deus! Por que deixei de ser ferreiro? 


Giuseppe Artidoro Ghiaroni
(Jornalista e poeta brasileiro, 1919–2008)


"Bicho bravio" - Poema de Maria Carpi



Jean Metzinger (French painter, theorist, writer, critic and poet, 1883–1956),
Baigneuses, Deux nus dans un jardin exotique (Two Nudes in an Exotic Landscape),
c. 1905, oil on canvas, 116 x 88.8 cm, Thyssen-Bornemisza Museum, Madrid.
 

Bicho bravio 


Quero estar rente a tudo,
roçando as vísceras,
cheirando os acúmulos.

Quero apresentar-me
com a cara e as mãos
de quem acabou de fuçar

as hortas. Em desalinho,
em farpas, em suor misturado
aos sucos, com manchas

de frutas que não se alvejam.
Os cabelos emaranhados
de folhas e presságios.

As sardas da longa
exposição à inclemência.
Quero ser, da poesia, 
o bicho mais bravio.


Maria Carpi
(n. 1939)
in 'Caderno das Águas', 1998

 

Jean Metzinger, Coucher de Soleil No. 1 (Landscape), ca. 1906, oil on canvas,
72.5 x 100 cm, Kröller-Müller Museum, Otterlo, Netherlands.
 

"O melhor poema que podemos fazer é o do bem comum."

Maria Carpi
 (daqui)

terça-feira, 26 de maio de 2026

"Esplêndida" - Poema de Cesário Verde


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup (Spanish painter, 1848–1901),
'The Picnic' ('El Pícnic'), c. 1901.


Esplêndida 


Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol!
Aumenta-os com retoques sedutores,
É como o refulgir dum arrebol
Em sedas multicolores.

Deita-se com langor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E esses negros corcéis, que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
Velozes como a peste.

É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon,
Se a vissem ficariam ofuscadas.
Tem a altivez magnética e o bom-tom
Das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala
E as mãos, que o Jock Clube embalsamou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
Um amante, em Bengala.

É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar,
Atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com roseta, e nas librés
De forma aprimorada.

E eu vou acompanhando-a, corcovado.
No trottoir, como um doido, em convulsões
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejando o lugar dos seus truões,
Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
Formosa aristocrata!

Lisboa, 1874
 


Francisco Miralles y Galup, 'Before the Races at Longchamp', c. 1901.


"Depois do rosto, as mãos são a parte do corpo humano que mais obviamente expressa a emoção."

"Hands, after the face, are the most obvious part of the human body for expressing emotion."

Henry Moore (1898–1986), in 'Writings and Conversations'‎,
by Alan Wilkinson (Editor), 2002 - 320 páginas. 


 
Francisco Miralles y Galup, 'At the Races' ('En las carreras'), c. 1901.


"A verdadeira base da vida está nas relações humanas."

"The real basis of life is human relationships."

Henry Moore (1898–1986), in 'Writings and Conversations'‎,
by Alan Wilkinson (Editor), 2002 - 320 páginas.
 

"Gato" - Poema de Antonio Fernando de Franceschi


 
Tsuguharu Foujita
(Japanese-French painter, 1886–1968),
'Chat roux assis' (Sitting ginger cat), oil on canvas, 1930.
 

 Gato


rasante zoom à risca:
decifro um gato
sob as unhas do menino
prévio ao meu temor:
movo-me entre as raias
com cuidado
evito o negro
onde me perco:
não toco o tigrado dorso
nem o riso convexo
olho:
desdobro um tanto a memória
que rumina: mão infante
o pintou zebrino
em véspera de pulo:
angulo o quadro dos bigodes
que sobram sobre as tetas
pois é fêmea
e trívio
como qualquer gato
mas esse exato
moveu geleiras


Antonio Fernando de Franceschi

(Poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, 1942–2021)



Tsugouharu Foujita, 'Autoportrait dans l'atelier', s.d.
 
Léonard Tsuguharu Foujita (Tóquio, 27 de novembro de 1886 — Zurique, 29 de janeiro de 1968) foi um pintor modernista japonês que se naturalizou francês e converteu-se ao catolicismo. Nascido em Tóquio, ficou conhecido por aplicar técnicas japonesas em pinturas de estilo ocidental. Ele foi considerado "o mais importante artista japonês atuando no Ocidente durante o século 20".
Seu 'Livro dos Gatos' ('A Book of Cats'), publicado em Nova York por Covici Friede, 1930, com 20 desenhos gravados em chapa de Foujita, é um dos 500 livros raros mais vendidos no mercado e é classificado por negociantes de livros raros como "o livro sobre gatos mais popular e desejável já publicado."
 (daqui)
 

Musée des Beaux-Arts de Lyon.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Sempre acontece sempre" - Poema de Helga Moreira


 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Renée et le chat', 1920.


Sempre acontece sempre


Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema
que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte
apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor
alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


Helga Moreira



 
Josep de Togores i Llach (Spanish painter, 1893–1970),
'Reading in bed' ('Lectura en la cama'), 1935.
Museum of Montserrat


"A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados
 que se podem cometer contra o espírito."

Hermann Hesse (1877–1962), in 'Uma Biblioteca da Literatura Universal'

"Atrás não torna, nem, como Orfeu" - Poema de Ricardo Reis



Elsie Russell
(French painter, b. 1956), The Loss of Eurydice - Orpheus looks
back at Eurydice during her rescue from Hades, losing her forever
, c. 1994. 


Atrás não torna, nem, como Orfeu


Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento. 

31-5-1927

Ricardo Reis, in "Odes" Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994) - 105.
 

domingo, 24 de maio de 2026

"Paris, postal do céu" - Poema de Jaime Gil de Biedma


 
Albert Marquet
(Peintre et dessinateur français, 1875–1947), Pont Saint-Michel, 1908,
Salle 27 du Musée de Grenoble.



Paris, postal do céu


Agora, vou contar-vos
como também estive em Paris, e fui ditoso.

Era nos bons tempos da minha juventude,
nos anos de abundância
do coração, quando deixar para trás os pais e a pátria
é sentir-se mais livre para sempre, e fui
no Verão, naquele Verão
da greve e das primeiras canções de Brassens,
e da formosa história
de quase amor.

Ainda vive na minha memória aquela noite,
recém-chegado. Contemplo ainda,
sob a Pont Saint Michel, pela mão, em silêncio,
a grande lua de Agosto suspensa entre as torres
de Notre Dame, e azul
de um impossível o rio tantas vezes sonhado
It’s too romantic, como tu me disseste
ao afastar os lábios.

Em que sítio perdido
do teu país, em que recanto da América do Norte
e no quarto de quem, às horas mais soturnas,
quando sonhes morrer não importa em que braços,
e chegará, tal como
agora a mim me chega, esse calor de gentes
e a luz daquele céu tão rumoroso
tranquilo, sobre o Sena?

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,
a confundir os dias e suas noites,
os momentos felizes,
as censuras

e aquela viagem — a caminho da cama —
num vagão do Metro Étoile-Nation.


Jaime Gil de Biedma
(1929–1990), in 'Moralidades', 1966
Tradução de José Bento