segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Esse pequeno mundo" - Poema de Pedro Bandeira



Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist, painter, illustrator and comic strip author,
 1914–2001), "Summer, spring, autumn" (Seasons), 1984 (detail). (daqui)
 
[In 1984, Tove Jansson painted her last monumental work for the kindergarten Taikurinhattu (“Hobgoblin’s Hat”) in Pori, Finland. In the three-part wall painting, the Moomins wander through spring, summer and autumn in Moominvalley.]

 
Esse pequeno mundo


Sei que o mundo é mais que a casa,
Mais que a rua, mais que a escola,
Mais que a mãe e mais que o pai.

Vai além do horizonte,
Que eu desenhei no caderno,
Como linha reta e preta,
Que separa azul de verde.

Sei que é muito, sei que é grande,
Sei que é cheio, sei que é vasto.

Me disseram que é uma bola,
Que flutua pelo espaço,
Atirada pelo espaço,
Atirada pelo chute
De um gigante poderoso;
Vai direto para um gol,
Que ninguém sabe onde é.

Mas para mim o que mais conta
É este mundo que eu conheço
E que cabe direitinho
Bem debaixo do meu pé.


Pedro Bandeira,
em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna, 1984.

 
Tove Jansson, "Summer, spring, autumn" (Seasons), 1984 (detail). (daqui)

[The central image of the three-part painting, in which Too-ticky is washing the bathing hut, tells, according to Jansson, of “a moment in spring when the darkness and coldness subside”.]
 
 
Meu desenho


Com meus lápis de cor,
desenhei um passarinho.
Ele ficou tão perfeito
que até voou pro ninho.


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna
 
 
Tove Jansson, "Summer, spring, autumn" (Seasons), 1984 (detail). (daqui)
 

Por enquanto eu sou pequeno


Por enquanto sou pequeno,
mas vou aprender a ler:
já sei ler palavra inteira,
leio pra cima, e pra baixo,
e plantando bananeira!

Por enquanto sou pequeno,
uma coisa vou dizer,
com certeza e alegria:
sei que nunca vou esquecer
da beleza da poesia!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna
 
 ♥♥♥ 
 
 
Ilustração - Getty Images (illMad
 

Dia da Criança 

Portugal celebra o Dia das Criança em 1 de junho. No Brasil é celebrado em 12 de outubro. Outros países celebram este dia em 20 de novembro, data escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) por ser o aniversário da aprovação da Declaração dos Direitos das Crianças (1959) e a Convenção dos Direitos das Crianças (1989).
As datas da comemoração podem variar, mas o objetivo é o mesmo: promover os direitos e o bem-estar de todas as crianças, onde quer que estejam.
 (daqui)
 

domingo, 31 de maio de 2026

"Irmão" - Poema de Bráulio Bessa

 

Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "The Barbershop"


Irmão

 
Já que Deus me fez poeta,
um fazedor de poesia,
sigo a vida versejando
é essa minha alegria.
Ajuntando pensamentos,
misturando sentimentos,
falando com o coração!
Tô aqui mais uma vez,
hoje trago pra vocês
um cordel sobre o irmão.

Briguento e melhor amigo,
protegido e protetor.
Juntamos as alegrias,
dividimos cada dor
desde os tempos de criança,
guardamos cada lembrança
no fundo do coração.
Na vida tem muito ex
mas eu garanto a vocês
não existe ex-irmão.

Irmãos foi por que Deus quis,
amigos por que queremos.
Um dia nós ensinamos
os outros dias aprendemos
que o sangue é indiferente
quando a vida dá pra gente
um sentimento sagrado,
que nem é meu, nem é seu,
amor é coisa de Deus
a gente só pega emprestado.
 

Bráulio Bessa
"Poesia com Rapadura"
(Poeta, cordelista, declamador e palestrante brasileiro, n. 1985) 
 
 
Obras de Morgan Weistling
 
Morgan Weistling, "Sisters"
 

  
Morgan Weistling, "Sister Stories"


 
Morgan Weistling, "The Sleepover"
 

 
 Morgan Weistling, "The Country Doctor", 2013.
 

Morgan Weistling, "A Helping Hand"
 
 
 
Morgan Weistling, "Dressmaker's shop - 1886"
 

  
Morgan Weistling, "Family Traditions"
 
 
 
Morgan Weistling, "Indian Stories"
 

Dia dos Irmãos

O Dia dos Irmãos é uma data comemorativa em que se homenageia, agradece e festeja os irmãos. Tem vocação universal, sendo uma festa semelhante ao Dia do Pai, ao Dia da Mãe ou ao Dia dos Avós. Procura assinalar o espírito destacado na deliberação instituidora: «o que vivemos entre irmãos é único, irrepetível, molda a nossa vida para sempre.» 
 
É celebrado um pouco por todo o mundo em diferentes datas.
Na Europa, o Dia dos Irmãos celebra-se a 31 de maio, conforme foi instituído por deliberação da Assembleia Geral da Confederação Europeia das Famílias Numerosas (ELFAC) em 18 de setembro de 2014. 
A data de 31 de maio foi escolhida por anteceder o Dia das Crianças (1 de junho) e ser o último dia do mês de maio, associado a celebrações familiares como o Dia da Mãe (em Portugal, no primeiro domingo de maio.) 
 
No Brasil, a escolha do dia 5 de setembro surgiu por iniciativa da Igreja Católica, homenageando o aniversário da morte da missionária Madre Teresa de Calcutá (1910
1997), a partir de 2007 – data em que passaram 10 anos sobre a sua morte. No contexto religioso, o sentido da palavra "irmão" está ligada ao "próximo". (daqui)
 

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 18721931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (19011964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui) 
 

sábado, 30 de maio de 2026

"Minibiografia" - Poema de Luiza Neto Jorge

 

 
Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
 founder of Cubism, 1881–1953), 'Woman with animals' (La dame aux bêtes) 
Madame Raymond Duchamp-Villon, 1914, oil on canvas, 196.4 x 114.1 cm,
 Peggy Guggenheim Collection.


Minibiografia


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge (1939–1989),
in 'A Lume', 1989.
 

"Arte Poética V" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen



Auger Lucas (French painter, 1685
1765), 'An Allegory of Poetry', c. 1760.
 

Arte Poética V


Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado 'Nau Catrineta'. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.

Tempos depois, escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Ilhas", pág 70 - Texto Editora, 1989
(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988, por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères.)
 
 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Sempre a Razão vencida foi de Amor" - Poema de Luís de Camões



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915),
"Fair Rosamund" (Rosamund Clifford), 1854.
National Gallery of Victoria.


[Rosamund Clifford (c. 1140 – c. 1176), often called "The Fair Rosamund" or "Rose of the World", was a medieval English noblewoman and mistress of Henry II, King of England. She became famous in English folklore.] (daqui) 
 
 
Sempre a Razão vencida foi de Amor

 
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.


Luís de Camões (1524–1580), 'Sonetos',
in 'Obras completas'
 


John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),
"Fair Rosamund", 1917.


"Vi chorar uns claros olhos
Quando deles me partia.
Oh! Que mágoa! Oh! Que alegria!"
(Mote de um Vilancete)
 
*** 
 

Cesária Évora - 'Sodade'

'Sodade' é uma canção cabo-verdiana escrita por Armando Zeferino Soares na década de 1950, interpretada na década de 1970 por Bonga Kwenda, mais tarde popularizada por Cesária Évora no seu álbum 'Miss Perfumado' na década de 1990. O nome da canção, 'sodade', é uma variante crioula cabo-verdiana do termo português saudade.
 (daqui)
 
 

"Fim" - Poema de Murilo Mendes



John Martin (English Romanticist painter, engraver, and illustrator, 1789–1854), 
"The Great Day of His Wrath" or "The End of the World", c. 1851/3, Tate Britain.


Fim


Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
tudo o que acontece desde o princípio
é a sua preparação.

Eu preciso assistir ao fim do mundo
para saber o que Deus quer comigo e com todos
e para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
ouvir os coros imensos,
as lamentações e as queixas de todos,
desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
eu existo para a visão beatífica.


Murilo Mendes (1901–1975),
in 'As Metamorfoses', 1944.