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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

"Doce Certeza" - Poema de Florbela Espanca




Doce Certeza


Por essa vida fora hás de adorar 
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca, 
Em infinito anseio hás de beijar 
Estrelas d'ouro fulgindo em muita boca! 

Hás de guardar em cofre perfumado 
Cabelos d'ouro e risos de mulher, 
Muito beijo d'amor apaixonado; 
E não te lembrarás de mim sequer... 

Hás de tecer uns sonhos delicados... 
Hão de por muitos olhos magoados, 
Os teus olhos de luz andar imersos!... 

Mas nunca encontrarás p'la vida fora, 
Amor assim como este amor que chora 
Neste beijo d'amor que são meus versos!...


Florbela Espanca,
in "A Mensageira das Violetas"
 


François-Louis Dejuinne, La Chambre de Madame Récamier à l'Abbaye-aux-Bois, 1826, 

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Contra a Morte e o Amor não há quem tenha valia" - Poema de Gil Vicente



Sir Lawrence Alma-Tadema, Primavera, 1894, óleo sobre tela, 179,2 x 80,3 cm,
J. Paul Getty Museum, Los Angeles. (Retrata o festival de Cerealia numa rua romana.)
 

Contra a Morte e o Amor 
não há quem tenha valia


 Era ainda o mês de abril, 
de maio antes um dia, 
quando lírios e rosas 
mostram mais sua alegria; 
pela noite mais serena 
que fazer o céu podia, 
quando Flérida, a formosa 
infanta, já se partia, 
ela na horta do pai 
para as árvores dizia:

“Ficai, adeus, minhas flores, 
em que glória ver soía. 
Vou-me a terras estrangeiras, 
a que ventura me guia. 
Se meu pai me for buscar, 
que grande bem me queria, 
digam-lhe que amor me leva, 
e que eu sem culpa o seguia; 
que tanto por mim porfiava 
que venceu sua porfia. 
Triste, não sei aonde vou, 
e a mim ninguém o dizia!” 

Eis que fala Dom Duardos:

“Não choreis, minha alegria, 
que nos reinos de Inglaterra 
mais claras águas havia, 
e mais formosos jardins, 
e vossos, senhora, um dia: 
tereis trezentas donzelas 
de alta genealogia, 
de prata são os palácios 
para vossa senhoria; 
de esmeraldas e jacintos, 
de ouro fino da Turquia, 
com letreiros esmaltados 
que minha vida à porfia 
vão contando, e as vivas cores 
que vós me destes no dia 
em que com Primaleão 
fortemente combatia: 
senhora, vós me matastes, 
que eu a ele não temia.” 

Os seus prantos consolava 
Flérida, que tudo ouvia; 
foram-se então às galeras 
que Dom Duardos havia: 
por cinquenta se contavam, 
todas vão em companhia. 
Ao som de seus doces remos 
a princesa se adormia 
nos braços de Dom Duardos, 
que bem já lhe pertencia. 
Saibam quantos são nascidos 
que sentença eu lhes diria: 
que contra a morte e o amor 
não há quem tenha valia.


Gil Vicente, in 'Antologia Poética'


Gil Vicente
  Estátua de Gil Vicente no Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa.


Não há dados exatos quanto à data e local do nascimento de Gil Vicente. Contudo, e de acordo com Jacinto Prado Coelho, in Dicionário de Literatura, parece ter nascido em Guimarães por volta de 1465. Por outro lado, também não há dados absolutos que possam confirmar a teoria de alguns estudiosos que defendem que este Gil Vicente, "poeta dramático", seja o ourives da rainha D. Leonor, autor da célebre e riquíssima custódia de Belém. A coincidência do nome e a contemporaneidade de ambos apontam, todavia, para esta possibilidade.
Embora desde sempre tenham existido tentativas no sentido de atribuir a este autor uma grande cultura, não está comprovado que este tenha frequentado a universidade e aprendido o latim do Renascimento. Porém, pode afirmar-se que era detentor de um espírito conhecedor, dominando bem, enquanto católico e músico, a poesia litúrgica latina. Também o conhecimento do castelhano lhe franqueou as portas da cultura religiosa e profana.
A transmissão da sua obra confrontou-se com dificuldades várias. Inicialmente, os seus autos eram divulgados à medida que iam sendo escritos, em folhas soltas. Na verdade, Gil Vicente iniciou o trabalho de compilação das suas obras completas, mas, antes de morrer, apenas foi capaz de reunir algumas das folhas e manuscritos e de redigir a dedicatória ao rei D. João III. Assim, esta compilação só foi concluída e impressa, em 1561-1562, pelo seu filho Luís Vicente, já não conseguindo escapar à "mão inquisitorial" estabelecida em Portugal em 1536, ano provável da morte do autor. Na verdade, o Index de 1551 refere já sete autos vicentinos que ou foram totalmente censurados ou autorizados depois de expurgados. Em 1561-1562, quando Luís Vicente edita as obras completas de seu pai, a censura do Tribunal do Santo Ofício parece ter sido um pouco mais branda e o Index de 1564 não refere nenhuma obra vicentina. Segundo Jacinto Prado Coelho, in obra citada, "é difícil não reconhecer a influência da Rainha D. Catarina, de quem Paula Vicente, filha do poeta, era 'moça de câmara'",considerando assim que aquela terá influenciado a alteração de critérios de censura subjacente à elaboração do Index de 1564.
Apesar da alegada influência real, esta compilação de 1561-1562 parece, contudo, dever muito à autenticidade, conforme podemos concluir pela comparação feita com a única folha volante do tempo de Gil Vicente, hoje conservada. Este estudo comparativo, infelizmente, permite aferir a mutilação da obra vicentina, pois o próprio filho do poeta parece ter confessado que se lhe arrogou a missão de "purar" os textos que recolhera, fazendo cedências imperdoáveis à censura. Aliás, esta benevolência inquisitorial foi "sol de pouca dura", como provam os graves atentados feitos à obra, no Index de 1581.
Considerado o "pai" do teatro português, Gil Vicente já tivera contacto, em Portugal, com representações litúrgicas, por altura do Natal e da Páscoa, e com algum repertório cómico de "feição improvisada e não literária", como os aristocráticos e cortesãos, considerados como as primeiras manifestações teatrais em Portugal.
Autor de uma obra variada, que ele próprio divide em comédias, farsas e moralidades, Gil Vicente não teve apenas preocupações de realização literária. De facto, e de acordo com J. P. Coelho, in História de Literatura, na sua obra "palpita de modo espantosamente vivo a sociedade portuguesa do primeiro terço do século XVI, com as suas classes, os seus vícios, os seus impulsos intelectuais e religiosos", a qual critica através da sátira, partindo da máxima latina ridendo castigat mores.
A sua crítica é profundamente mordaz, apresentando clérigos sem vocação, escudeiros parasitas e ociosos, fidalgos corruptos e vaidosos, profissões liberais que assentam na exploração das camadas populares, alcoviteiras que atuam sem escrúpulos para defenderem os seus interesses, e até o povo humilde que, passivamente, se deixa explorar pelos cobradores e frades. Não criando personagens que correspondam a indivíduos específicos, o teatro vicentino cria antes personagens que caracteriza como tipos sociais e "que funcionam apenas como símbolo de uma classe ou de um grupo social ou profissional". Na verdade, o que mais lhe interessa são os casos sociais que melhor lhe permitem fazer a sátira de costumes.

Gil Vicente. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-04-15].


Sir Lawrence Alma-Tadema
  Lawrence Alma-Tadema, Self-Portrait, 1896, Uffizi Gallery


Sir Lawrence Alma-Tadema, Silver Favourites, 1903


Sir Lawrence Alma-Tadema, Unconscious Rivals, 1893
 
 
Sir Lawrence Alma-Tadema, As rosas de Heliogábalo (The Roses of Heliogabalus),1888


As Rosas de Heliogábalo (The Roses of Heliogabalus) é uma pintura de Sir Lawrence Alma-Tadema (Dronrijp, 8 de janeiro de 1836 - Wiesbaden, 26 de junho de 1912), um artista holandês que viveu na Inglaterra e que foi um dos mais proeminentes pintores e desenhistas do neoclassicismo europeu
A obra foi baseada num episódio inventado retirado da Historia Augusta, onde o imperador romano Heliogábalo (204-222) é retratado assistindo a uma tentativa de sufocar seus convidados com uma enorme quantidade de pétalas de rosa que caíam de um teto falso durante um jantar. No primeiro plano da pintura, o destaque são os convidados reclinados, cobertos com pétalas. Ao fundo, Heliogábalo é visível com um manto e uma coroa de ouro, junto com sua mãe Julia Soemia. Atrás deles, há um tocador de flauta (tíbia) e uma estátua de Dionísio.
Em suas notas em Historia Augusta, Thayer diz que "Nero fez o mesmo (Suetônio, Nero, xxxi), e um teto falso similar é descrito na casa de Trimalchio no Satíricon, lx."
A tela mede 214 cm por 132 cm. (daqui)


terça-feira, 6 de agosto de 2013

"Tempo e Experiência" - Texto de Ana Hatherly


 
Marie-Denise Villers, detail of Young Woman Drawing, 1801, oil on canvas. 



Tempo e Experiência


"A noção de experiência é complexa. Todo o espaço é de vidro - um vidro que não parte por fora mas parte por dentro. Estamos sempre a esbarrar com invisíveis barreiras. O que ele revela não é precisamente o que queremos saber. E se tivermos os olhos abertos até ao fim: vemos o quê? Como o espaço, o tempo não revela nada de especial. Só percursos. Folhas de uma agenda descartável. A curva da vida de que fala Homero revela que a nossa existência é uma rápida passagem pelo mundo em efeito Doppler."

Ana Hatherly, in 'Tisanas'




"Se chamares experiências às tuas dificuldades e recordares que cada experiência te ajuda a amadurecer, vais crescer vigoroso e feliz, não importa quão adversas pareçam as circunstâncias."  
 
 
 

sábado, 18 de maio de 2013

"À espera do amado desconhecido" - Poema de Rabindranath Tagore


William Clarke Wontner (1857-1930), The Turquoise Necklace


À espera do amado desconhecido


Quem é esta mulher,
a sempre triste,
que vive no meu coração?
Quis conquistá-la mas não consegui.

Adornei-a com grinaldas
e cantei em seu louvor...
Por um momento
bailou o sorriso no seu rosto,
mas logo se desvaneceu.

E disse-me cheia de pena:
— A minha alegria não está em ti.

Comprei-lhe argolas preciosas,
abanei-a
com leques recamados de diamantes,
deitei-a em cama de oiro ...
Bateu as pálpebras
como um relâmpago de alegria
que logo se apagou.

E disse-me cheia de pena:
— Não está nessas coisas a minha alegria.

Sentei-a num carro de triunfo,
e passeei-a por toda a terra.
Milhares de corações conquistados
caíram humildes a seus pés,
e as aclamações reboaram pelo céu...
Durante um momento
brilhou o orgulho nos seus olhos,
mas logo se desfez em lágrimas.

E disse cheia de pena:
— Não está na vitória a minha alegria..

Perguntei-lhe:
— Que queres então?
Respondeu-me:
— Espero alguém
que não sei como se chama.
Depois calou-se.

E passa os dias a dizer cheia de pena:
— Quando virá o amado desconhecido?
Quando o conhecerei para sempre?


Rabindranath Tagore
in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões 
 
 
Safie, One of the Three Ladies of Bagdad, 1900, 
by William Clarke Wontner 
 

"Elege para teu amigo o homem mais virtuoso que conheces."

(Pitágoras)


A Classical Beauty, by William Clarke Wontner 


"Anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las."

(Pitágoras)



William Clarke Wontner, The Bracelet, 1914


"Não te gabes de ser adorado por uma mulher que se adora muito."

(Pitágoras)


William Clarke Wontner, Yasemeen from the Arabian Nights
 

"Não cometas nenhum ato vergonhoso nem na presença de outros nem em segredo. A tua primeira lei deve ser o respeito a ti mesmo."
 
(Pitágoras) 

domingo, 21 de abril de 2013

Neoclassicismo


Bertel Thorvaldsen - As três Graças ouvindo a canção de Cupido,
 uma obra exemplar da estética neoclássica


Neoclassicismo
(Arquitetura - Artes Plásticas e Decorativas - Literatura)


  • Introdução

O Neoclassicismo, também designado por estilo neoclássico, foi uma corrente artística desenvolvida desde o século XVIII até aos inícios do século XIX (aproximadamente entre 1755 a 1830, embora com algumas variações nos diferentes países), resultante da recuperação da gramática formal das artes da antiguidade clássica greco-romana, como a clareza, o equilíbrio e a ordem. Na segunda metade doséculo XVIII atingiu-se o esgotamento das possibilidades expressivas e formais dos estilos Barroco e Rococó, acompanhando a crise da própria ordem social que os sustentara. Tal como verificara noutros momentos de crise, o retorno às raízes artísticas da civilização ocidental, a antiguidade greco-romana, parece ser a solução para encontrar a estabilidade e as possibilidades de progresso. Este processo ideológico encontrou apoio no pensamento histórico ilustrado que, através da arqueologia (com as escavações de Herculano, de Pompeia e de Roma) e da história de arte (protagonizada pelo historiador alemão J. J. Winckelmann), permitira a redescoberta da antiguidade.



O Jefferson Memorial em Washington, DC, Estados Unidos, de declarados traços classicistas.


  • Arquitetura

A arquitetura neoclássica surgiu em Roma, em meados de setecentos, através da ação teórica e prática de Anton Rafael Mengs (1728-1779) e J. J. Winckelmann (1717-1768), tendo conhecido um significativo desenvolvimento nas cidades de Milão e de Turim, com a atividade de G. Piermarini.
 Em França, a construção do Panteão de Paris (também conhecido por Igreja de Sainte Geneviève), projetado por Jacques Germain Soufflot (1713-1780) para o rei Luís XV, representa o momento de imposição da estética racionalista clássica sobre o Barroco decadente. Soufflot desenvolveu outros trabalhos importantes como a coluna de Austerlitz, a Place Vendôme e o Arco do Carroussel, todos em Paris.
Outros arquitetos importantes neste período foram J. A. Gabriel (1698-1782) primeiro arquiteto real, autor da Praça da Concórdia (1757) e do Petit Trianon de Versalhes (1762); Charles Percier e Pierre François Fontaine, arquitetos de Napoleão e responsáveis pelo Arco do Triunfo da Étoile, em Paris (1806-1836) e Barthélemy Vignon (1806-42), famoso pelo projeto da Igreja da Madeleine de Paris, construída para comemorar as vitórias de Napoleão.
Étienne-Louis Boullée (1728-99) e Claude Nicholas Ledoux, os arquitetos mais ousados deste período, desenvolveram projetos utópicos e visionários de edifícios gigantescos constituídos por sólidos perfeitos e de grande pureza linguística. Embora pouco tenham construído, a sua influência teórica e pedagógica tornou-os precursores da arquitetura moderna.

Outro país europeu onde o Neoclassicismo teve um grande desenvolvimento foi a Alemanha. A sua gramática severa e simples, fortemente marcada pela arte grega, está bem representada nos trabalhosde Karl Friedrich Schinkel, de Langhans, autor da Porta de Brandeburgo em Berlim, (1788-1791) e de Leo von Klenze, responsável por inúmeros projetos, entre os quais, a Glipoteca, a Pinacoteca e os Propileus de Munique e o templo Walhalla (1830-1842), próximo de Ratisbona.

Em Inglaterra, destaca-se a obra do pioneiro Robert Adam (1728-1792), responsável por algumas importantes escavações arqueológicas em Itália, de W. Chambergs, ou de Sir John Soane (1753-1837), um dos mais originais artistas deste período, autor do Banco de Inglaterra (1796).

O Neoclassicismo em Espanha, desenvolvido desde o último quartel do século XVIII, teve como protagonistas os arquitetos F. Sabatini e J. de Villanueva, responsáveis pelo projeto do Museu do Prado.

Nos Estados Unidos, o Neoclassicismo, conhecido por Estilo Georgiano, inspira-se de forma direta no neo-palladianismo inglês. Dos exemplos mais interessantes desta tendência refiram-se a casa do arquiteto Thomas Jefferson (1743-1826) em Monticello e o Capitólio de Richmond, do mesmo projetista.

Em Portugal, a primeira obra construída dentro do novo estilo foi inteiramente importada de Itália. Trata-se da capela de S. João Batista na igreja de S. Roque de Lisboa, encomendada em 1742, pelo rei D. João V aos arquitetos Salvi e Luigi Vanvitelli. José Costa e Silva (1714-1819), formado em Bolonha, representaria o apogeu nacional deste estilo. Projetou, entre muitos outros edifícios, o Teatro Nacional de S. Carlos (1792) e o Palácio Nacional da Ajuda (este em conjunto com o italiano Fancisco Xavier Fabri), que não chegou a concluir-se.
Em Coimbra salientam-se alguns trabalhos do engenheiro militar Guilherme Elsden, como o edifício do Museu da Universidade, construído entre 1773 e 1774.
No Porto a introdução do estilo neoclássico deve-se à ação dos ingleses residentes nesta cidade, o que explica a enorme influência da tendência palladiana, presente nomedamente no Hospital de Santo António, projetado pelo inglês Jonh Carr (cerca de 1770), no edifício da Feitoria Inglesa ou no Palácio da Bolsa, de J. da Costa Lima. Um dos expoentes máximos do Neoclassicismo nortenho foi o engenheiro Carlos Amarante (1748-1815), autor de vários edifícios tardo-barrocos e neoclássicos, como a Igreja da Trindade no Porto.


O Juramento dos Horácios, por Jacques-Louis David, 1784, Museu do Louvre, Paris. Uma das obras mais conhecidas e influentes da escola neoclássica


  • Artes Plásticas e Decorativas

Roma constituiu o núcleo de formação e de divulgação da estética pictórica neoclássica. Alguns trabalhos pioneiros, influenciados pelos trabalhos históricos do alemão Johann Winckelmann, do estilo académico de Nicolas Poussin (1594-1665), da pintura renascentista de Rafael e da estatuária antiga, foram realizados por um conjunto de pintores de inúmeras nacionalidades, de entre os quais se destacaram o alemão Anton Raphael Mengs (1728-1779), o escocês Gavin Hamilton e o americano Benjamin West e o francês Joseph-Marie Vien. O francês Jacques-Louis David (1748-1825), discípulo de Vien e estudante em Roma entre 1755 e 1781, representou o ponto máximo da pintura neoclássica. O quadro "Julgamento dos Horácios", executado em 1784, revela alguns dos elementos fundamentais da sua gramática, como a frieza e rigidez das figuras, a clareza da solução compositiva ou a suavidade do cromatismo.

No contexto artístico francês, onde a pintura neoclássica conheceu um vasto desenvolvimento, muitos outros artistas alcançaram um alto nível de qualidade estética. Entre estes refiram-se Jean-Baptiste Greuze (1723-1805), Jean Gros (1771-1835), principal artista de Napoleão, e Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), discípulo de David e um dos precursores do gosto exótico romântico.

A pintura neoclássica espanhola revela uma dupla inspiração: a obra de Mengs, que marcou gande parte dos artista da escola madrilena de finais do século XVIII, e a de J. L. David, representada na pintura de José de Madrazo e José Aparicio.

Em Portugal, a pintura neoclássica teve como expoentes máximos dois artistas formados em Roma: Francisco Vieira Portuense (1765-1805), e Domingos António de Sequeira (1768-1837).

Tal como se verificou ao nível da pintura, o principal impulsionador do gosto neoclássico na escultura foi o historiador Winckelmann, durante a sua estada em Roma. A reputação do meio artístico romano atraía artistas oriundos de diversos países, como o sueco John Tobias Sergel e o inglês Thomas Banks, que assumiriam um papel fundamental na divulgação internacional da nova estética.

O italiano Antonio Canova (1757-1822) iniciou a sua produção artística em Roma, na década de quarenta do século XVIII. Desde os seus primeiros trabalhos, Canova denuncia o desejo de recuperação do carácter calmo e puro das formas clássicas, tornando-se quase de imediato no expoente máximo da escultura neoclássica.

Outros escultores importantes deste período foram o dinamarquês Bertel Thorvaldsen (1770-1844), o americano Horatio Greenough (1805-1852) e o francês Jean-Antoine Houdon (1741-1828).
Em Portugal, o escultor João José de Aguiar, discípulo de Canova em Roma, realizou importantes trabalhos como as estátuas do Palácio Real da Ajuda, em Lisboa.

Ao nível das artes menores (como o mobiliário, os objetos decorativos e a porcelana, a joalharia e a tapeçaria, entre outras áreas), o estilo neoclássico apresentou uma expressão significativa em França (com os estilos Luís XVI e Império) e em Inglaterra, com os trabalhos de Robert Adam.


Ingres: A banhista de Valpinçon, 1808


Jean-Auguste Dominique Ingres – (29 de Agosto de 1780, Montauban – 14 de Janeiro de 1867, Paris), mais conhecido simplesmente por Ingres, foi um célebre pintor e desenhista francês, atuando na passagem do Neoclassicismo para o Romantismo. Foi um discípulo de David e em sua carreira encontrou grandes sucessos e grandes fracassos, mas é considerado hoje um dos mais importantes nomes da pintura do século XIX.

  • Literatura

É um movimento literário que se propõe um regresso ao Classicismo de Quinhentos quanto aos géneros, quanto à forma, quando à linguagem. Duas serão as suas grandes vertentes: uma, a doutrinação estética, consequente do racionalismo presente no Verdadeiro Método de Estudar, que muito deve à Arte Poética de Francisco José Freire (o «Cândido Lusitano»); a outra, a criação literária. Estava, porém, reservada à Arcádia Lusitana, fundada em 1756, a magna tarefa de reação contra os exageros do barroquismo. À sua fundação presidiu o intento de reabilitar o gosto literário e restabelecer o equilíbrio na literatura. As ideias da Arcádia, mais especificadamente de Correia Garção, o grande teórico do Neoclassicismo quer em dissertações quer em textos poéticos documentais, são principalmente estas: segundo Boileau, «nada é belo senão a verdade», por isso, o Neoclassicismo realça a verdade da natureza e a verdade humana; o teatro deve moralizar; logo, também a poesia tem de ser útil; devem imitar-se os antigos, mas com originalidade; deve banir-se a rima e usar-se o verso branco; deve procurar-se o ajustamento do atual e do quotidiano, à sobriedade e pureza dos moldes antigos - e nisto falhou; preconiza o uso da mitologia; tenta renovar o teatro, a poesia (e nesta cultivam, além das espécies que o século XVI restaurara, essencialmente o ditirambo e as odes pindáricas e anacreônticas, o que era anacrónico). Os resultados não corresponderam inteiramente ao plano traçado, talvez pelo cansaço do que era clássico. Na Oração II, Garção põe o dedo na ferida, quando diz: «Aqueles pomposos desígnios de domar o génio da Nação, fazendo que a crítica fosse recebida como conselho não como ofensa, aquela magnífica ideia de banir da Poesia portuguesa o inútil adorno de palavras empoladas, conceitos estudados, frequentes antíteses, metáforas exorbitantes e hipérboles sem modo, introduzindo em nossos versos o delicioso e apetecido ar de nobre simplicidade, foram os dois polos que primeiro perdemos de vista». Insiste sempre no valor construtivo da crítica mas aponta, ainda, a necessidade de "ensinar o que se há de de fazer", o que obrigava a estudo e trabalho. Para ele, o mau gosto que invadira a literatura era a liberdade, a facilidade, o desprezo das regras de Aristóteles, Horácio, Cícero e Quintiliano, quanto à poética e à retórica, a falta de leitura dos clássicos, de pureza de dicção, de harmonia nos versos, de magnificência na fábula, de constância nos caracteres; enfim, a falta de ordem, de pureza e de simplicidade que o Gongorismo arrastara consigo. Era, pois, um movimento desajustado na época, pois caminhava-se cada vez mais para o individualismo na arte que vai caracterizar o Romantismo. Salvaguardem-se alguns toques do quotidiano e da natureza exótica em Garção, a forma como Cruz e Silva observa a riqueza vegetal do Brasil onde situa, entre outras, a metamorfose do Manacá e do Beija-flor, aproveitando a lição de Ovídio nas suas Metamorfoses (Orfeu e Eurídice). Refira-se ainda o poema herói-cómico, o Hissope, possivelmente inspirado por Le Lutrin de Boileau, onde se desvia das limitações que o Neoclassicismo quase impunha. O assunto do poema desenvolve-se num plano regular, com uma certa comicidade, que resulta da imponência com que o autor nos apresenta um assunto tão irrisório, numa linguagem saborosamente irónica e até grosseira - marmanjo, bestial patada - a contrastar com o estilo grandiloquente, próprio do género épico, onde a animização de entidades abstratas (a Lisonja, a Excelência,a Senhoria, a Discórdia...) está ao serviço da crítica e da sátira à futilidade e aos caprichos da moda, à vã filosofia escolástica, à loucura da poesia barroca, à mania filologante, aos lisonjeiros que, em vão, «compõem grandes Ilíadas e tecem / Aos vaidosos magnates, mil sonetos, mil pindáricas odes, epigramas... ». Bocage encostado ainda ao Neoclassicismo pela forma, pelos temas (a aurea mediocritas, o tema das mudanças...) e pela mitologia, afirma um notável avanço para a corrente literária que se anuncia, o Pré-Romantismo.

Neoclassicismo. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-04-20].


Antonio Canova (1757-1822) - Perseu com a cabeça da Medusa, c. 1800,
Museus Vaticanos, um dos maiores ícones do Neoclassicismo escultórico.


"Fanatismo" - Poema de Florbela Espanca



William Clarke Wontner
(English portrait painter, 1857–1930),
The jade necklace, 1908.
 

Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa… ”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim! … ”
 
 

William Clarke Wontner, Valeria, c. 1916. 
 
 
 William Clarke Wontner 

William Clarke Wontner (Stockwell, Surrey, Inglaterra, 17 de janeiro de 1857 – Worcester, Inglaterra, 23 de setembro de 1930) foi um pintor de retratos.
Wontner era filho do famoso arquiteto, William Hoff Wontner (1814-1881) e de Catherine Smith.
Sob a tutela de seu pai, Wontner trabalhou com John William Godward (1861-1922), um notável expoente  Pre-Raphaelite / Neo-Classicist que ficou conhecido pelo estilo greco-roman. Os dois  tornaram-se grandes amigos.
Wontner seguiu o movimento neoclássico na Inglaterra, do qual Alma-Tadema foi o principal expoente.  Pintou mulheres sedutoras, com fundos notadamente classicista. Teve seu trabalho exibido na  Royal Academy de 1879, na  Society of British Artists e no The Royal Institute of Painters in Water Colours.
Casou-se com Jessie Marguerite Keene (1872-1950), filha de Charles Joseph Keene, em 7 de junho de 1894. O casal não teve filhos. Wontner foi enterrado em 26 de setembro de 1930 em Ripple, Worcestershire.
 
 
William Clarke Wontner, An Elegant Beauty, 1920.


William Clarke Wontner, Leonora, 1917.


William Clarke Wontner, Emerald Eyed Beauty, 1916.


William Clarke Wontner, The Fair Persian, 1916.



[Frederic William Henry Myers (6 de fevereiro de 1843, em Keswick, Cumberland - 17 de janeiro de 1901, em Roma) foi um poeta, classicista, filólogo, e um dos fundadores da Sociedade de Pesquisas Psíquicas
Myers era o filho do Rev. Frederic Myers (1811-1851) e sua segunda esposa Susan Harriet Myers nee Marshall (1811-1896). Ele era um irmão do poeta Ernest Myers (1844-1921) e do Dr. Arthur Thomas Myers (1851-1894). Seu avô materno era o rico industrial John Marshall (1765-1845).]
 


William Clarke Wontner, The Dancing Girl, 1903.
 
 
"Eu gostaria de pintar a maneira como um pássaro canta."

(Claude Monet)


domingo, 24 de março de 2013

"Dois Meninos" - Poema de Francisco Bugalho


Ferdinand Georg Waldmüller, Depois da escola, 1841.



Dois Meninos


Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.

Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.

As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais...

Meu menino d'olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.

Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino...


Francisco Bugalho, 
in "Canções de Entre Céu e Terra"


 
Francisco José Lahmeyer Bugalho
 

Francisco Bugalho, poeta português, nascido a 26 de julho de 1905, no Porto, e falecido a 29 de janeiro de 1949, em Castelo de Vide, pai do poeta Cristóvão Pavia, estudou Direito em Coimbra, aí convivendo com o grupo de escritores presencistas. Fixou residência no Alentejo, como funcionário no registo predial de Castelo de Vide. Colaborou em publicações que marcaram a poesia dos anos 30 e 40, como Presença ou Cadernos de Poesia. Herdeiro de Pessoa ipse, pelo desdobramento do eu ("...os fados em mim mesmo depuseram / Razões de ser e de não ser, contrárias / Nas emoções que, dentro de mim, cresceram /Tumultuosas, carinhosas, várias") e pela filiação num lirismo tradicional; descendente de Cesário por uma visão que subjetivamente transfigura a paisagem concreta, a poesia de Francisco Bugalho, em comunhão íntima com a natureza, ora tira dessa ligação um efeito lustral sobre o eu que nela encontra a calma e a eternidade, intuindo o que nela existe de inefável e sobrenatural ou adquire pelo confronto com a paisagem a consciência do seu sofrimento dando voz à dor de pensar, à desistência e ao cansaço.

Francisco Bugalho. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-03-24].



 
 Ferdinand Georg Waldmüller
 
Ferdinand Georg Waldmüller, Autorretrato, 1828.
 

Ferdinand Georg Waldmüller (Viena, 15 de janeiro de 1793 - Hinterbrühl, 23 de agosto de 1865) foi um pintor e escritor austríaco, um dos artistas austríacos mais importantes na primeira metade do século XIX.
Estudou na Academia de Belas-Artes de Viena, e assegurou a sua subsistência financeira pintando retratos. Em 1811 obteve um posto de professor de artes plásticas junto da prole do conde Gyulay, na Croácia. Três anos depois, regressou a Viena e trabalhou o seu estilo copiando as obras dos grandes mestres.
Waldmüller interessou-se progressivamente pela natureza, e dedicou-se à pintura paisagista. Foi neste género que o seu estilo atingiu a maior originalidade: o seu sentido cromático e o seu bom conhecimento da natureza ajudaram-no a executar telas notáveis.
Waldmüller foi também professor na Academia de Belas-Artes de Viena, mas teve regularmente disputas com a elite vienense em virtude das suas críticas ao sistema da instituição, que queria concentrar no estudo da natureza, num estilo mais naturalista e realista, corrente que encontrava adeptos por toda a Europa. Forçadamente aposentado em 1857, por causa dessas divergências, foi reabilitado em 1863, quando finalmente perceberam que já não era mais possível privar aos alunos da escola, de tão notável ensino.
 

Ferdinand Georg Waldmueller, Autorretrato com lanterna, 1825.
 

Ferdinand Georg Waldmüller, O comerciante, 1824. (Neoclassicismo)



Ferdinand Georg Waldmüller, O operário com seu filho.
 
 
 
Ferdinand Georg Waldmüller, Família de mendigos viajantes é recompensada
 por camponeses em véspera de Natal, 1834.
 
 
Ferdinand Georg Waldmüller, Casamento Camponês, 1843.


Ferdinand Georg Waldmüller, O dia de Corpus Christi, 1857.
(É um exemplo de pinturas Biedermeier evocando crença de harmonia e tradição.)


Ferdinand Georg Waldmüller, Crianças, 1834.


Ferdinand Georg Waldmüller, A sopa claustro, 1858. (Romantismo)


Ferdinand Georg Waldmüller, Peregrinos a descansar, 1859.


Ferdinand Georg Waldmüller, Fim de tarde com rebanho de cabras, 1847.