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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Carta a um Adolescente" - Poema de Lindolf Bell

 

 
Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
Boy in a Red Waistcoat (The Boy in the Red Vest), 1888–1890,
National Gallery of Art, Washington D.C.


Carta a um Adolescente


Fizeste alusão ao trigo morto na tempestade,
ao teu pai,
ao teu irmão,
à rosa desfeita,
e consentiste tudo quando murmurei:
"a dor maior
é sermos isentos de querer.
Sem prefixos
seremos mais livres.
Deixa os deuses.
São ambíguos".

Oh! Grande metáfora,
morte de tão pesada duração
bruma,
esplêndida revolta
de teu coração sem volta,
amálgama amada,
emergência.

Lembro bem de teus olhos simples,
simples olhos fundos.
Das olheiras escuras
como limbo de peras.

Mas como explicar o ar de saque,
se em cada coração existe um dique
sempre prestes a transbordar,
se colhemos o doce crime um do outro?

Existência híbrida de infância e madurez!
Deslumbramentos, 
quanta avidez fibra por fibra
e que desvairada confluência. 


Lindolf Bell,
em "Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973".
São Paulo: Quíron, 1974. 
 

sexta-feira, 12 de julho de 2024

"O poema das crianças traídas" - Poema de Lindolf Bell


Ralph Hedley (British painter, woodcarver and illustrator, 1851–1913), The Tournament, 1898.
(It depicts poorer boys playing outdoors in a rural part of the Northeast of England.)



O poema das crianças traídas

I

Eu vim da geração das crianças traídas.
Eu vim de um montão de coisas destroçadas.
Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu.
Eu fui à tarefa num tempo de drama.
Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.

Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos.
Eu caminhei no caos com uma mensagem.
Eu fui lírico de granas presas à respiração.
Eu visualizei as perspetivas de cada catacumba.
Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores.
Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra.
Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções.
Eu amei uma menina virgem.

Eu arranquei das pocilgas um brado.
Eu amei os amigos de pés no chão.
Eu fui a criança sem ciranda.
Eu acreditei numa igualdade total.
Eu não fui canção, mas grito de dor.
Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas.
Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste.
Eu fui a metamorfose de Deus.

Eu vasculhei nos lixos para descobrir a pureza.
Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo.
Eu descobri que são incontáveis os grãos no fundo do mar,
mas são raros os que sabem o caminho da pérola.
Eu tentei persistir para além e aquém do ser humano, o que foi errado.

Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa
Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado.
Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão.
Eu deixei um balde no poço para salvar o resto do mundo.
Eu nasci conflito para ser amalgama.

II

Eu sou da geração das crianças traídas.
Eu tenho várias psicoses que não me invalidam.
Eu sou o automóvel a duzentos quilómetros por hora
com o vento a bater-me na cara
na disputa da última loucura que adoeceu.
Eu sou o anti-mundo na medida em que se procura o não existir.
Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não limitação.
Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende
mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me.

Meu coração é um prisma.
Eu sou o que constrói porque e mais difícil.
Eu sou o que não é contra, mas o que se impõe.
Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura.
E quando arranca, arranca até a raiz.
E põe a semente no lugar.

Eu sou o grande delta dos antros.
Os amigos mais atentos são as águas que me acorrem.

Eu sou o que está com você, solitário.
Quando evito a entrega, restrinjo-me.
Quando laboro a superfície é para exaurir-me.
Quando exploro o profundo é para encontrar-me.
Quando estribo os braços e pernas na praça sobre o não alterável
é para andar a galope sobre a não-liberdade.

III

Sem bandeiras que indiquem norte qualquer,
avanço das caliças.
Sem ponte fixo à espera, nem lar de maternas mãos
ou rua de reencontro.
Instalo os meus adeuses.
Sem credo a não ser a humanidade dos que nos amam e desamam,
anuncio a catarse numa sintaxe de construção.

Eu escreverei para um universo sem concessões.
Eu saberei que a morte não é esterco,
mas a infinita capacidade de colher no chão menos adubado,
que poderei sorvê-la como à laranja que esqueceu de madurar,
que serei alimento para o verme primeiro da madrugada,
que a vida é a face que se incorpora em forma de espasmo,
que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente…

Eu quero um plano de vida para conviver.
Eu ostentarei minha loucura erudita.
Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos.
Eu manterei meu ódio a toda a arrogante mediocridade dos covardes.
Eu manterei meu ódio à hecatombe do pseudo-amor entre os homens.
Eu manterei meu ódio aos fabricantes das neuroses de paz.
Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova.
Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência.

Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores.
Eu me abastardarei da espécie humana.
Eu farei exceções a todos aqueles que souberam amar.


Lindolf Bell, em "Os Ciclos",
São Paulo: Massao Ohno, 1964.
 

terça-feira, 11 de junho de 2024

"Carta a um amor" - Poema de Lindolf Bell



Thomas Eakins (American realist painter, photographer, sculptor, and fine arts educator,
1844–1916), "Portrait of Maud Cook", 1895, Yale University Art Gallery, New Haven.


Carta a um amor 

 
Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Responde-me: é preciso justificar.
Olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada.

Ah! O mistério, o mistério foi suficiente
para conter-nos.
Mas entre as múltiplas tendências
te escolhi
e te ampliei.

Um cavalo desenfreado correu-me
quando tuas mãos floriram sobre mim.
Tentei amar o irreversível
mas o que se descobre
ou cresce
ou se lega
ou perde equilíbrio e força.
Pelas bordas das coisas
se perdem os excessos
e meu coração foi tanto
quanto um coração pode ser.

Não. Não quero extravasar
de ti os outros,
mas quero ser o eleito.

Jamais nos é possível entrever,
porque o que há em nós
suspeita apenas,
e o que vem para nós
não nos pertence com facilidade.

Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Ainda que respondesses, sim,
não o poderia aceitar.
Olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada. 
 

Lindolf Bell, in "Convocação",
São Paulo: Brasil, 1965. 
 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

"Procuro a palavra palavra" - Poema de Lindolf Bell



Gregorio Prieto (Pintor español asociado a la generación del 27, 1897-1992), Equus, 1952.
 
 

Procuro a palavra palavra


Não é a palavra fácil
que procuro.
Nem a difícil sentença,
aquela da morte,
a da fértil e definitiva solitude.
A que antecede este caminho sempre de repente.
Onde me esgueiro, me soletro,
em fantasias de pássaro, homem, serpente.

Procuro a palavra fóssil.
A palavra antes da palavra.

Procuro a palavra palavra.
Esta que me antecede
e se antecede na aurora
e na origem do homem.

Procuro desenhos
dentro da palavra.
Sonoros desenhos, táteis,
cheiros, desencantos e sombras.
Esquecidos traços. Laços.
Escritos, encantos reescritos.
Na área dos atritos.

Dos detritos.
Em ritos ardidos da carne
e ritmos do verbo.
Em becos metafísicos sem saída.

Sinais, vendavais, silêncios.
Na palavra enigmam restos, rastos de animais,
minerais da insensatez.
Distância, circunstâncias, soluços,
desterro.

Palavras são seda, aço.
Cinza onde faço poemas, me refaço.

Uso raciocínio
Procuro na razão.
Mas que se revela arcaico, pungente,
eterno e para sempre vivo,
vem do buril do coração.


Lindolf Bell, in ‘Código das Águas’ 
1ª ed., São Paulo: Global editora, 1984.

sábado, 18 de maio de 2024

"A Palavra Destino " - Poema de Lindolf Bell


Albert Bierstadt (German-American painter, 1830–1902), 'Emigrants Crossing the Plains, 
or The Oregon Trail', 1869. [This painting was likely inspired by the 1863 expedition.]
 

A Palavra Destino


Deixai vir a mim
a palavra destino.

Manhã de surpresas, lascívia e gema.
Acasos felizes, deslizes.
Ovo dentro da ave dentro do ovo.
Palavra folha e flor.

Deixai vir a mim palavra
e seus versos, reversos:
metamorfose,
metaformosa.

Deixai vir a mim
a palavra pão-de-consolo.
Livre de ataduras, esparadrapos,
choques elétricos
e subtis guardanapos em seco engolidos socos.

Deixai vir a mim
a palavra intumescida pelo desejo
a palavra em alvoroço subtil, ardil
e ave na folhagem da memória.
A palavra estremecida entre a palavra.
A palavra entre o som
mas entre o silêncio do som.

Deixai vir a mim
a palavra entre homem e homem.
E a palavra entre o homem
e seu coração posto à prova
na liberdade da palavra coração.

Deixai vir a mim
a palavra destino.


Lindolf Bell, in "O Código das Águas”.
 1ª ed., São Paulo: Global editora, 1984.
 
 
Lindolf Bell (daqui)


Biografia do Poeta
 
Lindolf Bell, filho de Theodoro e Amália Bell, nasceu na cidade de Timbó, Santa Catarina, em 2 de novembro de 1938.
Foi de seus pais que herdou a clareza dos poemas, que mesmo produzidos na urbanidade, conservaram elementos da vida agrária. Os pais do poeta eram lavradores, porém, com um grande sentimento e conhecimento de mundo, o que definitivamente ficou enraizado em sua vida e suas obras.
Lindolf Bell foi reconhecido nacional e internacionalmente através da sua liderança no Movimento Catequese Poética, que levou acesso à poesia e à arte a milhares de pessoas. 
Era um homem que abrigava o mundo no coração, que amava os girassóis, que via tudo como missão, encarando a palavra como uma dádiva e fazendo dela um instrumento de comunhão e solidariedade. Lindolf Bell é o maior, o mais constante e importante nome da poesia catarinense.
Bell casou-se com a reconhecida artista plástica Elke Hering, com quem teve três filhos: Pedro, Rafaela e Eduardo Bell.
Após difundir seu movimento pelo Brasil e no exterior, Bell fixou moradia em Blumenau (SC). Na cidade, juntamente com a esposa Elke Hering e os amigos Péricles e Arminda Prade, criou a Galeria Açu-Açu, a primeira do Estado de Santa Catarina.
Bell também foi contador, professor, crítico de artes, conselheiro estadual da cultura do Estado de Santa Catarina e marchand (promotor de eventos relacionados à arte).
Foi um nome ligado à invenção lógica, à ousadia, à uma capacidade mágica. Seguindo seus impulsos, rompeu as amarras que prendiam a poesia, tornando e exigindo o contacto direto com o leitor. Bell também difundiu suas ideias através de painéis-poemas, corpoemas.
Se o ofício do poeta é redescobrir a palavra, como dizia o autor de As Vivências Elementares, nosso ofício é o de redescobrir o poeta, através de suas palavras, tais como aquelas presentes na Metafísica Cotidiana: “procuro a palavra-palavra a palavra fóssil, a palavra antes da palavra”.
Bell amava a terra e tudo o que dela vinha. Mergulhando no drama da humanidade, a sua poesia mantinha-se vibrante. Tratava sempre da vida, da terra, da infância, do destino, da solidão, do efémero, do transcendente, do sonho e da esperança. 
“Todas as coisas que me rodeiam são raízes. A jabuticabeira que deve ter quase cem anos, a caramboleira, os baús, os móveis e todos os objetos antigos não são uma forma triste de memória mas uma afirmação de que, num crescimento espiritual, num crescimento humano não podemos jogar nada pela janela ou no lixo. Não podemos jogar fora as raízes - elas nos preservam e elas se preservam connosco, na memória ou dentro da terra, seja onde for, mas elas também nos projetam porque, à medida que elas se preservam na terra, elas crescem e fazem a gente crescer, como uma árvore. O homem é uma árvore que abriga amores, lembranças, outros seres, uma árvore que dá sombra e luz, e é para isso que a gente nasceu, fundamentalmente. Isso eu aprendi, é claro convivendo com meus pais e também com os vizinhos, que tinham maneiras semelhantes de viver e conviver, maneiras simples mas definitivas”, disse Bell em uma entrevista à Fundação Cultural Catarinense (FCC). E é isso que se pretende preservar e que busca-se vislumbrar na Casa do Poeta Lindolf Bell. 
Bell veio a falecer em 10 de dezembro de 1998. Mas um poeta não morre; pois a vida dos poetas é eterna. Bell colocou um pouco de si em cada palavra que escreveu e, embora seu corpo tenha ido, sua vida continuará espalhada eternamente pelas páginas dos seus livros, na magia de suas palavras e pelo legado cultural que deixou. (daqui)
 

quinta-feira, 14 de julho de 2022

"Legado" - Poema de Lindolf Bell

 
Gregorio Prieto (1897-1992), Retrato de Juan Chabás (1900-1954), 1922-1924,  
84.5 x 84.6 cm. Óleo sobre lienzo. Museo Gregorio Prieto
 
 

Legado

 
Deixarei por herança
não o poema
mas o corpo do poema
aberto aos quatro ventos

Pois todo poema
é verde e maduro,
em areia movediça
de angústia, solidão
onde me debato
ainda que finja o contrário
em busca da verdade
e seu chão

Deixarei por herança
não o poema
mas o corpo repartido
na viagem inconclusa

Pois todo poema maduro
é um verde poema
e, mesmo acabado,
se estriba na inconclusão
claro, sem esquecer,
a estratagema da paixão.

 
em "As Vivências Elementares"
 São Paulo: Massao Ohno / Roswitha Kempf, 1980.
 
 
Retrato de Lindolf Bell aos 27 anos, em 1965 (Daqui)


"A poesia é o instrumento mais generoso para eliminar a solidão, a indiferença, o desencanto, o cinismo e a discriminação. A solidão vale como espaço para refletir em profundidade sobre nosso destino comum e a ausência de solidariedade que desequilibra o sistema social, acentua privilégios e exclusões. Se o poema, muitas vezes, amadurece sem terras, em solidão, sua existência (resistência) se justifica para lembrar que o ser humano mais uma vez não é ilha, mas partilha." - Lindolf Bell (Daqui)


Gregorio Prieto (1897-1992), Homenaje a Gómez de la Serna (1888​-1963)
 

Ramón Goméz de la Serna


Ramón Goméz de la Serna, ou simplesmente Ramón, como toda a Europa e América Latina artísticas o conheceram nos anos 20 ou 30, nasceu em Madrid em 1888. Aos vinte anos dirige uma revista literária ('Prometeo') que durou até 1912. Interessado por tudo o que é moderno, funda, em 1915, na Calle de Carretas, não muito longe da Puerta del Sol, a tertúlia do 'Café del Pombo' por onde irá passar toda a 'Intelligentsia' espanhola, e não só, atraída pela sua fama de grande mestre do humor e da vanguarda. Tentou criar em Madrid um ambiente cosmopolita e verdadeiramente moderno. 
Viajou muito - viveu em Paris, Nápoles, Genebra, construiu uma moradia no Estoril onde passou largas temporadas, mas é sobretudo Madrid que palpita na sua obra. Obra imensa - de todos os géneros que existiam e que não existiam: romances ('La Viuda Blanca y Negra', 'La Quinta de Palmyra', 'Seis Falsas Novelas', 'La Nardo', 'La Mujer de Ambar'), crónicas ('El Rastro', 'Toda la História de Puerta del Sol', 'La Proclama del Pombo'&), biografias ('Lope Viviente', 'Ramón del Valle Inclán', 'Goya', 'Oscar Wilde', 'Velasquez'&), ensaios ('El Circo', 'Senos'&), autobiografia ('El Libro Mudo', 'Secretos', 'Automoribundia'&) numa lista de duzentos títulos. 
Foi traduzido por toda a Europa. Com Chaplin e Pitigrilli, foi o único estrangeiro admitido na Academia de Humor Francesa. E Valéry Larbaud, que poucas vezes se enganou, dele disse 'Com Proust e Joyce é um dos maiores escritores do século XX'
Em 1936, com o deflagrar da Guerra Civil, parte para Buenos Aires onde conhecera Luisa Sofovitch que o acompanhou até à morte em 1963."

Jorge Silva Melo
(1948- 2022) no prefácio à obra "Greguerías" (Daqui) 
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

"As Profecias" - Poema de Lindolf Bell


John French Sloan, 1912, Sunday, Women Drying Their Hair, oil on canvas, 66 x 81.3 cm



As profecias


Depois de tudo
minha casa permanecerá nos fundos

Minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi lá que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi lá a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

Nem o leque
para afugentar a maturação
Nem a haste
para defender-me das feras
Nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

Minha casa permanecerá nos fundos
Foi lá que brinquei de longe
e me perdi de mim

II 

A flor abre-se em terra
para o forte a ser nosso

Perto estamos dos rios coagulados
de mel colhido aos tempos
e da noturna fé de ser impuro
benvinda das lonjuras

Perto estamos dos infantes campos
junto ao longe tranquilo de viver
Ouvi, solitários meninos, solitários meninos:
o vento chão que varre os prados
onde somos horizontes, afinal.

III 

Trago a palma nas mãos, aqui estou
ante o espaço maduro de não ser

Passam os caminhos, lúcidos tão lúcidos
que nem pressentirão o doído curso de ser nunca
no fluxo fértil
a gerar e gerar
a vindoura raça em solidão

Imóvel sobre o tronco
o vento pesa-nos desde ontem
entre a colheita e o presságio,
o rio, o silêncio,
a geração comigo finda
e a esta cidade que ninguém povoou
como o puro rebanho à espera de abdicar

IV

Serei o triste pássaro cruzando fronteiras
Este que atravessou a memória
e construiu um ninho de pedra
e madurou a casca do tempo
Quantos voos dentro do rio
de intemporais infâncias
e que esponsais com a vida,
uma margem uma árvore, a solução,
em solidão

Em todas as superfícies limarei a eternidade
Nestas carroças de tábuas temporais
correrei as esperas
Sobre todos os telhados,
infinitos quebrados,
e através
tudo mora através,
rosais anoitecendo
outras idades,
a noite em limo
quase maturação,
e meu bico contra as auroras
a descobrir um povoado de amigos


Basta, pai, feixe de raiz,
em mim a noite serenou

Há olheiras nos anjos e nos homens
e distâncias incontidas nos corações

Virão os primeiros caminhos
a lápis negros trançados
e as incriadas metamorfoses
do verbo e do sopro na inconclusão
Mas no merídio da pureza morta
ouviremos ressurgir
a solidão em outra solidão

VI 

Buscamos algo profundo nesta superfície plana
onde ninguém se atinge neste tempo de correr
e neste flanar de tempo entre dedos
voltaremos a crescer e decrescer

Atrás da janela escondem-se os planos
que nos fazem pensar e nos fazem crer
e do joio entre os grãos e do trigo entre os anos
o vício inculto de ter vida e não ser

Ah. Isto tudo lançaremos pelas comportas
Este chão de ser triste, esta vida,
este pecado solitário de chorar
E destino, vontade de morrer, sorrir,
ante a nostalgia de sermos assim,
assim seremos irmãos, os loucos, as loucas, enfim

VII 

Nossos corpos serão corpos na esteira
e nossos frutos os da noite e do dia
Por isso me existe este grito, para além, para além,
e entre as naus a partir ainda tenho-me total

Depois, depois será depois,
o tempo a germinar e cair,
E depois, ainda será depois,
já com outro tempo e outro cair,

VIII

Finitos deuses legaram-me certezas,
e o sal e o corpo e o pranto e a solidão

Por isso digo loucuras, mentiras e verdades
Por isso sou profeta da torre do sempre e do nunca
Por isso conheço os caminhos e adivinho os corações
Por isso falo ao espinho e à flor
e vejo através dos desertos,
os mares e os castelos de meu pai
e vejo, por entre os céus, o ventre de minha mãe

Assim amanhecerei em distância
Porque ser distante é ter herdado
e desconhecer, ou tentar desconhecer,
ou ainda desconhecendo, pressentir,
todo este pranto legado, o sal, o corpo, e a solidão
— brusco eclodir da próxima dimensão

IX 

Deus, inculto irmão, até quando me trairás
com esta força de fazer-te longe?

Chamam-te asa, infinito, argamassa, argonauta
Mas quem de nós perdeu-se antes
ou depois,
que ninguém percebe o sangue igual
em nossa forma ancestral?

Sagarços e sagarços já me sufocam as mãos
e Tu, força grande de ser fraco
tens do espaço a ausência
e sabes apenas das árvores em solidão


Os inimigos brincam sobre o muro agora
e nos refúgios de antes, unem os corpos de amor
Eram beiras e trincheiras
os rios de fome fluindo ao mar
e andastes e veloces as moradas
e o viver e o morrer, o plantar e desplantar

Os inimigos plantam bosques agora
nos campos onde perderam os olhos e as almas
pois no escuro e no dia pairam outros espaços,
não rangem mais aços,
e terra e lama e rio e jardim
com ventres e húmus e cosmos e tudo
para as coisas fluírem de ontem e de hoje

Os inimigos reconstroem a arca de agora
com madeiras do mundo e madeiras do mundo
Baixam as águas para lavar os rostos dos que dormem
e as árvores crescem para dar sombra aos que vivem
Só antes o tempo era tempo
e antes do tempo despetalar
foi preciso construir e destruir
Os inimigos retesam arcos e disparam grãos agora
para o alvo a ser nosso na última solidão.

XI 

Ergam a mortalha, o morto dorme
Deixem apenas as ervas
e o grande limo sobre o rosto tranquilo
Nada mudou
O mortal e o imortal
trançando o labirinto
Em todas as veias o ciclo certo
e as âncoras do mar mais alto
ilhando-nos da casta infantil
Somente as andorinhas tardam
E as viagens ferem os tempos
e de corpos, cascos, velas,
constroem cidadelas,
enquanto sigo — vigia eleito —
dentro do que é sólido e sempre
no arquipélago da solidão

XII 

Esta cidade que dorme em meus braços
quando amanheço
fecundarei de noites
em seus altos corpos de cal

Na ampla visão de suas pequenas coisas
nascerão meus poemas
Nada de florestas, apenas arbustos no plano
Nada de anos a pesarem sobre nós
apenas a hora de nos encontrar

Já vêm grimpar-nos os loucos
com noites ainda noites
mas seus porões de cera derreteram ao sol

O bulbo de outono nas ancas
E o florescer de calêndulas que nunca virão
a Cidade, pressinto um girassol na solidão
e um espelho na ventura —
— criança a construir
junto aos muros caiados de velhice

XIII 

Que tribo errante somos dentro da noite
no colher de limo nas franjas da rua
Não há quem nos pergunte caminhos
porque desconhecemos
Não há quem nos abra as portas —
crianças traídas, crescemos sem fé

Temos nos corações a passagem antecipada
e sem nome e sem destino embarcaremos no próximo porvir
Que liturgia sem teto riscou nossa infância
Que trauma horrível crivou-nos de apreensão
pois somos como os pomos
longe de nós e dos outros no alto do pomar

As palmas jazem agora
No rosto do anjo o rumor da asa
E na balsa frágil a levar-nos
de um a outro lado da vida
precedemos a solidão

XIV

Até lá
se apagarão os reflexos nos vidros
e o sol diluído em chama clara
rolará no silêncio febril
Que rosas estão nas urnas
Que lágrimas de chumbo então nas hastes
E os ecos a bisarem os ecos
como pedras na vidraça
filtrarão a vida em solidão

Será então a noite maior
a não vir mais dentro de si
e seu molde infinito a perambular
correrá um riacho escuro em nossas mãos

Rascunharemos as vanguardas e os vindouros
E avançaremos as tarefas como homens maduros
Com o plano adulto de catar o inútil
Teremos a velar-nos realmente
o que chamaram de início e fim

XV

Sei na noite um moinho de vento
e um vento sul nos séculos todos
Noites e noites a noite gasta-se terrivelmente
como negra roda no retorno do tempo
e no retorno do tempo a espera do tempo
e a catástrofe na lâmina da solidão

Ouço tambores no moinho,
asas abrindo-se
mil portas abrindo papoulas
Ah. Papoulas,
sobre o muro que dá para fora do tempo
Continua o moinho a girar no capim
as sombras de ontem
e a correr riachos em volta dos estames
em memória da saudade
ainda momento a ressurgir

Ah. Que sensação de estar pregado no moinho
com cardos de todas as nações
contra todas as noites empalhadas
contra os ventos a ventar-me de ilha em ilha
Eis a esponja no escuro vinagre
e a terra abrindo-se do abismo
Sou o Cristo de Vento
a girar sobre a solidão
in “Os Póstumos e as Profecias”.
.

John French SloanA Woman's Work, 1912, oil on canvas 80.3 x 65.4 cm


"Só quem sofre sonha. Só quem sonha vive. Só quem vive sofre. Assim são aqueles que sabem fazer as nuvens que derrubam montanhas."

  
José Luís Nunes Martins,
in Filosofias, 79 Reflexões