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domingo, 20 de outubro de 2024

"Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo" - Poema de Fernando Pessoa

 

William Anderson Coffin (American painter and art critic, 1855–1925),
Pink sky over the haystacks.


Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo


Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver? 

1-8-1931 

Fernando Pessoa
, Poesias.
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 136.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

"As aves migram em setembro" - Poema de Vasco Graça Moura

 

William Anderson Coffin (American painter and art critic, 1855–1925),
 September, c. 1907, Smithsonian American Art Museum.
 


As aves migram em setembro

 
as aves migram em setembro.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.

escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola

até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui

de guarda à água lisa
 que viu passar seus bandos
e em que hás de
 debruçar-te. 


Vasco Graça Moura
 

William Anderson Coffin, Summer, c. 1890.
 


Recomendação


Neste botânico setembro,
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.


Carlos Drummond de Andrade
,
in Discurso de Primavera e Algumas Sombras, 1977

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"Da Solidão" - Poema de Cecília Meireles


William Anderson Coffin (1855–1925), Central Park and the Plaza, c. 1917-1918, oil on canvas, 
Smithsonian American Art Museum
 


Da Solidão


Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só.

No entanto, a multidão tem sua música,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!

Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua música,
seu ritmo, seu calor.

Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silêncio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as árvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar, 
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.

E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...

Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.

Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.

Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.


in Poesia Completa


Elvis Presley - Are You Lonesome Tonight


"O amor é um modo de viver e de sentir. É um ponto de vista um pouco mais elevado, um pouco mais largo; nele descobrimos o infinito e horizontes sem limites." 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

"A Encomenda do Silêncio" - Poema de Alberto Pimenta


William Anderson Coffin (1855-1925), Après Le Petit Déjeuner


A Encomenda do Silêncio


Já reparaste que tens o mundo inteiro 
dentro da tua cabeça 
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça 
é o teu mundo 
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro 
dentro da minha cabeça 
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça 
é o meu mundo 
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos 
mas através dos nomes 
pois o que tu tens dentro da tua cabeça 
e o que eu tenho dentro da minha cabeça 
são os nomes do mundo em brutal compressão 
como um filtro ou coador 
de forma que nem és tu que conheces o mundo 
nem sou eu que conheço o mundo 
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo 
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo 
o qual entra em ti e o qual entra em mim 
através dos nomes que já tem 
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode 
entrar pelos teus olhos 
mas só pela tua cabeça através 
dos nomes dados pela minha cabeça 
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes 
e do mesmo modo 
o que entra pelos teus olhos não pode 
entrar pelos meus olhos 
mas só pela minha cabeça através 
dos nomes dados pela tua cabeça 
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes 
e assim o que tu vês 
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres 
e assim o que eu vejo 
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver 
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes 
é indizível e fica dentro de ti 
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes 
é indizível e fica dentro de mim 
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez 
tu a ti e eu a mim... 
construindo urna consciência irrepetível e intransmissível 
cada vez mais intensa e em si 
tu em ti eu em mim 
no entanto continuando a falar um com o outro 
tu comigo e eu contigo 
cada um 
tentando dizer ao outro 
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça 
e porque é e para que é 
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça 
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça 
até que morra um de nós 
e depois o outro... 


 in 'As Moscas de Pégaso'

domingo, 13 de novembro de 2011

"Hino à Razão" - Poema de Antero de Quental


William Anderson Coffin (American painter and art critic, 1855–1925), Reflections.



Hino à Razão


Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre os clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!


Antero de Quental
, in "Sonetos"


Joshua Bell - Bruch / Concerto para Violino



"A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar. " - Fernando Pessoa