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quinta-feira, 16 de abril de 2026

"Primavera" - Poema de Armindo Trevisan



Edgar Maxence
(French Symbolist painter, 1871-1954),
"Vers l'Idéal" (Towards the Ideal), 1904.
 

Primavera


Por que será que penso nos teus lábios
quando avisto, em quintais, limões maduros?

Serão eles, dobrados sobre os muros,
Livreiros que esquadrinham alfarrábios?

Ou hão de perecer polidos cabos
Rumorejando sobre os ares puros?

Eu sempre penso nos limões: dourados,
Guardam-se incorruptíveis, e fechados. 


Armindo Trevisan, in 'A Dança do Fogo'.
Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2001.



segunda-feira, 30 de março de 2026

"Interiorano" - Poema de Armindo Trevisan



Lars Lerin (Swedish artist, author, painter, television personality
and presenter, b. 1954), "At Home", 2011. Watercolor on Paper,
Private Collection.



Interiorano


Chorei a primeira vez
quando meu gato morreu
atropelado na rua fronteira
à minha casa.

Foi a primeira vez que chorei
com liberdade – não
infringindo hábitos
sociais.

Chorei porque meu gato
morreu e compreendi,
naquele instante sem futuro,
que qualquer ser vivo valia
mais do que a sabedoria
dos homens que legislam
sobre a vida.

Hoje, sinto-me solitário
na vastidão do planeta!

Parece-me que os gatos
desapareceram, ou foram adotados
por homens, que se converteram
em seus algozes
e, mais frequentemente,
em nossos algozes. 


Armindo Trevisan
,
in "O Relincho do Cavalo Adormecido"
L&PM Editores. Porto Alegre, 2013.
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

"O Mundo, o Demónio e a Carne" - Poema de Armindo Trevisan


Fernando Botero, Picnic, 1989, Private collection



O Mundo, o Demónio e a Carne


Relâmpago adormecido
entre a malva e o estalo
tua penúria, ó Mundo
é a minha penúria.
Somos a mesma falta
de olhos a perseguir
a visão que negou
o barro de meu rosto.

Demónio entre o retinir
das esporas e o redondo
dia,
que fizeste da luz
a arder em minha alma?
Sou teu cúmplice na mão
que apertou o pensamento
em sua nudez.

Carne de minha carne
entre uma pedra e outra
abre-se o trigo
da maldição.
Nossos corpos são nossos
mas o abraço rói
o hálito que foi um
antes de existirmos.


Armindo Trevisan,
in 'O abajur de Píndaro / A fabricação do real ', 1975.