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quinta-feira, 11 de junho de 2026

"John Brown's Body" - Poema de Stephen Vincent Benét



Horace Pippin (American painter, 1888–1946), 'John Brown going to his hanging', 1942,

[John Brown (Torrington, 9 de maio de 1800 – Charles Town, 2 de dezembro de 1859) foi um líder proeminente no movimento abolicionista dos Estados Unidos nas décadas anteriores à Guerra Civil. Ele ganhou proeminência nacional na década de 1850 por seu abolicionismo radical e sua participação no Bleeding Kansas. Em 1859, Brown foi capturado, julgado e executado pelo governo da Commonwealth da Virgínia por ter liderado e tentado incitar uma rebelião de escravos em Harpers Ferry.] (daqui)

***

John Brown's Body


John Brown's body lies a-mouldering in the grave.
Spread over it the bloodstained flag of his song,
For the sun to bleach, the wind and the birds to tear,
The snow to cover over with a pure fleece
And the New England cloud to work upon
With the grey absolution of its slow, most lilac-smelling rain,
Until there is nothing there
That ever knew a master or a slave
Or, brooding on the symbol of a wrong,
Threw down the irons in the field of peace.
John Brown is dead, he will not come again,
A stray ghost-walker with a ghostly gun.


Stephen Vincent Benét,
in "John Brown's Body", 1928



The first edition cover "John Brown's Body",
by Stephen Vincent Benét, 1928,
 published by Doubleday, Doran.
 
[John Brown's Body (1928) is an American epic poem written by Stephen Vincent Benét. The poem's title references the radical abolitionist John Brown, who raided the federal armory at Harpers Ferry, Virginia in October 1859. He was captured and hanged later that year. Benét's poem covers the history of the American Civil War. It won the Pulitzer Prize for Poetry in 1929. It was written while Benét was living in Paris after receiving a Guggenheim Fellowship in 1926.] (daqui)
 

 
Stephen Vincent Benét at Yale College in 1919

Stephen Vincent Benét, escritor norte-americano nasceu em 1898, em Bethlehem, Pensilvânia, e morreu a 13 de março de 1943, na cidade de Nova Iorque. 
Oriundo de uma família de militares e de escritoras, Benét terá tido acesso, desde muito cedo, à biblioteca do seu pai. Os tratados marciais tê-lo-iam inflamado de patriotismo e, seguindo a tradição familiar, terá sido enviado, com dez anos apenas, para a Academia Militar de Hitchcock. Desgostado da brutalidade da escola, lia a poesia que Shelley compusera nos recreios de Eton, e nela se inspirava. Publicou a sua primeira coletânea de poemas aos dezassete anos de idade, Five Men And Pompey (1915). 
Declarado inapto para a recruta, por motivo de deficiência de visão, foi, no entanto, aceite pelos serviços criptográficos militares, em Washington.
Para a sua licenciatura em Yale, em 1919, ao invés de apresentar uma tese, submeteu o seu terceiro volume de poemas à apreciação dos seus mestres. 
O primeiro romance de Benét, The Beginning Of Wisdom, de cariz autobiográfico, foi publicado em 1921. Continuou os seus estudos na Sorbonne, em Paris, onde conheceu a mulher que viria a ser a sua esposa, a escritora Rosemary Carr. Regressou aos Estados Unidos em 1923. 
Durante a década de 20, publicou três outros romances, Young People's Pride (1922), Jean Huguenot (1923) e Spanish Bayonet (1926), romance histórico sobre a Florida do século XVIII com particular destaque para os antepassados do próprio autor. 
Em 1926, Benét voltou a França, onde viveu durante quatro anos, trabalhando no seu poema sobre a Guerra da Secessão, John Brown's Body, que viria a ser recompensado com o Pulitzer Prize, em 1929. 
Na década de 30, Benét publicou, entre outras obras, A Book of Americans (1933), de coautoria com a sua esposa, The Burning City (1936), que incluía o poema "Litany for Dictatorships", The Headless Horseman (1937) e Thirteen O'Clock (1937), de que fazia parte o famoso conto "The Devil and Daniel Webster", que seria posteriormente convertido em peça de teatro, ópera, e mesmo um filme que viria a ser intitulado All That Money Can Buy. Durante esta época, Benét, pressionado por razões financeiras, escreveria também argumentos para a indústria de Hollywood e uma grande variedade de contos. 
No início dos anos 40, Benét foi um ferranho defensor da entrada dos Estados Unidos da América na Segunda Guerra Mundial. O presidente Roosevelt teria lido, na sede das Nações Unidas, uma oração especialmente composta por Benét para a ocasião. 
Foi galardoado postumamente com o prémio Pulitzer, pelo seu volume de poesia inacabado Western Star, publicado pouco após a morte do autor
. (daqui)
 


Horace Pippin, 'School Studies', 1944. National Gallery of Art, Washington.



"Coragem... pequeno soldado do imenso exército. Os teus livros são as tuas armas, a tua classe é a tua esquadra, o campo de batalha é a terra inteira, e a vitória é a civilização humana."

Edmondo De Amicis, em "Cuore" ("Coração"), 1886. 

[Edmundo De Amicis (1846–1908) foi um escritor e militar italiano. Sua obra de maior destaque é "Coração" (em italiano "Cuore"). Este livro tinha o objetivo de criar uma identidade nacional e cultural para a Itália recém-unificada. A história narra a vida de uma turma de alunos na escola pública e o professor conta um conto por mês, exaltando em cada conto atos de heroísmo de um menino de cada uma das províncias italianas. Foi adotado como livro de leitura em quase todas as escolas da Itália durante muitos anos.]
 


Horace Pippin, 'Domino Players', 1943, The Phillips Collection.


"O analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender."


Alvin Toffler
 
 
[Alvin Toffler (1928–2016) foi um escritor e futurista norte-americano, conhecido pelos seus escritos sobre a revolução digital, a revolução das comunicações e a singularidade tecnológica.]
 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Uma tarde que cai" - Poema Luci Collin



Horace Pippin (American painter, 1888–1946), The Park Bench
(Man on a bench)
, 1946.


Uma tarde que cai 


Quando o vemos está sentado no banco da praça
Ela está em casa presa à trama silenciosa

Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos

Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga

Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos

Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta

Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água

São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos

Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco

Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia

Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima

Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples

A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima

Ele se ofende
Ela se ofélia


Luci Collin (n. 1964), in "Querer falar",
7 Letras, 2014.
 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

"Quando os meus irmãos voltarem " - Poema de Aires de Almeida Santos


Horace Pippin (American painter, 1888–1946), Sunday Morning Breakfast, 1943.
 
 
 
 Quando os meus irmãos voltarem


Quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de Catete.

Havemos de construir com as nossas mãos
uma casita de adobe
bonita,
onde caberemos todos.
será vermelha,
toda coberta de capim.

Vai ser fácil amassar
porque o barro já está tinto
de tanto, de tanto sangue
há tanto tempo a correr.

Terá também um jardim
com rosas e buganvílias.

Vai ser fácil
pois mesmo que a chuva tarde
serão regadas
com lágrimas caídas
dos olhos de todos nós.

Quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de Catete.

E jantaremos mufete...
e beberemos quissângua
que vos virá do Bié.

E dormiremos na esteira
embalados pela brisa
que soprará no Musseque. 

Descansaremos
do longo caminho andado.
Descansaremos
pra mais longa caminhada...

Ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos
será pequena a nossa casa bonita
(que eu tenho milhões de irmãos!)

Quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos,
iremos varrer
as cinzas dos que partiram à frente,
e cantar,
espalhar
a nossa alegria
pelas vertentes das serras,
pelas areias das dambas,
pelos vales,
pelos montes,
pela beirinha dos rios
junto às fontes.

Havemos de cantar!...

Ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos,
arderá uma fogueira
à beira
de cada trilho
e o brilho
de cada estrela
será maior...

Mãezinha, ouve o teu filho.

Não tardes, mãe,
vem depressa... 


Aires de Almeida Santos
 

Aires de Almeida Santos

Poeta e jornalista angolano, Aires de Almeida Santos, nascido em 1922, no Planalto Central, no Chinguar, Bié (Angola), viveu, contudo, a sua infância junto do mar, na cidade de Benguela, entre o Bairro do Benfica e a Escola da Liga, onde fez a escola primária, e a adolescência na cidade do Huambo.
Concluído o ensino liceal, Aires de Almeida Santos possuía já o gosto pela escrita literária, sendo desta época alguns dos primeiros textos que foram, posteriormente, compilados no livro Meu Amor da Rua Onze.
Ideologicamente empenhado e comprometido com os valores da liberdade e da independência, o autor foi "deportado" para Luanda, nos anos 50, pela polícia colonial, onde mais tarde acabou por ser preso até finais da década de 60.
Quando saiu da prisão, a sua obra era já objeto de consagração e de análise.
Dedicando-se ao jornalismo, colaborou em vários jornais, nomeadamente Jornal de Benguela, Jornal de Angola e A Província de Angola.
Poeta da "geração da Cultura", retomou a vertente temática da anterior "geração da mensagem", cuja revista fora proibida e extinta pelas autoridades repressivas coloniais. Assim, a sua poesia centrou-se em preocupações profundamente nacionalistas e, na procura de elementos do passado remoto, encontrou formas que permitiam fazer, simultaneamente, a catarse da escravidão e a denúncia da miséria do tempo presente.
Recorrendo a uma linguagem eufemística, os textos de Aires de Almeida Santos remetem o leitor para momentos conotativos de denúncia da exploração e da repressão, associados a espaços de esperança que decorrem da implementação e projeção dos movimentos independentistas, enquanto plataformas revolucionárias e geradoras de PAZ.
Tendo vivido grande parte da sua vida em Benguela, única cidade, para além de Luanda, com alguma atividade cultural, a sua obra poética reflete uma profunda ligação a esta cidade que ele tão bem conhece física e afetivamente e que foi alicerce arquitetónico do seu imaginário infantil e "naif": "Tenho saudades do tempo/Em que corria descalço/Pelas areias do rio;/Comigo, os meus companheiros/Também descalços, correndo,/A correr ao desafio. (...)"
De cariz profundamente descritivo, a poesia de Almeida Santos permite um olhar quase fotográfico que regista, com clareza e precisão, os espaços físicos, psicológicos e sociais de uma cidade que o poeta elegeu incondicionalmente como "a sua": " (...) O Macuto da Ximinha/Que cantava todo o dia/Já não canta./O Zé Camilo, coitado,/Passa o dia deitado/A pensar em muitas coisas.(...)".
Através de uma escrita cheia de subtilezas formais, o autor entabula um colorido diálogo com a natureza, enformando temáticas que vão permitir engrossar as correntes da esperança da libertação nacional.
Aos 53 anos de idade, a exercer a profissão de jornalismo e a de guarda-livros, pôde viver o tão esperado momento da declaração da independência.
É então que toda a sua poesia, espalhada por um sem número de "mochilas clandestinas do exílio", é recolhida com o apoio do poeta David Mestre.
A sua obra poética, escassa mas de qualidade, está reunida no livro a que simbolicamente chamou Meu Amor da Rua Onze.
Morreu em Benguela em 1991. (daqui)