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sexta-feira, 17 de julho de 2026

"Diálogos do jardim" - Poema de Cecília Meireles



Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935), 'Her New Friend', n.d.



Diálogos do jardim


Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.

O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"

Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.

"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"

Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.

"Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"


Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...

E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"

E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.

"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"

E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce, a minha perpétua solidão.

E perguntei ao pássaro: "Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"


E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto." 
 

Cecília Meireles
(1901–1964)
in  'Dispersos'


quarta-feira, 8 de julho de 2026

"O Menino Azul" - Poema de Cecília Meireles



Herbert William Weekes (British painter, 1841–1914), 'Fowl Talk', n.d.


O Menino Azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles
,
 em 'Ou Isto ou Aquilo', 1964.

♥♥♥ 

Obras de Herbert William Weekes
 
Herbert William Weekes,'The Odd One Out', n.d.
 
 
 
Herbert William Weekes, 'The congregation', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Old Friends', n.d.
 

 
Herbert William Weekes, 'The Unlikely Connoisseurs', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Meadow Matters', n.d.


Burro

O burro é um mamífero da família dos Equídeos. Os burros selvagens vivem em algumas das regiões mais desertas da terra e resistem bastante bem à escassez de água e de alimentos.
O burro selvagem (Eques africanus) vive no nordeste da África distinguindo-se duas subespécies, uma na 
Somália e outra no deserto da Núbia. Semelhantes no aspeto, ainda que um pouco maiores que o burro doméstico, estão em vias de extinção. Alimentam-se de ervas e bebem água salobra, tolerando bem quer as altas quer as baixas temperaturas. O burro selvagem da Núbia distingue-se do da Somália pelas riscas pretas que mostra nas patas. (daqui)

sábado, 20 de junho de 2026

"Encomenda" - Poema de Cecília Meireles

 
 
Albert Lynch (French painter of German and Peruvian ancestry, 1860–1950),
'A Portrait of a Lady in Blue', n.d., Pencil and pastel on paper.
 
 
Encomenda


Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles, in "Vaga música", 1942.
 

domingo, 31 de maio de 2026

"Os Gatos da Tinturaria" - Poema de Cecília Meireles


 

Arthur Heyer (German-Hungarian painter, 1872–1931),
'Cats Playing', c. 1931, Private collection.


Os Gatos da Tinturaria


Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria,
xadrez sem fim, por onde os ruídos
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos
bocejos, na dispersão vazia
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia
da renúncia, e, tranquilos vencidos,
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos,
mas baixam a pálpebra fria.


Cecília Meireles
 (1901–1964), 'Melhores Poemas',
S.Paulo, Brasil; Global Editora, 1984.



Arthur Heyer, 'Conversation amongst Cats', c. 1931, Private collection.


Por que gostam os escritores de gatos? 

 
Creio que os escritores tendem a gostar dos gatos pela sua independência observadora e pela imprevisível meiguice. Pessoalmente, prefiro estas mesmas qualidades nas pessoas. Não gosto da ideia de animais domésticos. 
Ou por que gostam os gatos dos escritores? 
Os gatos gostam dos escritores porque não os incomodam: deixam-nos viver.


Inês Pedrosa (Escritora e tradutora portuguesa, n. 1962) (daqui) 
 

sábado, 9 de maio de 2026

“Vigília das Mães” - Poema de Cecília Meireles



Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
'Mrs Weguelin and her son', 1889.


Vigília das Mães


Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

1960

Cecília Meireles
, 
in 'Antologia Poética', 1963

domingo, 19 de abril de 2026

"Amor Perfeito" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Frieda Blell (German landscape painter, 1874–1951), 
"Stillleben mit Stiefmütterchen", c. 1913. 
Gouache auf Papier 


Amor Perfeito

 
Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.
 
 
 
Viola tricolor
(amor-perfeito) 


Viola tricolor, popularmente conhecida como amor-perfeito e erva-trindade, é uma flor bienal selvagem eurasiática. É uma pequena planta rasteira que atinge no máximo 15 cm de altura, com flores de cerca de 1,5 cm de diâmetro. Cresce nos prados e nas fazendas abandonadas, principalmente em solos ácidos ou neutros. É geralmente encontrada onde há sombra parcial. Floresce de Abril a Setembro. As flores da viola tricolor ou amores perfeitos podem ser roxas, azuis, amarelas ou brancas. É hermafrodita e autofértil, polinizada pelas abelhas. (daqui)
 
 

Leo Putz (Tyrolean painter, 1869–1940), Frieda Blell, 1908.

(Portrait by her future husband, Leo Putz)



"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir."

Paul Valéry 
[Filósofo, escritor e poeta francês, 1871–1945]
 

quinta-feira, 26 de março de 2026

"Canção do Caminho" - Poema de Cecília Meireles


 
Albert Lynch (French painter of German and Peruvian ancestry, 1860–1950),
Portrait of a Young Woman, 1890.


Canção do Caminho


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)


Cecília Meireles
, in "Vaga música", 1942.


 
"Vaga Música" de Cecília Meireles.
 Editora Global

 
SINOPSE

Em Vaga música, traços que se tornariam emblemáticos da obra poética de Cecília Meireles atingem um importante ponto de amadurecimento. Aqui, a fugacidade do tempo e a precariedade da existência são tenazmente perseguidas. Cecília trilha um profundo percurso pelas inquietações humanas mais triviais, abalando em muitos momentos as nossas mais sólidas certezas. A profusão de interrogações em boa parte dos poemas insinua o caminho escolhido pela autora para tocar a complexa sinfonia da vida: é preciso indagar para se encontrar no mundo. Para tal exercício, a modinha, a canção e a cantiga são algumas das formas poéticas aqui magistralmente orquestradas. Com efeito, a musicalidade latente é um dos elementos deste livro que, publicado em 1942, é considerado um dos momentos mais altos da lírica brasileira.
Como se estivesse em vigília no espírito humano, a autora parece posicionar-se à espreita de qualquer vestígio de perenidade para desnudá-lo, a fim de revelar sua essência mutável. (daqui)
 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Mar absoluto" - Poema de Cecília Meireles


 
Thomas Buttersworth (English seaman of the Napoleonic Wars period who became a
marine painter, 1768–1842), H.M.S. 'Victory' in full sail and in a squall, Unknown date.


Mar absoluto

 
Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.

"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"

Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heroico do mar tem seu polo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anémona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, 
mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.




"Mar absoluto e outros poemas" de Cecília Meireles
 

SINOPSE 
 
A história de Cecília começa antes de seu nascimento. Inicia-se nos Açores, onde nasceram seus antepassados. E essa memória intrínseca à sua alma fora inspiradora para quase toda a sua obra. A beleza e o silêncio do mar foram enriquecidos com os mistérios e o lado obscuro da morte - revelando uma poesia mística, lírica e serena. 
Mar absoluto e outros poemas é um dos principais livros da poeta, que o escreveu entre as décadas de 1930 e 1940, e certamente um dos mais importantes momentos da poesia brasileira de hoje e de sempre.
 
 

Thomas Buttersworth, H.M.S. 'Victory' in full sail and in a squall, Unknown date.
 

"O homem é um aprendiz, a dor é a sua mestra, e ninguém se conhece enquanto não sofreu."

Alfred de Musset, in "La nuit d'octobre", 1837.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"Lamento da mãe orfã" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Otto Freundlich
(German painter and sculptor of Jewish origin, 1878–1943),
The Mother, 1921, Berlinische Galerie.



Lamento da mãe orfã


Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da humidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto", 1945
.


 
Otto Freundlich, "Kopf (Selbstbildnis)", Head (Self -Portrait), 1923.


Otto Freundlich (Słupsk, Pomerânia, 10 de julho de 1878—Majdanek, 9 de março de 1943) foi um pintor e escultor alemão. 
Estudou odontologia, antes de decidir converter-se em artista. Em 1909 viajou a Paris, onde conheceu  Picasso. Adscrito por um tempo ao cubismo, mudou para a arte abstrata em 1919, sendo membro dos grupos Cercle Carré e Abstraction-Création, assim como do agrupamento artístico de signo político Novembergruppe. 
De origem judaica, foi qualificado pelos nazistas como "artista degenerado", sendo eleita a sua obra O Homem Novo (Der Neue Mensch) para a capa do catálogo da exposição Arte degenerada - celebrada em Munique em 1937 -  antes de ser destruída. 
Morreu no campo de concentração de Majdanek, na Polónia. (daqui)
 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

"Quem pudera, Cecília!" - Poema de Fernanda de Castro


 
Alfredo de Morais  (Ilustrador português, 1872–1971), "Uma Desfolhada no Minho", s.d.


Quem pudera, Cecília!


Tenho fome de campo e de verdura,
De terra bem lavrada,
E sede, muita sede de água pura.

Quero pegar no cabo de uma enxada,
Quero cheirar os troncos e as raízes,
Pisar, descalça, a terra ainda molhada,
Ver, nas noites, o rasto das perdizes.

Já Cecília Meireles o dizia,
Com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”
E ria, ria,
Rasgando as mãos nas silvas,
Comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.

Tinhas razão, Cecília.
Em Portugal, as estações são festas,
São festas de família,
Enfiadas, colares de alegrias;
Na Primavera as flores;
Os frutos no Verão, e as romarias;
No Outono o vinho novo e o ritual
Profano das vindimas;
No Inverno,
A mística alegria do Natal,
As portas bem fechadas,
A lenha a crepitar
E as rabanadas.

Quem pudera, Cecília, quem pudera,
Mandar-te para lá, para onde estás,
Um raminho da nossa Primavera.


Fernanda de Castro, in Colóquio Letras, 1987,
p. 94. - N.º 100. Lisboa : F.C.G. 

["Quem pudera, Cecília!" é um poema de Fernanda de Castro (1900–1994) que homenageia a poetisa brasileira Cecília Meireles (1901–1964), expressando um desejo de enviar-lhe um presente simbólico de Portugal e elogiando sua conexão com as tradições e a simplicidade do campo português. A obra surge após a morte de Cecília Meireles, demonstrando a forte ligação entre as duas poetisas e a admiração da poeta portuguesa pela brasileira.] 
 
 

Alfredo de Morais, "Dança minhota - o Vira", s.d.
 

"Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. 
Não sou alegre nem triste: sou poeta."


Cecília Meireles
, do poema "Motivo"
 

quinta-feira, 17 de julho de 2025

"Ou isto ou aquilo" - Poema de Cecília Meireles

 

Laurits Andersen Ring (Danish painter, 1854–1933), In the Month of June, 1899.
National Museum of Art, Architecture and Design
 
 
 Ou isto ou aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Cecília Meireles, 
no livro 'Ou Isto ou Aquilo', 1964. 


'Ou Isto ou Aquilo' de Cecília Meireles. 
Ilustrações de Odilon Morae. Global Editora, 2012.
Faixa etária: 3 a 6 anos.


  SINOPSE

Publicado pela primeira vez em 1964, o livro é um clássico da literatura infantil brasileira. E desde seu lançamento, vem conquistando gerações de leitores. 
A autora convida as crianças a se aproximarem da poesia, brinca com as palavras, explora a sonoridade, o ritmo, as rimas e a musicalidade. Cecília Meireles resgata o universo infantil permeado por perguntas imprevisíveis, monólogos, comparações incomuns, fantasia e imaginação. Ela cria um universo encantador, a partir de recursos que o género e a língua lhe proporcionam.
 

sábado, 21 de junho de 2025

"Chega o verão" - Poema de Cecília Meireles

 


Gustavo Dall'Ara (Pintor e desenhista italiano que imigrou para o Brasil, 1865-1923),
"Praia do Flamengo", 1917, Coleção José Carlos Bruzzi Castello.
 

Chega o verão


Vamos abrir as janelas ao vento salgado do mar.
Chega o verão, vagarosa nau, de um trémulo horizonte,
com seu andar de floresta e seus odores enevoados
de resinas espessas e tormentas no alto da tarde.

Nuvens de cupins jorram da sombra, girando em cegueira.
Asas sem peso chovem o arco-íris, semeiam nácar pelos meus dedos.
Oh, por que serão feitas estas mínimas vidas
com tanta perfeição para instantâneas se desfazerem?

Vamos fechar as janelas sobre a noite, com seu vento de fogo.
Aqui vêm, despojados, os cupins pelas mesas,
arrastando-se por entre as próprias asas caídas.
Aqui vêm, num cortejo de desvalidos, de sentenciados...

Oh, dizei-me, dizei-me, que anjos, que santos, que potências
se ocupam desse silêncio movediço, do apressado
itinerário dos moribundos frágeis que passam! 


Cecília Meireles
, 
in Poesia Completa - Dispersos (1918-1964)




Gustavo Dall'Ara, Cais do mercado, Rio de Janeiro, 1901.


A poesia impossível


Inquietação de marinheiro
Que sente o mar e seu chamado...
Não poder embarcar!

Prisioneiro do nada,
Pássaro mutilado
Que a distância fascina...


Helena Kolody, in "Vida breve", 1964.

sábado, 29 de março de 2025

"Declaração de amor em tempo de guerra" - Poema de Cecília Meireles


Alex Colville (Canadian painter and printmaker, 1920–2013), 
Soldier and Girl at Station, 1953.



Declaração de amor em tempo de guerra


Senhora, eu vos amarei numa alcova de seda,
entre mármores claros e altos ramos de rosas,
e cantarei por vós árias serenas
com luar e barcas, em finas águas melodiosas.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
andavam nos campos, agora.)

Para ver vossos olhos, acenderei as velas
que tornam suaves as pestanas e os diamantes.
Caminharão pelos meus dedos vossas pérolas,
— por minha alma, as areias destes límpidos instantes.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
começam a sofrer, agora.)

Estaremos tão sós, entre as compactas cortinas,
e tão graves serão nossos profundos espelhos
que poderei deixar as minhas lágrimas tranquilas
pelas colinas de cristal de vossos joelhos.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
estão sendo mortos, agora.)

Vós sois o meu cipreste, e a janela e a coluna
e a estátua que ficar, — com seu vestido de hera;
o pássaro a que um romano faz a última pergunta,
e a flor que vem na mão ressuscitada da primavera.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
apodrecem no campo, agora...)
 
 
Cecília Meireles
, in Obra Poética, 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983.
 
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

"A laranja que escolheste" - Poema de Fernando Pessoa


Damião Martins (Pintor cubista brasileiro desde 1978), Colheita de laranjas, s. d.


A laranja que escolheste


A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.

s.d. 

Fernando Pessoa
, Quadras ao Gosto Popular,
Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973)

Damião Martins, Colheita de laranjas, s.d.
 

O meu pomar


Se eu tivesse um pomar, um pequeno pomar que fosse, não lhe poria grades à roda, como os outros proprietários. Não poria, a guardá-lo, um desses cães enormes, rancorosos, que andam sempre rondando os pomares...
O meu pomar seria assim: todo aberto, para todos. E, quando o outono chegasse e as árvores ficassem cheias de frutos amarelos e vermelhos, nenhum pobrezinho teria fome, nenhuma criança choraria de sede, passando pelo meu pomar...
E, no inverno, ainda haveria lá onde alguém se abrigasse, quando chovesse muito ou fizesse muito frio...
E se eu tivesse um pomar, ele estaria sempre em festa, cheio de borboletas e de pássaros...
Como eu seria feliz, se tivesse um pomar!

Cecília Meireles, "Criança meu amor"
 
 

Cecília Meireles, "Criança meu amor"
Editora: GLOBAL - 3ª edição
 

Sinopse

O livro Criança, meu amor… é uma coletânea de textos dirigidos, sobretudo, às crianças. Nesta obra, publicada pela primeira vez em 1924, Cecília Meireles, proporciona aos leitores a alquimia do imaginário, do humor e da fantasia. Bonequinha, bonequinha/ Dorme, dorme sossegada/ Dorme, dorme filha minha! Bonequinha muito amada,/ Oxalá que embalem crianças/Como tu és embalada!… De forma singela e em doses precisas, a autora revaloriza a noção de brinquedo, discorre sobre bondade, respeito e amor ao trabalho, à natureza e ao próximo. Por ter sido professora, Cecília emprega com sabedoria sua sensibilidade pedagógica a ponto de permitir que sua obra seja sempre atual, independentemente da época. Por essa razão, Criança, meu amor… vem encantando várias gerações de leitores. (daqui)
 
 
Damião Martins, Colheita de laranjas, s.d.
 

"Na laranja e na couve
 picada – as cores brasileiras 
da feijoada."
 
[Poeta brasileiro, 1928–2012]

domingo, 2 de fevereiro de 2025

"Despedida" - Poema de Cecília Meireles



Edward Cucuel (American-born painter painter who lived and worked
 in Germany, 1879–1954), Woman with a Parasol, s.d.



Despedida

 
Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.


Cecília Meireles
, in "Flor de Poemas", 1972.
 
 
Edward Cucuel, East wind, s.d.


"A poesia é o inferno; às vezes também é o paraíso."

Eugénio de Andrade
, em "Rosto Precário"
Porto: Limiar, 1979.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

"Canção da tarde no campo" - Poema de Cecília Meireles


 
Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), Spring, 1896,
 

Canção da tarde no campo
 

Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.


Cecília Meireles
, Obra poética, 1958

quinta-feira, 18 de abril de 2024

"Voo" - Poema de Cecília Meireles


Warwick Goble (British illustrator of children's books, 1862–1943), The Star Lovers, 
Illustration of a Japanese fairy tale.
 

Voo

 
Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam.
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós,
em redor de nós as palavras voam.
E às vezes pousam.


Cecília Meireles, Melhores Poemas,
 Global Editora, 1984 - S.Paulo, Brasil