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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"A arte e a sociedade" - Texto de Natália Correia



Jackson Pollock (American painter, 1912-1956), Blue Poles: Number 11, 1952.
Enamel and aluminium paint with glass on canvas, 212.9 x 488.9 cm.
Movement: Abstract expressionism. National Gallery of Australia, Canberra.


A arte e a sociedade

A arte e a sociedade são inseparáveis. A sociedade produz a arte e o produto aperfeiçoa a sociedade. Esta finalidade pode não estar imediatamente patente na espécie artística, mas é ela que a determina. Até mesmo as formas de arte declaradamente negativas ou indiferentes obedecem por caminhos ínvios a esta lei.

 
 


"Eu não pinto a natureza, eu sou a natureza".

Citado em Ars‎ - Página 13, de Departamento de Artes Plásticas, Universidade de São Paulo.
Publicado por Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2003.
 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

“Meditação” - Poema de Natália Correia

 

 
John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
 'Meditation', 1881.
 


Meditação


A carne é flor ou consequência do seu perfume?
Seja o que for
é intensidade que a flor resume.
A mão é gesto que a ultrapassa. O gesto é além.
Porque a mão toca o horizonte
que o gesto da mão contém.
O homem canta.
E enquanto canta o homem dura.
Porque o seu canto é perceber
que a voz prevalece à criatura. 


Natália Correia
, in "Poesia Completa"
 
 
 
"Poesia Completa" de Natália Correia
Edição/reimpressão: 1999. Páginas: 636.
Editor: Dom Quixote



SINOPSE

A reunião da Poesia Completa de Natália Correia foi preparada e em parte revista pela própria autora, que lhe atribuiu o título O Sol nas Noites e o Luar nos Dias (cf. poema VIII de "Rio de Nuvens", "E tudo se esconde / Nessa hora onde / Por estranha magia / brilha o sol de noite / e o luar de dia."). Colige a reedição de toda a sua obra poética (Rio de Nuvens (1947), Poemas (1955), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1959), Cântico do País Emerso (1961), O Vinho e a Lira (1966), Mátria (1968), A Mosca Iluminada (1972), O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro (1973), Epístola aos Lamitas (1976), O Dilúvio e a Pomba (1979), O Armistício (1985), Sonetos Românticos (1990) e dá à estampa um volume considerável de inéditos, de que consta quer a poesia escrita entre 1941 e 1947 quer tudo o que foi escrito no intervalo da publicação das suas obras poéticas. 
Na Introdução define o ato poético como uma "recôndita disponibilidade para receber a mercê que [lhe] é dada em palavras de olhar as coisas de uma outra forma, alinhando-as num ritmo que corre para um ponto onde tudo está abrangido", através de uma "linguagem construída na esfera psíquica de fatores transpessoais que atuam como uma força unificadora". Essa totalidade impõe ao poeta uma missão social, tornando-se, então, poesia de combate, numa luta pela justiça definida como moral da vida verdadeira, alheia às leis de "moralismos utilitários" (pp. 30-31), intenso e alquímico ato de "desencantar, em penosa solidão, o engenho de fazer ouvir o sopro da Alma Universal na palavra em que se incuba a transformação da alma da humanidade" (p. 34). (daqui)

terça-feira, 12 de agosto de 2025

"O Livro dos Amantes" - Poema de Natália Correia

 

 
Josef Engelhart
(Austrian painter and sculptor, 1864 - 1941),
"Bride and groom kissing", Private collection.


O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exatidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

III

Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.

IV

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.

V

Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem noturna.

Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.

Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.

VI

Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.

Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.

VII

Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exatidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.

VIII

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.

IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.


Natália Correia, in "Poemas", 1955

 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

"Nictofagia" - Poema de Natália Correia




Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937),
 An evening by the beach, 1925.


Nictofagia


Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho!


Natália Correia
, in Passaporte, 1958 

 


"Passaporte" (Poemas) de Natália Correia, 1.ª Edição,
Editora Gráfica Portuguesa, Lda. Lisboa, 1958.
 

SINOPSE 

"Passaporte" é um dos primeiros livros de Natália Correia (1923–1993) ligado à "tendência surrealista da poesia portuguesa" que contém os poemas: Passaporte, Boletim Meteorológico, Discurso Directo, Biografia Encomendada pela Insónia, Êxodo, O Poema, Metamorfoses necessárias para a Reconquista do Mundo, A Demiurgia do Riso, Ricochete, Homenagem a Titus Lucretius Carus, Poema destinado a haver Domingo, Nictofagia, Projecto de Bodas, Elegia dos Amantes Lúcidos, Ultrabiográfico, Mar Uterino.
Em "Passaporte", Natália Correia explora temas como a identidade, a viagem e a busca por um lugar no mundo, utilizando uma linguagem que transita entre o surrealismo e o realismo, com um toque de irreverência e paixão. A obra reflete a personalidade da autora, que, segundo críticos da Universidade do Porto, era alguém que "chega adiantada no tempo" e que não se encaixa em normas ou ideologias. 


segunda-feira, 9 de junho de 2025

"Andar?! Não me custa nada!" - Poema de Natália Correia


Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living 
in the United States, b. 1943), Natalia's Birthday II, 2010.


Andar?! Não me custa nada! 


Andar?! Não me custa nada!...
Mas estes passos que dou
Vão alongando uma estrada
Que nem sequer começou.

Andar na noite?! Que importa?...
Não tenho medo da noite
Nem medo de me cansar:
Mas na estrada em que vou,
Passo sempre à mesma porta...

E começo a acreditar
No mau feitiço da estrada:
Que se ela não começou
Também não foi acabada!

Só sei que, neste destino,
Vou atrás do que não sei...
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.


Natália Correia
, in Rio de Nuvens, 1947



Rafał Olbiński, Contemplative insight, 2013.


"Todos temos uma parte misteriosa e há quem pretenda resolver os seus mistérios na psicanálise. 
Eu prefiro dar-lhes voz na Poesia." 

Natália Correia, 'Entrevista, 1983'. 
 

sábado, 10 de maio de 2025

"Mocinhas gráceis" - Poema de Natália Correia


 
Franz Marc (German painter and printmaker, 1880–1916), Two Women on the Hillside, 1906.
Franz Marc Museum, Kochel am See.
 


Mocinhas gráceis 
 

Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela ereção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exatidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Sois, porém, as irreais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.

Lá do fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura, o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.

Enleais, mas se enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
— Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas —,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transcendência.


Natália Correia, in "Armistício", 
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.
 

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

"De amor nada mais resta que um outubro" - Poema de Natália Correia


Viggo Langer (Danish painter, 1860-1942), Windswept landscape near Virum, October, 1900.
 

 
De amor nada mais resta que um outubro

 
De amor nada mais resta que um outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 


Natália Correia, in "Poesia Completa"
Publicações Dom Quixote, 1999.
 

terça-feira, 9 de julho de 2024

"Encontro" - Poema de Natália Correia

 

Pierre-Auguste Renoir (French artist, 1841–1919), The Theater Box, 1874,
 
 

 Encontro 

 
Como se um raio mordesse
meu corpo pero rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajeto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um coice
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se Deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se Deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor


Natália Correia

(Escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores, 1923 - 1993)
 
 
Renato Júnior - "Natália é Quando Uma Mulher Quiser"
ao vivo na Aula Magna (Full Concerto).
 
Concerto de apresentação do projeto do compositor Renato Júnior que assinala os 100 anos de Natália Correia. Participação de: Áurea, Ana Bacalhau, Amélia Muge, Elisa Rodrigues, Katia Guerreiro, Maria João, Mafalda Veiga, Patrícia Antunes, Patrícia Silveira, Rita Redshoes, Sofia Escobar e Viviane. Promovido pela SPA, gravado e transmitido pela RTP1.
 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

"Uma laranja para Alberto Caeiro" - Poema de Natália Correia


William Joseph McCloskey (American painter, 1859–1941), Wrapped Oranges, 1889.
Oil on canvas. Amon Carter Museum of American Art.
 


Uma laranja para Alberto Caeiro



Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave
se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois da laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exata fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce. 


Natália Correia
, "O Vinho e a Lira", 1967.
 

sábado, 20 de maio de 2023

"Não sou daqui" - Poema de Natália Correia



Real Bordalo (Artista plástico português, 1925–2017), Arco do Marquês de Alegrete, Lisboa
 

Não sou daqui


Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos,
Sou de mim mesma pomba húmida e brava.

De mim mesma e de vós, ó capitães trigueiros,
Barbeados pelo sol penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
A génese a pluma do meu país natal.

Não sou daqui das praias da tristeza,
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza,
E colocai-a à sombra dos palmares.

Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida sou solta talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos. Levai-os para a floresta.

É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...

Levai-me, peixes da minha pele itinerante!
Quero ir à pesca, colher no espelho da laguna
O lírio da nudez a perdida inocência
O coração do bosque a dar-se sem penumbra
Visto através da minha transparência.

Levai-me, ó minhas mãos branco exílio de ramos!
Meus dedos virtuais folhas de palma!
Sois os órgãos sensíveis da choupana
Onde quero deitar a minha alma.

Levai-me, olhos meus implícitas montanhas
Florescência de cumes para poisarem águias!

Quero ter pensamentos que me cheirem a lenha
Esfregar o espírito em plantas aromáticas
Uma alma com pétalas guerrilheiras selvagens

Abertas a uma luta de prata verdadeira
Uma alma que seja verde que tenha asas
E dance nua para os deuses da fogueira...

Jogai, jogo do arco laço azul infância coisas
Que o desencanto confisca e abandona na cave!
Como uma criança joga papagaio, jogai
Este farrapo de ânsia poeira da cidade
Onde ninguém tem pressa de ser ave;

E tu, anjo de pedra do meu grito! Anjo
Esculpindo em pranto seco! Anjo enxuto!
Tu que me afogas o olhar no infinito
E as mãos no lodo dum gesto irresoluto.

Tece, ó arranha de luz no esconso da garganta!
Coração de andorinha estrangulada!
O luar o jardim a cigarra que canta
O leito de verdura para eu me dar à esperança,
Rosa que aspiro num esquivo vão de escada.


Natália Correia
,
in 'Cântico do País Emerso', 1961

 
Natália Correia (daqui)

Natália Correia (1923–1993), mulher de paixões, casou quatro vezes ao longo dos seus 70 anos. Fez televisão, foi jornalista, dramaturga, poetisa e estreou-se na ficção com o romance infantil «Aventuras de um Pequeno Herói», em 1945. 
Nasceu nos Açores em 1923 e aos 11 anos desloca-se para Lisboa. Foi jornalista no Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Ativista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica».
Deputada após o 25 de Abril, fez programas de televisão destacando-se o “Mátria” que apresentava o lado matriarcal da sociedade portuguesa.
Fundou o bar “Botequim”, onde cantou durante muitos anos, transformando-o no ponto de reunião da elite intelectual e política nas décadas de 1970 e 80.
Organizou várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”.
Natália Correia foi uma versejadora de êxito, uma mulher carismática com uma vida social intensa, não fez concessões à mediania e notabilizou-se por uma vasta obra intelectual. (daqui - ver e ouvir)
 
 

Alfredo Roque Gameiro (Pintor e desenhador português, 1864–1935),
Rua do Arco do Marquês do Alegrete, em Lisboa, década de 1910. 
(Aguarela)



Alfredo Roque Gameiro, Autorretrato, década de 1910,
Aguarela sobre cartão, 40 x 29,5 cm
 
 
Alfredo Roque Gameiro (Minde, 1864 – Lisboa, 1935), oriundo de uma família de comerciantes, começa a trabalhar em Lisboa, em 1874, como desenhador-litógrafo na oficina de seu meio-irmão Justino Roque Gameiro. Ingressa, como pensionista do Estado, na Escola de Artes e Ofícios de Leipzig, em 1883, e mantém, durante toda a década de 1880, uma colaboração constante como ilustrador de diversas publicações, com destaque para o Álbum de Costumes Populares Portugueses, de 1888.
Quando regressa a Lisboa o artista assume a direção artística das Oficinas da Companhia Nacional Editora – cargo que abandona quando é nomeado professor na Escola Industrial do Príncipe Real (1894) – e participa regularmente nos salões anuais do Grémio Artístico (depois Sociedade Nacional de Belas-Artes), com desenhos e aguarelas. Em 1900 os seus trabalhos são selecionados para integrar as exposições da delegação portuguesa na Exposição Universal de Paris, onde recebe uma Medalha de Honra. Em 1911 abre um atelier em Lisboa, onde passa a ministrar regularmente cursos de aguarela.
As suas pinturas, tratadas com uma intensa capacidade de observação e captação da luz e da cor, aliam uma qualidade técnica, de rigoroso desenho, a atributos expressivos. Aborda temáticas variadas como o retrato, a paisagem, as cenas rurais e urbanas, mas dedica-se sobretudo a marinhas. (daqui)
 
 

Alfredo Roque Gameiro, Retrato da filha, Màmía, 1919 (Aguarela)
 
 
De todos os filhos de Roque Gameiro, Màmía foi o modelo mais retratado, quer pelo pai Alfredo, quer pelas irmãs Raquel e Helena, quer pelo noivo (depois marido) Jaime.
Màmía Roque Gameiro tinha dezoito anos na altura em que o pai executou este estudo. O artista privilegia o doce rosto da filha mais nova, acentuando as suas finas feições, assim como os ombros, deixando apenas levemente esboçados os braços e o vestido.
A cabeça um pouco inclinada para a esquerda do observador permite distinguir um olhar pensativo, parecendo velado por suave melancolia. Um caracol de cabelo castanho descai sobre o peito e introduz uma nota de cor que aviva a tonalidade clara do vestido.
A jovem posiciona-se sentada num cadeirão, também delineado parcialmente. O artista sugere um espaço através de aguadas muito diluídas, enquadramento esse que faz ressaltar a figura do modelo. (daqui)

 
 
Màmia Roque Gameiro, Autorretrato, 1922
 
 
Maria Emília Roque Gameiro Martins Barata, conhecida como Màmia Roque Gameiro ou Mamia Roque Gameiro (Amadora, 7 de setembro de 1901 – Lisboa, 6 de Julho de 1996), foi uma pintora e ilustradora portuguesa.
Nascida a 7 de setembro de 1901, na Amadora, Maria Emília Roque Gameiro era filha do pintor e aguarelista português Alfredo Roque Gameiro e de Maria da Assunção de Carvalho Forte, sendo irmã de Raquel Roque Gameiro, Manuel Roque Gameiro, Helena Roque Gameiro Leitão de Barros e Ruy Roque Gameiro. Devido ao interesse de todos os filhos pelas artes, a família de Roque Gameiro recebeu a alcunha de "tribo dos pincéis", passando ainda Maria Emília a ser publicamente conhecida pela alcunha de "Màmia". (daqui)
 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

"Ricochete" - Poema de Natália Correia


 
John Constable (English Romantic painter, 1776–1837), "Wivenhoe Park", 1816.
National Gallery of Art, Washington
 

Ricochete


Que margens têm os rios?
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
para na hora da lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro por nós?


Natália Correia,
in "Passaporte", 1958
 

 
John Constable, "The White Horse", 1819, Frick Collection, New York City


“Cada fracasso ensina ao homem algo que ele precisava aprender.”


(Charles Dickens)



Portrait of Charles Dickens, c. 1850,
National Library of Wales
 
 
Charles Dickens foi um escritor inglês nascido a 7 de fevereiro de 1812, em Landport, Portsmouth, e falecido a 9 de junho de 1870, em Gadshill, Rochester.
Charles Dickens nasceu numa família modesta e foi obrigado a trabalhar, ainda criança, depois do pai ter sido preso por acumulação de dívidas. Nessa altura já vivia em Londres, para onde se mudou aos dois anos. Conseguiu fazer a instrução primária e foi então trabalhar como ajudante num escritório de advogados.
Aos 18 anos, também fazia leituras públicas no Museu Britânico. Entretanto, tornou-se jornalista, tendo elaborado crónicas sobre o parlamento britânico e textos para jornais humorísticos. Aos 21 anos iniciou a carreira de escritor, assinando contos e ensaios que eram publicados em jornais.
Cinco anos mais tarde, escreveu o livro The Pickwick Papers (As Aventuras Extraordinárias do Senhor Pickwick) e tornou-se, desde logo, um autor de sucesso. Passou então a publicar romances através de folhetins mensais que se tornaram muito populares. Com este livro, nasceu um novo tipo de mercado para os escritores ingleses, propondo obras mais baratas.
Oliver Twist, uma das obras mais conhecidas de Dickens, também foi inicialmente publicada em fascículos, entre 1837 e 1839. Neste livro, conta a história de um rapaz a quem é escondida uma valiosa herança e que acaba por integrar um bando de jovens ladrões.
Seguiu-se Nicholas Nikelby, lançado entre 1838 e 1839, que conta a história de um rapaz em busca de fortuna. Este romance foi adaptado ao cinema, em 1948, por David Lean. Em 1843, surgiu A Christmas carol (Cântico de Natal), que tornou famosa a personagem de Mr. Scrooge, nomeadamente através de diversas adaptações cinematográficas.
Em David Copperfield, acabado de publicar em 1850, Dickens aproveitou a sua experiência de trabalho numa fábrica para escrever a história.
Entre 1860 e 1861, publicou uma das suas últimas grandes obras, Great Expectations (Grandes Esperanças), onde conta a história de um órfão que é adotado por uma família rica e se torna um snob. Mas quando o seu protetor morre, tem de partir de novo do nada.
Inspirado na sua infância infeliz, Dickens lançou romances protagonizados por crianças, como David Copperfield, Hard Time (Tempos Difíceis) e Oliver Twist, onde estas são os heróis, mas onde há muito humor.
As suas obras denunciam a vida difícil do operário na sociedade industrial emergente e, em particular, a miséria das classes sociais mais baixas e a precariedade da infância, ao mesmo tempo que evidenciam uma arte narrativa caracterizada por uma grande penetração psicológica posta na composição dos caracteres.
Paralelamente à carreira de escritor, Charles Dickens viajou bastante fazendo campanha contra os males da sociedade. Dedicou-se também a dar conferências, nomeadamente nos Estados Unidos da América.
Depois de ter vivido em Londres, Itália, Suíça e França, Dickens estabeleceu-se em Gadshill (Inglaterra), em 1860, onde viria a morrer a 9 de junho de 1870. (daqui)
 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

"2° Passeio nos Jardins de Adónis" - Poema de Natália Correia

 


Eva Gonzalès (French Impressionist painter, 1849 –1883), The Donkey Ride, 1880


 2° Passeio nos Jardins de Adónis 

 

Recusa, amigo, da lide o ardil que, fátuo,
Nenhum deus quer ou lembra;
E entremos no jardim como quem no sagrado
De que se ignora entra.

Na fonte, ao tempo alheio, voz de água estremecida,
Gorgoleja o delfim
A ária que reúne o pouco da vida
No esplendor do jardim.

Aos fados que nos fiam o estreito acontecer,
Só na ilusão ilesos,
Sob as tílias amemos: é o estreito dever
De agradarmos aos deuses.

Flores não colhas, porém: sem nexo, se colhidas,
Vão morrer-te nos braços.
Deixa-as serem na haste o hálito da vida
Que te perfuma os passos.

Leves, instantâneas rosas indiferentes às máscaras
Que apodrecem leprosas,
Concedem-nos os deuses para que as nossas almas
Não pesem mais que as rosas.

Num lapso da verdade de que és pálido súbdito
Por decretos ignotos,
O jardim é o instante em que olhamos o mundo
Com magnólias nos olhos.
 

Natália Correia,
in Jornal de Letras, junho/84, Lisboa 
 

sábado, 25 de março de 2023

"Creio nos anjos que andam pelo mundo" - Poema de Natália Correia

 

 John Constable (English Romantic painter, 1776–1837), Salisbury Cathedral and Leadenhall 
from the River Avon, 1820, National Gallery
 

 Creio nos anjos que andam pelo mundo


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
 

Natália Correia (1923–1993), 
in "Sonetos Românticos", 1990


  The couple strolling along elm alley are Bishop of Salisbury John Fisher and his wife.  
Frick Collection, New York City


"A fé é a força pela qual um mundo desfeito poderá emergir para a luz."

 

terça-feira, 21 de março de 2023

"Sete Luas" - Poema de Natália Correia



Édouard Manet
  (French modernist painter, 1832–1883), Portrait of  Eva Gonzalès  
(French Impressionist painter, 1849–1883), 1869–70.
 
 
 
A recusa das imagens evidentes
IV

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exatidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.


Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957.
In A rosa do mundo - 2001 poemas para o futuro,
Assírio & Alvim, 2001.
 
 
Rosa do mundo: 2001 poemas para o futuro 
 Org. Manuela Correia | Ed. Assírio e Alvim | 2001
 
 
A antologia Rosa do Mundo: 2001 poemas para o futuro, organizada por Manuela Correia, com direção editorial de Manuel Hermínio Monteiro, publicada em 2001, pela editora Assírio e Alvim, contou com a colaboração de mais de vinte especialistas. Essa antologia, de quase 2000 páginas, apresenta 2001 poemas de autores das mais diferentes culturas, com o objetivo de trazer “poemas escritos em todas as épocas, em todo o mundo. Palavras límpidas e exatas com que cada um dos poetas escolhidos falou, dalgum modo, de futuro”. De facto, é uma antologia riquíssima, que trata do futuro dialogando intensamente (quase 1/3 da antologia é dedicado às tradições orais) com o passado: “não há futuro sem passado, mas também não haveria passado se, na altura em que foi edificado, não fosse já um desejo de futuro”. Um futuro que se abre com diferentes cosmogonias e avança até o ano de 1945. Desse longo movimento temporal, retornamos à criação, ao poder da literatura, dos autores e dos tradutores que puderam (re)criar em português textos da tradição oral e escrita. Não é exagerado dizer que Rosa do Mundo oferece ao leitor um pequeno tesouro da literatura universal. (daqui)
 

segunda-feira, 13 de março de 2023

"O Nascimento do Poeta" - Poema de Natália Correia

 
Marie Bracquemond (French Impressionist artist, 1840-1916), 
 Woman in the Garden, 1877. Private collection.
 


O Nascimento do Poeta


Ora foi num dia treze
que em seu bíblico lugar de dor
minha mãe deu por completas
as letras de meu teor

Porque para acabar o mundo
era precisa a minha mão
do azul calafetado
caí nas facas do chão

Machucada de nascida,
da minha sofrida região
pus-me a levantar o mapa
em ponto de exclamação

Assim na câmara escura
de cada privada saliência
meus olhos se revelaram
negativos da ausência

Soube que o tempo é uma luva
antissética que o infinito
calça para joeirar
sem contágio o nosso trigo

daí o amor ser o meio
do homem dividido em dois
e a pior metade é estarmos
à espera de sermos depois

Soube que quando a amargura
nos gasta a pintura aparece
a cor que teriam os olhos
de um deus apócrifo se viesse

não refulgente ou teologal
tampouco suspensa espada
mas ocasional como vestir
uma camisa lavada

porque a vida é a ocupação
do único espaço disponível
para o possível amanhã
da nossa véspera impossível

e o sidéreo, adeus mistério
é um queijo de paciência
para a gulodice da terra
(e não perdi a inocência)

Soube coisas que sabê-las
foi eu ir ficando nua
como no apocalipse uma última
pedra vestida de lua

como no fim do mundo um lírico
verme a recomeçá-lo
a beber estrelas e peixes
pelo seu estreito gargalo

Como eu em amorosa
posição de cana ereta
a pescar no indizível
o sinónimo de poeta


Natália Correia
,
in "A mosca iluminada", 1972
 
 

Marie Bracquemond (French Impressionist artist, 1840-1916), Self-portrait, 1870
 

«[...] cada poema, por mais elevado, evanescente ou injetado de virulentas ou mesmo fesceninas invetivas, é uma lição de moral. Não da moralidade que expira com a religião que a procriou, mas de uma ética espiritualizada que [...] dá sinais de querer ser objetivada.»

Natália Correia, "Introdução" in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, 1993.
 
 
 


«O livro é como um rio. Tem a sua nascente e a sua foz. E assim como o rio se mistura na vastidão oceânica, funde-se o livro na massa do saber universal. A sua nascente é o autor. A foz, o leitor.»

Alocução proferida por Natália Correia, na inauguração da Livraria Nove Estrelas, 
em Ponta Delgada, em 7.12.1981, dirigida por José de Almeida.
 
 
Natália Correia


Natália Correia, poetisa, ficcionista, autora dramática e ensaísta, nascida em 1923 e falecida em 1993, natural dos Açores, facto que levou a insularidade a tornar-se uma linha de força presente em todo o seu percurso literário. Realizou estudos secundários em Lisboa. Figura marcante da cultura e da literatura portuguesas contemporâneas, Natália Correia distinguiu-se também pela sua atividade política, tendo exercido, com a mesma irreverência que pauta toda a sua existência, o cargo de deputada. 
 
Escritora que manteve uma posição de independência relativamente a modelos e movimentos literários, embora seja, mesmo aceitando que são poucos os "exemplos que podemos colher na sua poesia de uma aproximação da sua parte a procedimentos estilísticos típicos dos surrealistas", frequentemente associada ao Surrealismo, "pela defesa de um estatuto de altiva insubmissão para o poeta, pela identificação com as tradições culturais marginalizadas pelos poderes instituídos ao longo dos tempos" e "pela acentuação da dimensão mágica da poesia" (MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, Colibri, 1996). 
 
A compreensão da literatura como ato de rebeldia e de insubmissão face a todos os poderes instituídos e institucionalizados (inclusivamente o literário), nutre, assim, uma expressão poética imaginativa e sugestiva pelo seu poder de metaforização, impetuosa, ditirâmbica e cósmica, alimentada pela visceral revolta contra o homem "funcionário / da sua adiada escória", "bípede" que não sabe que fazer "de não ser propriamente inseto" (Poesia Completa, Lisboa, 2000, p. 285), rejeitando "nascermos para corda de roupa / íntimas peças da morte penduradas / a todo o comprimento de puxarmos / a carga insone de uma vida alheia." (XI de Mátria in op. cit., p. 297). 
 
A busca de uma voz pura e liberta, anterior ou à margem de conceptualizações redutoras e de acomodações burguesas, resulta num diálogo intertextual com uma tradição literária que vai da lírica galego-portuguesa ("sagrada raiz do nosso lirismo"), até ao mergulho, através da "sofreguidão ôntica do soneto", na arte poética romântica (Sonetos Românticos), e até ao diálogo intertextual com Camões ou Pessoa, na busca de um sentido para o devir da nação portuguesa ("Ó Pátria amada minha misteriosa / que da Europa és a esfinge! És o rebate / de uma última pedra preciosa / ou és cedo de mais num tempo acre?" ("Urna Áurea I" de Epístola aos Lamitas, in op. cit., p. 428). 
 
"Humanidade poética anarquista" ("Boletim Meteorológico", in op. cit., p. 143), a voz de Natália Correia integra a tradição "dos que os poderes estabelecidos têm tido por heréticos, heterodoxos, feiticeiros" (MARTINHO, Fernando J. B. - op. cit., p. 75), igualando o poder da protagonista de Comunicação, "uma mulher a quem chamavam a Feiticeira Cotovia [...] condenada às chamas por práticas de uma magia maior e estranha a que ela dava o nome de Poesia" e que, no momento da sua execução, augura que o seu "corpo em chamas será o rastilho de uma fogueira que consumirá a Lusitânia ano após ano, geração após geração numa combustão invisível e prolongada pela Palavra que fulge no ponto onde todos os nomes se reúnem na Luz." (Poesia Completa, p. 174). 
 
Buscando uma "Poesia em cuja ânfora o mundo / recolhe o pólen da sua idade de ouro", Natália Correia entende, deste modo, "a poesia como substância mágica desorbitada da sua funcionalidade primitiva, que o poeta desespera por restituir à sua natureza orgânica primordial, a fim de a tornar eficaz na recriação do mundo" (CORREIA, Natália, cit. in MARTINHO, Fernando J. B., p. 74). Por isso, para Natália Correia, a palavra, narrativa, dramática ou poética, é, acima de tudo, o principal agente da revolução, não daquela historicamente datada, mas da revolução permanente que o sujeito impõe a si mesmo ao "acusar a história de nos ter escondido que todas as revoluções foram até hoje desnaturados exercícios da verdadeira" (de Epístola aos Lamitas, in Poesia Completa, p. 413). 
 
Pela sua ousadia verbal e temática Natália Correia foi impedida de publicar algumas das suas obras durante o regime salazarista, como é o caso das peças A Pécora e O Encoberto, violentas desmistificações de alguns dos mitos nacionais, onde o lirismo e a sátira se fundem no poder exorcizante da palavra. (Daqui)