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sábado, 20 de dezembro de 2014

"Ó que imenso dissipar" - Poema de Lupe Cotrim Garaude


 
 Ron Hicks (American Impressionist painter, b. 1965)


Ó que imenso dissipar 


Ó que imenso dissipar
por assim gostar de tudo.

Com o meu ser estendido,
tenso ao apelo do mundo,
pulsando seu movimento
vou erguendo esta prisão.

Os pés retidos, imóveis,
pelos choques de atração
com a alma paralisada
contendo tanta largueza
e aspetos de vastidão.

Por que ter tantos sentidos,
o sentimento tão apto
e o coração vulnerável?

Por que o sentir sem repouso
num sentir que é um rapto,
exausto de comunhão?

Uma pobreza qualquer,
pobreza em voz, em beleza,
em querer, em perceber,
uma pobreza qualquer
onde eu possa enriquecer.


 in 'Antologia Poética' 


 
 Pintura de Ron Hicks


"Se compreendermos a nossa verdadeira natureza e soubermos viver em harmonia com as leis naturais, a sensação de bem-estar, de entusiasmo pela vida e a abundância material surgirão facilmente".

(Deepak Chopra
 

sábado, 13 de dezembro de 2014

"A meias" - Poema de João Luís Barreto Guimarães


 Ron Hicks (American Impressionist painter, b. 1965)
And Then They Exhaled, 2013


A meias


Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.


João Luís Barreto Guimarães, in «Poesia Reunida»,
Quetzal, Lisboa, 2011

[João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, Portugal, em Junho de 1967. Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. Publicou 8 livros de poesia, os primeiros sete reeditados em "Poesia Reunida" (2011), a que se seguiu o seu mais recente título "Você está aqui" (2013).]


Pintura de Ron Hicks


"Usa a capacidade que tens. A floresta ficaria mais silenciosa se só o melhor pássaro cantasse."



quinta-feira, 17 de julho de 2014

"Dezasseis anos talvez" - Poema de António Manuel Couto Viana


 Ron Hicks (American Impressionist painter, b. 1965)


Dezasseis anos talvez


Dezasseis anos, talvez. 
Vejo-a, no café, cada manhã, 
A folhear, atenta, um compêndio de inglês, 
Com um perfume a Escola e a maçã. 

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha 
(Um velho!), num desvio de atenção, 
E logo volta a folha, 
Enquanto molha 
o bolo no «galão». 

Eu saio, com pesar, bebida a «bica». 
Ela é a minha manhã, 
Tão natural, tão clara... que ali fica. 

- Que saudades da Escola! Que fome de maçã!


António Manuel Couto Viana, 
in 'Café de Subúrbio'


António Manuel Couto Viana

Poeta, encenador, ator e professor, António Manuel Couto Viana, nascido a 24 de janeiro de 1923, em Viana do Castelo, foi codiretor de Távola Redonda e diretor de Graal. Os primeiros livros de poesia de Couto Viana contrapõem-se, pelo equilíbrio e rigor formais e assunção da sinceridade lírica, ao contexto da poesia portuguesa do final da primeira metade do século, que oferecia "o aspeto de um acampamento desordenado e ruidoso, com pretensas mensagens tremulando no topo de mastros mal firmados" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - "De "O Avestruz Lírico" Até "A Face Nua", in Uma Vez - Uma Voz, 1985, p. 12). A participação no projeto da Távola Redonda, cujo título retoma um poema de António Manuel Couto Viana, datado de 1949, e publicado no fascículo 7, integra o poeta num grupo de autores que fixam como caminho para a aventura estética a busca de uma voz "pura e verdadeira", orientada para a "revalorizaçãodo lirismo", e exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas oupreconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural daFundação C. Gulbenkian, VI série, n.º 11, outubro de 1988). Destes princípios brota uma poesia que se aproxima metricamente das matrizes tradicionais, com ligação, no aproveitamento de temáticas dos romanceiros, à tradição oral. Ao mesmo tempo, a poesia revela o contexto literário em que nasce, procurando o poeta, pela ironia, tentar superar "o receio do desacordo entre o tipo de poesia que pode fazer e aquele que o momento exige"(MOURÃO-FERREIRA, David, ibi, p. 13), dando voz, sobretudo a partir de Mancha Solar, à angústia e pessimismo de uma geração pós-guerra, que vive na iminência traumática de uma catástrofe universal ("vivemos ainda, mas sobre o abismo irremediável", "Aviso Inútil") e de uma nação bloqueada num regime totalitário, embora o poeta se mantenha sempre fiel a uma voz íntima e alheio aos "mitos de aluguer", ao partido "Dos homens gastos por bandeiras gastas, / Vigilantes de livros e de castas, / Emdefesa do mundo dividido" ("Pátria Exausta").

In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-16].



Pintura de Ron Hicks 



"Quando somos jovens, temos manhãs triunfantes."


(Victor Hugo


Os Azeitonas - 'Quem és tu miúda'

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Sou de vidro" - Poema de Lídia Jorge



Ron Hicks (American Impressionist painter, b. 1965), "Café Kiss", 1988



Sou de vidro


Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita.
Lídia Jorge

Lídia Jorge, romancista e contista portuguesa nasceu a 18 de junho de 1946, em Boliqueime, no Algarve. Licenciada em Filologia Românica e professora do ensino secundário, ensinou em Angola e Moçambique antes de se fixar em Lisboa. Para além de exercer a docência, dedicou-se também à publicação regular de artigos na imprensa e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Ficcionista, a quem tem sido apontada a influência do realismo mágico latino-americano, cada romance de Lídia Jorge é um romance, isto é, introduz a novidade relativamente ao que o precede, ao nível da construção romanesca, da linguagem e do contexto, pelo que uma panorâmica sobre a obra ficcional da autora deve acima de tudo destacar a capacidade de aperfeiçoamento dos materiais narrativos, a sua adaptação a uma temática sempre renovada, embora inserida numa tendência ampla para reflexão sobre as várias dimensões do Portugal pré e pós revolucionário. Revelou-se com O Dia dos Prodígios, romance, onde a linguagem oral, dotada de mais sugestividade pelo recurso frequente ao discurso indireto livre e à liberdade de pontuação, permite a evocação de um mundo rural perdido, numa ficção que integra processos de desconstrução narrativa, que tem como objeto a construção de uma perspetiva irónica sobre a utopia revolucionária, apreendida pelo ponto de vista dos habitantes de uma aldeia, Vilamaninhos, onde as coordenadas de estagnação, pureza, ingenuidade se conjugam com um fantástico quotidiano.

Sara Tavares - Ponto de Luz



"O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem." - Rubem Alves, 2002
 
[Rubem Alves,  nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, naquele tempo chamada de Dores da Boa Esperança. A cidade é conhecida pela serra imortalizada por Lamartine Babo e Francisco Alves na música "Serra da Boa Esperança". 
Psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, é autor de livros e artigos abordando temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis.]


Pintura de Ron Hicks


"Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém."

Mark Twain
[Escritor e humorista norte-americano, 1835–1910]
 

domingo, 24 de julho de 2011

"À Descoberta do Amor" - Texto de Mahatma Gandhi


 
 Ron Hicks (American painter, b. 1965)


À Descoberta do Amor


Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
 
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
 
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
 
Enche-te de esperança
e vive à sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
 
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo. 
 

Mahatma Gandhi
[Advogado, estadista, líder espiritual e ativista indiano, 1869–1948] 





"Para quem sabe amar bem, nada é impossível."
 
"A qui sait bien aimer, il n’est rien d’impossible." 

Pierre Corneille
 
 "MEDEE", in: "Théatre de P. Corneille: avec les commentaires de Voltaire", volume 3 - página 104; Por Pierre Corneille, Voltaire, Fontenelle (Bernard Le Bovier), William Shakespeare, Thomas Corneille, Jean Racine, Georges de Schudéry; Publicado por Ches Bossange, Masson et Besson, 1797.


Pierre Corneille

Pierre Corneille, mais conhecido por Corneille (Rouen, 6 de junho de 1606 — Paris, 1 de outubro de 1684) foi um dramaturgo de tragédias francês. Ele foi um dos três maiores produtores de dramas na França, durante o século XVII, ao lado de Molière e Racine
Era chamado de "fundador da tragédia francesa", e escreveu peças por mais de 40 anos.


"A razão e o amor são eternos inimigos."
 
"La raison et l'amour sont ennemis jurés".

Pierre Corneille

 "La Veuve" (1634) in: "Oeuvres de P. Corneille: avec les commentaires de Voltaire", volume 1 - Página 266; de Pierre Corneille, Thomas Corneille, Voltaire, Jean Racine, Charles Palissot de Montenoy, Gabriel-Henri Gaillard, Scudéry (Georges), Fontenelle (Bernard Le Bovier), Jean Michel Moreau - Publicado por A.A. Renouard, 1817.