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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

"Este homem que esperou" - Poema de António Ramos Rosa



Pere Borrell del Caso (Catalan Spanish painter, illustrator and engraver, 1835–1910),
Querol River, Sant Martí River ("
Riu de Querol, al pont de Sant Martí"), s.d.
 

Este homem que esperou


Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto

Este homem que esperou
à sombra duma árvore
mudar a direção
ao seu pobre destino

Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra


António Ramos Rosa
,
Viagem através duma nebulosa, 1960

 

terça-feira, 23 de março de 2021

"Os Ombros Suportam o Mundo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Pere Borrell del Caso, Huyendo de la crítica, 1874


Os Ombros Suportam o Mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação. 


Carlos Drummond de Andrade
,
in 'Sentimento do Mundo, 1940