Mostrar mensagens com a etiqueta Johan Krouthén. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Johan Krouthén. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de fevereiro de 2025

"Zoologia: o rouxinol" - Poema de Nuno Júdice

 

Johan Krouthén (Swedish artist, 1858-1932), View of a Garden, Linköping
(Portrait of army surgeon Ernst Boman and his family), c. 1887-1888,
 Nationalmuseum.


Zoologia: o rouxinol



Um rouxinol ocupa o centro da tua cabeça,
como se estivesse numa gaiola. Podia sair
pelos teus olhos, e voar de roda dos teus
cabelos, num movimento de carrossel. Podias
apanhá-lo com as mãos, e tocar as suas
asas, como se fossem um teclado, fazendo
ouvir a música do céu. Mas o rouxinol
não sai. Prefere que eu espreite para o
fundo dos teus olhos e o descubra, no
centro da tua cabeça, onde o guardas,
para que só eu possa ouvir o seu canto,
e imaginar as voltas que ele daria pelos
teus cabelos, se saísse de dentro de ti, e
me fizesse ouvir a música do céu quando
o prendesses com as mãos, para me dares
esse pássaro que não te quer deixar.


Nuno Júdice 

(Ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário português, 1949–2024) 
 

terça-feira, 20 de agosto de 2024

"Tu sentado à tua mesa" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Peder Severin Krøyer (Danish painter, 1851–1909), Wine Harvest In The Tyrol, 1901.
Grohmann Museum


Tu sentado à tua mesa


 
Tu sentado à tua mesa
Bebes vinho comes pão
Quem é que plantou a vinha?
Quem é que semeia o grão?

Lá no socalco da serra
Anda a cavar teu irmão
Debruçado sobre a terra
P'ra que tenhas vinho e pão

Para além daquela serra
P'ra que tenhas vinho e pão
Abrindo o corpo da terra
Dobra o corpo o teu irmão

Sua mão concha do cacho
sua mão concha do grão
Em cada gesto que faz
Põe a vida em comunhão.
"Poemas Dispersos". In "Obra Poética",
 Caminho, 2010.
 
 
Peder Severin Krøyer, Artists' luncheon at Brøndum's Hotel, 1883.
[Depicted people: Eilif Peterssen, Michael Peter Ancher, Wilhelm Peters,
 
  
"A arte é a expressão da sociedade no seu conjunto: crenças, ideias que faz de si e do mundo.
 Diz tanto quanto os textos do seu tempo, às vezes até mais."

Georges Duby, citado em "Les enjeux de l'histoire culturelle‎" - Página 299,
 de Philippe Poirrier - Publicado por Seuil, 2004 - 448p. 
 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"A Minha Família é a Minha Casa" - Texto de José Luís Nunes Martins


Johan Krouthén (Swedish artist, 1858-1932), Beach with bathing boys, 1906



A Minha Família é a Minha Casa


A solidão absoluta é não ter ninguém a quem dizer um simples: “tenho vontade de chorar”. Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais.

A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. De um equilíbrio para o qual o outro é essencial... assim também se passa com a vontade de sorrir que, em família, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais difícil encontrar gente capaz de ser família. Os egoísmos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se não houvesse espaço para o amor. Dizem que amar é arriscado, que é coisa de loucos...

Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de nós é uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos também está, de alguma forma, connosco. O amor é o que existe entre nós e nos enlaça os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar é um sinal de que há algo em mim que é maior do que eu... por vezes, nem preciso de chorar.... apenas a vontade me indica o caminho da humildade e do amor. Sozinho não consigo chegar a ser eu...

Uma verdadeira família é simples. É o lugar onde todos amam e protegem a intimidade de cada um. Ninguém é de uma família à qual não se entrega. Mas não é fácil, nunca. É preciso ser forte o suficiente para dizer não a um conjunto enorme de coisas que parecem muito valiosas, mas que não passam de ocas aparências de valor.

Há muita gente que gosta de complicar para fugir ao que é simples. Para que me serve um palácio se nele a minha solidão se faz ainda maior? Quantos desistem de lutar pelo amor com a desculpa de que o preço é alto e o prémio pode afinal não valer o esforço? Quantas vezes a falta de amor é vista como paz? 
A família é algo simples – puro – mas muitíssimo difícil de alcançar. Implica a renúncia constante aos artifícios do fácil e do imediato. Exige que nos concentremos num caminho longo que acreditamos (sem grandes provas) que é o único que nos pode elevar e levar ao céu.

Numa família há afeto e exemplo, há limites e respeito, há quem nos aceite como somos sem deixar de nos animar a sermos melhores, sem excessos mas com a paciência de quem ama.

A paz resulta de um equilíbrio de elementos diferentes, com talentos e perspetivas distintos. Não através de um esforço de anulação do que é único de cada um, mas precisamente pela riqueza de o orientar rumo a um fim conjunto e harmonioso. Uma espécie de enriquecimento recíproco dos contrários. Promover o bem do outro não é fazer com que se torne semelhante a mim.

A minha casa é o lugar onde eu sou o outro a quem alguém pode expressar o seu “tenho vontade de chorar” sem que eu trace juízos de qualquer espécie, e que lhe faça sentir com o meu silêncio, dedicação e presença que a sua vontade já não é só sua... mas minha também.

A minha família é a minha casa. Até podemos ser apenas dois... mas é aí, e só aí, que posso ser feliz. Longe de casa estou sempre a caminho. O meu coração não descansa senão nos braços de quem tem vontade de sorrir e de chorar comigo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

"É Noite, Mãe" - Poema de António Salvado


Johan Krouthén (Swedish artist, 1858-1932)



É Noite, Mãe


As folhas já começam a cobrir 
o bosque, mãe, do teu outono puro... 
São tantas as palavras deste amor 
que presas os meus lábios retiveram 
para colocar na tua face, mãe!... 

Continuamente o bosque se define 
em lividez de pântanos agora, 
e aviva sempre mais as desprendidas 
folhas que tornam minha dor maior. 
No chão do sangue que me deste, humilde 
e triste, as beijo. Um dia para contigo 
terei sido cruel: a minha boca, 
em cada latejar do vento pelos ramos, 
procura, seca, o teu perdão imenso... 

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados, 
que uma qualquer manhã me ressuscite!... 


in "Difícil Passagem"

sábado, 3 de março de 2012

"Um dia Puro" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Johan Krouthén (Swedish artist, 1858-1932), Three women reading in a summer landscape, 1908 
 


Um Dia Puro

 
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas. 


Sophia de Mello Breyner Andresen 
 

 Johan Krouthén, Summer landscape with wandering children, 1913 
 


Degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo…


Mário Quintana



  Johan Krouthén, The old bridge, 1921
 

Livre não sou 

Livre não sou,
que nem a própria vida
mo consente.
Mas a minha aguerrida
teimosia
é quebrar dia a dia
um grilhão da corrente.
 

Miguel Torga 


Poeminha do Contra

E todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho
Eles passarão...
Eu, passarinho!
 



 

Inocência 

Hei de morrer inocente
exatamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.


António Gedeão


domingo, 6 de novembro de 2011

"Cantiga Outonal" - Poema de Cecília Meireles


Johan Krouthén (Swedish artist, 1858-1932)



Cantiga Outonal


Outono. As árvores pensando...
Tristezas mórbidas no mar...
O vento passa, brando... brando...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar...


Cecília Meireles

de 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'