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sábado, 2 de maio de 2026

"Minha Mãe" - Poema de Vinicius de Moraes


 

Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935)
 "Little Brother", c. 1905.


Minha Mãe


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
 

Vinicius de Moraes
(1913–1980),
in "O Caminho para a Distância",
Schmidt Editora, 1933. 

domingo, 6 de abril de 2025

"As crianças doentes" - Poema de A. M. Pires Cabral


 
Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935),
En vaccination, 1899, Skagens Museum.
 
 
As crianças doentes

I

As crianças doentes estão ao colo das mães
na sala de espera, amortecidas
como flores num vaso a que não se muda a água
há muito tempo
ou uma daquelas revistas cuja capa,
de tanto folheadas, se vai esfarrapando.

Soltam breves vagidos onde é possível ouvir
não só a dor, mas também
o quanto estão surpresas por estarem ali,
em vez de em sua casa ou num bosque.

II

As crianças doentes ao colo das mães
pesam mais:
trazem disseminado pelo corpo
o peso excedentário, intruso da doença.

As mães falam desse peso com as outras mães,
comparam entre si os pesos que carregam,
suspiram, acarinham, aconchegam a roupa
das crianças doentes.

III

Na verdade, as crianças doentes
não estão ao colo das mães.

Estão no rosto das mães, vincadas nele
como as mascarras de zarcão no rosto
de um palhaço de circo.

IV

Quando morrem, as crianças doentes
passam a chamar-se anjinhos e são dadas à terra
em pequenos ataúdes brancos.

Porque se acredita
que o branco se dissolve menos
na escuridão do novo ambiente,
conserva intacta a candura em que morreram.

(Porque morrem as crianças doentes?)


A. M. Pires Cabral, em Frentes de Fogo.
Lisboa: Tinta-da- China, 2019.
 

domingo, 22 de setembro de 2024

"Voz do Outono" - Poema de Antero de Quental

 
Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935),
'The pear tree in Ancher's front garden, autumn', Unknown date.




Voz do Outono


Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- "Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!" 


Antero de Quental
, in Sonetos


 
Anna Ancher, 'Pear Tree in Front Yard', Unknown date.
 
 
Outono


Manhã de outono
o verde do mar
também amarela.


Alice Ruiz
, Haikais
 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

"Funeral Blues" - Poema de W. H. Auden (3 traduções)

Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935), A Funeral, 1891,
Statens Museum for Kunst.
 

Funeral Blues


Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.

Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu.
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.

Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.

Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nada mais vale a pena agora do que resta.


W. H. Auden in 'Another Time'
Tradução de Vasco Graça Moura
 
 
 

Funeral Blues


Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.

 

 

Blues fúnebre 


Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.
Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.
Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.
Removam cada oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante. 
 
 
 
 

 
Funeral blues 
(Original)


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message: He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.


W. H. Auden
, in 'Another Time', 1940
 
 
 

Cemitério


       "Tenho horror a hospitais, os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte, mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço, não há flor bonita em campo santo. Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram a minha estima e perderam. 
       Quando um tipo vai além de todas as medidas e de facto me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério – nele não existe jazigo de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar. 
       Raros enterros – ainda bem! – de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante – a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
       Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. “Sigo adiante e o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado." 
 
Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem
 Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei."
 
 
Navegação de Cabotagem de Jorge Amado 
Editor: Dom Quixote, 2021
 

SINOPSE

 
Uma bebedeira com Pablo Neruda, uma reunião política com Picasso, uma visita ao bordel ou ao terreiro de candomblé com Carybé ou Dorival Caymmi, os últimos dias de Glauber Rocha, o pedido de casamento de Miúcha feito em nome de João Gilberto - dezenas de episódios são relembrados com ternura e humor por Jorge Amado, que escreveu Navegação de Cabotagem (1992) na véspera de completar oitenta anos.

Com a serenidade e a sabedoria de quem viveu as maravilhas e os horrores do século XX, o escritor passa em revista momentos marcantes da sua vida, das paixões de juventude à glória literária mundial, da militância política apaixonada à desilusão com o sonho comunista, transformado em pesadelo totalitário.
O exílio, as amizades, os amores, a aprendizagem da cultura popular nas fazendas de cacau, nos prostíbulos, tudo se mistura nestas páginas vibrantes.

Este livro pode ser lido como uma sucessão de vívidas cenas de um filme ao mesmo tempo épico, lírico e cómico. Recordando com franqueza e fina autoironia a sua trajetória de êxitos e obstáculos, de encontros e equívocos, com Navegação de Cabotagem Jorge Amado insere-se a si próprio, por fim, na sua rica galeria de inesquecíveis personagens.(daqui)
 

sábado, 15 de agosto de 2020

"Cantar de Ceifa" - Poema de Félix Lope de Vega


Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935), 'Harvesters', 1905
 


Cantar de Ceifa


Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifar;
deu-me o sol, fiquei morena.

Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.


Félix Lope de Vega
(1562-1635)
Tradução de Jorge de Sena 



Achille Beltrame (Italian painter, illustrator and commercial artist, 1871-1945), Untitled


Indiscrição


 O vento contou:
uma rosa floresceu
no jardim vizinho.

Helena Kolody
(Haicai)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

"Eu sei, mas não devia" - Texto de Marina Colasanti



Anna Ancher, A cottage with light blue curtains and Blue Clematis, 1913
 (Skagen Painters)


Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti, in "Eu sei, mas não devia"


Anna Ancher, Luz solar na Sala Azul, 1891 


"Quando sentimos que a mão da morte nos pousa no ombro, a vida ilumina-se de outra maneira e descobrimos em nós mesmos coisas maravilhosas de que nem sequer suspeitávamos." 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

"Desejos" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


Anna Ancher, Evening Prayer, 1888



Desejos


Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.
Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
- Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não: - Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
- As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não: - Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros
que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.

Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno inseto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.


Affonso Romano de Sant'Anna
 
 

terça-feira, 16 de junho de 2015

"O amor comeu meu nome" - Poema de João Cabral de Melo Neto


Michael Ancher (Danish realist artist, 1849-1927), "Portrait of my wife", 1884
Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859-1935).
 
 
 
O amor comeu meu nome


O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto, Os Três Mal-Amados, 1943
 
 
Michael Ancher (Danish realist artist, 1849-1927), Self-portrait, 1902.
 
 
"Todo artista molha seus pincéis em sua alma, e pinta sua própria natureza".
 
"Every artist dips his brush in his own soul, and paints his own nature into his pictures."
 
 Henry Ward Beecher, Norwood, or, Village life in New England - Página 69,
 Charles Scribner & Company, 1868 - 549 páginas

domingo, 14 de junho de 2015

"As Flores do Monte" - Poema de A. Xavier Rodrigues Cordeiro


Michael Ancher (Danish realist artist, 1849 - 1927),
 Anna Ancher returning from the field, 1902. 



As Flores do Monte


Um ramo agreste do monte.
Não te esqueci, não se creia,
Enlevava-me o horizonte,
Não me passavas da ideia.

Na frente o muro da Infesta,
Altas serras mais além,
Ao pé o rumor da festa,
E tu presente, meu bem!

Ao poente as doidas vagas
Em luta erguidas no mar,
Aos meus pés as rudes fragas
Tu sempre, sempre a lembrar!

Toda a rústica paisagem
Me arrebatava um momento;
Lembrava-me a tua imagem,
Volvias ao pensamento!

Na ermida rezava o monge,
A festa crescia perto,
Eu era só, e tu longe
Povoavas o meu deserto.

E que o amor como a saudade
Sempre na ausência se apura;
De ti longe quem não há de
Amar-te com mais ternura?


António Xavier Rodrigues Cordeiro
(1819-1896)



Anna Ancher, Appraising the Day's Work, 1883, Anna and Michael Ancher looking at their work.