Amor sem fruto, amor sem esperança É mais nobre, mais puro, Que o que, domando a ríspida esquivança, Jaz dos agrados nas prisões seguro.
Meu leal coração, constante e forte, Vendo a teu lado acesos, Flérida ingrata, os ódios, os desprezos, O rigor, a tristeza, a raiva, a morte, Forjando contra mim, por ordem tua, Mil setas venenosas, Em prémio destas lágrimas saudosas, Inda assim continua A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes, Corações inconstantes, De sórdidas paixões envenenados, Vós, a cujos ardores, A cujos desbocados Infames apetites A Virtude, a Razão não põe limites, Suspirai por ilícitos favores, Cevai-vos em torpíssimos desejos, Tratai, tratai de louco um amor casto, Que eu nos grilhões que arrasto; Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.
Peçonhenta aliança, Vergonhoso prazer, de vós não curo; De ti, sim, porque és puro, Amor sem fruto, amor sem esperança.
"A
nossa vida não é espiritualmente senão uma vivência perene de valores.
Viver é tomar posição perante valores e integrá-los em nosso mundo,
aperfeiçoando nossa personalidade na medida em que damos valor às
coisas, aos outros homens e a nós mesmos. Só o homem é capaz de valores,
e somente em razão do homem a realidade axiológica é possível."
[Miguel Reale
(São Bento do Sapucaí, 6 de novembro de 1910 – São Paulo, 14 de abril
de 2006) foi um jurista, filósofo, ensaísta, advogado, poeta, memorialista, teórico integralista e professor
universitário brasileiro.]
Oh Céus! Que sinto n'alma! Que tormento! Que repentino frenesi me anseia! Que veneno a ferver, de veia em veia, Me gasta a vida, me desfaz o alento!
Tal era, doce amada, o meu lamento; Eis que esse deus, que em prantos se recreia, Me diz: — «A que se expõe quem não receia Contemplar Urselina um só momento!
«Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura De seus olhos travessos, e co'um tiro Puni tua sacrílega loucura:
«De morte, por piedade hoje te firo; Vai pois, vai merecer na sepultura À tua linda ingrata algum suspiro.»
Em que estado, meu bem, por ti me vejo, Em que estado infeliz, penoso e duro! Delido o coração de um fogo impuro, Meus pesados grilhões adoro e beijo.
Quando te logro mais, mais te desejo; Quando te encontro mais, mais te procuro; Quando mo juras mais, menos seguro Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.
Assim passo, assim vivo, assim meus fados Me desarreigam d'alma a paz e o riso, Sendo só meu sustento os meus cuidados;
E, de todo apagada a luz do siso, Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.
A cigarra e a formiga - Ilustração de Calvet-Rogniat (1812-1875)
A Cigarra e a Formiga
(A Formiga Boa - Monteiro Lobato)
Houve
uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só
parava quando cansadinha; e seu divertimento era observar as formigas
na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas . Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
- Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
- Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
- E que fez durante o bom tempo que não construiu a sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
- Eu cantava, bem sabe...
-
Ah!.. . exclamou a formiga recordando-se. Era você então que cantava
nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
- Isso mesmo, era eu...
Pois
entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua
cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o
trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil
cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau
tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
in BOCAGE Poemas, Editora Nova Fronteira S/A, 1987
Manuel Maria Barbosa du Bocage
Considerado por muitos autores como o mais completo poeta do nosso século XVIII, Manuel Maria Barbosa du Bocage, filho de um advogado e de uma senhora francesa de quem herdou o último apelido, nasceu a 15 de setembro de 1765, em Setúbal, e morreu a 21 de dezembro de 1805, em Lisboa. Aos 16 anos assentou praça na Infantaria de Setúbal, mas em 1783 alistou-se na Academia Real da Marinha. Em Lisboa, participou na vida boémia e literária e começou a ganhar fama devido à sua veia de poeta satírico. Em 1786 embarcou para a Índia, chegando a ser promovido a tenente; em 1789 aventurou-se a ir a Macau e logo no ano seguinte regressou a Portugal. Em Lisboa encontrou a amada Gestrudes (em poesia Gestúria) casada com o seu irmão. Infeliz no amor, sem carreira e com dificuldades financeiras, dedicou-se à vida boémia e à poesia, tendo publicado, em 1791, o primeiro volume de Rimas. Aderiu então à Nova Arcádia (ou Academia de Belas Letras) onde recebeu o nome de Elmano Sadino. No entanto, Bocage, pela sua instabilidade e irreverência, não se adaptou ao convencionalismo arcádico e abriu conflitos com os seus confrades, sendo expulso em 1794. Três anos depois foi acusado de "herético perigoso e dissoluto de costumes" e, como era conhecida a sua simpatia pela Revolução Francesa, foi preso e condenado pela Inquisição. Quando saiu da reclusão, conformista e gasto, viu-se obrigado a viver da escrita (sobretudo de traduções). Apesar de ter recebido o auxílio de alguns amigos, acabaria por morrer doente e na miséria.
Se formalmente a poesia bocagiana ainda é neoclássica, se nalgum vocabulário e nos processos de natureza alegórica ainda se sente a herança clássica, concretamente a camoniana, pelo temperamento, por grande parte dos temas (como o ciúme, a noite, a morte, o egotismo, a liberdade, o amor - muitas vezes manifestado por uma expressão erotizante) e pela insistência nalgumas imagens e verbos que denunciam uma vivência limite, pode bem dizer-se que uma parte significativa da produção poética de Bocage é já marcadamente pré-romântica, anunciando assim a nova época que se aproxima. Apesar de a sua poesia ser contraditória, irregular, e de os seus versos revelarem concessões artisticamente duvidosas, Bocage é considerado, com justeza, um dos maiores sonetistas portugueses.
As obras de Bocage encontram-se editadas atualmente nas antologias: Opera Omnia, Poesias (antologia que inclui a lírica, a sátira e a erótica) e Poesias de Bocage.
Bocage. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-01-20].
“Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá,
guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol.”
Pintor e caricaturista português, João Abel Manta nasceu a 12 de outubro de 1888, em Gouveia, e morreu a 9 de agosto de 1982, em Lisboa. Ingressou na Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1908, onde se formou em Pintura, tendo como mestre o pintor Carlos Reis. Após uma estada em Paris entre 1919 e 1926, onde expôs algumas das suas obras nos salons, Abel Manta regressou a Portugal. Paralelamente ao exercício da docência da disciplina de Desenho, consagrou-se como pintor naturalista, particularmente no campo do retrato, da natureza-morta e da paisagem (As Maçãs, Folgosinho e Vistas de Gouveia, de 1925, são alguns dos quadros desta época). Em 1926, realizou uma exposição individual, às quais se seguiram exposições coletivas como o Salão de outono da Academia Nacional de Belas-Artes do mesmo ano e várias exposições no Salão de Arte Moderna do Secretariado da Propaganda Nacional. Ao longo da sua carreira, foi agraciado com alguns prémios importantes, tendo conquistado, por exemplo, o prémio atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, na categoria de pintura, na I Exposição de Artes Plásticas, em 1957. Em 1979, foi condecorado pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda da Ordem de Sant'Iago de Espada. Abel Manta destaca-se na sua geração pelo conjunto de excelentes retratos de personalidades da época que realizou. A ele se devem igualmente representações de paisagens urbanas, nomeadamente das cidades de Lisboa e do Funchal. O quadro mais marcante da sua pouco divulgada obra é o Jogo de Damas, de 1927 (Coleção Museu do Chiado). A influência de Cézanne (pintor francês pós-impressionista) manifesta-se no tratamento das superfícies facetadas dos volumes e na acentuação do claro-escuro. A caracterização psicológica das figuras masculina e feminina presentes no quadro é acentuada pela representação dinâmica e quase abstrata do fundo.
Abel Manta. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-25].
Abel Manta, 'Autorretrato com Paleta', 1939
Abel Manta, 'Fumador de Cachimbo', 1928
Abel Manta, 'Folgosinho', 1925
Abel Manta, 'Vista Gouveia', 1925
Abel Manta, 'Vista Gouveia', 1925
Abel Manta, 'Jogo de Damas', 1927
Abel Manta, 'Rua de São Bernardo', 1928
Abel Manta, 'Praça Luís de Camões', 1932
Abel Manta, 'Nu', 1932
Abel Manta, 'Apolo e as Musas', 1934
Abel Manta, Vitral: 'Nossa Senhora de Belém', 1936
"Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu."