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terça-feira, 14 de julho de 2026

"Amor sem fruto, amor sem esperança" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Gillis van Tilborgh (Flemish painter, c.1625–c.1678), 'Village Inn', c. 1657–1659,
Hermitage Museum


Amor sem fruto, amor sem esperança


Amor sem fruto, amor sem esperança
É mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas prisões seguro.

Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes,
Corações inconstantes,
De sórdidas paixões envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Razão não põe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilhões que arrasto;
Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.

Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
,
in 'Excerto de Flérida - Idílio Pastoral'



Obras de Gillis van Tilborgh

Gillis van Tilborgh (Flemish painter, c.1625–c.1678), 'A picture gallery', c.1660–1670
 


Gillis van Tilborgh, 'Elegant Company', c. 1655–1675
 


Gillis van Tilborgh, 'Family Portrait', c.1665, Mauritshuis.
 
 

Gillis van Tilborgh, 'A Noble Family at Meal' ('Family Portrait'), c. 1665–1670,
Museum of Fine Arts, Budapest
 
 
"A nossa vida não é espiritualmente senão uma vivência perene de valores. Viver é tomar posição perante valores e integrá-los em nosso mundo, aperfeiçoando nossa personalidade na medida em que damos valor às coisas, aos outros homens e a nós mesmos. Só o homem é capaz de valores, e somente em razão do homem a realidade axiológica é possível." 

Miguel Reale, 'Filosofia do Direito'
 
[Miguel Reale (São Bento do Sapucaí, 6 de novembro de 1910 – São Paulo, 14 de abril de 2006) foi um jurista, filósofo, ensaísta, advogado, poeta, memorialista, teórico integralista e professor universitário brasileiro.] 
 


Gillis van Tilborgh, 'The Interior of a School Room', 1660


"Mestre, depois de pai, é o nome mais nobre e mais doce que um homem pode dar a outro."

Edmondo De Amicis, em "Cuore" ("Coração"), 1886 


sábado, 10 de fevereiro de 2024

"O poeta asseteado por amor" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Allan Ramsay (Scottish portrait painter, 1713–1784),
'Lady in a Pink Silk Dresse', c. 1762,
Yale Center for British Art.
 

O poeta asseteado por amor
 
 
Oh Céus! Que sinto n'alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver, de veia em veia,
Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: — «A que se expõe quem não receia
Contemplar Urselina um só momento!

«Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e co'um tiro
Puni tua sacrílega loucura:

«De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.»
 
 
Bocage (1765–1805), Sonetos 
 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

"Marília" - Sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage


Edith Martineau (British watercolour painter, 18421909),
'Woman with flowers', n. d.



Marília, nos teus olhos buliçosos



Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios, voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.

Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

Reside em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura. 

És dos Céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura,
Para criar tua alma e teu semblante.


Manuel Maria Barbosa du Bocage



Edith Martineau, 'In deep thought', 1871


Ó tranças de que Amor prisões me tece



Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Ténue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vénus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores. 

Edith Martineau, 'Maid crocheting in a field, with a goat standing', n.d. 


Não, Marília, teu gesto vergonhoso



Não, Marília, teu gesto vergonhoso,
A luz dos olhos teus, serena e pura,
Teu riso, que enche as almas de ternura,
Agora meigo, agora desdenhoso;

Tua cândida mão, teu pé mimoso,
Tuas mil perfeições, crer que a ventura
As guarda para mim, fora loucura;
Nem sou digno de ti, nem sou ditoso.

E que mortal, enfim, que peito humano
Merece os braços teus, oh ninfa amada?
Que Narciso? Que herói? Que soberano?

Mas que lê minha mente iluminada!...
Céus!... Penetro o futuro... Ah, não me engano:
De Jove para o toro estás guardada.


Manuel Maria Barbosa du Bocage




Edith Martineau, 'Still life with chrysanthemums and mimosa', n.d.


"Junto do leito meus poetas dormem
— O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron—
Na mesa confundidos." 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

"Morte, Juízo, Inferno e Paraíso" - Soneto de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Władysław Czachórski (Polish painter, 1850–1911),
'A lady in a lilac dress with flowers', c. 1880/1890.
National Museum in Warsaw


Morte, Juízo, Inferno e Paraíso


Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilhões adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d'alma a paz e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados;

E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. 


Bocage, in 'Sonetos'

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"A Cigarra e a Formiga" - Fábula de Esopo, por La Fontaine

A Cigarra e a Formiga (O Gafanhoto e Formiga no original),
ilustração de Milo Winter, é uma das fábulas atribuídas a Esopo
e recontada por Jean de La Fontaine em francês.


A Cigarra e a Formiga 


Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!
- "Eu lhe pagarei", disse ela,
- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."
A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.
"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.
- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."
- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!" 


Fábula de  Esopo, por La Fontaine


Ilustração de Teguh Mujiono (tigatelu)


A Cigarra e a Formiga
(Bocage)


Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso Estio.

«Amiga, diz a cigarra,
Prometo, à fé d’animal,
Pagar-vos antes d’Agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh! bravo!», torna a formiga.
– Cantavas? Pois dança agora!»


Manuel Maria Barbosa du Bocage


A cigarra e a formiga - Ilustração de Calvet-Rogniat (1812-1875)


A Cigarra e a Formiga 
 (A Formiga Boa - Monteiro Lobato) 


Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas . Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
- Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
- Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
- E que fez durante o bom tempo que não construiu a sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
- Eu cantava, bem sabe...
- Ah!.. . exclamou a formiga recordando-se. Era você então que cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
- Isso mesmo, era eu...
Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol. 

Monteiro Lobato, do livro Fábulas


The Ant and the Grasshopper – by Jr Casas


A Cigarra e a Formiga
(Millôr Fernandes)


Cantava a Cigarra
Em dós sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga
Que, bufando e suando,
Ali, num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho;
Folhas mortas, insetos vivos.
Ao vê-la assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
“Canta, canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No inverno
Quando aumentar a recessão maldita
Você, faminta e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à minha porta.
E na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verás que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!”
Ouvindo a ameaça
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
“Estás por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete,
Uma reprodutora!
Chegado o inverno
Continuarei cantando
- sem ir lá –
No Rio,
São Paulo,
E Ceará,
Rica!
E você continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto só pra multinacionalma.”

sexta-feira, 26 de abril de 2019

"Nascemos para amar" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Jan van Eyck (Pintor flamengo, ca. 1390–1441), 'O Casal Arnolfini', 1434,
National Gallery, Londres.



Nascemos para amar


Nascemos para amar: a humanidade
Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.
Tu és doce atrativo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n’alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou para, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre


Bocage, in 'Sonetos'
 

domingo, 5 de agosto de 2018

"Aos Mesmos" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Albert Guillaume (French painter and caricaturist, 1873–1942), 'Les retardataires', 1914,
Musée Carnavalet
, Paris.



Aos Mesmos


De insípida sessão no inútil dia
Juntou-se do Parnaso a galegage;
Em frase hirsuta, em gótica linguage,
Belmiro um ditirambo principia.

Taful que o português não lhe entendia,
Nem ao resto da cómica salsage,
Saca o soneto que lhe fez Bocage,
E conheceu-se nele a Academia.

Dos sócios o pior silvou qual cobra,
Desatou-se em trovões, desfez-se em raios,
Dando ao triste Bocage o que lhe sobra. 

Fez na calúnia vil cruéis ensaios,
E jaz com grandes créditos a obra
Entre mãos de marujos e lacaios. 


Bocage, in 'Rimas'


domingo, 22 de outubro de 2017

"O passarinho preso" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), 'A favourite pet', 1917


O passarinho preso


Na gaiola empoleirado,
um mimoso passarinho
trinava brandos queixumes
com saudades do seu ninho.

«Nasci para ser escravo
(carpia o cantor plumoso),
não há ninguém neste mundo,
que seja tão desditoso. 

Que é do tempo, que eu passava,
ora descantando amores,
ora brincando nos ares,
ora pousando entre flores?

Mal haja a minha imprudência,
mal haja o visco traidor;
um raio, um raio te abrase,
fraudulento caçador! 

Em que pequei? Porventura
fiz-te à seara algum mal?
Encetei, mordi teus frutos,
como o daninho pardal?

Agrestes, incultas plantas
produziam o meu sustento
inútil aos que se prezam
do alto dom do entendimento... 

Do entendimento! Ah malignos!
vós, possuindo a razão,
tendes de vícios sem conto
recheado o coração.

Ah! Se a vossa liberdade
zelosamente guardais,
como sois usurpadores
da liberdade dos mais?

O que em vós é um tesouro
nos outros perde o valor?
destrói- se o jus do oprimido
pela força do opressor

Não tem por base a justiça
funda-se em nossa fraqueza
a lei, que a vós nos submete,
tiranos da natureza

Em ofensa das deidades
em nosso dano, abusais
da primazia que tendes
entre os outros animais.

Mas, ah triste! Ah malfadado!
Para que me queixo em vão?
Que espero, se contra a força
de nada serve a razão?

Aqui parou de cansado
o volátil carpidor;
eis que vê chegar da caça
o seu bárbaro senhor.

Trazia encostado ao ombro
o arcabuz fatal, e horrendo,
e alguns pássaros no cinto,
uns mortos, outros morrendo.

Das penetrantes feridas
ainda o sangue pingava,
e do cruento verdugo
as curtas vestes manchava

O preso vendo a tragédia,
coitadinho, estremeceu,
e de susto, e de piedade
quase os sentidos perdeu.

Mas apenas do soçobro
repentino a si tornou,
com os olhos nos seus finados
estas palavras soltou: 

«Entendi que dos viventes
eu era o mais infeliz:
que outros têm pior destino
aquele exemplo me diz.

Da minha sorte já agora
queixas não torno a fazer:
antes gaiola que um tiro,
antes penar que morrer».


Manuel Maria Barbosa du Bocage
 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Fiei-me nos Sorrisos da Ventura" - Soneto de Bocage



Henri de Toulouse-Lautrec (French painter, printmaker, draughtsman, caricaturist,
and illustrator, 1864–1901), 'La Goulue arrivant au Moulin Rouge', 1892. 



Fiei-me nos Sorrisos da Ventura


Fiei-me nos sorrisos da Ventura,
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura. 

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta! 

Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte. 
 

Bocage, in 'Rimas'

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"Os Dois Gatos" - Poema de Bocage




Os dois gatos


Dois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).

De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando
Lhe diz: ''Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar.''
''Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és superior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes
Gosto em pilhar algum rato?''
''Sim.'' - E o comes?'' - ''Oh! Se como!...''
''Logo não passa de um gato.

Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura.''


Manuel Maria Barbosa du Bocage
in BOCAGE Poemas, Editora Nova Fronteira S/A, 1987


Manuel Maria Barbosa du Bocage


Considerado por muitos autores como o mais completo poeta do nosso século XVIII, Manuel Maria Barbosa du Bocage, filho de um advogado e de uma senhora francesa de quem herdou o último apelido, nasceu a 15 de setembro de 1765, em Setúbal, e morreu a 21 de dezembro de 1805, em Lisboa. Aos 16 anos assentou praça na Infantaria de Setúbal, mas em 1783 alistou-se na Academia Real da Marinha. Em Lisboa, participou na vida boémia e literária e começou a ganhar fama devido à sua veia de poeta satírico. Em 1786 embarcou para a Índia, chegando a ser promovido a tenente; em 1789 aventurou-se a ir a Macau e logo no ano seguinte regressou a Portugal. Em Lisboa encontrou a amada Gestrudes (em poesia Gestúria) casada com o seu irmão. Infeliz no amor, sem carreira e com dificuldades financeiras, dedicou-se à vida boémia e à poesia, tendo publicado, em 1791, o primeiro volume de Rimas. Aderiu então à Nova Arcádia (ou Academia de Belas Letras) onde recebeu o nome de Elmano Sadino. No entanto, Bocage, pela sua instabilidade e irreverência, não se adaptou ao convencionalismo arcádico e abriu conflitos com os seus confrades, sendo expulso em 1794. Três anos depois foi acusado de "herético perigoso e dissoluto de costumes" e, como era conhecida a sua simpatia pela Revolução Francesa, foi preso e condenado pela Inquisição. Quando saiu da reclusão, conformista e gasto, viu-se obrigado a viver da escrita (sobretudo de traduções). Apesar de ter recebido o auxílio de alguns amigos, acabaria por morrer doente e na miséria.
Se formalmente a poesia bocagiana ainda é neoclássica, se nalgum vocabulário e nos processos de natureza alegórica ainda se sente a herança clássica, concretamente a camoniana, pelo temperamento, por grande parte dos temas (como o ciúme, a noite, a morte, o egotismo, a liberdade, o amor - muitas vezes manifestado por uma expressão erotizante) e pela insistência nalgumas imagens e verbos que denunciam uma vivência limite, pode bem dizer-se que uma parte significativa da produção poética de Bocage é já marcadamente pré-romântica, anunciando assim a nova época que se aproxima. Apesar de a sua poesia ser contraditória, irregular, e de os seus versos revelarem concessões artisticamente duvidosas, Bocage é considerado, com justeza, um dos maiores sonetistas portugueses.
As obras de Bocage encontram-se editadas atualmente nas antologias: Opera Omnia, Poesias (antologia que inclui a lírica, a sátira e a erótica) e Poesias de Bocage.

Bocage. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-01-20].





“Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, 
guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol.”

(Fernando Pessoa)





Michael Bublé - "Home" Official Music Video 


quarta-feira, 27 de março de 2013

"A Rosa" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Ferdinand Georg Waldmüller (Austrian painter, 1793–1865), 'Rosas', 1843


A Rosa


Tu, flor de Vénus,
Corada Rosa,
Leda, fragrante,
Pura, mimosa, 

Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores. 

Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a noturna
Lua inconstante,

Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.

O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor;

Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos;

Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favónio
Te dá mil beijos. 

Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve, e suspira.

A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera;

Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.

Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela; 

Que diga Vénus...
Ela aí vem...
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem.


Bocage, in 'A Rosa'
(Cançoneta Anacreôntica)



Manuel Maria Barbosa du Bocage
[Poeta português, 1765-1805]
 


Ferdinand Georg Waldmüller, 'Natureza morta', Óleo sobre tela


"Queres viver alegremente? Caminha com dois sacos, um para dares, outro para receberes."

Johann Wolfgang von Goethe
 

 
Johann Wolfgang von Goethe
[Polímata, autor e estadista alemão, 1749-1832] 
 
 

Ferdinand Georg Waldmüller, 'Natureza morta', 
1841, Óleo sobre tela, 
 Kovacek Gallery, Viena
 

"A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro."

Benjamim Franklin 
 

 
Benjamin Franklin
[Polímata, político, filantropo, cientista, diplomata
e inventor americano, 1706-1790]

 

Ferdinand Georg Waldmüller, 'Rosas e castiçal', 1835, Coleção particular


"A beleza ideal está na simplicidade calma e serena."

Johann Wolfgang von Goethe



Ferdinand Georg Waldmüller, 'Frutas - Natureza morta com um papagaio', 1824


"Aos 20 anos, a vontade é soberana; aos 30, o espírito; aos 40, a razão." 

Benjamin Franklin



Ferdinand Georg Waldmüller, 'Estrada na floresta com carro de bois',  
Óleo sobre madeira


"O fracasso quebra as almas pequenas e engrandece as grandes, assim como o vento
 apaga a vela e atiça o fogo da floresta."

Benjamin Franklin

quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Liberdade" - Poema de Bocage



Abel Manta (Pintor e professor português,1888–1982),
Vitral:
'Ad Divitias Per Scientiam Numerorum'
, 1933


Liberdade 


Liberdade querida e suspirada, 
Que o Despotismo acérrimo condena! 
Liberdade, a meus olhos mais serena 
Que o sereno clarão da madrugada! 

Atende à minha voz, que geme e brada 
Por ver-te, por gozar-te a face amena! 
Liberdade gentil, desterra a pena 
Em que esta alma infeliz jaz sepultada! 

Vem, oh deusa imortal, vem maravilha, 
Vem oh consolação da humanidade, 
Cujo semblante mais que os astros brilha! 

Vem, solta-me o grilhão da adversidade! 
Dos céus descende, pois dos céus és filha, 
Mãe dos prazeres, doce Liberdade! 




Abel Manta, "Primeiro Autorretrato"


Abel Manta

Pintor e caricaturista português, João Abel Manta nasceu a 12 de outubro de 1888, em Gouveia, e morreu a 9 de agosto de 1982, em Lisboa. 
Ingressou na Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1908, onde se formou em Pintura, tendo como mestre o pintor Carlos Reis. Após uma estada em Paris entre 1919 e 1926, onde expôs algumas das suas obras nos salons, Abel Manta regressou a Portugal. Paralelamente ao exercício da docência da disciplina de Desenho, consagrou-se como pintor naturalista, particularmente no campo do retrato, da natureza-morta e da paisagem (As Maçãs, Folgosinho e Vistas de Gouveia, de 1925, são alguns dos quadros desta época). Em 1926, realizou uma exposição individual, às quais se seguiram exposições coletivas como o Salão de outono da Academia Nacional de Belas-Artes do mesmo ano e várias exposições no Salão de Arte Moderna do Secretariado da Propaganda Nacional.
Ao longo da sua carreira, foi agraciado com alguns prémios importantes, tendo conquistado, por exemplo, o prémio atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, na categoria de pintura, na I Exposição de Artes Plásticas, em 1957. Em 1979, foi condecorado pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda da Ordem de Sant'Iago de Espada.
Abel Manta destaca-se na sua geração pelo conjunto de excelentes retratos de personalidades da época que realizou. A ele se devem igualmente representações de paisagens urbanas, nomeadamente das cidades de Lisboa e do Funchal.
O quadro mais marcante da sua pouco divulgada obra é o Jogo de Damas, de 1927 (Coleção Museu do Chiado). A influência de Cézanne (pintor francês pós-impressionista) manifesta-se no tratamento das superfícies facetadas dos volumes e na acentuação do claro-escuro. A caracterização psicológica das figuras masculina e feminina presentes no quadro é acentuada pela representação dinâmica e quase abstrata do fundo.

Abel Manta. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-25].


Abel Manta, 'Autorretrato com Paleta', 1939
 
 
 
Abel Manta, 'Fumador de Cachimbo', 1928


Abel Manta, 'Folgosinho', 1925


Abel Manta, 'Vista Gouveia', 1925


Abel Manta, 'Vista Gouveia', 1925


Abel Manta, 'Jogo de Damas', 1927


Abel Manta, 'Rua de São Bernardo', 1928


Abel Manta, 'Praça Luís de Camões', 1932


Abel Manta, 'Nu', 1932


Abel Manta, 'Apolo e as Musas', 1934


Abel Manta, Vitral: 'Nossa Senhora de Belém', 1936


"Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu."

(Ruy Barbosa