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domingo, 4 de abril de 2021

"Se" - Poema de Alice Ruiz


August Macke (1887–1914), Ballet russo, 1912, Kunsthalle, Bremen 


Se


se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
 in "Navalhanaliga", 1980


August Macke, The artist's wife in blue hat, 1909 
 
 
 procurando a lua
encontro o sol
mas já de partida  
 
 (Haicai / Haiku)
 
 
Alice Ruiz
 
Poeta e haikaista, Alice Ruiz nasceu em Curitiba, PR, em 22 de janeiro de 1946. Começou a escrever contos com 9 anos de idade, e versos aos 16. Aos 26 anos publicou pela primeira vez seus poemas em revistas e jornais culturais. Lançou seu primeiro livro aos 34 anos. Alice publicou, até agora, 21 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil
Compõe letras desde os 26 anos - tem diversas canções gravadas por parceiros e intérpretes. Lançou, em 2005, seu primeiro CD, o Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola, pela Duncan Discos, com as participações especialíssimas de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes.
Antes da publicação de seu primeiro livro, Navalhanaliga, em dezembro de 1980, já havia escrito textos feministas, no início dos anos 1970 e editado algumas revistas, além de textos publicitários e roteiros de histórias em quadrinhos. Alguns de seus primeiros poemas foram publicados somente em 1984, quando lançou Pelos Pêlos pela Brasiliense. Já ganhou vários prémios, incluindo o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro Vice Versos e o Jabuti de Poesia, de 2009, pelo livro Dois em Um.
Já participou do projeto Arte Postal, pela Arte Pau Brasil; da Exposição Transcriar - Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótica, em 1985, SP; do Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, SP, em 1984; Poesia em Out-Door, 100 anos da Av. Paulista, em 1991; da XVII Bienal, arte em Vídeo Texto e também integrou o júri de 8 encontros nacionais de haikai, em São Paulo.
Tem poemas traduzidos e publicados em antologias nos Estados Unidos, Bélgica, México, Argentina, Espanha e Irlanda, tendo sido também convidada como palestrante na Bienal de Lenguas da América no México e na Europalia Brasil em Bruxelas.
As aulas de haikai são uma experiência única para quem já fez - Alice convence a gente que no fundo de cada um existe um poeta louco para despertar, e descobrimos surpresos que sim, é possível!
 
Carô Murgel, Historiadora (Daqui)
 
 
 August Macke, Tightrope walker, 1913 
 
 
August Macke, Tightrope walker, 1914
  Kunstmuseum Bonn 


"Só o amor e a arte tornam a existência tolerável."

William Somerset Maugham, A Servidão Humana
 
 
W. Somerset Maugham photographed
 by Carl Van Vechten in 1934
 
Escritor e dramaturgo inglês, de nome completo William Somerset Maugham, nasceu em 1874, em Paris, na França, filho de pais ingleses, e faleceu em 1965, em Inglaterra.
O pai trabalhava na embaixada inglesa em Paris e até aos dez anos William Somerset Maugham viveu em França, tendo o francês como primeira língua. Aos dez anos ficou órfão e foi enviado para Inglaterra para viver com um tio.

Estudou Medicina em Londres e tornou-se médico aos 23 anos, embora tenha abandonado esta atividade quando começou a fazer sucesso como escritor.
No mesmo ano em que se licenciou, lançou também o seu primeiro romance, Liza of Lambeth, sobre mulheres grávidas. A Man of Honour, em 1903, foi a sua primeira peça de teatro a chegar aos palcos.
Em 1907, obteve o primeiro sucesso como autor de peças de teatro com Lady Frederick e, logo no ano seguinte, quatro das suas peças estiveram em cena simultaneamente na zona do West End, em Londres. Nessa década e na seguinte escreveu mais algumas peças, algumas delas comédias, que se tornaram bastante populares, permitindo ao autor viver da escrita.

Em 1915, editou o romance Of Human Bondage, um dos poucos que ao longo da sua carreira conseguiu convencer os críticos, tal como viria a acontecer, em 1944, com The Razor's Edge (O Fio da Navalha).
Somerset Maugham lançou, em 1919, o romance The Moon and Sixpence, onde conta a história do pintor Paul Gauguin, que fez bastante sucesso junto do público, embora não tivesse convencido a crítica literária da época. O mesmo se passou em 1930 com Cakes and Ale. Entretanto, em 1921, havia lançado o livro de contos Treambling of a Leaf, onde constava Rain, que viria a ser uma das suas histórias mais apreciadas. Aliás, William Somerset Maugham viria a destacar-se também como contista.

Na autobiografia que lançou em 1938, The Summing Up, referiu que a crítica o via sempre como um escritor de segundo plano. Mais tarde, referiu que só pretendia contar histórias de uma forma simples e acessível e lamentou que isso não fosse considerado positivo pelos meios intelectuais.

Somerset Maugham trabalhou também como espião para os serviços secretos britânicos quando, em 1917, disfarçado de jornalista, acompanhou a Revolução Russa. Contudo, devido à sua saúde débil, depressa regressou a Inglaterra. Desta experiência resultou o romance de espionagem Ashenden; Or The British Agent.
(Daqui)

 
 August Macke, Vegetable fields, 1911, Kunstmuseum Bonn  


"A Arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade."
 
 

sábado, 12 de agosto de 2017

"A dança é a linguagem escondida da alma." - Martha Graham


(Fotógrafo arménio-canadense, 1908 - 2002)
 
 
"A dança é a linguagem escondida da alma."



Martha Graham (11 de maio de 1894, Condado de Allegheny, Pensilvânia – 1 de abril de 1991, Nova Iorque) foi uma dançarina e coreógrafa estadunidense que revolucionou a história da Dança Moderna.
O impacto que a dança de Martha Graham causou nos palcos é frequentemente comparado à influência que Picasso teve para a pintura em seu tempo, ou Stravinsky na música, ou Frank Lloyd Wright na arquitetura. As suas contribuições transformaram essa forma de arte, revitalizando e difundindo a dança ao redor do mundo.
Na sua busca por uma forma de expressar-se mais honesta e livremente, ela fundou a Martha Graham Dance Company, uma das mais conceituadas e antigas companhias de dança nos Estados Unidos.
Como professora, Graham treinou e inspirou gerações de grandes bailarinos e coreógrafos. Entre seus discípulos estão Alvin Ailey, Twyla Tharp, Paul Taylor, Merce Cunningham e incontáveis outros atores e dançarinos.
Ela colaborou com alguns dos mais conceituados artistas de seu tempo, como o compositor Aaron Copland e o escultor Isamu Noguchi. Ela inventou uma nova linguagem de movimento, usada para revelar a paixão, a raiva e o êxtase comuns à experiência humana. Ela dançou e coreografou por mais de 70 anos, e durante esse tempo foi a primeira dançarina a se apresentar na Casa Branca, viajar para o estrangeiro como embaixadora cultural, e receber o maior prémio civil do EUA: a Medalha Presidencial da Liberdade.
Em sua vida, ela recebeu homenagens que vão desde a Chave da Cidade de Paris até a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês. Ela disse: "Passei toda a minha vida com a dança e sendo uma bailarina. É a vida que permite usá-la de uma forma muito intensa. Às vezes não é agradável. Às vezes é terrível. Mas, apesar disso, é inevitável." (Daqui)


(Escritor e fotógrafo, 1880 - 1964)
 
 
"A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspeto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança."



A Tribute to Martha Graham


domingo, 19 de janeiro de 2014

"Se pudesses estar comigo vinte e quatro horas do dia" - In 'Carta de Henry Miller a Anaïs Nin, 1935'



Alfred Stevens (Belgian painter, 1823–1906), The Letter, n.d.


«Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto não poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso dá cor a tudo o que eu diga ou faça. Se soubesses o quão fiel te sou! Não apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui não há qualquer tentação para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser... Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que «se eu nunca tivesse ido para a Europa...», não era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas não posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu és a Europa. Pegaste em mim, um homem despedaçado, e tornaste-me completo. E não hei de desintegrar-me — não existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sensível, mais recetivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico à tua porta e espero por ti, não é porque esteja a tentar humilhar-me. Não há qualquer humilhação para mim nesta luta para te manter. Trata-se apenas da prova de que me encontro intensamente desperto, intensamente alerta, sôfrego, profundamente sôfrego e desesperado por te fazer perceber que o meu grande amor por ti é uma coisa terrivelmente real e bela.

Outrora, eu teria restituído à mulher qualquer sofrimento que eu tivesse de suportar. Mas agora sei que este sofrimento é o resultado do meu próprio comportamento. Sei que, no momento em que algo acontece, algo injusto, isso deve ser por culpa minha. Não é culpa aquilo que sinto, mas uma profunda humildade perante o teu amor. Não duvido de ti, Anais, de qualquer maneira que seja. Deste-me todas as provas que uma mulher pode dar a um homem. Sou eu quem tem de aprender a maneira como aceitar e guardar este amor. Cometi tantos erros estúpidos... Sem dúvida que hei-de cometer mais erros estúpidos. Mas não estou a regredir. Cada novo dia parece levar-me a um nível mais elevado. Ergueste-me até às alturas. Mantém-me lá, imploro-te.

Pensei em dizer-te isto ao telefone, mas acabo por ficar sempre tão perturbado... «Anais, não sou capaz de andar pela rua mergulhado em aflição. Não está certo. Tenho tanto para fazer e não quero destruir-me, nem uma pequena parte de mim. Tudo o que tenho é precioso e tenho tentado manter isso, de modo a poder oferecer-te».

Não ando pela rua aqui como costumava fazer antigamente. As ruas nada têm a dizer-me. Também isso era um colocar do meu Eu no mundo, em vez do desenhar do mundo no seu interior. Agora penso no meu pequeno quarto, o quarto que guardaste para mim, e não vejo a hora de estar de volta a ele, para torná-lo sagrado pelo trabalho. O mundo inteiro parece ter-se incorporado em ti — por que motivo haveria eu de sair para procurá-lo?

Sinto, ao falar com as pessoas, que há algo terrivelmente belo dentro de mim. Sinto a distância existente entre mim e os outros. Guardo essa distância. Agora sei quem sou. Já não existem dúvidas. Mas, quando te afastas de mim, por menor que seja a distância, uma escuridão desce sobre mim e sinto-me esmagado. Para nos prendermos ao que finalmente conseguimos criar entre nós, temos de mover-nos perigosa e rapidamente, com plena consciência. Atingimos algo que apenas raras pessoas conseguiram conhecer. Temos de ser verdadeiros para connosco próprios, para o melhor que conhecemos e sentimos. Se escorregares, devo levantar-te. Se eu escorregar, deves fazer o mesmo. Caso contrário, o mundo tremerá e ver-nos-emos perdidos.

Não penses, Anais, que é o medo de te perder que me faz agir de forma desesperada. Não é medo, mas antes um desejo de te possuir. Aquele que, em mim, tinha medo está morto. Esse meu Eu era passivo, negligente, inconsciente. O homem que agora sou está desperto e ativo; ele salta, luta e não há de abandonar a sua firmeza. Há uma diferença, não vês? O meu velho Eu teria apodrecido na cama, ou ter-se-ia embebedado, ou vagueado pelas ruas, ou procurado um velho amigo. Nunca poderei voltar a fazer estas coisas. Tudo isto era um escudo que me permitia desfrutar a dor e o sofrimento, os quais, na altura, eu provavelmente queria.

Agora não quero qualquer tortura auto-imposta. Hei de colocar-me sempre perante ti, face a face, rapidamente, diretamente. Não hei de permitir que um único erro, um único acidente, se transforme num mal-entendido. Não hei de permitir que uma única erva daninha cresça neste jardim que estamos a construir. Terrivelmente, a vida é demasiado curta para tudo aquilo que desejamos fruir juntos. Temos de agarrar o tempo e apertar-lhe o pescoço. Temos de viver no interior um do outro.

Quando te telefonei, não estava certo de que iria conseguir apanhar-te. Telefonei duas vezes entretanto, e informaram-me de que não estavas. Estava encharcado em suor. Percorri a tua rua para cima e para baixo, dei uma volta ao quarteirão, andei à procura em restaurantes, voltei e fiquei à tua porta. Se não te tivesse apanhado por telefone ia enviar-te um telegrama, e depois voltar para te escrever uma carta de entrega especial. Procurei na lista telefónica o nome Guiler, pensando que poderia apanhar-te em tua casa — em vossa casa. Não consegui encontrar o endereço. E, caso tivesse esperado por ti esta noite e não te tivesse encontrado, teria procurado pelo Rank e teria tentado retirar-lhe a informação — à força, se necessário.

Eu não era capaz de imaginar onde poderias estar, o que estarias a fazer. Não era capaz de acreditar que ainda estavas zangada comigo, mas apenas que estavas a afastar-te de mim, magoada, desnorteada, sem esperanças no meu amor. É nessa altura que Nova Iorque me parece monstruosa - a sua dimensão, os recantos, a desesperança de encontrar a pessoa pela qual se procura freneticamente. Tornamo-nos uma palha, um fio soprado pelo vento, dilacerados por cada memória, amaldiçoados, perdidos, incompletos, arremessados na ventania. Dizes que estavas a chorar. Também eu estava a chorar, a andar pelas ruas com as lágrimas a caírem-me pela cara. Oh, porquê? Porquê? Porque temos de sofrer? Seremos tão sensíveis, estaremos tão expostos a cada dardo? Isto é simultaneamente belo e terrível. Mas é como se se tratasse de gémeos a tentarem afastar-se. Deixa que nos unamos, de forma absoluta. Muda-te para dentro de mim, Anais, e fica lá, nunca saias de lá, nem num pensamento que seja.

Tanto tu quanto eu já passámos por tantas experiências terríveis e angustiantes! Não podemos afogar tudo isso no nosso amor? Agora sabes que eu não tenho falsas ideias sobre ti, que te aceitei enquanto mulher, enquanto minha mulher. Não me castigues por ser lento. Mais vale agradecer às estrelas por termos saído das dificuldades vitoriosos. Uma vez disse-te numa carta o quão certo eu estava acerca do facto de o destino de uma pessoa estar no seu interior e não fora de si, nas estrelas. Cada vez mais sinto isso. E tu? E tu? Também deves sentir, porque a tua carta diz isso. O ousado salto que deste... O que poderia isso ser senão a resposta a um ditame interior? Tinhas de saltar por mim, para me mostrar o caminho. Provaste aquilo que te disse que era uma maravilhosa afirmação (recordas-te?): «Nenhuma ousadia é fatal». Viste-a nas notas que estavam sobre a minha mesa na Villa Seurat. Lembro-me bem de tudo aquilo que alguma vez notaste. Consigo ver a luz no teu rosto, as tuas mãos ávidas, os teus gestos graciosos e semelhantes aos de um pássaro. És como a própria luz para mim — por onde quer que passes, há sempre um brilho ofuscante.

Perdoas-me por escrever tudo isto, em vez de estar a trabalhar? Não será isto, a nossa vida, mais importante do que o trabalho? Trabalho! Trabalho! Para que estou a trabalhar? Originalmente, eu deveria ter uma opinião terrivelmente exagerada de mim mesmo, um amor terrivelmente exagerado por mim mesmo; tornei o trabalho um fetiche e tentei desculpá-lo por meio de inúmeras mentiras e engodos. Estava a erigir um monumento a mágoas passadas. Mas, agora tudo isso acabou. Tenho o rosto virado na direção do futuro, alegremente. O trabalho tornar-se-á mais natural; deixará de ser um fim em si mesmo. Eu estava a tornar-me inumano. Mas tu salvaste-me.

Agora dou-me conta de que sou um ser humano completo; e, como ser humano que sou, devo ser mais para ti do que o maior artista que se possa imaginar. Nada se perdeu com esta mudança. Pelo contrário: tudo está ganho. Não és uma rival do meu trabalho. Não és a musa que é sacrificada. Quão intensamente cônscio estou, e quão agradecido a ti, por teres realizado este milagre! Trata-se de uma criação tua, perfeitamente humana, conseguida por meio da mais amarga das batalhas. O que tu alcançaste é nada menos que heroico. Se fosses uma mera mulher, terias falhado. És uma artista - na vida -, e que melhor elogio poderia fazer-te? Eu era apenas artista nas palavras, ao passo que na vida, era um cruel falhanço. Palavras, palavras... Como elas são capazes de sufocar a alma! Deem-me a mulher e as palavras hão de ocupar o seu próprio lugar. Eu era um escravo das palavras. Agora vou passar a usá-las.

Por vezes, penso que a minha vinda para aqui deveria ter este único resultado definitivo: o de que a minha personalidade será sentida e reconhecida. Penso, se é que posso esperar uma recompensa devida, que, uma vez que tiver convencido as pessoas da minha integridade, qualquer coisa que eu faça ou diga, qualquer coisa que escreva, irá encontrar a sua aprovação. As pessoas não poderão ignorar-me quando souberem quem sou, quando conhecerem a minha sinceridade, a minha seriedade. Já não tenho qualquer desejo de ser o bobo, o injuriado, o negligenciado. Anseio agora por conquistar as pessoas, estar à sua frente e falar-lhes, convencê-las. Já não se trata de uma questão de literatura mas da minha vida, da minha vida contigo. Sinto-o de uma maneira tão forte que tenho a certeza de que isso deve fazer-se sentir.

Talvez eu acabe por ser muito, muito mais simples. Cada palavra deve queimar. As palavras estão repletas do meu sangue, da minha paixão por ti, da minha fome de vida, de mais vida, da vida eterna. Tu deste-me vida, Anais. És a chama que tenho acesa dentro de mim. E eu sou o guardião dessa chama. Também eu tenho uma função sagrada.

Oh, não vês, não conheces, não acreditas em tudo o que te escrevo? Não é tudo claro, verdadeiro e justo? Não ficarás comigo, dentro de mim, para sempre? Venho de uma tremenda distância só para te encontrar. Dizer que te amo não basta. É mais, mais. Sonda dentro de mim, escava tudo o que se encontra dentro de mim. Sinto-me inesgotavelmente rico.»


Henry Miller
, in "Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1935"



Foto de Henry Miller em 1940, por Carl Van Vechten
 

Henry Valentine Miller (Manhattan, New York, 26 de Dezembro de 1891 – Los Angeles, 7 de Junho de 1980), foi um escritor norte-americano.
Seu estilo é caracterizado pela mistura de autobiografia com ficção. Muitas vezes lembrado como escritor pornográfico, escreveu também livros de viagem e ensaios sobre literatura e arte. O autor foi homenageado pelo célebre crítico Otto Maria Carpeaux em prefácio para o livro O Mundo do Sexo, editora Pallas 1975, Rio de Janeiro.
Uma de suas amantes foi a escritora Anaïs Nin. Há um filme ficcional sobre o período da vida em que eles se conheceram, Henry and June, baseado nos diários de Anaïs.

Henry Miller tornou-se um clássico quando publicou a trilogia "Sexus, Plexus, Nexus", que ele chamou "A Crucificação Encarnada". Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Sobre seu processo, declarou: "fiz uso, ao longo desses livros, de irruptivos assaltos ao inconsciente, tais como sonhos, fantasia, burlesco, trocadilhos pantagruélicos, etc, que emprestam à narrativa um caráter caótico, excêntrico, perplexo". Tudo isso é verdade, mas também o é que Miller vivia na pândega e descrevia isso.

Embora a obra de Henry Miller se tenha tornado, para parte do público e crítica, sinónimo de literatura erótica, há também muitas passagens filosóficas em seu livros mais famosos, obras nada obscenas ou lascivas. Por exemplo, "Big Sur e As Laranjas de Hieronimus Bosch" tem como eixo principal a narrativa prosaica dos dias em que a personagem autobiográfica de Miller vive, com sua penúltima mulher e filhos, na isolada, pacata e "mística" região de Big Sur, na Califórnia (EUA). O mote da obra é um descrição repleta de digressões e recortes de episódios já narrados em outros livros com o fim de comparar as peculiaridades "puras" de Big Sur com os que detêm completamente as confortáveis benesses e também as tragédias comportamentais da pós-modernidade.

Outra obra que passa longe de temas e motivos eróticos é "Colosso de Marússia". O livro baseia-se numa viagem feita pelo autor à Grécia, antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Na verdade, vê-se, ao longo de todo o livro, um Miller deslumbrado com a magnanimidade da cultura ancestral grega, assim como faz uso das descrições e análises do povo grego para contrapor a simplicidade à "civilização da guerra" - representada, muitas vezes, por referências ao nova-iorquino médio.



Foto de Anaïs Nin, na déc. de 1970, por Elsa Dorfman.
 

Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, perto de Paris — 14 de janeiro de 1977, Los Angeles) batizada Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, foi uma autora nascida em França.
Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler.
Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e europeia.
Foi realizado no cinema em 1990 um filme, Henry & June, dirigido por Philip Kaufman, que falava do período que Anaïs Nin conheceu Henry Miller. Anaïs Nin foi interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros.