Mostrar mensagens com a etiqueta Anjos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Anjos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

"A Graça" - Poema de Alexandre Herculano

 

Marcantonio Franceschini (Italian painter of the Baroque period, 1648–1729),
"The Guardian Angel", 1716.


A Graça


Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e púrpura descendo
C’oas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...


Alexandre Herculano
(1810–1877),

in "Poesias", 1850.


sexta-feira, 29 de março de 2019

"Aos olhos dele" - Poema de Florbela Espanca



Thomas Cooper Gotch (English painter and book illustrator,
 18541931), 'A vision of angels'


Aos olhos dele


Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa;
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus! 


Florbela Espanca,
in "A Mensageira das Violetas"


Thomas Cooper Gotch, 'The Awakening', c. 1898


"Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam."


(Clarice Lispector


domingo, 25 de novembro de 2018

"Anunciação a Maria" - Poema de Rainer Maria Rilke



Abbott Handerson Thayer (American painter, naturalist, and teacher,
1849–1921), 'Angel', 1887, Smithsonian American Art Museum.
 

Anunciação a Maria


Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os refletem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubéssemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura -).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.


Rainer Maria Rilke, in 'A vida de Maria'
Trad. Yvette K. Centeno
 
 


Abbott Handerson Thayer, 'An Angel', 1893, 
Milwaukee Art Museum (United States).



Anunciação


Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras, quando
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura que um Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os Anjos é laborioso. (Oh, se fosse possível saber
como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz, o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.


Rainer Maria Rilke, in 'A vida de Maria'
Trad. Maria Teresa Dias Furtado
 

sábado, 3 de março de 2012

"Maria" e "O Divino" - Poemas de Rainer Maria Rilke e Johann Wolfgang von Goethe


 
Salvador Dalí, Maria conferens in corde suo (Matthew 1:23), 1964-67.


Maria


Não tivesses tu simplicidade, como poderia
acontecer-te o que agora a noite enche de luz?
Vê, o Deus que sobre os povos em ira ardia
torna-se manso e em ti ao mundo vem Jesus.

Terias imaginado maior esse Menino?

O que é a grandeza? Através de toda a medida
pela qual Ele passa, se traça o Seu vertical destino.
Nem mesmo um astro tem uma rota assim erguida.
Vês, estes reis são grandes, imponentes,

diante de ti depositam presentes

que tomam por tesouros sem par,
e talvez te assombre a oferenda que aí está:
mas para as pregas dos teus panos dirige teu olhar,
vê como Ele tudo supera já.

Todo o âmbar que se envia para a distância

Todas as joias de ouro e especiaria do ar,
que turvando-se nos sentidos se vêm envolver:
tudo isto rapidamente veio a terminar,
e por fim todos se vieram a arrepender.

Mas, hás de ver, Ele enche de alegria toda a ânsia.


Rainer Maria Rilke, 'A Vida de Maria' 
(Tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado),
Lisboa: Portugália Editora, 2008, p. 67.



 
Amelia Jane Murray or Lady Oswald (Victorian fairy artist, 1800-1896),
'Fada' (Ilustração) 


O Divino 


Nobre seja o homem, 
Caridoso e bom! 
Pois isso apenas 
É que o distingue 
De todos os seres 
Que conhecemos. 

Glória aos incógnitos 
Mais altos seres 
Que pressentimos! 
Que o homem se lhes iguale! 
Seu exemplo nos ensine 
A crer naqueles! 

Pois insensível 
É a natureza: 
O sol espalha luz 
Sobre maus e bons, 
E ao criminoso 
Brilham como ao santo 
A lua e as estrelas. 

Vento e torrentes, 
Trovão e saraiva 
Rugem seu caminho 
E agarram, 
Velozes passando, 
Um após outro. 

Tal a sorte às cegas 
Lança mãos à turba 
E agarra os cabelos 
Do menino inocente 
Ou a fronte calva 
Do velho culpado. 

Por eternas leis, 
Grandes e de bronze, 
Temos todos nós 
De fechar os círculos 
Da nossa existência. 

Mas somente o homem 
Pode o impossível: 
Só ele distingue, 
Escolhe e julga; 
E pode ao instante 
Dar duração. 

Só ele é que pode 
Premiar o bom, 
Castigar o mau, 
Curar e salvar, 
Unir com proveito 
Tudo o que erra e divaga. 

E nós veneramos 
Os Imortais 
Como se homens fossem, 
Em grande fizessem 
O que em pequeno o melhor de nós 
Faz ou deseja. 

Que o homem nobre 
Seja caridoso e bom! 
Incansável crie 
O útil, o justo, 
E nos seja exemplo 
Dos Seres pressentidos.


 Tradução de Paulo Quintela 



Amelia Jane Murray or Lady Oswald, 'Fada' (Ilustração)


"Orar não é pedir. Orar é a respiração da alma. Como o corpo que se lava não fica sujo, 
sem oração se torna impuro."
 
 (Mahatma Gandhi)


Fritz Zuber-Buhler, 'The Spirit Of The Morning', c. 1896


"Existe uma única estrada e somente uma, e essa é a estrada que eu amo. Eu a escolhi. 
Quando trilho nessa estrada as esperanças brotam, e, o sorriso se abre em meu rosto. 
Dessa estrada nunca, jamais fugirei." 
 
(Daisaku Ikeda)

[Daisaku Ikeda (Tóquio, Japão, 2 de janeiro de 1928) é um filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista japonês. Foi galardoado em 2007 com o Prémio Mundial do Humanismo pela Academia do Humanismo da Macedónia.]



Charles Edward Perugini (Italian-born English painter, 1839–1918)



"Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo,
 a alma está de joelhos." 
 
 (Victor Hugo)