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domingo, 19 de abril de 2015

"Há um tempo para estar só" - Poema de Rui Caeiro


Sculpture by Michael ParkesAngel of August, 2011



Há um tempo para estar só


Há um tempo para estar só
há um tempo para estar nu
há um tempo que falta para ser
o bastante uma coisa e outra
há um ponto em direção ao tu

que é necessário atravessar e que
é necessário, coragem, minar
e há um ponto sem chão
nem ponte em que só é preciso
abrir os braços e voar.

"O Quarto Azul e Outros Poemas"

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Pois morre-se de muita coisa" - Poema de Rui Caeiro


Sculpture by Michael Parkes, "Night Flight"



Morre-se 

 
Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito
 
do livro 'Sobre a nossa morte bem muito obrigado', 
 editor: & Etc


Rui Caeiro


Rui Caeiro é um poeta português, nascido em Vila Viçosa, no dia 27 de junho de 1943.  Estreou com o volume Deus, sobre o magno problema da existência de Deus (1988), e ainda publicou, entre outros, Sobre a nossa morte bem muito obrigado & etc (1989), Livro de Afectos (1992) e O Quarto Azul e outros poemas (2011). Traduziu obras de Rainer Maria Rilke, Robert Desnos, Nâzim Hikmet, Ramón Gómez de la Serna, Roger Martin du Gard, entre outros. (Daqui)