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quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Eu Sou Português Aqui" - Poema de José Fanha


Júlio Pomar, Café Nicola - Serigrafia



Eu Sou Português Aqui


Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Júlio Pomar
Retrato de Júlio Pomar por Bottelho
(Carlos Botelho ou Bottelho (Chaves, 1964) é um pintor e escultor português.)


Artista português, Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, na rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e inscreveu-se aos 16 anos na ESBAL. A primeira exposição, juntamente com Vespeira, Fernando Azevedo e Pedro Oom, foi realizada num atelier da rua das Flores, e aí Almada Negreiros comprou-lhe o primeiro quadro, Saltimbancos.


Júlio Pomar, O Gadanheiro, 1945

Na Escola de Belas-Artes do Porto conhece o arquiteto e pintor Fernando Lanhas. Por esta época defende uma arte de intervenção, exemplificada em O Gadanheiro (1945) e, mais tarde, no conhecido O Almoço do Trolha, que ficaria para a História como um símbolo de uma época.



Júlio Pomar, O almoço do trolha, 1946-50, óleo sobre tela, 120 x 150 cm

Durante a prisão em Caxias, consequência da sua atividade militante, retrata o futuro presidente da república Mário Soares, na altura um companheiro de cela.


 Júlio Pomar, Retrato de Mário Soares


 Nos anos 50 é representado na Bienal de São Paulo e viaja até Espanha e França. Inicia neste período um dos seus numerosos ciclos, o "ciclo do arroz", fase em que se aproxima do chamado realismo socialista. É um dos fundadores da Cooperativa "Gravura" e é representado na Bienal de gravura de Tóquio. Trabalha ainda em cerâmica e em escultura para decoração. 
Em 1961 ganha o prémio de Pintura da Fundação Gulbenkian e começa o ciclo das Tauromaquias. Parte para Paris em 1962 como bolseiro da Gulbenkian e dois anos depois faz a sua primeira exposição individual na capital francesa. Participa em inúmeros certames internacionais, nos Estados Unidos e no Japão.



Júlio Pomar - O Luxo, 1979, Tela da série Os tigres 


 Depois da série dos Tigres, do início dos anos 80, inicia uma reflexão sobre figuras da História portuguesa: Fernando Pessoa, Luís de Camões, Mário de Sá-Carneiro, Fernão Mendes Pinto.



Júlio Pomar - Fernando Pessoa


O Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian organiza uma exposição antológica da obra do artista, apresentada em Brasília, em São Paulo e no Rio de Janeiro em 1996, e em Lisboa em 1997. Em O Paraíso e outras histórias, exposição integrada no programa de Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura, reúne uma série de trabalhos datados de 1991 a 1994 em que evoca cenas bíblicas e episódios mitológicos sem negligenciar o tom irónico.



Júlio Pomar - D. Quixote 


Nos anos 90 Júlio Pomar reparte o seu tempo entre Paris e Lisboa. A galeria Piltzer, na exposição "Les Joies de Vivre", patente ao público em Paris de 12 de dezembro de 1997 a 29 de janeiro de 1998, apresenta 6 trípticos e 2 quadrípticos em que os temas mitológicos, a personagem de D. Quixote ou o percurso do artista por terras brasileiras servem de pretexto para a exaltação do prazer dos sentidos. 
Para além de pintor, Pomar revelou-se como poeta na "International Poetry Magazine" em 1973, estando os seus poemas reunidos no livro Alguns Eventos, editado pela D. Quixote em 1992. Em Da Cegueira dos Pintores (edição portuguesa - 1986) publica ensaios sobre a arte e a criação.

Júlio Pomar. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-04-21].



Júlio Pomar - I



Júlio Pomar - II



segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Tarde no mar" - Poema de Florbela Espanca


Obra de Mário Cesariny 



Tarde no mar


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia 
O horizonte: um cacto purpurino. 
E a vaga esbelta que palpita e ondeia, 
Com uma frágil graça de menino, 

Poisa o manto de arminho na areia 
E lá vai, e lá segue ao seu destino! 
E o sol, nas casas brancas que incendeia. 
Desenha mãos sangrentas de assassino! 

Que linda tarde aberta sobre o mar! 
Vai deitando do céu molhos de rosas 
Que Apolo se entretém a desfolhar... 

E, sobre mim, em gestos palpitantes, 
As tuas mãos morenas, milagrosas, 
São as asas do sol, agonizantes... 


in "Charneca em Flor"



Retrado de Mário Cesariny por Botelho


Mário Cesariny de Vasconcelos (Lisboa, 9 de Agosto de 1923 — Lisboa, 26 de Novembro de 2006) foi pintor e poeta, considerado o principal representante do surrealismo português. É de destacar também o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal.



Obra de Mário Cesariny - Óleo sobre cartão



Obra de Mário Cesariny
 


Obra de Mário Cesariny



"(…) O homem tem necessidade de beleza.(…) A arte clarifica os espíritos e dignifica o homem. A arte humaniza. (…)".

Nadir Afonso

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"O Cavalo" - Poema de Natália Correia





O Cavalo 


Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?

Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar. 


Natália Correia



Natália Correia retratada por Bottelho


Natália de Oliveira Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993) foi uma intelectual, poetisa e activista social açoriana, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago (Prémio Nobel de Literatura, 1998), Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). 

A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas. Na madrugada de 16 de Março de 1993, morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim que fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa.

A sua morte precoce deixou um vazio na cultura portuguesa muito difícil de preencher. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa) constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.





"Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!"


(William Shakespeare)

















"A carne é o alimento de certos animais. Todavia, nem todos, pois os cavalos, os bois e os elefantes se alimentam de ervas. Só os que têm índole bravia e feroz, os tigres, os leões etc. podem saciar-se em sangue. Que horror é engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos."
(Pitágoras)





"A raça humana não pode prosperar enquanto não aprender que há tanta dignidade em cultivar campos quanto em escrever um poema."

(Booker Washington) 


Booker Taliaferro Washington, (5 de abril de 1856, em Condado de Franklin, Virginia, EUA - 15 de novembro de 1915) foi um escritor e educador estadunidense. Por falta de recursos da família não frequentou a escola e, aos nove anos, começou a trabalhar para sobreviver, inicialmente numa fábrica de sal e, depois, em minas de carvão. Determinado a estudar, entrou para o Instituto Normal e de Agricultura de Hampton (1872), onde trabalhou como zelador para custear os estudos. Graduado (1875), passou a lecionar para crianças e adultos. Julgando a cultura e a qualificação profissional mais eficazes que a luta política pelos direitos civis, conseguiu entrar para a administração de Hampton (1879) e participou de um bem-sucedido programa experimental de educação indígena. Foi nomeado diretor da nova escola normal de negros em Tuskegee, Alabama (1881), onde ficou até sua morte. Seu sucesso nessa função tornou-o porta-voz dos negros americanos. Entre seus livros destacaram-se duas autobiografias, Up from Slavery (1901) e My Larger Life (1911).


domingo, 18 de setembro de 2011

"A Maior Flor do Mundo" - de José Saramago





"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"




A Maior Flor do Mundo



“Se quiseres falar ao coração de um homem, conta uma história. Dessas em que não faltam animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim, suave e docemente que se despertam consciências”. 




Retrato de José Saramago por Bottelho


"O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses."


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