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sábado, 9 de maio de 2026

“Vigília das Mães” - Poema de Cecília Meireles



Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
'Mrs Weguelin and her son', 1889.


Vigília das Mães


Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.

Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.

Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.

Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.

Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.

1960

Cecília Meireles

in 'Antologia Poética', 1963

quinta-feira, 18 de julho de 2024

"Ergo meus olhos " - Poema de Armando Côrtes-Rodrigues


Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920), 'Our Daily Bread', 1886.
['Our daily bread' depicts the artist's mother sitting at the edge of a ditch, cooking potatoes
for the harvesters.
] Watercolor on paper, 68 cm x102 cm. Nationalmuseum, Stockholm.


Ergo meus olhos


Ergo meus olhos vagos, na distância
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.

Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da vida que vivi.

Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.


Armando Côrtes-Rodrigues
 (1891-1971),
in 'Revista Orpheu'

Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920), 
'Hugo Reisinger holding a fashionable grey Homburg hat', 1907. National Gallery of Art.
[Hugo Reisinger, 1856-1914, was a wealthy German-American businessman and art collector.]



"A obra só se completa e vive quando expressa. Nos meus quadros, o ontem se faz presente no agora. Lanço-me na pintura e na vida por inteiro, como um mergulhador na água. A arte é também história. E expressa a nossa humanidade. A arte é intemporal, embora guarde a fisionomia de cada época."


Iberê Camargo (Pintor, professor e gravurista brasileiro, 19141994)
 

sábado, 19 de setembro de 2020

"Divórcio" - Poema de Pedro Homem de Mello


Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
  Omnibus I, 1892, Nationalmuseum, Stockholm.


Divórcio



Cidade muda, rente a meu lado,
Como um fantasma sob a neblina...
Há cem mil rostos. Tanto soldado
E tanto abraço desesperado
Nesta cidade tão masculina!

Cidade muda como um soldado.

Cidade cega. Todos os dias,
A nossa vida fica mais breve,
As nossas mãos ficam mais frias...
Todos os dias, todos os dias,
A morte paga, paga a quem deve.

Cidade cega todos os dias.

Cidade oblíqua. Sexo pesado.
Rio de cinza, lúgubre e lento...
Bandeira negra, barco parado,
Nunca o teu nome foi batizado
Nem o teu beijo foi casamento!

Cidade minha, do meu pecado...

Cidade estranha, sabes que existo?
Os homens passam... Para onde vão?
Só tem amores quem não for visto.
Por isso canto, só porque insisto
Em dar combates à tentação.

Oh! a volúpia de não ser visto!


Pedro Homem de Mello,
in "Grande, Grande Era a Cidade..."


Anders Zorn, Self-Portrait with Model, 1896.


Prefácio


De nada sei
Como as rosas.

De nada sei
Como as nuvens.

De nada sei
Como as pedras
Que nada sabem de mim.


Pedro Homem de Melo 



Anders Zorn, Self-Portrait with Hat, 1907


"A visão torna o mundo uma janela, mas percebemos que há outras dimensões igualmente fulcrais do olhar. A começar pela dimensão de reflexividade: o nosso corpo, que olha todas as coisas, pode também olhar-se; ele é ao mesmo tempo vidente e visível." 
 
José Tolentino de Mendonça, A Mística do Instante, 2014


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"O Velho" - Poema de Rui Knopfli



Bruno Liljefors (Swedish wildlife painter, 1860–1939), 1906, by Anders Zorn.



O Velho


Não envelheço. Torno-me antigo.
O velho sempre viveu em mim,
sempre o pressenti no olhar
magoado demorando-se nas coisas,
em certa lentidão não premeditada
dos gestos e nas lembranças confusas
de uma outra recuada idade.
Sempre aflorou na mão e na estima
triste que se estende aos amigos,
na aresta de desconsolo que espreita
as minhas horas de amor.
O velho sempre viveu em mim.
Eis que, enfim, o reboco
se lhe começa a assemelhar.


Rui Knopfli, in Memória Consentida: 
20 Anos de Poesia 1959-1979, 1982.
 

Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
 Self-portrait in red, 1915.


Sem nada de meu


Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou creem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

"As Ventoinhas" - Poema de Machado de Assis


Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920), 
 Sommarnöje (Prazer de Verão), 1886.


As Ventoinhas


A mulher é um cata-vento, 
Vai ao vento, 
Vai ao vento que soprar; 
Como vai também ao vento 
Turbulento, 
Turbulento e incerto o mar. 

Sopra o sul: a ventoinha 
Volta azinha, 
Volta azinha para o sul; 
Vem taful; a cabecinha 
Volta azinha, 
Volta azinha ao meu taful. 

Quem lhe puser confiança, 
De esperança, 
De esperança mal está; 
Nem desta sorte a esperança 
Confiança, 
Confiança nos dará. 

Valera o mesmo na areia 
Rija ameia, 
Rija ameia construir; 
Chega o mar e vai a ameia 
Com a areia, 
Com a areia confundir. 

Ouço dizer de umas fadas 
Que abraçadas, 
Que abraçadas como irmãs 
Caçam almas descuidadas... 
Ah!  que fadas! 
Ah que fadas tão vilãs! 

Pois, como essas das baladas, 
Umas fadas, 
Umas fadas dentre nós, 
Caçam, como nas baladas; 
E são fadas, 
E são fadas de alma e voz. 

É que — como o cata-vento, 
Vão ao vento, 
Vão ao vento que lhes der; 
Cedem três coisas ao vento: 
Cata-vento, 
Cata-vento, água e mulher. ~


Machado de Assis, in 'Crisálidas'


Anders Zorn, Lady with fur cape, 1887, watercolor on paper.


"Mesmo a mulher mais sincera esconde algum segredo no fundo do seu coração."