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sábado, 26 de março de 2016

"Povo que lavas no rio" - Poema de Pedro Homem de Mello


Arkady Rylov (Russian and Soviet Symbolist painter, 1870-1939),
The Mouth of the Orlinka River, 1928.



Povo que lavas no rio


Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros a fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! Eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!


Pedro Homem de Mello, in "Miserere"


Dulce Pontes - Povo que lavas no rio

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"Onde o mar falta" - Poema de Octávio Mora


Édouard Manet, Rochefort's Escape (L'évasion de Rochefort), 1881


Onde o mar falta



Entreabertas as pernas, e pousada
de leve, sobre os ombros, a cabeça,
parecias às vezes, derramada
no fundo, mais espessa.

E eras líquida: vias, através
de tua própria sombra transparente
a luminosidade dos teus pés,
alados. Porque ausente.

Jamais dizias nada. Sempre tinhas
entre os lábios, a voz silenciosa
dos que voltam. Onda após onda, vinhas
(e vens) misteriosa.

Desde a profundidade, do mar. Brusco
nas suas reações, onde o mar falta
sob as ondas, aí, aí te busco —
e és, como as ondas, alta.

Quando olho o horizonte: quando tudo
se dissolve em si mesmo e, onda após
onda, me calo. Vejo, e estou mudo.
O mar na tua voz.

Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar,
que tudo era horizonte.


Octávio Mora,
in 'Terra Imóvel' 


Octávio Mora (1933-2012), poeta nascido na Argentina e radicado no Brasil, participou da Geração de 1945 da poesia brasileira.
Aposentou-se como professor titular de Literatura n UFRJ. Estreou em poesia com o livro Ausência viva (1956). Depois publicou Terra imóvel (1959). A esses se seguiram Corpo habitável (1967), Pulso horário (1968), Saldo prévio (1968) e Exílio urbano (1975). 
Também formado em Medicina, exerceu durante alguns anos a profissão de médico.


Dulce Pontes e Andrea Bocelli - O Mar E Tu 


"O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida."

(Franz Kafka)


domingo, 24 de julho de 2011

"Canção do Mar" - Poema de Frederico de Brito


José Navarro Llorens (pintor espanhol, 1867-1923), Dia nublado



Canção do Mar

 
Fui bailar... no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber 
Se o mar terá razão
Vem cá ver 
Bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo 
Aonde eu fui cantar, sorrir, bailar, 
Viver, sonhar contigo


Frederico de Brito
 


Canção do Mar - Dulce Pontes
(Letra de Frederico de Brito e música de Ferrer Trindade)


"Canção do Mar" é uma canção portuguesa com letra de Frederico de Brito e música de Ferrer Trindade, foi cantada por Amália Rodrigues em 1955, sob o título Solidão, no filme Os Amantes do Tejo.

Em 1987, Anamar lança o álbum "Almanave", onde incluiu uma nova versão de "Canção do Mar". Este álbum chegou a disco de prata. 
 
Dulce Pontes gravou uma versão da música no seu álbum Lágrimas, de 1993, tornando-se a mais conhecida versão, sendo incluída nas bandas sonoras dos filmes americanos "A Raiz do Medo" (título inglês - "Primal Fear"), no qual Richard Gere (que quis pessoalmente que esta música fosse incluída) contracena com Edward Norton e "Atlantis: O Continente Perdido" (título inglês - "Atlantis: The Lost Empire"), da Disney.

Outras artistas internacionais também se renderam a esta música, cantando as suas próprias versões em outras línguas, tal como: Hélène Segara ("Elle, tu l'aimes", 2000, com o videoclipe filmado no Alentejo e com Ricardo Pereira), Chenoa ("Oye, Mar", 2002) e Sarah Brightman ("Harem", 2003).

No Brasil, a Canção do Mar foi gravada inicialmente por Agostinho dos Santos em 1956, pelo selo Polydor, e, no ano seguinte, foi gravada por Almir Ribeiro, pelo selo Copacabana. Também foi usada como tema de abertura de uma adaptação do romance As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, em telenovela. 
 
Interpretado por Dulce Pontes, este tema tornou-se um dos maiores êxitos da canção portuguesa de sempre (paradoxalmente nesta versão da "Canção do Mar" ouvem-se muito bem influências árabes), sendo provavelmente a canção portuguesa mais conhecida fora de Portugal, interpretada até hoje pelo mundo fora por vários artistas. (Daqui)