Mostrar mensagens com a etiqueta Janos Laszlo Aldor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Janos Laszlo Aldor. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

"É assim, a música" - Poema de Eugénio de Andrade



János Lászlo Aldor (Hungarian painter and architect, 1895 - 1944),
'Portrait of a woman with a guitar', 1938



É assim, a música


A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.


Eugénio de Andrade,
em "Os lugares do lume", 1998



Janos Laszlo Aldor, Woman with a guitar, 1935


"Subir a escada na casa da palavra é, de degrau em degrau, abstrair. Descer ao porão é sonhar, é perder-se nos distantes corredores de uma etimologia incerta, é procurar nas palavras tesouros inencontráveis. Subir e descer nas próprias palavras é a vida do poeta."

Gaston Bachelard (Filósofo, químico e poeta francês, 1884–1962)
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

"Belo verso" - Poema de Irene Lisboa



János Lászlo Aldor (Hungarian painter and architect, 1895–1944),
'Cattle Grazing in a Spring Field'


Belo verso

Apetecia-me escrever um belo verso.
Sonoro, elegante, correto, de mármore!
Nele pôr o que outros me inspirassem.
O que ali aquele poeta estava cantando.
Ele o cantava e eu o repetia.
Acrescentava, desdobrava, acrescia da minha ansiedade.
Mas verso bem feito!
Cheio do que se sonha, não do que se sente.
Parece-me pobre o que sinto.
E vulgar.
Estes olhos que sem querer se envidraçam, fúteis,
sem recato, infantis, esta voz insegura, enfim,
 tudo isto…
Que figura iriam fazer dentro de um verso elegante, lapidar?
Belo verso trair-te-iam, roubar-te-iam toda a graça e até a ressonância, o êxtase
e aquela espécie de embalo que ao espírito sempre dás.
Mas sinceramente me apetecia escrever um verso de mármore belo!
Tudo, tudo por causa daquele poema…
Daquela exaltação do desejo, daquele arrebatamento lírico, infixo,
 daquela sensualidade espumosa...
Meu velhíssimo verso falhado, meu, não o dos outros...
Com que te haveria eu de ilustrar?
Com que te encher, meu divino, lúcilo, aéreo,
palavroso poema do nada?


Irene Lisboa,
  em 'Outono havias de vir latente e triste',
 com o pseudónimo de João Falco, Lisboa, 
Seara Nova, 1937.



Janos Laszlo Aldor, 'Feeding Time', 1940


"Quando somos jovens, temos manhãs triunfantes."
Janos Laszlo Aldor, 'Young Wife', 1913


"A educação é uma descoberta progressiva da nossa própria ignorância."

Janos Laszlo Aldor, 'Young lady in local clothes', 1942


"Quando tiveres cumprido o teu dever, resta-te ainda outro: mostrares-te satisfeito."

Johann Wolfgang von Goethe


quinta-feira, 30 de julho de 2020

"A velha tia" - Poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos


János Lászlo Aldor (Hungarian painter and architect, 1895–1944),  
'Woman Knitting', n.d.

A velha tia



A velha tia, de tão velho sangue,
quase que a vejo a ler, a vista já cansada,
ou a fazer crochê nas tardes claras,
de grossos óculos e mãos de abelha;
quase que a vejo, quando em pleno Agosto,
numa explosão de pétalas e mel,
o pessegueiro é todo uma só flor,
uma só flor, formada de mil flores cor-de-rosa.

E o Amor com que fazia as suas colchas,
ponto a ponto, por meses e por meses,
a linha machucada nas águas
e rosas brancas a nascerem como rendas,
o amor da velha tia, de tão velho sangue,
volta no pessegueiro que nasceu por sua mão,
todo ele uma só nuvem cor-de-rosa,
mais de cor-de-rosa do que as flores das paineiras;
e são seus velhos dias que florescem novamente,
no doce pessegueiro a murmurar de abelhas.

E se assim é na terra,
fico a pensar que a velha tia, de tão velho sangue,
a velha tia, tão modesta e resignada,
se céu existe, nele é puro pessegueiro,
aberto em rosa e em favos gotejantes.


Péricles Eugênio da Silva Ramos
 

Janos Laszlo Aldor, 'Playing with a kitten' 


"O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas.
 Exigem recolhimento, entrega, atenção."

Artur da Távola



Janos Laszlo Aldor, 'Children with a cat'



"Eu conheci muitos pensadores e muitos gatos, mas a sabedoria de gatos é infinitamente superior".
 
Hippolyte Taine citado em "Zooléo‎" - núms. 20-29, pág. 176,
 de Société de botanique et de zoologie congolaises.


terça-feira, 28 de julho de 2020

"Ai, Helena!" - Poema de Almeida Garrett


 
János Lászlo Aldor (Hungarian painter and architect, 1895 - 1944),
'Portrait of a Woman with Shoulders Bared', 1924.


Ai, Helena!


Ai, Helena! De amante e de esposo
Já o nome te faz suspirar,
Já tua alma singela pressente
Esse fogo de amor delicioso
Que primeiro nos faz palpitar!...
Oh! Não vás, donzelinha inocente,
Não te vás a esse engano entregar:
É amor que te ilude e te mente,
É amor que te há de matar!

Quando o Sol nestes montes desertos
Deixa a luz derradeira apagar,
Com as trevas da noite que espanta
Vêm os anjos do Inferno encobertos
A sua vítima incauta afagar.
Doce é a voz que adormece e quebranta,
Mas a mão do traidor... faz gelar.
Treme, foge do amor que te encanta,
É amor que te há de matar. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

"Quero uma vida em forma de espinha" - Poema de Boris Vian


 
János Lászlo Aldor (Hungarian painter and architect, 1895 - 1944),
'Hungarian landscape with farmhouse near the water', 1927


Quero uma vida em forma de espinha


 
Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente


Boris Vian
, Canções e Poemas, 1997
Tradução de Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Amo-te por sobrancelhas" - Poema de Julio Cortázar



János Lászlo Aldor (Hungarian painter and architect, 1895 - 1944), 'Reverie', n.d.


Amo-te por sobrancelhas


Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.


Julio Cortázar (daqui)



Escritor argentino Julio Cortázar


“Te quiero por ceja”


Te amo por ceja, por cabello, te debato en corredores
blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,
te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz,
voy poniéndote en el pelo cenizas de relámpago
y cintas que dormían en la lluvia.

No quiero que tengas una forma, que seas
precisamente lo que viene detrás de tu mano,
porque el agua, considera el agua, y los leones
cuando se disuelven en el azúcar de la fábula,
y los gestos, esa arquitectura de la nada,
encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.

Todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo,
pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco
con ese pelo lacio, esa sonrisa.

Busco tu suma, el borde de la copa donde el vino
es también la luna y el espejo,
busco esa línea que hace temblar a un hombre
en una galería de museo.

Además te quiero, y hace tiempo y frío.


Julio Cortázar



Janos Laszlo Aldor, 'Portrait of a Lady', 1934


"... afinal, o que são as lembranças senão o idioma dos sentimentos?"

(Julio Cortázar)


Escritor argentino, Julio Cortázar nasceu a 26 de agosto de 1914, em Bruxelas, na Bélgica, durante uma viagem de negócios empreendida pelos seus pais. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires, onde Cortázar veio a estudar, obtendo, em 1935, habilitações como professor do ensino secundário pela Escuela Normal de Professores Mariano Acosta. Ingressou depois na Universidade de Buenos Aires e deu aulas nas escolas secundárias de Bolívar, de Chivilcoy e de Mendonza.

Em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Universidade de Cuyo, em Mendonza, onde se envolveu numa manifestação contra a política populista e sindicalista de Juan Domingo Peron, pelo que foi encarcerado. Posto em liberdade pouco tempo depois, viu, no entanto, vedada a sua carreira académica. Assumiu então, e em 1946, a direção de uma editora em Buenos Aires, funções que desempenhou até 1948, altura em que completou a sua licenciatura em Direito e Línguas. Cortázar passou então a trabalhar como tradutor.

Em 1949 publicou a sua primeira obra digna de interesse, Los Reyes, um longo poema narrativo em que utilizava arquétipos como o Minotauro e o Labirinto de Creta. Em 1951, época em que o regime de Peron se estabelecia como ditadura, publicou numa revista mantida por Jorge Luis Borges, a Los Anales de Buenos Aires, a sua primeira coletânea de contos, com o título Bestiário (1951).

Nesse mesmo ano, e em resultado das perseguições que lhe foram movidas, o autor optou pelo exílio, mudando para Paris, cidade que não mais abandonaria. A partir de 1952 passou a trabalhar para a UNESCO como tradutor independente.

Continuou a publicar coletâneas de contos, como Final de Juego (1956), Las Armas Secretas (1959), obra que viria a ser adaptada para cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni, com o título Blow Up, em 1966. Em 1960 consagrou-se também como romancista, com o aparecimento de Los Premios, obra em que contava o rumo de um grupo de pessoas que ganham como prémio de lotaria um cruzeiro-surpresa. O seu romance mais conhecido, Rayuela, seria publicado em 1963. A obra, original e imaginativa, influenciou significativamente a literatura da América Latina.

Em 1973 empreendeu uma longa viagem pela América do Sul, visitando países como o Peru, o Equador, o Chile e a Argentina, como investigador das violações dos direitos humanos no continente, apoiando, com os ganhos resultantes da venda das suas obras, os Sandinistas e as famílias de prisioneiros políticos.

Em 1975 lecionou, como professor convidado, nas Universidades de Oklahoma e do Barnard College de Nova Iorque. Em 1981 tomou a nacionalidade francesa e, dois anos depois, foi-lhe autorizado visitar de novo a Argentina.

Faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris. Embora seja geralmente aceite como causa da sua morte uma leucemia, existe também a opinião de que o autor tenha sido vítima de  SIDA, nesse tempo ainda não diagnosticável. (daqui)