Mostrar mensagens com a etiqueta Malthe Odin Engelstedt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Malthe Odin Engelstedt. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de setembro de 2016

"Poemas da Infância" - Manuel da Fonseca


Malthe Engelsted (Danish M.A. and painter, 1852–1930), The Inspector, 1885
 


Poemas da Infância 
Segundo


Quando foi que demorei os olhos 
sobre os seios nascendo debaixo das blusas, 
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?... 
... Como nasci poeta 
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso 
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas. 
Quando, não sei ao certo. 

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas, 
foi um grande mistério. 
Tão grande 
que eu corria até ao cansaço. 
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar, 
como sejam os pássaros quando passam voando. 

E desafiava, 
sem razão aparente, 
rapazes muito mais velhos e fortes! 
E uma vez, 
de cima de um telhado, 
joguei uma pedrada tão certeira 
que levou o chapéu do Senhor Administrador! 
Em toda a vila 
se falou logo num caso de política; 
o Senhor Administrador 
mandou vir da cidade uma pistola, 
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver; 
e os do partido contrário 
deixaram crescer o musgo nos telhados 
com medo daquela raiva de tiros para o céu... 

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas! 


in Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro
Assírio & Alvim


sábado, 17 de setembro de 2016

"Sociedade" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Malthe Odin Engelstedt (Danish, 1852–1930), The Game of Bridge, 1891


Sociedade


O homem disse para o amigo: 
— Breve irei a tua casa 
e levarei minha mulher. 

O amigo enfeitou a casa 
e quando o homem chegou com a mulher, 
soltou uma dúzia de foguetes. 

O homem comeu e bebeu. 
A mulher bebeu e cantou. 
Os dois dançaram. 
O amigo estava muito satisfeito. 

Quando foi hora de sair, 
o amigo disse para o homem: 
— Breve irei a tua casa. 
E apertou a mão dos dois. 

No caminho o homem resmunga: 
— Ora essa, era o que faltava. 
E a mulher ajunta: — Que idiota. 

— A casa é um ninho de pulgas. 
— Reparaste o bife queimado? 
O piano ruim e a comida pouca. 

E todas as quintas-feiras 
eles voltam à casa do amigo 
que ainda não pôde retribuir a visita. 


in 'Alguma Poesia'


domingo, 21 de agosto de 2016

"Clandestinidade" - Poema de Fernando Namora


L'Hombre (1887), a painting by Malthe Odin Engelstedt (Danish M.A. and painter, 1852-1930). 
The player in the center is Rasmus Malling-Hansen, Danish inventor of the typewriter.
 

 
Clandestinidade


Secreto me acho 
e secreto me sentes 
quando 
secreto me julgas, 
Impuro me reconheço 
quando 
o nosso silêncio 
são vozes turbas. 
Dúbio é o desejo 
quando 
não é transparente 
a água em que se deita 
precavidamente. 
Clandestinos somos 
quando 
o que somos 
teme a face que pesquisa. 
Os olhos são claros 
quando 
a superfície do espelho 
é lisa. 


in 'Marketing'