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domingo, 9 de junho de 2024

"Quadras aos Santos Populares" - Poema de Ricardo Maria Louro


Francisco de Zurbarán (Spanish painter, 1598–1664),
  Anthony of Padua, 1627–1630.
 
[Fernando de seu nome de batismo, Santo António de Lisboa, ou Santo António de Pádua, nasceu por volta de 1195, em Lisboa, e morreu a 13 de junho de 1231, em Pádua, na Itália.
Aos vinte anos professou a vida religiosa entre os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Ordenado sacerdote em 1220, fez-se frade franciscano no eremitério de Santo Antão dos Olivais, partindo depois para Marrocos em missão de apostolado aos muçulmanos.
Foi dos mais categorizados representantes da cultura cristã no período de transição da pré-escolástica para a escolástica. Figura notável pela sua erudição, impôs-se também pelo exemplo na pregação solene e doutrinal, na discussão com os hereges e no ensino nas escolas conventuais. Por isso, é ainda hoje considerado uma das personalidades franciscanas mais significativas.
Foi canonizado pelo papa Gregório IX, em 30 de maio de 1233. Em Pádua foi erigida uma conhecida basílica em sua memória, e lá se encontram as suas relíquias.
 (daqui)]
 


Titian (Italian (Venetian) painter of the Renaissance, c. 1488/90–1576),
Saint John the Baptist, c. 1540, Gallerie dell'Accademia, Venice.

[Personagem bíblica e santo do Cristianismo, S. João Baptista terá nascido na Judeia, no ano 2 a. C., e morrido em 30 d. C. Era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria. Introduziu o batismo, como prática na conversão de gentios, cerimónia que mais tarde seria adotada pelo cristianismo.
Surge como um precursor de Jesus Cristo, que veio a batizar, no rio Jordão, e a reconhecer como o verdadeiro messias. Partiu para o deserto para pregar. Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade.
(daqui) ]



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
 Saint Peter, c. 1610–1612.
 
[São Pedro, discípulo dileto de Jesus Cristo, foi por ele eleito para encabeçar a Igreja e se tornar a sua pedra angular, tendo sido, de facto, o primeiro líder terreno da Igreja. Esta legitimidade, aplicada depois a todos os papas, proveio da seguinte afirmação de Jesus [citada por São Mateus no seu Evangelho (16,17)]: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja [...]. Eu te darei as chaves do reino dos Céus e tudo quanto desatares na terra será desatado no céu".
Segundo os Evangelhos, Simão - assim chamado antes de ser chamado ao apostolado -, filho de Jonas (ou João) e irmão de André, terá nascido ao pé do lago Tiberíades (ou Mar da Galileia), onde se tornou pescador. O seu nome posterior, Pedro (que significa pedra), resulta da latinização do nome aramaico Cefas ou Kipha, dado por Jesus.
Era casado, crendo-se que tinha filhos, e vivia em Cafarnaum, sendo pescador no lago de Genesaret.
Seguidor, como seu irmão, de São João Batista e depois de Jesus, tornou-se o primeiro entre os apóstolos, pela sua crença e dedicação.
Pregou a gentes de todos os credos em diversos sítios, entre os quais Antioquia e Jerusalém, não se sabendo com toda a certeza se esteve em Roma e a época exata em que lá terá estado. Contudo, a Primeira Epístola de S. Pedro (c. do ano 64) alude à sua estadia na Babilónia (nome metafórico dado a Roma), assim como os testemunhos escritos de São Inácio de Antioquia, Ireneu de Lyon e de São Clemente Romano. Seria na Via Salaria, na catacumba de Priscila, onde Pedro batizaria e pregaria aos fiéis, segundo a tradição.
São Pedro inaugurou uma sucessão de bispos de Roma (ou papas) que a partir da sua sede romana (chamada de trono de São Pedro) tentaram propagar a nova Fé pelo mundo. Segundo os Evangelhos, estava predestinada a morte supliciada de Pedro, para lançar as raízes do Cristianismo numa cidade corrupta e devassa, uma Babilónia, conforme as suas palavras.
Após o martírio na cruz invertida (64 - 67?), na sequência de uma perseguição de Nero, conta mais tarde o presbítero Gaio (séculos II-III) que São Pedro foi enterrado na colina Vaticana (junto ao Circo do citado imperador), tendo o seu corpo sido furtado no ano de 827. Assim, tudo leva a crer que o sóbrio sepulcro encontrado nas escavações efetuadas na década de 1940 sob a basílica de Constantino (hoje chamada de São Pedro) seja provavelmente o do apóstolo.
São Pedro é usualmente representado com vestes papais ou de apóstolo, com um livro e com uma chave de ouro (representando o Céu e a absolvição) e uma em prata (que simboliza a Terra e a condenação).
(daqui)]
 
 

⁠Quadras aos Santos Populares


Santo António é padroeiro
Da Lisboa d’encantar
Mas São Pedro é o porteiro
De quem no céu quiser entrar!

Santo António milagreiro
Que és um Santo tão Santinho
Dá-me lá mais um dinheiro
Qu’inda sou tão pobrezinho!

Diz a boca do demónio
Destas gentes da intriga
Que outrora o Santo António
Gostou d’uma rapariga!

A ti deixo este meu canto
Oh meu rico Santo António
Não te esqueças deste pranto
E arreda-me o demónio!

Oh meu querido Santinho
Vou fazer o teu altar
Comer pão e beber vinho
Pelas ruas a marchar!

Oh meu lindo São João
Dá-me moças pr’a dançar
Deixo aqui meu coração
A quem o quiser conquistar!

São João os teus cabelos
Tem ondas amarelas
Envoltas em segredos
Já não damos conta delas!

São João dos Caracóis
Procurava uma amada
E mandava os rouxinóis
Cantar uma toada!

São João é do Estoril
Santo António é de Lisboa
O São Pedro é d’águas mil
E o poeta é Pessoa!

O são Pedro tem a chave
Da porta desta festa
Mas se o “homem” não a abre
O Santo António já não presta!

Arraial por toda a parte
E sardinhas pelo pão
O São Pedro que me aguarde
Se estragar o São João!

Se chover no São João
O São Pedro está tramado
Santo António sem perdão
Vai deixá-lo entalado!

Nesta mesa dos artistas
Há gentes que se vejam,
Poetas, músicos, fadistas,
Tantos “santos” que nos beijam!

Temos dias sem sentido
Que nos deixam solidão
Vai a quadra ao manjerico
E a alegria ao coração!

Lá vai o arco e o balão
Pelas ruas sem ter mal
Pois agora a solução
É fazer um arraial!


Ricardo Maria Louro


Ilustração digital de Andreia Santos, 'Noite de Santos'
 


Festas dos Santos Populares

Junho é o mês dos Santos Populares com festas e arraiais por todo o país nas noites de Santo António, de São João e de São Pedro.

As principais são as Festas de Lisboa, de 12 para 13 de junho, dia de Santo António, e as do Porto, na noite de 23 para 24 de junho, quando se celebra o S. João. São festas muito animadas, em que a população vem para a rua comer, beber e divertir-se pelas ruas dos bairros populares, decoradas com arcos, balões coloridos e manjericos.

Em Lisboa, as marchas populares de cada bairro desfilam pela Av. da Liberdade em direção ao Rossio, enchendo a rua de centenas de figurantes, música e cores. Mas a enchente e a animação não são menores nas ruas desses bairros, com destaque para Alfama, mas também para a Graça, Bica, Mouraria ou Madragoa. Nos largos e vielas, come-se caldo verde e sardinha assada, canta-se e dança-se pela noite dentro. Outro momento forte é a procissão de Santo António, que no dia 13 sai da sua igreja, situada em Alfama, junto à Sé, no local onde este santo nasceu, por volta de 1193.

No Porto, a festa é idêntica em cor e alegria nos bairros mais tradicionais, como Miragaia, Fontainhas, Ribeira, Massarelos e outros. Mas nesta cidade há ainda outros usos e costumes: se antigamente os foliões batiam com o alho-porro na cabeça dos companheiros, hoje usam martelinhos de plástico; por outro lado, além do exuberante fogo-de-artifício que é lançado à meia-noite em pleno rio Douro, também se lançam balões de ar quente multicores, numa das mais bonitas celebrações destes festejos populares. A noite acaba para muitos junto à praia, para ver nascer o sol ou para um banho matinal, como manda a tradição.

A 29 de junho comemora-se ainda o São Pedro, também com festas populares em várias localidades do país, como Sintra ou Évora, ambas na lista do Património Mundial. Évora, aliás, tem a particularidade de celebrar dois santos populares, pois realiza desde o séc. XVI a feira de S. João, uma das maiores da região sul de Portugal, comemorando também o dia de S. Pedro como feriado municipal.

Nestas festas resistem práticas como saltar a fogueira e oferecer à namorada ou namorado pequenos vasos de manjerico, acompanhados de quadras escritas, que muitas vezes falam de amor, ou não estivesse a origem destas festividades ligada ao solstício de verão e a antigos rituais de fertilidade. (daqui) 

 

sexta-feira, 30 de junho de 2023

"Santo António, São João, São Pedro" - Poemas de Fernando Pessoa



El Greco (Greek painter, sculptor and architect of the Spanish Renaissance,
1541–1614), Saint Anthony of Padua, c. 1580, Museo del Prado, Madrid


Santo António


Nasci exatamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Refleti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a veem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?


Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro.
(Organização de
Alfredo Margarido), Lisboa: A Regra do Jogo, 1986.
 

El Greco, Saint John the Baptist, c. 1597–1607, 
Legion of Honor Museum, San Francisco


São João


Ó Precursor, fizeste-la bonita!
Não que teu Cristo, incarnação do Bem —
Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.
O mal são os que após, sem mística divina
Nem ternura cristã, ou só humana,
Meteram a Jesus na cela da doutrina
Com as algemas do ódio manietado
Para depois manchar de falsa fé
O pobre homem que todo homem é.

A cruel multidão negramente infinita
Que tem sido o algoz ou o ladrão
Da ingénua humanidade aflita —
Esses que, aqui mesmo, pelos modos,
Dão ao inferno realização...
Ah, não podiam ser piores, nem
Que a mulher do Diabo, se ele a tem,
Os tivesse parido a todos.

Eu bem sei que houve muito santo e crente,
Muito puro, bondoso e inocente.
Bem sei, bem sei:
Sei-o eu e sabe-o toda a gente.
Mas esses, cuja alma está em Cristo
São só isto —
Qualquer remédio que se dissolvesse
No chá que para isso há,
E cujo gosto nele se perdesse;
O chá fica sabendo só a chá.
Se o remédio faz bem,
Não o sabe ninguém.
Que o chá não presta, não duvida alguém.

Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes
De todos nós teu Mestre que viria,
Profeta, Deus e guia dos errantes,
Quão dolorosamente o saberia?
Sei que houve astros no céu da fé vazia.
Sei, mas repara que falso isso soa!
Por mais astros que a noite use brilhantes,
Que Diabo!, a noite não se chama dia.

Ó Precursor! Fizeste-a boa!

Daí, para nós, és de Lisboa,
Não és o precursor de nada.
És um rapaz ainda menino
Que tem por missão boa,
Por missão sorridente e sossegada
Ter ao colo um cordeiro pequenino.

Lá o que esse cordeiro significa
Não tem cheiro
Para o povo, que tem a alma rica
Da emoção que não conhece.
Para ele o cordeiro é um cordeiro,
E o menino sorri e a vida esquece.

O resto são fogueiras
E os saltos dados a gritar
Com um medo exagerado
Feito tudo de maneira
A mostrar
O riso, as pernas e o agrado.
É quente e anónima a aragem,
Tudo é juventude e viço
Num arraial multicolor e vasto.
Bonito serviço
Como homenagem
A quem, ainda com cabeça, foi um casto!

Mas é assim que és
E é assim que serás,
Até que pisem esta terra os pés
Do último fado que o Destino traz.

Então, esperamos, eu e todos,
Ver-te «surgir no céu», como quem vence
Tudo que é realidade ou ilusão
Por o menino ser que lhe pertence,
E os seus bons e santos modos
«Com o cordeirinho na mão»,
Como te viu Catullo Cearense.

Mas, desçamos à terra,
Que, por enquanto, o céu aterra,
Porque antes disso mete a morte.
Há muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com tua vida e o teu divino fado.
 
E foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra,
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra. 

Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico
Eu a julgar-te até católico,
E tu sais-me maçon. 

Bem, aí é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vário.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Pronto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precário.
Se és maçon,
Sou mais do que maçon — eu sou templário.

Esqueço-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.

Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal. 


Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro.
(Organização de Alfredo Margarido), Lisboa: A Regra do Jogo, 1986.


 
 

São Pedro

 
Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves —
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso — fecharem-me — não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade — Deus dá a Deus —
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exorta,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.
Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandyissimos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu Mestre quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo —
Umas barbas com S. Pedro lá por traz.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.

Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro. —
De popular, que bem que soa!)
Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Com um chavelho,)
Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.

Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha. 
Um gesto volvente e mudo
Teu último gesto seja. 
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo,
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas da Justiça e da Verdade. 


 Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro.
(Organização de Alfredo Margarido), Lisboa: A Regra do Jogo, 1986.
 

 Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. 
Lisboa: A Regra do Jogo, Edições, 1986 
 
 
Resumo

Apresenta-se o tríptico de poemas «Santo António», «S. João» e «S. Pedro», que Fernando Pessoa escreveu em Junho de 1935, durante as festas dos três «santos populares» de Lisboa, e que projetava publicar sob o título Praça da Figueira, mas deixou inéditos. O tríptico foi publicado pela primeira vez em 1986, com um estudo introdutório de Alfredo Margarido. Com Praça da Figueira, Fernando Pessoa pretendia contestar a apropriação dos tradicionais festejos populares para os fins religiosos e políticos da Igreja católica e do seu aliado, o Estado Novo de Salazar. Para tal, o poeta enfatiza o cunho pagão e dionisíaco das festas juninas e associa provocatoriamente S. João à Maçonaria, então a inimiga principal do regime salazarista e da Igreja. — José Barreto  (daqui)
 

El Greco

Pintor de origem cretense radicado em Espanha, Domenikos Theotokopoulos, nascido em 1541 e falecido em 1614, recebeu uma educação humanista, o que justifica o interesse que sempre demonstrou pelos mais variados domínios do pensamento e da arte. Depois de uma formação em Veneza e em Roma, veio a estabelecer-se definitivamente em Toledo em 1577. 
Rodeado de uma excelente reputação artística, foi incumbido dos mais variados trabalhos para as igrejas e conventos de Toledo: O Espólio (1579), O Batismo de Cristo (1595-1600), O Cristo no Jardim das Oliveiras (1605-10), A Ressurreição (1608-10), o que não impediu que o tratamento pouco tradicional dos temas causasse alguma controvérsia entre as autoridades eclesiásticas.
Para além de temas religiosos, pintou retratos de importantes personalidades da vida espanhola e paisagens da cidade, apresentando-a sob uma luz dramática. Na sua obra podem encontrar-se o misticismo bizantino, a sensibilidade pela cor e pelos jogos de luz de Ticiano, a conceção do espaço de Tintoretto, os alongamentos e posições distorcidas do Maneirismo e a mistura de realismo e de fantástico presentes na atmosfera religiosa espanhola. 
Nos últimos trabalhos, nomeadamente em Visão do Apocalipse (cerca de 1610), o ambiente de fervor espiritual cria uma força pictórica que atinge uma dimensão expressionista. (daqui)
 

sábado, 24 de junho de 2023

"João Batista" - Poema de Sílvia Araújo Mota


Bartolomé Esteban Murillo (Spanish Baroque painter, 1617–1682),
The Christ Child and the Infant John the Baptist (right) with a Shell
or The Holy Children with a Shell, c. 1670/75. Oil on canvas.
Museo del Prado, Madrid.


João Batista

 
João Batista, pregador judeu,
no início do Séc. I, chamado
de João, o Batizador,
citado por Evangelizadores
nasceu 2 a.C e morreu 30 d.C.

Filho do Sacerdote Zacarias
e de Isabel, prima de Maria,
a jovem Mãe de Jesus.
Batizou muitos judeus,
incluindo seu primo Jesus.

João foi reconhecido Profeta!
Considerado pelos cristãos,
como o precursor do Prometido,
o Messias, Jesus Cristo, por ele
batizado no Rio Jordão.

João Batista introduziu
o Batismo de Gentios
nos Rituais Judaicos
de Conversão, adaptados
para o Batismo do Cristão.

João nasceu na cidade de Judá,
a seis quilómetros de Jerusalém.
Sua mãe pertencia à Sociedade
Religiosa para a Educação,
das “Filhas de Aarão”.

João foi muitas vezes chamado
de “Encarnação de Elias.”
Até na forma de se vestir,
com peles de animais
e no método de exortação.

O Discurso principal de João
era sobre a vinda do Messias
fonte de Esperança para a Nação
que esperava sempre o dia
de tornar-se digna e independente.

Os judeus defendiam a ideia
da sua nacionalidade
ter iniciado com Abrahão
e que culminaria, na Verdade,
com a chegada do Messias da Salvação.

João, na aldeia chamada
“Adão” pregou sobre o Messias:
“Aquele que viria”, do qual
não seria digno de atar-lhe as alparcas...”
A polémica surgiu, naturalmente...

Importante notar o novo Batismo
que João trouxe aos arrependidos...
A experiência do Batismo de Jesus
motivou ainda mais a sua fé
e seus Ministérios vividos.

A mando do Rei Herodes Antipas,
João ficou dez meses preso até à morte,
porque lhe fez críticas pelo discurso...
A cabeça de João foi entregue ao Rei
e o corpo queimado, em uma fogueira.

Belo Horizonte, 27 de agosto de 2007.
(Professora e escritora brasileira, n. 1951)


Bartolomé González y Serrano (Spanish Baroque painter, 1564–1627),
Saint John the Baptist, c. 1621. Oil on canvas, 150 x 90 cm,
Museum of Fine Arts, Budapest.
 

 
 Anton Raphael Mengs (German painter, 1728-1779),
  St. John the Baptist Preaching in the Wilderness, 1760
 

Personagem bíblica e santo do Cristianismo, S. João Baptista terá nascido na Judeia, no ano 2 a. C., e morrido em 30 d. C. Era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria. Introduziu o batismo, como prática na conversão de gentios, cerimónia que mais tarde seria adotada pelo cristianismo.
Surge como um precursor de Jesus Cristo, que veio a batizar, no rio Jordão, e a reconhecer como o verdadeiro messias. Partiu para o deserto para pregar.
Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade. (daqui)




O Nascimento de João Batista (ou Dia de São João ou Nascimento do Precursor) é uma festa cristã celebrando o nascimento de João Batista, um profeta que previu o advento do Messias na pessoa de Jesus Cristo e o batizou. Esta festa é amplamente comemorada no mundo cristão no dia 24 de junho e é uma das festas juninas. É também o único santo cujo nascimento e martírio, este último em 29 de Agosto, são evocados em duas solenidades pelo povo cristão.
A noite de 23 de Junho, véspera do Dia de São João, marca o início da celebração da festa de São João Batista. O Evangelho de Lucas (Lucas 1:36, 56-57) afirma que João nasceu cerca de seis meses antes de Jesus; portanto, a festa de São João Batista foi fixada em 24 de junho, seis meses antes da véspera de Natal. Este dia de festa é um dos poucos dias santos que comemora o aniversário do nascimento, ao invés da morte, do santo homenageado.  (daqui)
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

"Noite de S. João" - Poema de Alberto Caeiro


Cidade do Porto, Portugal (daqui)


Noite de S. João


Noite de S. João para além do muro do meu quintal. 
Do lado de cá, eu sem noite de S. João. 
Porque há S. João onde o festejam. 
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite, 
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos. 
E um grito casual de quem não sabe que eu existo. 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


São João Baptista


São João do Porto


O São João do Porto é uma festa popular que tem lugar de 23 para 24 de Junho na cidade do Porto, em Portugal. Oficialmente, trata-se de uma festividade católica em que se celebra o nascimento de São João Batista, que se centra na missa e procissão de São João no dia 24 de Junho, mas a festa do S. João do Porto tem origem no solstício de Junho e inicialmente tratava-se de uma festa pagã. As pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Mais tarde, à semelhança do que sucedeu com o Entrudo, a Igreja cristianizou essa festa pagã e atribui-lhe o S. João como Padroeiro. 
Trata-se de uma festa cheia de tradições, das quais se destacam os alhos-porros, usados para bater nas cabeças das pessoas que passam, os ramos de cidreira (e de limonete), usados pelas mulheres para pôr na cara dos homens que passam, e o lançamento de balões de ar quente. (daqui)


sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Os Tentáculos da Escrita" - Texto de Ana Hatherly


Hieronymus Bosch, São João Batista no Deserto, c. 1489, Museo Lázaro Galdiano, Madrid 
 
[João Batista, aqui numa representação de Hieronymus Bosch, na transição entre o  Judaísmo e o Cristianismo, é um exemplo do homem que procura a santidade através da renúncia ao alimento e à sensualidade.]



Os Tentáculos da Escrita



A escrita é um polvo, um molusco versátil. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstratiza-se. Disfarça-se, adensa-se, adelgaça-se, esconde-se. Impele-se rápida. Compreende tudo: ascese, consolo íntimo, entrega; fluxos, refluxos, invasões, esvaziamentos, obstinação feroz. O seu rigor é místico. É uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita é um fragmento do espanto, já alguém o disse.

Ana Hatherly, in 'Tisanas'


Hieronymus Bosch, A Estrada da Vida, c. de 1516
Museu do Prado, Madrid, Espanha
 

 Jerónimo Bosch
 

Pintor holandês, Hieronymus Bosch pertencia a uma família de pintores, tendo nascido em 1450 e vindo a falecer em 1516, em Hertogenbosch, que atualmente faz parte da Holanda. Os dados biográficos e a cronologia da sua obra são frequentemente hipotéticos. Fazia parte da Confraria de Nossa Senhora e desde muito jovem a sua pintura demonstrou uma força singular.

No sentido da composição, na expressão da luz, na ilusão de profundidade, tem como referências o trabalho de Jan Van Eyck, mas antecipa igualmente a evolução da pintura dos finais do século XVI. 
 
Tematicamente, refletiu as conceções religiosas medievais. A "tentação" é o assunto principal da obra de Bosch, abordado no tríptico Tentações de Santo Antão (1500?) e desenvolvido mais cabalmente na obra-prima O Jardim das Delícias.
 
A eterna luta entre o Bem e o Mal é protagonizada por figuras fantásticas, disformes, demónios e visões que representam as aberrações humanas - o que não está muito distante do procedimento de Erasmo em Elogio da Loucura.

As raízes do seu trabalho podem ser encontradas na magia, na alquimia, no misticismo, no teatro, possuindo uma carga simbólica por vezes indecifrável. Para o observador atual, esta pintura surge como uma antecipação do Surrealismo. O impacto da sua mensagem através do tempo só é explicável, contudo, por se apoiar numa mestria formal notável. (Daqui)
 
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Arte inspirada nas Histórias da Bíblia - Obras de Caravaggio (Michelangelo Merisi da Caravaggio)



Caravaggio, 'São João Batista no deserto', c. 1604. 
 



Personagem bíblica e santo do Cristianismo, o pregador judeu do início do século I, citado pelo historiador Flávio Josefo e os autores dos quatro Evangelhos da Bíblia, S. João Batista terá nascido na Judeia, no ano 2 a.C. e morrido em 27 d.C. 
Segundo a narração do Evangelho de São Lucas, João Batista era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus.
Foi profeta e é considerado, principalmente pelos cristãos ortodoxos, como o "precursor" do prometido Messias, Jesus Cristo. 
Batizou muitos judeus, incluindo Jesus, no rio Jordão, e introduziu o batismo de gentios nos rituais de conversão judaicos, que mais tarde foram adaptados pelo cristianismo. Partiu para o deserto para pregar.
Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade.


Caravaggio (Vida e Obra)


Caravaggio, pintura de Ottavio Leoni, cerca de 1621.
 

Pintor italiano, Michelangelo Merisi ficou conhecido como Caravaggio, o nome da aldeia onde nasceu em 1573, situada perto de Milão. É normalmente identificado como um artista barroco, estilo do qual foi o primeiro grande representante.
Aluno de Simone Peterzano, influenciado por Ticiano, partiu depois para Roma, onde começou por trabalhar para o Cavaliere d'Arpino, um pintor maneirista. Nos primeiros trabalhos reflete-se desde logo a preocupação pelo jogo do claro-escuro, um elemento que viria a definir a sua arte. O Tocador de Alaúde e A Cigana que prevê o Futuro contam-se entre os trabalhos desta época, encomendados pelo Cardeal Francesco del Monte. A maturação do seu estilo começou com a decoração de uma capela em S. Luigi dei Francesi, em Roma, que provocou controvérsia. Os modelos das suas composições eram figuras vulgares, camponeses e membros das classes mais baixas. O realismo, a ousadia, a originalidade com que representava cenas religiosas levou à rejeição da obra pelo clero. A versão finalmente aceite de S. Mateus e o Anjo data de 1599. As primeiras versões de O Martírio de S. Pedro e A Conversão de S. Paulo, pintadas na capela de Santa Maria del Popolo em 1600, foram igualmente rejeitadas. A irreverência que caracterizava a sua obra fazia igualmente parte do seu caráter. Turbulento e desordeiro, viu-se obrigado a fugir à justiça em 1606, partindo para Nápoles. O seu périplo, assinalado por disputas e vinganças, conduziu-o de Nápoles a Malta, depois à Sicília e novamente a Nápoles, onde foi gravemente ferido. Acabou por morrer, em 1610, num pequeno porto toscano com um ataque de malária, contraída durante uma passagem pela prisão local, vítima de um mal-entendido. As últimas obras, realizadas em Malta e na Sicília, acentuam a simplicidade das formas e o poder dramático criado pelo contraste entre a luz e sombra. A sua influência é sobretudo assinalável nos artistas flamengos e holandeses, o que inclui Rubens e até Rembrandt e os pintores da escola de Utrecht. Vai ainda influenciar a pintura espanhola, designadamente Velásquez e Murillo.

Caravaggio. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-06-21].



Caravaggio, 'A Anunciação' ('The Annunciation'), 1608,
Musée des Beaux-Arts de Nancy, Nancy.
 

Caravaggio, 'Repouso na Fuga para o Egito', 1595–1596.


Caravaggio, 'Ceia em Emaús', 1601.


Caravaggio, 'A Captura de Cristo'' ('O Beijo de Judas'), 1602, Galeria Nacional da Irlanda.


Caravaggio, 'A flagelação de Jesus', 1607.


Caravaggio, 'A deposição de Cristo no túmulo', c. 1602–1604.  
 Óleo sobre tela – 300 x 203.


Caravaggio, 'São João Batista', c. 1609–1610.


Caravaggio, 'João Batista', c. 1604–1609.


Caravaggio, 'A Decapitação de São João Batista', 1608


 Caravaggio, 'Salomé com a cabeça de São João Batista' 


 Caravaggio, 'A incredulidade de Tomé'

Ao longo da história da arte, muitos artistas foram inspirados por histórias da Bíblia.
No 'Art and the Bible', site de língua inglesa, apresenta uma seleção de artistas e seus quadros, todos relacionados a uma passagem da Bíblia.
(http://www.artbible.info)