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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

"Mania da Solidão" - Poema de Cesare Pavese


 Dining Table (Cuadro de Comedor), 1864, Museo Soumaya.
 


Mania da Solidão


Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tetos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O retângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
 

Cesare Pavese, in "Trabalhar cansa".
Tradução e introdução de Carlos Leite.
Lisboa; Edições Cotovia.


José Agustín Arrieta, Still Life with Cat and Birds, oil on canvas, 63 x 86 cm.
 

"Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as chances de sobrevivência da vida na terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana. A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade.” 
 
Albert Einstein (Nobel de Física, 1921)
 
 
José Agustín Arrieta, Dining room (Cuadro de Comedor), c. 1857 - 1859.
 

"Ser vegetariano é discordar: discordar do curso que as coisas tomaram hoje. Fome, crueldade, desperdício, guerras - precisamos nos posicionar contra essas coisas. O vegetarianismo é a minha forma de me posicionar." 
 
 Isaac Bashevis Singer (Nobel de Literatura, 1978)
 

José Agustín Arrieta, Dining Table, c. 1840 - 1860Museo Soumaya
 
 
"Um jantar! Que horrível! Estão me usando como pretexto para matar todos aqueles pobres animais. Obrigado por nada. Agora se fosse um jejum solene de três dias, em que todos ficassem sem comer animais em minha honra, eu poderia pelo menos fingir que estou desinteressado. Mas não, sacrifícios de sangue não estão na minha lista."
 
George Bernard Shaw (Nobel de Literatura, 1925), em carta de 30 de dezembro de 1929,
perante a possibilidade de ser homenageado com um banquete com grande diversidade de carnes.
 
 

Jose Agustin Arrieta, Still Life, c. 1870, San Diego Museum of Art.


"Eu não tenho dúvidas de que é parte do destino da raça humana, na sua evolução gradual, parar de comer animais, tal como as tribos selvagens deixaram de se comer umas às outras quando entraram em contacto com os mais civilizados."

Henry David Thoreau, em "Walden ou A Vida nos Bosques", 1854.

terça-feira, 19 de abril de 2022

"Poema Relativo" - Jorge de Lima

 
Albert Eckhout (c.1610–c.1666), Natureza-morta com Bananas, goiaba e outras frutas,
Museu Nacional da Dinamarca



Poema Relativo



Vem, ó
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).

Não tem pássaros que pena!

Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.

Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.

Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.

Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!

Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfalto.

Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pássaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.


Jorge de Lima
,
Em Bazar, ano 1, n. 4, nov. 1931. 


Albert Eckhout, Natureza-morta com melancia, abacaxi e outras frutas brasileiras.
 
 
"Quando me tornei vegetariano, poupei dois seres, o outro e eu."

Prof° Hermógenes (Natal, 1921 –  Rio de Janeiro, 2015),
Militar, escritor, professor, divulgador do hatha ioga



Albert Eckhout, Natureza-morta com Abacaxi, Mamão e Outras Frutas.

"Ser vegetariano é viver uma vida de paz, saúde e longevidade."

Sócrates (c. 470 a.C. – 399 a.C.), Filósofo da Grécia Antiga

 

 
Busto de Sócrates, cópia romana.


Sócrates, figura emblemática da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 470 a. C. e foi considerado, segundo alguns historiadores na esteira de Cícero - que afirmou ter sido Sócrates quem «fez descer a filosofia do céu para a terra e a fez penetrar nos lares e nas praças públicas de Atenas» -, como o responsável pela transição para um novo período da filosofia grega, que se caracteriza pelo abandono das preocupações cosmológicas em favor de uma temática predominantemente antropológica.
Embora esta interpretação seja muito polémica - os temas do discurso socrático não divergem substancialmente das preocupações dos sofistas, que já haviam colocado o homem no centro da reflexão filosófica -, é pacífico reconhecer que se notabilizou pela inflexão que impôs no sentido da problematização ética.
Movido por um ideal essencialmente prático - acreditava que só a troca de ideias através do diálogo direto era relevante -, Sócrates não deixou obra escrita, tendo o seu pensamento sobrevivido graças a Platão, de quem foi mestre. Enquanto personagem central de grande parte das obras platónicas, foi louvado como um pensador que, longe de procurar impor ou defender qualquer sistema - é dele a imortal máxima « sei que nada sei» -, se orientou sobretudo para uma missão pedagógica com o objetivo de levar os concidadãos a «conhecerem-se a si mesmos», libertando-os dos preconceitos que lhes impediam o acesso à virtude, à felicidade e ao verdadeiro saber.
Este tipo de proposta colocou-o em tenaz oposição aos sofistas, cujos desígnios interesseiros e funcionalistas censurava, por colocarem indiscriminadamente o conhecimento ao serviço dos poderosos que lhes podiam pagar aulas de retórica e erística com o único objetivo de melhor defenderem os seus interesses particulares.
O método que desenvolveu visava convencer os interlocutores a rejeitar o saber aparente - «opinião», ou doxa -, desprovido de qualquer fundamento objetivo, com origem no «senso comum». Inquirindo acerca do significado e definição de conceitos como «o bem», «a virtude» ou «a felicidade» - motivo pelo qual Aristóteles o considerou como fundador da filosofia do conceito -, fazia sobressair a incoerência e a inconsistência das crenças que dirigiam as ações daqueles que não refletiam sobre a essência dos valores.
Este método ficou conhecido como «aporético» por se concluir de forma «negativa»: uma vez atingida pelo opositor a autoconsciência da sua profunda ignorância, Sócrates não propunha qualquer solução para os problemas identificados. Dotado de uma fé inquebrantável na realização da razão, acreditava que esse procedimento era suficiente para indicar o caminho do saber genuíno - a episteme.
Assim, classificava a sua filosofia como uma maiêutica (literalmente: «arte de parturejar»), ou seja, como uma forma de «trazer à luz» as almas transviadas por um conhecimento vulgar e irrefletido, cabendo posteriormente a cada um a tarefa de se elevar por si mesmo até à verdade.
No entanto, é preciso referir que a «missão socrática» não tinha por escopo a mera promoção intelectual dos que o ouviam; longe disso, ao admitir como autêntica virtude humana o conhecimento, combatendo a ignorância estava também pugnando pelo aperfeiçoamento moral dos indivíduos - o mal e as condutas injustas são apenas fruto da ignorância e a ética é correlativa à sabedoria.
A acutilância de Sócrates na crítica à sociedade ateniense da altura, dilacerada pela guerra, por uma série de conflitos internos e por uma decadência moral devida em grande parte ao relativismo propagandeado pelos sofistas, levou a que se tornasse uma personagem demasiado incómoda para ser tolerada. Em 399 a. C. foi acusado de corromper os jovens e de impiedade por não acreditar nos deuses da cidade. Enfrentando o processo que lhe moveram com a maior serenidade, recusou o exílio infamante e acabou por ser condenado à morte pela ingestão de cicuta. (Daqui)


Albert Eckhout, Natureza-morta com Abóboras e Melões.

"Os vegetais constituem alimentação suficiente para o estômago e, no entanto, o recheamos com vidas valiosas." 

Séneca (ca. 4 a.C. 65 d. C.), Filósofo estoico e um dos mais célebres advogados,
 escritores e intelectuais do Império Romano
 
 
 
Busto de Séneca, atribuído ao escultor Giuliano Finelli
(1641-1644), Museu do Prado.
 
 
Lucius Annaeus Seneca, o Jovem, filósofo, orador e trágico romano, nasceu em Córdova no ano 4 a. C. e morreu em Roma em 65 d. C.
Era o segundo filho de uma família rica. O pai, Lucius Annaeus Séneca, o Velho, tornou-se famoso em Roma como professor de Retórica.
Séneca foi levado para Roma por uma tia e treinado como orador e educado em filosofia.
A sua saúde tornou-se débil e foi para o Egito, em repouso, para casa da tia, mulher do prefeito, Gaius Galerius.
Regressado a Roma, por volta de 31 d. C., começou a sua carreira como político e advogado.
Em 41 o imperador Cláudio desterrou-o para a Córsega por acusação de adultério com a princesa Lucia Livilla, sobrinha do imperador. Aí estudou ciências naturais e filosofia e escreveu os três tratados intitulados Consolationes. Por influência de Agripina, mulher do imperador, retornou a Roma em 49, foi nomeado pretor em 50, casou com Pompeia Paulina, mulher rica, rodeou-se de um poderoso grupo de amigos e tornou-se tutor do futuro imperador Nero.
A morte de Cláudio, em 54, trouxe Séneca para a ribalta.
O primeiro discurso de Nero, escrito por Séneca, prometia liberdade para o Senado e o fim da influência das mulheres.
Agripina, mãe de Nero, entendia que a sua influência devia continuar, e havia mais inimigos.
Em 59 teve de participar no assassinato de Agripina.
Depois da morte de Burrus, em 62, Séneca sentiu que não poderia continuar. Teve autorização para se retirar e nos últimos anos da sua vida escreveu algumas das suas melhores obras filosóficas.
Em 65, os seus inimigos acusaram-no de ter tomado parte na conspiração de Piso.
Foi-lhe ordenado que se suicidasse.
Fê-lo com toda a dignidade e coragem.
Principais obras filosóficas: Apolocyntosis divi Claudii, Naturales questiones, Consolationes, De ira, De Clementia, De Tranquillitate animi, De vita beata, De constantia sapientis, De otio, De beneficiis, De brevitate vitae. (Daqui)
 
 
Albert Eckhout, Natureza-morta com cocos.


"Que horror é meter entranhas em entranhas, engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos!" 
 
Pitágoras (c. 570 a.C c. 495 a.C.), Matemático e filósofo grego. 
 
 


Pitágoras, natural de Samos, na Ásia Menor, onde terá nascido nos finais do século VI a. C., emigrou para Crotona, colónia grega no Sul da Itália, e aí fundou uma escola místico-filosófica com preocupações sociopolíticas, cuja influência acabou por dominar a cidade. Atendendo ao carácter hermético da sua doutrina - no interior da escola vigorava uma regra de sigilo que considerava como crime a divulgação dos ensinamentos aos não iniciados, pelo que não existiam quaisquer escritos -, assim como à aura de profeta prodigioso que acabou por o envolver, são pouco fidedignos os relatos que dele nos chegaram, além de se tornar muito difícil distinguir o que é genuinamente de Pitágoras do que foi introduzido pelos seus discípulos.
Contrariamente aos pensadores milésios, não se dedicou a especulações sobre o arkê - princípio material das coisas -, procurando sobretudo aceder ao conhecimento das estruturas formais que regem o mundo, que se podem sumariar em três grandes vertentes: harmonia matemática, doutrina dos números e dualismo cosmológico essencial.
Com base na redução da harmonia da escala musical a razões matemáticas, inferiu que todo o Universo seria harmonia e número, criando a teoria da harmonia das esferas (o Cosmos é regido por relações matemáticas). Considerava que as coisas eram números, que os corpos eram constituídos por pontos e que os números que representavam as quantidades desses pontos lhes definiam as propriedades. Acreditou ainda que o próprio número, agente de todas as modificações, estaria na origem do dualismo Limite/Ilimitado, que representava o início do processo cosmogónico (implantação do princípio masculino do Limite no seio do Ilimitado circundante, feminino, análoga à fecundação ou deposição de uma semente no solo).
Do interesse pela matemática resultaram alguns avanços científicos, sobretudo nas áreas da geometria e da aritmética (dos quais o Teorema de Pitágoras será o mais famoso).
No que diz respeito a crenças, acreditou na imortalidade e transmigração das almas, tal como no parentesco de todos os seres vivos, além de se ter dedicado à enunciação de uma série de regras éticas e religiosas que deveriam presidir à ação dos seus discípulos.
Segundo alguns testemunhos, teria sido o primeiro a usar as palavras «cosmos» e «filosofia» na aceção atual.
Apesar de a intervenção política de Pitágoras em Crotona ter sido de curta duração - os habitantes cedo se rebelaram contra o governo que instaurara -, a escola que fundou acabou por florescer e já na altura da sua morte, que deverá ter ocorrido próximo do ano de 480 a. C., se encontravam comunidades pitagóricas espalhadas por toda a Grécia, difundindo e aprofundando o pensamento do mestre, tendo contribuído dessa forma para que durante vários séculos ele fosse fonte de inspiração para muitos dos grandes nomes da filosofia. (Daqui)

 
Albert Eckhout, Natureza-morta com mandioca.

 
"Por mim discerni uma certa sublimidade na disciplina de Pitágoras, e como uma certa sabedoria secreta capacitou-o a saber, não apenas quem ele era a si mesmo, mas também o que ele tinha sido; e eu vi que ele se aproximou dos altares em estado de pureza, e não permitia que a sua barriga fosse profanada pelo partilhar da carne de animais; e que ele manteve o seu corpo puro de todas as peças de roupa tecidas de refugo de animais mortos; e que ele foi o primeiro da humanidade a conter a sua própria língua, inventando uma disciplina de silêncio descrito na frase proverbial, 'Um boi senta-se sobre ela.' Eu também vi que o seu sistema filosófico era em outros aspetos oracular e verdadeiro. Então corri a abraçar os seus sábios ensinamentos..."
 
 Apolónio de Tiana (15 d.C. – c. 100 d.C.), Filósofo neopitagórico e professor de origem grega. 
 
 
Estátua de Apolónio de Tiana de autoria de Barthélémy de Mélo 
 no Parque dos Filósofos, Versalhes.
 


Apolónio de Tiana, filósofo neopitagórico, nasceu no início do século I, no reinado de Augusto, em Tiana, cidade da Capadócia. Aos catorze anos foi para Tarso estudar gramática e retórica. O encontro com o filósofo Euxene revelou-lhe o pitagorismo. Absolutamente convicto da verdade desta doutrina, deixa o seu mestre, cuja conduta lhe parecia desadequada da teoria. Começa então um processo ascético muito austero, durante o qual empreendeu múltiplas viagens em busca das fontes do pitagorismo: Babilónia, Cáucaso, Índia, Etiópia, Egito, Grécia e Itália.
Este contemporâneo de Cristo foi venerado como um deus descido à Terra, um contraponto pagão ao cristianismo. Os habitantes da sua cidade natal chegaram mesmo a erguer-lhe um templo.
Não chegou aos nossos dias qualquer obra de Apolónio; o que sabemos dele é-nos dado quase na totalidade pelo seu biógrafo Filóstrato.
Apolónio pretendia encontrar a tradição universal original, transmitida de mestre a discípulo desde o início dos tempos, procurando reformar o culto dos seus contemporâneos, que lhe parecia demasiado rudimentar. Opõe-se por exemplo aos sacrifícios; a divindade suprema, diz Apolónio, não necessita de nada. Num espírito verdadeiramente universal, de influência pitagórica, considera a Terra inteira como uma só pátria, na qual os homens devem partilhar os bens oferecidos pela natureza. (Daqui)
 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Consoada" - Poema de Manuel Bandeira


Floris van Dyck (Dutch Golden Age still life painter, c.1575–1651), 
Dutch banquet with cheese, bread, nuts and fruit, 1622.


Consoada


Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.


Manuel Bandeira
(Brasil, 1886-1968)



Floris van Dyck, Still Life with Fruit, Nuts and Cheese, 1610, showing a Dutch breakfast, 
 
 
"Eu não como carne porque vi carneiros e porcos sendo mortos. Eu vi e senti a dor desses animais. Eles sentem a aproximação da morte. Eu não pude suportar a cena. Chorei como uma criança. Corri para o topo da colina e mal conseguia respirar... senti-me sufocado... senti a morte do carneiro."

Vaslav Nijinsk, in The diary of Vaslav Nijinsky - página 73
(Kiev, 1889 - Londres, 1950), Bailarino e coreógrafo



Floris van DyckStill Life with Cheese, 1615. 


Vegetarianismo


Vegetarianismo ou vegetarismo é um regime alimentar baseado no consumo de alimentos de origem vegetal. Define-se como a prática de não comer qualquer tipo de animal, com ou sem uso de laticínios e ovos. 

O vegetarianismo pode ser adotado por diferentes razões. Uma das principais é o respeito à vida dos animais. Tal motivação ética foi codificada em várias crenças religiosas juntamente com os direitos dos animais. Outras motivações estão relacionadas com a saúde, o meio ambiente, a estética e a economia.

Existe uma grande variação de dietas vegetarianas em relação aos produtos que são ou não consumidos. A forma mais popular de vegetarianismo é o ovolactovegetarianismo, que exclui todos os tipos de carnes, mas inclui ovos, leite e laticínios. Há também o lactovegetarianismo, que exclui todos os tipos de carne e também o ovo. Mas é consumido leite e os seus derivados. Outra forma de dieta vegetariana é o vegetarianismo estrito: neste, são excluídos todos os produtos de origem animal, como ovos, laticínios e mel. O vegetarianismo estrito é frequentemente confundido com o veganismo

O vegetarianismo tem sua origem na tradição filosófica indiana, que chega ao Ocidente na doutrina pitagórica. Nas raízes indianas e pitagóricas do vegetarianismo, são ligadas a noção de pureza e contaminação, não correspondendo com a visão de respeito aos animais. O nascimento de uma sensibilidade em relação aos animais, que condena o consumo de animais por motivos morais ou solidários, é muito recente na história da humanidade e surge a partir do século XIX em alguns países da Europa.

O vegetarianismo ético, que visa o respeito pela vida animal teve origem na Antiguidade, sendo que ao longo da História da humanidade, inúmeros autores têm vindo a criticar e questionar consumo de carne com base nesse aspecto. Por exemplo: Mahavira, Asoka, Pitágoras, Empédocles, Plutarco, Porfírio, Ovídio, São Ricardo de Wyche, Leonardo da Vinci, John Ray, Thomas Tryon, Bernard Mandeville, Alexander Pope, Isaac Newton, Voltaire, George Cheyne, David Hartley, Oliver Goldsmith, Joseph Ritson, Lewis Gompertz, Ellen White, Johnny Appleseed, Percy Bysshe Shelley, Alphonse de Lamartine, Amos Bronson Alcott, William Alcott, Gustav Struve, Georg Friedrich Daumer, Richard Wagner, Liev Tolstoi,George Bernard Shaw, Romain Rolland, Élisée Reclus, Mahatma Gandhi, Franz Kafka, Isaac Bashevis Singer, Albert Einstein, entre muitos outros.
Este facto é demonstrado por autores como Howard Williams, Rod Preece, Norm Phelps, Walter e Portmess  e Rynn Berry.

Uma das passagens mais antigas a favor de um vegetarianismo ético surgiu quando Ovídio, nas Metamorfoses, pôs, na boca de Pitágoras, estas palavras:

Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a terra, dá aos homens com tamanha profusão, prodigamente, se tenha ainda de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só degolando animais seja possível cevar a nossa fome? [...] É desumanidade não nos comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes demos de comer. Ah! quão pouco dista dum enorme crime!”
Este trecho de Ovídio reflete os ensinamentos dos pitagóricos no primeiro século.

Já na Era Cristã, São João Crisóstomo escreveu que a alimentação carnívora é uma luxúria e que o Homem, ao comer carne, é pior que os animais selvagens, que só têm essa forma de se alimentarem. No Renascimento, os ensaios de Michel de Montaigne evidenciam bastante sensibilidade para com os animais. Exemplo disso é a seguinte passagem: ´

"Nunca pude ver sem constrangimento perseguir e matar inocentes animais, quase sempre indefesos, e dos quais nunca o homem recebeu a mais pequena ofensa." Ou ainda: "Para algumas mães, é um passatempo ver o filho torcer o pescoço a um frango, bater ou magoar um cão ou um gato [...] isso são meios, sementes e raízes da crueldade, tirania e traição."

Poucos anos depois, Bernard Mandeville foi um dos muitos autores que criticaram o consumo de carne com base nos motivos éticos:

"Eu não posso compreender com um homem, que não está inteiramente endurecido e habituado à vista do sangue e do massacre, possa assistir sem remorso ao massacre de animais como o boi e o carneiro, nos quais o coração, o cérebro, os nervos, diferem tão pouco dos nossos, e cujos órgãos dos sentidos, e por consequência do coração, são os mesmos que no ser humano." 

Por sua vez, já no século XIX, Lamartine estava convencido de que "matar os animais para nos sustentarmos com a sua carne e o seu sangue é uma das mais deploráveis e das mais vergonhosas enfermidades da condição humana."

A britânica Anna Kingsford é considerada a mãe do vegetarianismo no Ocidente. Depois de seis anos de estudo, conquistou diploma em Paris (1880), quando pôde, então, exercer a advocacia pelos animais com maior autoridade. A sua tese final, L'Alimentation Végétale de l'Homme ("A alimentação Vegetal Humana"), foi uma das obras fundamentais sobre os benefícios do vegetarianismo, tendo sido publicada com o título em inglês The Perfect Way in Diet (1881). Fundou a Food Reform Society nesse ano e viajou à Europa para divulgar a dieta do vegetarianismo na Inglaterra; e a Paris, Gênova e Lausanne para falar do uso de animais em experimentos científicos(Daqui)

 
 
Floris van Dyck, Still Life, 1628.
 

Veganismo
 
 
"Veganismo é uma filosofia e um estilo de vida que busca excluir — tanto quanto possível — todas as formas de crueldade e exploração animais: para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito; e, portanto, promove o desenvolvimento e uso de alternativas que beneficiem animais, humanos e o meio-ambiente. Em termos de dieta, denota a prática de dispensar todos os produtos derivados total ou parcialmente de animais." - The Vegan Society

sábado, 14 de abril de 2012

"Dobrada à moda do Porto" - Poema de Álvaro de Campos


Balthus, 'Still Life with a Figure', 1940



Dobrada à moda do Porto


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, 
Serviram-me o amor como dobrada fria. 
Disse delicadamente ao missionário da cozinha 
Que a preferia quente, 
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. 

Impacientaram-se comigo. 
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. 
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, 
E vim passear para toda a rua. 

Quem sabe o que isto quer dizer? 
Eu não sei, e foi comigo... 

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, 
Particular ou público, ou do vizinho. 
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. 
E que a tristeza é de hoje). 

Sei isso muitas vezes, 
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram 
Dobrada à moda do Porto fria? 
Não é prato que se possa comer frio, 
Mas trouxeram-mo frio. 
Não me queixei, mas estava frio, 
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Álvaro de Campos, in Poesias 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)



Biodiversidade 



Biodiversidade ou diversidade biológica pode ser definida como a variedade de vida do planeta terra, abrangendo as variações genéticas dentro das populações e espécies, a flora, a fauna, os microrganismos e as diversas comunidades, habitats e ecossistemas formados pelos organismos.Sendo uma das propriedades fundamentais da natureza, é responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas e suas funções ecológicas são fundamentais para modificar a biosfera, tornando-a apropriada e segura para a vida.




A diversidade biológica possui, além de seu valor intrínseco, valor ecológico, genético, social, económico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético. Com tamanha importância, é preciso evitar a perda da biodiversidade e cada vez mais preservá-la.




A preservação da biodiversidade não é só responsabilidade dos governos. As organizações internacionais e não governamentais, o setor privado e todas as pessoas têm o dever de proteger o que é o nosso património comum.




Por que ser Vegetariano?


As três razões para não se comer peixes


Sopa Plástica: O Lixo do Oceano Pacífico


Pesquisadores mostram que animais têm se alimentado de plástico. Correntes marítimas levam lixo da costa para o mar aberto. No maior oceano do planeta, uma sopa intragável, mistura de plástico, plâncton, lixo e alimento bóia a 1,6 mil quilómetros da costa entre a Califórnia e o Havaí. Não se sabe exatamente seu tamanho, mas estimativas indicam que o lixo maritmo do Oceano Pacífico teria área maior que a soma dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.




A poluição alcança um ambiente em que seres humanos raramente estão presentes, pela pouca quantidade de ilhas. O lixo cria anomalias, como a tartaruga que cresceu com um anel de plástico em volta do casco e mata os moradores do mar.




.Descoberta por acaso, o capitão Charles Moore viajava pelo Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, quando resolveu arriscar um novo caminho. "Foi perturbador. Dia após dia não víamos uma única área onde não houvesse lixo. E tão distantes do continente", lembra o capitão. Como um descobridor nos tempos das navegações, Charles Moore foi o primeiro a detetar a massa de lixo. E batizou o lugar de Lixão do Pacífico. Primeiro, viu pedaços grandes de plástico, muitos deles transformados em casa para os mariscos. Depois, quando aprofundou a pesquisa, o capitão descobriu que as águas-vivas estavam se enrolando no nylon e engolindo pedaços de plástico. Ele percebeu que mesmo onde parecia limpo, havia dejetos microscópicos, que estariam sendo ingeridos por organismos marinhos minúsculos e até pelos maiores. Albatrozes, por exemplo, tinham um emaranhado de fios dentro do corpo. "Antes não havia plástico no mar, tudo era comida. Então os animais aprenderam a comer qualquer coisa que encontram pela frente. Você pode ver aqui que eles tentaram comer isso. Mas não conseguiram", diz o capitão. 
Com a peneira na popa, o capitão e sua equipe filtram a sopa de plástico e fazem medições. Já descobriram, por exemplo, que 26% do lixo vem de sacolas de supermercado. Numa análise feita com 670 peixes, encontraram quase 1,4 mil fragmentos de plástico. São informações valiosas, fonte de pesquisa e argumentos para a grande denúncia de Charles Moore: "Gostaria que o mundo inteiro percebesse que o tipo de vida que estamos levando, isso de jogar tudo fora, usar tantos produtos descartáveis, isso está nos matando. Temos que mudar se quisermos sobreviver." Da praia para as águas profundas - Um gesto despreocupado, uma simples garrafa de plástico esquecida numa praia da Califórnia. Muitas vezes ela é devolvida pelas ondas e recolhida pelos garis. Mas grande parte do lixo plástico que é produzido nessa região acaba embarcando numa longa e triste viagem pelo Oceano Pacifico. Pode ser também depois de uma tempestade. O plástico jogado nas ruas é varrido pela chuva, entra nas galerias fluviais das cidades e chega até o mar ou vem de rios poluídos que desembocam no oceano. No caminho, os dejetos do continente se juntam ao lixo das embarcações e viajam até uma região conhecida como o Giro do Pacífico Norte. Diversas correntes marítimas que passam às margens da Ásia e da América do Norte acabam formando um enorme redemoinho feito de água, vida marinha e plástico. Lixo encalhado - Em Kamilo Beach, uma praia linda e deserta de uma região quase desabitada do Havai, há tantos dejetos marítimos que o lugar acabou virando um lixão a céu aberto. Basta procurar um pouquinho para descobrir a origem de tudo o que chega até a praia. Em um pedaço de plástico, caracteres chineses. Uma bóia de pescadores, que provavelmente veio do Japão. Um pouco mais adiante, o pedaço de um tanque de plástico com ideogramas coreanos. O pior é que Kamilo Beach está mais de 1,5 mil quilómetros distante do Lixão do Pacífico, no extremo sudoeste da ilha de Hilo, no Havaí. A praia dificilmente vê um gari. E o plástico que chega lentamente pelo mar vai ficando esquecido no paraíso. Há dois anos, depois que se mudaram para cá, Dean e Suzzane Frazer resolveram fazer de Kamilo um alerta planetário. Suzanne se pergunta: "Será que o governo japonês, por exemplo, sabe quanto plástico o Japão esta mandando para o Havaí?" Dean vem trazendo um galão que, sem dúvida, chegou da Ásia. Tem também tubo de shampoo usado nos Estados Unidos e sacos de plástico sabe-se lá de onde. Agora, são só farrapos do mar. As mordidas impressas no plástico levaram os ambientalistas a mudar de alimentação. Eles afirmam que as toxinas estão se acumulando ao longo da cadeia alimentícia, fazendo com que os resíduos do plástico cheguem ao ser humano.
Fonte: Nova Consciência



O Capitão Charles Moore da Algalita Marine Research Foundation foi quem primeiro descobriu a grande mancha de lixo do Pacífico - uma infinita aglomeração flutuante de lixo plástico. Agora ele chama a atenção para o crescente, asfixiante problema dos resíduos de plástico nos nossos mares.