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domingo, 30 de agosto de 2026

"Libera Me" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
Cupids - Allegory of Painting, 1760s, Hermitage Museum.



Libera Me


Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação. 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), in 'O Instituto'
[Revista científica e literária, entre 1852 e 1981];
in 'Poesia de Carlos Queirós' de Jorge de Sampaio,
Edições Panorama, Lisboa, 1966.




Carlos Queirós
 
 
Poeta, ensaísta e crítico literário português, José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu a 5 de abril de 1907, em Lisboa, e morreu a 27 de outubro de 1949, em Paris.
Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde conviveu com um grupo de escritores presencistas. Para o Secretariado Nacional de Propaganda editou algumas obras sobre o turismo português e organizou, na Emissora Nacional, onde era funcionário, vários programas de carácter nacionalista e de divulgação cultural e turística.
Dirigiu Panorama (1941) e Litoral (1944), tendo ainda colaborado em publicações como Contemporânea, Momento, Sudoeste, Cadernos de Poesia, Aventura e Revista de Portugal.
Organizou, em 1942, com António Pedro e Jorge de Sena, uma "Homenagem a Arthur Rimbaud". Para além de amigo e o responsável pelo conhecimento travado entre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós, sua tia, que resultou numa relação amorosa, foi também um acérrimo exaltador da memória daquele poeta (cf. "Carta à memória de Fernando Pessoa" e "Homenagem a Fernando Pessoa", ambas publicadas na Presença, em 1936), sendo um dos herdeiros da estética pessoana, constituindo, para David Mourão-Ferreira, um "privilegiadíssimo elo na cadeia que estabelece a ligação entre os poetas de Orpheu (em particular Fernando Pessoa, e nomeadamente o Pessoa ortónimo) e algumas das camadas que só na segunda metade do século principiaram a manifestar-se." (MOURÃO-FERREIRA, David - preâmbulo a Epístola aos Vindouros, Lisboa, Ática, 1989).
Poeta que transcende a etiqueta de presencista e cujo papel basilar na estética do segundo modernismo ainda não foi suficientemente avaliado, a sua obra compõe, também segundo o mesmo crítico, "uma das mais fascinantes cúpulas da poesia da primeira metade de século".
Publicou, entre outros, os livros de poemas Desaparecido (1935) e Breve Tratado de Não-Versificação (1948). (daqui)
 
 

domingo, 23 de agosto de 2026

"A Voz" - Poema de Maria Teresa Horta



Paula Rego (British-Portuguese visual artist, 1935–2022), Self-portrait in red, 1966.
Óleo, lápis de cera e colagem de papel sobre tela, 152 × 152 cm,
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



A Voz


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei

para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.


Maria Teresa Horta (1937–2025), in "As Palavras do Corpo"
(Antologia de poesia erótica), 2012
 
 
 
Paula Rego, The Artist in Her Studio, 1993, acrylic paint on canvas.



“Não é agradável viver sob uma crueldade tão grande. Interesso-me por muitas coisas, mas sou uma mulher por isso vejo as injustiças que as mulheres têm de suportar e tento destacá-las, de forma a ajudar. Não me vejo como uma pintora feminista.”
 

Paula Rego, 26 de janeiro de 2021, ao "Observador". (daqui)
 
 
Paula Rego em 1967, com 32 anos  (daqui)
 

Pintora portuguesa radicada em Inglaterra, Paula Figueiroa Rego nasceu a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa e morreu a 8 de junho de 2022, em Londres.

Paula Rego formou-se na Slade School of Art e, nos inícios dos anos 60 do século XX, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

A sua primeira aparição perante o público lisboeta deu-se em 1961, na II Exposição da Gulbenkian, tendo o seu trabalho sido bem acolhido pela crítica. O surrealismo e o expressionismo influenciaram estes primeiros desenhos e colagens. Passou pelo movimento da pop art inglesa, conservando, contudo, uma temática muito pessoal. A leitura dos romances de Henry Miller marcou igualmente o seu percurso, ao abordar temas do imaginário erótico feminino.

Em 1965 produziu vários trabalhos relacionados com acontecimentos chocantes da vida política ibérica - Cães de Barcelona, Gorgon, Retrato de Grimau, Manifesto (por uma causa perdida), temática já anunciada em 1961 com Salazar a vomitar a Pátria. Faz uma leitura pessoal de outras obras de arte e das suas memórias, integradas em processos narrativos em que o mundo da infância aparece como um lugar lúdico de perversidade e algum humorismo. Esta "narratividade" acentua-se nos anos 80. Nos anos 90, assume a orientação figurativa de raiz temática portuguesa ou atinge ainda uma dimensão universal abordando a condição feminina (Série de mulher-cão, Marborough Gallery, 1992).

Paula Rego nunca se desligou da vida artística portuguesa, expondo regularmente entre nós, mas também noutros países, como aconteceu, por exemplo, nas cidades de Amesterdão, Paris, Lima e Bruxelas. Também já representou o Reino Unido em certames como a Bienal de S. Paulo. Em maio de 1997, no Centro Cultural de Belém, foi inaugurada uma importante exposição retrospetiva da sua obra, com 136 trabalhos, cobrindo trinta e seis anos de carreira, e, em outubro de 2004, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, acolheu uma seleção da obra de Paula Rego, produzida desde 1997. Nesta mostra, de cerca de 150 obras, a artista apresentou, pela primeira vez, os desenhos preparatórios de algumas das suas pinturas, destacando a importância do desenho no seu trabalho. Em 2001, foi publicado, numa edição limitada, numerada e assinada, o livro As Meninas, uma obra conjunta da artista e de Agustina Bessa-Luís.

Ao longo da sua carreira foi distinguida com vários prémios, como: Prémio Soquil (1971); TWSA Touring Exhibition, Newlyn Arts Centre, Penzance (1984); Prémio Benetton/Amadeo de Souza-Cardoso, Casa de Serralves, Porto (1987); Prémio Turner 89, Londres (1989); Prémio Bordalo da Casa da Imprensa 1997, Lisboa (1998); Prémio AICA'97, Lisboa (1998); Prémio de Consagração Celpa/Vieira da Silva (2001). (daqui)

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

"Eclipse" - Poema de António Nobre



Antoine Caron (French master glassmaker, illustrator, Northern Mannerist painter,
1521–1599), "Dionysius the Areopagite Converting the Pagan Philosophers"
("Astronomers Studying an Eclipse"), c. 1575, J. Paul Getty Museum.


Eclipse


Naquela tarde eu contemplava, ansioso,
A lua das marés:
Ia ver um fenómeno curioso,
Pela primeira vez.

Desde as sete horas que eu me achava pronto,
Pois vinha no jornal
Que se daria, às sete e meia em ponto,
O eclipse total.

Na praia, Miss! Àquela hora havia
Enorme sensação:
Entusiasmada, a gente discutia
Com o óculo na mão.

E como, é certo, com a vista nua,
Tão fraca e tão subtil,
Tu não podias observar a lua,
Astrónomo gentil.

Um moço poeta, rouxinol das praias,
Um óculo ofereceu,
A ti, meu casto Ptolomeu de saias,
Geómetra do céu!

Assestaste-o, mas nada: uma imprevista
Mancha aos teus olhos sai,
Pois que estava graduado pela vista
Do teu velhinho pai...

Da praia, entanto, na deserta areia,
Caía o luar, a flux,
E nos céus fulgurava a lua cheia,
Cheia de tanta luz,

Que tu, imaginando ver da aurora
O lúcido arrebol,
Disseste: «Estou capaz de abrir, agora,
O meu chapéu de sol...»

Única frase que tombou, criança,
Do róseo lábio teu,
Porque, depois – que súbita mudança,
Tornou-se escuro o céu...

E a lua, a pouco e pouco desmaiando,
Sumia-se no ar,
Como se um monstro a fosse devorando,
Na sombra... devagar...

À luz da lua sucedeu a treva,
Treva de horror sem fim,
Cor dos teus olhos, deliciosa Eva,
Meu pálido jasmim!

E ao ver-me só nas trevas, de repente,
Clamei por ti, clamei...
Interrogando a multidão, a gente,
Em vão! Não te encontrei!

Ah, bem dizem as lendas, os adágios,
E as bruxas de Sabbat,
Que os eclipses da lua são preságios,
Sinais de coisa má!

Por isso o Mal com sua garra adunca
Me separou de ti,
Pois que tu nunca mais me viste, nunca!
E eu nunca mais te vi...

E, hoje, nas trevas sepulcrais e calmas,
Eu vivo, por meu mal:
É que também se deu em nossas almas
O eclipse total!
 

24 de Setembro de 1884

António Nobre
,
"Primeiros Versos e Cartas Inéditas",
Org., pref. e notas por Viale Moutinho
Lisboa, Editoral Notícias, s.d.


 
António Nobre
 
 
 António Nobre

«Quando ele nasceu, todos nós nascemos», disse Fernando Pessoa a propósito de António Nobre.

Poeta português do século XIX, António Pereira Nobre nasceu no Porto em 1867 e faleceu a 18 de março de 1900 na Foz do Douro, vítima de tuberculose.

De Verlaine António Nobre herdou o simbolismo francês e de Almeida Garrett o neogarretismo.

Em vida publicou apenas uma obra Só (1892). Numa linguagem poética, que assimila a vivência coloquial provinciana e emocional. Só foi publicado pela primeira vez em 1892, em Paris, onde estudava António Nobre, pela Léon Vanier Editeur. Só é segundo o próprio autor «o livro mais triste que há em Portugal». Hoje é considerada como umas das obras mais emblemáticas do fim de século português.

Apesar de morrer jovem, com apenas 33 anos, António Nobre deixou uma marca indelével na poesia nacional e uma referência obrigatória de toda a Literatura Portuguesa. Quem não conhece, por exemplo, o seu poema «Lusitânia no Bairro Latino»?

Postumamente seriam publicados vários inéditos de António Nobre como: Despedidas (1985-1899), publicado em 1902, Primeiros Versos (1882-1889), publicado em 1921, e Cartas Inéditas de António Nobre, publicado em 1921, entre outras.

Em maio de 2001, a Imprensa Nacional dedicou-lhe um «Essencial Sobre», de autoria de José Carlos Seabra Pereira e no ano seguinte, em 2002, a editora pública publicou O Ritmo na Poesia de António Nobre, a tese de licenciatura em Filologia Românica que Luís Filipe Lindley Cintra apresentou à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1946.

Recordamos aqui o artigo de autoria de Luís Miguel Queirós, publicado no jornal Público, a 18 de março de 2000, aquando do centenário da morte de António Nobre.

António Nobre viveu como um enigma. Morreu faz hoje cem anos. Escreveu um dos livros maiores da literatura portuguesa, ‘‘Só’’. Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro.

Quantos livros produziu a poesia portuguesa do século XIX que coubessem sem hesitação numa escolha exigente da literatura universal? Não mais do que dois ou três.

O ‘‘Livro de Cesário Verde’’, sem dúvida, e talvez os ‘‘Sonetos’’ de Antero. Se arrumarmos a ‘‘Clepsidra’’ de Pessanha no século XX, resta apenas o ‘‘Só’’, de António Nobre.

Cem anos decorridos sobre a morte do poeta – a 18 de Março de 1900 –, já não serão muitos os que lhe recusem lugar ao lado dos maiores. Mas se o reconhecimento começa a ser consensual, nem todos o admiram pelas mesmas razões. Alguns glorificam-lhe o saudosismo nostálgico, outros apreciam a paleta impressionista dos seus retratos do Portugal provinciano, agrário e piscatório; uns sublinham a força inovadora do seu tom coloquial e dos seus versos recheados de nomes próprios, outros preferem ver nele o poeta maldito, ostentando o seu provocatório narcisismo na pátria parisiense do ‘‘mal de vivre’’ finissecular.

Mas talvez a prova mais segura da perenidade de Nobre seja, afinal, o modo como a sua lição foi sendo reinventada por poetas posteriores, numa linha nem sempre fácil de rastrear, mas que, passando certamente por Vitorino Nemésio e Pedro Homem de Mello, é ainda visível em autores só recentemente revelados, como Jorge Gomes Miranda. Todavia, há pouco mais de vinte anos, Alexandre Pinheiro Torres ainda podia escrever, a propósito de Nobre, estas linhas indignadas: ‘‘em 1892 publica o ‘Só’, um dos maiores livros da literatura portuguesa, que continua, porém, a ser largamente incompreendido ou desvalorizado pela infinita cretinice dos juízes das letras nacionais’’.

E Vergílio Ferreira abre com estas palavras um texto publicado, em 1992, na Colóquio Letras: ‘‘Coitado do Lusíada. Toda a diferença é um estigma e há que pagar por isso o devido preço. Toda a qualidade é ofensiva e há que esperar, se possível, que ela se perdoe pela própria qualidade. Depois de cem anos de muita injúria, a diferença de Nobre ainda não está paga e ainda se lha não perdoou.’’

Talvez haja um certo exagero neste diagnóstico. Por um lado, os leitores de Nobre nunca cessaram de engrossar, como o confirmam as sucessivas edições do ‘‘Só’’, que se contam já por dezenas. E se a publicação do livro originou, à data, paródias e escárnios, não foi preciso esperar muitos anos para que lhe prestassem a devida homenagem dois especialistas na arte de serem incompreendidos pelo seu próprio tempo: Pessoa e Sá-Carneiro. Sobretudo o segundo, que lha prestou indiretamente em muitos dos seus próprios versos, e expressamente no poema a que deu o título de ‘‘Anto’’.

Pessoa, esse, escreveu: ‘‘De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas’’. Mas neste elogio, como em tudo o resto que escreveu sobre o poeta, pressente-se a sua incompreensão dos mais profundos contributos de Nobre para a renovação da linguagem poética portuguesa. Nos seus breves 32 anos de vida, António Nobre escreveu o ‘‘Só’’ – ainda viu sair a segunda edição revista, em 1898 – e deixou inéditos um considerável número de poemas, postumamente publicados em ‘‘Despedidas’’ (1902), cuja edição original foi prefaciada por Sampaio Bruno, ‘‘Primeiros Versos’’ (1921) e ‘‘Alicerces’’ (1983).

Nobre começou a escrever muito novo. Os seus primeiros poemas datam, tanto quanto se sabe, dos 14 anos. E nada há, nessa produção juvenil, que traia uma especial disposição para a tristeza ou a melancolia. Em Fevereiro de 1885, com 17 anos, dirige mesmo a um amigo estas salutares recomendações: ‘‘aconselho-te a leitura das obras modernas, daquelas que não levam às idealizações metafísicas do romantismo; mas sim às que nos dominam por meio de sentimentos novos, que são a sinceridade, a alegria, a honestidade, enfim, todos aqueles que resultam duma alma bem formada, e dum organismo rijo, forte, sadio’’. A nós, que já fomos espreitar o fim da história, só pode comover-nos a confiança viril destas palavras. Sete anos mais tarde, em Abril de 1892, publica o ‘‘Só’’.

Há qualquer coisa de arrepiante nessa palavra tão curta a ocupar, isolada, toda a capa de um livro. Mais do que um título, soa como uma divisa, equiparável, na sua poderosa brevidade, ao célebre ‘‘Désir’’ do malogrado D. Pedro. O jovem poeta, embora não suspeite da terrível doença que o destino lhe reserva, introduz o volume com este aviso à navegação, expresso nos versos finais de ‘‘Memória’’: ‘‘… tende cautela, não vos faça mal / Que é o livro mais triste que há em Portugal!’’ Os primeiros sintomas da tuberculose chegam nesse mesmo ano. Sentido-se ‘‘muito abatido’’, consulta um médico parisiense, que apenas lhe encontra uma forte anemia e lhe receita pílulas de ferro, vinho Delalonëe e pulverizações com ‘‘Eaux-bonnes’’.

Mas três anos mais tarde, Nobre está já a dar entrada no reputado sanatório suíço de Davos-Platz. É a primeira etapa de uma longa e penosa peregrinação, a que só a morte irá pôr termo. Mas voltemos ao início, a esse ‘‘menino António’’ que, segundo reza um bilhete manuscrito por seu pai, ‘‘nasceu em 16 de Agosto de 1867’’ num prédio do centro do Porto. Filho de um comerciante enriquecido no Brasil, Nobre frequenta bons colégios, alternando os estudos com temporadas nas propriedades rurais da família. E quando os pais se mudam para Leça, uma praia próxima do Porto frequentada pela colónia britânica, descobre o fascínio do mar – esse ‘‘Prof. Oceano’’ referido em ‘‘Carta a Manoel’’ – e, também, as loiras raparigas inglesas, com destaque para Miss Charlote, uma jovem preceptora com quem se corresponde durante dois anos.

É ela que lhe encurta o nome para ‘‘Anto’’, diminutivo que o poeta assumirá e que evoca nos ‘‘Males de Anto’’, título do poema que encerra o ‘‘Só’’. Conhecendo a vida de Nobre, é difícil não ler os ‘‘Males de Anto’’ como a pungente autobiografia de um poeta amaldiçoado. Mas quando escreveu o poema era ainda um jovem e saudável estudante da Universidade de Coimbra. E é consciente dessa perversa ironia que, pouco antes de morrer, faz notar em carta a um amigo: ‘‘Deus castigou-me. Quando era feliz e apenas tinha arranhaduras dos 19 anos, escrevia os Males de Anto, exagerando tudo. Agora é que eu os sinto, depois de os ter expresso em literatura.’’(daqui)

 

sábado, 8 de agosto de 2026

"Tu és parte da minha existência" - Texto de Charles Dickens



William Powell Frith (English painter, 1819–1909), "Charles Dickens in his study"
(English writer and journalist, 1812–1870), 1859, Victoria and Albert Museum.



Tu és parte da minha existência

 
Tu és parte da minha existência, uma parte de mim mesmo. Tu tens estado presente em cada linha que eu li, desde que aqui cheguei, o rapaz grosseirão cujo pobre coração tu magoaste até nessa altura. Tu tens estado em tudo para onde eu olhava desde aí - no rio, nas velas dos navios, nos pântanos, nas nuvens, na luz, na escuridão, no vento, na floresta, no mar, nas ruas. Tens sido a personificação de cada fantasia graciosa com que a minha mente alguma vez se tornou familiarizada. As pedras com que as mais fortes construções de Londres são feitas, não são mais reais, ou mais impossíveis de deslocar com as mãos, do que a tua presença e influência têm sido para mim, por toda a parte, e continuará a ser. Estella, até à última hora da minha vida, farás sempre parte da minha personalidade, parte do pouco de bom que há em mim, e parte do mal. Mas nesta separação eu associo-te apenas com o bom, e irei fielmente manter-te associada a isso para sempre, pois tu fizeste-me muito mais bem do que mal, deixa-me ficar agora com o meu sofrimento acentuado. Oh Deus te abençoe, Deus te perdoe! 
Primeira página da primeira edição do livro, de 1861
 

SINOPSE 
de
«Grandes Esperanças»
 
O jovem órfão Philip Pirrip, de todos conhecido por Pip foi criado pela sua irmã que vive com o ferreiro Joe numa pequena povoação perto de Kent em meados do século XIX. Um dia Pip é convidado pela misteriosa Miss Havisham, uma velha senhora proprietária da mais rica mas decrépita mansão de todo o condado. A sua missão é ser o companheiro de Estella, a jovem protegida de Miss Havisham mas a realidade é bem diferente do que aparenta: Pip é a mera cobaia para uma Estella que está a ser treinada por Miss Havisham como a derradeira vingança contra todos os homens cujo objetivo é "partir corações".

«Grandes Esperanças» foi o maior sucesso editorial de Dickens e marcou o imaginário de gerações de leitores. Romance de formação que acompanha o protagonista Pip dos últimos anos da sua infância à idade adulta é também uma obra portentosa sobre as relações entre homens e mulheres e o ódio e o amor que as atravessam; um retrato de uma época e de uma moral que é ainda a nossa; ao mesmo tempo romance de aventuras, história romântica, meditação filosófica sobre os valores que nos regem e, acima de tudo, sobre as esperanças que temos e que de nós têm para o futuro. (daqui)



William Powell Frith, "The Signal", 1858



"A fé – um sexto sentido – transcende o intelecto sem contradizê-lo."

Mahatma Gandhi
i (1869–1948)
 
 

Mahatma Gandhi, 1931, by Elliott & Fry


Mohandas Karamchand Gandhi (Mahatma Gandhi), apóstolo da não violência e líder da causa independentista indiana, nasceu a 2 de outubro de 1869. O seu pai desempenhava funções de magistrado local e, com o objetivo último de seguir idêntica carreira, Gandhi foi para Londres cursar Direito, aí permanecendo de 1888 a 1891.
De volta à Índia, teve um ensaio pouco auspicioso na advocacia, o que o levou, em 1893, a assinar um contrato válido por um ano com uma empresa indiana sediada no Natal, uma província da África do Sul. Aí teve Gandhi consciência plena, pela primeira vez, de como os preconceitos raciais cerceavam a liberdade e corrompiam a justiça.
Começou então a sua atividade política, em defesa da minoria indiana naquele país. Acabaria por ficar na África do Sul muito mais tempo do que previra, só regressando definitivamente à Índia em 1914.
Por essa altura a vivência sul-africana levara-o a amadurecer o seu posicionamento político-ideológico. No regresso ao país natal, Gandhi era já um homem seguro das suas opiniões, dos seus valores e objetivos. Ao mesmo tempo, tivera oportunidade de aprofundar a sua opção de fé (afinal de contas, a verdadeira matriz do seu pensamento), tendo evoluído para uma forma de Hinduísmo que propunha um ideal de vida austera, levada com desprendimento dos bens terrenos, com humildade e equanimidade.
Foi, de facto, na religião que colheu os princípios inspiradores de toda a sua ação política. De abnegação e sacrifício, aliás, daria largas provas ao longo dos anos. Entretanto, Gandhi ia manifestando o seu desacordo perante os excessos que o governo colonial inglês, do seu ponto de vista, cometia.
A partir de 1920, nomeadamente, ocupou o lugar cimeiro no Congresso Nacional Indiano, e pôde então pôr em prática a sua estratégia de ação política através de um programa de oposição pacífica à potência colonizadora. Esse programa previa um boicote às manufaturas inglesas e uma atitude de desobediência civil por parte dos indianos nas mais variadas instituições do país, tendo gerado uma onda de adesão massiva no país.
Mais tarde o projeto nacional de Gandhi incluiria ainda objetivos educacionais e o desenvolvimento da produção artesanal, realizada por cada um, autonomamente e em autossuficiência, no seu lar (ele próprio se encarregava da produção das vestes que usava).
O longo caminho a percorrer não deixaria de ser atribulado: enquanto apresentava a resistência passiva como uma estratégia política e uma força moral, Gandhi teve que enfrentar, em certos momentos, a violência no país (da parte dos ingleses, mas também da parte de indianos e muçulmanos) e conheceu até o cárcere; por mais de uma vez, ainda, teve que recorrer a jejuns como meio de pressão para acabar com tumultos entre a população.
Em 1934 afastou-se do partido, mas nessa altura as suas linhas de ação haviam já deixado uma marca indelével na consciência nacional indiana.
Em 1947 deu-se a independência, obtida contudo em moldes inesperados: o território do país era dividido, surgindo o Paquistão como Estado muçulmano separado. Apenas alguns meses mais tarde, em janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado a tiro por um fanático hindu.
A admiração dos seus compatriotas valera-lhe já o epíteto "Mahatma", a grande alma. A admiração de muitos outros homens asseguraria a sobrevivência dos seus valores e métodos de ação, sobrevivência que bem se revela, por exemplo, no percurso de Martin Luther King, o conhecido ativista norte-americano dos direitos cívicos dos negros. (daqui)
 
 

terça-feira, 28 de julho de 2026

"Humidade" - Poema de José Henrique dos Santos Barros


 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942), 'Catinou Knitting'
(aka 'Solitude'), 1887, Brenau University Permanent Art Collection.


Humidade 


O melhor é abrir a porta minha mãe
respirar o cansaço por fora enquanto bordas
borda a borda o barco se parte todo
um mau fogo o abrasa.

Nós estamos silenciosos e húmidos.
Escuta a pulsação como doem os pulsos
pulos da infância o respirar da arca
entrar o sol ao fechá-lo dentro.


J. H. Santos Barros
, in 'A Humidade'
Lisboa, Cooperativa Semente, 1979.



 

Anna Elizabeth Klumpke
 
Anna Elizabeth Klumpke (1856–1942) foi uma pintora de retratos e cenas quotidianas americana. Ela é talvez mais conhecida por seus retratos de mulheres famosas, incluindo Rosa Bonheur (1822–1899) em 1898 e Elizabeth Cady Stanton (1815–1902) em 1889. O pai de Anna, John Gerald Klumpke, nascido na Alemanha, foi um rico e bem sucedido agente imobiliário em São Francisco. Sua mãe era Dorothea Mattilda Tolle. Anna era a mais velha de oito filhos. Entre seus irmãos estavam a astrónoma Dorothea Klumpke-Roberts, a violinista Julia Klumpke e a neurologista Augusta Déjerine-Klumpke. 

Quando Anna tinha três anos de idade, caiu e sofreu uma fratura de seu fémur. Ela caiu novamente aos cinco anos. Isso causou uma infeção óssea grave em seu joelho (osteomielite com artrite purulenta). Esses problemas de saúde dificultaram a sua locomoção. Sua mãe esforçou-se muito para encontrar uma cura. Ela levou Anna e três de seus irmãos para Berlim, na Alemanha, para tratamento pelo Dr. Bernhard von Langenbeck. O tratamento durou 18 meses e incluiu banhos termais em Kreuznach. Infelizmente não foi bem sucedido, e Anna permaneceu com dificuldade em andar toda a sua vida.
 
Enquanto  estavam na Europa, sua mãe garantiu que seus filhos recebessem excelente educação. O tempo na Europa tensionou a relação dos Klumpkes. Quando Anna tinha quinze anos, seus pais se divorciaram. Ela  e seus irmãos  mudaram-se com sua mãe para Gottingen, na Alemanha, onde viveram por um tempo com a irmã da mãe, que era casada com um cidadão alemão. 
 
Anna e sua irmã Augusta foram enviadas para a escola em Cannstatt, perto de Estugarda. Quando ela tinha dezassete anos, a família mudou-se para Clarens, perto do Lago de Genebra, na Suíça, onde passou dois anos num internato. Anna estudou arte em casa durante os anos seguintes. Em outubro de 1877, a sua família mudou-se novamente para Paris, França. Mais tarde, ingressou na Académie Julian (1883–1884), onde teve aulas com professores como Tony Robert-Fleury e Jules Lefebvre. Anna passou muitas horas a copiar pinturas no Museu do Luxemburgo. Uma das suas pinturas favoritas para copiar era "Arando no Nivernais", de Rosa Bonheur. Ela também estudou com Vuillefroy. 

Em 1884, ainda na Academia, Anna expôs a sua primeira pintura no Salão de Paris. Era uma grande exposição de arte, na qual ganhou o prémio máximo de melhor aluna do ano. Continuou a expor os seus trabalhos no Salão durante mais alguns anos. Após concluir os estudos, regressou aos Estados Unidos, onde lecionou arte em Boston durante alguns anos. Mas, em 1889, já estava de volta a Paris.

Quando a Anna era pequena, tinha uma boneca chamada "Rosa". Esta boneca foi feita para se parecer com a famosa pintora francesa de animais Rosa Bonheur. Rosa Bonheur era tão conhecida que foram feitas bonecas em sua homenagem. Desde pequena que Anna se interessou muito por esta artista e inspirou-se nela. Em 1895, Anna e Rosa Bonheur conheceram-se finalmente. Bonheur tinha 73 anos e Klumpke, 39. Klumpke tinha muita vontade de pintar o retrato de Bonheur. A 11 de agosto de 1898, as duas mulheres já viviam juntas. Assinaram um acordo especial: Bonheur construiu um novo estúdio de arte para Klumpke. Em troca, Klumpke pintaria três retratos de Bonheur e escreveria a sua biografia. A estreita amizade entre elas durou até à morte de Bonheur, em maio de 1899.
 
Rosa Bonheur nomeou Anna Klumpke como a única pessoa a receber os seus bens após a sua morte, contrariando os desejos da família. Em 1899, Anna fundou a Rosa Bonheur Memorial Art School que auxiliava as mulheres a aprender arte. Geriu também a venda de todas as obras de arte de Bonheur em 1900. Anna criou o Prémio Rosa Bonheur na Sociedade dos Artistas Franceses e fundou o Museu do Ateliê Rosa Bonheur, localizado no Château de By, junto ao Palácio de Fontainebleau.

Anna Klumpke mantinha diários detalhados. Em 1908, publicou um livro sobre Bonheur chamado Sa Vie Son Oeuvre, que significa "A Sua Vida, a Sua Obra". Este livro foi baseado nas notas do diário da própria Anna. Utilizou também cartas, desenhos e outros escritos de Bonheur. O livro só foi publicado em inglês em 1998. Nele, Klumpke contou a história de vida de Bonheur. Partilhou como se conheceram e como se tornou a retratista oficial e amiga íntima de Bonheur. 
Anna Klumpke expôs as suas obras de arte no Palácio de Belas Artes e no Pavilhão da Mulher. Isto ocorreu durante a Exposição Mundial Colombiana de 1893 em Chicago, Illinois. 

Após a morte de Rosa Bonheur, Anna Klumpke passou algum tempo em França, em Boston e em São Francisco. Acabou por se estabelecer em São Francisco na década de 1930. 
Durante a Primeira Guerra Mundial, ela e a mãe montaram um hospital para soldados em recuperação de ferimentos. Esse hospital ficava na sua casa em Thomery, França. 
 
Em 1940, com 84 anos, Anna Klumpke publicou a sua autobiografia, intitulada "Memórias de uma Artista". Faleceu a 9 de fevereiro de 1942, aos 86 anos, na sua cidade natal, São Francisco.
Existe um memorial em sua homenagem no Columbário da Sociedade Neptuno, em São Francisco. Está sepultada ao lado de Rosa Bonheur e Nathalie Micas no Cemitério Père Lachaise, em Paris. A lápide partilhada tem a inscrição: "A amizade é um afeto divino".
A obra de Klumpke esteve também exposta na exposição de arte "Mulheres em Paris 1850–1900", realizada em 2018. (daqui)
 
 
 Obras de Anna Elizabeth Klumpke 
 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942),
'Spring sowing flowers on the path of our life', 1925.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of a Lady in Pink', 1886. 



Anna Elizabeth Klumpke, 'Old Reflections', 1904.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the artist's father', 1912.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Miss Mary Sophia Walker', 1895,
oil on canvas, 66.3 x 56.3cm, Bowdoin College Museum of Art.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the French artist Rosa Bonheur, 1898
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur', 1898, oil on canvas,
117.2 x 98.1 cm, Metropolitan Museum of Art.



Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur with her dog Charly', 1889,
oil on canvas, 147 x 114 cm, Château de Fontainebleau.
 

Rosa Bonheur

Rosa Bonheur, nascida Marie-Rosalie Bonheur (Bordeaux, 16 de março de 1822 – Thomery, 25 de maio de 1899) foi uma pintora e escultora francesa, conhecida por suas obras realistas. Uma de suas obras mais conhecidas é Ploughing in the Nivernais, primeiramente exibida no Salão de Paris, de 1849 e hoje pertencente ao acervo do Musée d’Orsay, em Paris. Rosa Bonheur é considerada uma das maiores pintoras do século XIX.

Rosa nasceu em Bordeaux, em 1822, a filha mais velha de uma família composta por artistas. Sua mãe era Sophie Marquis Bonheur, uma professora de piano que morreu quando Rosa tinha 11 anos. Seu pai era o pintor e retratista Oscar-Raymond Bonheur. A família adotou o credo cristão-socialista, baseado no Simonianismo, que promovia a educação de mulheres como era a dos homens. Assim, as crianças Bonheur tiveram acesso a educação, não importando o género.

Entre os irmãos de Rosa estavam os pintores Auguste Bonheur e Juliette Bonheur e o escultor Isidore Jules Bonheur. Em 1828, Rosa, então com seis anos, sua mãe e irmãos mudaram-se para Paris a fim de se juntar ao pai, que tinha ido na frente para conseguir casa e um emprego. Segundo registos da família, Rosa era indisciplinada e demorou para aprender a ler, mas antes mesmo de andar ficava horas fazendo desenhos com tinta e papel. 
Sua mãe a ensinou a ler e a escrever pedindo que ela escolhesse um animal para cada letra do alfabeto e o desenhasse. Seu comportamento na escola, porém, era inquieto, indisciplinado, resultando em diversas expulsões e suspensões, o que levou seu pai a tomar a filha como aprendiz para ensiná-la a pintar.
 
Seguindo o currículo tradicional da época, Rosa começou a fazer cópias de imagens em livros e a fazer rascunhos de modelos. Com o tempo, ela passou a desenhar animais vivos, como cavalos, ovelhas, cabras, coelhos e outros animais dos arredores de Paris. Aos 14 anos, começou a copiar pinturas expostas no Museu do Louvre. Entre seus pintores favoritos estavam Nicholas Poussin e Peter Paul Rubens, mas não se limitou apenas a eles, tendo copiado e estudado obras de Paulus Potter, Frans Pourbus o Jovem, Louis Léopold Robert, Salvator Rosa e Karel Dujardin.
Rosa estudou anatomia animal nos matadouros de Paris e os dissecou no Instituto Nacional de Veterinária. Estes estudos posteriormente foram úteis referências para suas esculturas e quadros.

Mulheres, na época da Rosa, eram relutantemente educadas nas artes e pelo facto de Rosa se tornar uma artista de sucesso, muitas portas se abriram para outras mulheres seguirem seus passos, depois de diversas encomendas bem pagas e celebradas pela comunidade artística. Rosa também era conhecida por se vestir de homem e perambular pelas ruas de Paris sem ser incomodada. Mas a própria artista atribuía isso ao facto de calças serem mais práticas para usar no dia a dia do estúdio do que vestidos, especialmente ao se tratar de modelos com animais.
Rosa faleceu em 25 de maio de 1899, aos 77 anos, em sua casa em Thomery, tendo sido enterrada junto de Nathalie Micas (1824–1889) no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris. (daqui)
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Elizabeth Cady Stanton', 1889,
oil on canvas, 101 x 81.9 cm, Smithsonian Institution.
 
 
 Elizabeth Cady Stanton

Ativista norte-americana, Elizabeth Cady Stanton nasceu a 12 de novembro de 1815, em Johnstown, Nova Iorque, filha de um juiz, e morreu a 26 de outubro de 1902.
Os seus estudos foram feitos na Academia de Johnstown, onde se dedicou ao Grego e à Matemática. Ao mesmo tempo, aprendeu a montar a cavalo.
Aos 15 anos, entrou no Seminário Feminino Troy, em Nova Iorque, uma das primeiras academias para mulheres a proporcionar uma educação avançada, semelhante à então dada aos homens.
A partir dos 18 anos, quando saiu da academia, passou a estudar Direito em casa, aproveitando os livros e os conhecimentos do pai, a quem acompanhava na resolução dos casos. Apercebendo-se da discriminação que afetava as mulheres na época, decidiu lutar pela alteração das leis. Na mesma altura, envolveu-se com o movimento abolicionista da escravatura e com os reformistas progressistas. Em casa de um primo travou conhecimento com alguns negros que fugiam da situação de escravatura.

Casou com um dos reformistas, o jornalista Henry Stanton, em 1840. Nesse mesmo ano, em junho, acompanhou o marido numa viagem a Londres para participar na Convenção Mundial Anti-Escravatura. Nesta ocasião conheceu Lucretia Moot, que se tornou uma grande amiga e fonte de inspiração intelectual. Quando a convenção negou reconhecer as mulheres como delegadas legítimas, estas sentiram-se humilhadas e revoltadas. Na hora do regresso aos Estados Unidos da América, resolveram organizar uma convenção feminina, que só levaram a cabo oito anos depois. A 19 de julho de 1848, em Seneca Falls, Nova Iorque, reuniram-se cinco mulheres para discutir os direitos e condições sociais, religiosas e civis das mulheres. Stanton, a líder, escreveu um manifesto, a Declaração de Sentimentos de Seneca Falls, que incluía uma carta de direitos e requerimentos de igualdade social para as mulheres, nomeadamente o direito ao voto. Apesar da opinião pública não ter aceite bem esta declaração, rapidamente outras mulheres se juntaram ao movimento e começaram a pedir o direito ao voto.

Em 1851 Elizabeth Stanton travou conhecimento com Susan B. Anthony, uma mulher com grande capacidade de organização que serviu de perfeito complemento às suas teorias filosóficas. Nesta altura, o grupo de Stanton estava inserido no movimento abolicionista, mas quando a escravatura acabou este último retirou o seu apoio às feministas. Desiludidas com esta traição, Stanton e Anthony criaram, em 1868, a Associação Nacional pelo Direito ao Voto Feminino, presidida pela primeira. Elizabeth iniciou também nessa altura a publicação de um jornal chamado "Revolução", que defendia os direitos das mulheres, incluindo também o direito ao voto, inseridos num programas de reformas sociais, económicas e políticas. A ideia de Elizabeth era mudar as leis e o modo como a sociedade encarava o papel da mulher. Em 1876 apresentaram a Declaração dos Direitos das Mulheres dos Estados Unidos na celebração do centenário da nação, mesmo sem terem sido convidadas.

Em 1881, Elizabeth Stanton e Susan Anthony publicaram o primeiro de três volumes da História do Voto das Mulheres, uma coleção de escritos sobre as lutas do movimento. Entretanto, surgiram vários movimentos feministas nos Estados Unidos da América, que a duas conseguiram unir em torno de uma única associação em 1890 chamada Associação Nacional Americana pelo Direito ao Voto Feminino, da qual Elizabeth Stanton foi a primeira presidente. No entanto, as suas ideias antirreligiosas ameaçaram a estabilidade da associação. O descontentamento de algumas feministas atingiu o limite em 1895, quando Stanton publicou A Bíblia das Mulheres, um estudo sobre discriminação sexual no Velho Testamento.
Stanton, para além de defender o direito ao voto, pugnou por leis do divórcio mais liberais, roupas menos restritivas e pelo direito das mulheres casadas controlarem as suas propriedades.
Quando morreu, Elizabeth já não era presidente da associação. Dezoito anos depois, o congresso norte-americano aprovou o direito ao voto feminino. (daqui)
 
 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

"Poeta no supermercado" - Poema de Fernando Assis Pacheco


Darío de Regoyos (Spanish painter, 1857–1913),
'Mercado de Villafranca de Ordizia', 1909
 

Poeta no supermercado

1

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz — como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser

prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


Fernando Assis Pacheco
, 
in 'Cuidar dos Vivos', 1963



Darío de Regoyos (Spanish painter, 1857–1913), 'View of the Alhambra'
Granada Public Library
 

"O que distingue um grande poeta é o facto dele nos dizer algo que ninguém ainda disse, 
mas que não é novo para nós." 

 
 

'Portrait of José Ortega y Gasset', 1917, by Ignacio Zuloaga
(Spanish painter, 1870–1945)
 

Escritor espanhol, José Ortega y Gasset nasceu em 1883, em Madrid, e morreu em 1955, na mesma cidade. Formou-se em Direito pela Universidade de Madrid.
É considerado um dos escritores espanhóis que alcançou a mais ampla e variada ressonância em todo o mundo, destacando-se as suas produções La Deshumanización del arte (1925) - onde Ortega y Gasset se revela como um perfeito prosador do desengano e do descontentamento com a vida, traduzindo para a obra a sua mais intensa veia de ensaísta filosófico -, Obras Completas (1932) - uma espécie de compilação de grande parte da produção teórica e filosófica do seu entendimento da vida - e Estudios sobre el amor (1939) - inicialmente publicado em Buenos Aires, é constituído por uma série de ensaios sobre o grande tema do Amor. O seu pensamento central baseia-se na consideração da vida humana entendida como realidade radical, ou seja, apenas possível quando entendida pelos suportes básicos da dualidade, virilidade e feminilidade.
O grande objetivo de Ortega y Gasset era o de ocupar-se do tema do Amor, uma vez que o considerava um pouco "esquecido", "mal tratado" e mal entendido pela humanidade. Desde os seus escritos mais jovens até aos de idade mais madura, Ortega y Gasset conseguiu, nesta obra, cumprir plenamente o seu objetivo de ocupar-se extensa e quase exclusivamente deste magnífico tema. (daqui)
 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Não há mistério" - Poema de Hélder Macedo

 
 
Guilherme Parente (Pintor português, 1940–2025), 'Vem por aqui', s.d.


Não há mistério


Não há mistério
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos

não há não há mistério

e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber

há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida

por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
mas não falo já de mim nem para ti

porque não és o corpo
que reflito
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
sossega meu amor

não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.


Hélder Macedo,
in 'O Lago Bloqueado', 1977
 

 
Hélder Macedo (daqui)

Poeta, romancista e ensaísta português, Hélder Malta Macedo nasceu a 30 de novembro de 1935, em Krugersdorp, na África do Sul. Passou a infância em Moçambique e regressou a Lisboa com 12 anos, tendo mais tarde frequentado a Faculdade de Direito de Lisboa. Ainda na fase da juventude, deu os primeiros passos no domínio da ficção literária, escrevendo um romance e alguns contos que o regime ditatorial instaurado em Portugal censurou, impedindo a sua publicação - o livro foi, após a revolução de 1974, revisto pelo autor, que decidiu não o publicar. Contudo, conseguiu editar o seu primeiro livro de poemas com 21 anos de idade.
Empenhado na sua vida académica, fez uma pausa na escrita que só retomou anos mais tarde. Jovem de convicções anti-fascistas, foi perseguido pela PIDE (Polícia de Intervenção e Defesa do Estado). Aquando da campanha de Humberto Delgado, que recebeu o seu empenhamento entusiasta, não conseguiu iludir a vigilância da ditadura e foi preso.
Exilou-se em Londres em 1960, vindo a formar-se em Literatura e História. Docente do King's College, aí realizou os seus estudos de doutoramento.
Em 1991 e 1998 editou os romances Partes de África e Pedro e Paula, respetivamente, que considera serem reflexo da sua identidade, declarando que neles "há, salvo o erro, uma dicção, uma voz própria, minha?". Intelectual humanista, afirma que a sua obra narrativa, apesar de idealista, "não é de ilusões". Concretamente, Pedro e Paula, romance político e cívico, retrata o que é fundamental numa época, a época de 60, vivenciada pelo autor e caracterizada pela total ausência de liberdade e por uma guerra colonial que afetava milhares de famílias portuguesas. Por isso, afirma Hélder Macedo que esta obra "prende-se com a sua própria memória portuguesa dos anos de ditadura e guerra colonial". Reavaliando a história portuguesa de um passado muito recente, este romance constituiu um sucesso no meio editorial.
Coorganizador de Folhas de Poesia, Hélder Macedo colaborou em várias publicações, como Graal, Hidra I ou Colóquio/Letras. No domínio do ensaio, Hélder Macedo distinguiu-se com estudos de crítica literária que apresentavam perspetivas inovadoras sobre a conexão do texto literário com o horizonte mental e cultural em que foi produzido. Dessa bibliografia ensaística merecem especial destaque os conhecidos estudos Do Significado Oculto da "Menina e Moça" (prémio da Academia de Ciências de Lisboa) e Camões e a Viagem Iniciática, onde o privilégio de uma interpretação esotérica permitiu a explanação de um sentido novo para textos clássicos da literatura portuguesa.
No domínio da poesia, Hélder Macedo, tendendo a estabelecer nexos de intertextualidade a nível de temas e formas com alguns dos seus autores de eleição, nomeadamente com Camões e Cesário Verde, ocupa pelo equilíbrio que mantém entre discursividade e formas rítmicas, entre metaforização e expressão pessoal, um lugar singular na atual poesia portuguesa.
Publicou Vícios e Virtudes (2000) e o livro Viagem de Inverno e Outros Poemas, uma coletânea da sua poesia, editada pela Editora Record, do Brasil.
Tendo vivido em Portugal entre 1975 e 1980, onde exerceu, durante um curto período, funções públicas e políticas, Hélder Macedo tornou-se professor de Literatura Portuguesa no King's College de Londres, onde se encontra a viver há anos, embora nunca abdicando da sua condição de português livre. (daqui)