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segunda-feira, 27 de abril de 2026

"Arte Poética I" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Falcão Trigoso
(Pintor português, 1879-1956), 'Amendoeiras em flor em Lagos', 1919.

Arte Poética I

Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.

A loja dos barros fica numa pequena rua do outro lado da praça. Fica depois da taberna fresca e da oficina escura do ferreiro.

Entro na loja dos barros. A mulher que os vende é pequena e velha, vestida de preto. Está em frente de mim rodeada de ânforas. À direita e à esquerda o chão e as prateleiras estão cobertos de louças alinhadas, empilhadas e amontoadas: pratos, bilhas, tigelas, ânforas. Há duas espécies de barro: barro cor-de-rosa pálido e barro vermelho-escuro. Barro que desde tempos imemoriais os homens aprenderam a modelar numa medida humana. Formas que através dos séculos vêm de mão em mão. A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor. Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar.

A beleza da ânfora de barro pálido é tão evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada. Não falo de uma beleza estética mas sim de uma beleza poética.

Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.

Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.

Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível.

Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem a lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.

O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece. Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante ao corpo de Orpheu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa. É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética I foi publicado pela primeira vez na revista Távola Redonda, Dezembro 1962.
Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em Geografia, 1967.
(daqui)

  

Pinturas de Falcão Trigoso

Falcão Trigoso, 'Laranjeiras à tarde' (Paisagem do Algarve), 1925.
Museu Nacional Grão Vasco
, Viseu, Portugal.

 

Falcão Trigoso, 'Poente Algarvio', 1913.
 
 
 
Falcão Trigoso, 'Mar do Levante' (Algarve), 1915,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC).

Descrição: Em primeiro plano uma praia e à direita rochedos, na esquerda e no centro o mar agitado, envolvendo rochedos distanciados uns dos outros. 
 


Falcão Trigoso, 'Couves e Laranjas' (Horta Algarvia),
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Descrição: Vista de um terreno agrícola com uma plantação de couves de forte cromatismo azulado, em primeiro plano, cortada por dois estreitos caminhos, vendo-se no centro um grupo de figuras no qual destaca uma camponesa de lenço e de enxada às costas, ladeada por duas laranjeiras. 
 


Falcão Trigoso, 'Azeite e Pão', Século XX,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Descrição: Paisagem com um campo de trigo em primeiro e no fundo um conjunto de oliveiras, à esquerda, e algum casario miúdo, à direita. Motivo tirado de um montado alentejano.



Falcão Trigoso, 'Crisântemos', 1913,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

Descrição: Em primeiro plano um canto de um jardim repleto de coroas de crisântemos de variadas cores, em brancos, amarelos e carmins. Pintado com evidente gozo plástico pelas cores vivas e estridentes, naturalizadas por um pincel que nas primeiras décadas do século estava na 1ª linha dos que se empenhavam em mostrar a vitalidade e utilidade do Naturalismo no séc. XX. 
 
 
 
Falcão Trigoso, 'Paisagem', Óleo sobre madeira.
 
 
 
Falcão Trigoso, 'Paisagem', Óleo sobre tela.

 
Falcão Trigoso, 'Aldeia Rural', 1917, Óleo sobre madeira.



Falcão Trigoso (1879-1956)

Pintor português, João Maria de Jesus de Mello Falcão Trigoso nasceu a 4 de março de 1879, em Lisboa, Campo Grande.
A sua tendência artística mostrou a bem cedo quando aos 7 anos recebeu do seu avô a sua primeira paleta. Conservou a toda a sua vida, servindo se dela para iniciar cada trabalho como homenagem ao seu avô.
Em 1897 matriculou se no Curso de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa, licenciando se em 1902. Dois anos antes tinha formado, com António Saúde e Alves Cardoso, o grupo Sociedade Silva Porto. Em 1905, foi nomeado Diretor da Escola Técnica Vitorino Damásio em Lagos. Mas em 1924 voltou a Lisboa para trabalhar como Diretor da Escola de Arte Aplicada e dez anos depois passou a dirigir a Escola António Arroio cessando as suas funções aos 70 anos (1948).
Falcão Trigoso foi um pintor que privilegiou sempre a paisagem em detrimento da figura. Expôs pela primeira vez em 1921, no Porto e, novamente, em 1924 no Salão Silva Porto. Em fevereiro de 1927 realizou se a primeira exposição do Grupo Silva Porto na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Nunca parou de trabalhar, expondo durante toda a sua vida, mesmo quando já estava bastante enfraquecido, depois de ter sido submetido a uma operação, em 1955. Em outubro de 1956 sofreu uma trombose, acabando por falecer em 22 de dezembro desse mesmo ano.
 (daqui)

domingo, 26 de abril de 2026

"Armas" - Poema de Fagundes Varela




Reproduction by Giuseppe Sacconi (Italian artist born in the 18th Century),
"Allegory of poetry", c. 1789 (After Carlo Dolci, Italian Baroque painter,
1616–1686), National Museum in Warsaw / Palace on the Water.



Armas


– Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?

– Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?…

A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: – A língua humana!


Poema de Fagundes Varella (1841–1875),
retirado do livro  "Revolta e protesto na poesia brasileira"
 (Nova Fronteira, 2021) - Antologia de André Seffrin.
 
 

'Revolta e protesto na poesia brasileira',
Antologia, vários autores; org. de André Seffrin
Nova Fronteira - 272 págs.

  
DESCRIÇÃO

Organizada pelo crítico e ensaísta André Seffrin, a antologia Revolta e protesto na poesia brasileira reúne 142 poemas sobre temas como corrupção, desmandos políticos e turbulências sociais no país ao longo de sua história. 

O recorte é grande, cobre cinco séculos de abusos políticos e sociais denunciados de maneira satírica e irónica, ou mesmo angustiada e desiludida, por nomes clássicos como Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Castro Alves, Luiz Gama, Cruz e Sousa e Machado de Assis. 

A eles, Seffrin juntou autores mais recentes, como Mário de Andrade, Rubem Braga, Sérgio Sant’Anna, Astrid Cabral, Myriam Fraga, Glauco Mattoso, Paulo Henriques Britto entre outros, mais novos ainda, com Angélica Freitas e Mariana Ianelli, cronista e editora de poesia do Rascunho.

Ao longo da antologia, temas como opressão, preconceito e injustiça ganham espaço até mesmo entre poetas que não se envolveram com as questões sociais. Alguns poemas seguem uma veia melancólica, como A lágrima de um caeté, de Nísia Floresta Brasileira Augusta — precursora no Brasil das lutas em defesa da mulher durante a República e o Abolicionismo. Outros, como O povo na cruz, de Leandro Gomes de Barros, são permeados de humor ou sarcasmo.

“Nesta antologia, a fragilidade da poesia confronta políticos corruptos, magistrados ineptos, agentes públicos relapsos, a burocracia e outras patacoadas provincianas que ainda e sempre nos assediam”, escreve Seffrin, que é ensaísta, organizador de antologias e pesquisador independente.

Desde os anos 1980, escreveu cerca de duas centenas de apresentações, prefácios e posfácios para edições de escritores brasileiros clássicos e contemporâneos. Autor de ensaios críticos e biográficos, alguns em edições de arte, foi também colaborador de jornais e revistas (Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Globo, Manchete, Gazeta Mercantil, EntreLivros etc.) e coordenou coleções de literatura para diversas editoras. (daqui)
 
 

Pedro Américo (Pintor brasileiro, 1843–1905),
"
Retrato do poeta Fagundes Varela", c. 1868/1869,
Museu Nacional de Belas Artes.

   
Poeta brasileiro, Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu a 18 de agosto de 1841, em Rio Claro, no Rio de Janeiro (Brasil).
Descendente de família fluminense de boa posição social, Fagundes Varela viveu a sua infância na fazenda onde nascera e na vila de S. João Marcos. Em 1859, terminou os seus estudos preparatórios em S. Paulo, onde se inscreveu na Faculdade de Direito, em 1862. Casou-se com uma artista de circo, Alice Guilhermina Luande, e com a morte do filho, que lhe inspirou um dos mais belos poemas - "Cântico do Calvário", abandonou o curso de Direito, retomando-o na Faculdade de Direito de Recife, em Pernambuco. Com a morte da mulher, regressou a S. Paulo, reinscrevendo-se, em 1867, na Faculdade de Direito, no 4.º ano, que perdeu por excesso de faltas. Nesse mesmo ano, desistiu de continuar os estudos e regressou à casa paterna, em Rio Claro. A partir de então, Fagundes Varela passou a viver num estilo de vida boémio, agravado pelo alcoolismo e por uma permanente tendência para a marginalidade. Casou-se ainda com a prima Maria Belisária de Brito Lambert, com quem teve duas filhas e um filho, que morreu prematuramente, e mudou-se com a família para Niterói, no Rio de Janeiro.
Fagundes Varela escreveu Noturnas (1861), O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1865), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Cantos Meridionais (1869), Anchieta ou Evangelho na Selva (1875) e os livros, editados postumamente, Cantos Religiosos (1878) e Diário de Lázaro (1880). A sua poesia marca a transição entre as 2.ª e 3.ª gerações do Romantismo brasileiro, a ultrarromântica e a geração condoreira (nome proveniente do pássaro condor e que traduz grande expressividade, grandeza e a ideia de infinito) e aborda várias temáticas desse movimento, tais como a depressão, a melancolia byroniana, a religião, a morte, a beleza da natureza e a exaltação à pátria.
A 17 de fevereiro de 1875, Fagundes Varela faleceu em Niterói, vítima de apoplexia. O poeta é patrono da cadeira n.º 11 da Academia Brasileira de Letras. (daqui)

domingo, 19 de abril de 2026

"Rios sem discurso" - Poema de João Cabral de Melo Neto



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The RiverGeorges Pompidou Center, Paris.


Rios sem discurso  
 
                                                              A Gabino-Alejandro Carriedo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria. 

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
in "A Educação pela Pedra", 1966.

 

André Derain, Le Port de Collioure, 1905. Musée d'Art moderne de Troyes.



"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."

(Frase atribuída ao filósofo e matemático Platão)
 
 
 
 André Derain, Fishing Boats, Collioure, 1905.
 

"A sabedoria consiste em ordenar bem a nossa própria alma." 

Platão, in "A República"
 
 
 
Walter Crane (English artist and book illustrator, 1845–1915), 
 "Plato meditating  on immortality before the grave of his teacher,
 Socrates, the butterfly, skull and poppy", 1884.

["Platão Meditando sobre a Imortalidade da Alma", ante uma caveira, borboleta e papoila na tumba de Sócrates (c. 470 a.C. – Atenas, 399 a.C.). Gravura do século XIX, alegadamente baseada em um intaglio em gema mais antigo.]

Platão

Um dos pensadores mais influentes de toda a história da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 427 a. C.

Dando continuidade às preocupações de Sócrates, seu mestre, tentou ultrapassar o relativismo que resultava das doutrinas dos sofistas, incapazes de superar a antinomia entre ser e devir, tal como haviam sido enunciados por Parménides de Élea e Heraclito.

É o primeiro filósofo de cujas obras foi preservada uma parte significativa, o que permite reconstituir com grande fidedignidade as traves mestras do seu pensamento.

No núcleo do sistema platónico encontra-se a distinção radical entre o mundo sensível e o mundo inteligível, cada um deles com existência autónoma.

O primeiro corresponde ao mundo da corporeidade, contingente e corruptível, domínio da mudança, da diversidade e das aparências; o segundo é o mundo das essências ideais, imutáveis, necessárias e eternas, em suma, da permanência, da unidade e da Verdade universal.

Dotadas de uma existência objetiva independentemente de qualquer sujeito cognoscente, as essências ideais, ou Ideias, são para Platão os arquétipos (modelos) a partir dos quais foram formados - por «imitação», ou mimésis - todos os entes do mundo sensível. O agente dessa intervenção teria sido uma divindade (o demiurgo) que, dessa forma, fez transitar a physis (o mundo físico, a natureza) de um estado primordial de desordem (o caos) à ordem.

No âmbito gnosiológico, o dualismo idealista de Platão tem como consequência, do ponto de vista formal, a inoperância de todo o conhecimento empírico.
Este, de ordem indutiva e tomando por base as representações sensíveis, reporta-se apenas a uma realidade contingente e mutável, não podendo elevar o sujeito além da mera doxa (opinião).
 
Do ponto de vista material, por maioria de razão, o conhecimento que tem por objeto a physis é relegado para um plano subalterno em favor de todo o saber baseado na contemplação inteletiva dos puros conceitos, com especial incidência na matemática e na ética. Associando a unidade, a harmonia, a virtude e a sabedoria, tal como Sócrates, Platão coloca no topo da hierarquia das Ideias do mundo inteligível, enquanto elementos unificadores, as ideias de Uno, de Bem e de Belo.

Subsidiária da mesma arquitetónica dualista, a antropologia platónica considera a alma como essência do homem, vendo o corpo apenas como uma prisão que lhe limita todas as potencialidades. Participando dos atributos do inteligível, a alma é considerada imortal e originária do mundo das Ideias, pelo que a sua existência no mundo físico deve ser orientada para libertação de todas as solicitações materiais e sensuais através do uso da razão e da prática da virtude, visando atingir o saber da Verdade, num processo de ascese que lhe permita regressar ao mundo de plenitude a que genuinamente pertence.

Esse processo de ascese baseia-se no método que Platão designa como dialéctica e caracteriza-se pelo recurso ao diálogo e à discussão dos conceitos tendo em vista a respetiva consciencialização e esclarecimento, com a finalidade de facilitar a reminiscência (ou anamnese) - isto é, o relembrar - das Ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência no mundo inteligível.

No que respeita ao pensamento político, Platão foi em grande parte influenciado pela sua ascendência e formação aristocráticas, atribuindo ao regime democrático, geralmente defendido pelos sofistas, a responsabilidade pela decadência de Atenas. Assim, a organização da cidade modelo que sugeriu deixa transparecer uma visão elitista ao gravitar em torno de uma triagem apertada dos cidadãos em que o lugar do indivíduo se esvai, cedendo perante a força do interesse comum ditado pelos «mais aptos».

O objetivo da seleção dos cidadãos seria a distribuição destes em três ordens, de acordo com o carácter que demonstrassem: à ordem dos governantes pertenceriam os sábios, que se deixam conduzir pela justiça, cabendo ao melhor dos quais, após um longo período de formação, o cargo de Filósofo-Rei, autoridade última da cidade; aqueles que se distinguissem pela coragem deveriam integrar a ordem dos guardiões, com a tarefa de zelar pela segurança interna e externa da cidade; os restantes, que se deixam dominar pelas coisas dos sentidos, fariam parte da ordem dos produtores, com a função de prover às necessidades materiais da cidade, cuidando da agricultura, da indústria e do comércio.

Para evitar qualquer elemento de conflitualidade e discórdia na cidade, Platão defende também quer a comunidade dos bens, quer a comunidade das mulheres e dos filhos. Além disso, propõe que todas as crianças deveriam ter uma educação comum para que o processo de seleção dos melhores pudesse decorrer com eficácia e sem desvios.

Platão morreu em 347 a. C. já com idade avançada, deixando, no entanto, um grande número de discípulos que reconheciam a fecundidade das suas teses.
A Academia que fundara em 385 a. C. para proporcionar formação a todos quantos o quisessem seguir sobreviveu quase mil anos até ter sido mandada encerrar por Justiniano I em 529 d. C. Porém, a perenidade do seu pensamento foi muito além dessa data, sendo ainda hoje reconhecido o seu legado como um dos mais marcantes para a génese da atual cultura ocidental.

Obras de Platão:
 
Classificação clássica em tetralogias, segundo Trasílio, da Corte de Tibério.

1.a tetralogia: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon.
2.a tetralogia: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político.
3.a tetralogia: Parménides, Filebo, Banquete (ou Simpósio), Fedro.
4.a tetralogia: I* e II* Alcibíades, Hiparco*, Rivais* (ou Anterastai).
5.a tetralogia: [Teágenes], Cármides, Laques, Lísias.
6.a tetralogia: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Ménon.
7.a tetralogia: Hípias Menor, Hípias Maior*, Íon*, Menexeno.
8.a tetralogia: [Clitofonte], República, Timeu, Crítias.
9.a tetralogia: [Minos], Leis, [Definições], [Cartas ].

Todas as obras, com exceção da Apologia de Sócrates e das Cartas, foram redigidas em forma de diálogo.*
- Diálogos cuja autenticidade merece algumas dúvidas.
 
Entre [] - Obras quase unanimemente consideradas apócrifas (com exceção da Carta VII). (daqui)
 


André Derain, Le séchage des voiles (The Drying Sails), 1905, oil on canvas, 82×101 cm,
Pushkin Museum, Moscow. Exhibited at the 1905 Salon d'Automne.
 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Saudade da prosa" - Poema de Manuel António Pina

 
 
François Flameng (French painter, 1856–1923),"Grolier in the House of Aldus", 1889.
 Oil on canvas, 73 x 81 in. Collection of The Grolier Club.
 

Saudade da prosa


Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava
senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


Manuel António Pina,
'Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança',
Assírio & Alvim, 1999.
 
 
 
Flameng’s study for Jean Grolier de Servières (c.1489/90–1565) in the House 
of Aldus Manutius (c.1449/1452 –1515), 1889, Collection of The Grolier Club.
 
 
"A literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem."

Louis de Bonald, in Oeuvres complètes; volume 3, ed. 1859.




Retrato de Louis de Bonald  por Louis Hersent
(Pintor francês, 1777-1860), 1823.


Filósofo e político tradicionalista, Louis Gabriel Ambroise de Bonald nasceu a 2 de outubro de 1754, em Le Monna, e morreu a 23 de novembro de 1840, em Lyon. O Visconde Louis de Bonald, filósofo e político, foi obrigado a abandonar França a seguir à revolução de 1789, por ser contrarrevolucionário.

Para Bonald, o homem só existe em função da sociedade e só nela se realiza. Todo o indivíduo que vá contra a sociedade, erra moralmente e vai contra aquilo que a sua própria natureza tem de melhor. Esta posição é fundamentada filosoficamente por Bonald, argumentando que o homem, não tendo ideias inatas, necessita do contacto com a sociedade para a aprendizagem das palavras que lhe permitirão pensar. Mas o homem é apenas o veículo que passa, por tradição, a palavra de geração em geração, pois, em última instância, é em Deus que a palavra se fundamenta: aqui se aplica o bem conhecido adágio que diz "a voz do povo, a voz de Deus". Ora, neste sentido, segundo Bonald, o homem tem um pacto natural com Deus que o obriga a manter em si o que de melhor tem: a presença divina, que se manifesta pelo pensamento e pelo amor, que se socorrem ambos da palavra.

Para que este pacto natural com Deus se cumpra deve haver um soberano único e destacado, à maneira monárquica. O Rei estaria para a sociedade civil, como o Papa para a religiosa.
Bonald examina a história do pensamento, dividindo-a em três sistemas gerais: o sistema da causa, difundido pelo judaísmo, que corresponde à doutrina de Deus; o sistema dos efeitos, difundido pelo paganismo, e que corresponde a uma doutrina meramente humana; finalmente, o sistema intermédio, difundido pelo cristianismo, correspondendo a uma doutrina de mediação entre Deus e o homem. Toda a estrutura do universo se manifesta por esta tríade, que deve tomar forma tanto na sociedade em geral (poder, ministro, súbdito), quanto no homem em particular (inteligência, órgãos, objeto). (daqui)

domingo, 5 de abril de 2026

"Fé" - Poema de Czesław Miłosz



William Brymner (Canadian painter and educator, 1855–1925) & Horatio Walker
(Canadian painter, 1858–1938), "À l'ombre du pommier" (In the shade of the apple tree), 1903,
Musée national des beaux-arts du Québec.





Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.
Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.
in "Alguns gostam de poesia" - Antologia 
 (Poemas de Czesław Miłosz e Wisława Szymborska),
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neve, 
Editora Cavalo de Ferro, 2004.
 
 

Czesław Miłosz em 1999
 
Czeslaw Milosz foi um escritor polaco nascido a 30 de junho de 1911, em Seteiniai, na Lituânia. Filho de um engenheiro civil, acompanhou a família na sua mudança para o território polaco, em consequência da assinatura do Armistício, fixando-se em Vilna. Aí estudou, licenciando-se em Direito pela Universidade de Vilna em 1934.
Enquanto estudante, publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poemas intitulada Poemat O Czasie Zastyglym (1933). Empreendeu depois uma viagem que o levou até Paris, onde teve oportunidade de estreitar os laços que o uniam a um tio afastado, diplomata e poeta reconhecido em língua francesa. Em 1936 regressou a Vilna, onde não só publicou o seu segundo livro, Trzy Zimy, como passou a trabalhar na emissora de rádio da cidade. Foi despedido no ano seguinte por razões políticas, que o colocavam em simpatia com a esquerda, e mudou-se para Varsóvia, cofundando o movimento literário Zagary. 
Em 1939 a Polónia foi invadida por tropas alemãs, acontecimento que despoletou a Segunda Guerra Mundial. Milosz juntou-se à Resistência, escrevendo artigos em que condenava a ideologia Nacional-Socialista. Em 1945, terminada já a guerra, publicou Ocalenia, obra que lhe valeu a admissão no Corpo Diplomático do regime comunista. A partir de 1946 cumpriu uma missão na representação polaca da cidade de Washington, até que, em 1951, ao ser transferido para Paris, pediu asilo político a França, onde viveu até 1960. Durante esse período publicou Zniewolony Umysl (1953), trabalho que foi traduzido para a língua inglesa com o título The Captive Mind, e em que revela os problemas que afetavam os intelectuais tentando sobreviver sob a alçada de Estaline. Traktat Poetycki (1957), obra em que defende a validade da poesia nas comunidades, foi considerada como uma das suas melhores obras. 
Em 1960 partiu para os Estados Unidos da América, onde se tornou professor catedrático de Línguas Eslavas na Universidade de Berkeley. Tomou a cidadania norte-americana em 1970. No início da década de 80 regressou à Polónia, onde foi acolhido com grandes honrarias, e fixou-se na cidade de Cracóvia. Czeslaw Milosz foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Nobel da Literatura em 1980.
Czeslaw Milosz faleceu a 15 de agosto de 2004. (daqui)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"Os Galos de Lurçat" - Poema de Mário Dionísio



Jean Lurçat
(Peintre, céramiste et créateur de tapisserie français, 1892-1966), 
 

Os Galos de Lurçat


Num turbilhão de folhas e de sóis
entre nuvens peixes pedras luas estrelas
cantam os galos de Lurçat

Bom dia corações de girassol e astros com cabelos
Bom dia homens com raízes

Pairam na lã os ares
do Loire e do Garona
meiga luz de velhíssimos teares
cheiro a cachos do Beaune
meiga luz dos mil matizes do aroma
da doce terra de França

Entre troncos caídos em clareiras virgens
graves galos garbosos
de esporões floridos
com a manhã nas cristas

Que outras horas são estas
Que outros sítios e olhos? Que mendigos em festa?
Que serenidades imprevistas?

Galos negros e azuis
entre o presente e o futuro
traçam nos túneis absurdos
esguias figuras mudas

Galos verdes e castanhos
rasgam na alma os lanhos
da poeira dos anos

Galos vermelhos brancos amarelos
no ponto robusto de ásperas lãs
soltam clarins nas ruínas ermas dos castelos
de que se erguem amanhãs

Oh universos suspensos de Lurçat nos nevoeiros densos
da doce terra de França
Oh fanfarras desgrenhadas nas auroras dúbias e ousadas
na doce terra de França

Teus galos cantam fúria e eu oiço amor
teus galos cantam dor e luto e noite e eu oiço
esperança

(1950) 

Mário Dionísio, in 'Poesia Completa', 
Imprensa Nacional, 2016.
 
'Poesia Completa', de Mário Dionísio, é uma compilação da poesia produzida ao longo de quase cinquenta anos, de 1936 a 1982, e que se encontra materializada em cerca de 420 poemas.

Jorge Silva Melo
 em «Memórias de Um Leitor que Começou pelo Meio», que prefacia a presente edição, considera que a produção poética de Mário Dionísio «É uma poesia, descubro então, sem o luxo altaneiro das letras, sem exclamações, nem reticências, sem ópios nem gladíolos, sem desmaios nem declamações, poesia certa, poesia sem nobreza poética, feita de repetições cantáveis (…)».
 (daqui)
 
 
 

À questão: 'O que é a arte?' somos levados a responder: 
'Aquilo por meio do qual as formas se tornam estilo'.
 


André Malraux (1901-1976) em 1974;
Fotografia de Roger Pic (1920-2001).



André Malraux foi um escritor, intelectual, governante e aventureiro francês nascido a 3 de novembro de 1901, em Paris, e falecido a 23 de novembro de 1976, em Créteil, também em França.

Aos 25 anos, foi viver para o Camboja, na companhia da mulher, a escritora Clara Goldsmit. Passou depois pelo Vietname e pela China, de onde regressou novamente a território vietnamita. Em 1926, havia publicado o seu primeiro livro, La Tentation de l'Occident (A Tentação do Ocidente), editado em Portugal em 2005, composto pela troca de correspondência entre um chinês em viagem pela Europa e um francês no Extremo-Oriente.

Dois anos mais tarde, a experiência chinesa inspirou Malraux a escrever Les Conquérants (Os Conquistadores). O escritor francês lançou de seguida, em 1930, La Voie Royale (A Estrada Real), um romance passado na Indochina. Em 1933, ganhou o prestigiado prémio literário francês Goncourt graças a La Condition Humaine (A Condição Humana). Já de regresso à Europa, Malraux continuou a sua forte militância política, o que o levou a tornar-se combatente republicano durante a Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 1939. Manteve a atividade de escritor e, em 1937, lançou L'Espoir (A Esperança).

Entretanto, em 1939, com o advento da Segunda Guerra Mundial, Malraux alistou-se na Resistência, tornando-se partidário do general Charles de Gaulle. Paralelamente, deixou o Partido Comunista Francês, descontente com o facto dos soviéticos terem assinado um pacto com os alemães. Com o terminar da guerra, Malraux dedicou-se ainda mais à política e, em 1945 e 1946, foi ministro da Informação do governo provisório liderado por De Gaulle. Contudo, continuou a escrever e, entre a Segunda Guerra Mundial e meados da década de 50, publicou vários trabalhos sobre arte e estética. Entre estas obras destacam-se Voix du Silence (As Vozes do Silêncio) e Le Musée Imaginaire de la Sculpture Mondiale (O Museu Imaginário da Escultura Mundial). Regressou de forma efetiva à política, em 1958, para assumir de novo a chefia do Ministério da Informação, num governo liderado por Charles de Gaulle. Logo no ano seguinte, assumiu a pasta da Cultura e foi ministro desta área até 1969. Ano em que abandonou o cargo após a contestação surgida por ocasião das manifestações estudantis do maio de 68.

Até morrer, em 1976, André Malraux dedicou-se em exclusivo à escrita tendo lançado, sucessivamente, Les Chênes qu'on abat (1970, Quando os Robles se Abatem), Oraisons funébres (1971), Le miroir des limbes (1972), La corde et les souris (1976), este último a sua derradeira obra. (daqui)
 

sábado, 21 de março de 2026

"As Andorinhas" - Poema de Tomás da Fonseca




As Andorinhas


Chegaram as andorinhas,
foi-se a noite e veio o dia!
Ó aves, saudades minhas,
asas brancas, levezinhas,
há quanto que eu vos não via!

Foi-se do inverno a tristeza,
veio o sol da primavera…
Ter assim tanta leveza,
ver, voando, a natureza,
vida minha, quem te dera!

Viver alto em revoadas,
fazer ninho nos beirais,
e ir convosco, aves amadas,
bem longe d’encruzilhadas
onde não voltasse mais…

Ser pequenino também
e leve como uma asa!...
Não querer mal a ninguém,
viver como filho e mãe,
nesse ninho – a nossa casa…

Velar no céu como vela
a águia que as nuvens fende…
Ver a terra a fugir dela,
porque a vida só é bela
quando do chão se desprende!

Eu voando, elas voando,
entre nuvens nas alturas…
Onde terei, como e quando,
sonho que assim vá sonhando,
bem que assim me dê ventura?

Ó andorinha palreira,
alegria dos casais,
dava a minha vida inteira
para ser asa ligeira
e ir contigo onde tu vais…

Onde tu vais, andorinha,
Que me trouxeste a alegria!
Ó ave, saudade minha,
asa branca, levezinha,
que há tanto tempo não via!


Tomás da Fonseca, in Musa pagã.
Lisboa, Livraria Portugália, 1920.



Tomás da Fonseca na biblioteca da sua casa de Mortágua, década de 50. (daqui)


Tomás da Fonseca  
[Laceiras, Mortágua, 1877 - Lisboa, 1968]  
«É o escritor anticlerical português de maior renome», conclui Lopes de Oliveira – como ele natural de Mortágua e seu companheiro, pelo menos desde a revista Risos e Lisos (Coimbra, 1897) – ao prefaciar-lhe um livro, em 1949.

Poeta, ficcionista, historiógrafo, jornalista, militante e panfletário republicano, deputado e professor, Tomás da Fonseca é conhecido sobretudo pelas suas obras de vincada feição anticlerical, sendo ignorada quase por completo toda a sua intervenção noutros domínios, nomeadamente a infatigável ação que desenvolveu em prol da instrução e da cultura ao longo de várias décadas.

Oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais, mais rica em prole do que em fazenda (era o segundo entre sete irmãos), para frequentar a escola primária móvel, implantada havia pouco na sua região, era obrigado todos os dias a fazer uma caminhada de ida e volta de 10 quilómetros. Aos 17 anos, peito largo e musculatura rija adquiridos ao leme do arado e do alvião coube a Tomás da Fonseca ser o escolhido pelos progenitores, de entre os quatro filhos varões, para seguir a vida eclesiástica, assim se restabelecendo a tradição da linhagem de contar com um padre na família. Deste modo, entrou para o Seminário de Coimbra, o qual viria a abandonar em 1903, após um prolongado e doloroso debate no interior de uma consciência seduzida pela grandeza da doutrina mas revoltada com a perversidade e a mesquinhez da sua pátria quotidiana.

Seguindo, resolutamente, a exortação do geógrafo e racionalista Elisée Reclus, a quem se dirigirira para lhe expor o dilema religioso com que se debatia e a pedir-lhe conselho. T. da Fonseca renunciou por fim aos propósitos que então o animavam («ordenar-me e depois insurgir-me contra tudo quanto a Igreja tem de absurdo e revoltante, dando assim realidade ao personagem de Zola, o abade Pierre Frement», conforme logo após confessou no seu livro Evangelho dum Seminarista), assumindo como norma imperativa da sua vida o conselho recebido daquele sábio e libertário francês: «Sois um homem do povo, ficai com os homens do povo, combatei ao seu lado, camarada sem título nem insígnia, um igual e um livre, ao lado dos iguais e dos livres.»

Participante ativo – pela pena e pela palavra, nos jornais, nos comícios e em conferências – na ininterrupta ação política que iria conduzir alguns anos depois ao derrube da Monarquia portuguesa; deputado e mais tarde senador pelo distrito de Viseu, desde as Constituintes até 1917; chefe de gabinete do ministro do Fomento do Governo Provisório, Dr. António Luís Gomes; preso político na Penitenciária de Coimbra durante dois meses, em consequência das posições tomadas por si e por outros republicanos de Santa Comba Dão contra o consulado sidonista; resistente até ao final da vida ao regime do Estado Novo, que, em 1947, o encarcerou na prisão do Aljube, em Lisboa, por ter protestado contra a continuidade do Campo do Tarrafal – nada disto impediu, porém, o seu constante labor de paladino da instrução e da cultura do povo português, durante anos a fio, desde que à instrução e à educação decidiu dedicar a maior parte da sua longa vida.

A par dos seus escritos sobre a educação e o ensino, das visitas de estudo que empreendeu a escolas, museus e bibliotecas francesas, belgas e inglesas e da polémica travada no jornal O Mundo com João de Deus Ramos (1917) acerca do ensino religioso nas escolas, a par disto, Tomás da Fonseca consagrou-se com idêntico ardor à ação pedagógica direta. Na verdade, grande impulsionador do movimento das escolas móveis, percorreu o distrito do Viseu a pregar a boa nova da alfabetização pelo método de João de Deus (Cartilha Maternal); interveio na reforma do ensino primário e normal empreendida pelos governos republicanos (1912); apresentou ao Parlamento em 1916 um projeto de lei sobre a instrução primária (Lei nº. 429); incentivou e dinamizou, no âmbito das suas funções de deputado, a criação das comissões «Amigos da Escola», nomeadamente no seu distrito, cujos concelhos de Mortágua e Tondela percorreu em 1914, deslocando-se a todas as escolas móveis para instalar as referidas comissões; elaborou, em 1922, a instâncias do ministro da Instrução Pública, Dr. Augusto Nobre, o livro História da Civilização Relacionada com a História de Portugal; exerceu o magistério, primeiro como professor e depois como diretor da Escola Normal de Lisboa (dela foi demitido em 1918, pelo sidonismo, por visitar presos políticos na Penitenciária de Lisboa) e, tempos depois, da Escola Normal de Coimbra, da qual viria a ser afastado compulsivamente em 1934.

A sua ação pedagógica não se confinou, no entanto, ao ensino oficial; em 1925 fundou em Coimbra, com outros mestres (Álvaro Viana de Lemos, Aurélio Quintanilha, Joaquim de Carvalho e Manuel dos Reis) e alguns estudantes e trabalhadores manuais, a Universidade Livre.

É vasta e permanece dispersa a sua colaboração em jornais e em revistas. Escreveu, entre outros, nos seguintes periódicos: A Pátria (do Porto), O Mundo, A Vanguarda, Voz Pública, O Norte, República, O Povo, A Batalha, Lanterna (do Brasil), Luz e Vida, Alma Nacional, Arquivo Democrático (de que foi diretor), O Diabo e a República Portuguesa, um periódico por si fundado e de que era proprietário. Colaborou também no Guia de Portugal, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e ainda na obra dirigida por Lopes de Oliveira As Grandes Figuras da História da Humanidade: História Geral da Civilização. Há vários prefácios seus a livros de outros autores.
Pai do escritor «presencista», 
Branquinho da Fonseca (1905-1974).
 
Biografia de Tomás da Fonseca, in "Dicionário Cronológico de Autores Portugueses", Vol. III, Lisboa, 1994. (daqui)
  

 
Katsushika Hokusai (Japanese ukiyo-e artist of the Edo period, active as a painter
and printmaker, 1760–1849), "Hydrangea and Swallow", n.d.

 
Ukiyo-e

Ukiyo-e, ukiyo-ye ou ukiyo-ê ("retratos do mundo flutuante", em sentido literal), vulgarmente também conhecido como estampa japonesa, é um género de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. Destinava-se inicialmente ao consumo pela classe mercante do período Edo (1603 – 1867). Entre as mais populares temáticas abordadas, estão a beleza feminina; o teatro kabuki; os lutadores de sumo; cenas históricas e lendas populares; cenas de viagem e paisagens; fauna e flora; e erótica. (continua)

Autoproclamado "pintor louco" Katsushika Hokusai (1760–1849) desfrutou de longa e variada carreira. Seu trabalho é marcado pela falta do sentimentalismo usualmente comum ao ukiyo-e e pelo foco no formalismo de influência ocidental. Entre seus feitos, estão ilustrações para trabalhos literários de Takizawa Bakin, séries de sketchbooks — a mais famosa delas chamada Hokusai Manga (北斎漫画, esboços de Hokusai) — e sua popularização da paisagem enquanto vertente, sobretudo com a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", que inclui seu mais conhecido trabalho, A Grande Onda de Kanagawa, que também é uma das mais famosas peças de arte japonesa de todos os tempos.
Em contraste ao trabalho dos velhos mestres, as cores de Hokusai eram arrojadas, lisas e abstratas, e suas temáticas não tinham relação com as zonas de meretrício, mas dialogavam com vida comum e o ambiente da classe trabalhadora.
Mestres consagrados, como Keisai Eisen, Utagawa Kuniyoshi e Utagawa Kunisada também seguiram os passos de Hokusai rumo às paisagens na década de 1830, produzindo trabalhados de composição ousada e impressionantes efeitos. 
(daqui)