Falcão Trigoso (Pintor português, 1879-1956), 'Amendoeiras em flor em Lagos', 1919.
Arte Poética I
Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.
A loja dos barros fica numa pequena rua do outro lado da praça. Fica depois da taberna fresca e da oficina escura do ferreiro.
Entro na loja dos barros. A mulher que os vende é pequena e velha, vestida de preto. Está em frente de mim rodeada de ânforas. À direita e à esquerda o chão e as prateleiras estão cobertos de louças alinhadas, empilhadas e amontoadas: pratos, bilhas, tigelas, ânforas. Há duas espécies de barro: barro cor-de-rosa pálido e barro vermelho-escuro. Barro que desde tempos imemoriais os homens aprenderam a modelar numa medida humana. Formas que através dos séculos vêm de mão em mão. A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor. Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar.
A beleza da ânfora de barro pálido é tão
evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra
beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si
mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual
ela não pode ser separada. Não falo de uma beleza
estética mas sim de uma beleza poética.
Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.
Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.
Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível.
Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem a lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética I foi publicado pela primeira vez na revista Távola Redonda, Dezembro 1962.
Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em Geografia, 1967. (daqui)
Pinturas de Falcão Trigoso
Falcão Trigoso, 'Laranjeiras à tarde' (Paisagem do Algarve), 1925.
Museu Nacional Grão Vasco, Viseu, Portugal.
Falcão Trigoso, 'Mar do Levante' (Algarve), 1915,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC).
Descrição: Em primeiro plano uma praia e à direita rochedos, na esquerda e no centro o mar agitado, envolvendo rochedos distanciados uns dos outros.

Falcão Trigoso, 'Azeite e Pão', Século XX,
Descrição: Paisagem com um campo de trigo em primeiro e no fundo um conjunto de oliveiras, à esquerda, e algum casario miúdo, à direita. Motivo tirado de um montado alentejano.

Falcão Trigoso, 'Crisântemos', 1913,
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.
Descrição: Em primeiro plano um canto de um jardim repleto de coroas de crisântemos de variadas cores, em brancos, amarelos e carmins. Pintado com evidente gozo plástico pelas cores vivas e estridentes, naturalizadas por um pincel que nas primeiras décadas do século estava na 1ª linha dos que se empenhavam em mostrar a vitalidade e utilidade do Naturalismo no séc. XX.

Falcão Trigoso (1879-1956)
Pintor português, João Maria de Jesus de Mello Falcão Trigoso nasceu a 4 de março de 1879, em Lisboa, Campo Grande.
A sua tendência artística mostrou a bem cedo quando aos 7 anos recebeu do seu avô a sua primeira paleta. Conservou a toda a sua vida, servindo se dela para iniciar cada trabalho como homenagem ao seu avô.
Em 1897 matriculou se no Curso de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa, licenciando se em 1902. Dois anos antes tinha formado, com António Saúde e Alves Cardoso, o grupo Sociedade Silva Porto. Em 1905, foi nomeado Diretor da Escola Técnica Vitorino Damásio em Lagos. Mas em 1924 voltou a Lisboa para trabalhar como Diretor da Escola de Arte Aplicada e dez anos depois passou a dirigir a Escola António Arroio cessando as suas funções aos 70 anos (1948).
Falcão Trigoso foi um pintor que privilegiou sempre a paisagem em detrimento da figura. Expôs pela primeira vez em 1921, no Porto e, novamente, em 1924 no Salão Silva Porto. Em fevereiro de 1927 realizou se a primeira exposição do Grupo Silva Porto na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Nunca parou de trabalhar, expondo durante toda a sua vida, mesmo quando já estava bastante enfraquecido, depois de ter sido submetido a uma operação, em 1955. Em outubro de 1956 sofreu uma trombose, acabando por falecer em 22 de dezembro desse mesmo ano. (daqui)
,%20Poente%20Algarvio,%201913,%20MJM.jpg)
.jpg)
,%20Paisagem.jpg)
,%20Paisagem..jpg)
,%20Aldeia%20Rural,%201917.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário