quarta-feira, 8 de abril de 2026

"Gatos" - Poema de António Mota


 

Remedios Varo (Catalan-Mexican surrealist artist, 1908–1963),
"Paraíso de los gatos" (Cats paradise), 1955, Private Collection.


Gatos

Gatos novos
gatos velhos
gatos magros
gatos gordos
gatos brancos
gatos pretos
gatos mimalhos
gatos a pedir
gatos a roubar
gatos a fugir
gatos a ronronar
gatos no telhado
gatos na janela
gatos no sofá
gatos no berço
gatos na cama
gatos na sala
gatos na cozinha
gatos maltratados
gatos a miar
em noites de luar.

Gatos doentes
gatos a brincar
gatos a dormir
gatos a saltar
gatos a parir
gatos a mamar
gatos a nascer
gatos a arranhar
gatos a comer
gatos a pular
gatos a lamber
gatos lestos
gatos mancos
gatos siameses
gatos persas
gatos malteses.

Tantos gatos
de rabo alçado
e eu só tenho um
de pano coçado.


António Mota
,
in "Lá de Cima Cá de Baixo"



"Lá de Cima Cá de Baixo" de António Mota;
Ilustrações de Teresa Lima.

Edições Asa, 2017.


SINOPSE

Plano Nacional de Leitura 
Livro recomendado para o 2º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.

"Lá de Cima Cá de Baixo" é uma coletânea de poemas que António Mota deseja partilhar com os seus leitores, descrevendo a vida de todos os dias. Uma formiga que vai calada e ligeirinha. Um baloiço que serve de mirante. As noites solitárias. Os bichos. Os sonhos.

 

 
Marta Teives (Designer, animadora, urban sketcher, artista de storyboard
e ilustradora portuguesa, n. 1977), "Os Gatos da Casa Amarela", livro 
de António Mota, 2019.
 

O universo dos livros de António Mota pode situar-se numa zona de antítese sócio-geográfica dos livros de uma outra autora portuguesa de obras para a juventude, Alice Vieira. De facto, se Alice Vieira é a narradora por excelência da adolescência burguesa e citadina, com os seus problemas territoriais, afetivos e comunicacionais, António Mota constrói na sua obra uma espécie de contraponto a esse mundo citadino, ao descrever as vivências, as crises de crescimento e as lutas pela mudança de vida de uma infância e adolescência rurais, situadas num mundo em vias de extinção mas ainda existente um pouco por todo o território português: o mundo das pequenas aldeias onde o tempo corre segundo o ciclo das estações e o ritmo das histórias contadas pelos mais velhos e a ligação à terra e aos ofícios tradicionais impõe um estilo de vida muito próprio.

Nascido precisamente numa dessas pequenas aldeias da região do Douro, o autor transpõe para os seus livros memórias da sua própria infância, construindo no entanto histórias com problemas muito atuais. Temas como o do enfrentar da velhice e dos lares de terceira idade (A casa das bengalas) ou das opções profissionais e de futuro (Cortei as tranças), demonstram que, para além das diferentes condições de vida, muitas das questões e perplexidades que se põe aos jovens são basicamente as mesmas, no campo ou na cidade. – Centro de Documentação de Autores Portugueses, 04/2005 (daqui)
 
 
Marta Teives"Os Gatos da Casa Amarela", livro de António Mota, 2019.


Gatos

Não gosto de ter animais em casa. Mas, se gostasse de os ter, teria certamente um gato. 
Um gato é a independência (indiferença?) em estado puro, a dignidade que lhe vem dos tempos em que era tigre – e essas coisas não se perdem nunca. 
Um gato não se doma, não faz figuras tristes, não dá a patinha. 
Um gato é bicho solitário, desliza entre o silêncio dos móveis e o pó dos livros e se calhar é por isso que tantos escritores os adotam. Ou eles adotam os escritores – nunca cheguei a perceber. 
Lembro-me de quando morreu a gata do Carlos de Oliveira. À mesa do Monte Carlo, durante vários dias ele murmurava: 
“A falta que me faz o seu silêncio”. 
Gostava que um dia alguém dissesse isso de mim. 
Palavra. 

Alice Vieira (Escritora e jornalista profissional portuguesa, n. 1943) (daqui)

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