terça-feira, 28 de abril de 2026

"Préstimo" - Poema de Inês Lourenço



Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832-1918), 
Kittens playing with jewels, n.d.



Préstimo


Ao Eugénio de Andrade


Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir. 


Inês Lourenço (n. 1942)
"Assinar a pele: antologia de poesia contemporânea sobre gatos."
Lisboa, PT: Assírio



Horatio Henry Couldery, Reluctant Playmate, n.d.


Horatio Henry Couldery, Two Kittens playing with a Frog, n.d. 


Por que os escritores gostam de gatos?
 

Nunca se saberá, mas arrisco o seguinte: a escrita exige o arco do ócio: leveza, lentidão, abstração, desprendimento, isto é, que se seja gato. Sim, é verdade: quando o tempo do escritor coincide com o do gato, esse tempo adquire mais duração e qualidade. Se um dos meus três gatos irrompe no escritório, a atmosfera ganha novas vibrações e a sua presença silenciosa (escrever também é “não falar”, escolher o silêncio), que me deixa só mas, ao mesmo tempo, me acompanha, incita-me a fechar os olhos e a olhar para dentro, onde toda a obra nasce. Mais: os gatos têm elegância e plasticidade narrativa, estilo, poder de síntese, fluência, subtileza, tudo qualidades literárias de que os escritores tentam apropriar-se. Criaturas naturais, são também os médiuns que nos ligam ao ser e à sua essência, de que estão muito mais próximos. Precisamos deles, é o que é. Às vezes, interpelam-me candidatos a escritores, que pedem conselhos, orientação, e eu fico-me quase sempre pelo «Trate de arranjar um gato. Depois, logo vê».


Álvaro Magalhães (Escritor português, n. 1951) (daqui) 
 

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