terça-feira, 14 de abril de 2026

"À boca do cântaro" - Poema de Eugénio de Andrade



Rudolf Epp
(German painter, 1834–1910), A Cool Sip, n. d.
 

À boca do cântaro


Caminha sílaba a sílaba
como a fonte
que só para à boca do cântaro.
Aí consente partilhar a água.
À audácia dos jovens, à timidez
dos que já o não são, mata a sede.
Aos que tropeçam na falta
de amor, aos que mordem as lágrimas
em segredo, dá a beber.
Leva aos lábios febris
a frescura da pedra. Não deixes
o medo multiplicar as garras.
Sílaba a sílaba
caminha até ao cântaro
vazio. – Tão cheio agora!


Eugénio de Andrade (1923–2005),
in "Os Sulcos da Sede" 

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