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segunda-feira, 13 de julho de 2026

"Éclogas pequenas em que fala um só pastor" - Poema de José Dantas Motta

 

 
Paulus Potter (Dutch painter, 1625–1654), 'The Young Bull', 1647,
Mauritshuis, The Hague, Netherlands.



Éclogas pequenas em que fala um só pastor

 
No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.

E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,

esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,

hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que

todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,

porque, em verdade, o dia me envelhece.
De facto eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
 
 
José Dantas Motta
(Escritor e poeta brasileiro, 1913–1974)



Eugène Lepoittevin
(French painter, lithographer, illustrator and cartoonist, 1806–1870),
'Paul Potter painting the Young Bull', 1843.


"O Homem é o único animal que pode permanecer, em termos amigáveis, ao lado das vítimas que pretende comer antes de comê-las."
 
"Man is the only animal that can remain on friendly terms with the victims he intends to eat until he eats them." 
 
  Samuel Butler (English novelist and critic, 1835–1902), in 'The Note-Books of Samuel Butler';
Selections arranged and edited by Henry Festing Jones, 1912. 
 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

"O Menino Azul" - Poema de Cecília Meireles



Herbert William Weekes (British painter, 1841–1914), 'Fowl Talk', n.d.


O Menino Azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles
,
 em 'Ou Isto ou Aquilo', 1964.

♥♥♥ 

Obras de Herbert William Weekes
 
Herbert William Weekes,'The Odd One Out', n.d.
 
 
 
Herbert William Weekes, 'The congregation', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Old Friends', n.d.
 

 
Herbert William Weekes, 'The Unlikely Connoisseurs', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Meadow Matters', n.d.


Burro

O burro é um mamífero da família dos Equídeos. Os burros selvagens vivem em algumas das regiões mais desertas da terra e resistem bastante bem à escassez de água e de alimentos.
O burro selvagem (Eques africanus) vive no nordeste da África distinguindo-se duas subespécies, uma na 
Somália e outra no deserto da Núbia. Semelhantes no aspeto, ainda que um pouco maiores que o burro doméstico, estão em vias de extinção. Alimentam-se de ervas e bebem água salobra, tolerando bem quer as altas quer as baixas temperaturas. O burro selvagem da Núbia distingue-se do da Somália pelas riscas pretas que mostra nas patas. (daqui)

sábado, 4 de julho de 2026

"O Porquinho" - Poema de Dolores Fender

 

Morgan Weistling (American painter, b. 1964), 'Pig Tales'



O Porquinho


Conheço um porquinho que tem uma verruga no focinho.
Ele não queria sair de casa de jeito nenhum
Achava que seu focinho parecia um jerimum.

Todos os dias a mãe do porquinho lhe dizia:
Saia filho, ficar em casa é uma porcaria!
O porquinho escutava, grunhia e depois dormia.

Num belo dia o porquinho
Que já era um porco bem grandinho
Acordou tão diferente
Tomou banho e de repente
Disse à mãe: Vou passear!

A mãe ficou animada
Torceu a própria cauda
Até ficar enrolada
Em sinal de aprovação.

Mas quando ele chegou à porta
Quase, quase que ele volta
À antiga posição.

Só não voltou porque não deu tempo,
Lá fora, ao portão
Uma porquinha charmosa
O chamou de bonitão.

Depois o puxou pelo braço e começou a girar.
Foram tomar sorvete
Comer milho de pipoca
E bolo de mandioca.

De focinho cor-de-rosa
Ela parecia uma flor
Nem percebeu seu nariz de jerimum
E nem ele, que a todo instante
Ela soltava um pum.

E foi assim que o porquinho Jerimum
E a porquinha Flor
Conheceram o Amor.


 Dolores Fender



Morgan Weistling (American painter, b. 1964), 'Rebecca's Farm', 2019



"Em muitas coisas somos superiores aos animais; mas no animal não há nada 
que também não possa estar em nós." 

Ludwig Börne
(Escritor alemão, 1786–1837)
 

domingo, 7 de junho de 2026

"O Patinho" - Poema de Francisca Júlia da Silva Munster

 

 
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "The Ducklings"


O Patinho


O pintainho do pato, 
galante, amarelo e novo, 
mal saiu da casca do ovo, 
busca as águas do regato.

Todo ele, tão lindo e louro, 
enquanto nas águas boia, 
tem a graça de uma joia 
feita em ouro. 


Francisca Júlia da Silva Munster
,
[Poetisa, professora, pianista e crítica literária brasileira, 1871–1920]


 
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Feeding the geese"
 
 
Cuidar dos animais
 

Dizem sempre nossos pais
frases de grande razão:
Maltratar os animais
prova ter mau coração.
[Escritora, poeta, teatróloga e professora brasileira, 18931960]
 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

"A tartaruga" - Poema de Czesław Miłosz



Osman Hamdi Bey (Ottoman Turkish administrator, intellectual, art expert
and also a prominent and pioneering painter, 1842–1910),
"The Tortoise Trainer", 1906, Pera Museum, Istanbul.



A tartaruga


O sol sai de trás da névoa como um animal dourado,
A juba vermelha, com os raios desgrenhados.
Mas ela não vê. Nunca olha para o céu.
Cobertos por pálpebras bojudas, seus olhos
Miram apenas a terra ou as placas do piso,
Como aqui, na casa de Janek e Nela, em Menton.
Somos uma espécie de um andar de cima,
Nosso olhar arranha o céu e permeia as nuvens.
Observamos compadecidos
Como ela marcha desengonçada sob as cadeiras
E como saboreia a folha verde da alface.
Que ideia do demiurgo! Enfiar entre
Dois escudos um corpo de lagarto, para lhe proteger
A vida dos ataques dos grandes dinossauros!
Mas falar com ela não dá certo.
Quando de repente começa a correr em uma afobação frenética,
Inútil explicar a ela que o sapato do Janek
Não é uma parceira digna de tanto ardor.
Com certo embaraço, espiamos
Seus movimentos de macho na cópula, semelhantes aos humanos,
E o líquido que se espalha lentamente
Enquanto ela se mantém imóvel.
A comunhão dos vivos, mas não completa:
Como podem se conciliar consciência e inconsciência?
Janek e Nela não compreendiam a tartaruga.
Os dois queriam ser pura inteligência.
Pouco depois morreram e, em suas cadeiras, ninguém.


Czesław Miłosz, in "Para isso fui chamado: poemas".
Trad. e org. de Marcelo Paiva de Souza.
Companhia das Letras, 2023.



Czesław Miłosz, "Para isso fui chamado: poemas"
Tradução e organização de Marcelo Paiva de Souza
Companhia das Letras, 2023. Páginas: 280.

  
SINOPSE

Edição bilingue da poesia de um dos principais observadores do século XX. 

Vencedor do prémio Nobel de literatura em 1980 por sua capacidade de "expressar com lucidez a condição humana em um mundo repleto de conflitos", Czesław Miłosz foi uma testemunha singular dos principais acontecimentos que moldaram a história mundial recente. Autor de poemas, ensaios, romances, memórias, cartas e traduções, o escritor esmiuçou um período dominado por implacáveis e turbulentas transformações: a Primeira Guerra Mundial, a ocupação nazista na Europa, o Holocausto, a ascensão do fascismo, a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a divisão geopolítica causada pela Guerra Fria, a derrocada da União Soviética e a virada para o século XXI.
Com tradução do polaco, apresentação e seleção de Marcelo Paiva de Souza — professor do departamento de polaco, alemão e letras clássicas da Universidade Federal do Paraná —, "Para isso fui chamado" percorre, de forma cronológica, toda a produção poética de Miłosz, desde seu livro de estreia, publicado em 1933, até seus últimos poemas, escritos no começo dos anos 2000.
 (daqui)


Osman Hamdi Bey, "The Tortoise Trainer" (Second version), 1907,
Private collection.



"O trabalho do pensamento humano deve resistir ao teste da realidade nua e brutal. Se não consegue, é inútil. Provavelmente apenas valem a pena as coisas que preservam a sua validade aos olhos de um homem ameaçado de morte instantânea."
 
 
 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A galinha cor-de-rosa" - Poema de Duda Machado


   
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Olivia's Coop", 2013.


A galinha cor-de-rosa


Era uma galinha cor-de-rosa, 
Metida a chique, toda orgulhosa, 
Que detestava pisar no chão 
Cheio de lama do galinheiro.

Ficava no alto do poleiro 
E quando saía do lugar, 
Batia as asas para voar. 
Mas seus pés acabavam na lama.

Aí armava o maior chilique, 
Cacarejava, bicava o galo, 
E depois, com ar de rainha, 
Lavava os pés numa pocinha. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.
 
 

'Histórias com poesia, alguns bichos & cia',
de Duda Machado; Ilustração de Guto Lacaz;
 ‎ Editora 34. 
 
Descrição

"Histórias com poesia, alguns bichos e cia." reúne 13 poemas altamente divertidos. Como o próprio título diz, são histórias com bichos, móveis, dias, noites, pontos e outros temas que viraram belos poemas para crianças pequenas. Com versos rimados, o leitor pode divertir-se com 'uma galinha cor-de-rosa que detestava pisar no chão', 'um elefante que andava de mansinho para não machucar o soalho', 'um macaco diferente que fica imitando gente e queria voar', ou com 'a vaca Quilate que dava leite sabor de chocolate'... 
Duda Machado e Guto Lacaz, artista de destaque na arte brasileira contemporânea, uniram-se para contar histórias engraçadas ao leitor infantil em forma de poema. Vale a pena conhecer seus personagens inusitados.

Sobre os Autores
 
Duda Machado (Carlos Eduardo Lima Machado), um dos poetas mais significativos de sua geração, nasceu em Salvador, em 1944. Formado em Ciências Sociais, interessou-se também por cinema e música popular, tendo sido parceiro de Gilberto Gil e Jards Macalé. Em 1977, morando no Rio de Janeiro, publicou seu primeiro livro de poemas, "Zil", ao qual se seguiriam "Crescente" (1990) e "Margem de uma onda" (1997). Nesse mesmo ano publicou, em parceria com Guto Lacaz, "Histórias com poesia, alguns bichos & cia.", um divertido livro de poemas para crianças. Publicou também "Tudo tem a sua história" (2005), "Adivinhação da leveza" (2011) e Coletânea "Poesia 1969-2021" (2024).
Combinando atividades de poeta, ensaísta e tradutor (entre eles, Gustave Flaubert e Mark Twain), foi professor de teoria literária na Universidade Federal de Ouro Preto. 

Guto Lacaz, arquiteto e artista plástico, nasceu em São Paulo, em 1948, e é hoje uma figura de destaque na arte brasileira contemporânea, tendo participado de várias exposições importantes, entre as quais a XVIII Bienal de São Paulo. Com seu traço sintético e bem-humorado, já ilustrou diversos livros, entre eles: "O retrato das figuras", de Anna Flora (1992); "Balé dos Skazkás", de Katia Canton (1997); "A vila e o vulcão", de sua própria autoria (2000); e o "Livro da primeira vez", de Otavio Frias Filho (2004). 
 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

"Cavalo à solta" - Poema de Ary dos Santos



Max Kurzweil
(Austrian painter and printmaker, 1867–1916), A Dear Visitor, 1894.
 

Cavalo à solta 

 
Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
 
Minha laranja amarga e doce
minha espada,
poema feito de dois gumes
tudo ou nada.
Por ti renego, por ti aceito
este corcel que não sossego
à desfilada no meu peito.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.


Ary dos Santos, in "As Palavras das Cantigas"


"Cavalo à Solta"
Voz de Fernando Tordo
  
 
Cavalo à Solta  é uma música da autoria de José Carlos Ary dos Santos e de Fernando Tordo, interpretada, originalmente, por este último, no Festival RTP da Canção 1971, tendo ficado em 3º lugar, com 42 pontos. No entanto, mantém-se como uma das músicas mais marcantes da música portuguesa. (daqui)
 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

"Pesquisar" - Poema de Berenice Gehlen Adams


Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living in the 
United States, b. 1943), 'New York Earth Day II', 2007. 


Pesquisar


Pesquisar é entrar 
Na vida dos livros, 
Em vidas vividas 
Por reis e rainhas, 
Em vidas vividas 
Por bichos e plantas...

Pesquisar é entrar 
Na vida real, 
Na vida vivida 
Por todos nós.

E quanto mais pesquisamos, 
Mais curiosos ficamos, 
Porque a pesquisa 
Nos encanta e nos fascina, 
Porque é da vida real 
Que se criam os sonhos...

Pesquisar é entrar 
Na vida dos bichos, 
Na vida das plantas, 
Na vida de rios e mares, 
Procurando em cada canto 
Um pequeno encanto.

E quanto mais pesquisamos 
Mais percebemos que a vida 
É cheia de cantos 
E encantos secretos. 

Na verdade é pesquisando 
Que aprendemos 
O quão imenso é 
o nosso universo.


Berenice Gehlen Adams, 
"De quase tudo um pouco - Poemas infantis".
(Professora, escritora, artista plástica, ilustradora, editora de revista,
educadora e ativista ambiental brasileira, n. 1961)
 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

"Passarinhos" - Poema de Zalina Rolim



Charles Baptiste Schreiber
(French painter, 1845–1903),
'Girl with Hummingbird', 1877

Passarinhos


A um passarinho que andava
Cantando pelo jardim,
Foi perguntar Elisinha
— Quem é que te cuida assim?

Onde achas doce alimento,
Coisas nutritivas, sãs?
— Tenho bichinhos gostosos
Figos, laranjas, romãs.

— E quando estás fatigado,
Onde é que vais descansar?
— Qual de nós não tem seu ninho?
Nosso ninho é o nosso lar.

— E sede não sentes nunca?
— Tenho rio e ribeirão,
E gotinhas de sereno,
Que as folhas verdes me dão.

— E no inverno não te falta
Agasalho contra o frio?
— Tenho penas que me cobrem,
Tenho agasalho macio.

— E quando não há bichinhos,
Grãos e frutinhas não há?
— Há uma boa criancinha
Que pão e alpiste me dá.


Zalina Rolim

[Poetisa e educadora brasileira, 18691961]


quarta-feira, 30 de julho de 2025

"O Boi" - Poema de Olavo Bilac

 


António da Silva Porto
 (Pintor português, 18501893), 'A Salmeja', 1884, óleo sobre tela.
Museu de José Malhoa



O Boi


Quando ainda no céu não se percebe a aurora,
E ainda está molhando as árvores o orvalho,
Sai pelo campo afora
O boi, para o trabalho.

Com que calma obedece!
Caminha sem parar:
E o sol, quando aparece,
Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar.

Forte e meigo animal! Que bondade serena
Tem na doce expressão da face resignada!
Nem se revolta, quando o lavrador, sem pena,
Para o instigar, lhe crava a ponta da aguilhada.

Cai-lhe de rijo o sol sobre o largo cachaço;
Zumbem moscas sobre ele, e picam-no sem dó;
Porém, indiferente às dores e ao cansaço,
Caminha o grande boi, numa nuvem de pó.

Lá vai pausadamente o grande boi marchando...
E, por ele puxado,
Larga e profundamente o solo retalhando,
Vai o possante arado.

Desce a noite. O luar fulgura sobre os campos.
Cessa a vida rural.
Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos.
E o boi, para dormir, regressa ao seu curral... 


Olavo Bilac, em 'Poesias infantis'.
RJ: Francisco Alves, 1929.




Tomás da Anunciação (Pintor português, 1818–1879), 'O Vitelo', 1871.
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



"Até que alguém ame um animal, uma parte da sua alma permanece adormecida."

Anatole France
[Nobel de Literatura, 1921]



Retrato de Tomás José da Anunciação, 1860's,
gravura de Joaquim Pedro de Sousa,
no Museu do Chiado


Tomás José da Anunciação, pintor português, nascido em 1818 e falecido em 1879, estudou pintura em Portugal com Norberto José Ribeiro, António Manuel da Fonseca e Benjamim Comte, e em França com Palizzi e Yvon. Destacou-se sobretudo no âmbito da pintura de animais, apesar de ter pintado também paisagens e feito cópias de quadros antigos.
A sua obra, revelando minuciosamente os detalhes mais ínfimos, manifesta influências tanto do romantismo como do naturalismo realista. Participou em exposições como as 3.ª e 4.ª Exposições Trienais da Academia Real de Belas Artes, em 1852 e 1856, na 1.ª Exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, na Exposição Universal de Paris (1867) e na Exposição de Madrid (1871).
Foi diretor da Real Galeria de Pintura do Palácio Nacional da Ajuda, professor de Pintura da Paisagem e de Desenho do Antigo na Real Academia de Belas-Artes e seu diretor interino.
O seu quadro mais conhecido é "O Vitelo" (1871), que se encontra no Museu Nacional de Arte Contemporânea, mas também se encontram outras obras deste pintor noutros museus como a Casa-Museu dos Patudos de Alpiarça, o Museu Grão-Vasco de Viseu e o Solar do Monteiro-Mor do Juncal, na Extremadura. (daqui)

 

segunda-feira, 21 de julho de 2025

"Dar nome aos gatos é assunto complicado" - Poema de T. S. Eliot

 

Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 18321918), 
'Cats by a fishbowl'


Dar nome aos gatos 



Dar nome aos gatos é assunto complicado,
Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;
Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado
Quando eu digo, um gato deve ter três nomes diferentes.

Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,
Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,
Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –
Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.

Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,
Alguns para os cavalheiros, outros para titia:
Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –
Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.

Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,
Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,

De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,
Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?
Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,
Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –

Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,
E este é o nome que você jamais cogitaria;

O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir –
Mas o gato e somente ele sabe, e nunca o confessaria.

Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome:
Sua mente está engajada em uma rápida contemplação
De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:
Seu inefável afável
Inefavefável

Oculto, inescrutável e singular Nome.


T. S. Eliot
Tradução de Rodrigo Suzuki Cintra



T. S. Eliot em 1934


T. S. Eliot

Thomas Stearns Eliot (18881965), poeta, crítico e dramaturgo inglês, nasceu em St. Louis, no Missouri. 

Frequentou a Universidade de Harvard (190610), prosseguindo os seus estudos na Sorbonne, onde estudou durante um ano. Regressou a Harvard para estudar filosofia por um período de três anos. Teve como professores George Santayana, Josiah Royce e Bertrand Russel. Uma bolsa de estudo levou-o posteriormente à Universidade de Oxford, onde preparou o seu doutoramento sobre a filosofia idealista de F. A. Bradley e aprofundou os seus conhecimentos de Platão e Aristóteles. A tese de Eliot foi publicada em 1936. Persuadido por Ezra Pound, fixou-se definitivamente em Inglaterra em 1915, naturalizando-se em 1927.

Nesse ano converteu-se ao catolicismo; da sua conversão ao movimento católico no seio da Igreja inglesa dão testemunho os seus ensaios reunidos no volume For Lancelot Andrews (1928). De 1917 a 1919 Eliot foi assistente editorial da revista The Egoist. Entretanto, em 1917, foi publicado o seu primeiro livro de poesia, Prufrock and Other Observations, para o qual foi decisivo o apoio de Ezra Pound. O poema The Love Song of J. Alfred Prufrock foi publicado inicialmente na revista americana Poetry em 1915.

Em 1917 Eliot escreveu o ensaio Tradition and the Individual Talent, a que se seguiram um segundo volume de poesia (Poems, 1919), que incluía o poema Gerontion, e uma reedição de Prufrock intitulada Ara vos prec (1920). Depois de lecionar em diversas escolas inglesas, Eliot trabalhou durante oito anos no Lloyds Bank, antes de se tornar diretor da editora Faber (1925).

Em 1922, no primeiro número da revista Criterion (que Eliot editou entre 1923 e 1939), foi publicado The Waste Land, o poema mais influente deste século, dedicado a Ezra Pound e posteriormente publicado na Hogarth Press por Leonard e Virginia Woolf. O tema de The Waste Land é a decadência e fragmentação da cultura ocidental, concebida imaginativamente por analogia com o fim de um ciclo de fertilidade natural.

O poema divide-se em 5 partes, que não obedecem a uma sequência lógica, e estende-se por 433 versos. A justaposição de símbolos, imagens, ritmos, citações e sequências temporais, contribuem para a dimensão épica do poema e reforçam a sua coerência artística. Considerado um poema controverso desde o momento da sua publicação, The Waste Land marcou o início de uma nova fase na poesia deste século. Eliot só voltou a publicar poesia em 1830, com The Hollow Men; no mesmo ano publicou Ash Wednesday, o registo poético da conversão do escritor ao catolicismo. As peças The Rock (1934) e Murder in the Cathedral (1935) refletem igualmente a adesão de Eliot à doutrina católica.

O mesmo acontece nos seus dramas posteriores: The Family Reunion (1939), The Cocktail Party (1950), The Confidential Clerk (1954) e The Elder Statesman (1958). Entretanto, entre 193542, Eliot produziu nova obra-prima, Four Quartets, publicada num único volume em 1943. Nos poemas que compõem aquela obra, Eliot aperfeiçoou uma linguagem poética própria, adequada às experiências espirituais que esses poemas traduzem.

A reputação de Eliot como figura cimeira do Modernismo europeu é indissociável de uma reflexão constante sobre a tradição literária inglesa, sobre a qual escreveu longamente. Os seus ensaios críticos revelam esta preocupação constante com a poesia e a tradição: The Sacred Wood (1920), Homage to Dryden (1924), The Use of Poetry and the Use of Criticism (1933), Elizabethan Essays (1934), Milton (1947), Poetry and Drama (1951), The Three Voices of Poetry (1953), On Poetry and Poets (1957). Entre os seus trabalhos de crítica social contam-se obras polémicas como After Strange Gods (1936), The Idea of a Christian Society (1939) e Notes Towards a Definition of Culture (1948).

O seu estilo desafiador está igualmente presente na reflexão sobre os escritores clássicos (Modern Education and the Classics, 1934) e em termos gerais na sua abordagem da literatura. Até ao final da sua vida, Eliot não deixou de se pronunciar de forma crítica sobre a expressão poética enquanto manifestação da consciência moderna. A consistência do seu pensamento e a coerência da sua formulação valeram-lhe um estatuto privilegiado na literatura anglo-americana. Em 1948 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura. (daqui)



Horatio Henry Couldery, 'The Unexpected Guest', 1874. 


"Se você é digno de seu afeto, um gato será seu amigo, mas nunca seu escravo."

(Théophile Gautier)

quarta-feira, 16 de julho de 2025

"O Cão e os Pássaros" - Poema de Zalina Rolim



Henriëtte Ronner-Knip (Dutch-Belgian artist, 1821–1909),
'Cat Spying on Birds near a Sleeping Dog', 1875.
 

O Cão e os Pássaros


FEROZ é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, húmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frémito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passaritos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspeto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trémulo escuta a voz dos passarinhos.


Zalina Rolim
, em "Livro das Crianças", 1897 


Henriëtte Ronner-Knip, "Das kleine Fuhrwerk" (The Little Wagon), c. 1909.
 

"O menino que sofre e se indigne diante dos maus tratos infligidos aos animais, 
será bom e generoso com os homens." 
 
(Benjamin Franklin)



Henriëtte Ronner-Knip, "Kurze Rast" (Cart Dog at Rest), c. 1909
 

"Podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais."
 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

"O elefante" - Poema de Carlos Drummond de Andrade

Amrita Sher-Gil (Hungarian–Indian painter, 1913–1941), 
 'Two Elephants', 1940.
 
 
O elefante

 
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.


Carlos Drummond de Andrade
,
in "A rosa do povo", 1945.
 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

"Insónia" - Poema de Anthero Monteiro



Anton Mauve (Dutch realist painter, 1838–1888), 'Shepherdess with a Flock of Sheep',
c.1870
c.1888. Amsterdam, Rijksmuseum.

Insónia


Um dois e três carneiros
saltitam espertos
Mais três como os primeiros
— e eu de olhos abertos…

Sete oito nove dez
fugidos ao seu dono
Já são quarenta pés
— e eu à espera do sono…

Onze bolas de lã
tropeçando à marrada.
Já é quase manhã
— e quanto a dormir nada…

Uma dúzia balindo
(e só sabem balir)
Que rebanho tão lindo
de horas sem dormir!…

Mais cinco dezassete,
mais quatro vinte e um
Esta noite promete
— e eu sem sono nenhum…

Vinte e dois vinte e três…
E mais um par recolho
Já passaram mais dez
— e eu sem pregar olho…

Já lá vão trinta e quatro
se não erro ou não esqueço
Lá vem mais um pacato
— e eu cá não adormeço…

Chega meia centena
a tropeçar na lama
Quem de mim terá pena
sempre às voltas na cama?

Já são oitenta e cinco
mais quinze faz os cem
Eles brincam e eu brinco
sem ter sono também…

Ai se o lobo noturno
atacasse… — que horror!
Por isso é que não durmo
É que eu sou o pastor…


Anthero Monteiro,
in "A Lia que lia lia"
Ilustrações de Sara Príncipe,
Elefante Editores / Espinho, 1999.

 

segunda-feira, 2 de junho de 2025

"Oração do camelo" - Poema de Carmen Bernos de Gasztold



Amrita Sher-Gil 
(Hungarian–Indian painter, 1913–1941), 
Camels, 1941National Gallery of Modern Art, New Delhi.
 

Oração do camelo

 
Senhor,
não te ofendas.
Não há nada como o orgulho
contra a sede, as miragens,
e as tempestades de areia!

E eu devo dizer
que para enfrentar e ultrapassar
estes áridos dramas do deserto,
duas bossas
não são demasiado,
nem tão pouco um lábio arrogante.

Algumas pessoas criticam
as minhas quatro patas,
as nodosidades das minhas articulações,
mas como é que faria
com tacões altos,
para atravessar tantos países,
tantos sonhos inconstantes,
e proteger a minha dignidade?

O meu coração atormenta-se
com os gritos dos chacais e das hienas,
com o silêncio ardente,
com a magnitude das suas estrelas frias.

Dou-te graças, Senhor,
por este meu reino,
espaçoso como os meus sonhos
e a largura dos meus passos.

Carregando a minha realeza
na curva aristocrática do meu pescoço
de oásis para oásis,
um dia será que vou encontrar de novo
a caravana dos magos
e as portas do Teu paraíso?


Carmen Bernos de Gasztold
Tradução de Jorge de Sousa Braga, in "Animal Animal"
Assírio & Alvim, fev. 2005, página 48.



"Animal Animal - Um Bestiário Poético" 
de Jorge Sousa Braga
Edição/reimpressão: 09-2011
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE

Quantos animais (para além de nós) existirão à face da terra? Ninguém é capaz de responder a esta questão. Só sabemos que são inumeráveis como as estrelas do céu. Muitos de nós vivem como se eles não existissem. Contudo, somos companheiros de viagem. E simultaneamente o produto dessa viagem. A maioria deles partiu muito antes de nós. Só muito recentemente nos juntámos a eles. O nosso futuro e o deles são indissociáveis. A nossa história conjunta é uma história de fascínio e de repulsa, de extermínio e de amor.
Os primeiros poemas sobre animais são provavelmente tão velhos como a própria poesia. Há um poema dos «inuit» que fala de um tempo em que as palavras eram mágicas e em que os homens se podiam transformar em animais e os animais em homens. Todos eles falavam a mesma linguagem. Com o passar dos milénios perdemos essas capacidades. Já não nos podemos transformar em animais (e vice-versa) e as palavras deixaram de ser mágicas. Passaram a ser apenas palavras e a magia uma palavra entre elas. […]
Um provérbio japonês diz que «todo o animal, até o mais pequeno, tem uma alma». Procurei os poemas em que se podia ver essa «alma». Espero que ela seja também percetível a olhos desabituados.  Jorge de Sousa Braga (daqui)