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domingo, 28 de maio de 2017

"Deus" - Poema de Casimiro de Abreu


Hans Dahl (Norwegian, 1849-1937), Summer Day



Deus


Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno 
E brincava na praia; o mar bramia 
E erguendo o dorso altivo, sacudia 
A branca escuma para o céu sereno 

E eu disse a minha mãe nesse momento: 
“Que dura orquestra! Que furor insano! 
“Que pode haver maior que o oceano, 
“Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr’os céus 
E respondeu: – “Um Ser que nós não vemos 
“É maior do que o mar que nós tememos, 
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!”


Casimiro de Abreu, in As Primaveras, 1859
 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

"Canção da Névoa" - Poema de Teixeira de Pascoaes


Hans Dahl (Norwegian, 1849-1937)Last Rays of the Sun


Canção da Névoa 


Tristezas leva-as o vento;
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma, à tona da água,
E à flor da noite o luar...

Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais, no ar?

Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...

Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções,
Que ficaram por cantar!

Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.

Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.

E o Poeta solitário,
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...

E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai,
No vento que anda no ar...


Sombras
Antologia Poética


Hans Dahl, Figures in a Rowing Boat on a Fjord, 1917


"A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água." 

(Teixeira de Pascoaes)


domingo, 22 de janeiro de 2012

"Barca Bela" - Poema de Almeida Garrett


Hans Dahl, Crossing the Ford



Barca Bela 


Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!


in Folhas Caídas 
(Ed. Porto Editora)


Hans Dahl, Sunset at the Sognefjord, 1887


"...a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos."