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terça-feira, 31 de março de 2026

"O Tango" - Poema de Jorge Luis Borges



Marthe Donas (Belgian abstract and cubist painter, 1885–1967),
"Le Tango", 1920.
 

O Tango


Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, pra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos
Edição bilingue. Seleção e Trad. de Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47.

sábado, 30 de novembro de 2024

"O cego" - Poema de Jorge Luis Borges

 
Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), The empty chair, 1922.


O cego


Foi despojado do diverso mundo,
Dos rostos, que ainda são o que eram antes,
Das ruas próximas, hoje distantes,
E do côncavo azul, ontem profundo.

Dos livros lhe restou só o que deixa
A memória, essa fórmula do olvido
Que o formato retém, não o sentido,
E que apenas os títulos enfeixa.

O desnível espreita. Cada passo
Pode levar à queda. Sou o lento
Prisioneiro de um tempo sonolento

Que não regista aurora nem ocaso.
É noite. Não há outros. Com o verso
Lavro este meu insípido universo.

II

Desde meu nascimento, lá em noventa e nove,
Da côncava parreira ao poço mais profundo,
O tempo minucioso, que na memória é breve,
Foi me furtando as formas visíveis deste mundo.

Os dias e as noites limaram os semblantes
Das palavras humanas e dos rostos amados;
Em vão interrogaram meus olhos esgotados
As vãs bibliotecas e suas vãs estantes.

O azul e o vermelho são agora uma névoa
E duas vozes inúteis. O espelho que miro
É só uma coisa cinza. No jardim aspiro,

Amigos, uma lúgubre rosa em meio à treva.
Agora só perduram as formas amarelas.
E os pesadelos são minhas únicas telas.


Jorge Luis Borges,
em "Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista".
Traduções de Augusto de Campos.
São Paulo: Terracota, 2013.
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

"Pátio" - Poema de Jorge Luis Borges


 
 

Pátio


Com a tarde
Cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
A grande franqueza da lua cheia
Já não entusiasma o seu habitual firmamento.
Hoje que o céu está frisado,
Dirá a crendice que morreu um anjinho.
Pátio, céu canalizado.
O pátio é a janela
por onde Deus olha as almas.
O pátio é o declive
Por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
A eternidade espera na encruzilhada das estrelas.
Lindo é viver na amizade obscura
De um saguão, de uma aba de telhado e de uma cisterna. 
 
 
Jorge Luis Borges
,
in "Fervor de Buenos Aires", 1ª edição de 1923.
Tradução de Manuel Bandeira
 
 


"Recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: 
eis a diferença fundamental entre o cão e o Homem." 
 

terça-feira, 2 de julho de 2024

"Labirinto" - Poema de Jorge Luis Borges



Jimmy Ernst
(American painter born in Germany, 1920–1984), Lookscape, 1952.

 

Labirinto 


Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.


Jorge Luis Borges,
em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”.
São Paulo: Terracota, 2013.
Traduções de Augusto de Campos.


segunda-feira, 24 de junho de 2024

"Xadrez" - Poema de Jorge Luis Borges



Honoré Daumier
(French painter, sculptor, and printmaker, 1808–1879), The Chess Players
c. 1863–67. Oil on wood, 24.8 cm × 32 cm., Petit Palais, Paris


Xadrez
 
I

Em seu grave rincão, dois jogadores
Regem peças, sem pausa. O tabuleiro
Os prende até a aurora no certeiro
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, audaz rainha, rei guerreiro,
Bispo oblíquo e peões ameaçadores.

Quando os rivais já se tiverem ido,
Quando o tempo os houver já consumido,
Por certo não terá cessado o rito.

O Oriente é a origem dessa guerra
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

II

Ténue rei, bispo em viés, encarniçada
Rainha, torre à frente e peão alerta
No branco e negro de uma estrada incerta
Buscam e travam a batalha armada.

Não sabem que da mão predestinada
Do jogador depende o seu destino,
Nem sabem que um rigor adamantino
Sujeita-lhes o arbítrio e a jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(Segundo Omar) de um outro tabuleiro
De negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este, a peça.
Que Deus atrás de Deus a trama começa
De pó e tempo e sonho e agonias?


Jorge Luis Borges,
em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”.
São Paulo: Terracota, 2013.
Traduções de Augusto de Campos.

[Em 'Quase Borges' o poeta Augusto de Campos apresenta 20 traduções de poemas de Jorge Luis Borges 10 deles inéditos e uma entrevista que ele realizou com o poeta Argentino além de algumas fotos inéditas.] 
 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

"Orgulho da serenidade" - Poema de Jorge Luis Borges

 
Charles Demuth (American, 1883–1935), Chimney and Water Tower, 1931,
 
 

Orgulho da serenidade


Escritas de luz investem pela sombra, mais prodigiosas do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível cresce sobre o campo.
Certo da minha vida e da minha morte, olho os ambiciosos e queria
entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tropel da sua excitada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Passo com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera chegar.


Jorge Luis Borges
,

Obras Completas
 1923-1949, vol. 1. Lua Defronte (1925)
Editorial Teorema, 1998

sábado, 20 de março de 2021

"Poema dos Dons" - Jorge Luis Borges



Bohumil Kubista, Hypnotiser, 1912, Galerie výtvarných uměni, Ostrava.

 
 Poema dos Dons 
 
 
Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.

.
“Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”. 
Tradução de Augusto de Campos. 


Bohumil Kubišta, Self-portrait, 1908
 

Bohumil Kubišta (Vlčkovice, 21 de agosto de 1884—Praga, 27 de novembro de 1918) foi um pintor checo. A sua obra esteve entre o expressionismo e o cubismo. Influenciado por Van Gogh e Cézanne, foi membro temporalmente do grupo expressionista alemão  Die Brücke. De formação autodidata, interessado pela filosofia e pela óptica, estudou as cores e a construção geométrica da pintura. Juntamente com Emil Filla fundou o grupo artístico Osma em 1907. A sua obra evoluiu desde 1911 para um estilo mais influenciado pelo cubismo. Morreu durante a pandemia da gripe de 1918. (Daqui)


sábado, 18 de julho de 2020

"Elegia da Lembrança Impossível" - Poema de Jorge Luis Borges


 1838, óleo sobre tela, National Gallery, Londres.



Elegia da Lembrança Impossível


O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.

O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.

O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.

O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.

O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.

O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.

O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.


Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro"
 

terça-feira, 16 de junho de 2020

"Os Justos" - Poema de Jorge Luis Borges


Peder Mørk Mønsted, Interior with a man smoking a cigar and reading the newspaper Politiken, 1908 



Os Justos


Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.


Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral 


quarta-feira, 17 de julho de 2019

"A um gato" - Poema de Jorge Luis Borges


Wilhelm Friedrich Johann Schwar (German painter, 1860-1943), Good friends


A um gato


Os espelhos não são mais silenciosos
Nem mais furtiva a alba aventureira;
Tu és, sob o luar, essa pantera
Que só vemos de longe, receosos.
Por obra indecifrável de um decreto
De Deus, te procuramos futilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente,
É teu o isolamento mais secreto.
O teu dorso condescende com a morosa
Carícia desta mão. Admitiste,
Desde essa eternidade que é o triste
Esquecimento, o amor da mão medrosa.
Existes noutro tempo. E és o dono
De um domínio fechado como um sono.


Jorge Luis Borges (1899-1986),
in "O Ouro dos Tigres", 1972.
Tradução de
Fernando Pinto do Amaral


Jorge Luis Borges em sua casa com seu gato Beppo. (daqui)


"Não fales a não ser que possas melhorar o silêncio."

(Jorge Luis Borges, O Imortal)


Jorge Luis Borges e o seu gato Beppo (daqui)


"Quem contempla desapaixonadamente, não contempla."

(Jorge Luis Borges)


Jorge Luis Borges e o gato Beppo (daqui)


"Não há prazer mais complexo que o do pensamento."

(Jorge Luis Borges)


Wilhelm  Schwar, Three kittens


"A única coisa sem mistério é a felicidade porque ela se justifica por si só."

(Jorge Luis Borges) 


Wilhelm Schwar, Grey and White Cat


"A natureza é esse belo mistério que nem a psicologia nem a retórica decifram."

(Jorge Luis Borges)


Wilhelm Schwar, Mother with her three kittens
 
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

"Em memória de Angélica" - Poema de Jorge Luis Borges


Thomas Eakins, The Agnew Clinic (or The Clinic of Dr. Agnew), 1889



Em memória de Angélica


Quantas vidas possíveis já descansam
Nesta bem pobre e diminuta morte,
Quantas vidas possíveis que outra sorte
Daria ao esquecimento ou à lembrança!
Quando eu morrer, morrerá um passado;
Com esta flor, morreu só um futuro
Nas águas que o ignoram, o mais puro
Porvir hoje pios astros arrasado.
Eu, como ela, morro em infinitos
Destinos que já não me oferece o acaso;
Procura a minha sombra os gastos mitos
De uma pátria que sempre deu a face.
Um breve mármore diz a sua memória;
Sobre nós todos cresce, atroz, a história. 


Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”
 

Thomas Eakins, Portrait of  Samuel David Gross (The Gross Clinic), 1875 ,  
"A ciência poderá ter encontrado a cura para a maioria dos males, mas não achou ainda remédio para o pior de todos: a apatia dos seres humanos."
 
 

domingo, 30 de março de 2014

"A Imortalidade" - Texto de Jorge Luís Borges


Pintura de Carlos Calvet


A Imortalidade 


"Ser imortal é coisa sem importância. Exceto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas creem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar. 

Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez. 

(...) Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os outros homens. Como Cornelio Agrippa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou o mundo, o que é uma forma cansativa de dizer que não sou. 

(...) A morte (ou a sua alusão) torna os homens delicados e patéticos. Estes comovem-se pela sua condição de fantasmas. Cada ato que executam pode ser o último. Não há um rosto que não esteja por se desfigurar como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perdido. Entre os Imortais, pelo contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o claro presságio de outros que, no futuro, o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é primorosamente gratuito. O elegíaco, o grave, o cerimonial, não contam para os Imortais. Homero e eu separamo-nos nas portas de Tânger. Creio que não nos despedimos."

Jorge Luis Borges, in "O Imortal"

  [Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.]


Carlos Calvet

Carlos Calvet, O Lápis Revelador, 1967


Carlos Frederico Pereira de Sequeira Bramão Calvet da Costa (Lisboa, 1928—2014) foi um arquiteto, artista plástico e pintor português.
Licenciado em arquitetura pela Escola de Belas Artes do Porto, a sua atividade abarca também a pintura, fotografia e cinema.
Dedica-se à pintura desde muito cedo (c. 1944), expondo pela primeira vez em 1947, na 2ª Exposição Geral de Artes Plásticas, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa.
A sua obra inicial revela interesse particular pelo cubismo de Braque (as suas naturezas-mortas atestam este interesse). Aproxima-se do surrealismo embora sem assumir oficialmente e ligação ao movimento; realiza cadavre-exquis com António Areal e Mário-Henrique Leiria, e curtas-metragens, uma das quais com a participação de Mário Cesarini.
A sua afirmação no meio artístico português acontece nos anos de 1960, quando realiza obras que "se situam entre um informalismo de definição orgânica, próximo da abstração gestual", em paralelo com outras mais próximas da abstração hard-edge. Em meados dessa década fixa as premissas essenciais da obra futura, abordando um tipo de figuração conotado com a arte pop "à qual se junta um paisagismo onírico e metafísico" (veja-se, por exemplo, Misterioso, Ousa, 1978).


Carlos Calvet, Misterioso, Ousa, 1978, óleo sobre platex, 84 x 122 cm


Povoadas por formas geométricas, por "estranhas arquiteturas e perspetivas, escalas e enquadramentos insólitos", a que se associam "objetos do quotidiano cuja significação transcende a habitual", as suas obras tanto podem transmitir-nos momentos de ironia como alusões a ameaças apocalípticas e maus presságios... E as frequentes referências esotéricas conferem a muitas pinturas um caráter obscuro, hermético.


Carlos Calvet, A Força do Destino, 1996, Óleo S/Tela, 73x100cm


Carlos Calvet, Rebelião, 2008


Carlos Calvet, A Ira, 2008

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"Solidão" - Poema de Mia Couto


Paul Gustav Fischer, The artist painting en plein air, 1889



Solidão


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo


in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


Paul Gustav Fischer - Artists' wife Dagny and daughter Harriet, Date unknown


"A única coisa sem mistério é a felicidade porque ela se justifica por si só." 

(Jorge Luis Borges)


Paul Gustav Fischer - The artist's wife reading at home on Sofievej, Date unknown


"A poesia é algo tão íntimo que não pode ser definida."

(Jorge Luis Borges)


Paul Gustav Fischer - A Good Book, 1905


"Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve."

(Jorge Luis Borges)




Jorge Luis Borges
, poeta, ensaísta e escritor de contos argentino, nasceu a 24 de agosto de 1899 em Buenos Aires, na Argentina e morreu a 14 de junho de 1986 em Genebra, na Suíça. Levou ao estabelecimento do Movimento Extremista da América do Sul.

Borges cresceu no Distrito de Palermo, sede de alguns dos seus trabalhos. A sua família notabilizou-se na História da Argentina e, sendo de ascendência britânica, aprendeu primeiro o inglês e só mais tarde o espanhol. Os primeiros livros que leu foram os da biblioteca do pai e incluíam The adventures of Huckleberry Finn, os romances de H. G. Wells, The Thousand and One Nights e Don Quixote, todos escritos em inglês.
 
Em 1914, com o eclodir da I Guerra Mundial, Borges foi levado pela família para Genebra, aprendendo o francês e o alemão. Em 1921 voltou para Buenos Aires, redescobriu a sua cidade natal e reconstruiu, em poemas, o seu passado e o seu presente. Publicou o primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires, em 1923. Foi autor de vários ensaios, poemas e contos, fundou três jornais literários e publicou Carriego, em 1930.

A fase que se seguiria na vida do escritor viria a ser marcada pela ficção. Escreveu a História Universal de la infamia em 1935. Para ganhar a vida, em 1938, aceitou um cargo na biblioteca de Buenos Aires. Viria a lembrar-se deste período como "de nove anos de infelicidade".

Nos oito anos seguintes publicou as suas melhores histórias fantásticas, reunidas na obra Ficções, escrita em 1944, e um volume de traduções inglesas intitulado El Aleph and other Stories.

Com a ditadura de Juan Perón, que passou a tomar conta dos destinos do país em 1946, Borges foi despedido do cargo que exercia por expressar o seu apoio aos aliados na Segunda Guerra Mundial. Com a ajuda de amigos, publicou em 1952 uma coleção de ensaios, Otras inquisiciones (1937-52). Quando Perón foi deposto, em 1955, Borges tornou-se diretor da Biblioteca Nacional e foi também professor de inglês e de literatura americana na Universidade de Buenos Aires.

Borges explorou temas metafísicos nos seus primeiros trabalhos. Em 1960 escreveu El hacedor e El libro de los seres imaginários, em 1967. Mais tarde, em 1970, escreveu El informe de Brodie, onde adotou um estilo mais realista. A obra El libro de arena, publicada em 1955, marcou o retorno aos temas fantásticos.

Depois de 1961, altura em que Borges e Samuel Beckett partilharam o prestigioso prémio Formentor, as narrativas e os poemas de Borges foram reconhecidos como clássicos da literatura mundial.(Daqui)
 
 

sábado, 30 de março de 2013

"As Causas" - Poema de Jorge Luis Borges


Biblioteca Torre de Babel, ilustración de Fernando Vicente



As Causas
 
 
 Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem. 


Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral 
 

Jorge Luis Borges, in 1982, 
photograph by Sara Facio


Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
Em 1914 sua família  mudou-se para Suíça, onde ele estudou e viajou para a Espanha. Em seu retorno à Argentina em 1921, Borges começou a publicar seus poemas e ensaios em revistas literárias surrealistas. Também trabalhou como bibliotecário e professor universitário público. Em 1955 foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina e professor de literatura na Universidade de Buenos Aires. Em 1961, destacou-se no cenário internacional quando recebeu o primeiro prémio internacional de editores, o Prémio Formentor.
Seu trabalho foi traduzido e publicado extensamente no Estados Unidos e Europa. Borges era fluente em várias línguas.
Sua obra abrange o "caos que governa o mundo e o caráter de irrealidade em toda a literatura". Seus livros mais famosos, Ficciones (1944) e O Aleph (1949), são coletâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus. Seus trabalhos têm contribuído significativamente para o género da literatura fantástica. Estudiosos notaram que a progressiva cegueira de Borges ajudou-o a criar novos símbolos literários através da imaginação, já que "os poetas, como os cegos, podem ver no escuro". Os poemas de seu último período dialogam com vultos culturais como Spinoza, Luís de Camões e Virgílio.
Sua fama internacional foi consolidada na década de 1960, ajudado pelo "boom latino-americano" e o sucesso de Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez. Para homenagear Borges, em O Nome da Rosa um romance de Umberto Eco, há o personagem Jorge de Burgos, que além da semelhança no nome é cego assim como Borges, foi ficando ao longo da vida. Além da personagem, a biblioteca que serve como plano de fundo do livro é inspirada no conto de Borges A Biblioteca de Babel (Uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo).
O escritor e ensaísta John Maxwell Coetzee disse sobre ele: "Ele, mais do que ninguém, renovou a linguagem de ficção e, assim, abriu o caminho para uma geração notável de romancistas hispano-americanos". (Daqui)


Maria Callas - "Oh Mio Babbino Caro"
- Giacomo Puccini

Maria Callas
(Nova Iorque, 2 de dezembro de 1923 — Paris, 16 de setembro de 1977) foi uma cantora lírica americana de ascendência grega, considerada a maior celebridade da Ópera no século XX e a maior soprano e cantora de todos os tempos. Apesar de também famosa pela sua vida pessoal, o seu legado mais duradouro deve-se ao impulso a um novo estilo de atuação nas produções operísticas, à raridade e distintividade de seu tipo de voz e ao resgate de óperas há muito esquecidas do bel canto, estreladas por ela. 


Giacomo Puccini


Giacomo Antonio Domenico Michele Secondo Maria Puccini ou apenas Giacomo Puccini (Lucca, 22 de dezembro de 1858 - Bruxelas, 29 de novembro de 1924) foi um compositor de óperas italiano. Suas óperas estão entre as mais interpretadas atualmente, entre essas estão La bohème, Tosca, Madama Butterfly e Turandot. Algumas das árias das suas óperas, como "O mio babbino caro" de Gianni Schicchi, "Che gelida manina" de La bohème e "Nessun dorma" de Turandot tornaram-se parte da cultura popular.
Descrito pela Encyclopædia Britannica como "um dos maiores expoentes das óperas realistas", ele é lembrado como um dos últimos maiores compositores operísticos italianos. Seu repertório é essencialmente feito pelo verismo, ou pela tradição operística pós-romântica e estilo literário. Enquanto seu trabalho é essencialmente baseado nas óperas italianas tradicionais do fim do século XIX, sua música mostra algumas influências dos compositores contemporâneos e do movimento impressionista e de Igor Stravinsky. Os temas mais comuns em suas óperas incluem um fim trágico, heroínas e o amor.