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domingo, 30 de junho de 2024

"Velha Natureza" - Soneto de Raul de Leoni


Frans Post (Pintor neerlandês, 1612–1680), Paisagem com plantação: o engenho, Brasil, c. 1660.
 
 

Velha Natureza
 

Tudo que a velha Natureza gera
Vai sempre rumo do melhor futuro;
Ela fecunda com o ânimo seguro
De quem muito medita e delibera…

O seu génio de artista mais se esmera
Na teoria subtil do claro-escuro,
Com que exalta a verdade mais austera,
Frisando em tudo o símbolo mais puro…

Só faz o Mau e o Hediondo para efeito
De projetar mais longe e sem nuance
A alma cheia de luz do que é perfeito,

Como cavou o Abismo nas entranhas,
Para dar mais relevo e mais alcance
À soberba estatura das montanhas… 


Raul de Leoni
(Poeta brasileiro, 1895
1926)



Frans Post, Paisagem de Pernambuco, Brasil, c. 1637–44, Museu Nacional de Belas Artes.
 
 
"O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos factos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais." 
 
Sir Francis Bacon (15611626), Novum Organum - Página 5, Jazzybee Verlag, 1620. 
 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"A Cachoeira de Paulo Afonso" - Poema de Castro Alves


 no curso do rio São Francisco.


A Cachoeira de Paulo Afonso


A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parceis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Aguentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai no ombro! 


Castro Alves

[O poeta baiano Castro Alves publicou o poema A Cachoeira de Paulo Afonso, parte integrante da obra Os Escravos, em 1876.]




"Depois de quatorze léguas de viagem, desde a foz do Rio S. Francisco, chega-se a esta cachoeira, de que se contam tantas grandezas fabulosas.
Para bem descrevê-la, imaginai uma colossal figura de homem sentado com os joelhos e os braços levantados, e o rio de S. Francisco caindo com toda sua força sobre as costas. Não podereis ver sem estar trepado em um dos braços, ou em qualquer parte que lhe fique ao nível ou a cavaleiro sobre a cabeça.
Parece arrebentar de debaixo dos pés, como a formosa cascata de Tivoli junto a Roma. Um mugir surdo e continuado, como os preparos para um terremoto, serve de acompanhamento à música estrondosa de variados e diversos sons, produzidos pelos choques das águas. Quer elas venham correndo velocíssimas ou saltando por cima das cristas de montanhas; quer indo em grandes massas de encontro a elas, e delas retrocedendo: caindo em borbotão nos abismos e deles se erguendo em úmida poeira, quer torcendo-se nas vascas do desespero, ou levantando-se em espumantes escarcéus; quer estourando como uma bomba; quer chegando-se aos vaivéns, e brandamente e com espandanas ou em flocos de escuma alvíssima como arminhos — é um espetáculo assombroso e admirável.
A altura da grande queda foi calculada em 362 palmos. Há 17 cachoeiras, que são verdadeiros degraus do alto trono, onde assentou-se o gigante de nome Paulo Afonso. Muitas grutas apresentam os rochedos deste lugar, sombrias, arejadas, arruadas de cristalinas areias, banhadas de frígidas linfas.
S.M, o imperador visitou esta cachoeira na manhã de 20 de outubro de 1859. O presidente, Dr. Manuel Pinto de Souza Dantas, teve a ideia de erigir um monumento à visita imperial."


Nota incorporada por Castro Alves no final do texto do poema. 
(Transcrita do Diário da Bahia

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes" - João Guimarães Rosa


 
 
“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens”.

 

Frans Post, Vista de Itamaracápintado em 1637


Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Nuvens correndo num rio" - Poema de Natália Correia


Frans Post (1612–1680), Forte Frederick Hendrik, 1640



Nuvens correndo num rio


Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar! 

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido. 

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar? 

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar? 

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe. 




Frans PostView of Pernambuco in 1649, which looks very much like the dunes of Kennemerland.


"A esperança, enganadora como é, serve contudo para nos levar ao fim da vida pelos caminhos mais agradáveis."