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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"Quando" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Quando


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 
Continuará o jardim, o céu e o mar, 
E como hoje igualmente hão de bailar 
As quatro estações à minha porta. 

Outros em Abril passarão no pomar 
Em que eu tantas vezes passei, 
Haverá longos poentes sobre o mar, 
Outros amarão as coisas que eu amei. 

Será o mesmo brilho, a mesma festa, 
Será o mesmo jardim à minha porta, 
E os cabelos doirados da floresta, 
Como se eu não estivesse morta. 




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"Dedução" - Poema de Vladimir Maiakovski


 
Ansel Adams (American landscape photographer and environmentalist, 1902–1984) 


Dedução


Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.


Vladimir Maiakovski, 1922, em Antologia Poética, 
tradução E. Carrera Guerra, ed. Max Limonad/SP.
 

Fotografia de Ansel Adams


"Tudo o que é verdadeiramente sábio é simples e claro." 

Máximo Gorki, Do Povo 



Ansel Adams, Close-up of leaves In Glacier National Park, 1942


"As palavras, meu amigo, são como as folhas de uma árvore. Para compreendermos a razão 
de uma folha ser deste modo e não de outro, é preciso saber como a árvore se desenvolve."

Máximo Gorki, Ganhando o meu pão, p. 236


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Lágrima de preta" - Poema de António Gedeão




Lágrima de preta


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado. 

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais. 

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


António Gedeão


António Gedeão


António Gedeão (1906–1997), pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a atividade de docente. Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa, teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Atividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).
Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo. A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção.
Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973). Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago de Espada.


'The Tetons and the Snake River', 1942 by Ansel Adams


"Difícil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. 
Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer." 
 

Bob Marley
[Cantor, compositor, multi-instrumentista jamaicano, 1945–1981]