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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

"Levava eu um jarrinho" - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825-1905),
The Water Girl, or Young Girl Going to the Spring, 1885,
Dahesh Museum of Art


Levava eu um jarrinho


Levava eu um jarrinho
Pra ir buscar vinho
Levava um tostão
Pra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro pro chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

s.d.

Fernando Pessoa, "Poemas para Lili".
Quadras ao Gosto Popular (Texto estabelecido e prefaciado
 por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
 Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 118-119.
 
 
 
 
Água

"Tudo é simples diante de um copo d’água."

Carlos Drummond de Andrade
, in O Avesso das Coisas (Aforismos)
 
 
Carlos Drummond de Andrade: O Avesso das Coisas
Capa: Estúdio Bogotá - Páginas: 288
Companhia das Letras, 2019
 
 
 Sinopse
 
Lançado originalmente em 1987, este volume reúne verbetes que, em ordem alfabética, elencam assuntos dos mais diversos diante do olhar aguçado de um dos nossos poetas fundamentais. Em O avesso das coisas, Carlos Drummond de Andrade compila, numa espécie de dicionário, suas próprias e idiossincráticas definições para cada palavra, convidando o leitor a "repensar suas ideias". O resultado é um conjunto de aforismos perspicaz e extremamente bem-humorado. (daqui)
 

Humorismo 

"O humorismo é a aptidão para despertar nos outros a alegria que não sentimos." 
 
Carlos Drummond de Andrade, in O Avesso das Coisas (Aforismos)
 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Anoitecer" - Poema de Florbela Espanca



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'Daisy Games'


Anoitecer


A luz desmaia num fulgor d'aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente... 
E eu, que não creio em nada, sou mais crente 
Do que em menina, um dia, o fui... outrora... 

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora 
Tenho bênçãos d'amor p'ra toda a gente! 
Como eu sou pequenina e tão dolente 
No amargo infinito desta hora! 

Horas tristes que são o meu rosário... 
Ó minha cruz de tão pesado lenho! 
Meu áspero e intérmino Calvário! 

E a esta hora tudo em mim revive: 
Saudades de saudades que não tenho... 
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive... 


Florbela Espanca
in "Livro de Sóror Saudade"
 
* * *

Obras de Vladimir Kush
Aforismos de Carlos Drummond de Andrade
 

Vladimir Kush, 'Star Target'


"O otimismo é um cheque em branco a ser preenchido pelo pessimista."


(Carlos Drummond de Andrade)


 
Vladimir Kush, 'Treasure Island'  



"O que seria do pobre vaga-lume, sem a escura noite?"

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Walnut of Eden'


"A inteligência superior vive em débito com os admiradores, que lhe exigem tudo."


(Carlos Drummond de Andrade) 



Vladimir Kush, 'Anticipation of a Night Shelter
'


"Não há felicidade que resista à continuação de tempos felizes."

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Black Horse' 


"Seria cómico, se não fosse trágico"

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Invitation to Lunch'


"É bom ler e é ótimo ter lido"


(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Keys'


"Somos humildes na esperança de um dia sermos poderosos."

(Carlos Drummond de Andrade) 



Vladimir Kush, 'Woodcutter'


"O sofrimento é repartido ao longo da vida e separado por blocos de esquecimento."

(Carlos Drummond de Andrade)


 
Vladimir Kush, 'African Sonata
'


"O verso é uma vitória sobre os limites da linguagem."


(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush,
'Gift for the Bride'


"O amor dinamita a ponte e manda o amante passar."


(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'The Voyager' 



"A vida é breve, a velhice é longa."

(Carlos Drummond de Andrade)



Vladimir Kush, 'Hardwood Software'


"O sonho é o pensamento em férias."

(Carlos Drummond de Andrade)


sábado, 30 de junho de 2012

"As iluminações" - Poema de Arthur Rimbaud


Pintura de Henri Fantin-Latour



Saldo


Vende-se o que os Judeus não venderam, 
o que nem a nobreza nem o crime provaram, 
o que o amor maldito 
e a honestidade infernal das massas ignoram; 
o que nem a ciência nem o tempo reconhecem; 
as vozes restauradas, 
o despertar fraterno 
de todas as energias corais e orquestrais 
e suas aplicações instantâneas; 
ocasião única de libertar os nossos sentidos! 

Vende-se Corpos sem preço, 
de qualquer raça, 
de qualquer mundo, 
de qualquer sexo, 
de qualquer descendência! 
Riquezas brotando a cada passo! 

Saldo de diamantes sem controlo! 

Vende-se anarquia para as massas; 
satisfação irreprimível
para amadores superiores; 
morte atroz para os fiéis e os amantes! 

Vende-se casas e migrações, 
desportos, magias e confortos perfeitos, 
e o ruído, 
o movimento e o futuro que eles fazem! 

Vende-se aplicações de cálculo 
e saltos inauditos de harmonia. 
Achados e termos sem suspeita, 
entrega imediata, 
impulso insensato e infinito 
aos esplendores invisíveis, 
às delícias insensíveis, — 
e seus segredos enlouquecedores 
para cada vício 
e uma alegria assustadora para a multidão.

Vende-se Corpos, vozes, 
a inquestionável opulência imensa, 
que nunca será vendida. 
Os vendedores têm muitos estoques
para liquidar! 
Os viajantes não precisam ter pressa
para entregar as encomendas!


Arthur Rimbaud, "As iluminações"
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça.
 
 

Henri Jean Fantin-Latour, "Roses and Nasturtiums" 



"AS ILUMINAÇÕES"


Um dos livros que marcam de maneira mais contundente a modernidade são as Iluminações, de Arthur Rimbaud. Dentre os poemas que o constituem, estão alguns que representam, de maneira paradigmática, a tempestade de desafogo e de fantasia que, segundo Hugo Friedrich, desarticulará o formalismo ainda fortemente presente na poesia do final do século XIX. Tal processo indicia uma mudança de perspectiva com relação aos modos de representação lírica da realidade, evidenciando que a linguagem não é uma simples repetição mimética do real visível.
Para isso, uma das técnicas mais utilizadas por Rimbaud, nesta obra, é a da fusão de imagens - num processo ao mesmo tempo metafórico e metonímico. O poema Marinha é um bom exemplo dela. Eis a sua tradução do original francês:


Marinha 


Carros de prata e cobre -
Proas de aço e prata -
Golpeiam a espuma, -
Erguem touceiras de sarças.
As correntes da charneca,
E os sulcos imensos do refluxo,
Correm circularmente para o leste,
Para os pilares da floresta,
Para os fustes do dique,
Cujo ângulo é batido por turbilhões de luz.


Nele o poeta provoca o estranhamento entre o título e a imagem inicial, pois em lugar de barcos o que aparece primeiro são os "Carros de prata e cobre" que, no entanto, também vão sendo novamente confundidos com a metonímia de navios, "proas de aço e prata", tornando assim o texto a união metafórica e tensiva de imagens opostas: barcos são carros. Essa fusão de imagens terrestres e marinhas do carro e do navio - pois ambos "Golpeiam a espuma" - gera então o obscurecimento da realidade visual e do sentido propostos pelo texto. Dessa maneira, sem abandonar os elementos naturais, a obra de Rimbaud estabelece, a tensão "entre mostrar e esconder o mundo visível". (Daqui)



As Flores e os Frutos de Henri Fantin-Latour
Henri Fantin-Latour, "Roses and Cherries" 


Henri Fantin-Latour, "Large Vase of Dahlias and Assorted Flowers"


Henri Fantin-Latour, "Basket of White Grapes and Peaches"


Henri Fantin-Latour, "Apples"


Henri Fantin-Latour, "Still Life with Flowers", 1881


Henri Fantin-Latour, "White Carnations"


Henri Fantin-Latour, "Basket of Flowers"


Henri Fantin-Latour, "Bowl of Roses"


Henri Fantin-Latour, "White Roses"


Henri Fantin-Latour, "Roses" 


Henri Fantin-Latour, "Spring Flowers"


Henri Fantin-Latour, "Gladiolas and roses"


Henri Fantin-Latour, "White and Pink Roses"



Friedrich Nietzsche escreveu uma coleção de aforismos sobre estética, onde deixou clara sua abordagem da Natureza. Neles, dizia: 

"Fecha teu olho corpóreo para que possas antes ver tua pintura com o olho do espírito. Então traz para a luz do dia o que viste na escuridão, para que a obra possa repercutir nos outros de fora para dentro".