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quarta-feira, 29 de julho de 2026

"Gatos noturnos" - Poema de Pablo Neruda

 


Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832
–1918),
'A Silver Tabby on a chair'. Oil on canvas, 54.6 x 43.8 cm.



Gatos noturnos


Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
nos olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.


Pablo Neruda (1904–1973),
 in 'O coração amarelo'.
Trad. de Olga Savary


sábado, 27 de março de 2021

"Auto despedida" - Poema de Olga Savary

 

William Glackens, East River Park, ca. 1902. Oil on canvas, 25 7/8 x 32 in. (65.7 x 81.3 cm)
Brooklyn Museum, USA



Auto despedida


Há algo nas manhãs que não entendo agora
e a um grito de minhas pernas não atendo.
Ainda depois da noite, noite me espia
e sonho dúvidas enormes e imóveis
como a imobilidade das aranhas.
Tão pouco tempo – e tenho de deixar-me
e queria nunca ter de repartir-me.
Começa a raiva da saudade
que inventei vou ter de mim.
William Glackens  (American, 1870-1938), The Shoppers, 1907,  óleo sobre tela, 
152,4 x 152,4 cm, Chrysler Museum of Art, Norfolk, Virginia, USA.


O veludo
Tem um perfume
Mudo.

(Haicai / Haikai) 
 
 

domingo, 21 de março de 2021

"Além de mim" - Poema de Olga Savary

 
  
Tamara de Lempicka, My Portrait (Self-Portrait in the Green Bugatti), 1925
– óleo sobre tela – 27 x 35 cm – coleção particular (Art déco)



Além de mim

 
Quero apenas
Além de mim, quero apenas
essa tranquilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
e entre mim e meu deserto
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto de meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.
 
(Belém, 21 de maio de 1933 – Teresópolis, 15 de maio de 2020)
 
 
Tamara de Lempicka, Young Lady With Gloves, 1930, óleo sobre madeira,
45,5 x 61,5 cm, Musée du Luxembourg, Paris, França 


Biografia de Tamara de Lempicka

Tamara de Lempicka
 

Reconhecida por seu estilo frio e elegante, Tamara de Lempicka ressoa na memória de muitos por ser uma das artistas mais importantes e distinguíveis do Século XX. O facto de ser uma artista mulher num ambiente dominado publicamente quase de modo exclusivo por homens tem sido outra de suas grandes conquistas. 

Sua obra abundante e colorida nos chega hoje em dia com muitos elementos fascinantes e por pertencer a uma classe social abastada e poderosa, onde o luxo e a distinção eram comuns. 


A alta sociedade soviética: a história entra em sua vida

A história de Tamara de Lempicka começa no ano 1898. Esta grande artista nasceu na cidade de Varsóvia com o nome de Maria Gorska. 

Suas origens levaram-na a pertencer a uma família poderosa com muitos contactos sociais: seu pai foi um reconhecido advogado judaico russo e sua mãe dedicava-se às atividades sociais tanto pelo gosto pessoal como por profissão. 

Durante sua infância, Tamara viveu em várias regiões da Europa devido ao trabalho de seu pai. Vale ressaltar que naquela época a Polónia fazia parte do Império Russo.
 
Desde pequena, demonstrava habilidades para desenhar e pintar, embora tivesse que permanecer dentro dos parâmetros da arte clássica e académica. 

Em 1917, com a eclosão da Revolução Russa, sua vida cómoda e luxuosa entrou em perigo por causa da perseguição dos comandos soviéticos sobre centenas de famílias aristocráticas. 

Um ano antes da Revolução, Tamara havia se casado com um importante advogado polaco, que lhe deu seu sobrenome: Tadeusz Lempicki. Ambos fugiram da Europa Ocidental para instalar-se definitivamente em Paris. 

O início de sua carreira e a distinção como um prémio duplo

Já em Paris, os Lempicka puderam manter um estilo de vida acomodado, similar ao que conheciam na Rússia. Tamara dedicou seus dias a aperfeiçoar seu talento e aos poucos foi criando as obras mais conhecidas que até hoje chegam aos nossos dias. Imersa no característico Art déco dos anos 30, sendo Paris a capital da arte europeia, destacou-se com suas obras onde as figuras femininas abundam em elegância, frieza e beleza.
Cores metálicas, automóveis e linhas marcadas completam um estilo que agregou influências do Modernismo da época. 

Quando estourou a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), Tamara de Lempicka (divorciada desde 1928 de seu primeiro marido e casada com um segundo homem, o Barão Raoul Kuffner) teve que deixar Paris e dirigiu-se com seu novo esposo a Los Angeles e depois a Nova York.
Neste contexto, inspirou-se pelas formas e as cores dos arranha-céus.
Seus trabalhos foram reconhecidos por especialistas, ganhando inúmeros prémios e medalhas, distinguindo-a num mundo dominado quase completamente por homens.

Nos últimos anos de sua vida, mudou-se para o México onde viveu até sua morte em 1980, um ano depois de seu marido. (daqui)
 
 
Tamara de Lempicka


"Para aqueles que, como eu, vivem à margem da sociedade, as regras habituais não têm qualquer valor."
 
 Tamara de Lempicka
 
[Esta frase define claramente o espírito e a postura ao longo da sua vida e obra.] (daqui)



Tamara de Lempicka, portrait photograph by Dora Kallmus
 of d’Ora Studio, Paris, 1929 


Dora Kallmus (Madame d'Ora)
(Austrian, 1881–1963)
 
Self-portrait of the photographer d’Ora, 1929 - Photography 
Madame d’Ora, Ullstein bild collection


Dora Philippine Kallmus, também conhecida como Madame D'Ora (Viena, 20 de março de 1881 – 28 de outubro de 1963), foi uma fotógrafa austríaca de moda e retratos.
 
Em 1905, ela foi a primeira mulher a ser admitida em cursos teóricos no Graphische Lehr-und Versuchsanstalt (Instituto de Treinamento Gráfico). No mesmo ano, tornou-se membro da Associação de Fotógrafos Austríacos.

Em 1907, ela criou seu próprio estúdio, com Arthur Benda, em Viena, chamado Atelier d'Ora ou Madame D'Ora-Benda. O nome foi baseado no pseudónimo "Madame d'Ora", o qual ela usava profissionalmente. 

D'ora e Benda operaram um estúdio de verão entre 1921 e 1926 em Karlsbad, Alemanha, e abriram outra galeria em Paris em 1925. Ela foi representada pela Agência Fotográfica Schostal (Agentur Schostal) e foi sua intervenção que salvou o proprietário da agência após sua prisão pelos nazistas, permitindo que ele fugisse de Paris para Viena.

Kallmus fotografou vários artistas famosos, incluindo Josephine Baker, Coco Chanel, Tamara de Lempicka, Alban Berg, Maurice Chevalier, Colette, entre outros dançarinos, atores, pintores e escritores. (daqui)

 

terça-feira, 16 de março de 2021

"Signo" - Poema de Olga Savary



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
'Young Couple', 1935


Signo


Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.

Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.


Olga Savary
 (1933–2020)

 

Emil Nolde, 'Self-Portrait', 1917

 
Emil Nolde (7 de Agosto de 1867 - 15 de Abril de 1956), de seu verdadeiro nome Emil Hansen, foi um dos mais importantes pintores expressionistas alemães.
Os seus quadros, tal como pretendia, chocavam o espectador, devido à vivacidade das cores, que contrastavam abusivamente umas com as outras, à deformação dos rostos das personagens retratadas, à distorção das perspetivas e ao excessivo uso de tinta.
A sua viagem à Nova Guiné, entre 1913 e 1914 fez com todos estes aspetos se avivassem ainda mais nas suas obras.
Sempre influenciado por pintores como Vincent van Gogh, Edvard Munch ou mesmo James Ensor, durante todo o seu percurso artístico pouco mudou de estilo.
Em 1941, os nazis, que imperavam na Alemanha, proibiram Nolde de pintar, pois consideravam que a sua pintura era mundana e imoral, podendo incitar certas revoltas. Anos mais tarde, depois com fim da Segunda Guerra Mundial e com a queda dos nazis, Emil Nolde voltou a pintar, tendo realizado um número incontável de aguarelas e pequenos óleos. (daqui)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

"Dualismo" - Soneto de Olavo Bilac


 
Peder Mørk Mønsted (Danish painter, 1859–1941), The Cloister, Taormina, 1885.
 


 Dualismo

 
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano. 

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses. 

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: 

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora.
 

Olavo Bilac, in "Poesias"
 
 
Peder Mørk Mønsted, Temple of the Sibyl at Tivoli, 1884. 
 

Dualismo:
(dualismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa)
 
1. Carácter do que comporta duas realidades ou dois elementos independentes; dualidade

2. Reunião de dois estados autónomos sob a mesma autoridade

3. Filosofia - doutrina que admite, no domínio considerado, dois elementos irredutíveis e independentes (a natureza e a graça, a matéria e a energia, a alma e o corpo, o bem e o mal, etc.)

4. Doutrina metafísica que admite, no Universo, duas substâncias ou dois mundos irredutíveis 

 
Peder Mørk Mønsted, View from Kolding Lake towards Koldinghus, 1880, oil on canvas.

 
Ar
 
É da liberdade destes ventos 
que me faço.
 
Pássaro-meu corpo 
(máquina de viver), 
bebe o mel feroz do ar 
nunca o sossego. 
 
 
 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

"Pedido" - Poema de Olga Savary


 
William McGregor Paxton (American painter and instructor, 1869–1941),
'The green dress', 1875, oil on canvas. 


Pedido
 
                                          A Manuel Bandeira 
 
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Caieiras, 25 de janeiro de 1954
 
 
 
 
William McGregor Paxton, 'The Blue Book', 1914
 
 
Dize-me, traze-me, faze-me
Carlos Rocha


William McGregor Paxton, 'The Blue Jar' or 'The Oriental Jar', 1913



Paz

Assim tão exata
sem se assemelhar a nada
sendo vária e vaga.
 
 
 
 
Olga Savary (daqui)


Olga Savary - o silêncio de uma poeta maior por Álvaro Alves de Faria (daqui)

Delicada. Principalmente delicada. Assim era a linguagem poética de Olga Savary, uma mulher em muitas mulheres. Morreu no dia 15 de maio de 2020, em Teresópolis, Rio de Janeiro, aos 86 anos, vítima da Covid-19. Nasceu em Belém, no Pará, em 21 de maio de 1933. Mais uma vez, a literatura brasileira perde uma de suas vozes mais importantes. Especialmente em uma terra em que a poesia se transformou em quase nada nas mãos de muitos aventureiros. A poesia brasileira sente-se mais só. Costumava dizer que “no Brasil o poeta morre de fome. Mas sou apaixonada por um malandro chamado Literatura. Não posso viver sem ele”. 

A vida não foi fácil, especialmente agora, no final, nos últimos anos. Arrastava problemas financeiros, descuidou-se de si mesma, sua aparência era outra, não daquela bela mulher da juventude e mesmo já idosa, mas com seus traços de beleza perfeitos. Descuidou-se da vida e se deixou levar como fosse possível. Guardou muitos segredos, que contava só para os amigos íntimos. Trabalhou muito em favor da poesia, especialmente elaborando antologias de poetas brasileiros e os que traduziu. Uma mulher em muitas mulheres, com afazeres literários de toda ordem: poeta, escritora, contista, romancista, crítica de arte, tradutora e jornalista. E trabalhou nisso tudo até o fim da vida, mesmo enfrentando dificuldades difíceis de ultrapassar. A Convid-19 atingiu uma mulher já bastante frágil, física e psicologicamente. 

Olga Savary não gostava de ser chamada de “poetisa”. Não. Queria e exigia ser chamada de “poeta”. Era uma poeta e ponto final. Além de seus livros, traduziu mais de 40 obras de autores como Oscar Wilde, Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, Carlos Fuentes, Federico Garcia Lorca, Pablo Neruda, Ernesto Che Guevara, Omar Cabezas, Arturo Arias, Ronán Cano, Laura Esquível, Victor Álamo de la Rosa, Octávio Paz, Jorge Semprún, Mário Vargas Lllosa e vários outros. Some-se a isso seu intenso trabalho em traduzir os grandes mestres japoneses do haiku, como Bashô, Busun e Issa. 

Publicou muito, especialmente poesia e contos, livros como Espelho Provisório, Sumidouro, Altaonda, Magma, Éden Hades, Linha-d´água, O olhar dourado do abismo e muitos outros. Foi a primeira poeta brasileira a dedicar-se à poesia erótica e também a se dedicar ao haicai. Escreveu um livro inteiro de poemas eróticos, Magma, que lançou em 1982. Orgulhava-se em ser chamada de a musa de Carlos Drummond de Andrade. Mas esse é um dos segredos só para os amigos íntimos. 

Quando conheceu Drummond, Olga Savary era conhecida como a Mona Lisa de Copacabana. Tinha pouco mais de 20 anos de idade. Esbanjando beleza, desfilava sua figura pelas ruas e praias, sempre enaltecida por quem a cercava. Nos segredos envolvendo a figura de Drummond, o poeta não queria que se falasse em “amizade amorosa”. Não. Drummond exigia que se dissesse que se tratava de amor. Amor mesmo. De verdade. Certa vez Olga disse a Drummond que gostaria de pegá-lo no colo e mimá-lo como uma mãe. Mas o poeta não gostava dessas histórias. Preferia somente o amor, sem deslumbramentos. Drummond escreveu muitos poemas para Olga. E Olga prometeu que nunca os publicaria. E assim o fez. Os poemas estão guardados ninguém sabe onde. “Drummond é meu poeta do coração”, dizia sempre.

 Tinha a poesia de Drummond como seu livro de cabeceira. No entanto, o poeta que ela mais gostava de ler — e lia sempre — era T.S.Eliot. Para conceder uma entrevista, antes Olga procurava saber quem era o jornalista que ia entrevistá-la. Dizia, então, não suportar jornalista que escreve “pra” em vez de “para”. Foi casada com o cartunista Jaguar, do jornal “O Pasquim”, no regime militar, que ela ajudou a criar. Teve com ele dois filhos, Pedro e Flávia, que também é poeta. Um dos momentos mais terríveis que viveu na vida, foi quando seu filho morreu. Vítima das drogas. 

Dizia-se triste por ter descoberto a sexualidade tardiamente. Não se conformava. Dizia isso aos amigos íntimos. O poeta Ferreira Gullar comentou certa vez que essa descoberta tardia da sexualidade, exatamente isso, é que fez de Olga a grande poeta que ela é, capaz de falar do sexo com uma “cautela de veludo”. Olga afirmava que Clarice Lispector foi e é o maior escritor brasileiro, assim no masculino, porque — como observava — “Clarice é maior entre homens e mulheres”. Não aceitava essa conversa de que homem escreve melhor que mulher. Trata-se de uma afirmação sem cabimento. Diante de conversas assim mostrava-se desapontada. 

Seu livro erótico estava em sua cabeça havia muitos anos. Os poemas foram sendo elaborados no pensamento. Até que um dia resolveu passar um final de semana na Casa do Sol, onde vivia Hilda Hilst, em Campinas, interior de São Paulo. Foi visitar Hilda para ficar dois dias, mas ficou um mês. E enquanto Hilda se dedicava a gravar a voz dos mortos no seu sítio, Olga foi escrevendo e assim nasceu Magma, livro bastante discutido, publicado em 1982. 

Entre as longas entrevistas que fiz com Olga Savary, uma foi especial, para meu livro Palavra de Mulher, no qual reuni 20 das principais escritoras e poetas do Brasil. Escolhendo algumas frases, resumidamente ela me disse:

- Muita gente pergunta como cheguei até aqui e como consegui tanto, com um currículo que vai da letra A até a Z. Respondo que com muito emprenho, total dedicação, com a vida voltada só ao trabalho árduo, mas feito com prazer. Paixão mais compaixão, assim se cria.

- O ser humano não pode suportar tanta realidade. Precisamos todos de verdade e de beleza que a criação da arte nos dá. Se não for assim, nunca será possível ser feliz.

- O poeta é prestigiado e, ao mesmo tempo, não é remunerado à altura, como se vivesse de brisa.

- A palavra custa. Tudo tem um custo. Especialmente quando a palavra vai revelar universos íntimos, segredos, desassossegos, angústias.

- Como o amor, a poesia não é para amadores.

- Minha poesia sempre me alimentou, desde a mais tenra infância, e me alçou dos mais profundos sofrimentos da vida. Sem a poesia eu poderia ter enlouquecido de dor. À minha poesia certamente eu poderei chamar de todas as coisas boas, até mesmo de Deus.

- Deus sempre foi o mais adorável companheiro. Sempre presente, conversando comigo. Jamais me faltou. Não um deus externo, fora de mim, vingador e punitivo, mas um Deus internalizado, dentro de cada um de nós, amoroso e criativo. Assim, Deus é poesia, a própria criação. Não é um amontoado de bens terrenos cultuados por grande parte das pessoas.

- Creio que só a espiritualidade responsável tenha força de mudar e melhorar alguma coisa no mundo e nas pessoas. A poesia está imbuída nessa intenção. É um processo lento, porém eficaz, como um pequeno tijolo a construir uma torre em direção ao alto. É pouco, mas é muito também, uma vez que evoluímos devagar. Com toda a tecnologia, ainda estamos vivendo nas cavernas. Tudo deveria ser realizado com essa intenção de verticalidade indispensável. A meu ver, o homem não aproveita a lado bom do bicho, mas sim da fera. Daí o desequilíbrio, a falta de harmonia consigo mesmo, com seus semelhantes, com a natureza. A poesia restaura esse desequilíbrio perdido.

- O escritor começa só, cria em completa solidão. Todo poeta é “voyeur” e fingidor, mas sem mentir jamais. O escritor é imprescindível. O artista, em geral, é fundamental: não mata por dinheiro e faz o Brasil pensar em si mesmo. É assim que o Brasil se aprende. Não gosto muito de falar. O país está atolado em palavras. E não adianta nada. Fala-se demais no Brasil. Escrever é mais verdadeiro.

- Minha relação com a escrita, com a palavra, é uma relação apaixonada, de tesão, sensual, eu diria até carnal, uma relação sexual, em que há atração e rejeição, orgasmo e tudo o mais. Não há nada melhor do que fazer amor com o próprio trabalho. Nem melhor investimento. Acho que às vezes a gente escreve com raiva, revolta, indignação. Há tanto para consertar o mundo. E é aí que penso servir a literatura para uma melhoria espiritual do homem.

Esse era seu mundo, em palavras exatas. Dizia não ter medo da morte: “A morte para mim é um grande orgasmo”. E vivia seguindo sempre para algum lugar. Não tinha computador. Telefone, só atendia de madrugada. E as conversas atravessavam horas. Falava sem parar, emendando frases, criando situações, lembrando coisas. Nos primeiros livros, praticamente todos os poemas eram dedicados a Carlos Drummond de Andrade, caso de “Espelho provisório”, de 1970. Vejam este poema de janeiro 1969, “O menino, um dia, no retrato”, dedicado a Drummond:

Vou te descobrindo — ou redescobrindo –
atrás da fechada janela
na remota cidade que desconheço
(ou reconheço?) através da seta
de teu olho — bicho fugido, sigilo
de um silêncio húmido –
como vejo vagas formas que se movem
no escuro no interior da casa
que ficou guardada
sem uso, na memória)
e desse jogo obscuro e perigoso
de que fugimos mas retemos fórmulas
e de que tudo foi guardado do outro lado
das coisas que jamais podem ser ditas,
restou como tocável permanência
o menino, um dia, no retrato.

Os poemas dedicados a Carlos Drummond de Andrade são muitos, mas nem todos foram publicados. Há muitos outros que guardou, uma espécie de relíquia que só a ela pertencia. Só os considerados amigos íntimos leram. Entre os que foram publicados, há também este escrito em setembro de 1955, “Cantilena em setembro”:

E embora eu não quisesse
essa vontade estranha me anulou,
me fez somente desejo de sair
contigo pelo ar (na distância
uma cidade de pedra nos chamava)
te castigar de toda memória,
fugir com toda a memória que trouxesses
e nela te guardar como coisa secreta
nunca revelada.
E de roer pacientemente
como fera verde de teu passado
sem outro medo que o prolongamento
dessa impossível febre que me perturbara,
e por isso mesmo
depois de devastado embalar
teu sono de criança numa ilha
que a gente imagina e desenha-se no ar
ou nas ondas, e saber ficar
tão de manso como a flor pisada
ou passarinho morto à pedrada
na beira do caminho.

Vamos a mais um poema escrito para Carlos Drumnond de Andrade, publicado no seu primeiro livro, com palavras de despojamento. Chama-se “Abstrata”:

Há horas não sou — e me pressinto
no que não sou e me visito
no relógio, no vazio do tempo
onde, irmãos na solidão,
a confidência teceu um elo
invisível e nos unir.
E me pergunto se me começo a ver no escuro
Que não o desta casa mas de outra
- geografia vedada a um mesmo uso.
E penso que serei agora:
passeio de quartos a casa que não sei,
fantasma.

Olga Savary queixava-se muito dos rumos incertos da poesia brasileira, cada vez mais machucada por aventureiros que nada sabem de poesia, mas que têm promoção garantida fazendo aumentar no Brasil uma inversão de valores impossível de aceitar. O primeiro livro foi prefaciado por Ferreira Gullar, com palavras que valem até hoje:

- Olga Savary nos parece dizer que a multiplicidade dos fenómenos e das vozes mais encobre que revela a essência real da vida. Por isso mesmo, ela está sempre nos chamando para o silêncio, a quietude, para as coisas que dormem esquecidas ou abandonadas, para o que está aparentemente à margem do mundo. Ela busca, ali, aquela integridade, aquela unidade, que daria sentido à existência. Mas onde encontrá-la realmente, “se nada termina tudo se renova?” É uma angústia que a dilacera “como uma garra/ que fecha e abre dentro da fechada carne”. É quase o desespero.

No livro Repertório Selvagem, obra reunida em 1998, publicado pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Olga Savary faz um depoimento sobre sua vida. A obra festejava 50 anos de sua produção poética e sua carreira na poesia brasileira. Olga Savary fala de sua poesia, o que de melhor existe no Brasil, poemas elaborados com o cuidado de um monge, palavras corretas no lugar certo, no verso exato. Uma poesia que deixa marcas, que sabe o que deseja, por onde caminha e até onde pode chegar, com aquela palavra delicada que a acompanhou a vida inteira. Ela escreveu:

- “O colega Fernando Pessoa, geminiano como eu, portanto múltiplo, tem razão: tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Acrescento: tudo vale a pena quando feito com paixão, seriedade, profissionalismo, amor à vida e ao próximo. E dignidade. Que, junto à alegria, são minhas palavras-chave. Vale dizer: a literatura em primeiro lugar. Sempre foi assim em toda minha vida. E assim será sempre”.


Álvaro Alves de Faria
(Jornalista, poeta e escritor — São Paulo, Brasil)

  

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

"O indeciso" - Poema de José Jorge Letria



Jules Salles-Wagner (French painter, 1814–1900), 'La maison des cartes'



O indeciso


Eu cá quero ser tudo
futebolista e arquiteto
ator de cinema mudo
é preciso é que dê certo.

No fundo o que eu quero
é ser grande e bem depressa
porque isto de crescer
não pode ser só conversa.

Quero ser grande em altura
sem ter projeto nenhum
e quem sabe se hei de ser
piloto de Fórmula Um?

Também quero ser marinheiro,
alpinista e domador
herói de banda desenhada
pirata e aviador.

Quero ser de tudo um pouco
pois tenho imaginação
para acreditar que acordo
com o mundo na palma da mão.

No fundo, quando eu for grande
sem que isso seja um insulto
o que eu acho que vou ser
afinal é mesmo adulto.


José Jorge Letria
,
em "O que eu quero ser"


[Em versos musicais e criativos, José Jorge Letria homenageia neste livro "O que eu quero ser" um conjunto de profissões que muitas crianças têm no seu horizonte. É um livro que dá aos leitores mais pequenos um mundo de ofícios que querem conhecer.
Veterinário, músico, ator, bibliotecário, poeta… são aqui apresentados com a imaginação, sensibilidade e mestria que tão bem caraterizam a obra infantil de José Jorge Letria.
"O que eu quero ser…" foi escrito para os mais novos, mas também para os pais e educadores que partilham com as crianças todos os sonhos e histórias reais que cabem na vida.]
 


Ralph Hedley (British painter, 1851–1913), 'John Irwin practicing
stilt walking by Newcastle Keep',
1883


Pedro
 
 Voa nuvem Pedro
— pássaro em seu sono. 
 
(1962)
 
Pedro (Olga Savary) Voa nuvem Pedro — pássaro em seu sono.clique aqui
Pedro (Olga Savary) Voa nuvem Pedro — pássaro em seu sono.clique aqui
 
 

Ralph Hedley, 'A Good Read', 1887



"Geralmente erra mais quem decide cedo do que quem decide tarde; mas, depois de tomada a decisão, 
é necessário recuperar o atraso da sua execução."
 
Francesco Guicciardini, em 'Ricordi'

Amigo e crítico de Niccolò Machiavelli , é considerado um dos maiores escritores políticos do Renascimento italiano . Em sua obra-prima, A História da Itália , Guicciardini abriu o caminho para um novo estilo de historiografia com o uso de fontes governamentais para apoiar argumentos e análises realistas das pessoas e eventos de seu tempo. Francesco Guicciardini - https://pt.qaz.wiki/wiki/Francesco_GuicciardFrancesco Guicciardini (1483-1540) foi um historiador, advogado e diplomata italiano nascido em Firenze, que participou das complexas negociações diplomáticas e dos frequentes confrontos armados de sua época e os relatou em suas obras de história. Amigo e crítico de Nicolau Maquiavel é considerado um dos maiores escritores políticos do Renascimento italiano.
De família aristocrática, filho de Piero di Jacopo Guicciardini e Simona Gianfigliazzi, estudou direito em Ferrara, Pádua e Florença e posteriormente dedicou-se ao exercício da advocacia. Foi governador de Modena (1516) e Reggio (1517) e nomeado (1521) comissário geral do exército do papa Leão X, passou a escrever mais intensamente. Publicou Dialogo del reggimento di Firenze (1521-1525). 
 
Com a ascensão (1523) do papa Clemente VII, foi nomeado presidente da província da Romagna. Transformado em conselheiro papal, participou da formação da liga de Cognac (1526), aliança com a França contra Carlos V. Era conselheiro de Alessandro de Medici quando um levante derrubou o governo dos Medici (1527) e ele foi considerado como rebelde, porém continuou a atuar como conselheiro, na tentativa de amenizar a sorte dos florentinos. 
 
Publicou Considerazioni intorno ai "Discorsi" del Machiavelli (1530) e foi nomeado governador de Bolonha (1531). Com a ascensão (1534) do papa Paulo III, voltou a Florença como conselheiro legal do duque Alessandro Medici (1510-1537), filho ilegítimo do papa Clemente VII.
 
Após o assassinato do duque por um primo deste, resolveu recolher-se a suas propriedades, onde dedicou-se à redação de sua obra principal, a Storia d'Itália 1494-1536 (1561-1564), um relato das guerras italianas e o mais importante estudo sobre a própria história da Itália, desse curto espaço de tempo. Morreu em Santa Marguerita a Montici, perto de Firenze. (daqui)

Francesco Guicciardini ( italiano: [franˈtʃesko ɡwittʃarˈdiːni] ; 6 de março de 1483 - 22 de maio de 1540) foi um historiador e estadista italiano . Amigo e crítico de Niccolò Machiavelli , é considerado um dos maiores escritores políticos do Renascimento italiano . Em sua obra-prima, A História da Itália , Guicciardini abriu o caminho para um novo estilo de historiografia com o uso de fontes governamentais para apoiar argumentos e análises realistas das pessoas e eventos de seu tempo. Francesco Guicciardini - https://pt.qaz.wiki/wiki/Francesco_Guicciardini
Francesco Guicciardini ( italiano: [franˈtʃesko ɡwittʃarˈdiːni] ; 6 de março de 1483 - 22 de maio de 1540) foi um historiador e estadista italiano . Amigo e crítico de Niccolò Machiavelli , é considerado um dos maiores escritores políticos do Renascimento italiano . Em sua obra-prima, A História da Itália , Guicciardini abriu o caminho para um novo estilo de historiografia com o uso de fontes governamentais para apoiar argumentos e análises realistas das pessoas e eventos de seu tempo. Francesco Guicciardini - https://pt.qaz.wiki/wiki/Francesco_Guicciardini
Francesco Guicciardini ( italiano: [franˈtʃesko ɡwittʃarˈdiːni] ; 6 de março de 1483 - 22 de maio de 1540) foi um historiador e estadista italiano . Amigo e crítico de Niccolò Machiavelli , é considerado um dos maiores escritores políticos do Renascimento italiano . Em sua obra-prima, A História da Itália , Guicciardini abriu o caminho para um novo estilo de historiografia com o uso de fontes governamentais para apoiar argumentos e análises realistas das pessoas e eventos de seu tempo. Francesco Guicciardini - https://pt.qaz.wiki/wiki/Francesco_Guicciardini