Mostrar mensagens com a etiqueta Emil Nolde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emil Nolde. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de março de 2021

"Poética" - Poema de Manuel Bandeira



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
'At the Café', 1911


Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira,
in 'Libertinagem', 1930
 
'Poética' é um poema de Manuel Bandeira lido na Semana de Arte Moderna de 1922, que expõe os princípios estéticos básicos que impulsionaram a primeira revolta pela liberdade formal da poesia do modernismo brasileiro, juntamente com 'Os Sapos'. (daqui)



Emil Nolde, 'Excited People', 1913


Probleminhas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?

 
 (Haicai / Haikai)
 
 

Emil Nolde, 'Autumn Sea VII', 1910


Eis o meu mal
A vida para mim
Já não é vital.


Millôr Fernandes
 (Haicai / Haikai)
 

terça-feira, 16 de março de 2021

"Signo" - Poema de Olga Savary



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
'Young Couple', 1935


Signo


Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.

Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.


Olga Savary
 (19332020)

 

Emil Nolde, 'Self-Portrait', 1917

 
Emil Nolde (7 de Agosto de 1867 - 15 de Abril de 1956), de seu verdadeiro nome Emil Hansen, foi um dos mais importantes pintores expressionistas alemães.
Os seus quadros, tal como pretendia, chocavam o espectador, devido à vivacidade das cores, que contrastavam abusivamente umas com as outras, à deformação dos rostos das personagens retratadas, à distorção das perspetivas e ao excessivo uso de tinta.
A sua viagem à Nova Guiné, entre 1913 e 1914 fez com todos estes aspetos se avivassem ainda mais nas suas obras.
Sempre influenciado por pintores como Vincent van Gogh, Edvard Munch ou mesmo James Ensor, durante todo o seu percurso artístico pouco mudou de estilo.
Em 1941, os nazis, que imperavam na Alemanha, proibiram Nolde de pintar, pois consideravam que a sua pintura era mundana e imoral, podendo incitar certas revoltas. Anos mais tarde, depois com fim da Segunda Guerra Mundial e com a queda dos nazis, Emil Nolde voltou a pintar, tendo realizado um número incontável de aguarelas e pequenos óleos. (daqui)

domingo, 24 de junho de 2018

"Consolo na praia" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956), 
'Meer Bei Alsen' ('Sea Off Alsen'), 1910


Consolo na praia


Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-se – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho. 


Carlos Drummond de Andrade
in 'A rosa do povo', 1945



Emil Nolde, 'Sunrise at the sea', 1927


"Nenhuma ilusão é mais corriqueira do que aquela que a nostalgia nos inspira na velhice."

(Philip Roth)

domingo, 12 de novembro de 2017

"Colhe o dia, porque és ele" - Poema de Ricardo Reis



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
'Summer Afternoon', 1903


Colhe o dia, porque és ele


Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

28-8-1933

Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 154.


Emil Nolde, 'Sommerwolken' ('Summer clouds'), 1913, óleo sobre lienzo, 
73 x 88 cm, Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul."
 
Clarice Lispector (1920–1977)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Inscrição para um portão de cemitério" - Poema de Mário Quintana



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
 'Irises and poppies' 


Inscrição para um portão de cemitério


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!" 
 

Mário Quintana (1906–1994),
in 'A Cor do Invisível'



Emil Nolde, 'Blumengarten', 1908


Dos mundos


Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.


Mário Quintana,
 in 'Espelho Mágico'
 

 
Emil Nolde, 'Large poppies', 1942


Os degraus


Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...


Mário Quintana,  
in 'Baú de Espantos'
 


Emil Nolde, 'Flower garden' (Marigolds), 1919


Da discrição


Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...


Mário Quintana,  
in 'Espelho Mágico'
 


Emil Nolde, 'Sunflowers' 


Das utopias


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


Mário Quintana,  
in 'Espelho Mágico'



Emil Nolde, 'Sunflowers', 1917