Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Caeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Caeiro. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

"A dois passos" - Poema de Rui Caeiro



Thomas Pollock Anshutz
(American painter and teacher, 1851-1912), 
A Rose (Rebecca H. Whelen), 1907, Metropolitan Museum of Art 
 
 

A dois passos


Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso – esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno – estava-se bem.


Rui Caeiro
, “Do inferno – cinco aproximações” 
in Telhados de Vidro n.º 12, Lisboa, Averno, maio 2009
 
["A dois passos", de Rui Caeiro, por Carla Andrino (ouvir aqui)
 
 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

"As quatro estações" - Poema de Rui Caeiro


Nicolas Poussin (1594–1665), The Autumn (The Bunch of Grapes Taken from the Promised Land)
L’Automne (La Grappe de raisin rapportée de la Terre promise), 1660-64
 

 
As quatro estações


Vem o Inverno com o seu carrinho do frio
a apertar nas curvas; a Primavera e os seus
paroxismos que não duram muito; o Verão
e os seus langores de ainda menos; e por fim,
mas também pode ser no meio ou no princípio,
lá vens tu, que não falhas nunca, melancólico
e misericordioso Outono, a estenderes-me a taça
de vinho puro que eu bebo lenta e gravemente
com aquela lentidão, aquela gravidade característica
dos que não têm religião nenhuma, ou têm apenas essa. 
 
 
in "Este é o Meu Sangue", pág.20, 
Tea For One, 2012

["Este é o meu sangue" (antologia de poemas inéditos sobre o vinho), em que participam Abel Neves, A. Maria de Jesus, Clara Caldeira, Inês Dias, Jaime Rocha, John Frey, Levi Condinho, Luís Pedroso, Manuel da Silva Ramos, Manuel de Freitas, Marta Chaves, Ricardo Álvaro, Rui Azevedo Ribeiro, Rui Caeiro e Vasco Gato. A edição é da Tea For One e o grafismo da Inês Mateus.]

 
 Poussin, The Winter (The Flood) / L’Hiver ou Le Déluge, 1660-1664
 
 
 Poussin, The Spring (The Garden of Eden) / Le Printemps (Le Paradis Terrestre), 1660-1664
 

Poussin, The Summer (Ruth and Boaz) / L’été (Ruth et Boaz), 1660-1664


"O que a natureza nos dá nunca é obsoleto. Porque o que a natureza cria contém eternidade."
(Nobel de Literatura, 1978)
 
 
Isaac Bashevis Singer 
 
 Escritor norte-americano de etnia judaica, Icek-Hersz Zynger nasceu a 14 de julho de 1904, em Leoncin, na Polónia, e faleceu a 24 de julho de 1991. Filho de um rabino, acompanhou a família na sua mudança para Varsóvia, quando contava apenas quatro anos de idade. O pai mantinha a esperança de que Isaac se viesse também a tornar um rabino, pelo que o educou nos preceitos tradicionais judaicos, dando-lhe a ler a lei talmúdica e textos aramaicos.
No ano de 1920 ingressou no Seminário Rabínico Tachkemoni, mas logo abandonou os seus estudos, mudando-se para uma aldeia típica judaica, Bilgorai, onde ganhou o seu sustento dando aulas de Hebraico. Ao fim de três anos regressou a Varsóvia, para junto do irmão, um escritor que o encorajou e lhe deu emprego como revisor de provas no Literarische Bleter, onde era editor. Singer começou então a fazer traduções, versando para o Iídiche autores como Thomas Mann, Knut Hamsun e Erich Maria Remarque.
O seu romance de estreia, Der Sotn In Goray, foi publicado pela primeira vez na Polónia em 1932. Utilizando um estilo que remontava ao das crónicas judaicas medievais, foi escrito originalmente em Iídiche, e contava a história da vinda de um falso messias no século XVII.
Em 1933 passou a trabalhar como editor-associado da publicação Globus e, em 1935, tornou-se correspondente estrangeiro de um jornal diário. Nesse mesmo ano separou-se da família e decidiu emigrar para os Estados Unidos da América, fixando-se em Nova Iorque. Deu início a uma colaboração com o jornal Forverts, impresso nos Estados Unidos em idioma Iídiche. Adotou a cidadania norte-americana em 1947.
Em 1950 publicou Die Familje Moshkat, o seu primeiro romance a ser traduzido para o Inglês. A obra fazia parte de uma trilogia que descrevia a saga de uma família judaica, continuada com os dois volumes Der Hoyf In Forverts (1952-55), versados para a língua inglesa com os títulos The Manor (1967) e The Estate (1969).
Der Kunstnmakher Fun Lublin apareceu em 1960, a que se seguiram, entre outras obras de sucesso, Der Knecht (1962) e Shosha (1978), ainda em Iídiche e, em tradução, When Schliemmel Went To Warsaw and Other Stories (1968), escrito para um público infantil, Enemies, A Love Story (1972, Inimigos, Uma História de Amor) e The Penitent (1983).
Em 1964 foi eleito membro do Instituto Nacional das Artes e Letras norte-americano, tornando-se no único a escrever numa língua estrangeira e, em 1978, foi honrado com o Prémio Nobel da Literatura.
(daqui)
 

terça-feira, 28 de abril de 2015

"Quando a manhã se insinua" - Poema de Rui Caeiro



Steven Kenny (American surrealist artist, born 1962), 
'The Lovers', 1997, oil on panel, 14.5 x 14.5 inches. 


Quando a manhã se insinua



Quando a manhã se insinua
e os corpos, obstinados, não querem
e não deixam e mais e mais
se escondem dentro da cama até
ao sufoco bom do fim da noite...

Coisas que só sabemos de ouvir dizer
manhãs assim não o conheceremos nunca
já que temos o amor, o desejo e mais
nada, temos pouco tempo e mais nada
e depois disso ainda a fome
que sempre nos sobra ou sobrevém.

Quanto ao mais - dormir, acordar
juntos, passear à beira-mar, envelhecer
juntos como faz toda a gente
- ora esquece mas é. 


Rui Caeiro
,
in 'O Quarto Azul e Outros Poemas',
edição Letra Livre, 2011.

domingo, 19 de abril de 2015

"Há um tempo para estar só" - Poema de Rui Caeiro


Sculpture by Michael ParkesAngel of August, 2011



Há um tempo para estar só


Há um tempo para estar só
há um tempo para estar nu
há um tempo que falta para ser
o bastante uma coisa e outra
há um ponto em direção ao tu

que é necessário atravessar e que
é necessário, coragem, minar
e há um ponto sem chão
nem ponte em que só é preciso
abrir os braços e voar.

"O Quarto Azul e Outros Poemas"

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Pois morre-se de muita coisa" - Poema de Rui Caeiro


Sculpture by Michael Parkes, "Night Flight"



Morre-se 

 
Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito
 
do livro 'Sobre a nossa morte bem muito obrigado', 
 editor: & Etc


Rui Caeiro


Rui Caeiro é um poeta português, nascido em Vila Viçosa, no dia 27 de junho de 1943.  Estreou com o volume Deus, sobre o magno problema da existência de Deus (1988), e ainda publicou, entre outros, Sobre a nossa morte bem muito obrigado & etc (1989), Livro de Afectos (1992) e O Quarto Azul e outros poemas (2011). Traduziu obras de Rainer Maria Rilke, Robert Desnos, Nâzim Hikmet, Ramón Gómez de la Serna, Roger Martin du Gard, entre outros. (Daqui)