Quatro vezes sete versos para aquela rapariga
Enquanto não vens nem tu sabes é assim
uma casa que só cheirasse a uvas de setembro
Este quarto esta sala onde o som contínuo é Out of
Nowhere soprado pelo Charlie Parker
Há calma com vento que vem quente enquanto não vens
e podes ter a certeza que o soalho vai ter aroma de estações
A que menos entenderes para melhor a desejares
Entretenho-me com uma breve meditação
sobre o perfil de um velho índio apsaroke
e tenho-te rapariga na visão do vale dos bisontes
onde esperas o bafo morno do fim da tarde
ajeitando o lenço na cabeça e sorrindo
entre o voo de alguns insetos
e a recordação destes dedos que te escrevem
Não me leves a mal se te falo de coisas tão domésticas
mas neste falar assim é que as plantas destes vasos
crescem para o teto e é lá que está o éden delas
ainda que o vá sendo sempre o ar e
a luz que tomam
cada dia perto muito perto das menores palavras
com que te aviso do paraíso tão à mão
Hoje sinto-me lesma será isto lucidez?
e não tenho sexo nem para as horas
nem lei para esta coisa suave
que é dançar na metafísica como astronauta para lá da gravidade
Cá vou indo menina cá vou indo
e não me peças versos que os não dou
[Ator, poeta e autor dramático, Abel Neves (n. 1956) pertence desde 1979 ao coletivo da "comuna", grupo para o qual escreveu os textos Amadis e Touro. Para Carlos Porto (cf. contracapa de Anákis, Lisboa, 1986), é "na palavra, na plena, quase obsessiva presença da palavra que o seu discurso teatral se transforma em corpo e vida, hesitante ainda como uma forma que se procura".] (daqui)

Alice Holcomb (American artist, 1906–1977), "Self-Portrait", n.d.
"A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência."
