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domingo, 6 de setembro de 2015

"A Tempo" - Poema de Vitorino Nemésio


August Strindberg (Swedish, 1849-1912), The Birch Tree (Autumn), 1902



A Tempo

 
A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno,
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei. 

in 'O Verbo e a Morte


August Strindberg, The Town, 1903 


Johan August Strindberg (Estocolmo, 22 de janeiro de 1849 — Estocolmo, 14 de maio de 1912) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta, contista e pintor sueco.
É autor, entre outros, de O Pelicano. Figura ao lado de Henrik IbsenSøren Kierkegaard e Hans Christian Andersen como os maiores escritores escandinavos. É um dos pais do teatro moderno. Seus trabalhos são classificados como pertencentes aos movimentos literários naturalista e expressionista.


Retrato de August Strindberg, 1892, por Edvard Munch,

domingo, 30 de outubro de 2011

"Missa de Aniversário" - Poema de Ruy Belo



August Strindberg (Swedish playwright, novelist, poet, essayist, and painter, 1849–1912),
 'Beach Party', 1873
 

Missa de Aniversário


Há um ano que os teus gestos andam
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haverá mais singular fim de semana
do que um sábado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levarão atrás
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez florido?

Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da infância
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós donde anualmente
te havemos piedosamente de desenterrar
Até à morte da morte


Ruy Belo, in “Aquele Grande Rio Eufrates” 
 


August Strindberg, 'White Mare IV', 1901


"Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?" 

Confúcio
[Pensador, professor e filósofo chinês, 551 a.C. – 479 a.C.]


sábado, 22 de outubro de 2011

"Balada de Sempre" - Poema de Fernando Namora


 
August Strindberg (Swedish playwright, novelist, poet, essayist and painter, 1849–1912),  
 Sunset, 1892 
 


Balada de Sempre


Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


Fernando Namora, in 'Relevos'


Música de Igor Krutoy


"O sorriso que ofereceres, a ti voltará outra vez." 


domingo, 2 de outubro de 2011

«Orfeu» ou a poesia como realidade - Texto de Eduardo Lourenço


August Strindberg, The white horse, 1892



«Orfeu» ou a poesia como realidade 


"Para a maioria dos homens o convívio com a poesia é a forma mais simples de ter ao alcance das mãos um mundo cómodo, mais tranquilo do que o mundo de todos ao dias, ou então de se alienarem num universo brilhante e mágico equivalente ao sonho e ao desejo.
Pérola de imagens segregada pelo entusiasmo, o terror ou a esperança, a poesia oferece a cada homem o céu e o inferno portáteis de que precisam para iludir a necessidade de buscar no inferno real, o céu possível".


Eduardo Lourenço, in “Tempo e Poesia”
Lisboa (2003:p39)


August Strindberg, The wonderland, 1894 
 
 
"Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões? Porque é que um homem não devia chorar?"